16 de janeiro de 2017

Capítulo vinte e três


Tamara, que se abaixou ao lado de Call para espiar também, fez um som de choque.
— Drew — Aaron arfou, obviamente sentindo dor. Ele pegou o grilhão preso ao redor do tornozelo, então caiu para trás quando um elemental do caos ergueu um de seus tentáculos sombrios, que assumiu uma forma mais nítida ao se aproximar de Aaron, até que se tornou quase sólido ao se arrastar sobre sua pele. Ele tentou se afastar por reflexo e gritou em agonia. — Drew, me deixe sair...
— O quê? Você não consegue fazer isso sozinho, Makar? — Drew abriu um sorriso de deboche e puxou a corrente para que Aaron ficasse a apenas alguns centímetros do alcance do elemental do caos. — Achei que você fosse poderoso. Especial. Só que, na verdade, você não tem nada de especial, não é? Nadinha mesmo.
— Eu nunca disse isso — Aaron respondeu, com a voz embargada.
— Você sabe como foi fingir que eu era um fiasco na magia? Que eu era um imbecil? Ouvir o Mestre Lemuel lastimar por ter me escolhido? Eu era melhor que todos vocês, mas não podia demonstrar isso ou Lemuel adivinharia quem realmente me treinou. Tive de ouvir os mestres contarem sua versão idiota da história e fingir que concordava com aquilo, mesmo sabendo que, se não fosse pelos magos da Assembleia, o Inimigo nos daria meios de viver para sempre. Você sabe como foi descobrir que o Makar era um garoto estúpido, vindo sabe-se lá de onde, que jamais faria nada com o seu poder além daquilo que os magos lhe ordenassem?
— Então você vai me matar por causa de tudo isso? — indagou Aaron. — Porque eu sou um Makar?
Drew apenas soltou uma gargalhada. Call se virou para o outro lado e viu que Tamara tremia, com os dedos fechados em punhos.
— Temos de entrar — ele sussurrou para ela. — Precisamos fazer alguma coisa.
Ela se levantou. Seu bracelete brilhava na escuridão.
— As vigas. Caso consigamos escalá-las, podemos arrastar Aaron para fora do alcance daquela coisa.
O pânico tomou conta de Call, porque o plano era bom, mas, quando ele imaginou que teria de escalar e depois tentar equilibrar seu peso enquanto avançava sobre a madeira, teve certeza de que não conseguiria. Ele poderia escorregar. Poderia cair. Durante toda a dolorosa jornada pela floresta, com as pernas rígidas e doendo, ele disse a si mesmo que ajudaria a salvar Aaron. E então ele estava bem ali diante do amigo — que estava em perigo, que precisava ser salvo — e não teria nenhuma utilidade. A pressão causada pelo desespero era tão intensa que ele considerou a possibilidade de não falar nada, simplesmente subir na viga e torcer pelo melhor.
Mas a lembrança do medo no rosto de Célia quando ele emergiu do rio apenas para ver Call perder o controle do tronco e arremessá-lo na direção dela fez com que o menino se decidisse. Caso fosse tornar as coisas ainda piores ao fingir que era capaz de ajudar, ele estaria simplesmente colocando Aaron em um perigo ainda maior.
— Não consigo — Call confessou.
— O quê? — Tamara perguntou. Ela então olhou para a perna dele e ficou sem graça. — Ah, tudo bem. Fique aí com o Devastação. Já volto. De qualquer forma, deve mesmo ser melhor que apenas uma pessoa faça isso. Assim é mais difícil ser percebido.
Pelo menos durante algum tempo ele conseguiu passar a impressão de que era capaz de fazer algo como aquilo, Call imaginou.
Pelo menos Tamara o considerava uma pessoa que conseguia fazer as coisas e ficou surpresa por ele não ser capaz de acompanhá-la.
Era um consolo triste, se é que de fato aquilo realmente representava algo.
Então, de repente, ele se deu conta de algo que podia fazer.
— Vou distraí-lo.
— O quê? Não! — Tamara balançou a cabeça, enfática. — É muito perigoso. Ele tem um elemental do caos.
— Devastação estará comigo. Além disso, não há outra maneira de libertar Aaron. — Call encarou Tamara bem nos olhos e torceu para que ela percebesse que não voltaria atrás. — Confie em mim.
Tamara assentiu uma única vez. Em seguida, lançou-lhe um sorriso rápido e escapuliu porta adentro. Apesar das botas, ela pisava de uma maneira tão leve que depois de apenas dois passos ele não era mais capaz de ouvi-la, pois o som era abafado pelas risadinhas de Drew e o rosnado do elemental do caos. Ele contou até dez — um, mil, dois mil, trezentos e um mil — e então escancarou a porta com o maior alarde de que foi capaz.
— E aí, Drew? — Ele se esforçou para colocar um sorriso no rosto. — Tenho certeza de que isto aqui não tem nada a ver com a escola de pôneis.
Drew levou um susto tão grande que pulou para trás, puxando a corrente e erguendo Aaron mais alguns metros acima. O menino berrou de dor, o que fez com que Devastação ganisse.
— Call? — disse Drew, incrédulo, e Call teve um lampejo daquela noite em que Drew tremia e chamava por ele com o tornozelo torcido dentro de uma vala nos arredores do Magisterium.
Atrás dele, Call pôde ver que Tamara começava a escalar a parede oposta, utilizando as gaiolas como escada, enfiando as botas entre as barras, movendo-se tão silenciosamente quanto uma gata.
— Sério mesmo que você está surpreso? Que você ainda não entendeu o que eu estou fazendo neste lugar? — Call inquiriu. — Eu é que deveria perguntar o que você está fazendo aqui. Além de transformar um de seus colegas de escola no jantar de um elemental do caos, é claro. Sério, o que o Aaron fez para você? Tirou uma nota maior que a sua no Desafio? Pegou o último pedaço de líquen no jantar?
— Cale a boca, Call.
— Você achava mesmo que não seria pego?
— Eu não fui pego ainda. — Drew parecia estar se recuperando da surpresa e lançou um sorriso asqueroso para Call.
— Então quer dizer que tudo aquilo não passou de encenação? Todas aquelas coisas sobre o Mestre Lemuel, todas as vezes que você fingiu ser um aluno como os outros? — Naquele momento, Call não tentava apenas ganhar tempo. Ele estava de fato curioso.
Drew tinha a mesma aparência de sempre: o cabelo castanho emaranhado, o corpo magrelo, os grandes olhos azuis, as sardas, porém havia algo por trás de seus olhos que Call não vira antes, uma coisa horrenda e sinistra.
— Os mestres são tão estúpidos — acusou Drew. — Sempre preocupados com o que o Inimigo fazia do lado de fora do Magisterium, preocupados com o Tratado. Nem mesmo quando eu fugi da escola eles enviaram uma mensagem para o Inimigo. Em vez disso, o que eles fizeram? — O menino arregalou os olhos azuis e, por um momento, Call captou um lampejo daquele garoto que estava no ônibus que os levaria para o Magisterium, que parecia nervoso por ir para uma escola de magia. — “Oh, o Mestre Lemuel é tão cruel. Ele me assusta.” E então eles o demitiram! — Drew soltou uma gargalhada.
A máscara de inocência se desfez novamente, mostrando toda a frieza que havia por trás dela.
Devastação começou a rosnar diante daquela cena, deslizando para se pôr entre Drew e Call.
— E então você mandou um recado para o Inimigo? — Call perguntou. Para seu alívio, Tamara já estava quase chegando às vigas. — Foi você quem contou a ele sobre Aaron?
— O Makar — disse Drew. — Todos esses anos, os magos têm esperado pelo Makar, mas eles não são os únicos. Nós também esperávamos. — Ele puxou a corrente que segurava Aaron, que emitiu um som de dor, mas Call não olhou para cima. Não podia fazer isso, então continuou a encarar Drew, para que este não prestasse mais atenção em nada além dele.
— Nós? — repetiu Call. — Como assim? Eu só estou vendo um maluco aqui: você.
Drew ignorou o sarcasmo. Ele ignorou até mesmo a presença de Devastação.
— Não acredito que você ache que eu sou o responsável por este lugar. Não seja imbecil, Call. Aposto que você viu os Dominados pelo Caos, os elementais. Aposto que você pode sentir. Você sabe quem é o dono desta festa.
Call engoliu em seco e disse:
— O Inimigo.
— O Inimigo... Não é que você é mesmo capaz de colocar essa cachola para funcionar? — Drew estalou a língua, indolente. — Nós poderíamos ser amigos, Call. Andei prestando atenção em você. Poderíamos estar do mesmo lado.
— Claro que não poderíamos. Aaron é meu amigo. E o Inimigo o quer morto, não é? Ele não quer outro Makar para desafiá-lo.
— Tudo isso é muito divertido. Você não sabe de nada. Você acha que Aaron é seu amigo. Você acha que tudo que lhe contaram no Magisterium é verdade. Só que não é. Eles disseram a Aaron que o manteriam em segurança, mas não cumpriram a promessa. E nem poderiam. — Ele puxou a corrente que segurava Aaron e Call se encolheu, à espera de um novo grito de dor.
Porém, Call não ouviu nada. Ele olhou para cima. Aaron não estava mais pendurado.
Tamara o puxara para cima da viga e estava ajoelhada diante dele, com os dedos trabalhando freneticamente para soltar a corrente que envolvia o tornozelo do amigo.
— Não! — Drew puxou a corrente mais uma vez, possesso, mas Tamara a rompera na outra ponta, de forma que Drew a soltou quando os elos caíram no chão.
— Olha só, agora, nós vamos embora — disse Call. — Vou dar o fora daqui e...
— Você não vão sair! — Drew berrou enquanto corria para pressionar as mãos sobre o contêiner de vidro.
Era como se ele tivesse colocado uma chave em uma fechadura e abrisse uma porta, só que muito mais violento. O contêiner se despedaçou, espalhando cacos de vidro para todos os lados. Call ergueu as mãos para cobrir o rosto enquanto os estilhaços, que mais se assemelhavam a uma chuva de agulhas minúsculas, perfuravam seus antebraços. Um vento parecia soprar dentro da sala. Devastação gania e, de algum lugar, Tamara e Aaron gritavam.
Aos poucos, Call abriu os olhos.
Os elementais do caos surgiram diante dele, cobrindo sua visão com sombras. Uma escuridão onde rostos malformados e bocas repletas de dentes se agitavam. Sete braços dotados de garras se ergueram, um de cada vez, na direção de Call. Alguns eram escamados; uns, peludos; outros, pálidos como tecido morto.
Call sentiu-se sufocado e deu um passo para trás. As mãos tateavam ao acaso, erguidas ao lado do corpo. Os dedos se fecharam ao redor da empunhadura de Miri e ele tirou a lâmina da bainha, brandindo a arma diante de si com movimentos longos e curvos.
Miri afundou em alguma coisa, algo que dava a sensação de que a lâmina penetrava uma fruta podre. Uivos escaparam das muitas bocas do monstro do caos. Um grande talho foi aberto em um de seus braços. A escuridão vertia do ferimento e rodopiava no ar como se fosse a fumaça de um incêndio. Outro braço tentou prendê-lo, mas Call se jogou no chão de modo que a criatura conseguiu apenas roçar em seu ombro. A área tocada pelo monstro tornou-se dormente logo de imediato, e Miri caiu de seus dedos.
Call fez um esforço para se erguer sobre um dos cotovelos e estendeu o braço bom por cima do próprio corpo para tentar recuperar Miri. Porém, já era tarde demais. O elemental deu meia-volta e se espalhou pelo assoalho como se fosse uma mancha de óleo no mar, uma língua imensa, semelhante à de um sapo, deslizando na direção de Call...
Com um uivo, Devastação pulou no ar e aterrissou bem nas costas do elemental. Ele enterrou os dentes na superfície escorregadia e suas garras furaram a escuridão turva. O monstro sofreu um espasmo, oscilando para trás. Cabeças explodiram por todo o corpo da criatura, os braços se moviam a esmo, tentando agarrar Devastação. O lobo manteve-se agarrado à massa negra, montando o monstro.
Percebendo que aquela era a sua chance, Call se levantou mais que depressa e pegou Miri com a mão boa. Ele investiu contra o elemental e enfiou a adaga no que pensou ser um dos lados do seu corpo.
Ele retirou a lâmina, da qual pingava uma substância negra que parecia ser algo entre uma nuvem de fumaça e uma poça de óleo. O elemental do caos urrou e se debateu, arremessando Devastação, que voou para o outro lado da sala, junto às portas duplas. Ele soltou um ganido e logo em seguida ficou imóvel.
— Devastação! — Call gritou, correndo como uma flecha na direção do lobo. Ele estava na metade do caminho quando ouviu um rosnado atrás de si. O elemental do caos rodopiava em seu encalço. A ira começou a crescer dentro dele. Caso aquela criatura houvesse machucado Devastação, ele a cortaria em mil pedacinhos nojentos e oleosos.
Ele se virou. Miri brilhava em suas mãos. O elemental do caos se encolheu e a escuridão formou uma poça ao seu redor, como se ele não estivesse mais tão ávido por lutar.
— Vá em frente, covarde — berrou Drew, chutando a criatura, que se virou e investiu contra Drew, que berrou uma única vez e então o elemental já rolava sobre ele como uma onda. Call congelou onde estava, com Miri em punho. Ele se lembrou da dor gélida que sentira graças a um simples toque da criatura de caos. E agora aquela substância negra se jogava sobre Drew, que se debatia a esmo e revirava os olhos de forma que era possível ver apenas a parte branca dos globos oculares.
— Call! — Uma voz o tirou daquele estado de choque. Era Tamara, que berrava para ele de cima de uma das vigas. Ela estava de joelhos com Aaron ao seu lado. O grilhão e as correntes formavam uma pilha revirada junto aos dois. Aaron estava livre, apesar de seus pulsos estarem cobertos de sangue exatamente onde ele havia sido preso, provavelmente quando o levaram do Magisterium, e Call podia apostar que seus tornozelos estavam em situação ainda pior.
— Call, saia daí!
— Não posso. — Call apontou com Miri para o elemental do caos e Drew, que estavam entre ele e a porta.
— Vá por ali — Tamara apontou para as portas atrás dele. — Procure qualquer coisa. Uma janela, sei lá, qualquer troço. Encontramos você lá fora.
Call assentiu e pegou Devastação. “Por favor”, ele pensou. “Por favor.” O corpo em seus braços era quente, e, quando pressionou o lobo contra o peito, pôde sentir as batidas estáveis do coração do animal. O peso extra fazia com que suas pernas doessem ainda mais, mas ele não se importou.
“Ele vai ficar bem”, ele pensou consigo mesmo, com firmeza. “Agora, ande.
Ele olhou para trás e viu que Tamara e Aaron desciam das vigas próximas à outra porta. Quando olhou novamente para o outro lado, o elemental do caos se ergueu, afastando-se de Drew. Diversas bocas se abriram e uma língua roxa que mais parecia um chicote estalou para sentir o ar ao redor, com sua ponta bifurcada. E então a criatura começou a se mover na direção de Call.
Call berrou e deu um pulo para trás. Devastação se contorceu em seus braços, uivou e pulou para o chão. Ele correu na direção das portas do outro lado da sala, com Call em seu encalço. Eles colidiram com as portas ao mesmo tempo, quase as arrancando das dobradiças.
Devastação derrapou no assoalho para parar. Call quase caiu em cima dele e por pouco não conseguiu recuperar o equilíbrio.
Call olhou ao redor da sala. Parecia o laboratório do Dr. Frankenstein. Béqueres contendo líquidos borbulhantes de cores estranhas estavam espalhados por todos os lados, um maquinário pesado estava pendurado por cabos presos no teto, que rodavam e se moviam sem parar. As paredes eram cobertas por gaiolas alinhadas repletas de elementais de vários tamanhos. Alguns deles brilhavam com intensidade.
E então Call ouviu algo atrás de si, um rosnado grosso, balbuciado. O elemental do caos os seguiu até aquela sala e se arrastava na direção deles, uma nuvem escura coberta de garras e dentes. Call começou novamente uma corrida trôpega, derrubando os tubos cheios de líquidos pelo caminho até se chocar com o que parecia ser uma vitrine de armas antigas encostada em uma das paredes. Se ele pelo menos conseguisse passar pelo elemental com aquele machado que aparentava ser tão pesado, talvez...
— Pare! — Um homem usando um manto negro com capuz saiu a passos largos de trás de uma estante pesada. O rosto era ocultado pelas sombras, e ele balançava um imenso cajado com um ônix na ponta. Ao vê-lo, Devastação soltou um ganido e se enfiou debaixo de uma das mesas ali por perto.
Call congelou. O estranho passou por ele sem lhe lançar nem um único olhar e ergueu o cajado.
— Já chega! — ele gritou com uma voz grave e apontou a ponta com o ônix para o elemental.
A escuridão explodiu a partir da pedra, atingindo em cheio a criatura do outro lado da sala, avolumando-se antes de envolver o elemental e engoli-lo para o nada. A coisa soltou um grito terrível, gutural, e desapareceu.
O homem se virou para Call e aos poucos baixou o capuz de seu manto. O rosto dele estava semicoberto por uma máscara de prata que ocultava os olhos e o nariz. Abaixo dela, Call podia ver apenas o queixo e um pescoço talhado por cicatrizes brancas. As cicatrizes eram uma novidade, mas a máscara lhe era familiar. Call a vira antes em fotografias. Ouvira a descrição. Uma máscara utilizada para cobrir as marcas de uma explosão que quase matou aquele que a usava. Uma máscara utilizada para impor o medo.
Uma máscara utilizada pelo Inimigo da Morte.
— Callum Hunt — disse o Inimigo. — Eu esperava vê-lo.
Seja lá o que Call esperava que o Inimigo falasse, com toda a certeza não era aquilo.
Ele abriu a boca, mas tudo o que saiu dela foi um sussurro.
— Você é Constantine Madden — ele disse —, o Inimigo da Morte.
O Inimigo se moveu na direção dele, um redemoinho negro e prateado.
— Levante-se. Deixe-me olhar para você — disse o Inimigo.
Devagar, Call se pôs de pé para encarar o Inimigo da Morte. A sala estava quase em silêncio. Até mesmo os ganidos de Devastação pareciam fracos e distantes.
— Olhe só para você — disse o Inimigo. Havia uma espécie de prazer estranho em sua voz. — É claro que é uma pena o que aconteceu com a sua perna, mas, no fim das contas, isso não faz a menor diferença. Suponho que Alastair tenha preferido deixá-lo assim a fazer uso da magia de cura. Ele sempre foi teimoso. E agora é tarde demais. Você já pensou nisso, Callum? Que se talvez Alastair Hunt fosse um pouco menos teimoso você poderia ser capaz de andar normalmente?
Call nunca pensara naquela possibilidade.
Entretanto, naquele momento esse pensamento se alojou como um cubo de gelo em sua garganta, fazendo com que engasgasse com as palavras. Ele deu um passo para trás, e suas costas atingiram uma mesa repleta de potes de vidro e béqueres. Ele ficou imóvel.
— Mas os seus olhos...
Os olhos do Inimigo pareceram então tomados pela soberba, embora Call não conseguisse descobrir o que provocara aquele sentimento tão repentino. Toda aquela confusão o deixava tonto.
— Dizem que os olhos são as janelas da alma. Perguntei um monte de coisas a seu respeito para Drew, mas nunca passou pela minha cabeça perguntar sobre os seus olhos.
O Inimigo fez uma careta, e a pele repleta de cicatrizes se retesou por baixo da máscara.
— Drew — ele disse. — Onde está esse garoto? — O Inimigo elevou a voz. — Drew!
Houve um silêncio. Call imaginou o que aconteceria se ele erguesse a mão atrás de si, pegasse um béquer ou um pote e o jogasse contra o Inimigo. Será que isso faria com que ele ganhasse tempo? Será que ele conseguiria correr?
— Drew! — o mago chamou novamente, e agora havia algo mais na voz dele, um traço que lembrava alarde. Mais que depressa, ele passou por Call, impaciente, e se esgueirou pelas portas duplas até o aposento com paredes de madeira anexo.
Houve um longo momento do mais profundo silêncio. Call olhou ao redor, desesperado, tentando ver se havia mais alguma outra porta, qualquer outra maneira de escapar daquela sala além daquela por onde ele veio. Não havia. Ao seu redor ele podia ver apenas prateleiras repletas de volumes empoeirados, mesas cobertas de material alquímico e, no alto das paredes, pequenos elementais do fogo posicionados em nichos forjados com cobre que iluminavam a sala com suas chamas. Os elementais encaravam Call com seus olhos vazios enquanto ele escutava sons na outra sala — um grito longo e cortante de dor e desespero.
— DREW!
Devastação ganiu. Call pegou um dos béqueres de vidro e cambaleou até as portas duplas. A dor latejava pela perna, subindo-lhe pelo corpo, como se lâminas golpeassem suas veias. Ele queria se jogar no chão, deitar e deixar que a inconsciência tomasse conta de sua mente. Ele se apoiou no batente da porta e observou.
O Inimigo estava de joelhos. Drew estava deitado com a cabeça no colo dele, o corpo flácido e sem reação. A pele já começava a se tornar fria e a assumir uma coloração azul. Ele nunca mais despertaria.
O coração de Call começou a bater mais devagar de tanto horror. Ele não conseguia desviar os olhos do Inimigo, que estava curvado sobre o corpo de Drew, com seu cajado largado no assoalho ao lado dele. As mãos cobertas de cicatrizes acariciavam o cabelo do menino.
— Meu filho — ele sussurrou. — Meu pobre filho.
“Filho dele?”, Call pensou. “O Drew é filho do Inimigo da Morte?”
De repente, a cabeça do Inimigo se ergueu.
Apesar da máscara, Call podia sentir seus olhos sobre ele, enegrecidos por uma fúria que lembrava lasers.
— Você — ele sibilou. — Você foi o responsável por isso. Você libertou o elemental e matou o meu filho.
Call engoliu em seco e deu um passo para trás, mas o Inimigo já havia se levantado e pegava seu cajado. Ele o brandiu na direção de Call e o menino tropeçou. O béquer voou de suas mãos e se despedaçou no chão. Call se apoiou em um dos joelhos. A outra perna doía tanto que o fazia gritar.
— Eu não... — ele começou. — Foi um acidente...
— Levante-se — o Inimigo rosnou. — Levante-se, Callum Hunt, e olhe para mim.
Devagar, Call ficou de pé e encarou o homem com a máscara prateada do outro lado da sala. Call tremia não apenas devido à dor nas pernas e à tensão em seu corpo, mas também graças ao medo, à adrenalina e ao desejo impossível de sair correndo. Uma expressão furiosa havia se instalado no rosto do Inimigo. Os olhos dele brilhavam de ira e pesar.
Call queria abrir a boca, queria dizer algo em sua própria defesa, mas não havia nada a ser dito. Drew estava no chão, imóvel, rígido e com os olhos vazios, deitado entre os cacos do contêiner de vidro. Estava morto e a culpa era de Call. Ele não era capaz de se explicar, de se defender. Estava encarando o Inimigo da Morte, que tinha todo um exército de criaturas assassinas. É claro que ele não hesitaria diante de um reles garoto.
A mão de Call largou a empunhadura de Miri. Havia apenas uma coisa a ser feita.
Respirando fundo, ele se preparou para morrer.
Ele esperava que Tamara e Aaron conseguissem passar pelos Dominados pelo Caos, pulassem a janela e voltassem para o Magisterium.
Ele esperava que, já que Devastação era um Dominado pelo Caos, o Inimigo não pegasse muito pesado com ele por não ser um cachorro zumbi do mal.
Ele esperava que o pai não ficasse com raiva dele por ir para o Magisterium e acabar morto, exatamente como ele sempre dissera que aconteceria.
Ele esperava que o Mestre Rufus não desse o lugar dele em seu grupo para Jasper.
O mago estava próximo o suficiente para que Call pudesse sentir o calor de seu hálito, ver seus lábios finos se contorcerem, o brilho em seus olhos e os tremores que percorriam todo o seu corpo.
— Se você vai me matar — disse Call —, vá em frente. Faça logo o que tiver de ser feito.
O mago ergueu o cajado e o jogou longe. Ele caiu de joelhos, baixou a cabeça e assumiu uma postura de súplica, como se implorasse pela misericórdia de Call.
— Mestre, meu mestre — ele declarou com uma voz esganiçada. — Perdoe-me. Eu não havia percebido.
Call o encarou, confuso. O que significava aquilo?
— Isto é um teste. Você está testando minha lealdade e comprometimento. — O Inimigo respirou fundo. Era evidente que ele mal conseguia se controlar, apesar de sua visível força de vontade. — Caso você, meu mestre, tenha decretado que Drew deveria morrer, então a morte do meu filho serviu a um propósito maior. — Essas palavras pareciam cortar sua garganta, como se fosse doloroso pronunciá-las. — Agora, também realizei um sacrifício pessoal em nome de nossa missão. O meu mestre é sábio. Como sempre, ele é sábio.
— O quê? — A voz de Call era trêmula. — Não estou entendendo. Seu mestre? Você não é o Inimigo da Morte?
Diante de um Call chocado, o mago ergueu as mãos e tirou a máscara de prata, mostrando o rosto. Era uma face coberta por cicatrizes, envelhecida, enrugada, desgastada. E, apesar de ser estranhamente familiar, aquele não era o rosto de Constantine Madden.
— Não, Callum Hunt. Eu não sou o Inimigo da Morte — ele disse. — Você é.

25 comentários:

  1. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah
    É só o que tenho a dizer
    Bia

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    1. Somus twu (2 no meu ingreis)

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    2. Três, somos três

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  2. Caramba!!! O menino é o inimigo da morte. E eu achando que ele era um Markar também ou contra-peso especial, ou diferente. Muito bom o livro.

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  3. Perai!!!!! Volta a cena pq eu acho que perdi meu coração em algum lugar lá atrás.
    COMASSIM!!!! EXPLICA ISSO DIREITO PRODUÇÃO!!!!!

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  4. É oqqqqqqq, por essa eu não esperava, talvez ninguém tenha esperado também. Caraca, CALLUM HUNT O INIMIGO DA MORTE, até que soa legal isso

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    1. se você tivesse lido a sinopse do próximo livro isso não teria acontecido

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  5. Uau como assim...esperava td menos isso

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  6. E eu aqui cogitando um monte de teorias e de repente o livro vem e BUMMMMM... O QUÊ???? COMU ASSIM? BOIEI

    ME EXPLICA POR FAVOOOOR

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    1. Por mim tava tudo muito óbvio... até ver esse capítulo que me destruiu...

      Ezequiel

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  7. haaaaaaa eu sabia!!!! DEVIA SER DO CSI HAAAAAAA!

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  8. oqueeeeee
    agora sim estou confusa pra valer

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  9. Pessoal reclamando que ele não parecia um principal, monamur o "vilão" como principal é muito chique.

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  10. Mds eu fiquei sem reação ! O legal de ler por aqui é ver todo mundo interagindo , faz parece que não estou sozinho é muito legal !

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    1. Pois é! Amo esse site <3

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  11. CARALHO QUE BOMBA FOI ESSA

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  12. Eu sabia 😎kkk
    Ass: Milly*-*

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  13. PERAÍ JOVEM!!! QUE É ISSO? O QUÊ?!?!?! AAAAAAAHHHHHH. MAS HEIN?!?!?!

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  14. Calma, me explica isso direito. Call, inimigo da morte? Que insano!! Ahhhhhhh

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  15. Esse é o maior plot twist que eu já presenciei...
    COMO ASSIM??
    Eu não consigo respirar, acho que vou ter uma taquicardia
    Nunca, em mil eons eu imaginava isso, é olha que eu formulei umas teorias bem bizarras

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  16. Kd a opção uattttttttt

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Boa leitura :)