26 de janeiro de 2017

Capítulo 7

Mesmo que já tivesse visto a habilidade que Alyss tinha com disfarces, Will se assustou com a transformação. Ela havia cortado o cabelo mais curto para ficar parecido com o de Hilde. Então esfregou nele terra e cinzas de modo que parecessem opacos, cinzentos e emaranhados. Seu rosto estava mais escuro, alinhado e desgastado, aparentemente pela idade. Foi só quando olhou de perto que Will pode ver o resultado da maquiagem. Alyss, como todas as diplomatas, nunca viajava sem um kit de maquiagem e disfarce. Era um dos instrumentos mais valiosos de uma mensageira.
Mas a parte mais impressionante do disfarce foi a perfeita adoção da linguagem corporal de uma mulher mais velha. Alyss tinha observado de perto por toda a manhã e tinha copiado o andar rastejado de Hilde, a exata posição do corpo da mulher. Ela se movia da mesma maneira, mancando curvado, olhos voltados para baixo e tombando para o lado, andando atrapalhadamente. Hilde raramente fazia contato visual com qualquer um dos nômades. Mas mesmo se Alyss o fizesse, Will estava quase certo de que nunca iriam notar a substituição.
Além disso, ela estava usando as roupas manchadas e rasgadas de Hilde, o que completava o disfarce. Ela sorriu para Will quando saiu de trás dos arbustos onde tinha se trocado. Ela segurou a roupa esfarrapada para fora, mantendo-a afastada de seu corpo o maior tempo possível.
— Esta é a parte de que menos gosto.
Hilde, por sua vez, ficou encantada com seu novo vestido verde. Ela desfilou em torno da pequena clareira na floresta, murmurando frases de admiração a si mesma. Will supunha que ela provavelmente nunca havia possuído uma peça de roupa tão fina em sua vida.
— Agora — disse Alyss — sugiro que você deixe Hilde na aldeia em que passamos ontem de manhã. Leve-a até a estalagem e volte aqui. Nesse meio tempo, eu vou tomar seu lugar no acampamento.
Mas Will balançou a cabeça.
— Vou fazer isso esta noite. Primeiro eu quero ter certeza de que seu disfarce funcionará. Hilde e eu vamos vigiar das árvores, apenas para certificar que está tudo bem.
— Eu vou ficar bem, Will — ela assegurou.
— Então Hilde não precisa ter pressa em se afastar. Se eles não perceberem o seu disfarce, eles não vão olhar para ela, vão?
Ela sorriu. Gostava que ele estivesse se preocupando com sua segurança, mesmo que estivesse totalmente confiante em sua capacidade de disfarce. Ela estendeu a mão manchada de sujeira para tocá-lo.
— Você está certo. Vou me sentir mais segura sabendo que você está vendo tudo.
A falta de confiança no disfarce de Alyss acabou sendo infundada. Quando ela mancou de volta para o acampamento, poucos minutos depois, carregando a lenha que Will tinha coletado enquanto ela se disfarçava, nenhum dos nômades mostrou o menor interesse por ela.
À medida que o dia passava, eles gritavam para ela de tempos em tempos, atribuindo alguma tarefa, as difíceis ou desagradáveis que eles não queriam fazer. Em várias ocasiões, quando ela tinha intencionalmente atrasado no cumprimento das suas tarefas, foi punida com chutes ou socos na cabeça. Ela reagiu exatamente como tinha visto Hilde fazer, choramingando de dor e medo e tentando cobrir a cabeça com os braços dobrados.
Ela fazia uma performance magistral. Vê-la, com Hilde cochilando tranquilamente alguns metros mais para trás na floresta, fazia com que Will contraísse seus lábios de forma apertada a cada vez que Alyss era atingida. Ele marcou os nômades responsáveis. Uma vez que isto acabe, ele pensou sombriamente, vou retribuir esses golpes...
Quando a tarde passou, ele percebeu que Alyss tinha conseguido os enganar e começou a relaxar. Ele acordou Hilde quando crepúsculo apareceu. A velha não tivera um descanso longo e ininterrupto como este em anos e acordou com relutância.
— Como está o disfarce da senhora? — ela perguntou e ele deu um sorriso tranquilizador para ela.
— Perfeito. Os nômades não tem ideia de que você se foi. Quer ver?
Ele levou-a cuidadosamente para frente através das árvores e ela se agachou nas sombras observando como Alyss mancava ao redor do campo, despejando pilhas de lenha em cada lareira, preparando a iluminação para o preparo da refeição noturna.
Hilde ficou fascinada ao observar seu álter ego no trabalho. Em uma ocasião, quando um dos nômades jogou um pedaço de lenha em Alyss, atingindo-a na perna, ela fez uma careta de simpatia.
Eventualmente, Will tocou seu braço e retirou-se para as árvores, indo para o local onde os cavalos estavam amarrados. Ela pulou ao lado dele, inclinou-se apoiando inabilmente. Mas depois de um tempo, olhou para ele, esboçando um sorriso em seu rosto enrugado.
— Sorte que não tenham notado que ela não é tão bonita quanto eu — ela falou, e depois gargalhou.
Will parou para olhá-la, com as sobrancelhas levantadas.
— Você acha que é mais bonita do que ela? — perguntou, incrédulo.
Ela gargalhou novamente.
— Claro que sou. Afinal de contas, eu tenho um vestido verde bem novo!
Não tenho resposta para isso, ele pensou.


Alyss passou uma noite desconfortável, tremendo sob uma das casas móveis, envolta no cobertor puído de Hilde. Ela tentou não pensar nas pequenas criaturas que, sem dúvida, dividiam o cobertor com ela, e pela manhã estava coberta de picadas vermelhas que coçavam miseravelmente.
— Tudo faz parte do disfarce — disse a si mesma.
Ela tinha perguntado à Hilde como eram as tarefas que ela realizava. Ela carregava água e madeira, alimentava as cabras e galinhas e limpava a as panelas da cozinha com areia e água. Se as mulheres nômades eram cozinheiras relutantes, as limpadoras eram ainda mais relutantes.
De tempos em tempos, os homens ou as mulheres a chamavam para realizar algumas outras tarefas servis, como limpar as botas que tinham sido sujas com excrementos de vaca ou cachorro, bater a poeira de um tapete tirado de uma caravana.
Por volta das onze horas, ela viu o garoto Petulengo abordando a moradia de Jerome e esperando ansiosamente fora dela.
Esta era a oportunidade que ela estava esperando. Ela correu para o lugar em que dormiu e buscou um grande cesto de lenha. Quando fez isso, ouviu a porta da casa de Jerome se abrir e seus passos pesados ecoarem ao descer pelos degraus. Ela olhou furtivamente em sua direção. Mais uma vez, ele estava carregando o saco pesado, manchado de sangue. Mais uma vez, ele teve que espantar os cães do acampamento para longe. Ele balançou a cabeça quando viu que Petulengo já esperava por ele.
— Que bom pra você — disse ele. — Eu não gosto de ficar esperando.
O menino não disse nada, apenas seguiu atrás do nômade pesado. Eles se dirigiram na mesma direção que tinham tomado no dia anterior. Alyss, com o cesto de lenha a tiracolo, mancou lentamente atrás deles. Ela sabia que, enquanto Petulengo estivesse lá, impediria qualquer estranho de seguir Jerome, mas Hilde era uma figura familiar e não ameaçadora. Ela acreditava que seria ignorada e poderia descobrir onde Jerome tinha escondido Ébano. E enquanto estava seguindo os dois nômades, Will a seguia também, mantendo-se bem para trás. Esse era o plano que tinham combinado no dia anterior.
Ela havia deixado as casas móveis para trás, indo na mesma direção em que Jerome e o menino iam, quando uma voz estridente a parou.
— Hilde! Onde você vai, sua velha inútil? — era uma das mulheres mais jovens do acampamento.
Ela estava inclinada sobre os trilhos na plataforma traseira de seu dormitório, acenando com urgência para Alyss.
Xingando baixinho, Alyss parou e levantou a cesta para que a mulher pudesse vê-la. Com uma voz trêmula, ela disse de volta:
— Buscando lenha, senhora! Estamos ficando sem!
A mulher considerou a resposta. Por um momento, Alyss pensou que ela ia chamá-la de volta ao acampamento. Mas, de qualquer forma, ela apenas balançou a cabeça.
— Colha algumas uvas vermelhas quando você estiver lá! — ela gritou. — Muitas delas. Camlo quer que eu faça vinho e eu estou sem!
— Sim, senhora! Eu vou buscar montes delas!
Então se virou e correu em direção às árvores antes que a mulher pensasse em outra tarefa para ela. Ela se inclinou e pegou alguns dos ramos mais leves, mantendo-se atenta para Petulengo. Ela seguiu um caminho em um ziguezague aleatório através das árvores, permitindo que as concentrações silenciosas determinassem seus movimentos. Ela conseguiu não perder o rastro dos dois nômades. Ocasionalmente, ela viu flashes da camisa amarela de Petulengo por entre as árvores. Se ele estivesse vigilante, ela pensou, teria me notado.
Ela decidiu pôr sua teoria à prova e mudou de caminho, indo diretamente na direção onde o menino estava sentado em um toco de árvore. Por pura sorte, havia um arbusto de uvas vermelhas a poucos metros dele. Ela se arrastou até ele, os olhos baixos, fingindo não perceber o menino. Com uma exclamação de prazer, ela começou a tirar os frutos da árvore, soltando-os no cesto de madeira.
— O que você está fazendo, bruxa Hilde? — Sua jovem voz tinha um tom desagradável.
Ela fingiu surpresa e empurrou os galhos para encará-lo, mantendo os olhos baixos, como Hilde teria feito. Ela imaginou que uma demonstração de sua inferioridade iria alimentar o ego do jovem e estava certa.
— Buscando uvas vermelhas, mestre — disse ela, mostrando o cesto de madeira. — A senhora Drina quer fazer vinho.
— Traga-as aqui — ele exigiu e ela se arrastou em direção a ele, segurando o cesto.
Ele pegou um grande punhado delas e começou a comer, o suco vermelho escorrendo pelo seu queixo.
— Nada mal — disse ele, rindo desagradavelmente. — Mas se você quer passar por mim, vai ter que me dar mais. Há um pedágio, você sabe.
A trilha estreita ia por entre as árvores atrás dele. Ela adivinhou que este era o caminho que Jerome tinha tomado e Petulengo vigiava ali para garantir que ninguém o seguisse sem ser visto.
Como esperava, Petulengo não a viu como uma ameaça. Ele estava obviamente disposto a deixá-la passar por um punhado de uvas. Ela balançou a cabeça de modo bajulador, escondendo o sentimento de exultação que subiu dentro dela.
— Eu vou buscar um pouco mais — ela falou e saiu mancando de volta para o arbusto.
Ela tirou uma quantidade considerável dos doces frutos da árvore, atingindo o mais alto que pôde para chegar até elas. Petulengo olhava sem curiosidade e depois se inclinou para frente quando ela voltou com o cesto, estendendo-o para ele.
Ele recolheu as uvas do cesto e ela choramingou um protesto.
— Mas isso é tudo que tenho, jovem mestre! E não há mais nenhuma no arbusto!
Ele sorriu para ela e cuspiu um jato de suco mastigado.
— É uma pena. Você terá que encontrar mais.
Ela se agachou, balançando a cabeça e lamentando. Então ela apontou para a trilha.
— Lá tem uma moita de arbustos de uva vermelha, eu sei.
Ele deu de ombros.
— Então vá conseguir mais. E certifique-se de ter o suficiente para comprar o caminho de volta.
Interessante, pensou ela. Ele não estava pensando em mudar de lugar, o que significava que Jerome devia estar em algum lugar por perto. Jerome e os cães. Ela esperava que Will estivesse por perto também, aguardando por ela para descobrir a localização da pocilga dos cachorros.
Ela passou mancando pelo sarcástico jovem e dirigiu-se para a trilha. Ela não tinha avançado dez metros quando ouviu o seu chamado.
— Hilde!
Ao mesmo tempo, ela ouviu o farfalhar de sua vara girando no ar. Ela teve o bom senso de não se virar e o grosso pedaço de madeira pegou na parte de trás de sua cabeça. Ela tropeçou e caiu, derramando sua lenha no chão. Petulengo riu.
— Cuidado com os seus passos, Hilde! A trilha é um pouco difícil por lá!
Xingando baixinho, tentando não deixá-lo ver o olhar assassino em seus olhos, ela levantou a seus pés e começou laboriosamente recolocar a madeira em seu cesto.
— Petulengo!
Ambos estavam assustados com o grito que veio de trás, da trilha. Petulengo levantou-se do tronco da árvore, olhando intrigado e um pouco nervoso.
— Sim, Jerome? — ele chamou.
— Está tudo limpo? — Jerome perguntou.
Desta vez, Alyss, fingiu ficar absorta na colheita da lenha, podendo jurar ter ouvido um grito rápido, cortado às pressas.
— Tudo limpo, Jerome.
Alyss sorriu para si mesma. Obviamente, ela não contava. Bem, um dia eles aprendem, pensou ela.
— Então venha aqui! Eu preciso de você.
— Estou indo, Jerome! — Petulengo começou a descer a trilha estreita.
Quando passou por Alyss, conseguiu chutar sua cesta, espalhando a madeira novamente. Ela ouviu o riso dele enquanto corria levemente pela trilha.
— Pequeno suíno — ela murmurou.

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