26 de janeiro de 2017

Capítulo 1

O barco mercante era sobretudo uma enorme jangada, o convés construído com meia dúzia de grandes troncos que o fazia flutuar. Pedaços de couro, lã, sacos de grão, farinha e tecidos estavam empilhadas no meio do convés, cobertos por lonas. Atrás deles, uma casinha servia de abrigo para a pequena tripulação.
O capitão estava na plataforma de direção da popa, equipada com um remo extenso que servia como um leme. Havia quatro outros remos, embora naquele momento apenas dois estivessem sendo utilizados para manter o barco em movimento com mais velocidade do que a lenta corrente do rio Tarbus permitiria. Além disso, se o vento estivesse favorável, um mastro e uma grande vela poderiam ser içados.
Era uma maneira eficiente para que os produtos chegassem ao mercado na foz do rio. A alternativa eram três semanas de viagem por terra em um carro de boi. Mesmo tendo em conta as voltas e reviravoltas do rio, o barco de comércio fazia a viagem em cinco dias.
Os agricultores e moleiros de Wensley, e meia dúzia de outras aldeias ao longo do rio, tinham encontrado uma maneira mais conveniente de vender seus produtos. O capitão do barco pagaria por eles e, em seguida, os venderia com certo lucro. Os produtores acabavam recebendo menos do que o preço de mercado, mas também eram salvos de uma viagem longa e árdua, durante a qual os seus bens poderiam ser roubados.
Roubo também era um dos perigos enfrentados pelos comerciantes barqueiros. Recentemente, houvera um aumento acentuado na atividade dos piratas no rio atacando os comerciantes. Como Halt tinha comentado a Will.
— Parece que sempre que alguém tem uma boa ideia como esta, outras pessoas simplesmente não podem esperar para roubá-las.
O barco estava virando para fazer uma curva no rio. O capitão e os remadores agitavam-se fortemente para manter a pesada embarcação no meio do curso do rio, evitando os bancos de areia salientes da margem esquerda. Desajeitadamente, a jangada virou a curva, formando um ângulo com o leito. O timoneiro virou seu leme habilmente para endireitar o barco, convidando os remadores a puxarem em direções opostas, remando uma vez para frente e outra para trás, por meia dúzia de golpes, até ele estar satisfeito com relação ao alinhamento novamente.
Se deixasse o barco sair do alinhamento, ele sabia, em pouco tempo estariam girando pela corrente, fora de controle. Então seria necessário um esforço ainda maior para trazer o barco de volta para a posição correta e fazerem a próxima curva.
Uma vez que o barco estava viajando em linha reta novamente, ele disse aos remadores – seus dois filhos – que eles podiam relaxar. Eles retomaram o calmo curso anterior.
Então ele ficou tenso quando viu o movimento nos juncos ao longo da margem direita.
— Oswald! Ryan — ele gritou. — Remos! Olhar atento agora!
Ele mal tinha completado sua advertência quando um barco comprido e estreito surgiu dos juncos e se dirigiu em direção a eles. Estava cheio de homens – ele viu no mínimo quinze – que puxavam oito remos.
O capitão se inclinou sobre o leme enquanto o barco voltava para a margem esquerda e seus filhos soltavam os remos novamente.
Não teriam chance de superar o outro barco. A única chance era a praia que havia antes, onde poderiam desembarcar e em seguida, fugir para as árvores. Eles perderiam a carga de qualquer forma, mas não suas vidas. A tripulação do outro barco estava fortemente armada e gritava ameaças.
Seu líder estava na proa do barco, brandindo uma espada longa.
— Parem! — gritou. — Se vocês continuarem navegando, vamos matar todos vocês!
O capitão do barco balançou a cabeça com a ameaça. Os piratas iriam matá-los de qualquer maneira, ele sabia. Nos últimos meses, os corpos de uma dúzia de comerciantes barqueiros tinham sido encontrados em terra ao longo do rio. Seus barcos e cargas nunca tinham sido vistos novamente.
— Estão nos empurrando para fora! — ele gritou, apesar dos seus filhos poderem ver o que estava acontecendo, assim como ele.
A embarcação pirata foi rápida em dobrar a curva. Em seguida, uma voz debaixo da lona que cobria a carga respondeu em voz baixa:
— Pegue seus meninos e vá para a popa. Depois diga-nos quando os piratas estiverem a bordo.
O capitão assentiu.
— Oswald! Ryan! Deixe-os e venham aqui!
Os dois remadores musculosos não hesitaram nem por um segundo. Eles deixaram seus remos balançando e se moveram em direção à plataforma de direção, armando-se com pesados porretes tachonados que encontraram. Sem os remos para impulsioná-lo, o barco começou a girar lentamente e o capitão balançava seu remo, empurrando para a esquerda, puxando e empurrando novamente para a esquerda, para endireitar o barco.
Os piratas estavam apenas a alguns metros de distância e o barco chegava rápido. O líder pirata estava agachado, pronto para saltar para cima da jangada. O barco atingiu-os em um ângulo, raspando contra a madeira áspera da jangada e girando paralelamente a sua volta. Enquanto eles conversavam, o líder dos piratas saltou para o convés, gritando aos seus homens para fazer o mesmo. Meia dúzia de homens disparou atrás dele, esperando a sua vez de pular para a jangada.
— Eles estão embarcando — gritou o capitão.
Quando ele o fez, uma seção da lona que cobria carga foi jogada de lado e duas figuras vestidas de verde e cinza emergiram de seu esconderijo.
Cada um deles portava um enorme arco, com uma seta encaixada e pronta para ser disparada.
— Arqueiros do Rei! — gritou o outro à esquerda. — Lancem suas armas e se rendam!
Por um momento, o líder pirata ficou atordoado. O súbito aparecimento dos dois arqueiros o deteve momentaneamente. Então, a sua mente trabalhou rápido. Ele e seus homens haviam sido capturados fazendo pirataria. A pena para isso seria o enforcamento, uma vez que era o líder. Havia apenas uma saída para ele. Rosnou tomado pela raiva, então se virou para gritar com seus homens.
— Vamos! Matem todos! Matem todos! — Ele começou a descer da jangada em direção às figuras camufladas.
— Não era a resposta que eu queria — Halt disse calmamente.
Ele suspirou e atirou antes que o pirata pudesse dar um segundo passo.
Uma seta preta atingiu o bandido no centro do peito, arremessando-o para trás. Ele caiu na beirada da jangada, onde uma massa de homens tentava segui-lo bordo. O barco pirata oscilou perigosamente, de forma que alguns homens se dispersaram e caíram. Um deles foi à água. Os outros caíram para trás, sobre os remadores. O resultado foi um pandemônio.
Então um deles assumiu o comando. A ideia de enfrentar dois arqueiros, com suas habilidades fabulosas para atirar rápida e precisamente, era diferente de matar barqueiros desesperados.
— Vamos sair daqui! — ele gritou para o timoneiro. Então gritou para os remadores, que estavam tentando livrar-se dos corpos caídos dos seus companheiros. — Remem, com mais força! Remem! Tirem-nos daqui!
Lentamente, a ordem começou a prevalecer no barco dos piratas. Halt virou-se para os dois remadores do barco e apontou em direção ao navio pirata.
— Arpão! Rápido!
Os dois barcos estavam começando a se afastar, com o timoneiro pirata trabalhando seu leme e levando o barco para longe. Oswald e Ryan jogaram seus porretes, não vendo mais necessidade para eles, e correram para frente. Oswald pegou um ferro de três pontas que havia sido deixado pronto, girou ao redor de sua cabeça e lançou-o.
O arpão elevou-se sobre a distância entre os barcos, à frente de uma corda de cânhamo. Bateu na amurada da popa do barco pirata e imediatamente Oswald o puxou, fixando suas garras afiadas na madeira. Começou a puxar o barco pirata em direção à jangada.
Nesse meio tempo, Ryan tinha arrancado um dos longos remos de seu apoio. Quando seu irmão soltou a corda do barco pirata, ele prendeu seu remo contra a embarcação, empurrando-o de modo que os piratas ficaram presos a três metros da jangada.
Halt e Will tinham feito o seu caminho para a proa do barco. Empunhavam seus arcos longos, ameaçando os piratas.
— Corte a corda! — Gritou o timoneiro pirata.
Não vendo nenhum de seus homens dispostos a fazer qualquer movimento sob a ameaça dos arcos, ele atirou um pesado punhal que estava preso em seu cinto e deixou o leme, movendo-se em direção à âncora.
O arco de Will zumbiu. Houve o chicoteio familiar dos membros e do som que a flecha fazia ao sair do arco, então o timoneiro urrou, uma seta em seu tronco.
Will tinha atirado para feri-lo no braço. Mas no último momento, o homem havia se mexido, expondo suas costelas.
Ele olhou horrorizado para o jovem arqueiro quando percebeu o que tinha acontecido. O punhal retiniu sobre o convés do barco e o timoneiro caiu de lado. Suas pernas ficaram presas e o seu corpo ficou pendurado sobre a amurada, balançando o barco, súbita e perigosamente. Em seguida, um de seus tripulantes libertou as pernas do morto e jogou-o na água. O barco voltou a se endireitar e o corpo do timoneiro foi levado pela corrente. A água ao seu redor lentamente ficava vermelha.
— Joguem suas armas na água! — Halt ordenou.
Por um segundo, ninguém respondeu. Em seguida, ele levantou seu arco e, de repente, facas, paus, machados e espadas, todos salpicavam para dentro da água marrom.
— Oswald, amarre a corda — Halt ordenou e o comerciante do rio rapidamente a enrolou em torno de uma âncora.
Halt estava atento, não podia vacilar perto dos piratas. Depois, ele apontou para banco de areia na margem esquerda do rio.
— Peguem nos remos! — ele ordenou. — E levem-nos para a terra, para o banco de areia!
Sob a força de seis remos, o barco pirata começou a oscilar em direção à costa. Quando a corda se esticou, ele começou a ir mais devagar, arrastando a jangada pesadamente atrás de si. Halt fez um sinal, e Oswald e Ryan retornaram a seus lugares, em seus próprios remos para ajudar a impulsionar a jangada em direção à areia.
Quando Halt sentiu a jangada raspar contra o banco de areia, ele pulou na água que batia em seus joelhos, Will ao lado dele. Os dois arcos longos continuavam ameaçando os piratas.
— Saiam do barco — Halt ordenou. — Deitem na areia. O primeiro homem que fizer um movimento que eu não goste, irei atirar.
Por um momento, a tripulação do barco hesitou. Afinal, havia apenas dois arqueiros de frente para eles. Em seguida, o senso comum reafirmou-se. Eles estavam desarmados e os dois eram arqueiros. Em um espaço de dez segundos, eles poderiam disparar quatro ou cinco flechas cada. Com dois dos seus já mortos, a nenhum deles agradavam suas chances. Lentamente, relutantes, eles pisaram em terra firme, então se deitaram no chão de areia.
— Coloquem as mãos atrás da costas — Halt mandou e quando os piratas o fizeram, ele chamou a tripulação do barco. — Ryan, Oswald, amarre-os, por favor.
Os dois irmãos ficaram felizes com a ordem. Eles passaram rapidamente entre as figuras de bruços, usando curtos comprimentos de corda que tinham preparado no início do dia. Amarraram com firmeza e, sendo barqueiros, sabiam como fazer um nó que não afrouxasse.
— Agora, amarre a todos juntos com uma corda longa — Halt instruiu. — Nós não queremos qualquer um deles correndo em fuga.
O capitão do barco jogou uma corda longa e pesada e os irmãos rapidamente amarraram os homens com ela. Em seguida, jogaram os piratas a bordo do barco e os depositaram, não muito gentilmente, sobre o tabuado.
— Há uma cidade guarnecida a cerca de três quilômetros rio abaixo — disse Halt. — Nós vamos levar estas belezas lá para julgamento. Nesse meio tempo, todos nós podemos relaxar e desfrutar de uma viagem de barco a lazer rio abaixo.
— Exceto nós — disse Ryan, voltando ao seu lugar no remo.
Mas ele estava sorrindo. Ficou encantado ao ver os piratas fora de ação. A comunidade barqueira era pequena e ele tinha perdido vários amigos para piratas nos últimos dias.
— Sim — Halt concordou, sorrindo de volta. — Exceto vocês.

2 comentários:

  1. Eles estavam descendo o rio, mas aparece frases no meio da batalha como "o corpo caiu no mar", "joguem suas armas no mar".

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Boa leitura :)