16 de janeiro de 2017

Capítulo vinte e um


Finalmente o clima se tornou quente o suficiente para que eles começassem a ter aulas ao ar livre quase todos os dias. Em uma tarde de sol, Call e Tamara foram enviados para a floresta para participar da aula da Mestra Milagros enquanto Rufus levava Aaron para um treinamento especial.
Eles não se afastaram muito dos portões do Magisterium, porém as folhagens já haviam crescido o suficiente para bloquear a visão da maior parte das entradas da escola. O ar quente cheirava a alecrim, valeriana e beladona, que cresciam no terreno ao redor da escola, e logo uma pilha de jaquetas leves e casacos se formou no chão enquanto os aprendizes corriam ao sol brincando de agarrar bolas de fogo, usando o ar para controlar seu curso.
Call e Tamara se juntaram ao treinamento com entusiasmo. Era divertido se concentrar em erguer um orbe flamejante e então lançá-lo entre as mãos. Call se esforçou para manter a bola bem perto de suas palmas, tomando cuidado para que não as tocasse.
Gwenda se queimara uma vez e agora ela era mais cautelosa, de forma que sua bola de fogo basicamente apenas flutuava, sem se mover. Apesar de Call e Tamara terem se juntado à turma posteriormente, os exercícios eram bastante semelhantes aos que o Mestre Rufus lhes passava — em especial os exercícios com a areia, que jamais sairiam de suas mentes —, de modo que eles conseguiram acompanhá-los com facilidade.
— Muito bem — disse a Mestra Milagros enquanto caminhava entre os alunos. Ela tirara os sapatos e abriu a parte de cima do uniforme escuro, revelando uma camiseta com estampa de arco-íris. — Agora, quero que criem duas bolas. Dividam o foco.
Call e Tamara assentiram. Eles conseguiam prestar atenção em mais de uma atividade sem nem pestanejar, mas alguns dos outros alunos tinham de se esforçar para realizar o exercício. Célia foi bem-sucedida, assim como Gwenda, mas um dos orbes de Jasper estourou, chamuscando seu cabelo.
Call prendeu o riso e recebeu um olhar sombrio.
Logo, porém, todos eles lançavam duas e depois três bolas no ar. Os orbes não chegavam a fazer grandes malabarismos, apenas algumas manobras em câmera lenta.
Após alguns minutos, a Mestra Milagros fez com que eles parassem mais uma vez.
— Escolham um parceiro — ordenou ela. — O aprendiz que ficar sem dupla praticará comigo. Vamos jogar a bola para o nosso parceiro, que deverá pegá-la e a mandar de volta. Vocês deverão apagar quase todas as bolas, de modo que apenas uma permaneça acesa. Prontos?
Célia puxou uma das mangas do uniforme de Call, tímida, e perguntou:
— Quer praticar comigo?
Tamara soltou um suspiro e foi praticar com Gwenda, deixando Jasper com a Mestra Milagros, já que Drew reclamara de dor de garganta e ficara no quarto. Os orbes de fogo foram de um lado para o outro, queimando o ar preguiçoso da primavera.
— Você é mesmo bom nisso! — Célia elogiou, radiante, quando Call fez com que a bola desse uma volta no ar antes de parar sobre as mãos da menina. Célia era o tipo de pessoa amigável que elogiava os outros com facilidade, mas ainda assim era bom ouvir aquilo, até mesmo porque Tamara revirava os olhos nas costas da colega.
— Certo! — A Mestra Milagros bateu palmas para atrair a atenção de todos. Ela parecia um pouco insatisfeita. A manga de seu uniforme estava queimada onde Jasper havia lançado uma bola de fogo que passara perto demais do braço da professora. — Agora que todos vocês aprenderam a usar o fogo e o ar juntos, vamos acrescentar algo um pouco mais difícil. Sigam-me.
A Mestra Milagros fez com que eles descessem o monte até um rio que borbulhava sobre algumas pedras. Quatro troncos de carvalho grossos flutuavam na superfície, sem sair do lugar, claramente presos por algum tipo de magia, pois a correnteza seguia ao redor deles. Ela apontou para os troncos.
— Vocês irão subir em um desses. Quero que usem a água e a terra para se equilibrar enquanto pelo menos três orbes de fogo devem ser mantidos no ar.
Houve um murmúrio de protestos, e a Mestra Milagros sorriu.
— Tenho certeza de que vocês conseguirão completar a tarefa. — Ela fez um gesto indicando que os alunos seguissem até os troncos.
Enquanto Call caminhava, ela colocou um dos braços ao redor de seus ombros.
— Call, sinto muito, mas acho que é melhor que você fique aqui. Com a sua perna, acho que esse exercício não é seguro — ela disse em voz baixa. — Pensei em uma versão que se adapta melhor a você. Vamos deixar que os outros comecem e então eu lhe explico.
Jasper passou por eles no caminho até o rio, olhou para Call por cima do próprio ombro e soltou um riso de desdém.
Call sentiu uma leve fúria borbulhar em seu estômago. De repente, ele estava de volta às aulas de Educação Física do sexto ano, quando ficava sentado nas arquibancadas enquanto todo mundo escalava cordas, driblava bolas de basquete ou fazia abdominais sobre colchonetes.
— Eu consigo — ele disse para a professora.
A Mestra Milagros foi até a margem do rio, com os pés descalços afundando na lama. Ela sorriu.
— Eu sei, Call, mas esse exercício já será difícil para todos os aprendizes e se mostraria ainda mais complicado para você. Acho que você ainda não está preparado para isso.
Assim, Call observou os outros alunos caminharem com dificuldade ou levitarem, desajeitados, até os troncos, oscilando quando a Mestra Milagros retirou a magia que os mantinha parados. Ele pôde ver a tensão no rosto deles enquanto tentavam mover os troncos contra a corrente, permanecer de pé e fazer com que uma bola de fogo flutuasse. Célia caiu quase que imediatamente, mergulhando no rio, ensopando o uniforme — e mesmo assim não parava de rir. Era um dia quente, e Call apostava que a sensação de cair na água deveria ser muito boa.
Jasper surpreendentemente parecia se dar bem no exercício. Ele conseguiu controlar o tronco e ficar de pé enquanto conjurava a primeira bola de fogo. Ele lançou a bola para o ar, sorrindo com desdém para Call, fazendo com que o menino se lembrasse do que ele um dia lhe dissera no Refeitório: “Se você aprender a levitar, talvez pare de atrasar seus companheiros de equipe ao mancar atrás deles.”
Call era um mago melhor que Jasper, e ele sabia disso. E não conseguia suportar o fato de Jasper pensar o contrário.
Dando uma risadinha, Célia voltou para o tronco, porém seus pés estavam molhados e ela escorregou mais uma vez quase que de imediato. Ela desapareceu debaixo d’água e Call, tomado por um impulso que não conseguiu controlar, correu até o rio e pulou sobre o tronco abandonado. Afinal, ele já andara de skate, ainda que mal, ele tinha de admitir. De qualquer forma, já fizera algo parecido com aquilo e sabia que era capaz.
— Call! — gritou a Mestra Milagros, mas ele já estava no meio do rio. Era muito mais difícil do que parecia visto da margem. O tronco rolava sob os seus pés e ele precisou erguer as mãos, cercando-se de magia da terra para manter o equilíbrio.
Célia emergiu diante dele, jogando o cabelo molhado para trás. Ao ver Call, ela arfou.
O tronco rolou para a frente, a menina mergulhou novamente com um gritinho agudo e nadou até a margem. A perna fraca de Call rolou e falhou. Ele caiu para a frente e foi parar na água.
A água do rio era negra, gelada e mais profunda do que ele imaginara. Call se contorceu, tentando nadar até a superfície, mas um de seus pés estava preso entre duas pedras.
Ele chutou desesperadamente, porém a perna fraca não era forte o suficiente para libertar a outra perna. A dor atingiu um dos lados de seu corpo enquanto tentava se soltar e ele gritou, ainda que nenhum som saísse de sua boca, já que ele estava debaixo d’água e bolhas escapavam de seus lábios.
De repente, uma mão envolveu seu braço direito, puxando-o para cima. Ele sentiu mais dor quando o pé se soltou do leito do rio e logo arfava fora d’água. A pessoa que o agarrara chapinhava pelo rio, e Call pôde ouvir os outros aprendizes gritarem enquanto ele era jogado na margem, tossindo e cuspindo água.
Ele olhou para cima e viu olhos castanhos irritados e um cabelo preto que pingava.
— Jasper? — Call não conseguia acreditar naquilo. Ele tossiu de novo, ficando com a boca cheia d’água. Estava prestes a se virar de lado para cuspir quando Tamara surgiu de repente, se ajoelhando ao lado dele.
— Call? Call, você está bem?
Ele engoliu a água, torcendo para que não houvesse girinos nela.
— Estou bem — ele coaxou.
— Por que você resolveu se mostrar daquele jeito? — perguntou Tamara, com raiva. — Por que os meninos são tão idiotas? E olha que a Mestra Milagros avisou que você não deveria participar desse exercício! Se não fosse pelo Jasper...
— Ele teria virado comida de peixe — completou Jasper, torcendo uma das pontas do uniforme.
— Bem, eu não iria tão longe — disse Mestra Milagros —, mas, Call, isso foi mesmo bem idiota.
Call olhou para si mesmo. Uma das pernas da calça se rasgara, ele perdera os sapatos e sangue escorria de um dos tornozelos. Pelo menos ele tinha machucado a perna boa, Call pensou, de forma que ninguém poderia ver o quanto a outra era retorcida.
— Eu sei — ele concordou.
A Mestra Milagros soltou um suspiro.
— Você consegue se levantar?
Call tentou se pôr de pé, e no mesmo momento Tamara estava ao seu lado oferecendo um dos braços para que ele se apoiasse. Ele aceitou a ajuda da menina sem pensar duas vezes e uivou quando a dor atravessou seu corpo. Ele deixou a perna direita cair como se alguém tivesse enfiado uma faca em seu tornozelo. Era uma dor quente, pungente. A Mestra Milagros se abaixou e tocou o tornozelo de Call com os dedos frios.
— Não quebrou, mas foi uma torção feia — a professora atestou após um momento. Ela suspirou novamente. — Turma, por hoje é só. Call, vamos levar você para a Enfermaria.


A Enfermaria era uma sala ampla, de teto alto, onde não havia uma única estalagmite ou estalactite, ou nada que borbulhasse, pingasse ou soltasse fumaça. Em vez disso, havia várias camas enfileiradas, cobertas por lençóis brancos, organizadas como se os mestres esperassem que uma grande quantidade de alunos machucados pudesse ser levada para lá a qualquer minuto. Naquele momento, não havia nenhum outro paciente ali além de Call.
A maga responsável era uma mulher alta e ruiva que trazia uma cobra sobre os ombros.
A padronagem da pele do animal mudava à medida que ele se mexia, indo de pintas de leopardo para as listras de um tigre e em seguida para bolinhas cor-de-rosa vacilantes.
— Coloque-o ali — ordenou a mulher, apontando solenemente para uma das camas enquanto alguns aprendizes carregavam Call na maca feita de galhos criada pela Mestra Milagros. Se a perna de Call não doesse tanto, teria sido interessante ver como ela utilizara a magia da terra para quebrar os galhos e prendê-los com raízes longas e flexíveis.
A Mestra Milagros os supervisionou quando depositaram Call na cama.
— Obrigada, alunos — ela agradeceu enquanto Tamara andava de um lado para o outro, ansiosa. — Agora vamos deixar que a Mestra Amaranth faça o seu trabalho.
Call se ergueu sobre os cotovelos, ignorando  a dor aguda na perna.
— Tamara...
— O quê? — Ela se virou com os olhos escuros arregalados. Todos olhavam para eles. Call tentou se comunicar com ela pelo olhar. “Tome conta do Devastação. Assegure-se de que ele tenha comida suficiente.”
— Ele está ficando vesgo — Tamara comunicou à Mestra Amaranth, preocupada. — Deve ser a dor. Você pode fazer alguma coisa?
— Não com todos vocês aqui. Xô! Xô! — Amaranth sacudiu uma das mãos e os aprendizes se apressaram para sair junto com a Mestra Milagros. Tamara parou na porta para lançar outro olhar preocupado para Call.
Call caiu na cama com um baque. Sua mente estava fixa em Devastação enquanto a Mestra Amaranth cortava seu uniforme, exibindo manchas roxas que cobriam boa parte de sua perna. Da perna boa. Por um momento, o pânico cresceu no peito do menino, fazendo com que ele tivesse a impressão de que iria engasgar. E se ele não pudesse mais andar?
A mestra deve ter visto o medo na expressão do paciente, pois sorriu e tirou um rolo de musgo de um pote de vidro.
— Você vai ficar bem, Callum Hunt. Já cuidei de machucados piores que este.
— Então não está tão ruim quanto parece? — arriscou Call.
— Ah, não. Está mesmo ruim. Mas eu sou muito, muito boa no que faço.
De alguma forma confortado com aquelas palavras e decidindo que seria melhor não fazer mais perguntas, Call deixou que ela cobrisse sua perna com um musgo de um verde intenso e então envolvesse tudo com lama. Por fim, ela fez com que o menino bebesse um líquido leitoso que fez com que grande parte da dor desaparecesse e com que ele tivesse a leve sensação de que flutuava junto ao teto da caverna, como se o sopro da serpe houvesse finalmente o atingido.
Sentindo-se muito idiota, ele caiu no sono.


Call — uma menina sussurrou muito próximo à orelha dele, fazendo com que seu cabelo se movesse e ele sentisse cócegas no pescoço. — Call, acorde.
E então ele ouviu outra voz. Um garoto, desta vez.
— Talvez devêssemos voltar. Digo, não dizem que dormir ajuda na cura?
— É, só que não vai ajudar a gente. — A primeira voz se elevou e parecia ainda mais mal-humorada. Tamara. Call abriu os olhos.
Tamara e Aaron estavam na Enfermaria.
Ela estava sentada ao lado dele na cama e balançava gentilmente o seu ombro. Aaron segurava Devastação, que não parava de babar, arfar e balançar a cauda. Ele tinha uma coleira improvisada, feita de corda, ao redor do pescoço.
— Eu ia levá-lo para passear — explicou Aaron —, mas, já que não tinha mais ninguém além de você na Enfermaria, pensamos em trazê-lo aqui primeiro para uma visita.
— Trouxemos também o jantar lá do Refeitório. — Tamara apontou para um prato coberto por um guardanapo na mesa de cabeceira. — Como você está?
Call experimentou mexer a perna dentro do gesso feito de lama. Não doía mais.
— Estou me sentindo um imbecil.
— Não foi sua culpa — Aaron comentou, ao mesmo tempo em que Tamara disse:
— Bem, você deveria se sentir assim mesmo.
Eles olharam um para o outro, depois se voltaram para Call.
— Desculpe, Call, mas não foi uma das suas melhores ideias — Tamara completou.
— E você roubou o tronco da Célia. Não que ela deixasse de gostaaaaar de você por causa disso.
— Como assim? Ela não gosta de mim desse jeito — Call protestou, horrorizado.
— Gosta, sim — Tamara abriu um grande sorriso. — Você podia ter batido na cabeça dela com o tronco que ela continuaria toda “ah, Call, como você é bom nessa coisa de magia”.
Call olhou para Aaron, cuja expressão no rosto informava que ele concordava com Tamara e achava toda aquela história hilária.
— De qualquer forma — continuou Tamara —, a gente só não queria que você fosse esmagado por um tronco. Precisamos de você.
— Tamara está certa — Aaron concordou. — Você é o meu contrapeso, lembra?
— Só porque ele se voluntariou primeiro — retrucou Tamara. — Você devia ter feito algum tipo de teste.
Call ficou preocupado com o fato de Tamara ter ficado com ciúmes por achar que Aaron escolheu o amigo como seu contrapeso, porém, mais do que qualquer outra coisa, ela parecia achar que, por mais que gostasse de Call, Aaron provavelmente deveria ter pensado mais alto.
— Aposto que Alex Strike também estaria disponível. E ele é um gatinho.
— Não importa. — Aaron revirou os olhos. — Eu não queria Alex. Eu queria Call.
— Eu sei. Ele vai se dar muito bem nessa função — Tamara acrescentou, de forma inesperada, e Call lhe lançou um sorriso grato.
Mesmo de cama, com a perna coberta de lama, era bom ter amigos.
— E eu aqui preocupado achando que vocês poderiam se esquecer do Devastação — disse Call.
— De maneira alguma! — disse Aaron, animado. — Ele comeu as botas da Tamara.
— Minhas botas preferidas. — Tamara deu um tapinha em Devastação, que fugiu, indo mais que depressa em direção à porta, olhando, triste, para a cama de Call. Um ganido baixinho surgiu na garganta do lobo.
— Acho que agora ele quer passear — disse Call.
— Vou levá-lo. — Aaron correu até a porta e pegou a corda amarrada no pescoço do filhote. — Não tem ninguém nos corredores agora porque é hora do jantar. Já volto.
— Se você for pego, vou fingir que não te conheço! — Tamara gritou, bem-humorada, antes de fechar a porta atrás dele. Ela pegou o prato na mesa de cabeceira e tirou o guardanapo. — Líquen delicioso — ela disse, equilibrando o prato na barriga de Call. — Do seu tipo preferido.
Call pegou uma lasca de vegetal seco e a mordeu, pensativo.
— Fico imaginando se, quando voltarmos para casa, não estaremos tão acostumados com líquen que não iremos mais querer pizza nem sorvete. Vou acabar indo para a floresta comer musgo.
— Todo mundo na sua cidade vai achar que você é maluco.
— Todo mundo na minha cidade já acha que eu sou maluco.
Tamara jogou uma das tranças para trás e acariciou a ponta enquanto pensava.
— Você vai ficar bem quando for para casa no verão?
Call ergueu os olhos de seu líquen.
— O que você quer dizer?
— O seu pai — ela disse —, ele odeia tanto o Magisterium, mas você... você gosta daqui. Pelo menos eu acho que você gosta. E você vai voltar no ano que vem. Não é exatamente isso o que ele não queria?
Call não respondeu.
— Você vai voltar no ano que vem, não vai? — Ela se inclinou para a frente, preocupada. — Call?
— Quero voltar — ele desabafou. — Eu quero, mas tenho medo de que o meu pai não deixe. Talvez haja um motivo para que ele faça isso, mas não quero saber o que é. Caso haja alguma coisa errada comigo, quero que Alastair guarde essa informação para si mesmo.
— Não há nada de errado a não ser o fato de a sua perna estar quebrada. — Tamara parecia ansiosa.
— E de eu adorar aparecer. — Call tentou tornar o clima mais leve.
Tamara jogou um pedaço de líquen para ele enquanto conversavam um pouco sobre como todos tinham reagido ao novo status de celebridade de Aaron, inclusive ele mesmo. Tamara estava preocupada, embora Call assegurasse que o amigo era capaz de lidar com aquilo.
Tamara então começou a contar que seus pais estavam empolgados por ela estar no mesmo grupo que o Makar, o que era bom, porque ela queria que os dois se orgulhassem dela, e mau também, porque isso significava que eles estavam ainda mais preocupados que o usual com o fato de ela se comportar de maneira exemplar o tempo todo. E a ideia deles de exemplar nem sempre era mesma que a da filha.
— Agora que temos um Makar, o que isso significa para o Tratado? — Call perguntou, pensando no discurso de Rufus e na maneira como os membros da Assembleia reagiram durante a reunião.
— Nada até agora. Ninguém quer dar nenhum passo contra o Inimigo da Morte enquanto Aaron for tão jovem. Bem, quase ninguém. Só que, assim que o Inimigo souber dele, se é que já não sabe, quem pode saber o que ele vai fazer?
Após alguns minutos de conversa, Tamara olhou para o seu relógio.
— O Aaron está demorando — ela disse. — Se ele ficar fora por mais algum tempo, o horário do jantar estará terminado e ele vai ser pego quando estiver voltando pelos corredores. Talvez eu deva dar uma olhada no que está acontecendo.
— Certo — concordou Call. — Vou com você.
— Tem certeza de que é uma boa ideia? — Tamara ergueu uma das sobrancelhas e olhou para a perna dele. Parecia bem ruim, envolta em musgo e imobilizada por uma camada de lama.
Call tentou mexer os dedos. Nada doía.
Ele se sentou na beirada da cama e balançou as pernas, criando várias rachaduras no gesso de musgo e lama.
— Não consigo mais ficar aqui sentado. Vou acabar ficando maluco. E a minha perna está coçando. Quero tomar um ar.
— Tudo bem. Só que a gente vai ter de ir devagar. E, se você sentir qualquer dor, vai ter de voltar na mesma hora para descansar.
Call assentiu. Ele se levantou, apoiando-se na cabeceira da cama. Assim que o menino ficou de pé, o gesso se quebrou por completo na metade e caiu no chão, deixando sua panturrilha exposta debaixo da calça rasgada.
— Você está com uma aparência ótima. — Tamara foi até a porta. Mais que depressa, Call calçou as meias e as botas, que foram jogadas debaixo da cama que ele ocupava. Ele pôs as duas metades das pernas da calça rasgada dentro da meia, de maneira que não ficassem balançando enquanto andava, e pegou Miri, prendendo-a no cinto. Então seguiu Tamara pelo corredor.
Os corredores estavam silenciosos, como se todos os alunos estivessem no Refeitório. Call e Tamara tentaram fazer o mínimo de barulho possível para chegar até o Portão das Missões. Call se sentia firme. Ambas as pernas doíam um pouco, apesar de ele se recusar a confessar isso para Tamara. Ele pensou que deveria estar com uma aparência bizarra, com a calça rasgada que se abria do joelho até o tornozelo e o cabelo todo bagunçado, mas felizmente não havia ninguém ali para vê-lo. Eles encontraram o Portão das Missões e se esgueiraram para a escuridão sem fazer barulho.
A noite estava quente e clara. A lua brilhava no céu, delineando as árvores e os caminhos ao redor do Magisterium.
— Aaron — Tamara começou a chamar baixinho. — Aaron, cadê você?
Call se virou, inspecionando a floresta.
Havia algo de sinistro naquela mata, as sombras volumosas entre as árvores, os galhos que sacudiam com o vento.
— Devastação! — ele chamou.
Após um momento de silêncio, o filhote de lobo saiu correndo de trás das árvores. Os olhos brilhantes rodopiavam como fogos de artifício. Ele foi até Call e Tamara. A coleira improvisada estava pendurada no chão atrás dele. Call ouviu Tamara soltar um suspiro discreto.
— Onde está Aaron? — ela perguntou.
Devastação ganiu e pulou, dando patadas no ar. Ele corria ao redor deles com os pelos arrepiados e mexendo as orelhas freneticamente. O animalzinho gania e dançava diante de Call, esfregando o focinho gelado em uma das mãos do menino.
— Devastação... — Call enterrou os dedos na nuca do lobo, tentando fazer com que se acalmasse. — Você está bem, garoto?
Devastação ganiu novamente e dançou para longe, contorcendo-se para se livrar da mão de Call. O animal correu para a floresta, mas antes disso parou para olhar para eles por cima dos ombros.
— Ele quer que a gente o siga — concluiu Call.
— Você acha que o Aaron está machucado? — Tamara olhou ao redor, desesperada. — Será que ele foi atacado por algum elemental?
— Vamos — Call disse, olhando para o chão escuro, ignorando as pontadas nas pernas.
Depois de ter certeza de que os meninos o seguiam, Devastação correu como uma bala por entre as árvores como um borrão marrom à luz do luar.
O mais rápido que podiam, Tamara e Call o seguiram.

4 comentários:

  1. Tô achando q alguém matou o Aaron '-'

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  2. Francamente, POR QUE OS GAROTOS SÃO TÃO IDIOTAS???????????

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  3. Meus deuses como o Call é tapado. Até o Devastação deve perceber que a Célia gosta dele. Ah, cara. Que suspense!!

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Boa leitura :)