25 de janeiro de 2017

Capítulo treze



Faltavam quatro dias para sexta-feira, e Call, Aaron e Tamara passaram todo o tempo se preocupando alternadamente com o plano de Alma e com o teste. Mestre Rufus dizia coisas enigmáticas durante as aulas e passava trabalhos bizarros. Naquela semana, Call aprendeu a (A) pegar um fogo que Tamara lançou contra ele, (B) respirar depois que Aaron usou magia do ar para sugar todo o seu oxigênio, e (C) secar as roupas depois que o Mestre Rufus o ensopou. A última parte, infelizmente, não foi com mágica.
Não ajudou o fato de que estavam todos mal-humorados. Tamara não parava de olhar para chamas de velas e lareiras, como se pudesse ver o rosto da irmã no fogo. Aaron olhava em volta no refeitório como se esperasse que todos fossem jogar comida nele. E Call se assustava com sombras. Estava ficando tão sério que até Devastação estava tenso.
E não ajudava o fato de que Jasper continuava inútil na questão dos boatos. De acordo com Célia, Drew não teve muitos amigos. Ele se mantinha discreto, ocasionalmente procurando alunos mais velhos em busca de conselhos sobre como lidar com Mestre Lemuel. Aparentemente, Alex Strike tinha dito a Drew que ele deveria procurar Mestre North, mas ele não o fez. Provavelmente tinha recebido ordens de ficar na dele, sem reclamar com o diretor da escola.
Quanto ao responsável pelo início dos boatos sobre Aaron, Jasper ainda não sabia nada. Ele prometeu que teria mais informações até o fim da semana.
Quando a noite de quinta-feira chegou, Call estava pronto para sexta, por pior que pudesse ser. Qualquer coisa que o deixasse mais perto de respostas. Mas no refeitório, Mestre Rufus disse que teriam uma aula noturna, pois Alma tinha retomado.
— Tamara, é uma aula sobre magia do caos, então... — disse ele, mas ela o interrompeu.
— Quero assistir, vai ser interessante. Poucas pessoas conseguem ver magia do caos pessoalmente, e eu já vi muita. Quero saber mais sobre como funciona.
Ele assentiu, apesar de não parecer inteiramente feliz. Mas como a expressão normal do Mestre Rufus normalmente era sombria, talvez isso não significasse nada, é claro.
Após terminarem o líquen e os cogumelos, e os sucos cinzentos, eles se reuniram na sala de sempre. Mestre Rufus andou de um lado para o outro. Alma se apoiou em um pequeno bastão e falou:
— Como sabem, o oposto da magia do caos, ou do vazio, é a alma, a qual vocês aprenderam a ver na última aula. Agora quero que aprendam a tocar a alma de outra pessoa com mágica. Um breve toque, apenas.
— Acho que já disse que sou contra isso — disse Call. — É arrepiante e estranho e nem sabemos o que isso faz com a outra pessoa.
Alma soltou um suspiro sofrido.
— Como disse antes, você só deixa a pessoa inconsciente. Nada mais. Mas se fica muito aflito, sugiro que Aaron comece. Ele pode treinar em você.
— Eu, hum... — Call começou.
Tamara se levantou de onde estava, sentada no chão contra uma parede de pedra.
— Eu faço.
— Não pode! — disso Call. — Além disso, por que todo mundo quer me apagar?
— Deve ter a ver com o seu rosto — disse Tamara, balançando a cabeça como se ele estivesse sendo ainda mais ridículo do que o normal. — Mas o que eu quis dizer foi que Aaron pode praticar em mim. Eu me ofereço para ter a alma tocada.
Aaron lançou um olhar incerto a ela.
— Por quê? Não quero machucá-la!
Ela deu de ombros.
— Quero saber como funciona, e talvez eu não perceba muita coisa, mas talvez sim. E se está preocupado em me machucar, eu falo se isso acontecer.
Call hesitou. Ele se sentiu tolo por se opor àquilo. Aprender a fazer uma pessoa dormir com um toque era incrível, desde que não bagunçasse a alma dela. Se alguém o estivesse irritando, um toque de alma poderia resolver a questão. Ele poderia fazer Jasper desmaiar constantemente.
— Tudo bem, tudo bem — disse Call. — Eu também quero aprender.
Tamara lançou a ele um olhar reprovador, mas Alma era só sorriso.
— É fácil — disse ela.
Não era. Alma conhecia a teoria, mas nunca tinha feito, e a última vez em que fez um Makar experimentar, tinha sido há quase duas décadas. De acordo com ela, o ato necessitava de uma quantidade enorme de foco, primeiro para ver uma alma, e depois para alcançar um mínimo de caos para tocá-la.
Call foi posicionado ao lado de Alma, para sua irritação, enquanto Aaron ficou com Tamara. A ideia de tocar a alma de alguém que ele mal conhecia o deixava inquieto e estranho.
Mas ele tinha que tentar. Fechou os olhos e tentou fazer o que ela mandou, tentou enxergar sua alma como havia feito com a de Aaron. Mas não era a mesma coisa. Aaron era um de seus melhores amigos. Com ela era como brincar de esconde-esconde quando estava tudo escuro, era tatear aleatoriamente. Mas sem muita intenção, Call acabou conseguindo. Não estava apenas tocando na alma da professora; ele pôde sentir o comprimento prateado da alma debatendo-se como um peixe fora d’água. Antes de afastar seus pensamentos, sentiu dentro dela uma força de vontade imensa, muita tristeza e um súbito pavor. Engasgando, ele abriu os olhos a tempo de ver que Alma revirava os olhos.
Ela caiu em uma pilha de travesseiros que o Mestre Rufus havia conjurado de outra área do Magisterium.
Ele olhou para ver Aaron pegando Tamara nos braços enquanto ela desmaiava graciosamente.
Aaron a segurou por um instante antes que ela abrisse os olhos, risse e se endireitasse, sorrindo para ele.
Rufus tinha se apressado para o lado de Alma.
— Ela continua inconsciente — disse ele. — Mas está bem. — O mago parecia sombrio. — Bom trabalho, pessoal.
Call tinha conseguido. Tinha tocado a alma de alguém. Só não se sentia bem com isso. Nem um pouco.


A sexta-feira amanheceu. Callum foi acordado por Devastação lambendo seus pés descalços, o que continuava nojento e fazia cócegas. Call girou, ainda meio dormindo, tentando proteger os dedos dos pés, colocando-os sob as cobertas. Mas isso só fez Devastação pular na cama e lamber seu rosto.
— Sai...humpf... sai! — falou Call, cobrindo a cabeça com uma das mãos e empurrando o lobo com a outra. Às vezes, saber por onde a língua de Devastação já tinha passado era pior do que não saber.
Vestindo o uniforme, ainda grogue, Call ficou imaginando se poderia tocar a alma de Devastação para fazê-lo dormir por mais quinze minutos, mas concluiu que por Devastação ser Dominado pelo Caos, sua alma já tinha sofrido o bastante.
Call marchou para a sala compartilhada e bateu àporta de Tamara. Era a vez dela o acompanhar na caminhada matutina. Um resmungo veio de dentro e alguns minutos depois ela abriu a porta, parecendo estar com tanto sono quanto ele, usando sua braçadeira roxa. Isso fez Call se lembrar de buscar a dele.
Os dois cambalearam para o corredor, segurando uma coleira que ninguém tinha se incomodado em amarrar em Devastação.
— Hoje é o dia — disse Tamara quando estavam na metade do caminho para o Portão da Missão, apontando para a braçadeira.
— Todos esperam grandes coisas de nós nesse teste, mas eu andei falando com outros alunos e o Mestre Rufus tem passado tanto tempo nos ensinando sobre responsabilidade pessoal e ensinando a vocês dois sobre magia do caos que acho que não estamos prontos.
Call estava concentrado em não tropeçar. Sua perna sempre ficava dura pela manhã e era complicado apoiar muito peso nela antes que a musculatura relaxasse. Ele fez que sim com a cabeça. Call sempre achava que não estava pronto para as coisas, mas não gostava de ver Tamara concordando com ele.
— Talvez a gente possa usar magia do caos — sugeriu ele. — Pode ser nossa arma não tão secreta.
Ela riu.
— Claro, se quiser que todo mundo pense que você trapaceou.
— Isso não é trapacear! É a minha mágica, e de Aaron.
Tamara ergueu as sobrancelhas.
— Era isso que você pensaria se não fosse um Makar?
— Provavelmente não — disse Call, sendo razoável. — Mas eu sou um Makar.
Ela fez uma careta para ele, que significava que estava irritada, ou entretida. Call nunca sabia ao certo em que direção a expressão pesava; só sabia que Tamara a usava bastante, principalmente perto dele.
Devastação fez suas necessidades enquanto Call absorveu o ar fresco e chutou algumas folhas.
Voltaram para dentro do Magisterium, onde descobriram que suas coisas finalmente tinha sido consideradas inofensivas pelos magos e foram devolvidas. Apesar de Call sentir-se tentado a olhar tudo, pegou Miri, guardou a faca na bainha e foi para o refeitório com Tamara. Encontraram Aaron já sentado à mesa, com Jasper e Rafe. O corpo todo de Aaron estava curvado sobre o prato, como se ele estivesse tentando desaparecer.
Tamara sentou em uma cadeira e olhou para Jasper.
— E então? Descobriu alguma coisa útil?
Jasper ergueu uma das sobrancelhas para ela.
— Vá embora, Rafe — disse ele.
— Por quê? — gritou Rafe. — Pelo amor de Deus, por quê? — Ele pegou o prato e mudou de mesa enquanto Jasper o olhava com as sobrancelhas erguidas.
— Não liguem para ele. Sempre fica de mau humor de manhã — disse. — Enfim, eu falei com Célia. Tive que usar todo o meu charme para arrancar alguma coisa dela.
Aaron pareceu alarmado. Call revirou os olhos.
— Por favor, chega de dicas masculinas — implorou Aaron. — Apenas diga o que ela disse, se é que disse alguma coisa.
Jasper pareceu um pouco desanimado.
— Não existem boatos sobre a existência de outro Makar além de vocês dois. Apesar de aparentemente haver muitas conversas sobre vocês, caso estejam interessados em saber. Histórias sobre como derrubaram o Inimigo. Se vão começar a fazer experiências para testar seus poderes. Se vocês têm namorada.
— Por que teriam? — Tamara pareceu chocada.
— Dê um voto de confiança, Tamara — disse Call.
— Só quis dizer que... Bem, não é como se vocês tivessem tempo pra isso.
— Se for amor, a pessoa arruma tempo — falou Jasper, olhando com ar de superioridade.
Tamara resmungou.
— E os boatos? Quem começou?
Jasper balançou a cabeça.
— Ainda não sei. Célia disse que achou que talvez fosse um dos alunos mais velhos.
Tamara respirou fundo.
— Acha que pode ter sido Kimiya? — perguntou. — Ela foi péssima com Aaron.
— Mas por que ela inventaria coisas assim? — perguntou Aaron. — Ela me conhece... pelo menos um pouco.
— Acho que não foi ela — disse Call. — Ela agiu como se estivesse chocada pela possibilidade de Aaron não ser quem ela pensava. Não como alguém que já tinha iniciado um boato sobre ele.
Jasper jogou um cogumelo para o alto e comeu.
— Só faz uma semana. Vou descobrir mais coisas.
— Ótimo — disse Aaron. — Talvez a gente consiga algumas respostas se sobrevivermos ao teste hoje.
Call resmungou. Quase tinha se esquecido do teste.
Mestre Rufus os conduziu quando estavam saindo do refeitório. Estava com um sorriso sinistro no rosto e uma bolsa grande no ombro.
— Vamos, aprendizes. Acho que vão gostar do que temos para vocês hoje.


Call não gostou.
Estavam na enorme sala onde muitos dos testes eram realizados, inclusive a luta com dragões no Ano de Ferro. Mas desta vez, o cômodo estava pegando fogo — tudo bem, nem todo ele, mas boa parte.
Call sentiu o calor envolvê-lo imediatamente, tostando a camada mais superficial do corpo como um marshmallow prestes a queimar.
Chamas saltitavam no meio da sala, mas não de forma aleatória. Estavam dispostas seguindo um padrão. Linhas de chamas corriam paralelas umas às outras, formando o que pareciam trilhas entre elas. Faziam Call se lembrar dos labirintos que já tinha visto em ilustrações de livros, pessoas vagando por emaranhados feitos de árvores e arbustos. Mas este era feito de chamas vivas.
— Um labirinto de fogo — disse Aaron, olhando fixamente.
Tamara também encarava, as chamas refletidas em seus olhos. O fogo subia e descia, espalhando faíscas. Call ficou imaginando se Tamara estaria pensando na irmã.
Uma das alunas do Ano de Ouro, provavelmente aprendiz do Mestre North, passou por eles e entregou ao Mestre Rufus três cantis de uma pilha que estava carregando. Rufus assentiu e se voltou novamente para seus aprendizes.
— São para vocês — disse ele, indicando os cantis, cada qual cuidadosamente marcado com iniciais: AS. CH. TR. — A água é o elemento oposto ao fogo. Estão todos cheios com uma pequena quantidade de água que vocês podem extrair enquanto navegam pelo labirinto. Lembrem-se de que podem usar tudo e perfurar as paredes ou economizar a sua mágica. Não vou lhes dizer qual é a solução mais sábia. Vocês devem seguir seu próprio julgamento.
Call tinha quase certeza de que Mestre Rufus estava indicando o preferível, mesmo que não quisesse admitir.
— A única coisa absolutamente inadmissível é voar sobre o labirinto. Isso resultará em desqualificação imediata. Entenderam? — Mestre Rufus lançou um olhar severo a cada um deles.
Call assentiu.
— Porque isso seria trapacear?
— Além de perigoso — disse Tamara. — O calor sobe. O ar acima do labirinto estará fervendo.
— Isso mesmo — disse Mestre Rufus. — Mais uma coisa: vocês vão entrar individualmente. — Ele olhou longa e duramente para cada uma das expressões de choque dos três. — Não como um grupo, mas sozinhos.
— Espera. O quê? — perguntou Tamara. — Mas temos que proteger Call! Não temos deixado que ele fique um minuto longe dos nossos olhares.
— Pensamos que fosse um desafio em equipe — observou Aaron. — E as braçadeiras?
O Mestre Rufus olhou em direção a alguns dos outros Mestres que estavam com seus aprendizes, preparando-os para o labirinto. Alguns dos alunos mais velhos costuravam seu caminho em meio a eles, entregando cantis, respondendo perguntas. Eram assistentes. Call viu o brilho de pulseiras douradas e prateadas. Viu Alex e Kimiya, que olhou na direção deles e acenou brevemente para Tamara, que não acenou de volta. Seus olhos escuros estavam impiedosos.
— É um desafio em equipe; suas pontuações formarão uma média — disse o Mestre Rufus. — Este teste é para demonstrar que é importante que todos vocês assumam responsabilidade sobre as educações dos outros aprendizes no seu grupo. E ao passo que é importante que saibam como funcionar em grupo, também é importante que saibam funcionar sozinhos. Não se preocupem com Call — acrescentou Mestre Rufus. — Preocupem-se com vocês mesmos e com suas notas. Cada um entrará por uma parte diferente do labirinto. O objetivo é chegar ao meio. A primeira pessoa que conseguir isso terá um dia inteiro de dispensa das aulas e poderá ir para a Galeria junto com o resto da equipe.
Call sentiu uma motivação súbita para vencer. Um dia inteiro de folga, nas piscinas termais, assistindo a filmes e comendo doces com Tamara e Aaron. Seria incrível!
Ele também se sentiu grato por estar por conta própria no teste. Era grato pelo que os amigos estavam fazendo, mas não tinha o costume de ficar acompanhado o tempo todo e estava ficando cansado. O que tinham diante de si era um teste, criado e aplicado pelos mestres. Isso significava que ninguém estava seguro. Mas, provavelmente, ele não corria mais perigo do que o restante dos alunos.
A voz de Mestre North veio explodindo pelo campo de fogo, amplificada por magia do ar. Ele repetiu as regras, enfatizando a parte sobre não voar, e depois começou a indicar os pontos de partida individuais. Call procurou por sua marca de giz: BY9.
— Boa sorte — disse ele a Aaron e Tamara, ambos agarrando os próprios cantis e olhando para ele com preocupação. Call sentiu uma onda de calor, e não foi por causa do fogo. Ambos os seus amigos estavam prestes a entrar em um labirinto em chamas, e ambos estavam preocupados com ele, e não com si próprios.
— Cuidado — disse Aaron, dando um tapinha no ombro de Call. Seus olhos verdes eram tranquilizadores.
— A gente consegue — disse Tamara, parte do seu antigo entusiasmo de volta. — Estaremos nos divertindo na Galeria logo, logo.
Ela e Aaron assumiram os respectivos lugares. Call ouviu a voz do Mestre North se elevando sobre os estalos e o clamor das chamas.
— Em suas marcas. Preparar. Valendo!
Os aprendizes dispararam para o labirinto. Havia múltiplas trilhas a percorrer. Call seguiu a própria rota, que o levava para as profundezas do fogo. As chamas ardiam ao seu redor. Os outros alunos eram sombras através do fogo laranja e vermelho.
O labirinto bifurcava em dois caminhos diferentes. Call escolheu o esquerdo aleatoriamente e o seguiu. Seu coração batia forte e sua garganta parecia queimar com o ar superaquecido que ele inalava.
Pelo menos não tinha fumaça.
O fogo quer queimar. Ele se lembrou de sua própria resposta irônica naquela primeira vez em que ouviu o poema. Call quer viver. Naquele momento, o ardor das chamas diminuiu e Call pôde olhar através do labirinto.
Não viu ninguém. Seu coração acelerou quando percebeu que nenhum outro aluno era visível. Ele parecia sozinho ah dentro, apesar de ainda conseguir ver os Mestres do lado de fora, junto às paredes.
— Aaron? — chamou. — Tamara?
Ele apurou os ouvidos para conseguir escutar acima dos estalos do fogo. Teve a impressão de ter captado seu nome, suave como um sussurro. Ele avançou em direção ao som, exatamente quando as chamas ao seu redor ergueram-se outra vez, agora ardendo tão altas quanto postes de telefone. Ao quase ser atingido por uma explosão de chama, Call cambaleou; a ponta de uma de suas mangas queimava. Ele apagou a brasa com um tapa, mas seus olhos ardiam, quase cegos, e ele estava tossindo muito.
Ele alcançou o cantil e o abriu com o polegar, esperando ver o brilho familiar da água. Agua da qual pudesse extrair, cujo poder ele pudesse usar para reduzir a chama.
Mas estava vazio.
Call sacudiu o cantil perto do ouvido, torcendo para estar errado, torcendo para ouvir o ruído familiar de líquido. Ele sacudiu a boca do cantil sobre a mão, torcendo por uma única gota. Não tinha.
Não havia nada dentro dele, exceto um pequeno buraco na base. Parecia ter sido furado.
— Mestre Rufus! — gritou ele. — Meu cantil não tem água! Você precisa parar o teste!
Mas as chamas só aumentavam ao seu redor. Uma explosão voou em sua direção e ele teve que pular para o lado para evitá-la. Call tropeçou e caiu violentamente sobre um joelho, e por pouco não deu de cara com uma parede de fogo. Uma dor subiu pela lateral do corpo. Por um momento, ao se levantar, Call não teve certeza de que sua perna ruim iria segurá-lo.
— Mestre Rufus! — gritou de novo. — Mestre North! Alguém!
Por que ele achou que ficaria bem sozinho? Por que confiou nos Mestres para garantirem Sua segurança? Se Tamara ou Aaron estivessem ali, teria como pegar um pouco da água deles! Mas então seus pensamentos mudaram bruscamente de direção: e se os cantis de Aaron e Tamara também estivessem sem água? E se a pessoa que estava atrás dele quisesse se certificar de que eles não poderiam ajudar de jeito nenhum?
Tinha que encontrá-los.
Call começou a andar novamente, tentando ignorar o calor que crescia ao seu redor. Bolas de fogo se soltavam de tempos em tempos e voavam em direções aleatórias, como labaredas. Ele desviou de uma ao dobrar uma esquina. Virou mais uma e se viu diante de uma parede de fogo.
Estava em um beco sem saída.
Call freou de repente e virou, pronto para refazer os passos, mas encontrou mais uma parede. O labirinto tinha mudado de forma e parecia buscá-lo com línguas de fogo, queimando-o, deixando o ar com cheiro de cabelo e tecido queimados.
O uivo agoniado de Call foi engolido pelo rugir das chamas. Claro que o labirinto mudava de forma. Do contrário não haveria necessidade de terem água — tinha que haver pontos em que fosse necessário fazer mágica.
Naquele momento uma das paredes se aproximou. Call pôde ver os rebites de metal em suas botas brilhando em um vermelho alaranjado. A não ser que quisesse virar churrasco, tinha que encontrar uma maneira de sair dali. Não podia voar; Tamara tinha razão, estaria ainda mais quente no ar acima das chamas.
Ar. Calma, Call pensou. Fogo precisa de ar, certo? Fogo se alimenta de ar.
Ele teve uma ideia.
Ele esticou sua mão esquerda, do jeito que havia visto magos fazerem quando estavam invocando poder para seus feitiços. Como já tinha visto Aaron fazer. Ele esticou, além do fogo ao seu redor, além da pedra sob seus pés. Além da água correndo nos rios e riachos muito acima deles. Além do ar. Ele tocou no espaço que existia e no que não existia, alcançando além do nada. O coração do vazio.
O calor do fogo esmaeceu. Ele não conseguia mais sentir sua pele queimando e ardendo. Aliás, estava com frio. Um frio como o do espaço sideral, onde não havia calor, apenas o nada. No centro de sua palma, uma espiral negro começou a dançar. Elevou-se de sua pele como um redemoinho de fumaça libertada.
O fogo quer queimar.
A água quer fluir.
O ar quer se erguer.
A terra quer unir.
O caos quer devorar.
O caos se ergueu da mão de Call, cada vez mais veloz. Tinha se transformado em um tomado negro, girando ao redor de seu pulso e da mão. Ele conseguia senti-lo, espesso e oleoso como areia movediça que o sugaria para baixo. Ele ergueu a mão ainda mais, o mais alto que conseguia, até alcançar acima do topo das chamas.
Devore, ele pensou. Devore o ar.
A fumaça explodiu para fora. Call engasgou quando um ruído que parecia uma explosão sônica perfurou o ar. As chamas começaram a sacudir de forma selvagem, de um lado para o outro enquanto a fumaça negra corria sobre elas, se espalhando como uma camada de nuvem, devorando o oxigênio. Fogo precisa de oxigênio para sobreviver. Call tinha aprendido isso na aula de ciências. Seu caos sombrio estava comendo o oxigênio que cercava as chamas.
Ele conseguia ouvir outros barulhos agora: outros aprendizes, gritando de surpresa e medo. As chamas emitiram um ruído como se estivessem sendo viradas do avesso — em seguida desapareceram, sucumbindo em pilhas de cinzas queimadas. De repente toda a sala era visível — Call podia ver os outros alunos espalhados pelo chão, alguns agarrando seus cantis, todos olhando em volta, chocados.
A fumaça provocada por Call ainda pairava no ar. Escura e sinuosa, parecia ter dilatado com o ar que engoliu. Call começou a engasgar, lembrando-se de mais uma coisa que aprendeu na aula de ciências. O fogo podia precisar de oxigênio para sobreviver, mas as pessoas também.
A fumaça começou a assentar. Mestre Rufus marchava em direção ao labirinto destruído, gritando:
— Call! Livre-se disso, Call!
Em pânico, Call esticou a mão outra vez, alcançando o caos, tentando puxá-lo de volta para si. Sentiu a energia resistir. Queria empurrar aquilo e se libertar. Queria que o deixasse em paz, Call esticava a mão com tanta força que os dedos estavam se transformando em garras doloridas. Volte.
De repente a fumaça escura do caos girou em um redemoinho e avançou para o chão. Call soltou um grito — depois viu que ela ia em direção a Aaron, cuja mão também estava levantada. Se desfez em sua palma e desapareceu.
O Mestre Rufus parou a alguns metros de Call. Aaron abaixou lentamente a mão. Call pôde ver Tamara, suas bochechas manchadas de cinzas, a boca aberta. Sobre os montes de cinzas e os grupos de alunos assustados, Call e Aaron olharam um para o outro.


Naquela noite, Tamara foi a única dos três a descer para o refeitório para jantar. Ela levou comida para Call e Aaron — uma bandeja cheia de líquen, cogumelos, batatas e a sobremesa roxa que Call gostava.
— Como foi? — perguntou Aaron.
Ela deu de ombros.
— Foi tudo bem, eu acho. — Tamara sabia mentir muito bem, então Call ficou de olho nela, pronto para acreditar que independente do que ela dissesse, a verdade era muito pior. — Todo mundo queria fazer perguntas, mas foi só isso.
— Que tipo de perguntas? — Call quis saber. — Tipo, se eu sou maluco? Se estou me tornando mau?
— Não seja paranoico — disse Tamara.
— É, eles provavelmente acham que eu sou o maluco — disse Aaron, dando um suspiro.
A parte mais estranha foi que Call teve que reconhecer que isso provavelmente era verdade. Apesar de Aaron ter salvado todo mundo — salvado de Call, o que fez com que Call se lembrasse da lista de Suserano do Mal do ano passado, já que quase matar todos os grupos de aprendizes do Ano de Cobre teria lhe dado muitos pontos —, seu uso da magia do caos provavelmente ainda assustava a todos.
— Está quase acabando — disse Tamara a eles. — Vamos ajudar Alma, e ela vai entrar em contato com Jennifer pra... Ok, não sei o que ela vai fazer, exatamente. Mas vamos saber quem matou Jennifer, e isso significa que vamos saber quem está atrás de você. Então comam. Vão precisar de força.
— Então, quem ganhou? — perguntou Call.
— Quê? — Tamara pareceu desconcertada. — Como assim?
— Quem ganhou o teste? — repetiu Call. — Quem vai poder ir para a Galeria? Quer dizer, eles escolheram a pessoa mais próxima do centro ou resolveram desistir de tudo?
— Nós vamos — disse Tamara lentamente, como se estivesse tentando ser muito solidária com alguém a quem estava dando uma má notícia. — Você ganhou, Call.
— Ah — disse ele, sem saber muito bem como receber a notícia. Ninguém o parabenizou na hora.
Mestre North viera rugindo sobre o que sobrara após o fogo para sacudir os ombros de Call e perguntar no que ele estava pensando. Entretanto, quando Call mostrou a ele o cantil vazio com o buraco no fundo, sua expressão ficou séria e estranha.
Mestre Rufus tinha olhado em volta com frieza, como se estivesse pensando no que faria com o culpado. Call sabia como era a sensação, apesar de ter se preocupado por um instante que o olhar do Mestre Rufus tivesse repousado em Anastasia.
Às vezes quando Call olhava em volta do refeitório, achava impossível que alguém que quisesse matá-lo pudesse se misturar a todo mundo.
— Tamara tem razão — disse Aaron, dando uma garfada generosa no líquen. — Precisamos descansar e nos preparar para hoje à noite. Já usamos magia o suficiente e preciso de um cochilo, ou vou cair no sono abraçando um urso Dominado pelo Caos e serei devorado.
Call, que dormia abraçado com um lobo Dominado pelo Caos com frequência, riu. Em seguida atacou a comida. Ele e Aaron comeram tudo bem rápido. A essa altura ele também estava se sentindo grogue e tonto, como se a pele que habitava não fosse sua. Lembrou-se de Aaron passando mal e desmaiando após usar intensamente a magia do caos, mas ele nunca tinha se sentido assim antes. Ele se levantou e foi deitar.
Quando acordou, enrolado nos lençóis, ainda de uniforme e sapato, sequer conseguia se lembrar de ter deitado. Do lado de fora do quarto ouvia-se vozes. Já devia estar na hora.
Call se levantou e foi para a sala compartilhada.
Alex estava sentado no sofá, conversando com Tamara. Ambos vestiam roupas pretas, como ninjas. O cabelo castanho de Alex estava meio escondido sob um boné escuro e Tamara usava um casaco preto grande demais e legging. Seu cabelo estavam preso em tranças sedosas amarradas com laços pretos. Alex sorria para ela de um jeito diferente, um jeito que Call só o tinha visto sorrir para Kimiya.
Call não gostou disso.
— Minha madrasta me mandou ajudar — disse Alex, voltando-se para Call. — Vocês têm certeza de que querem fazer isso? Participar dessa... travessura noturna? Isso é muito sério.
— Eu não sabia que você ia participar — disse Call, e Alex piscou como se estivesse surpreso pelo tom de Call.
Tamara lançou a Call um olhar reprovador.
— Ele é enteado de Anastasia — disse Tamara. — E é mago do ar. Será útil.
Aaron entrou na sala, também de preto, apesar de não ter coberto o cabelo brilhoso. Aaron fez um gesto de cabeça para Call.
— Deixamos que dormisse o máximo possível.
— Vocês usaram muita magia do caos no teste hoje — disse Alex. — Estou vendo que vou ter dificuldade de acompanhá-los.
Call e Aaron trocaram um olhar que dizia que nenhum dos dois estava exatamente ansioso para ser convocado a usar esses poderes de novo. Call estava completamente esgotado.
— É melhor vestir uma roupa escura — disse Alex. — Não queremos ser vistos no caminho.
Call voltou para o quarto e vestiu seu jeans preto e o casaco mais escuro que encontrou, que era azul. Quase se esquecendo, pegou Miri que estava em cima da cabeceira e guardou a faca no cinto da calça jeans. Então acordou Devastação, que dormia em cima da cama com a língua apoiada na colcha.
— Vamos, garoto — disse Call. — Hora da aventura.
Voltou para a sala com Devastação atrás de si. Alex abriu a porta para o grupo sair. Com um olhar na direção de Call, Tamara o seguiu.
Já no corredor, Call olhou em volta, surpreso. Estava tudo normal — as paredes de pedra, os corredores que se estendiam dos dois lados —, mas havia um estranho brilho no ar, como se vibrasse em volta deles.
— Camuflagem — disse Alex em voz baixa. Ele estava com a mão direita levantada, os dedos fazendo uma série de movimentos complexos, como se ele estivesse tocando piano. — Alterar a estrutura molecular do ar toma mais difícil que as pessoas nos vejam.
Call olhou para Tamara com uma sobrancelha erguida, como se buscasse confirmação. Ela deu de ombros, mas claramente estava impressionada. O que também era irritante — se alguém tinha feito alguma mágica impressionante naquele dia, definitivamente tinha sido Call.
Embora ele provavelmente não devesse pensar desta forma.
Mas não pôde deixar de imaginar se Aaron estava pensando o mesmo, considerando que um segundo depois uma brasa brotou da mão de Aaron, iluminando o caminho.
— Vamos — disse ele. — Passaremos pelo Portão da Missão?
Alex assentiu e o grupo foi em frente, a luz de Aaron projetando as sombras de cada um deles contra a parede — Alex, depois Aaron, depois Call e Tamara, e, atrás deles, Devastação trotando.
Encontraram apenas algumas pessoas no caminho para o portão, e exatamente como Alex falou, ninguém pareceu ser capaz de vê-los, ou mesmo suas sombras. Célia estava com Rafe, falando em voz baixa. Quando passaram por ela, Célia franziu a testa, mas, fora isso, não reagiu. Mestre North também passou por eles com o rosto enterrado em uma pilha de papéis. Não ergueu os olhos nenhuma vez.
Call se perguntou quando o Mestre Rufus ensinaria a eles um truque tão incrível quanto esse e percebeu, melancolicamente, que a resposta provavelmente era nunca. Mestre Rufus não era o tipo de pessoa que apostaria contra a sua capacidade de encontrar os próprios aprendizes.
Eles saíram pelo Portão da Missão. Devastação, acostumado a ser levado por esse caminho para passear, foi na direção habitual das árvores e do campo de ervas daninhas. Alex gesticulava na outra direção.
— Por aqui, Devastação. — Call disse no tom mais alto que ousou. — Vamos, garoto.
— Para onde vamos? — perguntou Aaron.
— Alma está esperando — disse Alex, conduzindo-os pela estrada de terra que, no começo de cada ano letivo, o ônibus pegava para subir a colina até o Magisterium. Era uma descida íngreme, porém rápida. Muito mais rápida do que fugir pela floresta, como fizeram no Ano de Cobre, ou aos tropeços, em pânico, como Call e Tamara fizeram depois que Aaron foi sequestrado no Ano de Ferro.
Estradas são ótimas, Call pensou contemplativo, jurando pegá-las com mais frequência. Menos sequestros por elementais, mais estradas.
Dobraram uma esquina e viram uma van perto de um monte de pedras. Alma se debruçou para fora da janela.
— Não achei que fossem ter coragem de aparecer — disse ela resmungando. — Entrem.
Alex abriu a porta da van e eles se empilharam um em cima do outro. Assim que a porta se fechou, Alma deu partida no carro, dirigindo mais depressa do que Call julgava necessário. Devastação começou a ganir.
— Então, acho que conseguiremos ultrapassar o caminhão na Rodovia 211. A questão é como fazê-lo parar sem ser jogando para fora da pista. E antes que digam “e daí, qual o problema?”, isso pode machucar os animais — Alma tinha o péssimo hábito de olhar para eles enquanto falava, checando suas reações.
Call queria muito, muito lembrá-la de que precisava olhar para a estrada, mas tinha medo de surpreendê-la e fazer com que ela virasse o volante e os jogasse de um penhasco.
— Tudo bem — disse Call no fim das contas.
— Por que você não podia fazer isso sozinha, você e o resto da Ordem da Desordem? — perguntou Alex.
Alma suspirou, como se a pergunta fosse muito boba.
— De quem você acha que vão desconfiar primeiro? A Ordem atua na floresta em tomo do Magisterium desde que fomos autorizados a estar ali, capturando, marcando, e às vezes até abatendo animais Dominados pelo Caos. Mas só quando necessário. A Assembleia sabe que somos firmemente contra o extermínio dessas valiosas cobaias, então nossos membros precisam de álibis à prova de balas.
— É tocante, o quanto ela se importa, — Aaron suspirou para Call, em um raro momento de desdém.
Call concordou. Devastação não era uma cobaia valiosa; ele era um lobo de estimação. Call gostaria que todos os animais tivessem opções melhores do que morrer ou serem usados pela Ordem.
— Mas e o seu álibi? — perguntou Tamara.
— Eu? — disse Alma. — Bem, os registros mostram que eu estava com Anastasia Tarquin, respeitável integrante da Assembleia, esta noite. Ela foi gentil o suficiente para me conceder acesso aos elementais e perdemos a noção do tempo tentando alguns experimentos novo.
— E nós? — perguntou Call, voltando ao que considerava ser a questão central.
— Vão ficar de tocaia — disse Alma, saindo da estrada e entrando na via expressa.
Passaram voando pelo posto de gasolina onde, no ano anterior, ficaram esperando o mordomo de Tamara, Stebbins, vir buscá-los. A via expressa se abria diante deles. Por um instante, Call fantasiou que estivessem indo a algum lugar só para se divertir. Mas talvez não com Alma. Isso seria estranho.
Alma soltou uma risada cacarejada e parou. Eles saltaram da van, felizes com o ar fresco. Estava frio, e o ar gelava as bochechas e o queixo de Call enquanto ele olhava em volta. Estavam em uma bifurcação, onde a Rodovia 211 e a Rodovia 340 se dividiam. As duas estavam desertas, e a lua, enorme e clara, iluminava as linhas brancas que pintavam o centro do asfalto.
Alma olhou para o relógio.
— Estão a mais ou menos cinco minutos daqui — disse ela. — Não mais do que isso. Temos que descobrir como bloquear a passagem. — ela olhou para Call, como se o imaginasse como um bloqueio adequado na estrada.
— Eu faço — disse Alex e caminhou até o trecho de grama na frente de onde as estradas se dividiam.
— O que ele vai fazer? — sussurrou Tamara, mas Call apenas balançou a cabeça. Ele não fazia ideia.
Ficou olhando enquanto Alex erguia as mãos e fazia os mesmos movimentos de pianista. Cor e luz giraram na frente dele. Alex se inclinou para trás enquanto elas se expandiam. Call assistiu aquilo com uma pontinha de inveja. Aquilo era o que ele sempre achou que a mágica fosse, não a escuridão mortal que se derramava das suas mãos.
— Lá estão eles — sussurrou Tamara, apontando. Como não podia deixar de ser, ao longe Call pôde ver um grande caminhão preto vindo na direção deles, do lado leste. Os faróis pareciam cabeças de alfinete brilhando ao longe, mas aproximavam-se muito rapidamente.
— Depressa, Alexander! — Alma se irritou.
Alex cerrou os dentes. Ele claramente estava dando tudo de si, e Call sentiu uma pontada de arrependimento por ter sido impaciente com ele. A luz na frente de Alex tinha escurecido e a cor pareceu solidificar em formas — uma mistura de barreiras de trânsito cor de laranja e amarelas com as palavras ESTRADA FECHADA em letras grandes e pretas. Eram enormes e pareciam assustadoramente sólidas.
— Alex, sai daí! — gritou Tamara. Parecendo cansado, Alex cambaleou em direção a eles. Alma os puxou para trás da van ao mesmo tempo em que o caminhão chegou, parando diante da barricada.
O caminhão em si era um veículo sem nada fora do comum, com dezoito rodas, sem nada escrito na lateral. Quando o motorista saiu da cabine, parecia totalmente não mágico. Estava até de boné. Então foi até a barricada e franziu o rosto para ela. Do caminhão veio uma voz.
— É só tirar da frente! — disse a voz, claramente muito irritada e acostumada a ser obedecida. — Temos hora!
— E se essa estrada estiver fora de uso? — perguntou o sujeito de boné. — As pessoas não colocam essas coisas sem motivo.
Call não sabia ao certo se a ilusão seria capaz de suportar contato físico. Ele tinha que fazer alguma coisa. Olhou para Alma e semicerrou os olhos, de repente ficando muito consciente de por que ela tinha ensinado a ele e Aaron sobre o toque da alma.
— Temos que apagá-los — sussurrou ele.
Aaron assentiu, mas ele já estava parecendo um pouco esgotado. Os dois tinham usado muita magia do caos naquele dia e não seriam capazes de usar um ao outro como contrapesos se ambos estivessem igualmente exaustos. Teriam que tentar não ir longe demais.
A pele de Call formigou. O caos surgiu entre seus dedos com facilidade, por mais que estivesse cansado. Com desconforto, imaginou que talvez a exaustão tomasse a magia mais fácil. Talvez o caos o devorasse sem que ele notasse.
O outro homem saltou da cabine de cara fechada para o motorista. Estava vestido de verde-oliva como os outros membros da Assembleia. Call se lembrou de tê-lo visto antes, mas não exatamente onde.
Tamara respirou fundo. Ela conhecia o sujeito, é claro. Ele provavelmente era alguém importante.
Alex tinha arregalado um pouco os olhos e até Alma parecia pronta para cancelar tudo. Call teve que agir depressa, antes que o pânico os dominasse. Eles tinham vindo aqui para libertar os animais que estavam presos na caçamba do caminhão, animais como Devastação, que corriam perigo. Só de pensar nisso e de ver Devastação agachado na vala, Call foi tomado por uma onda súbita de coragem.
— No três — sussurrou ele para Aaron. — Vamos tocar a alma deles. Você cuida do motorista e eu fico com o de boné.
Os lábios de Aaron se curvaram em um dos lados e Call imaginou se o amigo estaria ansioso para testar o feitiço de verdade. Talvez ele também estivesse pensando nos animais.
Usando sua magia, Call foi em busca da alma do membro da Assembleia. Foi diferente de tocar Alma no ambiente seguro do Magisterium, onde ele poderia levar todo o tempo que precisasse e ela estava preparada para isso. A alma do membro da Assembleia era escorregadia, difícil de agarrar, como se desviasse dele. Ele quase conseguia vê-la — uma coisa prateada que dava impressão de se contorcer em ondas complicadas. Ele expandiu a extensão do poder com rapidez, sem tempo para refinamentos como tivera antes. Sentiu a magia do caos se conectar, mas pareceu mais um tapa do que um toque.
Pelo menos não foi um aperto dessa vez.
O homem caiu. Quando Call trouxe o foco de volta a si mesmo, estava caído no chão, Aaron e Tamara agachados junto a ele.
-— Você sabe quem era aquele? — perguntou Tamara. — Sabe quem acabou de derrubar?
Call balançou a cabeça. Claro que não sabia.
— O pai de Jasper — respondeu Tamara.
— Uau — Call sabia que o pai de Jasper fazia parte da Assembleia, até o viu na festa onde Jennifer morreu. Não podia acreditar que tinha se esquecido. Agora entendia as expressões de todos. — Sou incrível! Jasper vai ficar completamente irritado.
Ele e Aaron comemoraram com um high-five.
— Você é tão imaturo — disse Tamara, esticando a mão para ajudá-lo a se levantar. Devastação latiu e pulou, colocando as patas no peito de Call. Ele coçou a cabeça do lobo e olhou ao redor. O pai de Jasper estava deitado tranquilamente na pista, a roupa verde oliva espalhando-se ao redor dele sobre o asfalto. De perto, era um sujeito relativamente indefinível, de cabelo castanho escuro e barba aparada rente.
O corpo desmaiado do caminhoneiro tinha sido colocado em uma vala do lado da estrada. Enquanto Call observava, Alex saiu da vala e foi até o pai de Jasper. Levitou um pouco o corpo do homem e começou a movê-lo em direção ao acostamento.
Alex parecia exausto, cinza e pálido, como se tivesse esgotado toda sua energia. Call olhou em volta. Onde estava Alma? Ela não deveria estar ajudando Alex?
— Ela está ali. — Aaron apontou, como se tivesse lido os pensamentos de Call. Alma estava na frente da porta do caminhão, fechada por uma corrente e um cadeado enorme. Seu cabelo branco voava ao vento. Ao gesticular, faíscas voavam de suas mãos: magia metálica. O ar cheirava a ferro quente.
— Ah, não — disse Tamara bem na hora em que o cadeado arrebentou e a traseira do caminhão se abriu. Alma agarrou a parte de baixo e empurrou para cima, como se estivesse erguendo uma ponte levadiça.
— Eles estão aqui — gritou ela, e depois berrou.
Uma tempestade de animais Dominados pelo Caos jorrou do caminhão. Devastação soltou um longo uivo quando eles explodiram de seu confinamento — lobos, cachorros, doninhas e ratos, cervos e gambás, até ursos, coisas grandes com olhos multicoloridos e coruscantes.
— Achei que fossem estar enjaulados! — gritou Alma quando os animais começaram a correr em todas as direções. — Depressa! Temos que cercá-los!
Os animais ignoraram o chamado. Alma correu atrás deles, levitando alguns de volta para o caminhão, mas era difícil contê-los.
— Poderíamos fazê-los desaparecer — disse Aaron. — Para o vazio.
— Não! — disse Call. Ele não poderia fazer isso, mesmo que os animais parecessem assustadores.
Mesmo que alguns estivessem vindo na direção deles. Eles três e Devastação recuaram para a van, que de repente pareceu muito pequena para Call.
— Rápido — disse Alex, que veio mancando até eles. Os animais se moviam atrás dele, correndo pela estrada, perseguindo uns aos outros. Ao contrários dos animais normais, eram estranhamente silenciosos. Call pôde ouvir um rosnado baixo, mas vinha de Devastação. — Precisamos criar um feitiço de laços. Dar forma ao ar de modo que se faça uma corrente em torno deles.
— Você consegue? — perguntou Call.
Alex balançou a cabeça.
— Estou exausto. — Ele realmente parecia péssimo. Até o branco de seus olhos parecia cinzento.
— Nós também — disse Aaron, indicando a si mesmo, e Call.
Alex se voltou para Tamara.
— Tamara, eu posso ensinar. Não é tão difícil.
— Eu consigo, mesmo que seja difícil — disse ela com a voz firme. — Diga o que fazer.
— Uau! — disse Aaron. Alguma coisa passou correndo por ele, lustrosa, escura e com olhos ardentes. Ele pressionou as costas contra a van, puxando Call atrás de si. Devastação parecia pronto para avançar, mas Call o chamou de volta com um comando ríspido.
Alex falava com Tamara em voz baixa e ela assentia ao ouvi-lo. Antes mesmo de Alex acabar de falar, ela ergueu as mãos e começou a movê-las. Ela não mexia os dedos como Alex. Parecia mais estar tocando as cordas de uma harpa. Call concluiu que cada um fazia mágica à sua maneira.
Ele quase pôde sentir o poder irradiando de Tamara. Em vez de ar, no entanto, foi fogo que subiu em brasas, em um círculo amplo ao redor dos animais em fuga. Mas mesmo enquanto a cerca estalava, ganhando vida, encurralando a grande maioria dos bichos, o resto deles conseguiu se espalhar. Alguns foram para a floresta, outros na direção de qualquer um que vissem. Agora, apavorados pelo fogo, os olhos dos Dominados pelo Caos pareciam insanos e selvagens. Muitos estavam com os dentes à mostra.
O que acontece quando se tem o caos dentro de si?, Call imaginou. Ele queria usar seu poder e tocar uma daquelas almas, para descobrir o que realmente havia sido feito com aqueles animais. Mas não teve tempo de fazer nada além de reagir.
Uma raposa pulou na direção da garganta de Alma e ela a empurrou para longe. Outra mirou suas pernas. Uma cobra disparou pela grama para baixo da van e desapareceu.
— Cuidado! — Alex empurrou Tamara para o lado exatamente quando dois ursos pardos enormes foram para cima da van, seus corpos gigantescos como tanques de guerra. Alex e Tamara caíram no chão quando Call jogou as mãos para o alto para atirar neles o que pudesse, fogo ou caos negro, ele não sabia ao certo. De toda forma, foi como raspar o fundo de um poço seco. Suas mãos tremeram e nada aconteceu.
E então o urso foi para cima dele.
Ele ouviu Aaron gritar quando o animal balançou a pata, jogando Call no chão num único golpe. Call rolou para o lado, espantado, e o urso foi para cima dele, rugindo. Call viu Aaron esticar a mão, mas o mesmo parecia acontecer com ele — apenas faíscas sem força saíam de seus dedos. Nada de mágica.
Call se esticou por cima do ombro para alcançar Miri ao mesmo tempo em que Devastação pulou. O lobo Dominado pelo Caos fechou a mandíbula no pescoço do urso, enterrando os dentes no pelo espesso. O urso soltou um uivo rosnado. Devastação foi para as costas dele, enterrando as garras e os dentes. O urso sacudiu fortemente seu corpo pesado, tentando se livrar de Devastação, mas o lobo se segurou. Finalmente, o urso conseguiu derrubá-lo. Devastação caiu no chão com um gemido, e o urso se afastou para o meio da estrada.
Call conseguiu soltar Miri e ficar de pé com dificuldade. Uma olhada rápida garantiu que Devastação estava bem. Aaron tinha encontrado um graveto que estava usando para tentar manter o outro urso longe. Alex, que tinha empurrado Tamara para trás da van, correu de volta para eles, no mesmo instante em que o urso estapeou o graveto da mão de Aaron. Alex empurrou Aaron para fora do caminho e girou para o urso com as mãos esticadas, magia do ar entornando das palmas.
Mas o urso não era um animal comum. Seus olhos giravam em vermelho e laranja enquanto ele usava as garras para atacar Alex, que gritou e caiu ajoelhado. Seu casaco brilhou num tom úmido de vermelho ao luar, com um rasgo no ombro.
— Alex! — Tamara veio correndo em direção a eles.
Call poderia ter dito a Alex que ela não ia ficar quieta. Aaron movia as mãos como se tentasse alcançar a magia do caos, mas nada acontecia.
— Aaron! Pega! — gritou Call, lançando Miri para o amigo.
Aaron pegou a faca e empunhou a lâmina contra o urso. Sangue voou em um esguicho quando ela atingiu o corpo da criatura. O urso rugiu, cerrando os olhos. Ao mesmo tempo Tamara se aproximou com mais fogo brotando das mãos.
Encarando o fogo e a lâmina, o urso virou e começou a se afastar rapidamente. Mas o mal já estava feito — a atenção de Tamara tinha sido desviada, e as cercas de fogo tinham começado a cair. Os animais Dominados pelo Caos espalhavam-se ainda mais, e alguns deles avançavam em direção à van com os olhos selvagens vasculhando a noite.
Call foi mancando em direção os amigos ao mesmo tempo em que Alex caiu no chão. Seu casaco estava ainda mais ensopado de sangue agora. Call ouviu a voz exasperada de Tamara, viu Aaron olhar pra baixo, para as próprias mãos vazias de mágica. Estavam todos esgotados. Não havia nada que pudessem fazer e os animais continuavam vindo.
Mas isso não é exatamente verdade, é?, disse uma vozinha no fundo da mente de Call. Não era como se não houvesse nada que ele pudesse fazer. Ele se lembrou do túmulo Dominado pelo Caos do Inimigo. De como tinham escutado sua voz porque sua alma os fez escutar.
Tenho que controlá-los, Call pensou. Tenho que fazer alguma coisa.
A alma dele também tinha feito estas criaturas.
— Ei, vocês! — disse ele, a voz saindo fraca e incerta. — Todos vocês! Parem!
Os animais continuaram se movendo. Call engoliu em seco. Ele não podia ser covarde. Estavam todos em perigo. Podiam morrer. Até o pai de Jasper, que estava deitado na vala, desprotegido e, se tivesse sorte, sem ter sido pisoteado por esquilos Dominados pelo Caos.
Call respirou fundo e tocou sua própria alma, uma alma que tinha habitado outro corpo antes do dele. Um corpo que tinha colocado as mãos no caos e colocado essa energia dentro dos animais.
— Ouçam-me! — gritou Call. — Dominados pelo Caos! Vocês sabem quem eu sou!
Os animais congelaram. Call também. Podia ouvir seu coração batendo. Estava funcionando? Ele levantou a voz mais uma vez.
— Dominados pelo Caos! Voltem para o caminhão! Obedeçam!
O comando pareceu soar pelo ar mesmo depois que ele parou de falar.
As palavras ecoaram a cabeça de Call. Pontos pretos tinham surgido nos cantos de sua visão. Todos os animais estavam se movendo — parecia que alguns estavam virando, começando a se aglomerar num mesmo sentido —, mas a visão de Call estava borrada. Ele tentou abraçar Aaron, seu contrapeso, mas a magia de Aaron estava tão fraca que ele não conseguia encontrá-lo. Estava sozinho no escuro sem Aaron. Desesperado, se permitiu cair de costas no nada.

6 comentários:

  1. Lista de suserano do mal explodiu ai agora

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    1. KKKKKKKKKKKKKK

      Certamente :v

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    2. HAHAHAHAHAHAHAHA COM CERTEZA!!!!!!

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  2. ''Call não gostou disso.'' Call com ciumes da Tamara com o Alex HOHOHO (que risada é essa mds?)
    Aaaaaaaah eu amo o Aaron e o Call (e a Tamara também, obvio, mas especificamente eles nessa cena). Eles dando um high five pq o Call fez o pai do Jasper desmaiar. Garotos tsc tsc
    NÃO CONFIO NO ALEX!

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  3. Call voltou para o quarto e vestiu seu jeans preto e o casaco mais escuro que encontrou, que era azul. Quase se esquecendo, pegou Miri que estava em cima da cabeceira e guardou a faca no cinto da calça jeans. Então acordou Devastação, que dormia em cima da cama com a língua apoiada na colcha.
    — Vamos, garoto — disse Call. — Hora da aventura.
    Sério? O mais engraçado que eu li isso enquanto assitia Hora de Aventura!

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Boa leitura :)