25 de janeiro de 2017

Capítulo três


Terminada a reunião com a Assembleia, Call e Aaron ficaram livres para voltar para a festa. Canapés estavam sendo servidos, mas Call estava sem fome. Estava pensando na família caótica de Devastação e em todos os outros animais Dominados pelo Caos na floresta. Call não se lembrava de ser Constantine Madden, mas isso não significava que não devesse algo às inocentes criaturas que Constantine havia transformado. Tinha que haver algo que ele pudesse fazer.
— Então, como foi a reunião secreta? — perguntou Jasper, aproximando-se com Célia e Tamara.
Os três pareciam alegres e relaxados, como se tivessem rido bastante. Ou talvez dançado. Algumas pessoas tinham começado a dançar do outro lado da festa. Call ficou olhando com desconfiança.
— Estranha — respondeu Aaron, sem perceber o humor de Call. Aaron pegou um salgadinho de queijo da bandeja de um garçom e enfiou na boca. Depois emitiu um ruído abafado, como se tivesse planejado falar mais antes da fome bater.
Call contou tudo.
— Foi sobre pessoas e animais Dominados pelo Caos. Sobre nos livrarmos deles, basicamente.
— Devastação não! — disse Tamara com horror estampado nos olhos escuros.
Call ficou feliz por ela ter a mesma reação que ele tivera. Era bom ser lembrado que Devastação também era importante para seus dois melhores amigos.
Mais dois garçons passaram com petiscos em bandejas. Call pegou três torradas de camarão de uma e um espeto de frango de outra. Era melhor tentar comer alguma coisa, pensou, apesar de estar com o estômago embrulhado. Jasper encheu o próprio prato com uma quantidade enorme de itens e começou a comer com a determinação de um tubarão.
— Devastação foi liberado — disse Call. — Mas Graves está basicamente no modo faxina. Quer apagar tudo que restou do tempo do Inimigo da Morte.
Tamara claramente tinha muitas perguntas.
— Você... — Ela começou, mas em seguida olhou para Célia e pareceu pensar melhor. Célia não estava com eles quando saíram da escola para tentar encontrar Alastair. Ela não conhecia o segredo de Call. — Esquece. Hoje vamos simplesmente nos divertir. Aaron, vamos, vem dançar comigo.
Aaron conseguiu pegar mais um salgadinho de queijo antes de ser puxado por Tamara. Entregou seu prato vazio a Jasper e desapareceu na massa de pessoas dançantes em um giro da saia amarela de Tamara.
Célia lançou a Call um olhar esperançoso que ele fingiu não notar. Com aquela perna, ele não tinha chance de fazer nada além de passar vergonha em uma pista de dança. Call sorriu para ela, mas não disse nada. Depois que o momento constrangedor se estendeu pelo máximo de tempo que um momento constrangedor pode se estender, Célia suspirou.
— Vou buscar alguma coisa para beber — disse ela, então foi em direção a uma enorme vasilha de ponche.
— Incrível, hein? — disse Jasper. — Acho que tudo o que dizem sobre o carisma mortal de Constantine talvez não seja tão verdadeiro.
De todos eles, Jasper era o único que Call às vezes via olhando para ele com desconfiança ou preocupação, como se talvez não o conhecesse.
— Não sou o Inimigo — disse Call baixinho.
— Vamos testar — disse Jasper, olhando para o prato de Call. — O Inimigo da Morte jamais me daria o último espeto de frango.
Call entregou sem dizer nada. Não estava mesmo com fome.
— O Inimigo da Morte também jamais me apresentaria para aquela gata que acabou de acenar para você.
Call olhou surpreso para ver que a menina a quem Jasper se referia era alguém que ele já conhecia, uma amiga de Kimiya, a irmã mais velha de Tamara. Ela tinha um cabelo preto longo e maçãs do rosto bonitas. Ela acenou quando o viu olhando em sua direção.
Call lançou a Jasper seu olhar mais maligno.
— Tem razão — disse ele, saindo para encontrar Alastair.
Teve a impressão de tê-lo visto falando com Anastasia Tarquin, o cabelo prateado despontando acima da multidão. Call estava passando por um aglomerado de pessoas porto da mesa de bebidas quando alguém o cutucou no ombro.
Era a menina que Jasper mencionara, Jennifer Matsui. Ela era do Ano de Ouro, como Kimiya, e de perto era uma cabeça mais alta que Call.
— Callum — disse da alegremente. — Parabéns pelo prêmio.
— Obrigado — disse Call, esticando o pescoço para ver Jasper encarando-o do outro lado do salão, como se não conseguisse acreditar no que estava acontecendo. — Foi um bom... prêmio.
Não era o que ele queria ter dito, de forma alguma.
— Tenho uma coisa para você — disse ela, diminuindo a voz a um tom baixo e conspirador. — Uma garota loura e bonita me deu.
Ela estendeu um papel dobrado com o nome de Call escrito. Confuso, Call pegou o bilhete. Jennifer soprou um beijo e voltou em meio à multidão para junto de Kimiya e de um grupinho de alunos que ria junto. Call viu um rosto familiar — Alex Strike, um dos poucos alunos mais velhos de quem ele era amigo. Alex e Kimiya tinham terminado no ano anterior, mas pela forma como estavam próximos e rindo juntos, ou tinham reatado, ou ao menos eram amigos outra vez.
Call desdobrou o bilhete.

Call, precisamos falar a sós. Me encontre na Sala de Troféus. Celia.

Por um longo instante, Call ficou ali apenas encarando o papel, o coração acelerado. Tentou dizer a si mesmo que não deveria se preocupar, que Celia era sua amiga e que muitas vezes já tinham levado Devastação para passear nos arredores do Magisterium. Encontrar com ela na Sala de Troféus não era muito diferente. Mas, pela sua experiência, quando alguém diz “precisamos falar a sós”, normalmente o motivo é ruim.
Ou podia ser outra coisa, ligada a encontros. Ele já tinha visto alunos do Ano de Bronze de mãos dadas e dividindo bebidas e dando risadinhas pela Galeria. Ele realmente torcia para que não fosse essa a intenção de Célia. Mas e se fosse? E se ele não levasse o menor jeito para a coisa?
Além do mais, ele nem sabia onde ficava a Sala de Troféus.
Suas mãos começaram a suar.
Call cerrou os dentes e limpou as mãos na calça. Jasper não tinha acabado de testar suas tendências a Suserano do Mal? Era nisso que Call tinha que se concentrar. Um Suserano do Mal, mesmo quando não se lembra de que é um Suserano do Mal, não deve ter medo de encontrar com uma amiga que calhava de ser menina. Call ia ficar bem. Estava tudo tranquilo.
Com um otimismo renovado e ligeiramente desesperado, ele foi até o mapa de tapeçaria. Viu Tamara e Aaron ainda na pista, dançando com os outros. Ficou imaginando se teria ocorrido a Tamara convidá-lo para dançar, mas sabia que ela sempre escolheria Aaron primeiro. Já tinha aceitado isso havia um bom tempo. Na verdade, Call nem se importava.
Enfim. Célia tinha dito que queria conversar a sós. Coisa que ele definitivamente deveria obedecer, se o assunto estivesse mesmo relacionado a encontros. O que ele torcia muito para que não estivesse.
De acordo com o mapa, a Sala de Troféus não ficava longe. Call se afastou da multidão, passou por algumas portas e por um corredor de mármore com pequenas alcovas nas paredes, dentro delas manuscritos antigos e artefatos. Ele gostava do ruído estalado que seus sapatos faziam no chão ao caminhar. Parou para olhar uma antiga pulseira que provavelmente era o protótipo da que ele estava usando. O couro estava gasto e muitas pedras estavam faltando. Ele não reconheceu o nome do mago na placa atrás da pulseira, mas a data da morte era 1609, o que parecia ter sido há muito tempo.
Mais alguns passos e Call chegou à Sala de Troféus. Sobre a porta aberta, lia-se PRÊMIOS E HONRAS. Call entrou silenciosamente.
Era uma sala majestosa e escura, menor do que o salão principal. Mas, assim como ele, era iluminada por um lustre enorme, feito com braços feitos de vidro soprado, parecendo tentáculos, cada qual com gotas de cristal penduradas como se fossem gotas d‘água. As paredes eram cobertas por uma coleção de placas e medalhas que provavelmente foram concedidas a alunos do Collegium.
Call estava completamente sozinho.
Ele deu uma olhada ao redor, examinando as fotos de magos nas paredes, desejando uma janela pela qual pudesse olhar os peixes ou alguma coisa para passar o tempo. Tinha certeza de que Célia logo chegaria.
Após vários minutos, ele pegou o bilhete e releu. Talvez tivesse entendido mal. Talvez ela tivesse escrito que o encontraria em quinze minutos ou uma hora. Mas não, o bilhete não especificava horário algum.
Passados mais alguns minutos, Call concluiu que ela não viria.
Sentiu-se inesperadamente mal-humorado. Se esse tivesse sido seu primeiro encontro, tinha sido um fracasso. Célia provavelmente escreveu o bilhete, esqueceu, e logo achou outro para dançar com ela — alguém que de fato pudesse fazer isso. Talvez estivesse dançando com Jasper. Ou simplesmente estava por aí com algum aluno brilhante do Ano de Ouro, que teria contado a ela tudo sobre suas conquistas, deixando-a tão impressionada a ponto de dar um bolo em Call. Mais tarde ele a encontraria do lado de fora do Magisterium para passear com Devastação e ela diria algo com desdém. Eu ia te encontrar, mas sabe como é... Quando a gente encontra alguém realmente interessante, o tempo voa!
Call olhou para o próprio reflexo no vidro de uma estante de troféus. Estava com o cabelo arrepiado. Provavelmente ficaria sozinho pelo resto da vida, morreria sozinho, e Alastair o enterraria em um ferro-velho.
A porta abriu. Som de passos. Call girou, mas não era Célia. Eram Tamara e Aaron.
— O que você está fazendo na Sala de Troféus? — perguntou Tamara, franzindo a testa. — Está tudo bem?
Aaron olhou em volta, confuso.
— Está se escondendo?
Call tinha certeza de que nada parecido com isso — levar um bolo e ser humilhado — já havia acontecido com Aaron. E tinha o dobro de certeza de que com Tamara também não.
Pensando bem, o que Aaron e Tamara estavam fazendo aqui, juntos? E se tivessem vindo para ficar de mãos dadas e coisas do tipo? Era ruim o bastante Call ter certeza de que Tamara sempre escolheria Aaron primeiro, mas, se eles estivessem namorando, Aaron também sempre escolheria Tamara.
— Está tudo bem? — perguntou Aaron, a testa franzida em confusão diante do silêncio de Call. — Seu pai disse que te viu vindo nessa direção.
Call ficou muito aliviado por eles não terem vindo para ficar a sós, mas para encontrá-lo. Agora ele só precisava encontrar uma maneira de explicar o que estava fazendo.
— Bem — disse ele, dando um passo na direção dos dois — Vejam...
Ele foi interrompido por um chiado e um barulho metálico horrível. Call olhou para cima no momento em que o lustre com seus tentáculos, cristais e tudo mais, começou a cair em sua direção.
— Call! — Tamara gritou. O lustre estava exatamente sobre Call. Mas então algo o atingiu violentamente pelo lado. Uma dor subiu por sua perna quando caiu no chão e derrapou, os dedos de alguém enterrando nas costas de seu paletó.
Era Tamara. Ele viu um borrão de seu cabelo preto e do vestido amarelo, e então o lustre atingiu o chão ao lado deles. Foi como uma bomba explodindo. Houve um terrível estilhaço musical. Cacos de cristal explodiram na direção deles. Call tentou encolher o corpo para proteger Tamara, que gritou.
Depois disso, de repente tudo ficou muito escuro e quieto.
Por um instante, Call se perguntou se estaria morto. Mas não parecia provável que a vida após a morte fosse estar deitado num chão de mármore ao lado de Tamara, enquanto uma nuvem negra pairava sobre eles. Tamara estava com a respiração ofegante e com os olhos arregalados. Call rolou para o lado de um jeito meio esquisito e a encarou.
Aaron estava de pé na frente deles, com a mão esticada. Caos escuro e nebuloso se derramava de sua mão, formando uma parede ao redor de Tamara e Call. Ele atraía para si os cacos de vidro e de cristal do lustre que flutuavam no ar. Call tentou chamar Aaron, mas o caos conteve sua voz.
Call sentiu um puxão dentro de si — como ele era o contrapeso de Aaron, sentia toda vez que o amigo usava a magia do caos. Atrás de Aaron, o salão parecia tremular — e em seguida, Aaron abaixou a mão e a escuridão desapareceu.
Call ficou de pé com dificuldade, esticando o braço para ajudar Tamara a se levantar. Um caco de vidro tinha feito um corte na bochecha dela, que sangrava. Tamara pegou seu braço com uma força absurda, mas, agora que estava de pé, Call pensou que talvez a intenção dela fosse impedir que ele não caísse. Aaron estava apoiado na parede, com os olhos arregalados e arfando pelo esforço.
— Mas o que — perguntou ele, rouco — foi isso?
Antes que Call pudesse responder, as portas se abriram e os outros convidados da festa invadiram o recinto.

11 comentários:

  1. Eu sou realmente um detetive muito ruim mas... Alguém mentiu ai... E não foi a Celia

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    1. Será que foi o Alex ? Ele claramente é amigo da menina que entregou o cartão pro Call... E, bem... No livro anterior, eu meio que desconfiei dele. Parece que ele esconde algo.

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  2. sabia velho, ou tão armando pra cima de Célia pra que acreditem que ela é a traidora ou Célia é mesmo, como desconfiei

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    1. Também desconfiei dela. Pessoas alegrinhas normalmente são mortais. Principalmente nos livros.

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    2. E geralmente são aqueles que são "amigos" e super prestativos

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  3. "Aaron também sempre escolheria Tamara."

    Isso foi uma pontada de desesperança, Call ? :v

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  4. '' Ele não reconheceu o nome do mago na placa atrás da pulseira, mas a data da morte era 1609, o que parecia ter sido há muito tempo.'' Ah, sério, Call? Achei que tivesse sido ontem 1609.
    Assim fica difícil, tu gosta da Tamara ou do Aaron, demonio?
    Obviamente que não foi a Célia que mandou o bilhete, pq isso seria obvio demais, e a tia Cassie adora trollar os outros.

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    1. Não sei quem eu shippo mais... cara, a tia Cassie deixa a gente confuso pacas... kkkkk
      Tbm acho que não foi a Célia... talvez o Alex... ele me parece suspeito.

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  5. Alex Alex Alex vc está me cheirando a traidor...😮😮

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  6. Para com esse negócio de suserano do mal

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Boa leitura :)