16 de janeiro de 2017

Capítulo treze


Call acordou na manhã seguinte com medo de o Mestre Rufus dizer algo sobre os papéis espalhados, o modelo destruído e o envelope que sumira de seu gabinete... e ainda mais apavorado com a possibilidade de o professor comentar alguma coisa sobre o elemental desaparecido.
Ele se arrastou até o Refeitório, mas, quando chegou lá, entreouviu uma discussão acalorada entre o Mestre Rufus e a Mestra Milagros.
— Pela última vez, Rufus. — O tom de voz da professora era o de alguém extremamente magoado. — Não estou com o seu lagarto.
Call não sabia se se sentia mal ou se caía na gargalhada.
Depois do café da manhã, Rufus os conduziu rio abaixo, onde os instruiu para que praticassem pegar um pouco de água, jogá-la para cima e agarrá-la novamente sem se molhar. Logo, Call, Tamara e Aaron estavam sem ar, morrendo de rir e ensopados. No fim do dia, Call estava tão cansado que o que acontecera havia menos de um dia parecia distante e irreal. Ele voltou para o quarto com a intenção de meditar a respeito da carta do pai e do bracelete, mas sua atenção foi desviada pelo fato de Warren ter comido um de seus cadarços, sugando-o como se fosse um macarrão.
— Lagarto idiota — ele murmurou, escondendo a braçadeira que usara no exercício das serpes e a carta amassada do pai na última gaveta da escrivaninha, que fechou com um empurrão para evitar que o elemental as comesse também.
Warren não disse nada. Os olhos dele se tornaram cinzentos, e Call desconfiava que o cadarço não tinha lhe feito muito bem.
O que mais o distraía de seu plano de tentar entender o que o pai queria dizer acabaram sendo, para surpresa de Call, as aulas. Não havia mais a Sala da Areia e do Tédio. Em vez disso, o Mestre Rufus lhes passou uma série de novos exercícios que fizeram com que as semanas seguintes passassem depressa. O treinamento ainda era árduo e frustrante, mas, à medida que o Mestre Rufus revelava mais sobre o mundo mágico, Call flagrava uma fascinação crescente dentro de si.
O Mestre Rufus os ensinou a sentir sua afinidade com os elementos e a entender melhor o significado por trás do que chamou de Quinário, que, junto com o restante dos Cinco Princípios da Magia, Call já podia recitar de cor.
O fogo quer queimar.
A água quer fluir.
O ar quer se erguer.
A terra quer unir.
O caos quer devorar.
Eles aprenderam a criar pequenas chamas e a fazer com que o fogo dançasse na palma de suas mãos. Aprenderam a fazer ondas nos lagos da caverna e a chamar peixes de cor clara (apesar de o Mestre Rufus não ter falado nada sobre operar os barcos, o que chateou Call extremamente). Eles até começaram a aprender a coisa preferida de Call: levitação.
— Concentração e prática — disse o Mestre Rufus enquanto os conduzia até uma sala coberta com colchonetes que lembravam um pula-pula, com enchimento de musgo e agulhas de pinheiros extraídos das árvores do lado de fora do Magisterium. — Não existem atalhos, magos. Há apenas concentração e prática. Então, comecem!
Os três se revezaram para tentar captar a energia do ar ao redor deles e usá-la para tomar impulso sobre a sola de seus pés. Era muito mais difícil manter o equilíbrio do que Call imaginara. Eles caíram várias e várias vezes sobre os colchonetes, dando risadinhas, esbarrando uns nos outros. Aaron terminou com uma das marias-chiquinhas de Tamara na boca e Call com um dos pés de Tamara em seu pescoço.
Por fim, quase no fim da aula, Call teve um estalo e conseguiu se erguer no ar, a cerca de trinta centímetros do chão, sem oscilar nem uma única vez. Não havia gravidade para puxar sua perna, nada que o impedisse de levitar de um lado para o outro além de sua própria falta de prática. Sonhos em que ele voava pelos corredores do Magisterium mais depressa do que algum dia ele poderia ter corrido explodiram em sua cabeça. Seria como andar de skate, só que melhor, mais rápido, mais alto e até mesmo com algumas manobras ainda mais malucas.
Tamara voltou os olhos para Call e ele perdeu a concentração, caindo com um baque no colchonete. Ele ficou ali deitado por um segundo, apenas respirando.
Enquanto ele estava no ar, sua perna não havia doído nem um pouquinho.
A aula terminou e Aaron e Tamara não conseguiram se erguer, porém o Mestre Rufus pareceu encantado com essa ausência de progresso. Ele declarou repetidas vezes que aquilo era a coisa mais engraçada que ele tinha visto em muito tempo.
O professor lhes prometeu que até o final do ano eles seriam capazes de invocar cada um dos elementos, atravessar o fogo e respirar debaixo d’água. No Ano de Prata, seriam capazes de se utilizar dos poderes menos evidentes dos elementos: transformar o ar em ilusões, o fogo em profecias, a terra em elos e a água em cura. A ideia de ser capaz de fazer essas coisas empolgava Call, mas, sempre que ele pensava no final do ano, lembrava-se das palavras escritas no bilhete que o pai enviara ao Mestre Rufus.
“Você precisa interditar a magia de Callum até o final do ano.”
Magia da terra. Se ele conseguisse ser aprovado para o Ano de Prata, talvez aprendesse o que realmente significava interditar as coisas.
Em uma das palestras de sexta-feira, o Mestre Lemuel falou sobre contrapesos, advertindo-os de que, se por acaso se excedessem no uso de um elemento e sentissem que estavam sendo atraídos para ele, deveriam alcançar seu oposto, da mesma forma que tinham utilizado a terra quando lutavam contra o elemental do ar.
Call perguntou o que eles deveriam fazer para alcançar a alma, já que seu contrapeso era o caos. O Mestre Lemuel rosnou que, se Call estava lutando contra a magia do caos, não importava o que ele alcançasse, porque estava, de qualquer forma, diante da morte iminente. Drew lhe lançou um olhar solidário.
— Tudo bem — ele disse em um sussurro.
— Pare com isso, Andrew — censurou o Mestre Lemuel com uma voz congelante. — Você sabe que houve um tempo em que aprendizes que demonstravam desrespeito por seus mestres eram surrados com uma vara de marmelo.
— Lemuel — a Mestra Milagros o interrompeu, nervosa ao ver a expressão horrorizada no rosto dos alunos. — Eu não acho...
— Infelizmente, isso foi há séculos — continuou o Mestre Lemuel. — Mas posso lhe garantir, Andrew, que, se você continuar a cochichar pelas minhas costas, se arrependerá de ter vindo para o Magisterium. — Os lábios dele se curvaram em um sorriso. — Agora venha aqui e demonstre como alcançar a água enquanto está usando o fogo. Gwenda, será que você poderia ajudá-lo com o contrapeso?
Gwenda foi até a frente da sala, após hesitar por um momento. Drew se arrastou atrás dela, com as costas curvadas. Ele suportou vinte minutos de provocações inclementes de Lemuel por não ter conseguido apagar a chama em uma de suas mãos, mesmo quando Gwenda lhe passou uma tigela com água com um entusiasmo tão repleto de esperança que um pouco do líquido chegou a cair sobre seu tênis.
— Vamos, Drew — ela sussurrava sem parar, até que o Mestre Rufus acabou mandando que se calasse.
Isso fez com que Call apreciasse mais o Mestre Rufus, mesmo quando ele lhes deu uma palestra sobre as obrigações dos magos, cuja maioria parecia bastante óbvia, como manter a magia em segredo, não utilizá-la para ganhos pessoais ou fins malignos e compartilhar todo o conhecimento adquirido em suas pesquisas com o restante da comunidade de magos. Ao que tudo indicava, os magos que atingiam a maestria em seus estudos dos elementos tinham de selecionar aprendizes como parte dessa coisa de “compartilhar o conhecimento”, o que significava que havia diferentes mestres no Magisterium em diferentes épocas, apesar de aqueles que encontraram sua vocação como professores terem permanecido na escola.
A obrigação de ter aprendizes explicava muita coisa a respeito do Mestre Lemuel. Call se interessou mais pela segunda palestra do Mestre Rockmaple sobre os elementais. Em sua maioria, foi provado que não existiam criaturas conscientes. Algumas mantinham a mesma forma que tiveram por séculos, enquanto outras se alimentavam de magia e se tornavam grandes e perigosas.
Umas poucas eram conhecidas por absorver lagartos. Call sentiu um arrepio ao pensar em Warren depois de ouvir aquilo. Que diabos ele havia soltado no Magisterium? O que exatamente estava dormindo debaixo da sua cama e comendo seus cadarços?
Call também aprendeu mais sobre a Terceira Guerra dos Magos, mas nada que lhe desse a mais remota ideia do motivo pelo qual o pai queria interditar sua magia.
Tamara começou a rir mais à medida que o tempo passava. Às vezes, suas risadas eram acompanhadas por um olhar de culpa, enquanto Aaron se tornava estranhamente mais sério ao passo que os três se adaptavam à rotina do Magisterium. Call percebeu que já aprendera a andar pela escola e não tinha mais medo de se perder no caminho para a Biblioteca, para as salas de aula ou até mesmo para a Galeria. Ele também não achava mais estranho comer cogumelos e pilhas de líquen que tinham gosto de um frango assado delicioso, espaguete ou yakisoba.
Ele e Jasper ainda mantinham distância, mas Célia continuou a ser sua amiga, agindo como se nada de estranho tivesse acontecido naquela noite.
Call começou a temer o fim do ano, quando o pai queria que ele voltasse para casa em definitivo. Ele tinha amigos pela primeira vez na vida, amigos que não o achavam muito estranho nem o consideravam um ser de outro mundo por causa de sua perna. E ele tinha a magia. Não queria desistir de nada disso, apesar de ter prometido exatamente o contrário.
Era difícil se dar conta da passagem das estações debaixo da terra. Às vezes, o Mestre Rufus e os outros mestres os levavam para o lado de fora para exercícios de terra. Sempre era legal ver no que os outros alunos eram bons. Quando Rufus os ensinou a misturar a magia elemental para acelerar o crescimento das plantas, Kai Hale fez com que uma única muda brotasse e crescesse tanto que no dia seguinte o Mestre Rockmaple teve de sair com um machado para cortar a árvore. Célia conseguia chamar animais do subterrâneo (apesar de, para a frustração de Call, ela não ter atraído nenhuma ratazana-toupeira pelada). E Tamara era incrível em usar o magnetismo da terra para encontrar o caminho quando todos estavam perdidos.
À medida que o mundo exterior começava a ficar vermelho com as cores do outono, as cavernas se tornavam mais frias. Grandes tigelas de metal repletas de pedras quentes foram enfileiradas nos corredores, aquecendo o ar, e uma fogueira passara a ser acesa na Galeria quando eles assistiam a filmes.
O frio não incomodava Call. Ele sentia como se, de alguma forma, estivesse se tornando mais forte. Tinha quase certeza de que crescera pelo menos uns dois centímetros. E conseguia andar por mais tempo, apesar da perna, provavelmente porque o Mestre Rufus costumeiramente gostava de conduzi-los por longas caminhadas pelas cavernas ou em escaladas nas grandes rochas acima da superfície.
À noite, Call às vezes pegava o bracelete do pai e relia ambas as cartas. Ele desejava poder contar a Alastair sobre as coisas que vinha fazendo, porém jamais pôs esse desejo em prática.
Eles estavam no auge do inverno quando o Mestre Rufus anunciou que já era hora de começarem a explorar as cavernas sozinhos, sem sua ajuda. Ele já havia lhes mostrado como encontrar o caminho nas cavernas mais profundas utilizando a magia da terra para acender uma pedra e criar marcas pelo caminho que os conduziriam de volta.
— Você quer que a gente se perca de propósito? — disse Call.
— É, algo assim — respondeu Rufus. — O plano é que vocês sigam minhas instruções, encontrem a sala que lhes será designada e retornem sem se perder. Mas essa última parte depende apenas de vocês.
Tamara bateu palmas e abriu um sorriso levemente diabólico.
— Parece divertido.
— Vocês devem completar essa tarefa juntos — o Mestre Rufus lhe disse. — Nada de sair correndo na frente e deixar esses dois tropeçando no escuro.
O sorriso de Tamara esmaeceu um pouco.
— Ah, tudo bem.
— Podemos fazer uma aposta — Call propôs, pensando em Warren. Se conseguisse usar alguns dos atalhos que o lagarto havia lhe mostrado, ele poderia encontrar o caminho certo antes dela. — Ver quem acha o caminho primeiro.
— Será que algum de vocês me ouviu? — o Mestre Rufus indagou. — Eu disse...
— Juntos — repetiu Aaron. — Prometo que vamos ficar grudados uns nos outros.
— Vejo que você vai mesmo fazer isso — comentou o Mestre Rufus. — Agora, eis a tarefa. Nas profundezas do segundo andar das cavernas, há um lugar chamado Lago dasBorboletas. A água vem de uma nascente na superfície e é repleta de minerais, o que a torna excelente para forjar armas, como a adaga que você carrega no cinto. — Ele apontou na direção de Miri, fazendo com que Call tocasse o cabo da adaga quase sem se dar conta. — A lâmina foi feita aqui, no Magisterium, com a água do Lago das Borboletas. Quero que vocês três encontrem a sala, peguem um pouco da água e a tragam para mim aqui, neste mesmo lugar.
— Você vai nos emprestar um balde? — perguntou Call.
— Creio que você já saiba a resposta, Callum. — Rufus tirou um pergaminho de dentro do uniforme e o passou para Aaron. — Aqui está o mapa. Sigam-no com exatidão e chegarão ao Lago das Borboletas, mas se lembrem de acender as pedras para marcar o caminho. Vocês não poderão confiar no mapa para trazê-los de volta.
O Mestre Rufus se acomodou em uma grande saliência na pedra que se moldou calmamente debaixo do mago até se transformar em algo que lembrava uma poltrona.
— Alternem-se para carregar a água. Se vocês a derrubarem, terão de voltar para buscar mais.
Os três aprendizes trocaram olhares.
— Quando começamos? — quis saber Aaron.
O Mestre Rufus tirou um pesado livro de capa dura do bolso e começou a lê-lo.
— Imediatamente.
Aaron abriu o pergaminho sobre uma pedra, com uma expressão séria no rosto, e logo em seguida olhou para o Mestre Rufus.
— Tudo bem — ele disse depressa. — Devemos ir para o leste.
Call se aproximou, olhando o mapa sobre os ombros de Aaron.
— O caminho mais rápido parece passar pela Biblioteca.
Tamara virou o mapa em um sorriso cínico.
— Agora, sim, o norte está voltado para a direção certa. Isso deve ajudar.
— E a Biblioteca continua a ser o caminho certo — insistiu Call. — Por isso, vamos combinar que você nem ajudou tanto assim.
Aaron revirou os olhos, se pôs de pé e dobrou o mapa.
— Vamos antes que vocês dois arrumem uma bússola e comecem a medir as distâncias com um barbante.
Eles saíram da sala, primeiramente seguindo por áreas que já lhes eram familiares. Os três passaram pela Biblioteca e desceram seus corredores espiralados como se caminhassem dentro de uma concha. Esse caminho levava aos níveis inferiores das cavernas.
O ar se tornou mais frio e pesado, com um forte odor de minerais. Call se sentiu imediatamente estranho. As passagens ali eram estreitas e o teto, baixo. Aaron, o mais alto dos três, quase tinha de se abaixar para atravessá-las.
Por fim, a passagem se abriu em uma caverna maior. Tamara tocou uma das paredes, acendeu um cristal e iluminou as raízes, que formavam gavinhas sinistras, que lembravam as patas de uma aranha e iam quase até o topo de uma cachoeira de águas cor de laranja que lançava uma fumaça sulfurosa, enchendo o ambiente com um odor de enxofre.
Cogumelos imensos cresciam às margens do fluxo-d’água, listrados em tons brilhantes e artificiais de verde, azul-turquesa e púrpura.
— O que acontece se a gente comer esse troço? — Call matutou enquanto eles abriam caminho entre as plantas.
— Eu não tentaria descobrir. — Aaron ergueu uma das mãos. Ele tinha aprendido a fazer uma bola de fogo azul uma semana antes e estava muito empolgado, de modo que passara a fazer bolas de fogo o tempo todo, até mesmo quando eles não precisavam de luz. Aaron mantinha o fogo em uma das mãos e o mapa na outra. — Por aqui. — O menino fez um gesto na direção de uma passagem à esquerda. — Do outro lado da Sala das Raízes.
— As salas têm nomes? — Tamara contornou alguns cogumelos com todo o cuidado.
— Não, eu é que decidi chamá-las assim. Porque, pensa bem, a gente não vai se esquecer delas se tiverem um nome, não é?
Tamara franziu a testa enquanto pensava a respeito.
— Acho que você tem razão.
— Melhor que Lago das Borboletas — Call comentou. — Quero dizer, que raio de nome é esse para um lago que ajuda a fabricar armas? Deveria se chamar Lago Assassino. Ou Tanque das Facadas. Ou, quem sabe, Poço do Homicídio.
— É — disse Tamara, seca. — E a gente podia começar a chamar você de Mestre Óbvio.
A câmara seguinte possuía espessas estalactites, brancas como dentes gigantes de tubarão, posicionadas uma ao lado da outra como se realmente estivessem presas à mandíbula de algum monstro havia muito enterrado. Call, Aaron e Tamara passaram por essas formações assustadoras e afiadas que pendiam do teto e chegaram a uma abertura estreita e circular. Ali, a rocha era pontuada por formações cavernosas que pareciam ter sido engolidas, como se fossem cupinzeiros gigantes. Call se concentrou e um cristal no canto oposto começou a brilhar para que eles não se esquecessem de que aquele era o caminho certo.
— Este lugar está no mapa? — ele perguntou.
Aaron semicerrou os olhos.
— Sim. Na verdade, estamos quase lá. Só mais uma sala ao sul... — Ele sumiu por um portal escuro e reapareceu um momento depois com o rosto corado devido à sensação de vitória. — Encontrei!
Tamara e Call se acotovelaram atrás dele.
Por um momento, permaneceram em silêncio.
Mesmo depois de todos os tipos de salões subterrâneos espetaculares que já vira, como a Biblioteca e a Galeria, Call sabia que estava diante de algo especial. De um nicho no alto de uma das paredes, uma torrente de água se derramava em um grande lago azul resplandecente, como se fosse iluminado pelo lado de dentro. As paredes eram macias, cobertas por líquen verde reluzente.
O contraste do verde com o azul fazia com que Call tivesse a impressão de estar dentro de uma bola de gude. O ar era perfumado pelo odor de especiarias desconhecidas e hipnotizantes.
— Hum — Aaron disse, quebrando o silêncio após alguns minutos. — É meio estranho ele ser chamado de Lago das Borboletas.
Tamara caminhou até a beirada.
— Acho que é por causa da cor daquelas borboletas azuis. Como elas se chamam mesmo?
— Monarcas — Call respondeu. Seu pai sempre fora fã de borboletas. Ele tinha uma grande coleção delas, espetadas com alfinetes em um quadro sobre a escrivaninha.
Tamara esticou uma das mãos. O lago se agitou e uma esfera de água ergueu-se sem perder a forma, mesmo quando a menina a moveu e fez com que o líquido se ondulasse.
— Pronto — disse Tamara, um pouco esbaforida.
— Ótimo — incentivou Aaron. — Por quanto tempo você acha que consegue sustentar a água?
— Não sei. — Ela jogou uma trança escura e grossa para trás, tentando esconder qualquer sinal de esforço. — Eu aviso quando minha concentração começar a falhar.
Aaron assentiu, abrindo o mapa contra a parede úmida.
— Agora só temos de encontrar o caminho...
Ele deu um berro e soltou o pergaminho, cujas páginas, do nada, escureceram até ficarem em chamas, transformando-se em uma chuva de brasas que caíram no chão.
Tamara soltou um gritinho e perdeu a concentração.
A água que ela erguia se derramou sobre seu uniforme e formou uma poça ao redor de seus pés.
Os três olharam uns para os outros com os olhos arregalados. Call estreitou os ombros.
— Acho que entendi o que o Mestre Rufus quis dizer. Devemos seguir nossas pedras iluminadas, ou marcas, ou o que quer que nos leve de volta. Aquele mapa só servia para chegarmos até aqui.
— Deve ser fácil — disse Tamara. — Quero dizer, eu só acendi uma pedra, mas vocês iluminaram mais delas, não é?
— Eu também acendi apenas uma. — Call olhou para Aaron, esperançoso. O colega não lhe retribuiu o olhar.
Tamara fez uma careta.
— Ui. Tudo bem. Vamos descobrir o caminho de volta. Você carrega a água.
Dando de ombros, Call foi até o lago e se concentrou em moldar uma bola. Call se utilizou do ar ao seu redor para mover a água e sentiu as forças conflitantes dos elementos dentro de si. Ele não era tão bom naquilo quanto Tamara, mas conseguiu se sair bem. Sua bola pingou apenas um pouquinho enquanto flutuava.
Aaron franziu a testa e apontou.
— Viemos dali. Daquele lado. Acho que...
Tamara seguiu Aaron e Call foi atrás dela. A bola de água girava sobre sua cabeça como se o menino tivesse uma nuvem de chuva particular. A sala seguinte era familiar, com o rio subterrâneo e os cogumelos coloridos. Call caminhou entre os fungos, com medo de que a qualquer momento a bola de água caísse bem em cima de sua cabeça.
— Olha só — comentou Tamara. — Tem umas pedras acesas bem ali...
— Acho que essas são bioluminescentes — Aaron retrucou, preocupado. Ele deu um tapinha nelas e depois se voltou mais uma vez para Tamara, dando de ombros. — Eu não sei.
— Bem, eu sei. Vamos por aqui. — Ela se virou com passos decididos. Call a seguiu.
Eles viraram à esquerda, depois à direita e à esquerda novamente, atravessando uma caverna repleta de estalactites que cresciam no formato de folhas, “não derrube a água”, em um dos cantos, por uma brecha entre dois pedregulhos, “mantenha todas as gotas juntas, Call”. Havia pedras pontudas por todos os lados, e Call quase deu de cara com uma parede porque Tamara e Aaron foram parar em um corredor sem saída. Os dois discutiam.
— Eu falei que aquilo era um líquen fluorescente — disse Aaron, frustrado. Eles estavam em uma grande sala com uma cisterna de pedra no centro que borbulhava levemente.
— Agora estamos perdidos.
— Bem, se você tivesse se lembrado de acender algumas pedras na ida...
— Eu estava conferindo o mapa — Aaron disse, irritado. De certa forma, Call pensou, até que era legal saber que o amigo era capaz de sentir raiva e perder a razão. Aaron e Tamara se viraram para Call, que quase deixou cair o globo rodopiante que estava tentando equilibrar. Aaron teve de erguer uma das mãos para estabilizar a água. A bola flutuava no ar acima deles, derramando algumas pequenas gotas.
— O que foi? — Call perguntou.
— Bem, você faz alguma ideia de onde estamos? — disse Tamara.
— Não — Call admitiu olhando ao redor para as paredes lisas. — Mas deve haver algum caminho que nos leve para o lugar certo. O Mestre Rufus não ia simplesmente nos mandar aqui para baixo para que nos perdêssemos e acabássemos morrendo.
— Isso é muito otimista, vindo de você — retrucou Tamara.
— Engraçadinha. — Call fez uma careta para mostrar que o comentário da menina não fora nada engraçado.
— Parem com isso, vocês dois — Aaron os interrompeu. — Brigas não vão nos levar a lugar nenhum.
— Bem, seguir você vai nos levar a algum lugar — disse Call. — E esse lugar vai ser o mais longe possível daquele em que deveríamos estar.
Aaron balançou a cabeça, desapontado.
— Por que você tem de ser sempre tão babaca? — ele perguntou a Call.
— Porque você nunca é — Call declarou com firmeza. — Tenho de ser babaca por nós dois.
Tamara suspirou, mas, depois de um momento, caiu na gargalhada.
— Podemos admitir que a culpa foi de nós três? Todos nós ferramos com a missão.
Aaron parecia não querer admitir, entretanto, finalmente, acabou assentindo.
— É, esqueci que não poderíamos usar o mapa no caminho de volta.
— Eu também — acrescentou Call. — Desculpe. Você não é boa em achar caminhos, Tamara? O que você acha de pedir uma ajudinha para os metais contidos na terra?
— Posso tentar. — A voz da menina soou um tanto vazia. — Só que isso vai me informar apenas em que direção fica o norte e não a forma como os caminhos se cruzam. Mas vamos acabar passando por algum lugar conhecido, não é?
Era assustador pensar em vagar pelos túneis, pensar nos poços de escuridão nos quais eles poderiam cair, os lagos de lama movediça e suas ondas asfixiantes. Porém, Call não tinha nenhum plano melhor.
— Tudo bem — ele concordou.
Eles começaram a andar.
Foi exatamente sobre coisas desse tipo que o pai o alertara.
— Sabe do que eu mais sinto falta de casa? — Aaron perguntou enquanto caminhavam por espeleotemas que mais lembravam tapeçarias esfarrapadas. — Pode parecer uma superidiotice, mas morro de saudade de fast-food. O hambúrguer mais gorduroso do mundo e uma montanha de batata frita. Sinto falta do cheiro deles.
— Sinto saudade de deitar na grama do quintal — disse Call. — E do video game. Com toda a certeza eu sinto a maior falta do video game.
— Eu sinto saudade de ficar de bobeira na internet — declarou Tamara, o que surpreendeu Call. — Não me olhe desse jeito. Eu morava em uma cidade igualzinha à de vocês.
Aaron bufou.
— Pode ter certeza de que não tinha nada a ver com o lugar onde eu cresci.
— O que eu quero dizer é que a minha cidade era cheia de pessoas que não eram magos — disse Tamara, enquanto assumia o controle da bola de água azul. — Tinha uma livraria onde alguns magos se encontravam ou deixavam mensagens uns para os outros, mas, tirando isso, era um lugar bem normal.
— Só fiquei surpreso por seus pais deixarem você entrar na internet — explicou Call.
Aquela era uma maneira bem comum e nada sofisticada de passar o tempo. Quando ele imaginava Tamara se divertindo do lado de fora do Magisterium, pensava nela montando um pônei de polo, mesmo sem ter muita certeza se esse tipo de animal realmente existia ou qual seria a diferença entre ele e um pônei comum.
Tamara sorriu para Call.
— Bem, eu não tinha exatamente a permissão deles...
Call queria saber mais sobre o assunto, mas, quando abriu a boca para perguntar, ficou sem ar diante da visão da mais impressionante das salas, que simplesmente acabara de surgir diante de seus olhos.

4 comentários:

  1. água em cura
    eles usaram a terra pra curar antes n a agua

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  2. Serio eu congelava a agua e levava é mais facil levar solidos flutuantes q liquidos né?

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    1. Eu acho que seria mais dificil porque para congelar a água eles teriam que mudar as moléculas da água, drenando muita energia deles. Além do que além de levar a água eles teriam que manter a água congelada, o que daria mais trabalho e tiraria mais energia deles.

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  3. Eles vão encontrar alguma coisa interesante tenho certeza 😐
    Ass:Milly*-*

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Boa leitura :)