26 de janeiro de 2017

E já era hora também...

Will olhou para baixo e se inspecionou uma última vez. Seu casaco estava limpo e passado. A gola aberta de uma imaculada camisa de seda branca aparecia acima, e a folha de carvalho de prata que indicava sua posição era apenas visível no V formado pela gola. Suas calças estavam livres de quaisquer manchas ou marcas. Suas botas estavam impecáveis e recém banhadas com óleo. Elas não ficaram brilhantes. Um arqueiro nunca lustrava suas botas. Botas lustrosas poderiam refletir flashes de luz e tornar mais fácil para alguém de detectar um arqueiro escondido.
Ele afivelou o cinto de couro largo. Como as botas, a fivela em si era de um preto desbotado e os punhos de suas duas facas foram presos em couro liso. Somente as lâminas teria pegado a luz se tivessem sido expostas. Elas foram mantidas cuidadosamente afiadas e eram de um aço fino, mais duras do que as espadas utilizadas por cavaleiros do reino.
Ele desejou que tivesse um espelho. Este era um dia importante, depois de tudo. Mas os espelhos eram muito caros. Só alguém tão rico quanto o Barão Arald podia se permitir tal luxo. O pagamento de um arqueiro não permitia esse tipo de coisa.
Ébano estava deitada à porta, o queixo sobre as patas estendidas, com os olhos cravados nele. Ele olhou para ela e estendeu as mãos.
— Como estou? — perguntou.
Ela bateu a cauda duas vezes no chão, seus olhos nunca se movendo para longe dele.
— Quão bom é isso? — ele meditou.
Thump, Thump, fez a cauda novamente.
Ele olhou para fora da janela. O sol estava bem baixo, abaixo das copas das árvores que rodeavam a pequena cabana.
— Hora de ir.
Ele puxou a cortina que cobria algo pendurado em seu guarda-roupa simples e tirou sua capa. Desta vez, Ébano mostrou algum interesse. Sua cabeça inclinou para um lado e ela o olhou com curiosidade.
Ele não tinha escolhido a capa normal, rotineira. Tinha tirado a capa de uniforme formal, com a representação estilizada de flechas cruzadas em diagonal em suas costas. Ele girou em torno de seus ombros e sorriu para ela.
— Dia especial.
Ébano deixou a cabeça cair até as patas novamente. Ele moveu-se para a porta e fez um gesto para ela sair do caminho. Com um suspiro, a cadela se levantou e deu alguns passos para o lado quando ele abriu a porta e saiu para a varanda.
Ele parou e olhou de volta.
— Você vem? Você está convidada, afinal das contas.
Abanando o rabo mais uma vez, ela se esgueirou pela porta aberta e se juntou ao arqueiro na varanda. A cadela olhou para cima, assim como os pastores têm de estar constantemente olhando para seu mestre em busca de direções.
Onde nós vamos agora?, o olhar dizia. Will não respondeu, mas deixou escapar um assobio baixo. Os ouvidos de Ébano ergueram-se ao som. Poucos segundos depois, ouviram o suave clop clop de cascos quando Puxão apareceu de trás da pequena cabana. Ele havia estado descansando no estábulo. Mas desde que nunca erra necessário amarrá-lo, ele foi capaz de responder o assobio imediatamente.
Ao contrário de Ébano, Puxão parecia saber para onde estavam indo. Ele olhou uma vez para Ébano, a postos ao lado de Will.
Ela está indo também?
— É claro. Ela é parte da família, afinal de contas. Você não se opõe, não é?
Puxão balançou a crina explosiva.
Nem um pouco. Mas ela, por vezes, peca no senso de decoro. Eu não quero que ela comece a coçar-se.
Will sorriu para o cão.
— Ouviu isso, Eb? Não se coce desrespeitosamente.
O rabo da cadela agitou-se com a menção de seu nome. Puxão olhou de soslaio para o seu mestre.
O mesmo vale para você.
— Estou feliz por ter você comigo, chefe de protocolo — disse Will. — Vamos?
Eu esperava por você.
Will balançou a cabeça. Depois de todos esses anos, ele pensou, é de se pensar que teria aprendido que nunca iria ter a última palavra com este cavalo.
Nunca.
Ele olhou para Puxão, desconfiado. Se pudesse dizer que um cavalo assumia um ar inocência, era isso o que ele estava fazendo.
Will estalou os dedos para Ébano e saiu da varanda. Ela avançou imediatamente em seu calcanhar direito. Puxão trotava à sua esquerda, a cabeça ao lado do ombro de seu mestre. Os três fizeram o seu caminho através da pequena clareira na frente da cabana por uma trilha que cortava pela floresta.
O espaço da trilha era restrito, de modo Puxão foi para a retaguarda.
Era disforme sob as árvores, mas o caminho era familiar. Ele serpenteava por uma ligeira inclinação, tomando a linha de menor resistência, até um pequeno córrego que era um afluente do rio Tarbus. Havia um poço profundo, onde ele e Halt haviam pescado truta ao longo dos anos. Havia uma clareira gramada à beira do poço também, e em tempos mais recentes, ele e Alyss tinham muitas vezes feito um piquenique lá em noites no verão – como esta.
O ar vinha macio e quente em seu rosto e alguns pássaros farfalharam em torno das árvores e arbustos as quais se acomodaram durante a noite. Will olhou para dentro da escuridão entre as árvores e viu os minúsculos pontos que piscavam com luz que marcavam o movimento de vagalumes. Um desviou para fora das árvores, a luz em sua cauda diminuindo enquanto se movia na escuridão comparativa. Ele chegou perto de Ébano e houve um súbito clop! quando suas mandíbulas fecharam-se com um estalo, então ela balançou a cabeça e deu patadas em sua língua para remover os restos do inseto morto.
— Você nunca vai aprender, vai? — ele perguntou carinhosamente.
Ébano nunca podia resistir à tentação de abocanhar insetos voadores. Isto era seguido inevitavelmente por esforços frenéticos para se livrar dos resultados. De alguma forma, eles nunca pareciam ter o sabor tão bom quanto Ébano esperava.
Quando chegaram mais perto da clareira, ele estava ciente de um zumbido baixo da conversa.
— Nós somos os últimos a chegar aqui — comentou ele.
Mas Puxão balançou a cabeça.
Ela vai ser a última. É tradicional.
Eles saíram das árvores. A clareira foi iluminada por tochas em postes fincados no chão e lanternas em cores diferentes foram amarradas entre os ramos. Uma pequena multidão de pessoas estava esperando por ele. Enquanto Puxão e Ébano saíam para a clareira, havia um murmúrio superficial de pessoas e uns poucos chamados de palavras de saudação.
Ele olhou em volta com um ingênuo senso de prazer. Não havia muitas pessoas aqui, mas ele contou todos aqueles que foram importantes em sua vida.
Halt, é claro. E sua linda esposa ao seu lado, em pé meia cabeça mais alta que ele. Desde o décimo sexto aniversário de Will, Halt tinha sido uma figura paterna para ele. E em anos mais recentes, tinha começado a pensar em Lady Pauline como uma mãe postiça.
Ele olhou para um lado e seu rosto se iluminou com um sorriso. Horace estava aqui. Bem, ele tinha dito que estaria. E com ele estava Evanlyn, sua esposa.
Eu realmente vou ter que começar a chamá-la de Cassandra, Will pensou. Ele estava tocado porque o casal tinha feito a longa viagem do Castelo Araluen para estar com ele hoje.
Não lhe ocorreu que ele teria feito exatamente a mesma coisa para eles sem nem pensar. Ele olhou atentamente para a princesa. Ele recebeu uma carta animada de Horace dizendo que eles estavam esperando um filho. Até agora, não havia nenhum sinal da gravidez. Evanlyn – Cassandra, ele corrigiu-se – parecia tão magra como sempre.
De pé, num pódio criado ao lado do rio, estava o Barão Arald, sorrindo largamente para o mais famoso de todos os seus pupilos. Will assentiu uma saudação respeitosa a ele, e seu olhar esquadrinhou o resto das pessoas ali reunidas. Jenny e Gilan, notou, em pé de mãos dadas, Jenny radiante com orgulho e de vez em quando olhando para cima com os olhos adoradores para o alto e bonito arqueiro ao seu lado.
Você vai ser o próximo, Will pensou. Gilan parecia ler seus pensamentos e sorriu largamente para ele. A perspectiva não parecia incomodá-lo de forma alguma.
Ele parou em meio a sua passada quando avistou os próximos dois convidados, de pé nas sombras atrás de Gilan e Jenny. Duas formas totalmente diferentes – um pequeno e franzino, com a aparência de que um vento forte o sopraria para longe, o outro alto e largo. Enorme, de fato. E entre eles, uma forma em preto-e-branco que se levantou do chão e avançou em direção Ébano, a cauda pesada balançando para frente e para trás enquanto ela vinha.
Enquanto Ébano reencontrava-se com sua mãe, Sombra, rabos abanando devagar e cabeças baixas, Will avançou rapidamente para abraçar Malcolm, depois foi esmagado em troca por Trobar, com seu abraço de urso.
— Vocês vieram! — ele observou, com prazer em vê-los. — Eu não tinha certeza de que viriam de tão longe!
— Não teria perdido por nada! — o curandeiro parecido com um pássaro disse a ele, sorrindo com carinho para o jovem.
A grande voz de Trobar trovejou tão suavemente quanto o gigante poderia conseguir.
— Pa´a-bens, Will T’atado.
— Obrigado, Trobar — Will respondeu. — O dia está ainda melhor pelo fato de que vocês estão aqui.
O barão tossiu significativamente e Will percebeu que era hora de começar os assuntos importantes. Distanciando-se do curandeiro e seu guarda-costas gigante, ele se foi até onde Arald estava esperando, um maço de papéis oficiais no pódio diante dele.
Puxão e Ébano o seguiram.
— Bem — disse o barão com carinho — está é uma bela noite para um casamento, Will Tratado.
— Não consigo pensar em uma melhor, senhor — Will respondeu.
— Lembro-me de uma história bastante divertida... — O barão começou.
Mas sua esposa, Lady Sandra, fez uma advertência com um ruído sutil e baixo, mas inconfundível. Ele olhou para ela com culpa.
— Eh? Oh... sim... claro, minha querida. Talvez mais tarde, jovem Will.
— Mais tarde, provavelmente seria melhor, senhor — concordou Will, escondendo um sorriso.
— Certo... Bem, você está aqui. Todos nós podemos ver isso. Nós temos um padrinho?
Em resposta, Horace avançou e ficou ao lado de Will, colocando a mão no ombro de seu melhor amigo. Os dois se entreolharam – um olhar que falou mais do que qualquer número de palavras poderia transmitir.
— Excelente — o barão continuou. — Excelente escolha.
Ele olhou para o cavalo desgrenhado e o cão elegante de pé atrás de Will.
— E estes são...?
Antes que Will pudesse responder, Horace falou:
— Dama de honra e pajem.
— Excelente! — disse o Barão. — Um pouco não-convencional, mas excelente – desde que eles não tem que assinar nada!
Ele riu de sua própria piada. Puxão empurrou sua cabeça para frente para estudá-lo mais de perto. O Barão tornou-se ciente do cavalo o encarando e olhou para baixo, rapidamente reorganizando seus papéis.
— Comporte-se — Will disse baixinho para o cavalo e Puxão recuou.
Will tinha certeza de que ele estava sorrindo.
Arald levou alguns momentos para recuperar seu entusiasmo normal, então esfregou as mãos e examinou a as pessoas diante dele. Sem serem solicitados, os presentes se mexeram para formar um meio círculo frouxo, de frente para o estrado.
— Bem, então — ele disse rapidamente. — Parece que estamos todos aqui. Noivo. Padrinho. Testemunhas. Celebrante — ele fez uma pausa e olhou de soslaio para Puxão. — Dama de honra e pajem. Agora, tudo o que precisamos é da noiva.
E, de repente, sem aviso, Alyss estava lá. Ela saiu das árvores para ficar sobre um feixe de luz lançado por uma lanterna pendurada em um galho.
Will prendeu a respiração ao vê-la. Ela era linda, não havia outra palavra para ela. Estava vestida com um vestido branco simples, com um ombro descoberto. Seu longo cabelo loiro, preso por um colar de flores amarelas, brilhava à luz da lanterna, parecendo ter a sua própria luz interior.
Mais tarde, pensando sobre isso, percebeu que isso deve ter sido parte do teatro premeditado por parte do barão. E muito eficaz também.
Às vezes, ele pensou, Arald acertava. Alyss capturou o olhar de Will e sorriu para ele. Ele sentiu o coração revirar.
Rapidamente, Cassandra atravessou a clareira para estar diante de Alyss como sua dama de honra. Halt moveu-se para o lado de Alyss e tomou-lhe o braço. Uma vez que Alyss era órfã, ela pediu a Halt para atuar em lugar de seu pai e entregá-la. O arqueiro sorriu para ela. A mensageira era uma das poucas pessoas que poderiam fazê-lo sorrir tão facilmente.
Vendo que todos estavam prontos, Barão Arald fez um sinal com a mão e um trio de músicos do castelo, previamente escondidos entre as árvores de um lado, adentraram na clareira e começaram a tocar. Alyss tinha escolhido a música e Will sorriu quando reconheceu as notas suaves de “Cabana nas árvores“. Era a canção oficial do Corpo de Arqueiros, a que eles cantavam em todos os eventos importantes. Ela não poderia ter escolhido melhor.
Ele continuou a sorrir para Alyss enquanto ela caminhava graciosamente para ficar ao lado dele. Era um dia para sorrisos, pensou feliz. Halt pegou a mão dela, de onde repousava em seu braço e colocou na mão de Will, em seguida, retirou-se. Cassandra e Horace recuaram um passo para deixar a noiva e o noivo sozinhos perante o Barão Arald.
— Bem, então — ele começou, com um sorriso enorme no rosto enquanto olhava para os dois jovens. — Que dia o de hoje! Que dia, de fato!
Os votos falados foram simples e direto ao ponto. Não há necessidade de repeti-las aqui – basta apenas mencionar que diziam respeito a amor, lealdade e honestidade. E o dever para com o outro e carinho.
Eles vieram do coração e sua simplicidade direta capturou os corações de todos aqueles que estavam presentes. Lady Pauline sorriu suavemente quando notou Halt sorrateiramente enxugando os olhos com um canto de seu manto.
Ela o cutucou com o cotovelo.
— Sua fraude velha — ela sussurrou e ele acenou timidamente.
Halt tinha passado a vida a mantendo um comportamento sombrio e proibitivo. Neste dia, ele simplesmente não podia mantê-lo.
Uma vez que os votos foram trocados, Arald pronunciou as palavras legais e oficiais que selaram a união. Parecia que apenas alguns segundos se passaram quando ele recuou, sorrindo para o jovem casal e abriu os braços para eles. Por um momento, Will estava perplexo. Ele tinha ido à cerimônia em um uma espécie de torpor, capturado pela presença de Alyss ao lado dele, espantado com o pensamento de que este dia chegou finalmente.
Agora, ele percebeu com um choque, havia chegado o dia e a cerimônia havia acabado. Ele e Alyss estavam ligados um ao outro e ele sentiu um sentimento quente e reconfortante dentro de si com o pensamento.
O barão tinha dito algo, e Will percebeu e as pessoas estavam olhando para ele com expectativa.
Arald inclinou-se e disse, em um sussurro que todos podiam ouvir:
— Eu disse, você pode beijar a noiva.
Will assim o fez, com um grau de entusiasmo. Ele esteve encantado que Alyss respondeu na mesma moeda, enquanto os gritos e aplausos de seus amigos mais próximos irrompiam em torno da clareira.
Lentamente, o som morreu e no silêncio que se seguiu, uma voz ecoou.
— E já era hora também!
Halt quis falar como brincadeira, mas antes que percebesse, havia um nó na garganta e um engasgo em sua voz e ele teve que disfarçá-lo como uma pequena crise de tosse, afastando-se enquanto isso.
Dessa forma, ele esperava, as pessoas nunca iriam notar as lágrimas que tão livremente escorriam pelo rosto.

8 comentários:

  1. N creio!!! Pensei que nunca aconteceria!!!

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  2. OMG!!!! Coisa mais linda! Chorando muito aqui agora >///< :,3

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  3. Não acredito que Halt chorou! Como o próprio capitulo diz "E já era a hora também..." kkkkk. Não sei se riu o choro !_!

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  4. Que lindo. Meu preferido do livro. Os dois são tão lindos. E o Halt chorando, OMG, a coisa mais linda 😍😍😍❤
    Ass: Lua

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  5. Eu ainda estou no livro 10,mas não resisti a tentação pulei logo para esse livro ver como era,e algo na minha mente me disse para ler esse capítulo,simplesmente li.
    Perfeito,chorando litros aqui.
    Halt chorando,JÁ ERA HORA TAMBÉM.
    Mas além de chorar estou rindo,não me pergunte porque eu não sei
    ASS:Kattyane(Filha de Hermes)

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    Respostas
    1. Oi, esse fim é muito legal, só que ainda não creio que a série acabou no décimo segundo livros... Eu quero mais!
      PS.: Por favor não leve meu livro.
      ASS.: Filha de Atena

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Boa leitura :)