29 de janeiro de 2017

Fanfic: Recomeço


Sinopse:
Uma experiência ruim é capaz de marcar para sempre a vida de uma pessoa. 
Augusto Grayson-Lewis é um adolescente que tinha toda a sua vida planejada e um futuro brilhante pela frente, até que um acontecimento o transformou, fazendo-o abandonar os seus sonhos e isolar-se do mundo.
 Dois anos depois, ele conhece Jennifer Thompson, uma ruiva que parece enxergar mais dele do que ele está disposto a mostrar.
 Será ele capaz de superar o passado para ficar com ela? Será ela capaz de ultrapassar as barreiras que o oprimem e fazê-lo voltar a ser feliz?

Categorias: romance, amizade, trauma, história original
Autora: Patrícia Fialho
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PRÓLOGO


Eu sempre adorei a água, desde muito pequeno vivia na praia, fosse nadando, tomando sol, correndo ou fazendo castelos de areia. Passava tanto tempo na praia em frente à minha casa quanto as minhas obrigações me permitiam.
Eu tinha até um bronzeado permanente e as meninas o adoravam, não que eu tirasse muito proveito dele, visto que sempre fui um garoto tímido, mas eu ficava feliz em ter a atenção delas.
Um dia eu estava saindo do treino e voltando para casa, como sempre fui caminhando pela areia, eu gostava de tirar o tênis e sentir a aspereza dela sob os meus pés, só a deixava e caminhava em direção à calçada quando já estava na frente de casa, onde eu parava para esperar a hora certa de atravessar a rua, porém, nesse dia algo diferente aconteceu, eu ouvi um barulho de freios enquanto esperava o semáforo fechar, tudo aconteceu tão rapidamente que eu nem sequer pude perceber o que estava se passando, e muito menos reagir.
A única coisa que eu tenho certeza, é que depois desse dia eu nunca mais fui o mesmo.

CAPÍTULO I


Dois anos depois

Acordei sobressaltado, meu coração estava galopando tanto que chegava a doer, massageei o peito na tentativa de diminuir a dor, e percebi o quanto a minha camiseta estava suada, senti um gosto salgado na boca, ele não vinha só do suor, mas das lágrimas também.

Olhei em volta e percebi aliviado que estava em meu quarto, as luzes ainda estavam apagadas, o que indicava que eu não tinha acordado os meus pais, ao menos isso, dessa vez o pesadelo foi silencioso.

Estava todo pegajoso e com certeza não conseguiria mais dormir naquela noite, então levantei para tomar um banho, ficaria na banheira tentando relaxar, talvez até amanhecer eu conseguisse me livrar dos vestígios daquele sonho.

Ao caminhar em direção ao banheiro um brilho dourado chamou minha atenção, ao me aproximar pude ver a medalha refletindo a luz da lua, milhares de lembranças vieram à minha mente, a minha própria felicidade naquele dia, os sorrisos orgulhosos dos meus pais, parece ter acontecido há tanto tempo, em uma vida que não é mais a minha.

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— É isso o que você chama de café da manhã?
— Eu não estou com fome, mãe. — O primeiro dia de aula sempre me deixa ansioso, o que me faz ter pesadelos novamente. E é claro que a minha mãe sabe disso.
— Eu não te ouvi hoje à noite, você dormiu bem? Não teve pesadelos?
— Acho que não, dormi como um anjo. ­— Se ela não ouviu, por que preocupá-la à toa?
— Então por que você não quer comer? — Ela não desistia.
— Porque eu não estou com fome... — disse desanimado.
— Por favor, coma pelo menos uma fruta, Augusto, ou vou ficar angustiada o dia todo imaginando que você vai morrer de fome. — Com essa eu tive que rir.
—Tudo bem, mamãe. — Peguei uma maçã na mesa e fui sentar no sofá enquanto os meus pais terminavam de se arrumar para o trabalho.
— Vamos logo, o meu dia hoje será cheio. Augusto, eu não vou poder te buscar hoje, mas já deixei agendado um táxi para você voltar do colégio, tudo bem? — Meu pai me olhou com expectativa.
—Tudo bem — murmurei baixinho.
— É o Jas, qualquer problema pode me ligar, combinado, garotão? — O meu pai às vezes me chama assim, felizmente ele só faz isso na frente da minha mãe e do Michael, ou quando eu o deixo preocupado.
— Ou para mim — minha mãe completou. Eles se tornaram superprotetores depois do que aconteceu, eu não queria que fossem assim, embora no momento me sentisse grato por isso. Os pesadelos sempre me fazem sentir vulnerável.
— Tudo bem — eu disse tentando tranquilizar a mim mesmo, é o Jas, o mesmo taxista de sempre.

Me despedi do meu pai com um abraço apertado, eu sei que ele se sente culpado apesar de não ser, acho que ele precisa de terapia, não que eu vá sugerir isso a ele.

Entrei no carro para que eles tenham privacidade ao se despedir. O carro da minha mãe tem o cheiro dela, é um cheiro de rosas misturado com hidratante, sei lá, talvez seja somente um cheiro de mãe, deve ser isso, porque é um cheiro que me acalma.

— Pronto para o seu último ano no colégio? — ela perguntou, esperançosa.
— Claro — menti esperando soar de forma convincente, mas acho que não funcionou, pois ela me olhou desconfiada.

Coloquei meus fones de ouvido e selecionei Cold Play no meu iPod, minha banda favorita no momento, porém a verdade é que eu não estava prestando atenção à música, só queria fugir do assunto. Funcionou, ela deixou para lá, mas eu sabia que seria interrogado à noite.

Paramos em frente aos portões de ferro do Henry King High School, um colégio de elite cheio de mauricinhos e patricinhas. Na verdade eu já terminei o colegial, entretanto pretendo ir à universidade e por isso sou obrigado a fazer dois anos adicionais para prestar o A-level, logo, preferi fazer aqui mesmo do ir para um instituto preparatório e conhecer mais um monte de gente nova.

Não vou sentir saudades do colégio, considerando que não tenho amigos aqui além do Michael, mas nem ele sabe o meu segredo, ninguém no colégio sabe, pelo menos nenhum dos alunos, e eu prefiro que continue assim, eu não me orgulho dele.

— Você vai ficar bem? — minha mãe perguntou me tirando do meu devaneio.
Ela sempre me traz ao colégio antes de ir trabalhar e o meu pai me pega na saída, quando ele não pode, como hoje, liga para a empresa de táxi e pede sempre pelo mesmo taxista, Jas Abrazda. Ele é legal, me faz rir, nós confiamos nele, e ele não faz perguntas.

— Vou — falei desejando do fundo do coração que isso fosse verdade.
— Você sabe que pode ligar para mim ou para o seu pai a qualquer hora, certo? Não existe trabalho no mundo que seja mais importante para nós do que você. — Sua expressão era gentil.

Minha mãe é tão jovem para ter tantas preocupações. Abaixei a cabeça, envergonhado por precisar tanto dela e do meu pai aos dezessete anos, mas eu não podia evitar, ainda não.

— Tudo bem, não se preocupe comigo — falei pegando a mochila no banco de trás, dei um abraço e um beijo nela e saí do carro.

Notei que alguns garotos estavam me olhando com desdém, mas não me incomodei, demonstrar carinho pelos meus pais é natural para mim e eu não me sinto infantil por isso. Eles não sabem o que perdem, ou talvez os seus pais não mereçam o seu amor, os meus merecem, sem dúvida.

Caminhei pelo gramado em direção ao prédio principal, mantive os fones no ouvido para fingir naturalidade, mas a verdade é que eu estava ansioso, meu coração estava disparado, só queria poder voltar para casa e me esconder no meu quarto.

Fui à direção pegar meu horário de aulas, a minha primeira aula era no laboratório de biologia, quando estava saindo da diretoria esbarrei em alguém, e por reflexo, estendi os braços para segurar a garota que se desequilibrou com o esbarrarão, senti uma onda de eletricidade me percorrer quando nossos corpos se chocaram, a sensação não foi boa, mas também não foi tão ruim quanto costumava ser.

— Você já pode me soltar agora. — Sua voz suave me tirou do meu torpor, percebi que ainda estava segurando os seus braços, a soltei rapidamente e dei um passo para trás.

Ela sorriu e se abaixou para pegar o iPod, que eu nem percebi que havia caído.

— Cold Play, adoro essa banda — ela disse me estendendo o aparelho.
— O-obrigado. — Não sei por que gaguejei essa resposta enquanto pegava o Ipod da sua mão estendida.

Comecei a me dirigir ao laboratório, quando ela falou novamente:

— Eu sou a Jennifer. — E ficou parada me olhando, esperando uma resposta, que é claro, eu não dei.
Cheguei ao laboratório e procurei a bancada mais distante para sentar, alguns colegas já estavam lá, eu lembrava vagamente de ter visto alguns deles pelos corredores, com outros eu já havia estudado, mas não tinha intimidade com nenhum deles.

Sentei sozinho na última bancada como sempre, as pessoas me acham estranho, não que eu reclame, gosto de ficar sozinho, não gosto de fazer dupla a menos que seja com o Mike.

A porta se abriu de repente e eu a vi novamente, ela é linda, não que isso me interesse, mas não posso negar que é verdade. Ela veio direto na minha direção, todos olhavam para ela, os garotos babando, as garotas com inveja, porém ela nem parecia notar.

— Posso sentar aqui? — Ela parecia duvidosa se deveria ou não sentar ao meu lado.
— Se você quiser. — No momento em que falei percebi o quanto a minha resposta foi grosseira, mas não me desculpei, como eu disse, gosto de ficar sozinho e talvez a minha resposta a fizesse mudar de ideia, não fez.

— Obrigada — ela disse sarcasticamente.

Quando sentou, o seu braço roçou o meu e eu me afastei rapidamente, ficando colado à parede, meu estômago se revirando, ela fez uma expressão estranha diante disso e ficou me encarando por alguns segundos, entretanto não comentou.

 — Então, o meu nome é Jennifer, será que você vai me dizer o seu agora? — O seu tom de voz era zombeteiro e ela arqueou uma sobrancelha, provavelmente ela acha que eu perdi a fala por ser tão linda.
— Eu não tenho interesse em fazer amigos — disse sem conseguir encará-la.
— Uau, você é sempre grosseiro assim ou só está de mau humor hoje?

Fiquei tentado a olhar para ela, ver detalhes daquele rosto tão bonito, mas não me atrevi a encará-la, também não me atrevi a responder.

Felizmente a porta se abriu novamente e o senhor Prior, nosso professor de biologia e pesquisador com quem eu trabalho, entrou na sala carregando uma caixa de lâminas.

— Bom dia, turma! Onde está a aluna nova? — ele perguntou eufórico como sempre.
— Estou aqui, professor — Jeniffer respondeu ao meu lado.
— Oh minha querida, levante-se, por favor. Turma, esta é a senhorita Jennifer Thompson. Ela acaba de ser transferida para a nossa escola. Por favor, digam oi à sua nova colega. — Jeniffer, vejo que você sentou-se ao lado do Augusto, ótima escolha, ele é um dos meus melhores alunos e meu ajudante nas pesquisas — ele continuou falando depois de todos saudarem a nova aluna. — Também estou vendo aqui no seu histórico que o seu antigo instituto tem um cronograma mais lento do que o nosso, por isso você está um pouco atrasada e precisará ser colocada em dia com o nosso conteúdo.

 Jennifer se remexia desconfortavelmente ao me lado, por ter seu déficit em biologia divulgado para a classe inteira.

— Augusto, eu vou dispensá-lo das pesquisas nas próximas duas semanas para que você possa ajudá-la a se atualizar, está bem?

Levantei a cabeça à menção do meu nome, o que? Como assim eu vou ter que ajudá-la com isso? Isso significaria passar muito tempo com ela e eu não quero fazer isso.

— Ah, sr. Prior... — comecei, porém logo notei todos os olhos naquela sala voltados para mim, inclusive os da Jennifer. Ótimo, se eu recusar vou confirmar o que todos já pensam de mim, que eu sou gay, nada contra os homossexuais, mas eu ouço as piadinhas e gozações que eles tem que suportar aqui na escola, e eu já tenho problemas demais para ainda ouvir piadinha por algo que eu não sou. — Claro, eu ficarei muito feliz em ajudá-la — completei entredentes.

Finalmente ele distribuiu as lâminas e começamos a analisar as células sanguíneas, fazíamos a contagem diferencial dos leucócitos, anotando as proporções de neutrófilos, linfócitos, basófilos, eosinófilos e macrófagos, entretanto eu não conseguia me concentrar, fiquei pensando no que eu iria fazer com essa garota, eu tinha uma rotina a seguir e não podia alterá-la, a rotina me dá paz de espírito.

A Jennifer ficou calada depois daquilo, acho que ela não gostou da minha quase recusa em ajudá-la. Quando o sinal tocou, o professor pediu que ela e eu fôssemos até ele.

— Augusto, como essa tutoria estará substituindo à sua atividade extracurricular por duas semanas, precisamos de algumas regras, vocês terão três horas de aulas todos os dias durante esse tempo e eu vou fazer uma avaliação com você, Jennifer, nas duas próximas segundas-feiras para ver como está indo o seu progresso — ele falou de forma a não permitir nenhum questionamento.
— Sr. Prior, talvez eu devesse ter um professor particular e não abusar da boa vontade do meu colega — ela falou como se eu não estivesse presente.

Acho que ficou realmente chateada por eu não ter dado pulos de alegria. Garota metida, ela acha que todos os caras tem que se estapear para ver quem terá a honra de obter a sua atenção?

— Não seja boba, Jennifer, o Augusto será dispensado de outra atividade para estudar com você, e no momento eu ainda não tenho nenhum trabalho para ele na pesquisa, vou usar essas duas semanas para chegar à etapa em que vou precisar do meu ajudante, além disso, tenho certeza de que ele adorará te ajudar, ele adora biologia! — ele disse todo sorridente, sorridente demais para o meu gosto.
— Aqui está o conteúdo que você precisará revisar com ela, Augusto. — Ele me estendeu um monte de folhas, isso é coisa que não acaba mais! — Vocês poderão utilizar a biblioteca e assinar a lista de freqüência lá, ou ir para a casa de um dos dois, desde que cumpram com a carga horária estipulada, e eu confio em você, Augusto, para não trapacear. — Que bom que ele confia em mim para ser seu escravo.
— Na biblioteca está ótimo, porque vamos precisar de vários livros, mas eu não vou poder começar hoje, professor.
— Por quê? — ele perguntou desconfiado.

Como dizer que eu precisava me preparar psicologicamente para passar mais tempo com ela sem parecer estúpido? Impossível, então a minha resposta foi:

— Porque eu preciso preparar uma aula, não posso começar assim do nada. — Era uma desculpa plausível, não era?

— Você tem razão, Augusto, todavia eu não vou te dar nenhum dia a mais, ou melhor, a menos na pesquisa, então você vai ter que compensar o dia de hoje em um final de semana. Agora vão ou vão se atrasar para a próxima aula.
— Você realmente não precisa fazer isso se não quiser, eu posso ir à diretoria e conseguir um professor particular — a Jennifer disse quando chegamos ao corredor.
— Eu não quero ter problemas com o senhor Prior, o meu currículo precisa da atividade que eu faço com ele, então vamos fazer isso — disse categoricamente e saí apressado para a próxima aula.

Entrei na sala e encontrei o Michael conversando com um cara e uma menina que eu não conhecia muito bem, ele conhece Deus e o mundo. Caminhei até ele, que sorriu quando me viu, levantou e me deu um abraço, o Michael é uma das raras pessoas capazes de me abraçar sem me deixar desconfortável.

— E ai, cara! Como vai? Você ficou sumido nessas férias, valeu por me esquecer! — ele reclamou parecendo magoado e eu me senti culpado.
— Desculpe, estive ocupado — menti novamente.

Ele me apresentou à garota, Hilary, e ao namorado dela, Greg. O Michael os conheceu no ano passado em química, eu só os conhecia de vista. Felizmente a aula começou, encerrando a conversa.

Alguns minutos depois, levei um tapa atrás da cabeça e me virei de cara feia para ver o sorriso zombeteiro do Michael.

— Porque você esta viajando hoje? Está com sono? Não te culpo, cara, que aula chata! — Ele pergunta e ele mesmo responde, mas eu não reclamo, assim me livro de ter que responder.

Finalmente o sinal tocou e eu fui para a minha próxima aula, português.

Entrei na sala e fui para o canto, meu lugar preferido nas salas de aula, ficar encostado à parede torna mais difícil ser importunado. Quando estava chegando ao fundo da sala dei de cara com a novata outra vez, a garota parecia estar me seguindo. Passei por ela sem falar nada, ela não olhou na minha direção, melhor assim.

A senhora Duarte entrou na sala segurando um livro grosso com o título “Conjugando Verbos” e muitos “poderia, mudaria, deixaria” depois, o sinal finalmente anunciou a hora do almoço.

                                                         **********

O refeitório estava lotado como sempre, peguei a fila e esperei pacientemente enquanto a moça da rampa colocava, prato após prato, uma concha de uma gororoba que ela dizia ser feijão, era nojento, por isso optei somente pela salada e uma maçã. Avistei o Michael em uma mesa perto da janela, ele estava com a Hilary, o Greg e a Rox. Eu me dirigi para lá.

— Ei Rox, como vai? — cumprimentei a paixão platônica do Mike, embora ele negue veementemente que tem uma queda por ela.
— Ei Augusto, o que fez de bom nas férias? — ela perguntou.
— Nada — falei displicentemente.
— Nada?! Você me dispensou dizendo que estava ocupado!  — Michael disse, indignado, eu esqueci que ele ouviria o meu “nada” e daria piti.
— Cara, relaxa, eu quis dizer nada demais, só ajudei o meu pai a preparar umas aulas — menti de novo, estava me tornando um especialista nisso.
— Tudo bem, mas você está me devendo, não se abandona um amigo nas férias — ele rosnou apontando um dedo para mim.

Eu o abandonei nas férias porque ele queria sair todo dia, além de viajar, e eu não gosto disso, prefiro ficar em casa, lá eu me sinto bem. Eu não quero repetir a vergonha que passei com ele na última primavera. Ele não sabe por que eu evito sair, então acha simplesmente que eu sou chato.

A Rox acenou para alguém na rampa e quando olhei para trás vi a garota nova se aproximando da nossa mesa, ela hesitou ao me ver, mas depois continuou andando até nós.

— Oi Rox, oi Augusto — ela disse quase tímida segurando a bandeja, que como a minha, só continha a salada.
— Vocês já se conhecem? — Rox perguntou, espantada.
— É uma longa história — ela respondeu olhando ao redor da mesa.

Após apresentá-la aos outros, a Rox deu espaço para ela sentar, bem ao meu lado, claro! Que sorte a minha, o primeiro dia é sempre uma bosta mesmo.

— Então, como vocês se conheceram? — Michael perguntou apontando com o garfo para mim e para a Jennifer.
— O nosso professor de biologia incumbiu o Augusto de me dar umas aulas particulares — ela disse como se não fosse nada demais.
— Ah é? Eu me pergunto por que o Augusto não me falou nada sobre isso durante a aula — o Mike salientou, estreitando os olhos para mim como se tentasse desvendar um mistério.

Percebi que todos na mesa haviam parado de conversar e me olhavam fixamente, esperando pela minha resposta.

— Talvez porque estávamos assistindo aula? — Acabou saindo como se fosse uma pergunta, e eu esperava que soasse de forma convincente. — Digo, EU estava assistindo aula. — Enfatizei o eu. O que o fez bufar.
— Por favor, você estava praticamente dormindo.

Eu não estava dormindo, estava pensando em outra coisa, mas ele não precisava saber disso. Quando terminou o horário de almoço cada um seguiu para as suas aulas, e eu tive um descanso de todos aqueles olhares questionadores durante a aula seguinte.

                                                         **********

Estava no portão há dois minutos quando o Jas chegou em seu táxi preto e eu entrei na parte de trás.

— E aí, moleque! — Ele se virou para o banco de traseiro e fizemos um high five.
— E aí! Como você tem andado? A sua mãe veio mesmo? — perguntei enquanto ele entrava no tráfego da cidade, que estava apenas um pouco intenso por causa da saída dos estudantes e professores, porém nem se comparava à minha antiga cidade.
— Veio, passou duas semanas aqui e voltou para a India na semana passada. Cara, ela me deixou louco, levei uma gatinha para casa achando que ela já estava dormindo, que nada, ela estava acordada me esperando e colocou a garota para fora, enxotando a coitada com uma colher de pau!

Eu ria sem parar, Jas é um imigrante indiano enorme, eu pego tanto táxi com ele que acabamos criando uma certa amizade, ele me disse que sua mãe é pequena, e eu fiquei imaginando uma mulher baixinha colocando para fora a ficante do filho rebelde.

— E você? Alguma gatinha em vista? — perguntou animado. Ele está sempre animado.
— Não. — Foi a minha resposta, apesar da sua pergunta me levar a pensar em uma certa ruiva.
— Ah, qual é? Está de brincadeira? Com essa carinha de anjo e esses olhos azuis, você quer que eu acredite que não tem nenhuma gatinha a fim de você? — Ele bateu os cílios para mim de maneira afetada, me fazendo rir de novo.

Por sorte não tive que responder, pois ele tinha acabado de estacionar em frente à minha casa. Olhei o taxímetro, a corrida deu pouco mais de doze libras, entreguei quinze e deixei o troco para ele.

Quando entrei em casa fui saudado com pulinhos alegres da minha Sammy, me inclinei para fazer carinho em suas orelhas e prometi voltar logo para brincar com ela no jardim, sempre fazemos isso quando está ensolarado, o que infelizmente não é muito comum por aqui.

Fui até a cozinha dar um oi à Cibele, nossa cozinheira, uma portuguesa de 42 anos que está sempre de bem com a vida.

— Ei, tudo bem? — perguntei em português e ela sorriu por me ver tentando.
— Hoje vamos jantar lasanha de camarão — disse com um sorriso, sabendo que eu adoro lasanha de camarão.
— Obrigado. Você viu o Todd por aí?

Olhei ao redor da cozinha em busca do gatinho de rua que eu recolhi há seis meses.

— Acho que ele está no jardim — ela disse apontando para a janela da cozinha, que dava para o jardim dos fundos.

Depois de rolar na grama com a Sammy, finalmente tomei um banho e comecei a preparar a aula de amanhã para a Jennifer. Bem que o professor poderia ter me enviado um e-mail com antecedência para avisar que eu teria esse trabalho, era conteúdo demais para preparar as aulas e eu não sou professor.


                                                                 **********
                                                   

— Como foi o primeiro dia de aula?
— Até que não foi tão tenso, mas tem uma novidade — falei como se fosse irrelevante. — Tem uma garota nova no preparatório e o senhor Prior me dispensou durante duas semanas da pesquisa para dar aulas a ela, tipo um reforço.
— E o que você está achando disso? — Meu pai estava me olhando atentamente agora.
— Eu não sei bem como estou me sentindo. — Finalmente fui sincero.
— Como ela é? Uma menina legal? — Ele estava muito sorridente com a ideia de eu me aproximar de uma garota, ou mesmo de alguém.
— Não comece — avisei apontando o meu garfo para ele de maneira ameaçadora.
— Eu não falei nada. — Ele me olhou com expressão inocente. — Eu falei, Nathaly?
— Nadinha. — Ela o defendeu.


Após o jantar terminei a aula para dois dias. Depois fui para a cama ouvindo Cold Play e me lembrei que a Jennifer disse gostar dessa banda também. Dormi me perguntando qual seria a sua música favorita... E acordei assustado com outro pesadelo.
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7 comentários:

  1. Oi , quando ira sair os outros capítulos ?

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    1. Oi, Talita

      Fico feliz que vc tenha se interessado pelo livro, aqui a Karina só divulga o primeiro capitulo, mas ela deixou o link do wattpad ali em cima, lá o livro já está com 21 capítulos e na reta final. Ficarei muito feliz em ver vc lá!
      Patrícia

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  2. Karina, obrigada por divulgar o meu livro!
    Acompanho o seu blog há tanto tempo, é uma honra para mim essa divulgação, muitíssimo obrigada!!!
    E Feliz Ano Novo!!!😃
    Kim

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    1. Oi Kim, de nada! Um bom 2017 pra você também, e espero que dê tudo certo com o seu livro :)

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  3. Oi, gente

    Para quem não sabe e quer continuar lendo, aqui a Karina só divulga o primeiro capitulo, mas ela deixou ali em cima o link do wattpad, que é a plataforma onde o livro está sendo postado, lá ele já está quase completo. Espero vcs lá!
    Patrícia

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