26 de janeiro de 2017

Capítulo 5

Os nômades continuaram rumo ao sul. Will e Alyss encontraram os sinais do acampamento do dia anterior ao lado de uma estrada num campo aberto. O solo macio mostrava sinais de marcas de rodas das caravanas, e havia vários círculos escurecidos na grama onde os nômades tinham acendido suas fogueiras. Will desmontou e tocou as cinzas.
— Frio. Eles ainda estão um bom caminho a nossa frente.
Talvez, como sugeriu Alyss, os nômades estivessem desacelerando, tendo deixado a cena imediata de seu roubo para trás. Will assentiu. Era uma possibilidade.
No meio da tarde do terceiro dia, eles encontraram a caravana. Alyss e Will estavam em um trecho longo e plano da estrada quando viraram uma curva e viram o acampamento apenas algumas centenas de metros à frente. Cinco casas móveis, que faziam parte da caravana, estavam distribuídas em um espaço plano e aberto para formar uma área delineando o acampamento. As pessoas estavam se movendo de um para outro e várias fogueiras estavam enviando espirais lentas de fumaça cinza no ar. Em algum lugar, alguém estava tocando uma cítara. A música tinha uma pequena harmonia assombrosa e o ritmo tinha um sentimento, mexendo estranhamente com ele.
O primeiro instinto de Alyss quando viu o acampamento foi de parar o cavalo, mas Will viu o movimento de sua mão nas rédeas e a impediu no mesmo instante.
— Continue cavalgando. Nós não queremos que eles pensem que estamos procurando por eles. Vamos a rumo àquela aldeia na montanha.
Eles podiam ver os telhados de uma pequena aldeia acima das árvores. E a fumaça de suas fogueiras subia de chaminés. Enquanto cavalgavam lentamente, estudavam o acampamento. Havia vários cães visíveis, mas nenhum deles mostrou ser Ébano com sua coloração branca e preta distinta. Um deles rosnou para eles e foi recompensado com um chute de um nômade que passava por perto. O cão gemeu e afundou em sob uma das caravanas.
— Você está os observando? — Alyss perguntou. — Isso não vai nos denunciar?
Will balançou a cabeça.
— Seria mais natural ignorá-los, porém eles estão acostumados a estranhos olhando para eles. Mas se olharmos muito, eles podem suspeitar de algo.
Ele podia ver mais detalhes agora. Os cavalos que puxavam as casas ambulantes foram presos em um pequeno curral, rodeados por uma cerca de madeira erguida às pressas – longas vigas colocadas sobre um suporte em forma de “X”. Em um lado, três mulheres estavam dobradas sobre uma grande banheira, trabalhando ativamente. Enquanto observava, uma delas levantou-se, torceu uma camisa de cores vivas e a pendurou numa corda esticada entre duas árvores. Em seguida, ela voltou a lavar outra peça. Já havia várias camisas e itens de roupas íntimas penduradas friamente sobre a corda.
— Dia de lavar roupa — comentou Alyss.
— Parece que eles estão aqui há alguns dias, pela quantidade — Will notou. — Não é de estranhar. Eles estavam movendo-se rapidamente desde que deixaram Wensley. Provavelmente estão descansando.
Quatro homens estavam sentados em torno de uma fogueira em bancos baixos, passando um frasco de mão em mão. Eles olharam para os dois viajantes enquanto cavalgavam lentamente. Mesmo à distância, os dois jovens podiam sentir a frieza nos olhares.
— Parece que os visitantes não são bem-vindos — Will observou.
Agora que atravessaram o acampamento, seria atípico mostrar muito interesse se logo em seguida girassem em suas selas e olhassem de volta para lá. Mas Will tinha agora uma boa ideia de sua disposição.
— Eu pensei que montariam acampamento próximo às árvores — disse Alyss.
O acampamento estava cercado por várias centenas de metros de terreno aberto para todos os lados.
Will balançou a cabeça.
— Ficar lá fora, em campo aberto, torna muito mais difícil de chegar perto do acampamento sem ser visto — ressaltou. — Halt estava certo sobre essas pessoas. Elas não vão ser fáceis de enganar.
Ele já havia decidido que iria voltar para o acampamento naquela noite para reconhecimento. Mas agora tinha algumas dúvidas. Se os nômades fossem tão astutos como Halt tinha dito, poderia ser difícil chegar perto o suficiente para ouvir qualquer coisa útil, mesmo para um arqueiro qualificado. E havia aqueles cães, relembrou. Eles estariam rondando o acampamento à noite, em estado de alerta para os sons ou cheiros estranhos. Os cães poderiam tornar as coisas muito difíceis para um intruso honesto, pensou ironicamente.
A vila na colina tinha uma pequena taverna, mas nenhuma pousada. No entanto, o taberneiro arrumava um espaço em seus estábulos para os viajantes e Will e Alyss estavam felizes de se contentar com mais uma noite enrolados em seus cobertores sobre camas de palha. O fato de que eles não estavam no edifício principal também significava que seria mais fácil para Will para escapar naquela noite e estudar o acampamento dos nômades.
Comeram primeiro e depois se retiraram para o estábulo, presumivelmente para dormir. Enquanto Will preparou seu equipamento, foi surpreendido por dar de cara com Alyss na tenda que ele estava usando como quarto. Ela estava usando uma escura calça justa e um casaco preto comprido com cinto. Sua pesada adaga de mensageira foi revestida a seu lado e ela também usava o manto marrom escuro.
Era óbvio que tinha a intenção de acompanhá-lo e ele abriu a boca para expressar sua recusa, mas Alyss ergueu a mão para detê-lo.
— Eu irei — disse ela. — Pense no que disse Halt. Logicamente, sou eu quem devo fazer contato com os nômades. Eu irei junto.
— Sim — Will concordou — mas...
— Eu não vou tentar chegar perto. Vou deixar isso para você. Ficarei na cobertura das árvores, vendo tanto quanto eu puder. Depois, você pode me contar os detalhes.
Will hesitou. O que ela disse fazia sentido, ele percebeu. E ele podia contar que Alyss não faria nada precipitado. Ele balançou a cabeça rapidamente.
— Tudo bem. Vamos lá.
Evitaram a rua principal, deslizando por um beco ao lado de uma estrada de serviço que se estendia paralelamente e levava para fora da aldeia. Uma vez que foram para longe do pequeno aglomerado de edifícios, a estrada se esgotou e eles estavam andando em um campo aberto recentemente para a colheita. A borda das árvores estava a uns cinquenta metros de distância.
Suas botas feitas para não fazer barulho passaram suavemente sobre o frágil restolho recém-cortado do campo enquanto eles se apressaram para o acampamento nômade. Na última metade do quilômetro, eles mantiveram-se abrigados na escuridão da floresta, até que chegaram a um ponto onde podiam ver o acampamento.
As chamas estavam queimando em duas das fogueiras e dois dos vagões tinham janelas iluminadas pela luz de lanternas amarelas. Os outros três estavam escuros. Havia ainda várias figuras sentadas no espaço aberto em torno de uma das fogueiras – dois deles eram homens e a terceira era uma mulher.
— Fique aqui — Will falou no ouvido Alyss. — Eu vou tentar chegar mais perto.
Ela assentiu e ele deslizou para longe da árvore em que se abrigavam, rastejando através da grama, muito úmida. Havia poucos arbustos ou árvores que ele poderia usar como abrigo, então ele se movia lentamente, às vezes esperando em um local por vários minutos até que uma nuvem cruzasse o céu formando um pedaço de escuridão para ele se deslocar.
Ele estava a cinquenta metros do acampamento quando um dos cães levantou a cabeça e latiu hesitante. Ele congelou onde estava. Ouviu um homem chamar o cão e, em seguida, um grunhido de esforço quando ele se levantou de seu assento baixo a ponto para a escuridão.
— Vê alguma coisa? — a mulher perguntou-lhe.
— O fogo está muito intenso.
— O cão ouviu alguma coisa, senão ele não teria latido — disse ela.
Ele bufou com desdém para ela.
— O cão é um tolo. Provavelmente ouviu um texugo ou uma doninha.
— Talvez você devesse ir olhar — ela sugeriu, e ele reagiu com indignação às palavras.
— Talvez você devesse! Já que você teve essa boa ideia, você é quem deveria verificar.
— Eu não sou um homem.
Havia um tom defensivo na voz dela e Will lembrou as palavras de Halt sobre como os homens nômades desprezavam suas mulheres.
— Não é meu trabalho.
— É isso mesmo, mulher. Seu trabalho é limpar, cozinhar, consertar as minhas roupas e manter a boca fechada. Então eu sugiro que você comece com essa última parte agora!
— Eu vou para a cama — disse ela, com raiva em sua voz.
Seu marido a olhou ir.
— Mulheres! — disse ele com desgosto. — Você tem sorte de não ser casado, Jerome.
— Eu não tenho certeza — o homem chamado Jerome respondeu pesadamente.
Ele balançou a jarra experimentalmente, decidiu que estava vazia e jogou-a de lado. Seu companheiro bocejou e se espreguiçou.
— Bem, eu vou pra cama também — disse ele depois de alguns instantes.
Ele se levantou e foi cambaleando em direção ao vagão em que sua esposa entrou, tropeçando nas escadas, então batendo a porta atrás dele quando entrou. Obviamente, Will pensou, aquele não tinha sido o único jarro que ele havia bebido naquela noite.
Como apenas restava Jerome, não havia chance de ele ouvir mais nada. Lentamente, Will se afastou do campo e deslizou silenciosamente de volta para as árvores, onde Alyss o esperava.
— Bem? — Disse ela com expectativa.
Ele encolheu os ombros.
— Não ouvi nada muito útil para nós. Exceto o que Halt disse sobre a atitude dos homens para com as mulheres. Parece que mulheres nômades não tem a opinião respeitada pelos homens.
— Então o que faremos? — Alyss perguntou.
Will hesitou por alguns minutos.
— Precisamos saber mais sobre eles — ele falou finalmente. — O que eles fazem. Como se comportam. Quais e como são suas rotinas.
Ele mastigou cuidadosamente o interior do lábio. Estava muito consciente da advertência de Halt de que os nômades seriam um alvo difícil. Ele não podia se dar ao luxo de cometer um erro que poderia deixá-los saber que estavam sendo perseguidos.
— Nós vamos voltar amanhã e apenas observá-los por algumas horas, para ver se há alguma fraqueza que podemos explorar. Neste momento, vamos voltar para a taberna. Eu poderia usar uma xícara de café para aquecer-me.
Continuando abaixados, eles rastejaram de maneira calma, dirigindo-se de volta para as árvores. Quando já não podiam ver as luzes do acampamento através dos espessos troncos de árvore, eles se endireitaram e aumentaram o ritmo.
De volta ao vilarejo, eles escorregaram despercebidamente na taverna. Era tarde, mas ainda havia uma dúzia de clientes bebendo e falando alto, como as pessoas tendem a fazer quando o álcool está envolvido. Três homens estavam sentados em uma mesa perto do bar, jogando dados. Como Will e Alyss esperaram por seu café, ela assistiu o progresso do jogo com interesse moderado. Um dos jogadores tinha acabado de ganhar uma mão grande e estava contando seus ganhos, quando ele se tornou consciente de que estava sendo observado. Ele olhou para cima e sorriu para ela. Afinal, ele estava de bom humor e Alyss era uma menina extremamente bonita.
— Boa noite, linda — ele disse a ela. — Parece que você me trouxe sorte. Quer se sentar com a gente?
Alyss sorriu para ele. Seu tom era amigável e ela mal podia esperar costumes da corte de um trabalhador simples.
— Eu temo que não. Não posso deixar meu namorado esperando muito.
— Ele pode se juntar a nós também — disse um dos outros jogadores. — Nós sempre damos boas-vindas a estranhos e seu dinheiro.
Todos riram e Will sorriu para eles também.
— Acho que não, senhores. Minha bolsa já está muito leve.
— Não gosta de jogar? — o terceiro homem na mesa perguntou, e Will e sacudiu a cabeça, sorrindo tristemente.
— Até demais, eu temo. É por isso que minha bolsa está tão vazia.
Isto provocou uma risada simpática dos jogadores. Eles conheciam esta condição muito bem.
— É uma pena — disse o primeiro homem . — Você teria uma chance de ganhar algum dinheiro no domingo. Há uma grande brig...
Mas antes que pudesse completar a afirmação, um dos outros pegou seu pulso.
— Isso já é o suficiente, Randell! — o outro homem disse apressadamente. — Não há necessidade de ir espalhando sobre isso ao mundo!
— O quê? Oh... não! Desculpa! — o homem parecia surpreso com o aviso. Ele baixou os olhos do olhar de Will. — Esqueça o que eu falei — ele murmurou.
Seu amigo sorriu se desculpando.
— Ah, Randell às vezes ele fala de mais, meus jovens amigos. Não deem atenção. Nenhuma atenção.
— Claro — Will abriu as mãos para indicar que ele entendeu. O café tinha chegado e ele tomou isso como uma oportunidade de terminar a conversa. — Boa noite, cavalheiros — ele despediu-se, e andou com Alyss para uma mesa no fundo da sala.
Enquanto eles caminhavam através das cadeiras e mesas, ele ouviu mais algumas palavras da conversa dos jogadores dados.
— Você está louco, Randell? — perguntou o terceiro homem.
Ele estava obviamente tentando manter a voz baixa, mas a intensidade de suas palavras as fez chegar aos ouvidos atentos de Will.
— Você não pode sair contando aos estranhos sobre... — Parou-se, em seguida, terminou — Você-sabe-o-quê.
— Desculpe! Desculpe! — era Randell agora, chateado com o seu descuido. — Ainda assim, nenhum dano foi feito e eles parecem inofensivos. Não é como se...
O resto de suas palavras perderam-se no burburinho de vozes baixas na taberna. Quando se sentaram, Will e Alyss trocaram olhares significativos. Então ela sorriu para ele.
— Ria! — disse ela. — Ria de maneira ruidosa. Agora!
Confuso, ele jogou a cabeça para trás e riu. Ela juntou-se, em seguida, tocou sua mão com carinho e tomou um gole de seu café. Ainda sorrindo, ela disse calmamente:
— Não quero que eles pensem que nós estamos falando sobre o que aconteceu.
Ele assentiu, com um largo sorriso. Parecia estranho estar falando sério, mantendo um sorriso feliz fixo em seu rosto. Mas Alyss era experiente neste tipo de artimanha e ele se permitiu ser guiado por ela.
Ela se inclinou em direção a ele e passou a mão carinhosamente pelo seu rosto.
— Vamos tentar parecer como se nós estivéssemos tendo uma conversa romântica.
Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo, e pegou sua mão suavemente e roçou seus lábios nela.
— O que você achou de tudo isso? — ele perguntou, depois olhou timidamente ao redor da sala, como se envergonhada que as pessoas pudessem estar assistindo o show de afeto. — Continue sorrindo — ela advertiu quando o viu franzir a testa, pensativo.
Às pressas, ele ajustou sua expressão.
— Vai acontecer algo no domingo. Algo que envolve jogo e a chance de ganhar muito dinheiro.
— Então — ela falou, enrolando seus cabelos para o lado num coque — é algo fora do comum. O que isso sugere?
Ele poderia dizer que os dois estavam pensando da mesma forma.
— Briga de cães — ele respondeu — é por isso que os nômades se instalaram. Eles organizarão uma briga de cães em algum lugar da floresta na domingo.
— Amanhã é quinta — Alyss falou, pensativa. — Isso nos dá um pouco de tempo.
— Não muito — disse Will. Todo o fingimento com sorrisos e romance havia acabado agora. — Nós ainda não sabemos como encontrar Ébano. Precisamos começar amanhã cedo.

2 comentários:

  1. Karina, achei um errinho aqui:
    " Ele se levantou e foi cambaleando em direção ao vagão WM (EM) que sua esposa entrou

    ResponderExcluir
  2. Nossa, momento romântico entre Will e Alyss!
    Ass: Bina.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)