26 de janeiro de 2017

Capítulo 8

Deixando para trás a velha corcunda, Petulengo correu de uma trilha para outra que movia-se perpendicularmente. Esta era estreita, coberta e difícil de se caminhar. Se Petulengo não soubesse o que estava lá, possivelmente teria passado direto por ela. Ele se curvou sob os ramos baixos que cresciam sobre a trilha e, após alguns metros, entrou em uma pequena clareira.
Instintivamente, ele recuou para o lado quando percebeu que Jerome estava apenas a alguns metros de distância, segurando a coleira de um enorme cão negro.
Petulengo sabia seu nome. Dente do Demônio. Sua pelagem era preta, mas não um preto saudável e brilhante. Era emaranhada e curta. A pele embaixo do pelo estava marcada em uma dúzia de lugares – lembranças das lutas que Dente do Demônio tinha participado – e essas cicatrizes formavam rugas e ondulações na pele.
Sua cabeça era grande, os ombros e o corpo poderoso. Os olhos eram selvagens e amarelos, e os lábios estavam puxados para trás em um rosnado furioso, a boca do cão estava branca com baba conforme ele lutava contra o aperto de Jerome.
Normalmente, Dente do Demônio ficava preso por uma pesada corrente. Mas Jerome o tinha soltado e agora agarrava o cão entre os joelhos para contê-lo. Ele tinha as duas mãos em uma coleira de couro em torno do pescoço do animal, segurando sua cabeça em linha reta de modo que não poderia mordê-lo. Dente do Demônio, sentindo que a corrente não estava mais o restringindo, lutava para libertar-se completamente. Jerome era um homem poderoso, mas a força da luta do cão estava quase além dele. Agora ele encarava Petulengo.
— Traga o pastor — ele ordenou. — Eu estou mudando os cães para um novo local.
A cada poucos dias, ele mudava os cães para um novo esconderijo, para se certificar de que eles permanecessem escondidos.
Petulengo olhou a clareira. Do outro lado, acorrentada a uma árvore na beira da clareira estava a pastora preto-e-branca que Jerome havia roubado. Petulengo olhou a cadela cautelosamente. De acordo com as instruções de Jerome, ele passou os últimos dias a testando e provocando, tentando superar seu bom temperamento natural. Ontem, ele havia conseguido e a pastora tinha mordido ele. Ela não era um cão grande, mas era rápida e Petulengo tinha escapado de ser mordido. Ela agora o olhava, as orelhas achatadas enquanto o reconhecia. Ela mostrou os dentes em um grunhido e ele decidiu que não queria o risco de ficar perto dela novamente.
— Não — disse ele. — Ela vai me morder.
— Maldito! — Jerome rosnou. — Quem se importa se você for mordido! Pegue esse cão agora!
Normalmente, Petulengo não se atreveria a desobedecer Jerome. Mas o grande homem tinha as mãos ocupadas e havia pouco que ele pudesse fazer. Mais tarde, ele poderia se lembrar da desobediência de Petulengo. Mais tarde, porém, poderia cuidar de si mesmo.
Jerome o amaldiçoou, mas o rapaz continuou a sacudir a cabeça.
— Hilde pode fazer isso — ele respondeu. — Eu vou buscar Hilde.
— Hilde? O que é que Hilde está fazendo aqui? — Jerome ficou intrigado com a sugestão. Mas ele estava cansando rapidamente e não tinha certeza de quanto tempo ele pudesse controlar Dente do Demônio.
— Ela está coletando uvas vermelhas para Drina. Ela esta por aí!
Jerome desistiu de discutir. Ele precisava de alguém para trazer o pastor para perto e não tinha mais tempo para nenhuma discussão. Hilde serviria bem como qualquer um. Ele poderia lidar com Petulengo mais tarde, quando estivessem de volta ao acampamento.
— Tudo bem! Busque-a. Mas depressa!
O menino correu de volta no caminho para a bifurcação em ângulo reto. Olhando ao redor desesperadamente, soltou um grito de alívio baixo quando viu a velha mulher colhendo uvas vermelhas de um arbusto cerca de dez metros ao longo da trilha.
— Hilde! — Gritou ele. — Venha aqui!
Ela olhou para cima enquanto ele gesticulava com urgência, então começou a mancar pela trilha. Quando chegou, ele pegou com impaciência a cesta de suas mãos e agarrou sua manga, arrastando-a consigo.
— Vamos lá! Apresse-se, apresse-se!
Ela tropeçou na clareira e viu Jerome lutando com um cão terrível, enorme. Então, prendeu a respiração quando viu uma forma preto-e-branca encolhida do outro lado da clareira.
Ébano. Acorrentada, com a cauda entre as pernas, orelhas encostadas na cabeça, pelos emaranhados de sujeira e lama. Tomou todo o controle de Alyss impedir a si mesma de chamar o nome dela.
— Liberte o pastor e traga-o! — Jerome ordenou.
Sua voz estava tensa enquanto ele lutava com o cão. O monstro negro mantinha-se contorcendo entre seus joelhos.
Alyss correu para a cadela. Quando se aproximou, as orelhas de Ébano se ergueram enquanto ela reconhecia o cheiro familiar e amado. Com os sentidos muito mais agudos do que qualquer humana, ela percebeu o disfarce de Alyss imediatamente.
Alyss se atrapalhou com a corrente para soltá-la.
— Venha para cá! Eu não posso segurar ele o dia todo! — Jerome gritou com ela.
Dente do Demônio, sentindo que a atenção de Jerome estava distraída, fez uma investida repentina e violenta, deixando o nômade sem equilíbrio e quebrando seu controle sobre a coleira. Com Jerome esparramado na grama úmida, Dente do Demônio, treinado para atacar outros cães sem hesitação, lançou-se pela clareira na direção de Ébano.
Quando o assassino cão negro maciço se jogou sobre ela, Ébano, finalmente livre da corrente, agachou a cabeça baixa e manteve a traseira alta. Ela era um pastor e fora criada para mover-se rapidamente e mudar de direção em um instante. Dente do Demônio estava a menos de um metro de distância quando Ébano saltou para um lado. As mandíbulas do cão assassino se fecharam no ar vazio.
Dente do Demônio girou, derrapando sobre as patas traseiras para recobrar o ataque. Mas agora Alyss interpôs-se entre os dois cães. Ela pegou um galho de árvore caído no chão e virou na direção ao cão que avança, pegando no pescoço de Dente do Demônio com os ramos bifurcados em sua extremidade. Por um momento, controlou o impulso de Dente do Demônio, embora Alyss tivesse sido empurrada para trás. Mas então o ramo estalou e Dente do Demônio rosnou, concentrando-se no alvo de duas pernas que o tinha atacado. Ele comprimiu os músculos de suas pernas traseiras, pronto para saltar na garganta de Alyss.
Alyss ouviu um whizz-thunk! e uma longa, flecha de ponta negra de repente apareceu bem no meio do peito de Dente do Demônio. O enorme cão cambaleou sob o impacto. Ele deu um breve grito de agonia, depois as pernas entraram em colapso e ele caiu de lado.
Jerome olhou com horror ao ver seu cachorro caído no chão sem vida. Na confusão do momento, ele não tinha visto a flecha. Mas tinha visto a velha, Hilde, atacar seu cão com um galho de árvore. Agora Dente do Demônio estava imóvel.
— Sua bruxa velha! — ele gritou e saltou para ela.
Ele prendeu suas mãos em torno da garganta dela, apertando e sufocando-a. Alyss lutou contra ele, mas ele era muito forte. A sua cabeça foi para trás e sua visão começou a ficar fora de foco.
Em seguida, uma forma preto-e-branca voou em Jerome, pulando alto para prender os dentes em seu braço. Jerome gritou. Ébano estava terrivelmente pendurada em seu antebraço, seus dentes mergulhados na carne. Seu peso o deixou sem equilíbrio. Ele cambaleou, prendeu o pé em uma raiz de árvore e caiu, batendo contra o corpo de Dente do Demônio.
— Vamos lá, Eb! Venha aqui, menina! — Alyss engasgou.
Obedientemente, Ébano soltou sua mandíbula do braço de Jerome e trotou para a amiga, a cauda movendo-se de um lado para o outro. Jerome tentou levantar também. Imobilizando o braço que Ébano havia mordido, ele colocou a outra mão sobre o corpo estendido de Dente do Demônio para ter apoio.
E percebeu, tarde demais, que o cão ainda estava vivo.
Enlouquecido pela raiva e dor, Dente do Demônio rosnou ao toque e atacou cegamente. Jerome gritou de terror e foi cortado pelos dentes do cão. Ele golpeou descontroladamente, tentando quebrar a terrível mordida, gorgolejando horrivelmente. Então ele ficou imóvel.
Agora Dente do Demônio voltou aqueles terríveis olhos amarelos para a menina e a cadela a poucos metros de distância. Levantando com as pernas tremendo, ele rosnou em desafio.
Ébano, com as orelhas achatadas contra a cabeça, o pelo branco de seu pescoço arrepiado até que tivesse duas vezes seu tamanho normal, pulou para se colocar entre Alyss e o monstro que se aproximava lentamente.
Whicc-thunk!
Uma segunda flecha acertou Dente do Demônio no flanco, logo atrás da perna dianteira esquerda. Sem mais um som, o cão assassino caiu, morto, antes mesmo de bater no chão.
Will saiu das árvores, o arco na mão. Ele correu para Alyss e Ébano e não sabia qual abraçar primeiro. Então, ele caiu de joelhos ao lado delas e jogou os braços em volta de ambas.
As duas pareciam estar muito felizes com esse arranjo. Uma delas até lambeu sua mão. Ele não podia ver através das lágrimas nos olhos, mas esperava que fosse Ébano.

4 comentários:

  1. Will matou tantos com uma única flecha, e o cachorro precisou de duas.

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    1. Pensei a mesma coisa. hahaha Ele podia ter matado o Jerome e o Petulengo.

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  2. Já eu pensei que em vez de Èbano ter lambido a mão de Will ter sido Alyss. Morri de ri com esse pensamento absurdo! kkkkkkkkkkkkkk
    Ass: Bina.

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Boa leitura :)