26 de janeiro de 2017

Capítulo 4

Com uma expressão sombria, eles partiram duas horas depois.
Atendendo a recomendação de Halt, Will tirou seu manto verde e cinza que o identificava como um arqueiro e o escondeu junto ao seu cobertor. Ele manteve seu arco e flechas no estojo de lona, pendurado na sela de Puxão.
Alyss também havia trocado a sua túnica branca que a distinguia como mensageira. Em vez disso, ela usava um vestido verde de tecido rústico e um manto de lã marrom. A escolha de cores fora intencional. Elas iriam ajudá-la a se misturar com a paisagem pela qual eles estariam viajando.
Perguntas feitas em vilas e em algumas fazendas distantes lhes disseram que os nômades estavam se movendo para o sul. Eles estavam viajando em um comboio de cinco caravanas, acompanhados de uma variedade de cavalos, cães e cabras. Nenhum dos moradores locais que eles encontraram na estrada havia visto um border shepherd branco e preto entre os cães. Também não haviam visto nada que pudesse se parecer com um cão de briga, mas isso não era surpresa.
— Cães de briga são ilegais — Will disse a Alyss — eles devem mantê-los fora de vista. E, claro, Ébano foi roubada. Eles devem manter ela escondida também.
Embora os nômades tivessem três dias de vantagem e boa parte de um quarto dia, ele esperava alcançá-los rapidamente. Afinal, sempre que avistara nômades se movendo, eles estavam viajando a um passo pouco mais rápido que uma caminhada.
Porém, até o fim do segundo dia. Ele perguntou em uma fazenda e descobriu que as caravanas haviam passado por ali dois dias antes. Ele ficou intrigado com isso e mencionou o fato a Alyss.
— Eu perguntei a Lady Pauline sobre os nômades quando fui ao castelo buscar meus apetrechos de viagem — ela disse. — Ela teve algum contato com eles ao longo dos anos. Me contou que isto é uma prática normal, eles se movem em um passo mais acelerado nos primeiros dias, particularmente se roubaram alguma coisa. Assim, já estarão bem longe do vilarejo quando descobrirem o roubo.
— Faz sentido — Will disse.
Ele olhou para o céu. O sol estava quase se pondo e restava apenas mais meia hora de luz.
— Você se importa se nós continuarmos após o anoitecer por algumas horas? Tentaremos encontrar uma fazenda para passar a noite, ao invés de levantar acampamento no escuro.
— Por mim tudo bem — Alyss concordou.
Ela compartilhava da ansiedade de Will em alcançar o bando. O medo de que poderiam fazer Ébano competir com um feroz cão de briga todos os dias agora preenchia a mente de ambos.
A lua se ergueu depois do anoitecer, banhando a paisagem ao redor deles com uma pálida luz azulada. Eles cavalgaram em silêncio até que, por volta das nove horas da noite, avistaram uma janela iluminada em uma pequena casa de fazenda.
— Melhor parar aqui — Alyss avisou. — Fazendeiros vão para a cama cedo. Se nós esperarmos mais tempo, teremos que acordá-los. E provavelmente eles não vão gostar disso.
Alyss se provou estar certa. Quando eles se aproximaram da casa, acompanhados pelos latidos furiosos de um par de cachorros da fazenda, eles foram recebidos por um fazendeiro que apareceu na porta com uma lanterna na mão. Ele já estava vestido com uma camisola e era claro que estava pronto para ir para a cama.
— O que vocês querem? — ele perguntou desconfiado.
Conscientes dos cachorros que pareciam ansiosos para chegar até eles, Will e Alyss permaneceram fora do quintal cercado da casa de fazenda.
— Nós somos viajantes — Will disse em resposta. — Minha irmã e eu estamos procurando hospedagem para a noite. Nós ficaremos felizes em pagar pelo seu incômodo.
O fazendeiro fez uma pausa. A ideia de pagamento era, obviamente, atrativa para ele.
— Desmontem e venham aqui. Vamos dar uma olhada em vocês — ele disse.
Will desmontou, Alyss o seguiu. Ele parou com a mão no trinco e acenou em direção aos dois cachorros.
— Quanto aos cachorros tudo bem? — ele perguntou.
O homem acenou.
— Eles não farão nada, a menos que eu diga para fazer. Quietos vocês dois! Fiquem quietos! — ele gritou repentinamente para os cachorros e eles sentaram instantaneamente.
Os latidos pararam, mas eles continuaram rosnando baixinho, como se esperando permissão para rasgar em pedaços os intrusos.
Will e Alyss avançaram lentamente pelo quintal. Will observou, um pouco divertido, que Alyss conseguiu mantê-lo entre ela e os cachorros.
Os cães moveram-se, com os corpos trêmulos devido à tensão de ter dois estranhos se aproximando. Mas o controle do fazendeiro sobre eles era total. O fazendeiro segurou a lanterna no alto enquanto eles se aproximavam. Quando ficaram a três metros, ele pediu para que parassem.
— Já estão perto o suficiente — ele disse.
Estudou-os por vários minutos. Will percebeu que ele segurava a lanterna com a mão esquerda. Na mão direita, que ele mantinha junto ao corpo, segurava uma clava com pontas de ferro. Atrás dele, Will viu alguém se movendo dentro da casa, ouviu uma voz masculina perguntar algo. Um irmão, talvez, ou um filho mais velho.
— Parece estar tudo certo com eles — o fazendeiro respondeu por cima do ombro. — Apenas um par de jovens. Eles parecem inofensivos.
Alyss deu um sorriso após essas palavras. Will possuía um rosto juvenil e inocente, mas descrevê-lo como inofensivo era algo tão longe da verdade que chegava a ser engraçado. Ele provavelmente seria a pessoa mais perigosa em que esse fazendeiro já pôs os olhos.
— Nós não podemos deixá-los ficar na casa — o fazendeiro disse. — Tem seis de nós aqui.
— O celeiro estaria bom — Will respondeu. — Nós apenas queremos um teto sobre nossas cabeças. Parece que vai chover.
O fazendeiro olhou para cima e cheirou o ar experimentalmente.
— Sim — ele concordou — choverá antes do sol nascer, com certeza. Eu quero sete moedas de cobre pela hospedagem. E nós não temos comida para vocês — ele acrescentou rapidamente. — Nós já comemos e já apagamos o fogo para a noite.
— Tudo bem. Nós temos nossa própria comida — Will remexeu em sua bolsa presa em seu cinto. — Eu tenho poucas moedas de cobre, então darei uma coroa de prata no lugar.
A coroa valia dez moedas de cobre, mas ele ficou feliz em pagar o extra se isso significava que ele e Alyss poderiam passar a noite em um abrigo. O fazendeiro colocou a lanterna no chão e estendeu a mão, com polegar e o indicador juntos.
— Uma coroa de prata, então — ele concordou.
Will deu um passo a frente. Um dos cachorros, o malhado grande, tremia e choramingou quando ele se aproximou. Ele notou que embora parecesse que estava sentado, seus músculos estavam tão tensos que sua parte traseira pairava a vários centímetros do chão. Ele rosnou quando Will entregou a moeda ao fazendeiro. Este a inspecionou e balançou a cabeça, satisfeito.
— Tudo certo, então. Minha esposa lhes dará o café da manhã, para compensar os três cobres extras. E não há fogo no celeiro. Sem vela, sem fogo. Há uma lanterna atrás da porta, deixem onde está. Mas ela deverá ser luz suficiente.
— Obrigado — Will disse. Então, uma de suas necessidades constantes falou mais alto. — Tudo bem se eu acender um fogo naquela área? Eu gostaria de fazer café.
O fazendeiro grunhiu assentindo.
— Mantenha-o bem longe do celeiro. E lembre-se, os cachorros ficarão no quintal a noite toda. Tentem se aproximar da casa e eles atacarão vocês.
— Nós vamos lembrar — Will concordou.
O fazendeiro grunhiu novamente.
— Boa noite então. Descansem bem.
Ele fez um movimento de enxotar para eles deixarem o quintal da fazenda.
— Igualmente — Will desejou.
Ele e Alyss recuaram até o portão, saíram e o fecharam cuidadosamente atrás deles. Convencido de que eles estavam do lado de fora da cerca, o fazendeiro fechou a porta. Eles ouviram uma pesada tranca soar de dentro da casa. Os dois cachorros permaneceram na porta. Eles deitaram no chão com os seus focinhos em cima das patas enquanto observavam os dois estranhos levarem seus cavalos para o celeiro.
Cansados das horas de viagem árdua, eles dormiram profundamente. Will acordou uma vez pouco depois da meia-noite, ouvindo o tamborilar da chuva no telhado. Ele puxou seus cobertores mais para cima até o queixo, feliz por estarem abrigados do clima e voltou a dormir. Havia alguma coisa muito reconfortante em ouvir a chuva enquanto você está quente e seco sob seus cobertores.
Já era dia quando ele acordou novamente, ouvindo um galo cantar e uma galinha cacarejando no galinheiro. A chuva havia parado, mas o ar ainda estava úmido e fresco.
De dia, o fazendeiro mostrou uma expressão mais amigável. Sua esposa deu a eles um café da manhã reforçado. Will olhou para uma pilha de ovos, bacon, batatas e torradas com um sorriso.
— Fazendeiros comem bem — ele comentou.
Alyss levantou uma sobrancelha.
— Isso porque eles trabalham mais duro que você.
Antes de partirem, eles perguntaram a família se haviam visto algum sinal dos nômades na área.
— Dois dias atrás — o fazendeiro respondeu prontamente. — Eles queriam acampar na nossa propriedade, mas eu os mandei ir embora. Coisas tem o hábito de desaparecer quando os nômades estão por perto.
— Eu sei — Will disse. — Estou procurando um cachorro.
O fazendeiro coçou o nariz pensativamente.
— É, eu posso imaginar. Bem, eu não perderia tempo em alcançá-los. Um acampamento nômade não é um lugar saudável para um cão.
Ele não deu mais detalhes, mas Will não tinha dúvidas sobre o que ele estava se referindo. Will e Alyss se despediram e já estavam na estrada duas horas depois do amanhecer. Desta vez, eles aceleraram o passo, fazendo os cavalos trotarem por vinte minutos, em seguida desmontavam e caminhavam por um tempo e depois trotavam novamente. A cada hora, eles paravam para descansar por dez minutos e então voltavam a acelerar o ritmo. Eles não pararam para fazer uma refeição ao meio-dia, porém comeram carne seca, frutas e pão duro enquanto caminhavam.
Os seus esforços foram recompensados. Quando eles pararam ao pôr do sol em uma pequena aldeia, descobriram que os nômades estavam agora a apenas um dia a frente deles. Como a aldeia não tinha pousada, eles pagaram para dormir na cozinha de uma das casas maiores. Comeram e dormiram facilmente e, então, antes do nascer do sol da manhã seguinte, já estavam de volta à estrada, mantendo o mesmo ritmo acelerado.
Quando o sol apareceu e a névoa serpenteante começava a se dissipar a partir da grama úmida, Puxão sacudiu sua crina violentamente.
Nós iremos alcançá-los hoje. Eu sinto em meus ossos.
Will hesitou, olhando de soslaio para Alyss. Ele não tinha certeza de como ela reagiria se ele começasse a falar com seu cavalo.
— Vá em frente e responda a ele se você quiser — ela disse, com o olhar fixo na estrada à frente.
Ele olhou fixamente para ela com surpresa.
— Você pode ouvi-lo?
Ela sorriu e balançou a cabeça negativamente.
— Não, mas Pauline me contou que vocês, arqueiros, falam com seus cavalos e lançam olhares furtivos para verificar se alguém está ao alcance da voz.
— Oh.
Agora ele não tinha certeza se ele deveria continuar e responder a Puxão. A comunicação entre eles era uma questão muito particular.
Não precisa me responder.
— Está tudo certo, então — ele disse.
A resposta poderia ser entendida tanto por Puxão quanto a Alyss.
Eles cavalgaram em silêncio por vários quilômetros, com Alyss suprimindo um sorriso.

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