20 de janeiro de 2017

Capítulo três


No ônibus, Call cochilou algumas vezes com o rosto contra a janela.
Devastação havia se encolhido aos seus pés, e também impediu que qualquer pessoa sentasse ao seu lado.
Sonhos inquietos invadiram a mente de Call enquanto dormia. Sonhou com neve e gelo, e magos mortos, espalhados pelo chão. Sonhou que estava olhando para o próprio reflexo no espelho, mas não era mais seu rosto, e sim o de Constantine Madden. Sonhou que estava preso por algemas a uma parede, com Alastair prestes a cortar seu coração.
Acordou com um grito, apenas para se descobrir piscando para o motorista do ônibus, que estava inclinado sobre ele, o rosto enrugado traduzindo preocupação.
— Estamos em Arlington, garoto — informou o homem. — Todo mundo já desceu. Alguém vem buscar você?
Call murmurou algo como “claro” e saltou, cambaleando. Devastação o seguiu.
Havia um orelhão na esquina. Call o encarou. Tinha a vaga ideia de que podia utilizá-lo para contatar o serviço de informações e conseguir o número das pessoas, mas não fazia ideia de como. Sempre usava a internet para esse tipo de coisa. Estava prestes a ir até o telefone quando um táxi preto e vermelho parou na esquina e vários alunos de alguma fraternidade saltaram. O motorista saiu, tirando as bagagens do porta-malas.
Call correu até ele, ignorando os puxões na perna. Inclinou-se na janela.
— Sabe onde fica a Arestas?
O taxista ergueu uma das sobrancelhas.
— Sei. É um lugar bem chique. Uma casa antiga.
Call sentiu o coração acelerar.
— Pode me levar até lá? E meu cachorro?
O motorista franziu o rosto para Devastação. O lobo estava cheirando as rodas do carro.
— Chama essa coisa de cachorro?
Call ficou imaginando se deveria usar a desculpa do cão-guia outra vez. Mas em vez disso falou:
— Devastação é de uma raça rara.
O homem resmungou.
— Nisso eu acredito. Claro, podem entrar. Contanto que nenhum de vocês dois sofra de enjoo no carro, serão melhores passageiros que os garotos que acabaram de saltar.
Poucos instantes depois, Call sentava no banco traseiro. Devastação pulou ao seu lado. As almofadas estavam rasgadas, exibindo o enchimento, e Call tinha quase certeza de que uma mola espetava suas costas. O táxi não parecia ter cintos ou amortecedores. Eles foram balançando e se batendo pelas ruas, com Call sendo jogado de um lado para o outro, como uma bola de pinball. Apesar das promessas de Call, Devastação parecia um pouco nauseado.
Finalmente, chegaram ao topo de uma colina. Diante deles havia uma cerca de ferro e um enorme portão ornado, aberto. Um gramado cuidadosamente aparado se estendia até o outro lado, como um mar verde. Ele pôde ver pessoas uniformizadas se apressando e carregando bandejas. Franziu os olhos, tentando descobrir o que acontecia. Talvez os pais de Tamara estivessem dando uma festa?
Então viu a casa ao fim de uma estradinha curva. Era grandiosa o suficiente para que Call pensasse nos programas que Alastair gostava de assistir na BBC.
Era o tipo de lugar onde duques e duquesas viviam. Call sabia que Tamara era rica, mas imaginava que ela tivesse dinheiro como algumas pessoas da sua antiga escola — pessoas que tinham telefones novos ou tênis legais que todo mundo queria. Só naquele momento ele percebeu que não fazia ideia do tipo de riqueza que Tamara possuía.
— São trinta pratas. — disse o motorista.
— Hum, pode me levar até a casa? — pediu Call, decidido a achar Tamara. Ela definitivamente tinha condições de lhe emprestar aquele dinheiro.
— Você só pode estar brincando. — O motorista seguiu pelo caminho. — Vou deixar o taxímetro ligado.
Alguns outros carros estavam entrando atrás do táxi, BMWs, Mercedes e Aston Martins reluzentes, pretos e prateados. Definitivamente havia alguma festa — pessoas se aglomeravam no jardim ao lado da casa, separadas da grama por baixas cercas vivas. Call podia ver luzes piscando e ouvir uma música ao longe.
Saltou do carro. Um homem branco e de ombros largos, com a cabeça raspada, de terno preto e sapatos brilhantes, consultava uma lista de nomes e autorizava a entrada de pessoas na casa. O sujeito não se parecia em nada com o pai de Tamara, e, por um instante, Call entrou em pânico, pensando estar no lugar errado.
Então Call percebeu que o cara só podia ser um mordomo — ou coisa parecida. Um mordomo que olhou para Call com tanta hostilidade, como se quisesse lembrá-lo de que ele estava de pijama sob o casaco, que os cabelos provavelmente ainda estavam arrepiados do ônibus e que ele trazia consigo um lobo grande e inadequado para festas.
— Posso ajudar? — ofereceu o mordomo. Usava um crachá que dizia STEBBINS em letras elegantes.
— A Tamara está? — perguntou Call. — Preciso falar com ela. Sou um amigo da escola e...
— Sinto muito — respondeu Stebbins em um tom que deixava claro que não sentia coisa alguma. — Há um evento sendo realizado. Posso verificar se seu nome está na lista, mas, caso contrário, temo que terá de voltar outra hora.
— Não posso voltar outra hora — insistiu Call. — Por favor, apenas diga a Tamara que preciso da ajuda dela.
— Tamara Rajavi é uma moça muito ocupada — retrucou Stebbins. — E esse animal precisa usar uma coleira, ou terá de removê-lo do perímetro.
— Com licença. — Uma mulher alta e bem-vestida, com cabelos completamente prateados, saltou de um Mercedes e subiu os degraus atrás de Call. Ela mostrou um convite cor de creme na mão enluvada de preto, e de repente Stebbins virou todo sorrisos.
— Seja bem-vinda, senhora Tarquin. — Ele abriu a porta. — O senhor e a senhora Rajavi ficarão muito felizes em vê-la...
Call foi com tudo, desviando de Stebbins. Ouviu o homem gritar atrás dele e de Devastação, mas eles estavam ocupados correndo pelo imenso corredor de mármore, coberto com belos tapetes, em direção às portas de vidro que se abriam para o pátio onde a festa acontecia.
Pessoas chiques ocupavam um quadrado de grama emoldurado por altas cercas vivas. Havia piscinas retangulares e grandes urnas de pedra repletas de rosas. As cercas eram podadas em formato de símbolos alquímicos. Mulheres usavam longos vestidos floridos e chapéus cheios de laços, enquanto os homens trajavam ternos em tons neutros. Call não conseguiu identificar ninguém, mas passou por uma cerca em forma de um grande símbolo do fogo e tentou se afastar da casa, para onde os aglomerados de pessoas eram mais densos.
Um dos criados, um rapaz de cabelos cor de areia que equilibrava uma bandeja com taças cheias do que parecia ser champanhe, correu para interceptar Call.
— Com licença, senhor, mas acho que tem alguém procurando por você. — O garçom fez um sinal com a cabeça em direção à entrada, onde Stebbins se encontrava apontando diretamente para Call e falando furiosamente com outro empregado.
— Eu conheço a Tamara. — Call olhou freneticamente ao redor. — Se ao menos eu pudesse falar com ela...
— Temo que seja uma festa apenas para convidados — disse o garçom, parecendo lamentar um pouco por Call. — Se puder me acompanhar...
Finalmente, Call avistou alguém que conhecia.
Um menino asiático alto estava em um pequeno grupo com outros jovens mais ou menos da idade de Call. Usava um terno creme de linho, os cabelos escuros perfeitamente alinhados. Jasper deWinter.
— Jasper! — gritou Call, acenando a mão freneticamente. — Oi, Jasper!
Jasper olhou para ele, e seus olhos arregalaram. Ele foi em direção a Call. Estava com um copo de suco no qual pedaços de fruta verdadeira boiavam. Call nunca sentiu tanto alívio em ver alguém. Começou a reconsiderar todas as coisas ruins que já tinha pensado sobre Jasper. Jasper era um herói.
— Senhor deWinter — disse o garçom. — Conhece este menino?
Jasper tomou um gole do suco, os olhos castanhos percorrendo Call da cabeça aos pés, dos cabelos emaranhados aos tênis sujos.
— Nunca o vi na vida.
Os pensamentos positivos de Call sobre Jasper evaporaram em um sopro.
— Jasper, seu mentiroso...
— Provavelmente é um dos garotos locais tentando entrar aqui por causa de alguma aposta. — Jasper cerrou os olhos para Call. — Sabe como os vizinhos ficam curiosos em relação ao que se passa na Arestas.
— De fato — murmurou o garçom. Seu olhar solidário desapareceu, e ele encarava Call como se este fosse um inseto boiando em um coquetel.
— Jasper — disse Call, entre os dentes —, quando voltarmos à escola, vou te matar por isso.
— Ameaças de morte — retrucou Jasper. — A que ponto nós chegamos.
O garçom tentou segurar uma risada. Jasper sorriu para Call, claramente se divertindo.
— Ele parece um pouco maltrapilho — prosseguiu Jasper. — Talvez devesse dar a ele camarões e suco antes de mandá-lo embora.
— Seria muita gentileza sua, senhor deWinter — disse o garçom, e Call estava prestes a fazer alguma coisa, possivelmente explodir, quando de repente ouviu uma voz chamar seu nome.
— Call, Call, Call! — Era Tamara, destacando-se entre a multidão. Trajava um vestido florido de seda, mas, se usara algum chapéu cheio de laços, tinha caído. O cabelo estava sem as tranças habituais, derramando-se em cachos sobre as costas. Ela se jogou em Call e o abraçou com força.
Ela cheirava bem. Como sabonete de mel.
— Tamara! — Call tentou dizer, mas ela o apertava com tanta força que tudo que ele conseguiu pronunciar foi um grunhido. Ele a afagou nas costas, desconfortável. Devastação, em êxtase por ver Tamara, corria ao redor da garota.
Quando Tamara soltou Call, o garçom estava olhando para eles com a boca aberta. Jasper parecia congelado no lugar, a expressão fria.
— Jasper, você é um idiota. — E essas foram as únicas palavras que a garota lhe dirigiu. — Bates, Call é um de meus melhores amigos. Ele está absolutamente convidado para a festa.
Jasper virou-se e desapareceu. Call estava prestes a gritar algum insulto para ele quando Devastação começou a latir. Ele saltou, rápido demais para que Call o agarrasse. O menino ouviu os outros convidados engasgarem ao fugirem do lobo.
Então escutou alguém gritar “Devastação!”, e a multidão se afastou o suficiente para que Call pudesse ver o lobo empinado, as patas no peito de Aaron. O garoto sorria e afagava o pelo de Devastação.
O frisson entre os convidados aumentou. Algumas pessoas pareciam alarmadas, outras praticamente gritavam.
— Ah, não. — Tamara mordeu o lábio.
— O que foi? — Call já havia começado a caminhar, ansioso para chegar até Aaron. Tamara o pegou pelo pulso.
— Devastação é um lobo Dominado pelo Caos, Call, e está subindo no Makar deles. Vamos!
Tamara o puxou para a frente, e, de fato, foi muito mais fácil para Call passar pela multidão com Tamara o guiando como um reboque. Convidados gritavam e corriam na direção oposta. Tamara e Call alcançaram Aaron justamente quando dois adultos muito elegantes, parecendo preocupados, também o alcançaram — um homem bonito, com um terno branco, e uma bela mulher de aparência severa, com longos cabelos escuros, decorados com flores. Seus sapatos claramente tinham sido feitos por um mago do metal: pareciam de prata e tiniam como sinos quando ela andava. Call não conseguia nem imaginar quanto tinham custado.
— Saia! — O homem se irritou, empurrando Devastação, o que foi uma atitude mais ou menos corajosa, Call pensou, apesar de o único perigo que Aaron corria era o de ser lambido até a morte.
— Pai, mãe. — Tamara conseguiu falar, sem fôlego. — Lembram... Falei a vocês sobre Devastação. Ele é tranquilo. É seguro. É como... nosso mascote.
O pai a encarou como se ela não houvesse explicado nada daquilo, mas sua interrupção deu a Aaron tempo de abaixar e pegar Devastação pelo cangote. Ele enterrou os dedos no pelo do lobo, esfregando as orelhas do animal. Devastação botou a língua para fora, feliz.
— É incrível como ele responde a você, Aaron. Ele com toda a certeza parece domado. — A mãe de Tamara sorriu para Aaron. O resto da festa começou a soltar gritinhos e a aplaudir, como se Aaron tivesse executado um milagre, como se o comportamento normal de Devastação fosse um indício de que o Makar deles iria triunfar sobre as forças do caos.
Call, atrás de Tamara, se sentiu invisível e incomodado com aquilo. Ninguém se importava com o fato de que Devastação era seu cachorro e tinha passado o verão perfeitamente domado por ele. Ninguém se importava com o fato de que ele e Devastação tinham ido ao parque todas as sextas nos últimos dois meses e jogado frisbee até Devastação acidentalmente quebrar o disco em dois, ou que, uma vez, Devastação lambeu suavemente o sorvete de uma garotinha, em vez de ter mordido a mão dela de uma vez, como teria acontecido se Call não houvesse lhe dito para não fazer essas coisas, o que definitivamente lhe deu pontos, porque um Suserano do Mal jamais teria feito uma coisa dessas.
Ninguém se importava a não ser que Aaron estivesse envolvido. Aaron estava perfeito, com um terno ainda mais chique que o de Jasper e um novo corte de cabelo idiota, que fazia com que seus cabelos lhe caíssem sobre os olhos. Call notou, satisfeito, que havia manchas de pata perto de um dos bolsos do paletó metido à besta.
Call sabia que não devia se sentir assim. Aaron era seu amigo. Aaron não tinha família, nem mesmo um pai que tentasse matá-lo. Era bom que as pessoas gostassem dele. Significava que Devastação poderia ficar na festa e que alguém provavelmente emprestaria trinta dólares a Call sem grandes reclamações.
Quando Aaron sorriu para Call, todo o rosto brilhando, Call se forçou a retribuir.
— Por que não encontra algumas roupas de festa para seu amigo? — sugeriu a mãe de Tamara, com um aceno entretido para Call. — E, Stebbins, pague o táxi que o trouxe, pois está parado nos portões há horas. — Ela sorriu para Call. Ele não sabia ao certo o que concluir sobre aquela mulher. Parecia amigável e receptiva, mas Call achou que havia algo não muito sincero em sua simpatia. — Mas volte logo. Os feitiços já vão começar.
Aaron chamou Devastação para dentro da casa.
— Call pode pegar algumas de minhas roupas — disse ele. — É, venha nos contar o que aconteceu.
Tamara conduziu o grupo.
— Não que não estejamos felizes em vê-lo, mas o que você está fazendo aqui? Por que não ligou para avisar que vinha?
— É por causa de seu pai? — perguntou Aaron, lançando um olhar solidário a Call.
— É — respondeu ele lentamente. Atravessaram as imensas portas de vidro e entraram em uma sala enorme com piso de mármore, cheia de tapetes caros em cores que lembravam pedras preciosas. Enquanto subiam uma escadaria ridiculamente linda forjada em ferro, Call contou uma história sobre como Alastair o proibira de voltar ao Magisterium. Essa parte foi suficientemente verdadeira; Tamara e Aaron sabiam que Alastair sempre odiara a ideia de Call frequentar a escola de magos. Era possível elaborar a história até a parte em que tiveram uma briga horrível, e ainda a razão pela qual Call temeu que o pai fosse trancá-lo no porão e deixá-lo lá. Para conseguir mais solidariedade, acrescentou que Alastair detestava Devastação e o tratava mal.
Quando terminou, Call já tinha quase se convencido de que tudo aquilo era verdade. Aquela história parecia muito mais crível que a realidade.
Tamara e Aaron emitiram todos os ruídos corretos de solidariedade e fizeram dezenas de perguntas, de modo que ele quase se sentiu aliviado quando Tamara se retirou para que Call pudesse se trocar. Ela levou Devastação consigo. Call seguiu Aaron até o quarto que o garoto ocupava, e sentou na cama king size posicionada no centro do cômodo. As paredes eram cobertas por objetos antigos, com aparência de caros, que, Call desconfiava, deixariam Alastair tentado: grandes placas talhadas de metal, azulejos pintados com estampas angulares e lascas brilhantes de seda e metal emolduradas. Havia grandes janelas com vista para o gramado abaixo. Sobre a cama, pendia um lustre com cristais azuis em forma de sinos.
— Que lugar incrível, não? — Aaron claramente ainda estava um pouco impressionado. Foi até o imponente armário de madeira no canto e o abriu. Pegou uma calça branca, um paletó e uma camisa, e os trouxe para Call. — O que foi? — disse um pouco constrangido quando Call não se mexeu para pegar.
Call percebeu que encarava Aaron.
— Você não falou que se hospedaria na casa de Tamara — disse.
Aaron deu de ombros.
— É estranho.
— Não significa que precisa ser segredo!
— Não era segredo — respondeu Aaron calorosamente. — Só não tive a chance de contar.
— Você nem parece você. — Call pegou as roupas.
— Como assim? — Aaron soou surpreso, mas Call não entendia como ele poderia estar. Call nunca o viu com roupas tão chiques quanto as que ele usava naquele momento, nem mesmo quando foi declarado Makar diante de todo o Magisterium e da Assembleia. Seus novos sapatos provavelmente custaram centenas de dólares. Ele estava bronzeado e saudável. Tinha cheiro de loção pós-barba, apesar de não precisar se barbear. Provavelmente passou todo o verão correndo no jardim com Tamara, fazendo refeições balanceadas. Nada de pizza no jantar para o Makar. — Está falando das roupas? — Aaron as puxou um pouco envergonhado. — Os pais de Tamara insistiram que eu as aceitasse. E me senti muito estranho andando de um lado para o outro de calça jeans e camiseta quando todo mundo parece tão...
— Rico? — perguntou Call. — Bem, pelo menos você não apareceu por aqui de pijama.
Aaron sorriu.
— Você sempre sabe causar impacto na entrada — argumentou ele.
Call concluiu que Aaron se referia à quando se conheceram no Desafio de Ferro e Call fez com que a carga de uma caneta explodisse em si próprio.
Call pegou as roupas novas e foi para o banheiro se trocar. Ficaram, como ele desconfiou que ficariam, grandes demais. Aaron tinha muito mais músculos que ele. Conformou-se em puxar as mangas do paletó praticamente até os cotovelos e em passar os dedos molhados pelo cabelo até não estarem mais arrepiados.
Quando voltou, Aaron estava perto da janela, olhando para a grama. Havia um grande chafariz no centro, e algumas crianças se reuniam ao redor, lançando punhados de alguma espécie de substância que fazia a água brilhar em diferentes cores.
— Então, gosta daqui? — perguntou Call, fazendo o melhor possível para não soar rancoroso. Aaron não tinha culpa de ser o Makar. Aaron não tinha culpa de nada.
Aaron afastou um pouco do cabelo louro do rosto. A pedra preta na pulseira em seu pulso, a que significava que ele podia praticar a magia do caos, brilhava.
— Sei que não estaria aqui se não fosse o Makar — declarou ele, quase como se soubesse o que Call estava pensando. — Os pais de Tamara são legais. Muito. Mas sei que não seria assim se eu fosse só Aaron Stewart de um orfanato qualquer. É bom para eles, politicamente, serem próximos do Makar. Mesmo que ele só tenha 13 anos. Disseram que eu podia ficar o quanto quisesse.
Call sentiu o rancor começar a falhar. Ficou imaginando quanto tempo Aaron teria esperado para ouvir aquilo, que poderia ficar em algum lugar pelo tempo que quisesse. Imaginou que provavelmente fazia muito tempo.
— Tamara é sua amiga — disse ele. — E não por razões políticas ou por você ser quem é. Ela era sua amiga antes de qualquer pessoa saber que você era o Makar.
Aaron sorriu.
— E você também.
— Achei você legal — confessou Call, e Aaron sorriu novamente.
— Só que, na escola, ser o Makar era uma coisa — continuou Aaron. — Mas, neste verão, tem sido uma questão de fazer truques e frequentar festas como esta. Ser apresentado a várias pessoas, e todas elas ficam muito impressionadas por me conhecerem e me tratam como se eu fosse especial. É... divertido. — Ele engoliu em seco. — Sei que eu não queria ser o Makar quando descobri, mas não consigo deixar de pensar que minha vida poderia ser bem legal. Quero dizer, se não fosse pelo Inimigo. É ruim que eu me sinta assim? — Os olhos dele investigaram o rosto de Call. — Não posso perguntar a ninguém além de você. Ninguém mais me daria uma resposta direta.
E foi então que o ressentimento de Call simplesmente se dissolveu. Lembrou-se de Aaron sentado no sofá do quarto deles na escola, ainda pálido e chocado por ter sido arrastado para a frente de todo o Magisterium, a fim de que os Mestres pudessem anunciá-lo como a grande esperança que os guiaria contra o Inimigo.
Havia um inimigo, Call sabia agora. Só que não era quem eles pensavam que fosse. E havia pessoas que queriam Aaron morto. Essas não parariam. A não ser que o Inimigo ordenasse que parassem...
Se Call era o Inimigo, bem, então Aaron estava seguro, certo? Se Mestre Joseph precisava de Call para montar um ataque, então azar do Mestre. Call jamais faria nada para ferir um de seus amigos. Porque ele tinha amigos. E isso era algo que os Suseranos do Mal definitivamente não tinham, certo?
Subitamente, pensou no pai caído inconsciente no chão. Jamais imaginaria que um dia fosse machucar o pai.
— Não é ruim achar legal ser o Makar — falou Call afinal. — Você deve se divertir. Contanto que não se esqueça de que o “se não fosse pelo Inimigo” é um “se” e tanto.
— Eu sei — respondeu Aaron suavemente.
— E contanto que não fique esnobe. Mas não precisa se preocupar com isso, porque tem a mim e a Tamara para lembrá-lo de que continua sendo o mesmo perdedor de antes.
Aaron abriu um sorriso torto.
— Obrigado.
Call não sabia ao certo se Aaron estava sendo sarcástico ou sincero. Ia abrir a boca para esclarecer a questão quando Tamara apareceu na porta e os encarou.
— Prontos? Sinceramente, Call, quanto tempo você demora para se vestir?
— Estamos prontos — disse Aaron, afastando-se da janela.
Lá fora, Call podia ver mágica faiscando sobre o gramado.

11 comentários:

  1. puts, Call é quase tão ruim com nomes do que eu "Devastação" só n é pior do que eu queri a botar na minha cachorra "Maguila", "Rock Balboa", sinceramente ninguem me supera :)

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    1. Devastação é um bom nome

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    2. Devastação é um ótimo nome. Achei muito criativo e quando eu tiver um cachorro um dia, esse vai ser o nome.

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  2. Tenho uma grande desconfiança com o Aaron

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    1. Não é a única,ele parece perfeito demais
      E tive experiências passadas em outros livros que isso não vai acabar bem

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    2. pessoas perfeitas geralmente morrem no livros ou são os vilões

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  3. MEU CACHORRO CHAMA DEVASTAÇAO E UM PITERIE

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  4. MEU CACHORRO CHAMA DEVASTAÇAO ELE E UM PYTERRIE

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  5. Será que é Aaron o inimigo?

    j.

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  6. Só eu que achei muita sacanagem ninguém nem convidar o Call? kkk

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Boa leitura :)