26 de janeiro de 2017

Capítulo 3

— Desapareceu? O que você quer dizer com desapareceu? — Will perguntou.
Assim que ele disse as palavras, ele percebeu quão ridículo elas eram. A declaração de Alyss só poderia significar uma coisa.
— Ela se foi. Três dias atrás. Eu a deixei na cabana enquanto ia a uma reunião no castelo. Me desculpe, Will. Eu deveria ter levado ela comigo! Mas eu pensei...
Will estendeu sua mão e tocou a dela para acalmá-la. Ela estava à beira das lágrimas, ele podia ver.
— Não havia razão para você levá-la. Eu frequentemente a deixava sozinha na cabana.
Quando ele e Halt tinham a deixado para perseguir os piratas, Alyss havia se mudado temporariamente para a cabana para cuidar e fazer companhia para a jovem cadela, dar comida e água todos os dias. Mas é claro, Will conhecia Alyss e ela tinha deveres a cumprir no castelo. Ébano não era um filhote. Ela gostava da companhia de Alyss, e podia confiar que ela ficaria perto da cabana se Alyss fosse chamada ao castelo por uma hora ou duas.
— Talvez ela tenha se afastado para dentro da floresta — sugeriu Halt.
Mas Will balançou a cabeça.
— Ela não faria isso. Ela é treinada para ficar onde é mandada — ele olhou para
Alyss novamente — quando você a viu pela última vez?
— Três dias atrás, como eu disse. Eu dei comida a ela pela manhã e caminhei com ela pela aldeia. Então recebi a mensagem de que precisavam de mim no castelo. Eu a deixei na varanda e disse para ela ficar. Eu voltei duas horas depois e ela tinha ido embora. Primeiro eu pensei que ela poderia ter perseguido alguma coisa floresta a dentro, então comecei a procurá-la, chamando por ela. Mas não havia nenhum sinal.
— E quanto à aldeia? — Will perguntou. — Alguém a viu?
Se tinha alguma chance de Ébano se perder, ela teria que ter ido muito mais longe do que Wensley. Ela era uma cadela muito popular com os moradores da aldeia e em poucas ocasiões ela tinha procurado sua companhia. Alyss balançou a cabeça.
— Eu perguntei, mas ninguém a viu. Me desculpe!
Agora uma preocupação traiçoeira começou a corroer Will. Inicialmente, ele tinha pensado que haveria uma simples explicação para o sumiço do bichinho. Mas a perturbação de Alyss era contagiosa. Alyss normalmente era calma e sob controle, mesmo na pior crise. Ele estava começando a pensar que havia mais sobre este assunto do que ele tinha ouvido até agora – havia alguma coisa que Alyss ainda não tinha contado a ele.
A menos que um acidente tenha acontecido a Ébano, só havia realmente uma razão para ela continuar desaparecida.
— Alguém deve tê-la levado — ele disse.
Uma olhada no rosto de Alyss lhe mostrou que era isso o que ela temia.
— O que foi?
Lágrimas começaram a rolar pelas bochechas dela quando ela respondeu.
— Havia um grupo de viajantes passou pelo vilarejo...
— Viajantes? Que tipo de viajantes? — Will interrompeu, embora ele tivesse uma suspeita de que já sabia qual. As palavras seguintes de Alyss confirmaram suas suspeitas.
— Nômades. Eles acamparam fora de Wensley por uma noite, então foram embora. Eu não sabia que eles estavam aqui até começar a perguntar sobre Ébano. Eles estiveram aqui no dia em que ela desapareceu.
Nômades eram viajantes itinerantes que percorriam o país em caravanas puxadas por cavalos. Eles não tinham residência permanente, mas acampavam por um ou dois dias próximo a aldeias, ou até que os moradores os mandassem embora. Normalmente viajavam em grandes grupos familiares – mães, pais, tios, tias e crianças viajavam todos juntos. Eles eram músicos e performistas e entretinham os moradores das aldeias e os agricultores para ganhar dinheiro. Normalmente, pareciam ser um charmoso e romântico grupo popular. E quando ficavam em uma área por mais do que um dia ou dois, coisas começavam a desaparecer – roupas, coisas de pequeno valor e ocasionalmente uma galinha ou um pato.
Os nômades são originários do sudeste da Toscana. Mas com o passar dos séculos, eles se espalharam ao redor do mundo ocidental e desenvolveram um padrão cíclico de viagens. Eles aparecem, ficam poucos dias, se mudam novamente e passam muitos anos sem serem vistos. Então, um dia, retornam.
Eles são um grupo muito unido e misterioso. Com o cabelo preto e a pele morena, suas mulheres mais jovens eram notavelmente belas e seus homens eram cabeça quente e de língua afiada – entre eles e com pessoas de fora.
Havia outra coisa que Will lembrava sobre os nômades. Eles eram conhecidos por terem uma forte ligação com seus animais – cavalos, mulas e cachorros – embora, paradoxalmente, eles os maltratassem. Se Ébano tinha sido levada por um grupo de nômades, seria melhor que ele a trouxesse de volta o mais breve possível.
— Eu vou atrás deles — Will disse decisivamente. — Eles não se movem rápido e eu devo ser capaz de alcançá-los em um dia, aproximadamente.
Ele começou a colocar os arreios ao redor da cabeça de Puxão, mas Halt estendeu a mão e pegou o rédea dele.
— Apenas espere um momento. Se ela foi pega pelos nômades, a última coisa que você vai querer fazer é chegar cobrando e exigindo que eles a entreguem.
— O que você está falando, Halt? Eu quero ela de volta e eu quero ela de volta agora.
Mas Halt estava balançando a cabeça.
— Os nômades são pessoas complicadas de se lidar — ele disse. — Eles são desconfiados de estranhos e são muito bons em cobrir seus rastros. São quase tão bons em se esconder quanto nós. Se decidirem mantê-la escondida, será difícil encontrá-la. E se eles perceberem que roubaram um cachorro de um arqueiro, ela vai estar em perigo.
— Perigo? Que tipo de perigo? — Will perguntou.
— Provavelmente irão matá-la e se livrar das evidências — Halt contou a ele.
Will sentou-se na sela, boquiaberto.
— Matá-la? — ele repetiu.
Halt assentiu.
— Certo ou errado, os nômades tem sido maltratados por muitos séculos. Eles desenvolveram um mecanismo psicológico altamente defensivo. Se perceberem que a cadela que eles roubaram é de propriedade de um arqueiro, podem assumir que a lei pode incidir pesadamente sobre eles...
— E vai! — Will disse impetuosamente.
Mas Halt ergueu a mão para acalmá-lo.
— Se você puder encontrá-la, o caminho mais seguro para eles será se livrar dela. Matar e enterrá-la. Ou deixá-la no rio. Qualquer coisa para ter a certeza de que você não encontre ela em posse deles. Você simplesmente não pode assumir esse risco.
— Você está dizendo que eu deveria deixar que eles a levem com eles? — Will perguntou incerto.
— Nada disso. Vá atrás dela. Mas faça isso cuidadosamente. Seja sutil. Não deixe que eles saibam que você é um arqueiro e não deixe que eles saibam que você está procurando um cachorro perdido.
Will sentou, pensando sobre as palavras de Halt, com um olhar preocupado em seu rosto. Depois de um tempo, Alyss falou.
— Eu vou com você.
Automaticamente, Will balançou a cabeça.
— Não, você não vai.
A boca dela se comprimiu em uma linha fina.
— Will, eu me sinto responsável por isso. Eu quero ajudar.
— Eu acho que pode ser uma boa ideia — Halt disse, o que fez ambos olharem para ele, Will com surpresa e Alyss com gratidão. Ele continuou. — Eles podem desconfiar menos de uma jovem garota do que desconfiariam de um jovem homem em idade militar. Eles podem ser astutos, mas tem um ponto fraco. Acham que mulheres são cidadãos de segunda classe e não tem ideia alguma de quão capaz e perigosa pode ser uma diplomata. Eu acho que Alyss pode ter melhor chance de descobrir onde a cachorra está.
— Ela não vai estar no acampamento deles? — Alyss perguntou.
Halt franziu os lábios.
— Provavelmente. Mas eles estão em posse de um cachorro roubado. Ela é valiosa e eles podem muito bem estar esperando o proprietário aparecer, procurando por ela. Eu aposto que eles vão mantê-la escondida em algum lugar perto do acampamento até que estejam suficientemente longe do distrito. Se você tentar segui-los, Will, e descobrir onde eles a estão mantendo, pode haver uma boa oportunidade para eles pegarem você. Eles estarão em alerta enquanto ainda estiverem perto de Redmont. Por outro lado, duvido que eles se preocupariam com Alyss. Como eu disse, eles têm muito pouco respeito pelas mulheres.
Havia ainda outro ponto que Halt estava relutante em dizer. Will já estava suficientemente preocupado. Mas quanto mais Halt pensava nisso, mais certo estava de que tinha que mencioná-lo.
— Há uma coisa que você precisa saber sobre os nômades. Eles costumam treinar cachorros para brigas.
— Brigas? — Will disse, sua voz quase um sussurro. — O que você quer dizer com isso?
— Eles os treinam para brigar com outros cães... então montam ringues de luta e pessoas apostam neles. Ou então se encontram com outros grupos nômades e colocam seus campeões para lutarem uns com os outros. É perverso e cruel, altamente ilegal, é claro, e esse é outro motivo pelo qual eles mantêm os cachorros fora de vista.
— Isso é horrível — Alyss disse.
Seu rosto estava pálido.
Halt assentiu.
— Eu sei. É difícil entender dada a reputação que eles têm de amantes dos animais. Mas é um fato.
Will estava pensando sobre o que Halt disse, então balançou a cabeça.
— Não há nenhuma razão para eles terem levado a Ébano, Halt. Ela não é muito grande e definitivamente não é agressiva. Eles nunca conseguiriam transformá-la em um cão de briga.
Halt respirou profundamente. Mas ele pensou que Will deveria saber o pior.
— Até o melhor cão pode se tornar selvagem se ele for tratado cruelmente, Will. É por isso que é muito importante que você a encontre o mais rápido possível.

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