20 de janeiro de 2017

Capítulo treze


— Mestre — disse o líder dos Dominados pelo Caos (pelo menos foi o que Call presumiu que ele fosse). — Quer que matemos o Makar para você?
— Não — respondeu Call rapidamente, horrorizado. — Não, só... fiquem onde estão. Parados — acrescentou, como se estivesse falando com Devastação.
Nenhum dos Dominados se mexeu. Aaron começou a caminhar em direção a Call, as botas esmagando os espinhos das pinhas. Ele navegou com destreza entre o exército ajoelhado.
— O que está acontecendo? — perguntou Jasper.
Call sentiu um aperto no ombro. Ao se virar, viu que era Tamara. Ela olhava fixamente para os Dominados pelo Caos, porém logo em seguida desviou o olhar e o fixou em Call.
— Diga o que significa isso — exigiu ela. — Diga o que você representa para eles.
Estava na voz dela. Mesmo que não soubesse a resposta, já desconfiava. Call achou que Tamara fosse ficar furiosa ao descobrir. Mas não foi o caso. Ela parecia incrivelmente triste, o que era pior ainda.
— Call? — Aaron estava a poucos centímetros dele, mas parecia uma longa distância. Ficou ali parado, incerto, tentando não olhar para os Dominados, que permaneciam de joelhos, à espera de um comando. Call olhou para eles, alguns corpos jovens e outros velhos, mas nenhum com menos de 14 anos. Nenhum mais novo que ele.
Tamara balançou a cabeça.
— Você ficou com raiva de mim por mentir para você. Não minta para nós agora.
Fez-se uma pausa terrivelmente torturante. Jasper olhava para Call (e continuava agarrando o graveto, como se aquilo fosse protegê-lo). Mas Aaron encarava o amigo, esperançoso, como se julgasse que Call pudesse esclarecer tudo, e aquilo era o pior de tudo.
— Eu sou o... Inimigo da Morte — revelou Call. Os Dominados pelo Caos emitiram um ruído, uma espécie de suspiro longo, todos de uma vez. Nenhum deles se mexeu, mas aquilo era uma péssima ilustração do que Call dizia. — Sou Constantine Madden, ou o que restou dele.
— Isso não é possível — falou Aaron lentamente, como se achasse que Call tinha batido a cabeça com muita força. — O Inimigo da Morte está vivo. Está em guerra conosco!
— Não, Mestre Joseph está — corrigiu Call. Ele continuou, passando à frente a explicação que tinha recebido, a que ele próprio não queria entender. — O Inimigo da Morte estava morrendo no Massacre Gelado. Ele fez com que sua própria alma entrasse no corpo de um bebê. — Call engoliu em seco. — O bebê era eu. Minha alma é a alma de Constantine Madden. Eu sou Constantine.
— Você quer dizer que você matou o verdadeiro Callum Hunt e pegou o lugar dele — acusou Jasper. Uma chama se acendeu em sua mão, espalhando-se pelo graveto que segurava, até a ponta pegar fogo. Provavelmente foi a melhor demonstração de magia que Jasper já conseguira, mas ele mal pareceu notar. — Rápido, temos de destruí-lo antes que nos mate, antes que mate o Makar. Aaron você precisa correr!
Aaron permaneceu onde estava, olhando para Call com uma mistura de tristeza e incredulidade.
— Mas você não pode ser — falou Aaron afinal. — Você é meu melhor amigo.
O líder dos Dominados pelo Caos se levantou. Os outros Dominados o acompanharam, como um exército de marionetes. Começaram a marchar em direção a Jasper, passando por Call, como se ele não estivesse ali.
— Esperem — gritou Call. — Não! Parem, todos.
Nada aconteceu. Os guerreiros de olhares mortos continuaram em marcha. Não se movimentavam depressa, mas avançavam firmemente em direção a Jasper, que não recuava. A chama na mão do menino ainda ardia, e ele estava com uma expressão terrível no rosto, como se estivesse pronto para morrer lutando. Nada parecido com o Jasper que passou a viagem reclamando, o Jasper que resmungava por causa de pequenos ferimentos. Esse Jasper parecia destemido.
Mas Call sabia que aquela atitude não faria bem algum a Jasper. Por mais destemido que fosse, não teria o que fazer contra centenas de Dominados pelo Caos. Call sentira pavor antes, quando o obedeceram; mas naquele momento estava assustado porque eles não o obedeciam.
— Parem! — repetiu ele, com voz ressonante. — Vocês, nascidos do caos e do vazio, parem! Eu ordeno!
Eles pararam. Jasper arfava. Tamara se encontrava ao lado dele, a luz brilhando na palma da mão. Aaron também se colocara perto deles. Seu coração batia acelerado. Seus amigos, enfileirados contra ele.
— Eu não sabia. — Call podia ouvir a súplica na própria voz. — Quando ingressei no Magisterium, eu não sabia.
Todos o encararam. Finalmente, Tamara falou:
— Acredito em você, Call.
Call engoliu em seco e prosseguiu:
— Na maior parte do tempo, nem parece possível. Eu não vou machucar ninguém, certo? Mas, Jasper, se você me atacar, os Dominados pelo Caos vão matá-lo. Não sei se consigo contê-los.
— Então, quando você descobriu? — perguntou Aaron. — Que você era... o que você é?
— No boliche, ano passado. Mestre Joseph me contou, mas eu não quis acreditar. Mas acho que meu pai sempre desconfiou.
— E foi por isso que ele fez tanto escândalo quando você não fracassou em entrar no Magisterium — relembrou Jasper. — Porque ele sabia que você era mau. Ele sabia que você era um monstro.
Call se encolheu.
— Por isso ele queria que Mestre Rufus interditasse seus poderes — acrescentou Aaron.
Call não sabia o quanto queria que Aaron contrariasse Jasper até ele não fazê-lo.
— Ouçam, essa é a parte que eu não podia explicar, porque não teria feito sentido antes. Meu pai não quer machucar Aaron com o Alkahest. Ele quer usá-lo para me consertar.
— Consertar? — repetiu Jasper. — Ele deveria matá-lo.
— Talvez — disse Call. — Mas ele definitivamente não merece morrer por causa disso.
— Tudo bem, então o que você quer, Call? — indagou Aaron.
— As mesmas coisas que sempre quis! — gritou Call. — Quero recuperar o Alkahest para devolver à escola. Quero salvar meu pai. Não quero mais guardar segredos terríveis!
— Mas você não quer derrotar o Inimigo da Morte — retrucou Jasper.
— Eu sou o Inimigo da Morte! — berrou Call mais uma vez. — Nós já derrotamos o Inimigo! Eu estou do lado de vocês.
— Sério? — Jasper balançou a cabeça. — Então, se eu dissesse que quero ir embora, você mandaria os Dominados pelo Caos me impedirem?
Call hesitou por um longo momento, com Tamara e Aaron olhando para ele.
Finalmente, Call falou:
— Sim, eu impediria.
— Foi o que pensei.
— Estamos muito perto do fim! — Call tentou explicar. — Muito perto de meu pai. Ele ainda está com o Alkahest. Ainda vai entregá-lo a Mestre Joseph. E o Mestre Joseph não vai utilizá-lo para me matar; ele me quer vivo. Vai matar meu pai, vai matar Aaron, e quem pode saber o que vai fazer depois. Temos de ir até o fim.
Ele os encarou, querendo que entendessem. Após um longo, longo momento, Tamara assentiu discretamente.
— Então, o que faremos agora?
Call se voltou para os Dominados pelo Caos.
— Nos levem até Mestre Joseph — ordenou Call. — Nos levem até lá, não nos machuquem e não contem que estamos indo.
Os Dominados começaram a caminhar, ladeando Call. Aaron, Tamara e Jasper estavam sendo conduzidos, agrupados, cercados. Seguiram por uma trilha estreita, ladeada por corpos que pareciam cadáveres; Call se lembrou de pinturas bíblicas do Mar Vermelho se abrindo. Não havia para onde ir que não o caminho direcionado pelos Caóticos, e não havia ritmo de caminhada que não o deles.
Marcharam pela floresta escura em silêncio, com o estalo das pinhas sob os pés. Devastação foi andando contente, sentindo-se em casa com outros de sua espécie. A cada passo, Call sentia uma terrível solidão o dominar. Depois disso, não teria como voltar ao Magisterium. Não teria mais amigos; não teria mais aulas com Mestre Rufus; não teria mais refeições de líquen no Refeitório, ou brincadeiras com Célia na Galeria.
Ao menos Devastação iria com ele, apesar de Call não saber para onde.
Caminharam pelo que pareceu um longo tempo, longo o bastante para que a perna de Call doesse intensamente. Ele conseguia se sentir desacelerando, sentir a maioria dos Dominados pelo Caos diminuindo o ritmo para que ele não ficasse para trás.
Então, basicamente, ele estava ditando o ritmo.
Aaron apareceu ao lado dele.
— Você iria ser meu contrapeso — disse ele, e só quando usou o pretérito que Call percebeu, com um aperto no coração, o quanto queria isso.
— Eu não sabia quando me ofereci.
— Não quero lutar contra você — prosseguiu Aaron. Jasper e Tamara estavam na frente, Tamara conversava, exasperada, com Jasper. — Eu não quero, mas é o que vai acontecer, não é? É nosso destino: matar um ao outro.
— Você não acredita de verdade que eu quero te matar, acredita? — disse Call. — Se eu quisesse, já poderia ter feito isso. Poderia ter te matado enquanto você dormia. Poderia ter matado você um milhão de vezes. Poderia ter arrancado sua cabeça!
— Isso é bem convincente — murmurou Aaron. — Tamara!
Ela recuou para andar com eles. Jasper continuou na frente, com alguns Dominados pelo Caos ao seu lado.
— Por que você falou aquilo antes? — perguntou Aaron. — Que você acreditava em Call?
— Porque ele tentou escapar do Magisterium — explicou Tamara. — Ele realmente não queria entrar. Se ele soubesse que era Constantine Madden, teria tentado se dar bem com os Mestres para espioná-los. Em vez disso, irritou todo mundo. Para completar, Constantine Madden era famoso por seu charme, e obviamente este não é o caso de Call.
— Obrigado. — Call fez uma careta de dor por causa da perna. Não sabia por quanto tempo aguentaria continuar sem descansar. — Isso alegrou meu coração.
— E, ainda — continuou Tamara —, existem coisas que não se pode fingir.
Antes que pudesse perguntar o que ela queria dizer com aquilo, Call tropeçou em uma raiz e caiu de joelhos. Os Dominados pelo Caos pararam subitamente, os que estavam na frente de Jasper se viraram e o detiveram com as mãos em seu peito.
Call resmungou e rolou, tentando se levantar.
Um dos Dominados o ergueu, segurando-o com a mesma facilidade com que Call teria segurado um gato. Era embaraçoso e, ainda mais vergonhoso, um alívio.
— Nós o carregaremos pelo restante do caminho, Mestre — disse o Dominado.
— Essa provavelmente não é a melhor das ideias — retrucou Call. — Os outros...
Um dos Dominados agarrou Tamara, colocando-a sobre suas costas. Ela se debateu.
— Call! — gritou ela, em pânico.
Dois deles levantaram Aaron, enquanto um quinto ergueu Jasper, que chutava o ar.
— Vamos carregar todos — informou o Dominado que segurava Call, mas isso não pareceu o acalmar em nada. — Iremos mais rápido assim.
Call ficou tão surpreso que não deu nenhuma ordem, nem mesmo quando os Dominados aceleraram o ritmo. Eles começaram a apertar o passo e, em seguida, a correr, com Devastação em seu encalço. Correram sem parar, cobrindo uma faixa tão extensa de território que Call não conseguia se imaginar cruzando a pé.
Àquela distância, Call imaginava que os Caóticos cheirassem à podridão. Afinal, eles deveriam ser mortos, reanimados por magia do vazio. Mas o cheiro era mais de cogumelo, não era desagradável, apenas estranho.
Aaron parecia desconfortável. Tamara aparentemente estava ao mesmo tempo animada e apavorada. Mas a expressão de Jasper era impossível de ser interpretada por Call, um vazio que poderia representar medo ou desespero ou nada.
— Call, o que eles estão fazendo? — gritou Tamara para ele.
Call deu de ombros, incomodado.
— Nos carregando? Acho que estão tentando ajudar.
— Não gosto disso — declarou Aaron, aparentando estar em um passeio particularmente vertiginoso.
Os Dominados iam cada vez mais rápido, a magia os impulsionava para a frente, pela floresta, sobre folhas caídas, pelos riachos e por cima das pedras, por arbustos, samambaias e espinheiros. Em seguida, tão depressa quanto começaram, os Dominados pararam.
Call logo se viu de pé, sendo derrubado na areia de uma praia, a fração de lua acima deles projetava uma trilha de prata sobre a água.
Os Dominados começaram a caminhar mais próximos uns dos outros, a trilha se estreitava na medida em que atravessavam a praia. Call pôde escutar o oceano, a batida das ondas.
Três barcos a remos estavam amarrados em uma doca na praia, balançando gentilmente com a maré. Se Call apertasse os olhos, poderia enxergar um pedaço de terra ao longe, visível apenas graças ao reflexo entrecortado do luar.
— Ilha do Mal? — perguntou Jasper.
Call riu, surpreso por Jasper ter dito alguma coisa. Ele provavelmente estava falando sério, concluiu Call, pois parecia improvável que ele desenvolvesse um senso de humor justo naquele momento.
— Dominados — disse Call —, como atravessamos?
Com essas palavras, três deles entraram no mar. Primeiro, a água batia nas coxas, depois nas cinturas, nos pescoços, depois cobriu as cabeças completamente.
— Esperem! — berrou Call, mas eles já tinham seguido. Será que tinha acabado de matá-los? Será que sequer morriam?
Um instante mais tarde, mãos pálidas se ergueram do mar, soltando as cordas que prendiam os barcos. Depois, puxados por mãos invisíveis, os barcos flutuaram para a costa. Os Dominados emergiram das profundezas, as faces impassíveis como sempre.
— Hum — murmurou Aaron.
— Acho que a gente deve embarcar. — Tamara foi até um dos barcos. — Aaron, entre no barco com Call.
— Qual é o sentido disso? — Jasper quis saber.
Tamara olhou para os Dominados.
— Para o Makar não se afogar antes que Call possa contê-los.
Jasper abriu a boca para protestar, e a fechou de novo.
Call subiu rapidamente no barco. Aaron o seguiu.
Jasper se ajeitou no segundo barco. Tamara pegou Devastação e foi para o terceiro.
Os Dominados pelo Caos os arrastaram pelo mar.
Apesar de já ter passeado muito de carro com Alastair, os únicos barcos em que Call já tinha andado foram balsas que transportavam carros antigos ou algum outro objeto de algum local remoto onde Alastair o adquirira. Isso e os barquinhos que navegavam os túneis do Magisterium.
Call jamais estivera tão perto da água, no mar aberto. As ondas eram negras em todas as direções, os esguichos gelados em suas bochechas, salgados o suficiente para fazerem sua boca arder.
Estava assustado. Os Dominados pelo Caos eram assustadores, e o fato de que o obedeciam não fazia deles menos monstruosos. Seus amigos queriam ficar longe dele — talvez até machucá-lo. E em breve encontraria seu pai e Mestre Joseph, ambos imprevisíveis e perigosos.
Aaron estava sentado encolhido na proa do barco. Call queria falar alguma coisa para ele, mas supôs que nada do que dissesse seria bem recebido.
Os Dominados pelo Caos andavam ao lado deles, embaixo da água, empurrando os barcos. Call conseguia ver as cabeças sob as ondas. Finalmente, o pedaço de terra à frente deles se transformou em uma paisagem. A ilha era pequena, não tinha mais que poucos quilômetros, e parecia coberta por árvores. Os Dominados pelo Caos puxaram uma pequena plataforma para a praia com suas mãos molhadas. Call saltou do barco, com Aaron logo atrás, e os dois se juntaram à Tamara e Jasper na costa. Tamara segurava nos pelos de Devastação para conter o lobo. Devastação latiu e correu para Call.
Todos ficaram assistindo enquanto ondas e mais ondas de Dominados vinham como piratas afogados em uma história de fantasmas.
— Mestre — disse o líder, quando todos se reuniram. Ele tinha se posicionado ao lado de Call, como um guarda-costas. — Sua tumba.
Primeiro Call achou que havia ouvido errado. Sua casa, foi o que a criatura pareceu dizer por um instante esperançoso. Mas não foi nada disso.
Call tropeçou, quase caindo na areia.
— Tumba? — Aaron o olhou de um jeito estranho.
— Sigam — ordenou o líder dos Dominados, partindo pelo bosque. O resto do exército se agrupou ao redor, os corpos pingando, e levaram Call e os outros por uma trilha. Não havia muita luz, mas a passagem era larga, com pedras brancas que delimitavam as bordas do caminho.
Call ficou imaginando o que aconteceria se ordenasse que os Dominados andassem em fila indiana. Será que obedeceriam? Seriam obrigados a obedecê-lo?
Então, com esse pensamento em mente, ele começou a imaginar outras coisas estranhas e engraçadas para ordenar aos Dominados; dançar em fila ou pular em um pé só. Imaginou todo o exército do Inimigo da Morte saltando em um pé só para a batalha.
Um risinho louco escapou de sua boca. Tamara olhou para ele, preocupada.
Nada como seu Suserano do Mal rindo, pensou ele e, em seguida, teve de conter outro impulso completamente inapropriado de uma gargalhada nervosa.
Foi quando a trilha fez uma curva súbita, e ele viu uma construção enorme de pedra cinza. Parecia velha e gasta pelos anos e pela maresia. Duas portas em forma de lua crescente formavam a entrada; no alto destas havia uma aldrava na forma de uma cabeça humana. O arco era marcado por palavras em latim:

ULTIMA FORSAN. ULTIMA FORSAN. ULTIMA FORSAN.

— O que significa? — pensou alto Call.
— Significa “a hora está mais próxima do que imagina” — respondeu o líder —, Mestre.
— Acho que significa alguma coisa sobre a última hora — falou Tamara. — Meu latim não é muito bom.
Call olhou para ela, confuso.
— Significa “a hora está mais próxima do que imagina”.
Jasper pareceu surpreso.
— É mesmo. Significa isso.
— Call, por que perguntou se já sabia? — disse Aaron.
— Porque eu não sabia até ele me contar! — respondeu Call, exasperado. Apontou para o líder dos Dominados pelo Caos. — Vocês não ouviram?
Fez-se um novo silêncio terrível.
— Call. — Tamara começou a falar lentamente. — Você está dizendo que essas coisas estão falando com você? Sabíamos que você estava falando com eles, mas não os ouvimos responder.
— Basicamente ele. — Call apontou para o líder, que parecia impassível. — Mas sim. Consigo ouvi-los e... vocês não o ouviram na clareira? Quando ele me chamou de “mestre”?
Tamara balançou a cabeça.
— Eles não estão falando palavras — sussurrou ela. — Só resmungando e rugindo.
— E emitindo ruídos estranhos como gritos abafados — acrescentou Aaron.
— A mim parece que falam nossa língua com perfeição — retrucou Call.
— É porque você é como eles — disparou Jasper. — As almas deles são todas vazias, e eles não têm nada por dentro, e nem você. Você não é nada além do Inimigo.
— O Inimigo fez essas criaturas. — Aaron enfiou as mãos nos bolsos. — Ele teria de entendê-los porque eles o serviam. E você entende porque...
— Porque eu sou ele — completou Call. Não era nada que não soubessem, apenas mais uma prova assustadora. — Sou tão horrível que estou chocando a mim mesmo — murmurou.
— Mestre — disse o líder. — Sua tumba o espera.
Ele claramente esperava que Call entrasse naquele enorme mausoléu. E Call teria de fazê-lo. Aquele era o destino deles. Era ali que Mestre Joseph encontraria Alastair.
Call ajeitou os ombros e caminhou para a porta. Devastação saltitava ao lado dele, claramente sentindo-se em casa. Atrás do lobo vieram Aaron, Tamara e Jasper.
— Ai, meu Deus. — Ele ouviu a voz horrorizada de Tamara. Demorou um segundo para perceber a que ela estava reagindo. O que ele julgara ser uma aldrava em forma de cabeça era, na verdade, uma cabeça humana decepada, pregada na porta, como se fosse a cabeça de um cervo.
Pertencia a uma menina, uma menina que não parecia muito mais velha que eles. Uma menina que teria morrido recentemente. Mal pareceria morta, não fosse pelo fato de a pele ao redor da base do pescoço ter sido cortada de forma irregular. Os cabelos cor de mogno, soprados pelo vento, batiam ao redor de sua face estranhamente familiar.
Lágrimas arderam nos olhos de Tamara, descendo pelas bochechas. Ela as limpou com as costas das mãos, mas fora isso mal parecia notar que estavam caindo.
— Não pode ser. — Ela se aproximou da porta.
Call teve a sensação de já ter visto aquele rosto antes, mas onde? Talvez na festa na casa dos Rajavi? Talvez fosse uma das amigas de Tamara? Mas por que a cabeça dela estaria exibida ali, como um troféu macabro?
— Verity Torres — informou Jasper em voz baixa, as palavras saindo quase como um sussurro. — Não encontraram o corpo em lugar algum.
Call ficou abalado pelo quão perdido Aaron parecia, tremendo em sua camisa fina; olhando para a última Makar que defendeu o Magisterium. Se ele tivesse sido da geração anterior, seria ele ali. Sua cabeça estaria pendurada sobre aquela porta, como um aviso terrível.
— Não! — Aaron piscou violentamente, como se não conseguisse se livrar da visão diante de si. — Não, não pode ser ela. Não pode.
Call teve a sensação de que ia vomitar.
Os olhos da cabeça se abriram para exibir bolas de gude leitosas, sem pupilas ou íris.
Tamara soltou um soluço. Jasper colocou a mão na boca.
Os lábios mortos se moveram, e as palavras saíram.
— Como meu nome significa verdade, eu garanto que sou os restos mortais de Verity Torres. Aqui dormem os mortos, e os mortos os guardam. Se desejam entrar, três charadas apresentarei. Respondam corretamente e poderão seguir.
Call olhou desamparado para os outros. Estivera contando com o fato de ser Constantine Madden para entrar ali, mas a cabeça de Verity Torres claramente não o reconheceu.
— Charadas — repetiu Tamara com a voz trêmula. — Tudo bem. Podemos matar charadas.
— Como você chama aquilo que nunca pode estar abaixo dos outros membros? — perguntou a menina com uma voz estranha, que não se encaixava com o movimento da boca.
— Ah, não, isso não tem graça — retrucou Call. — Não é uma boa piada.
— Do que você está falando? — perguntou Aaron. — Qual é a resposta? O céu?
Tamara pareceu ainda mais perturbada.
— A cabeça — disse ela. — Cabeça. Entenderam?
Verity Torres soltou uma risadinha rouca. Sua expressão, entretanto, não era risonha. Seus olhos permaneceram brancos e vazios.
— Quem fez isso com você? — perguntou Aaron subitamente. — Quem?
— Só pode ter sido Mestre Joseph — respondeu Tamara. — Constantine já havia deixado o campo de batalha. Ele estava nas cavernas durante o Massacre Gelado...
— Ocupado roubando corpos de outras pessoas para habitar — interrompeu Jasper.
Apesar de as palavras terem doído, Call foi atingido pelo alívio de saber que Constantine Madden não podia ter sido o responsável por aquele horror, pois estava ocupado renascendo como Callum. Claro, o Inimigo tinha feito outras coisas terríveis. Mas não aquilo.
— Esta não foi uma charada verdadeira. — A cabeça ignorou a pergunta de Aaron. — Foi só um treino.
— Temos de sair daqui — balbuciou Jasper, apavorado. — Temos de ir.
— Para onde? Há centenas de Dominados pelo Caos atrás de nós. — Aaron ajeitou os ombros. — Pode fazer a charada.
— Então vamos em frente — continuou Verity. — O que começa e não tem fim, mas é o fim de tudo que começa?
— A morte — respondeu Call. Aquela foi fácil. Ele ficou satisfeito. Bom em charadas não se encaixava em lugar algum da lista de Suserano do Mal.
Ouviu-se um clique, um ruído de moagem, uma tranca que se soltava do outro lado da porta.
— Agora a segunda charada. Eu o deixo exausto, no entanto você sofre quando voo. Você vai me matar, mas eu nunca vou morrer.
O próprio Inimigo, Call pensou. Mas essa não era uma boa resposta de charada, era?
Eles trocaram olhares. Foi Tamara quem respondeu.
— O tempo.
Mais um som de arranhando a madeira.
— E agora a última — informou Verity. — Aceite e vai perder ou ganhar mais que todos os outros. O que é?
Silêncio. A mente de Call estava acelerada. Perder ou ganhar, perder ou ganhar. Charadas eram sempre sobre algo maior do que pareciam ser. Amor, morte, riqueza, fama, vida. Não se ouvia qualquer barulho a não ser os grunhidos distantes dos Dominados e a própria respiração de Call. Até uma voz aguda e trêmula cortar o silêncio.
— O risco — disse Jasper.
A cabeça de Verity Torres soltou um suspiro de decepção, aqueles terríveis olhos se fecharam, e um último clique soou. A porta se abriu. Call não conseguiu enxergar nada além de sombras. De repente, estava tremendo, com mais frio do que jamais havia sentido.
Perigo.
Ele olhou para Aaron e Tamara, respirou fundo e atravessou a porta.
A tumba era parcamente iluminada por pedras que lembravam as pedras brilhantes no interior do Magisterium, posicionadas ao longo da parede. Ele conseguiu identificar um corredor que levava ao que pareciam cinco câmaras.
Ao se virar, ele vislumbrou o imenso grupo de figuras horríveis que o encaravam com olhos brilhantes. O líder fixou o olhar em Call.
O menino tentou manter a voz firme.
— Fiquem aqui, filhos do caos. Eu volto.
Todos eles inclinaram as cabeças ao mesmo tempo. De forma perturbadora, Call viu que Devastação estava entre eles. Seu lobo também havia abaixado a cabeça. Uma onda de tristeza atravessou o corpo de Call. E se Devastação só tivesse ficado com ele porque fora obrigado? Porque foi para isso que havia sido criado? Aquilo era mais que Call julgava ser capaz de aguentar.
— Call? — chamou Tamara. Ela estava na metade do corredor, com Aaron e Jasper ao lado. — Acho melhor você ver isso aqui.
Ele olhou novamente para o exército. Será que estava sendo ridículo, não levando pelo menos um deles consigo para protegê-lo? Ele apontou para o líder.
— Menos você. Você vem comigo.
Tentando tirar Devastação da cabeça, ele mancou para dentro do mausoléu. O líder dos Dominados pelo Caos o seguiu, e Call ficou observando enquanto ele fechava as portas com cuidado atrás de si, bloqueando o mundo exterior.
O líder se virou e olhou com expectativa para Call, aguardando instruções.
— Você vai me seguir, me proteger se alguém tentar me machucar.
A criatura assentiu.
— Você tem nome?
O Dominado fez que não com a cabeça.
— Muito bem. Vou chamá-lo de Stanley. É estranho você não ter um nome.
Stanley não esboçou qualquer reação, de forma que Call se virou e foi andando pelo corredor. Estava na metade do caminho quando ouviu Tamara chamar seu nome outra vez.
— Call! Você precisa ver isso.
Call se apressou para alcançá-la. Encontrou-a com Aaron e Jasper, agrupados diante de uma alcova. Enquanto ele e Stanley se aproximavam, os três abriram caminho, dando acesso a Call.
Dentro da alcova havia um pedestal de mármore... e, sobre o pedestal, o corpo de um menino morto com cabelos castanho-escuros. Estava com os olhos fechados, os braços alinhados nas laterais. O corpo perfeitamente preservado, mas claramente morto. A pele branca como cera, e o peito imóvel. Apesar de alguém tê-lo vestido com roupas brancas de funeral, ainda usava a pulseira que o marcava como aluno do Ano de Cobre.
Talhado na parede atrás dele, seu nome: Jericho Madden. Empilhados em volta do corpo, diversos objetos. Um cobertor velho ao lado de uma porção de cadernos e livros empoeirados, uma pequena bola brilhante que parecia quase desprovida de energia, uma faca dourada e um anel brilhante com um símbolo que Call não reconhecia.
— Claro — sussurrou Tamara. — O Inimigo da Morte não teria construído um mausoléu para si mesmo. Ele não achava que um dia fosse morrer. Construiu esse lugar para o irmão. E reuniu suas posses no túmulo.
Aaron encarou o corpo, fascinado.
Call não conseguiu falar. Sentiu alguma coisa se contorcer dentro de si, uma dor ansiosa de algo que ele esperava sentir quando viu a impressão da mão de sua mãe do Hall dos Graduados. Uma conexão de amor, família e passado. Não conseguia parar de olhar para o menino no pedestal, ou de se lembrar das histórias que tinha escutado: aquele era o irmão que Constantine queria ressuscitar, o irmão cuja morte o fez realizar experimentos com o vazio e criar os Dominados pelo Caos, o irmão cuja morte o fez transformar a própria morte em seu inimigo.
Call ficou imaginando se algum dia amaria alguém com aquela intensidade, a ponto de abdicar de tudo pela pessoa, de querer incendiar o mundo para recuperá-la.
— Eles eram tão jovens — comentou Aaron. — Jericho devia ter nossa idade. E Verity era só um pouco mais velha. Constantine nunca passou dos 20.
A Guerra dos Magos consumiu a todos como uma fogueira. Era horrível pensar naquilo. Porém, ao mesmo tempo, Call jamais ouvira alguém pronunciar o nome de Constantine com tanta compaixão antes.
Claro que foi Aaron. Ele tinha compaixão por todos.
— Aqui. — Jasper tinha se afastado um pouco no corredor e olhava para outra alcova. As estranhas pedras brilhantes nas paredes projetavam uma luz sombria sobre seu rosto. — Alguém que conhecemos.
Call sabia quem encontrariam antes mesmo de chegar ali. Um menino magro, com lisos cabelos castanhos, sardento, os olhos azuis fechados para sempre.
Drew.
Lembrou-se do corpo de Drew, da última vez em que o viu e da forma como Mestre Joseph lançou um feitiço para fechar os ferimentos, apesar de Drew já estar morto. O corpo parecia curado, mesmo que o espírito não estivesse mais ali.
Também tinha bens funerários; roupas dobradas e brinquedos preferidos, a estatueta de cavalo e uma foto em que aparecia com um dos braços em volta de um sorridente Mestre Joseph, o outro em uma pessoa diferente — alguém que fora cortado da foto.
Call estava prestes a pegar a fotografia e examiná-la mais de perto quando ouviu vozes distantes e abafadas vindo de debaixo deles.
— Ouviram isso? — sussurrou ele, afastando-se do corpo de Drew pelo corredor.
Escadas estavam ocultadas pelas sombras. Pareciam esculpidas em pedra sólida. Call levou um instante para perceber que deviam ter sido criadas por magia.
A hora está mais próxima do que você imagina.
Call desceu pelos degraus. Os outros seguiram com cautela. Ele alcançou a base da escada e olhou em volta do recinto sombrio e cavernoso. A escuridão ali embaixo era mais profunda, as pedras brilhantes nas paredes, mais espaçadas.
E então ele viu. O último corpo — o próprio Constantine. Estava deitado sobre um pedestal de mármore, os braços cruzados sobre o peito. Tinha cabelos castanho-escuros e feições angulosas. Podia ter sido bonito, não fossem as marcas lívidas de queimaduras que cobriam o lado direito do rosto e desapareciam para dentro do colarinho. Não eram tão ruins quanto Call havia imaginado, no entanto, após ouvir tantas histórias sobre o rosto queimado do Inimigo e a máscara que ele usava. Constantine parecia essencialmente normal. Terrivelmente normal. Poderia ser qualquer um que passava na rua. Qualquer pessoa.
Call se aproximou. Stanley o seguiu.
— O que está vendo? — sussurrou Aaron mais de longe, nas escadas.
— Shhh — chiou Call de volta, indo até o corpo de Constantine. — Fique aí.
Ainda conseguia ouvir as vozes vindas das paredes. Seriam fantasmas sussurrantes? Sua imaginação? Ele não tinha mais certeza de nada. Não conseguia parar de olhar para o corpo. Sou eu, pensou. Esse foi meu primeiro rosto, antes de eu me tomar Callum Hunt.
Ele foi tomado por uma tontura. Cambaleou novamente para trás, contra a parede, para um canto oculto pelas sombras, justamente quando uma porta invisível se abriu e Mestre Joseph entrou, seguido pelo pai de Call.
O coração de Call disparou violentamente no peito. Era tarde demais para conter Alastair.

9 comentários:

  1. cavalo de 8 patas, Stanley, hummm, Magnus Chase, seria apenas coincidencia?

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  2. Eu acho que a alma dos dois se fundiu e a do call nunca morreu. Oq quando ele viu a digital da mãe sentiu aquele aperto no peito. O mesmo que sentiu qndo viu o outro gêmeo.

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    1. Ele não sentiu um aperto tão forte quando viu a marca da "mãe".

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    2. Não tinha pensado nessa. Pode ser que seja isso...

      Ezequiel

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  3. eu to achando que na verdade o constantine não foi realmente mau e o grupo dele também não, acredito que na verdade o verdadeiro inimigo é o próprio magisterium ou alguém de lá dentro

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  4. Não sei o que pensar, mas mesmo o Call sendo o Constantine (supostamente, podemos esperar qualquer reviravolta desse livro) todo mundo sabe que ele não é mau.

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  5. Acho que o verdadeiro vilão da porra td é o mestre Joseph

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  6. A cabeça da veryty torres,sério isso!!!!!?????!!!!???:0

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  7. Acho que os caras não estão tentando fazer nada que o Callum ta pensando, é típico de protagonista se enganar desse jeito, deve ser algo muuuito pior.

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Boa leitura :)