16 de janeiro de 2017

Capítulo vinte


Tamara deu um pulo e olhou ao redor como se esperasse que alguma coisa saltasse das sombras.
A expressão no rosto de Aaron se tornou cautelosa, mas ele permaneceu sentado.
— Call — disse ele —, esse barulho está vindo do seu quarto?
— Bem... será? — disse Call, tentando desesperadamente pensar em alguma explicação para o som. — É o meu... toque do celular.
Tamara franziu a testa.
— Telefones não funcionam aqui embaixo, Callum. E você já disse que não tem celular.
As sobrancelhas de Aaron se ergueram.
— Você tem um cachorro aqui dentro?
Alguma coisa caiu no chão e os latidos aumentaram, junto com o som de unhas arranhando o chão.
— O que está acontecendo? — Tamara quis saber, andando até a porta do quarto de Call e a escancarando. Ela então soltou um grito e se jogou contra a parede. Sem se dar conta da reação da menina, o lobo passou por ela e foi para a sala compartilhada.
— Por acaso aquilo é um... — Aaron se levantou, tocando inconscientemente o bracelete com a pedra negra do vazio. Call se lembrou da escuridão que se enroscara nos lobos na escuridão da noite, levando-os para o nada.
Ele correu o mais rápido que pôde para bloquear o filhote com seu próprio corpo, abrindo os braços diante da porta do quarto.
— Não consigo explicar — ele disse, desesperado. — Ele não é mau! É como se fosse um cachorro comum!
— Essa coisa é um monstro. — Tamara pegou uma das facas que estavam sobre a mesa. — Call, não ouse dizer que você trouxe isso para cá de propósito.
— Ele estava perdido... e gania sem parar lá naquele frio — explicou Call.
— Ótimo! — Tamara gritou. — Meu Deus, Call, você não pensa. Você nunca pensa! Essas coisas... Elas são cruéis. Elas matam pessoas!
— Ele não é cruel — disse Call, ficando de joelhos e pegando o filhote pelo cangote. — Calma, garoto — ele falou, com toda a firmeza que foi capaz de reunir, se inclinando para a frente a fim de encarar o lobo. — Eles são nossos amigos.
O filhote parou de uivar, olhando para Call com seus olhos de caleidoscópio, e então começou a lamber o rosto dele.
Ele se virou para Tamara.
— Viu? Ele não é nada cruel. Só está nervoso porque ficou esse tempo todo preso no meu quarto.
— Saia da minha frente. — Tamara começou a brandir a faca.
— Tamara, espere. — Aaron se aproximou. — É preciso admitir que foi estranho o lobo não ter atacado Call.
— Ele é só um bebê — defendeu Call. — E está assustado.
Tamara bufou.
Call pegou o lobo e o pôs no colo, ninando-o como se fosse uma criancinha. O filhote se contorceu.
— Vejam só esses olhões.
— Você pode ser expulso da escola se ficar com ele — Tamara lembrou. — Todos nós podemos ser expulsos.
— O Aaron não seria — corrigiu Call, e Aaron se encolheu.
— Call — ele aconselhou —, você não pode ficar com ele. Simplesmente não pode.
Call abraçou o lobo.
— Bem, eu vou ficar.
— Você não pode — insistiu Tamara. — Mesmo que o deixemos viver, teremos de soltá-lo do lado de fora do Magisterium. Ele não pode ficar aqui.
— E assim você vai matá-lo do mesmo jeito. Porque ele não sobreviveria lá fora. E eu não vou deixar que vocês façam isso. — Call engoliu em seco. — Então, se quiserem mesmo soltá-lo, é só me dizer. Vamos lá.
Aaron respirou fundo.
— E então, qual é o nome dele?
— Devastação — respondeu Call de imediato.
Tamara baixou devagar a mão que trazia a faca.
— Devastação?
Call sentiu que corava.
— É de uma peça de que o meu pai gostava. “Convoque a devastação. Solte os cães de guerra.” E ele é definitivamente, tipo, um cão de guerra.
Devastação aproveitou a oportunidade para arrotar.
Tamara suspirou e algo em seu rosto se tornou mais suave. Ela ergueu uma das mãos, a que não segurava a faca, para acariciar os pelos do filhote.
— E então, o que ele come?
Aaron lembrou-se de que tinha um pouco de bacon no fundo da geladeira que poderia doar para Devastação. E Tamara logo estava  babando ao ver o lobo Dominado pelo Caos rolar no chão e ficar de barriga para cima para que ela o acarinhasse. Ela anunciou que eles deveriam encher os bolsos com qualquer coisa que lembrasse vagamente carne que fosse servida no Refeitório, incluindo os peixes cegos.
— Também precisamos conversar sobre o bracelete. — Ela jogou uma bola de papel para que Devastação fosse buscar. Em vez disso, ele levou o papel para debaixo da mesa e começou a rasgá-lo em pedaços pequenos com os seus dentinhos minúsculos. — Aquele que o pai de Call mandou para ele.
Call assentiu. Em todo o alvoroço sobre Aaron e Devastação, ele conseguiu empurrar de volta para o fundo de sua mente a percepção do que significaria aquela pedra de ônix.
— Não é possível que tenha pertencido a Verity Torres, é? — Call perguntou.
— Ela tinha quinze anos quando morreu. — Tamara disse, negando com a cabeça. — Mas ela deixou a escola um ano antes, de modo que seu bracelete deveria ser do Ano de Bronze e não do de Prata.
— Mas se não for dela... — Aaron engoliu em seco, incapaz de pronunciar aquelas palavras.
— Então só pode ser de Constantine Madden — completou Tamara com uma praticidade firme. — Isso faria todo o sentido.
Call sentiu ondas de calor e frio ao mesmo tempo. Era exatamente o que ele pensava, mas, quando Tamara compartilhou a ideia em voz alta, ele não queria mais acreditar naquilo.
— Por que o meu pai teria o bracelete do Inimigo da Morte? Como ele poderia ter uma coisa dessas?
— Quantos anos tem o seu pai?
— Trinta e cinco — Call disse, se perguntando o que essa informação teria a ver com a história.
— Basicamente a mesma de Constantine Madden. Eles podem ter frequentado a escola juntos. E o Inimigo pode ter deixado seu bracelete para trás quando fugiu do Magisterium. — Tamara se pôs de pé e começou a caminhar pela sala. — Ele rejeitou tudo o que era relacionado com a escola, por isso não deveria ter o menor interesse em conservar seu bracelete. Talvez o seu pai o tenha guardado, ou o tenha encontrado de alguma forma. Talvez eles até mesmo... se conhecessem.
— De jeito nenhum. Ele teria me contado uma coisa dessas — Call retrucou, embora soubesse muito bem que aquilo não era verdade.
Alastair nunca falava sobre o Magisterium a não ser de forma vaga e apenas para descrever quão sinistro era aquele lugar.
— Rufus contou que ele conhecia o Inimigo. E aquele bracelete deveria ser uma mensagem para Rufus — lembrou Aaron. — Só pode significar alguma coisa para o seu pai e para Rufus. Faria mais sentido que ambos o tivessem conhecido.
— Mas qual teria sido a mensagem? — Call quis saber.
— Bem, tem a ver com você — respondeu Tamara. — “Interdite a magia dele.” Certo?
— E assim eles me mandariam para casa! Para que eu me protegesse!
— Talvez — disse Tamara. — Ou então eles fariam isso para que as outras pessoas se protegessem de você.
O coração de Call começou a bater descompassado dentro do peito.
— Tamara, é melhor explicar o que você quis dizer com isso — sugeriu Aaron.
— Desculpe, Call. — E ela realmente aparentava sentir muito. — Mas o Inimigo inventou os Dominados pelo Caos aqui dentro, no Magisterium. E nunca ouvi falar de um animal Dominado pelo Caos ser amigável com qualquer outra pessoa que não fosse outro Dominado pelo Caos.
Aaron começou a protestar, mas Tamara ergueu uma das mãos, fazendo-o parar.
— Lembra do que a Célia disse naquela primeira noite no ônibus? Sobre os rumores de que haveria Dominados pelo Caos de olhos normais? E talvez, se a pessoa já tiver nascido Dominada pelo Caos, então ela pode não ser oca por dentro. Talvez essa criatura possa ser normal. Como o Devastação.
— Call não é um Dominado pelo Caos! — Aaron ergueu a voz. — Aquela coisa que a Célia disse, sobre criaturas Dominadas pelo Caos de aparência normal... não existe nenhuma prova de que isso seja verdade. Além disso, se Call fosse um Dominado pelo Caos, nós saberíamos. Ou ele teria alguma noção disso. Eu sou um Makar, então eu também deveria saber, não é? Ele não é nada disso. Simplesmente não é.
Devastação saltou sobre Call, parecendo perceber que havia alguma coisa errada. Ele ganiu levemente, com seus olhos rodopiantes.
As palavras de Alastair ecoaram na mente de Call.
“Call, você precisa me ouvir. Você não sabe o que você é.”
— Tudo bem, então o que eu sou? — ele perguntou, inclinando-se sobre o lobo, passando o rosto sobre o pelo macio.
Call podia ver no rosto dos amigos que eles não sabiam.


As semanas se passaram e eles continuaram sem novas respostas, embora fosse mais fácil para Call deixar essas questões no fundo de sua mente para poder se concentrar nos estudos. Com Aaron treinando não apenas para ser um mago, mas também um Makar, o Mestre Rufus tinha de dividir seu tempo.
Call e Tamara eram constantemente deixados sozinhos para pesquisar sobre magia nas bibliotecas, procurando histórias sobre a Segunda Guerra da Magia, vendo desenhos das batalhas e fotos das pessoas que participaram delas. Eles também perseguiam os diversos elementais que povoavam o Magisterium para praticar e finalmente aprenderam a pilotar os barcos pelas cavernas.
Às vezes, quando o Mestre Rufus precisava levar Aaron para algum lugar ou para fazer alguma coisa que ocuparia todo o dia, Call e Tamara se juntavam a eles junto com outros mestres.
A excitação pelo fato de Aaron ser um Makar foi levemente eclipsada pela notícia de que o Mestre Lemuel seria obrigado a deixar o Magisterium. As acusações de Drew foram ouvidas pela Assembleia, e eles determinaram que os alunos não podiam mais confiar no mestre, apesar de ele desmentir as acusações com firmeza e de Rafe falar em sua defesa. Seus aprendizes foram divididos entre outros mestres. Drew ficou com a Mestra Milagros, Rafe com o Mestre Rockmaple e Laurel com o Mestre Tanaka.
Drew foi liberado da Enfermaria uma semana após as notícias sobre o Mestre Lemuel tomarem conta dos corredores. Durante o jantar, ele foi de mesa em mesa para se desculpar com todos os aprendizes. Ele pediu desculpas várias vezes para Aaron, Tamara e Call. E Call pensou em indagar o que Drew tentara lhe dizer no corredor naquela noite, mas o colega raramente estava sozinho e Call não sabia nem mesmo como formular aquela pergunta.
“Tem alguma coisa errada comigo?”
“Existe algo de perigoso em mim?”
“Como você poderia saber que não existe nada disso dentro de mim?”
Às vezes, Call queria desesperadamente escrever para o pai e perguntar sobre o bracelete. Entretanto, ele teria de confessar que escondeu de Rufus a carta que o pai enviara e, além disso, não teve mais notícias de Alastair. Ele só recebera outro pacote de balas de goma e um casaco de lã novo que chegaram no Natal, acompanhados de um cartão que dizia apenas Com amor, Papai. E só. Sentindo-se vazio, ele enfiou o cartão no fundo da gaveta junto com as outras cartas.
Felizmente, Call tinha algo que ocupava a maior parte do seu tempo: Devastação. Alimentar um lobo Dominado pelo Caos em fase de crescimento e mantê-lo escondido eram tarefas que requeriam uma dedicação inabalável e bastante ajuda da parte de Tamara e Aaron. Ele também tinha de ignorar os comentários de Jasper de que cheirava a cachorro-quente dia após dia quando colocava sorrateiramente comida do Refeitório em seus bolsos. Além disso, ainda tinha a questão de precisar escapulir pelo Portão das Missões para passeios regulares. Porém, à medida que o inverno se transformava em primavera, ficou claro para Call que Aaron e até mesmo Tamara começaram a pensar que Devastação também pertencia a eles, já que em várias ocasiões, ao voltar da Galeria, ele encontrou Tamara enrolada no sofá, lendo um livro com o lobo repousando sobre seus pés como se fosse um cobertor.

9 comentários:

  1. Pra mim tem uma possibilidade: Callum Novak Madden

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    1. UOU nunca pensaria nisso talvez q ele fosse o irmao mas filho nuunca

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  2. gente, o negocio é básico: no prólogo, o pai de Call diz que o inimigo da morte matou todos e fugiu, mas pensem, por que o inimigo fugiria de uma grande batalha para matar todos em um caverna, deixando somente uma criança viva e depois fugiria? Não faz o menor sentido, o que me leva a crer que o inimigo vive em Call, só esperando o momento certo para agir. Faz todo o sentido, pois a mãe do Call disse pra matar seu filho, SEU FILHO. Além do mais, isso explicaria a afinidade e atração do Call pelos dominados pelo caos. Não faz sentido ele já ter nascido assim porque os magos teriam percebido algo de errado, além do mais, para o Call ter nascido assim, um de seus pais teria de ser um dominado pelo caos. Desde que eu li o prólogo, com a suposta fuga do inimigo e a mensagem da mãe do Call eu já pensei " o inimigo vive nele" Só pode

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  3. Eu acho que o Inimigo colocou o vazio no Call quando ele era bebê e que ele é do tipo que não tem aparência de Dominado. O Inimigo pode ter feito alguma coisa diferente que os outros magos não soubessem para que isso seja possível

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  4. Eu tenho duas teorias, alguém lá é um dominado pelo Caos e outro é alguma coisa do Constantine ou do irmão. Aí leio os comentários e tudo fica pior.

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  5. Tipo os pais de Devastação será que eram dominados pelo caos? Será que essa coisa e hereditária?

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Boa leitura :)