26 de janeiro de 2017

Capítulo 6

Logo após o amanhecer, eles estavam de volta ao seu posto de observação da noite anterior, vigiando o acampamento dos nômades. Por algumas horas, nada fora do normal pareceu ocorrer. Os nômades continuaram com sua rotina diária, como acender fogueiras, preparar café da manhã, limpeza e conserto de equipamentos e itens de vestuário.
Então, em torno do meio da manhã, Jerome, o homem corpulento da noite anterior, surgiu de um dos vagões. Ele estava vestido com uma camisa estampada brilhante que descia abaixo de seu quadril e tinha longas e volumosas mangas presas por abotoaduras de couro em cada pulso. Um cinto de couro pesado estava em torno de sua cintura e Will podia ver o punho de uma faca longa em uma bainha usada em seu lado esquerdo. Ele usava calça preta e botas até o joelho de couro marrom. De interesse mais imediato para Will, ele carregava um saco grande. Enquanto subia os degraus de seu vagão, dois dos cães do acampamento correram com a barriga rastejando no chão até ele e tentaram morder o saco. Ele os amaldiçoou e os manteve a certa distância.
— O que você acha que está no saco? — Will perguntou baixinho.
Alyss, deitada ao lado dele, envolto em seu manto marrom, olhou para ele.
— Pelo interesse dos cães, eu diria que é carne.
— Meu palpite é esse também — Will concordou.
Ele também haviam notado as manchas marrons de sangue seco no saco.
Jerome caminhou em direção ao outro lado do campo, então se virou e perguntou em direção ao acampamento.
— Petulengo! Onde você está, garoto?
— Estou indo, Jerome! — gritou uma voz estridente.
A porta de uma das caravanas abriu-se e um menino, não mais que doze ou treze anos pelo sua aparência, correu pelo conjunto de degraus, com sua camisa dobrada. Ele era moreno e tinha longos cabelos escuros.
— Da próxima vez, esteja pronto quando eu lhe chamar — disse Jerome. Ele obviamente não era do tipo que perdoava. — Agora, mantenha-se o tempo todo atrás de mim.
Ele caminhou na direção das árvores do outro lado da clareira. O menino tinha que correr para alcançar os passos largos de Jerome, mas ele ainda ficou alguns passos atrás dele.
— Espere aqui e fique de olho nas coisas — disse Will. — Eu vou ver onde o nosso amigo Jerome vai.
Era mais fácil dizer do que fazer. Ele teve que contornar em um amplo arco para ficar livre do acampamento, em seguida, mover-se ao longo da estrada até a orla da distante linha das árvores. Apesar de perder tempo fazendo isso, uma vez que ele entrou nas árvores, estava confiante de que alcançaria a trilha de Jerome em breve.
Ele estava errado. Ele encontrou o rastro do menino com bastante facilidade, mas Petulengo não ficara com o seu companheiro. Ele estava seguindo alguma distância atrás dele, despistando o caminho que Jerome fez com voltas e reviravoltas pelo seu caminho através da floresta. Jerome ziguezagueou tanto que não havia nenhuma forma de estabelecer uma base de qual era seu caminho e havia o perigo distinto de que Will seria descoberto por Petulengo.
O menino estava perigosamente alerta também. Várias vezes, quando Will fez um barulho ligeiro – era impossível mover-se em total silêncio – a cabeça do menino erguia-se e procurava ao redor, e Will tinha que congelar no lugar, escondido da vista por seu manto e sua própria capacidade de se ocultar na floresta.
Petulengo ficou tão atrás de Jerome que Will nunca avistou o nômade corpulento. Ele teve que se contentar em seguir o menino. Depois de um tempo curto, ele percebeu o quão eficaz o sistema dos nômades era. O menino, obviamente, sabia onde Jerome estava indo, então ele poderia ficar a uma grande distância atrás dele e efetivamente frustrar qualquer estranho que pudesse estar tentando localizá-lo – como Will estava fazendo.
Após 10 minutos, Will teve que admitir a derrota. Ele simplesmente não podia correr o risco de ser visto – isso poderia custar a vida de Ébano. Fervendo com a frustração, ele fez o seu caminho de volta à rotunda no local onde Alyss vigiava o acampamento. Ela viu pelo olhar no seu rosto que ele não havia tido sorte. Ela apontou para o acampamento.
— Eu acho que posso ter encontrado uma solução — ela disse.
Will olhou para onde seu dedo apontava e viu uma figura que não tinha notado antes. Era uma velha vestida de trapos imundos, com os cabelos longos, grisalhos e despenteados. Ela movia-se ao redor do acampamento, quase dobrada, recolhendo lenha da pilha de madeira central e distribuindo pelas fogueiras de cozimento individuais como combustível à disposição.
Com essa tarefa feita, ela encheu um balde de um barril de água grande anexado a uma das caravanas e começou a distribuí-la também.
Tornou-se óbvio que ela não era nada mais do que um burro de carga, uma besta de carga no campo. Se algum dos nômades chegasse perto dela, na melhor das hipóteses a ignoravam, ou cuspiam uma maldição para ela enquanto eles passavam. Um dos homens lhe deu um tapa na parte de trás cabeça. Ela se afastou dele, deixando cair o balde e derramando a água. Seu grito estridente de protesto foi recebido pelo riso indiferente do homem. Quando ela se abaixou para recuperar o balde, ele o chutou, fazendo-o rolar para longe dela. Ela arrastou-se para pegá-lo, uma mão instintivamente levantada para afastar outro golpe, choramingando e lamentando.
Ao mesmo tempo, uma porta abriu-se violentamente e uma mulher nômade, pelo menos 20 anos mais jovem que a mulher de cabelos grisalhos, gritou para ela:
— Hilde! Pegue mais água pra cá agora! O que você está fazendo, sua imprestável!
Hilde choramingou algo ininteligível e o homem que a fez a derramar a água rosnou para ela também. Ela mancou de volta para o barril d’água para encher o balde, perseguida pelos insultos grosseiros e ordens da mulher nômade.
No acampamento nômade, Hilde possuía a posição mais baixa de todas.
Will franziu a testa para Alyss.
— Não vejo como isso vai nos ajudar.
Ela sorriu para ele.
— Enquanto você se foi, eu ouvi um dos nômades dizendo a ela para pegar mais lenha. Vamos esperar até que ela deixe o acampamento. Então nós a seguimos e eu tomo o lugar dela.
— Você tem que estar brincando! — Will disse.
Ele olhou para a figura curvada da idosa, agora mancando de volta para a caravana com um balde cheio de água e depois para Alyss com o rosto fino, bonito e jovem.
— Você não acha que eles poderiam notar uma ligeira diferença em sua aparência?
— Eu não acho que eles a notam, exatamente — Alyss respondeu seriamente. — Eles não a veem como uma pessoa, mas sim como uma peça de equipamento ou algo para chutar, bater ou xingar quando estão de bom humor. Não se esqueça, eu tenho treinado para me disfarçar quando necessário. Se eu colocar cinzas e sujeira no meu cabelo e mancar por aí como ela, duvido que eles vão ver alguma diferença. Particularmente, se eu trocar de roupa com ela — ela estremeceu ligeiramente. — Essa é a parte que eu não estou querendo pensar muito.
Estudando a figura mancando, ele murmurou novamente.
— Você realmente acha que pode se passar por ela?
Alyss assentiu.
— Se ela fosse um deles, eu nunca iria me safar. Mas eles não tomam conhecimento dela. E as pessoas veem o que esperam para ver. Você me disse isso mais do que o suficiente.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos e ela continuou seu argumento.
— Desta forma, eu vou estar dentro de seu acampamento. Vou ser capaz de ouvir suas conversas e com alguma sorte, irei descobrir onde eles estão mantendo Ébano. Ou se Jerome e o menino saírem para a floresta, eu vou segui-los. Provavelmente vão pensar que eu/Hilde tenha ido colher lenha. E você pode acompanhar-me, à distância. Dessa forma, você pode ficar bem para trás, fora de vista. até descobrirmos onde estão escondendo Ébano.
— Eu não tenho certeza — Will respondeu. — Pode funcionar. Mas há uma grande chance...
— Estou disposta a arriscar. O que eles podem fazer para mim? Afinal de contas, você vai estar vigiando aqui da floresta, se eu for descoberta. E honestamente, acho que é a nossa única chance de encontrar Ébano.
— Deixe-me pensar — disse Will.
Ele sabia que se estivesse no lugar Alyss, ele não hesitaria em colocar o plano em ação. Mas ele estaria arriscando Alyss, assim como Ébano, e ele simplesmente não poderia tomar essa decisão.
— É melhor pensar rápido. Ela está deixando o acampamento.
Ele olhou para cima. Hilde estava caminhando em direção à floresta, um pequeno machado na mão e um transportador de madeira grande de vime pendurado no ombro. Ela estava indo para um ponto cinquenta metros ao norte de onde estavam escondidos.
— Tudo bem — ele concordou, tomando uma decisão. — Vamos fazer assim.
Foi fácil encontrar Hilde. O som do pequeno machado ecoava pela floresta com o corte dos pedaços de troncos caídos em comprimentos de fácil remoção. Will e Alyss andaram sem ser vistos por entre as árvores, cada vez mais longe do acampamento.
Quando eles sentiram que estavam a uma distância segura, Will andou em silêncio pelas árvores na frente dela. Para Hilde, parecia que o jovem de manto cinza-esverdeado de repente se materializou do ar. Ela engasgou com medo e cambaleou para trás com uma mão levantada na frente de seu rosto. Will reconheceu o gesto. Era aquele que as pessoas mais velhas usam para afastar o que chamavam de “mau olhado” de estranhos.
Ele também observou que, embora tivesse o machado na outra mão, ela não fez nenhum movimento para defender-se com ele, nem para ameaçá-lo. Os instintos de autoproteção de Hilde pareciam ter sido entorpecidos por estar com os nômades.
— Relaxe, Hilde — ele disse suavemente. — Eu não vou te machucar.
— Quem é você? Como você sabe meu nome? Eu não fiz nada errado! — ela balbuciava, ainda evitando o olhar dele.
Ele olhou para Alyss, de pé escondida nas árvores, e fez um gesto: preciso de ajuda aqui!
Alyss moveu-se para o campo de visão e Hilde recuou quando viu ela.
— Está tudo bem, Hilde — Alyss disse em uma voz suave. — Nós não vamos te machucar. Estamos aqui para ajudá-la.
Talvez a visão de uma outra mulher deu maior confiança a Hilde. Lentamente, ela baixou o braço que tinha levantado para proteger o rosto. Ela se inclinou para frente, um pouco mais de perto Alyss. Alyss deu um sorriso encorajador para ela. Tinha sido dito muitas vezes que o sorriso de Alyss era uma visão que valia a pena e pareceu ter um efeito calmante sobre a mulher mais velha.
— Quem é você? — Hilde perguntou.
— Meu nome é Alyss, e este é meu amigo Will — ela apresentou-os, indicando o jovem arqueiro.
Hilde olhou para ele, toda as suspeitas e o medo de volta ao seu rosto enquanto ela o fez. Alyss continuou rapidamente.
— Hilde, por que os nômades são tão cruéis para com você?
Era a abordagem certa para tomar, Will percebeu. Alyss colocou-se no lado de Hilde. A velha fungou, limpando o nariz com o fim esfarrapado de sua manga.
— Cruéis? Monstros, isso é o que eles são. Batem-me, sem motivo. Xingam-me e me chutam. E eu tento fazer meu melhor para eles, mas estou velha agora. Não posso me mover tão rápido quanto antes. Eu tento, mas sou muito lenta e eles me batem por isso.
— Mas você não é um deles? — Alyss perguntou.
Ela tomou a mão da velha suavemente em sua própria e Hilde olhou para ela com olhos marejados, olhos cuja cor pareciam lavados pela idade.
— Um deles? Não. Sou de Gálica. Pelo menos eu era. Quando o meu marido morreu, a aldeia não tinha mais utilidade para mim. Tomaram minha fazenda. Eles me jogaram para fora como um nada. Deixaram-me à minha própria sorte. Os nômades me acolheram e eu fiquei grata no início, mas depois de um tempo, eles mostraram quem realmente eram. Poderia ter sido mais fácil morrer. Eu estou com eles por... — ela fez uma pausa e um olhar vago entrou em seus olhos. — Eu não sei por quanto tempo.
— Por que você ainda fica com eles? — Will perguntou e ela olhou para ele.
Até agora ela parecia aceitar que, se ele era amigo de Alyss, ela não tinha nada a temer dele.
— Onde mais eu poderia ir? Ninguém quer uma mulher velha. É ficar com os nômades ou morrer de fome — ela riu de repente, uma gargalhada áspera que não tinha humor — não que eles me alimentam bem. É apenas o resto para mim, qualquer coisa que não é bom o suficiente para os cães.
Alyss e Will trocaram um rápido olhar.
— Os cães — disse Alyss. — Os cães no acampamento?
— Esses mesmos. E também o outr... — ela parou, um brilho medo em seus olhos — sim, os cães no acampamento — ela emendou rapidamente. Com um enorme esforço,
Will se impediu de olhar para Alyss novamente. Ele desviou o olhar casualmente.
— Por que você não simplesmente fugiu? — Alyss perguntou.
Hilde olhou para ela como se a pergunta era insana.
— Como? Onde eu iria? Eu não tenho nada. Se eu tentasse fugir, eles viriam atrás de mim e me arrastariam de volta. Uma mulher velha como eu não pode correr rápido. Não há nada que eu possa fazer. Estou presa com os nômades e eu vou ter que fazer o melhor que puder — sua voz estava pesada com a inevitabilidade da sua situação.
— Hilde — Alyss começou lentamente — se você pudesse fugir dos nômades, você fugiria?
— Bem, é claro! — Hilde respondeu ansiosamente. Então a realidade a dominou mais uma vez. — Mas como? Eu não posso correr. E o que eu faria se fugisse? Não, é loucura sequer pensar nisso.
— Nós podemos ajudá-la — Will falou e ela olhou para ele com desconfiança.
— Por que vocês fariam isso?
— Vamos apenas dizer que temos contas a acertar com esses nômades — Will respondeu.
Ela vacilou. A ideia de escapar de sua vida atual era atrativa.
— Mas o que eu faria? — perguntou ela.
Alyss respondeu dessa vez.
— Nós temos uma amiga que é dona de um restaurante. Tenho certeza de que você poderia trabalhar para ela. Vai ser muito mais fácil do que você faz aqui e ninguém vai chutar ou xingar você.
— Mas você teria que trabalhar — avisou Will e ela voltou seu olhar para ele.
— Eu não tenho medo de trabalhar. Eu não espero enriquecer, mas me pagarem um pouco, deixarem-me ter um pouco para comer e dar-me algum lugar quente para dormir... isso seria como estar no paraíso.
— Tenho certeza de que Jenny iria dar-lhe muita coisa para comer — disse Will. — E ela é uma excelente cozinheira.
— Nós vamos dar-lhe algum dinheiro por este momento — Alyss acrescentou. — E Will pode levá-la para outra aldeia para esperar por nós. Temos cavalos, então ele vai te levar longe o suficiente para estar a salvo dos nômades.
Hilde ainda vacilou.
— Você tem certeza que essa sua amiga vai me dar um emprego?
Alyss concordou enfaticamente.
— Se pedirmos a ela, sim. Vai ser um trabalho leve e você terá uma vida boa, Hilde. E, para selar o negócio, você pode ter este meu vestido fino.
Os olhos de Hilde se arregalaram com as suas palavras. O vestido era bastante simples, mas era feito de lã de boa qualidade, suave e quente ao toque. E estava sem remendos e limpo, de forma infinitamente melhor do que os trapos que ela estava usando.
— Mas o que você vai vestir? — ela perguntou.
Alyss fez um gesto para a saia esfarrapada Hilde, a blusa e xale.
— Eu vou trocar com suas roupas.
Hilde franziu a testa, intrigado com a ideia.
— Por que você quer usar estas roupas?
Alyss permitiu-se o esboço de um sorriso.
— Acredite, eu não quero. Mas é necessário para o que temos em mente.

7 comentários:

  1. Gente, se fosse semideusa, sem dúvida uma filha de Atena, e Will...filho de Apolo! Meu Deus, tenho q parar de comparar os livros que leio...

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    1. Pois é... Apolo pelo arco, ou Atena pela estratégia? De qualquer maneira, filho de um, benção do outro :P
      E na hora lembrei do Solace, mais um Will no chalé 7?

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    2. Acho que o Will seria um filho de Apolo pelo a habilidade nata com o Arco e a Música, sem falar da habilidade de se camuflar como os filhos de Apolo, Entretanto acho que ele teria a Benção de Atena, porque ele é muito inteligente.
      Alyss com certeza filha de Atena. hahahahha

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    3. Concordo com vc Lucas
      Ass: Lua

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  2. Na verdade, a Alyss seria filha de Afrodite com bênção de Atena, e o Will de Apolo.
    Ass: Lua

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    1. Ela é linda, diplomática e tem charme e é sedutora (principalmente seu sorriso)todos homens que encontra ela fala de sua beleza, mas a respeitam pelo interesse que Will tem por ela...

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Boa leitura :)