20 de janeiro de 2017

Capítulo um


Call tirou um pequeno círculo de pepperoni gorduroso da fatia de pizza e deslizou a mão para baixo da mesa. Imediatamente, seus dedos ganharam um banho de língua quando Devastação, o lobo Dominado pelo Caos, provou a comida.
— Não alimente essa coisa — disse o pai, ríspido. — Vai acabar arrancando sua mão um dia desses.
Call afagou a cabeça de Devastação, ignorando o pai. Ultimamente, Alastair não andava feliz com Call. Não queria ouvir sobre os meses que passou no Magisterium. Detestava o fato de Call ter sido escolhido como aprendiz por Rufus, seu antigo mestre. E vivia pronto para arrancar os cabelos desde que Call voltou para casa com um lobo Dominado pelo Caos.
Durante toda a vida de Call, sempre foram apenas ele, o pai e as histórias de Alastair sobre como sua antiga escola era horrível; a mesma escola que Call agora frequentava, apesar dos esforços árduos do menino para não ser aceito. Call esperava que o pai estivesse irritado quando voltou de seu primeiro ano no Magisterium, mas não tinha imaginado como se sentiria ao ter de conviver com o pai tão irritado. Eles costumavam se dar bem sem esforço. Agora tudo parecia... tenso.
Call torcia para que fosse apenas por causa do Magisterium. Porque a outra opção seria Alastair saber que Call era secretamente mau.
Toda a questão de ser secretamente mau também perturbava Call. Muito. Ele tinha começado a fazer uma lista mental — qualquer evidência o indicando como um Suserano do Mal ia para uma coluna, e qualquer evidência do contrário, para outra. Tinha se habituado a consultar a lista antes de tomar qualquer decisão. Um Suserano do Mal tomaria a última xícara de café do bule? Que livro um Suserano do Mal pegaria na biblioteca? Vestir-se totalmente de preto era uma atitude típica de um Suserano do Mal, ou uma escolha legítima que facilitava a vida no dia de lavar roupa? A pior parte é que ele tinha certeza de que o pai estava jogando o mesmo jogo, somando e conferindo seus pontos de Suserano do Mal cada vez que olhava em sua direção.
Mas Alastair podia apenas desconfiar. Não tinha como ter certeza. Havia coisas que só Call sabia.
Call não conseguia parar de pensar no que Mestre Joseph havia lhe dito: que ele, Callum Hunt, tinha a alma do Inimigo da Morte. Que ele era o Inimigo da Morte, alguém destinado ao mal. Mesmo na cozinha aconchegante pintada de amarelo onde ele e o pai haviam feito milhares de refeições juntos, as palavras ecoavam em seus ouvidos.
A alma de Callum Hunt está morta. Arrancada de seu corpo, essa alma murchou e morreu. A alma de Constantine Madden se enraizou e cresceu, renascida e intacta. Desde então, seus seguidores fazem de tudo para que pareça que ele não sumiu do mundo, para que você continue seguro.
— Call? — chamou o pai, encarando-o de forma estranha.
Não olhe para mim, Call queria dizer. E, ao mesmo tempo, queria perguntar: o que vê quando me olha?
Ele e Alastair dividiam a pizza favorita de Call, pepperoni com abacaxi, e, em uma noite normal, conversariam sobre a última vez que Call voltou à cidade, ou sobre qualquer que fosse o projeto da vez do pai na garagem, mas Alastair estava calado e Call não conseguia pensar em nada para dizer. Sentia saudades dos melhores amigos, Aaron e Tamara, mas não podia falar sobre eles na frente do pai, pois faziam parte do mundo de magia que Alastair odiava.
Call deslizou da cadeira.
— Posso ir ao quintal com Devastação?
Alastair fez uma careta para o lobo, um bicho que outrora fora um filhote adorável, mas que tinha crescido e se tomado um monstro adolescente de patas altas, que ocupava boa parte do espaço embaixo da mesa. O lobo olhou para o pai de Call com seus olhos de Dominado pelo Caos, a língua pendurada na boca. Ganiu suavemente.
— Muito bem. — Alastair soltou um suspiro longo e sofrido. — Mas não demore. E fique longe das pessoas. A maneira mais segura de impedir que os vizinhos façam escândalo é controlar as circunstâncias sob as quais Devastação é visto.
Devastação levantou-se de um pulo, as unhas estalando sobre o linóleo enquanto corria para a porta. Call sorriu. Ele sabia que ter a devoção de uma fera Dominada pelo Caos contabilizava muitos pontos na escala de Suserano do Mal, mas não conseguia se arrepender de ter ficado com ele.
Claro, este provavelmente era o problema de ser um Suserano do Mal. Você não se arrepende das coisas certas.
Call tentou não pensar naquilo enquanto saía. Era uma tarde quente de verão. O quintal estava tomado pela grama por cortar. Alastair não era muito meticuloso nos cuidados com o gramado; estava sempre mais preocupado em manter os vizinhos longe do que em trocar dicas de jardinagem. Call se distraiu jogando um graveto para Devastação, fazendo o lobo buscá-lo, com o rabo abanando, os olhos iluminados. Ele correria com Devastação se pudesse, mas a perna prejudicada o impedia de se locomover com velocidade. Devastação parecia entender isso e raramente corria para muito longe.
Depois que Devastação brincou um pouco, os dois atravessaram a rua juntos até o parque e Devastação correu em direção a alguns arbustos. Call checou os bolsos para ver se tinha sacos plásticos. Suseranos do Mal definitivamente não limpavam a sujeira de seus cachorros, então, cada passeio contava um ponto na coluna do bem.
— Call?
Call se virou, surpreso. Ficou ainda mais espantado ao ver quem falava com ele. Os cabelos louros de Kylie Myles estavam presos com duas presilhas em formato de unicórnio, e ela segurava uma coleira rosa. Na outra ponta da mesma via-se o que parecia ser uma peruca branca, mas que talvez fosse um cachorro.
— Você... huh — gaguejou Call. — Você sabe meu nome?
— Tenho a sensação de que não o tenho visto por aqui ultimamente — respondeu Kylie, aparentemente decidindo ignorar sua confusão. Ela abaixou a voz. — Você foi transferido? Para a escola de balé?
Call hesitou. Kylie esteve com ele no Desafio de Ferro, a prova de admissão para o Magisterium, mas ele passou e ela não. Kylie foi levada pelos magos até outra sala, e ele não a via desde então. Ela claramente se lembrava de Call, considerando que olhava para ele com uma expressão confusa, mas não sabia ao certo o que ela achava que havia lhe acontecido. A menina certamente teve as lembranças adulteradas antes de ser mandada de volta ao mundo das pessoas comuns.
Em um momento de insanidade, ele se imaginou contando tudo para ela. Contando sobre como tentaram entrar em uma escola de magia, e não de balé, sobre como Mestre Rufus o havia escolhido, apesar de ele ter tido uma pontuação muito menor que a dela. Será que ela acreditaria se ele contasse sobre como era a escola e sobre como era poder fazer fogo com as mãos e voar pelo ar? Pensou em contar a ela que Aaron era seu melhor amigo e também um Makar, o que era muito relevante, porque significava que era um dos poucos magos vivos que conseguiam fazer magia com o elemento caos.
— A escola vai bem — resmungou ele, dando de ombros, sem saber ao certo o que mais poderia dizer.
— Fiquei surpresa por você ter passado. — Kylie olhou para a perna dele e em seguida caiu em um silêncio desconfortável.
Ele sentiu uma onda familiar de raiva e se lembrou exatamente da sensação de frequentar sua antiga escola e ninguém acreditar em sua capacidade de fazer qualquer atividade física. Desde que Call se lembrava, a perna esquerda sempre foi mais curta e mais fraca que a outra. Andar lhe causava dor, e nenhuma das incontáveis cirurgias a que foi submetido deram resultado. Seu pai sempre dissera que ele tinha nascido assim, mas Mestre Joseph contou algo diferente.
— A questão é a força na parte superior do corpo — declarou Call com arrogância, sem saber ao certo o que aquilo significava.
Ela fez que sim com a cabeça, embora houvesse arregalado os olhos.
— Como é? A escola de balé?
— Difícil — respondeu ele. — Todo mundo dança até sofrer um colapso. Nós nos alimentamos apenas de shakes de ovos crus e proteína de trigo. Toda sexta-feira fazemos um concurso de dança, e o vencedor ganha uma barra de chocolate. E também temos de assistir a filmes de dança constantemente.
Ela estava prestes a retrucar alguma coisa, mas foi interrompida por Devastação, que saía dos arbustos. Ele trazia o graveto nos dentes, e os olhos esbugalhados brilhavam em tons de laranja, amarelo e vermelho fogo. Enquanto Kylie o encarava, os olhos dela se arregalavam cada vez mais. Call percebeu o quanto Devastação deveria parecer enorme para ela, considerando que ele não era um cachorro nem qualquer bicho de estimação normal.
Kylie gritou. Antes que Call pudesse dizer qualquer outra palavra, ela correu para a rua. Seu cachorro branco, que parecia um esfregão, mal conseguiu acompanhá-la.
E lá se ia qualquer possibilidade de manter uma boa imagem com os vizinhos.
Quando Call chegou em casa, tinha decidido que entre a mentira para Kylie e o susto que lhe deu, precisava subtrair todos os pontos que se deu por limpar o cocô de Devastação.
A coluna de Suserano do Mal ganhava naquele dia.
— Tudo bem? — perguntou o pai, analisando a expressão de Call quando ele fechou a porta.
— Tudo — respondeu Call, desanimado.
— Ótimo. — Alastair limpou a garganta. — Pensei em sairmos hoje. Para o cinema.
Call ficou chocado. Não tinham feito quase nada desde que ele voltara da escola para as férias de verão. Alastair, dia após dia, parecendo imerso nas sombras, ia da sala de TV para a garagem, onde consertava carros antigos, deixando-os novos em folha para em seguida vendê-los para colecionadores. Às vezes, Call pegava seu skate e andava a esmo pela cidade, mas nada parecia muito divertido em comparação ao Magisterium.
Ele já tinha até começado a sentir falta do líquen.
— A que filme você quer assistir? — perguntou Call, considerando que Suseranos do Mal não levam em conta as escolhas cinematográficas dos outros.
Aquilo tinha de contar para alguma coisa.
— Tem um novo. Com espaçonaves. — respondeu o pai, surpreendendo Call com a escolha. — E talvez você possa deixar esse seu monstro no canil. Pode trocar por um poodle. Ou até mesmo um Pit Bull. Qualquer bicho que não esteja contaminado com raiva.
Devastação olhou malignamente para Alastair, os olhos misteriosos girando com as pupilas coloridas. Call pensou no cachorro-peruca de Kylie.
— Ele não tem raiva. — Call afagou a nuca de Devastação. O lobo se abaixou e rolou sobre as costas, com a língua para fora, para que Call o acariciasse na barriga. — Ele pode ir? Poderia nos esperar no carro, com os vidros abertos.
Franzindo a testa, Alastair fez que não com a cabeça.
— De jeito nenhum. Deixe essa coisa amarrada na garagem.
— Ele não é uma coisa. E aposto que ia gostar de pipoca. E bala.
Alastair olhou o relógio, em seguida apontou para a garagem.
— Bem, então de repente você pode trazer um pouco para essa coisa.
— Ele! — Com um suspiro, Call conduziu Devastação até a oficina de Alastair na garagem. Era um espaço grande, maior que o maior quarto da casa, e tinha cheiro de óleo, gasolina e madeira antiga. O chassi de um Citroën se apoiava em alguns blocos de madeira, sem os pneus e sem os assentos. Pilhas de manuais de conserto amarelados encontravam-se sobre bancos antigos, enquanto faróis foram pendurados em caibros. Um rolo de corda quase ocultava uma montanha de chaves de fenda. Call usou a corda para amarrar um nó frouxo na coleira do lobo.
Ele se ajoelhou diante de Devastação.
— Estaremos na escola em breve — sussurrou. — Com Tamara e Aaron. E logo tudo vai voltar ao normal.
O cachorro ganiu como se houvesse entendido. Como se sentisse tanta falta do Magisterium quanto Call.


Call teve dificuldades para se concentrar no filme, apesar das espaçonaves, dos alienígenas e das explosões. Ficou pensando na maneira como assistiam a filmes no Magisterium, com um mago do ar projetando as imagens em uma das paredes da caverna. Como os filmes eram controlados pelos magos, tudo podia acontecer. Ele já tinha visto Guerra nas Estrelas com seis finais diferentes, e filmes em que os alunos do Magisterium eram projetados na tela, combatendo monstros, carros voadores e se transformando em super-heróis.
Em comparação, aquele filme parecia um pouco insípido. Call se concentrou nas partes em que teria feito diferente enquanto tomava três raspadinhas de maçã azeda e comia dois baldes de pipoca com manteiga. Alastair olhava fixamente para a tela, com uma expressão de singelo horror, sem sequer virar quando Call ofereceu amendoim coberto com chocolate. Por ter tido de comer todos os lanches sozinho, Call estava numa onda de açúcar quando voltaram para o carro de Alastair.
— Gostou? — perguntou o pai.
— Foi bem legal — disse Call, sem querer que Alastair pensasse que ele não apreciava o fato de o pai ter se obrigado a assistir a um filme que jamais veria por conta própria. — A parte em que a estação espacial explode foi demais.
Fez-se um silêncio, não o bastante para ser desconfortável, até Alastair falar de novo.
— Sabe, não tem motivo para você voltar ao Magisterium. Já aprendeu o básico. Pode praticar aqui, comigo.
Call sentiu um aperto profundo no peito. Já tinham tido aquela conversa, ou variações sobre o mesmo tema, umas cem vezes, e nunca acabava bem.
— Acho melhor eu voltar — insistiu Call, da forma mais neutra possível. — Já passei pelo Primeiro Portal, então é melhor terminar o que comecei.
A expressão de Alastair se tomou sombria.
— Não é bom para crianças ficarem confinadas no subterrâneo. Mantidas como vermes sinistros. Com a pele ficando pálida e cinza. Com os níveis de Vitamina D caindo. A vitalidade sendo sugada do corpo...
— E por acaso estou cinza? — Call raramente prestava atenção à própria aparência além do básico: certificar-se de que as calças não estavam do avesso e o cabelo não estava em pé; estar cinza parecia péssimo. Olhou subitamente para as próprias mãos, mas ainda pareciam ter o tom rosado de sempre.
Alastair estava agarrando o volante, frustrado, quando viraram na própria rua.
— O que tem naquela escola para você gostar tanto?
— Do que você gostava? Você estudou lá, e sei que não odiou tudo. Conheceu a mamãe...
— Sim — concordou Alastair. — E também tinha amigos. Era disso que eu gostava. — Era a primeira vez que Call se lembrava de ouvir o pai dizendo que gostou de alguma coisa na escola.
— Também tenho amigos por lá — disse Call. — Não tenho aqui, mas tenho lá.
— Todos os amigos que estudaram comigo estão mortos agora, Call — retrucou Alastair, e Call sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Pensou em Aaron, Tamara e Célia, mas logo teve de parar. Era horrível demais.
Não só a ideia de todos morrendo.
Mas a ideia de morrerem por sua culpa.
Por causa de seu segredo.
Do mal dentro dele.
Pare, disse a si mesmo. Já estavam em casa. Alguma coisa parecia errada para Call. Estranha. Ficou olhando ao redor por um instante antes de perceber o que era. Tinha deixado a porta da garagem fechada, com Devastação preso lá dentro, mas agora ela estava aberta, formando um grande quadrado negro.
— Devastação! — Call segurou a maçaneta e quase caiu no chão, a perna fraca falhando. Ouviu o pai chamar seu nome, mas não se importou.
Ele correu, mancando, para a garagem. A corda continuava ali, mas uma extremidade estava cheia de franjas, como se tivesse sido cortada por uma faca — ou um dente afiado de lobo. Call tentou imaginar Devastação sozinho na garagem, no escuro. Latindo e esperando que Call respondesse. O menino começou a sentir um frio no peito. Devastação não tinha ficado preso muitas vezes na casa de Alastair, e isso provavelmente o assustou. Talvez tivesse roído a corda e se jogado contra a porta até abri-la.
— Devastação! — chamou Call de novo, mais alto. — Devastação, estamos em casa! Pode voltar agora!
Ele se virou, mas o lobo não saiu dos arbustos, não surgiu das sombras que estavam começando a se formar entre as árvores.
Estava ficando tarde.
O pai de Call chegou atrás dele. Ele olhou para a corda roída e a porta aberta, e suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos.
— Call. — começou ele gentilmente. — Call, ele se foi. Seu lobo se foi.
— Você não tem como saber disso! — gritou Call, virando-se para encarar Alastair.
— Call...
— Você sempre odiou Devastação! — Call se irritou, — Você provavelmente está feliz por ele ter sumido.
A expressão de Alastair enrijeceu.
— Não estou feliz por você estar triste, Call. Mas, sim, aquele lobo nunca foi um bicho de estimação. Podia ter matado ou machucado alguém. Um de seus amigos ou, Deus me livre, você. Só espero que corra para a floresta e não saia por aí comendo os vizinhos.
— Cale a boca! — ordenou Call, apesar de haver algo de confortante naquela ideia. Caso Devastação comesse alguém, Call poderia encontrá-lo por conta da provável comoção. Call afastou esse pensamento, colocando-o na coluna do Suserano do Mal.
Ideias como aquela não ajudavam em nada. Call tinha de encontrar Devastação antes que essas coisas horríveis acontecessem.
— Devastação nunca machucou ninguém! — Foi o que Call disse.
— Sinto muito, filho. — Para surpresa de Call, Alastair pareceu sincero. — Sei que há muito tempo você queria um animal de estimação. Talvez se eu tivesse permitido que ficasse com aquela toupeira... — Ele suspirou novamente.
Call ficou imaginando se o pai o tinha impedido de ficar com a toupeira porque Suseranos do Mal não devem ter bichos de estimação. Porque Suseranos do Mal não amam nada, principalmente criaturas inocentes, como animais. Como Devastação.
Call ficou imaginando o quão assustado Devastação estaria. Ele não ficava sozinho desde que o menino o encontrou, quando era apenas um filhote.
— Por favor. — implorou Call. — Por favor, me ajude a encontrar Devastação.
Alastair fez que sim com a cabeça uma vez, um movimento ríspido com a mandíbula.
— Entre no carro. Podemos chamá-lo enquanto dirijo devagar pelo quarteirão. Pode ser que não esteja longe.
— Certo — concordou Call. Ele olhou para a garagem, com a sensação de que estava deixando alguma coisa escapar, como se fosse enxergar o lobo se olhasse bastante.
Mas independentemente de quantas voltas deram, e de quanto chamaram, Devastação não apareceu. Foi ficando cada vez mais escuro, e eles voltaram para casa. Alastair preparou espaguete para o jantar, mas Call não conseguiu comer nada. Fez Alastair prometer que ajudaria a espalhar cartazes de CÃO PERDIDO no dia seguinte, apesar de Alastair achar que uma foto de Devastação faria mais mal que bem.
— Animais Dominados pelo Caos não devem ser bichos de estimação, Callum — insistiu Alastair após limpar o prato intocado de Call. — Eles não ligam para as pessoas. Não são capazes disso.
Call não respondeu, mas foi deitar com um nó na garganta e uma sensação de pavor.


Um ruído estridente e um ganido despertaram Call de um sono inquieto. Ele se levantou na cama, procurando Miri, a faca que sempre mantinha na cabeceira.
Arrastou as pernas para fora da cama e fez uma careta quando seus pés tocaram o chão frio.
— Devastação? — murmurou.
Pensou ter ouvido outro ganido distante. Espiou pela janela, mas tudo que conseguia enxergar eram árvores sombrias e escuridão.
Foi para o corredor. A porta do quarto do pai estava fechada, e a linha entre a base da porta e o chão, escura. Apesar de que ele poderia ainda estar acordado, Call sabia. Às vezes Alastair passava a noite acordado, consertando coisas na oficina.
— Devastação? — sussurrou Call novamente.
Não houve ruído em resposta, mas arrepios dominaram os braços de Call. Ele conseguia sentir que seu lobo estava perto, que Devastação estava ansioso, assustado. Call seguiu na direção da sensação, apesar de não conseguir explicá-la.
Ela o conduzia pelo corredor, para a escada do porão. Call engoliu em seco, agarrou Miri e começou a descer.
Ele sempre se sentiu desconfortável em relação ao porão, que era cheio de peças velhas de carros, móveis quebrados, casas de boneca, bonecas que precisavam de conserto e antigos brinquedos de lata que às vezes apresentavam algum sopro de vida.
Uma barra de luz amarela emergiu de baixo da porta da adega, transformada em outro dos depósitos de Alastair, repleta de mais quinquilharias que ele ainda não havia consertado. Call se encheu de coragem e mancou pelo salão, abrindo a porta.
Não se mexeu. O pai tinha trancado.
O coração de Call acelerou.
Não havia razão para o pai trancar um monte de velharia semi consertadas.
Absolutamente nenhuma.
— Pai? — chamou Call através da porta, imaginando se Alastair estaria ali por algum motivo.
Mas ele ouviu algo muito diferente se mexer do outro lado. A fúria inflou dentro dele, terrível e sufocante. Call pegou sua pequena faca e tentou pressioná-la contra o espaço da porta, tentando afastar a tranca.
Após um instante tenso, a ponta de Miri tocou o ponto certo e a tranca soltou. A porta se abriu.
A adega não era mais como Call lembrava. O lixo havia sido removido, deixando espaço para o que parecia ser um escritório de um mago. Havia uma mesa em um canto, com pilhas de livros antigos ao redor, e uma pequena cama no outro. E, bem no centro do cômodo, preso com algemas horrorosas e uma focinheira horrível de couro, estava Devastação.
O lobo pulou em direção a Call, ganindo, e foi puxado de volta pelas correntes.
Call se ajoelhou, tocando os pelos de Devastação com os dedos enquanto tateava em busca da abertura da coleira. Estava tão feliz em ver Devastação e tão furioso com o pai pelo que havia feito que por um instante não reparou no detalhe mais importante.
Porém, ao examinar o recinto em busca das chaves que soltariam o lobo, finalmente viu o que devia ter notado em primeiro lugar.
A cama do outro lado também tinha algemas.
Algemas do tamanho exato para um menino prestes a completar 13 anos de idade.

15 comentários:

  1. morrida!������

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  2. Epa! O negócio já começou totalmente sinistro. O pai desse garoto eh Cahill e eu não to sabendo?

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  3. O pai dele quer proteger todos dele, e dele mesmo.

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  4. O pai dele tem gostos bem peculiares... '-'

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  5. É sério que o pai dele queria prender o Call?
    Véi, deixa o menino ser feliz!

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  6. Não me surpreende, para mim ele lançou o punhal (no primeiro livro) para matar Call.

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  7. Aquele momento em que você para de ler só pra admirar as artes do começo dos capítulos.

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  8. Será q ele ia matar call?
    Q nem naquela hora q ele jogou Miri na cara de call
    Ass: Milly*-*

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  9. Esse velho é doido? Acho que ele olha pro Call e vê o Inimigo. No fundo ele se arrepende de não ter cumprido o último desejo da esposa. Mas por quanto tempo ele acha que manteria ele lá até os amigos e os mestres notarem a ausência dele? Ou até mesmo os seguidores de Constantine. Não acho que ele teria coragem de matar alguém que criou como filho por 12 anos.

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  10. cara eu adorei a expresao ''suserano do mal''
    que pai doidao em meu povo.

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Boa leitura :)