16 de janeiro de 2017

Capítulo três


O Mestre Rockmaple marchou, raivoso, conduzindo o grupo por um corredor afastado das salas de testes. Todos andavam tão depressa que não havia a menor condição de Callum acompanhá-los. A perna doía mais do que nunca, e ele cheirava como uma fábrica de pneus em chamas. Ele mancava atrás do grupo, imaginando se alguém algum dia em toda a história do Magisterium já havia ferrado tanto as coisas.
Talvez o liberassem mais cedo, para o seu próprio bem e o de todos os outros.
— Você está bem? — Aaron perguntou, ficando para trás para poder caminhar ao lado de Callum. Ele sorria de forma amável, como se não houvesse nada de estranho em falar com Call quando o resto do grupo o evitava como se ele fosse a peste.
— Tudo bem — Call disse, rangendo os dentes. — Nunca estive melhor.
— Não faço a menor ideia do que você fez, mas foi épico. A cara que o Mestre Rockmaple fez foi como se... — Aaron tentou imitar o mestre, enrugando a testa, arregalando os olhos e escancarando a boca.
Call começou a rir, mas logo se conteve.
Ele não queria gostar de nenhum outro aspirante, em especial Aaron, o supercompetente.
Eles viraram em outro corredor. O resto da classe estava à espera. O Mestre Rockmaple pigarreou, aparentemente prestes a dar uma bronca em Call, mas pareceu perceber que Aaron estava ao lado dele. Engolindo o que quer que estivesse prestes a dizer, o mago abriu a porta de uma nova sala.
Call entrou na sala aos tropeços junto com o resto da turma. Era um espaço industrial monótono como o primeiro em que eles estiveram para a prova que abriu o dia, com carteiras enfileiradas com uma única folha de papel sobre elas.
“Quantos testes escritos teremos de fazer?”, Callum queria perguntar, mas não achava que Mestre Rockmaple estivesse no clima de responder. Nenhuma das carteiras tinha nomes, por isso ele se sentou em uma delas ao acaso e cruzou os braços sobre o peito.
— Mestre Rockmaple! — gritou Kylie enquanto se sentava. — Mestre Rockmaple, eu não tenho caneta.
— Você não vai precisar — explicou o mago. — Este é um teste que medirá a habilidade de controle da magia. Vocês usarão o elemento ar. Concentrem-se no papel sobre a mesa até que sejam capazes de erguê-lo utilizando apenas a força do pensamento. Ergam-no em linha reta, sem que oscile ou caia. Uma vez que a tarefa estiver terminada, por favor levantem-se e juntem-se a mim aqui na frente da sala.
O alívio tomou conta de Call. Se ele precisava garantir que o papel não voasse pelo ar, isso parecia bem simples. Durante toda a sua vida, ele sempre fora muito bom em não fazer folhas de papel voarem por salas de aula.
Aaron estava sentado na fileira ao lado de Call. Ele estava com uma das mãos no queixo e estreitava os olhos verdes. Quando Call lançou um olhar de esguelha na direção dele, o papel na mesa de Aaron se ergueu no ar de forma perfeita. A folha pairou por um momento antes de flutuar de volta para a mesa.
Com um sorriso, Aaron se levantou para se juntar ao Mestre Rockmaple na frente da sala.
Call ouviu à sua esquerda uma risadinha.
Olhou para cima e viu Jasper pegando o que parecia ser um alfinete e furar o dedo. Uma gota de sangue surgiu, e Jasper balançou o dedo antes de colocá-lo na boca, sugando-o.
“Que cara mais bizarro”, Call pensou. Mas então Jasper se recostou novamente na cadeira de um jeito casual do tipo “posso-fazer-magia- com-as-mãos-atadas”. E parecia até que ele podia mesmo, já que o papel sobre a mesa começou a se dobrar sozinho, assumindo uma nova forma. Com mais algumas dobras, a folha se tornou um avião de papel, que zuniu da mesa de Jasper, atravessou toda a sala e atingiu Call bem no meio da testa. Com uma das mãos, ele deu um tapa no aviãozinho, que caiu no chão.
— Jasper, isso já foi suficiente — disse o Mestre Rockmaple, apesar de não soar tão irritado quanto deveria. — Venha até aqui.
Call voltou sua atenção para seu próprio papel enquanto Jasper se pavoneava até a frente da sala. Enquanto ele passava, todos os garotos ao redor o olhavam e sussurravam para os papéis sobre suas carteiras, torcendo para que se movessem. O estômago de Call se revirava de tanto desconforto. E se uma lufada de ar entrasse na sala e levantasse o papel? E se ele simplesmente... flutuasse sozinho? Ele receberia pontos por isso?
“Não ouse sair de cima desta mesa”, ele pensou, encarando o papel com toda a fúria. “Não saia do lugar.” Ele se imaginou prendendo o papel sobre a madeira, com os dedos esticados, evitando que se movesse. “Cara, isso é estúpido”, ele pensou. “Que bela maneira de passar o dia.” Mesmo assim, ele se manteve na mesma posição, concentrado.
Desta vez, ele não estava sozinho. Várias outras pessoas não tinham conseguido erguer seus papéis, inclusive Kylie.
— Callum? — chamou o Mestre Rockmaple, parecendo cansado.
Call resolveu deixar para lá.
— Não consigo.
— Se ele diz que não consegue, é porque não consegue mesmo — comentou Jasper. — Dê logo um zero para esse perdedor e deixe que vá embora antes que crie uma nevasca e mate todo mundo com papel picado.
— Tudo bem — disse o mago. — Todos vocês, me entreguem os papéis e eu lhes darei as suas notas. Vamos, precisamos deixar esta sala limpa para o próximo grupo.
Aliviado, Call tentou pegar o papel na carteira — e ficou paralisado. Desesperado, começou a arranhar as beiradas com as unhas, mas, de alguma maneira que ele desconhecia, o papel havia afundado na mesa e ele não conseguia desgrudá-lo.
— Mestre Rockmaple... Aconteceu alguma coisa com o meu papel — Call avisou.
— Todo mundo para debaixo das carteiras! — gritou Jasper, mas ninguém prestava atenção nele. Todos olhavam para Call. O Mestre Rockmaple foi até ele e olhou para o papel, que de fato havia se fundido à carteira.
— Quem fez isso? — o Mestre Rockmaple inquiriu. Ele parecia atônito. — É algum tipo de trote?
Todos na sala ficaram em silêncio.
— Você fez isso? — o Mestre Rockmaple perguntou a Call.
“Eu só estava tentando evitar que o papel se mexesse”, Call pensou, sentindo-se péssimo. Porém, não podia falar aquilo.
— Eu não sei.
— Você não sabe?
— Não sei. Talvez o papel esteja com defeito.
— É apenas um papel! — o mago berrou, mas, aparentemente, logo em seguida recuperou o autocontrole. — Tudo bem. Ótimo. Você tirou zero. Não, espere, você será o primeiro aspirante na história do Magisterium a tirar uma nota negativa em uma das provas do Desafio de Ferro. Você tirou um menos dez. — Ele balançou a cabeça. — Acho que todos ficarão gratos por saber que vocês farão o último teste sozinhos.
Naquele momento, Callum ficou enormemente grato por tudo aquilo estar próximo do fim.


Desta vez, os aspirantes ficaram de pé em um corredor do lado de fora de uma porta dupla, esperando para serem chamados.
Jasper conversava com Aaron, olhando para Call de soslaio como se ele fosse o tema da conversa.
Call suspirou. Aquele era o último teste. Um pouco da tensão foi drenado do corpo dele ao pensar nisso. Independentemente de quão bem ele se saísse, um último teste não faria diferença diante de uma nota tão ruim quanto a que ele acabara de tirar. Em menos de uma hora, estaria voltando para casa com o pai.
— Callum Hunt — chamou uma maga que ainda não havia se apresentado. Ela tinha um elaborado colar em formato de cobra e lia os nomes em uma prancheta. — O Mestre Rufus espera por você lá dentro.
Ele se afastou da parede onde estava apoiado e a seguiu pelas portas duplas. A sala era grande, com poucos móveis, iluminação fraca e chão de madeira. Um mago estava sentado ao lado de uma grande tigela feita também de madeira. O recipiente estava cheio de água e uma chama ardia no centro, sem que houvesse nenhum pavio ou vela. Call parou e observou, sentindo um leve formigamento na parte de trás do pescoço.
Ele já tinha visto muitas coisas estranhas naquele dia, mas aquela foi a primeira vez desde a ilusão da caverna que ele de fato sentia a presença da magia.
A magia falava.
— Você sabia que para obter uma boa postura as pessoas costumavam equilibrar livros na cabeça? — A voz do mago era baixa e retumbante, como o crepitar de um fogo distante.
O Mestre Rufus era um homem largo, de pele escura e com uma careca tão lisa quanto uma macadâmia. Ele se levantou em um único movimento, sem a menor dificuldade, erguendo a tigela com seus dedos longos e calejados.
A chama não se moveu. Se algo havia mudado, ela se tornara apenas um pouco mais brilhante.
— Não eram só garotas que faziam isso? — Call perguntou.
— Que faziam o quê? — O Mestre Rufus franziu a testa.
— Andar com livros na cabeça.
O mago desferiu-lhe um olhar como se ele houvesse dito algo que o desapontou.
— Pegue a tigela — ele ordenou.
— Mas a chama irá se apagar — Call protestou.
— Este é o teste — explicou Rufus. — Ver se você consegue manter a chama acesa e por quanto tempo. — Ele entregou a tigela para Call.
Até aquele momento, nenhum dos testes havia sido o que Call esperava. Ainda assim, ele conseguira falhar em todos eles — tanto porque tinha tentado se dar mal de propósito quanto por não ter de fato a menor vocação para se tornar um mago. Havia algo no Mestre Rufus que fazia com que ele quisesse se sair melhor, mas aquilo não importava.
Ele não iria para o Magisterium de forma alguma.
Call pegou a tigela.
Quase que imediatamente a chama pulou, como se Call houvesse exagerado na liberação de gás de um lampião. Ele pulou e, sem pensar, inclinou a tigela, tentando jogar água sobre a chama. Só que, em vez de se apagar, o fogo queimou sobre a água. Em pânico, Call balançou a tigela, enviando um novo fluxo de pequenas ondas sobre o fogo. O fogo começou a falhar.
— Callum Hunt. — O Mestre Rufus olhava para ele com a expressão impassível e os braços cruzados sobre o peito largo. — Estou surpreso com você.
Call permaneceu calado. Ele segurava a tigela com a água que ainda tremulava. O fogo, mesmo aos trancos e barrancos, permanecia aceso.
— Fui professor dos seus pais no Magisterium. — O Mestre Rufus parecia sério e triste. A chama lançava sombras negras sobre seus olhos. — Ambos foram meus aprendizes. Os melhores alunos da classe, com as melhores notas no Desafio. Sua mãe ficaria desapontada ao ver o filho tentando falhar de maneira tão óbvia nos testes só porque...
O Mestre Rufus não concluiu a frase, pois, ao ouvir a menção à mãe de Call, a tigela se quebrou — não em duas metades, mas em uma dúzia de pedaços pontudos, afiados o suficiente para furar as mãos do menino. Ele os largou apenas para ver cada uma das partes da tigela pegar fogo e queimar de forma constante, formando pequenas piras espalhadas aos pés de Call. Ele olhou para as chamas, porém não teve medo. Naquele momento, teve a impressão de que o fogo o convidava a pisar sobre as chamas, a afogar sua raiva e seu medo naquela luz.
As chamas subiram enquanto ele olhava ao redor da sala, se alimentando da água que espirrava como se fosse gasolina. Tudo o que
Call sentia era uma terrível e devastadora raiva, pelo fato de aquele mago ter conhecido sua mãe, pela possibilidade de aquele homem na sua frente ter algo a ver com a morte dela.
— Pare com isso! Pare agora! — o Mestre Rufus gritou, segurando ambas as mãos de Call e fazendo com que as palmas batessem uma contra a outra. O ato fez com que os cortes recém-abertos ardessem.
De repente, o fogo se apagou.
— Me deixe ir embora! — Call soltou as mãos com um puxão e secou as palmas sangrentas na calça, acrescentando uma nova camada de manchas. — Eu não queria fazer isso. Nem sei o que aconteceu.
— O que aconteceu é que você falhou em outro teste — informou o Mestre Rufus. Sua raiva fora substituída pelo que parecia ser uma curiosidade fria. Ele avaliava Call da mesma forma que um cientista analisa um inseto espetado em um quadro. — Você pode voltar e esperar pelo seu resultado final, na arquibancada junto com o seu pai.
Felizmente, havia uma porta do outro lado da sala, de forma que Call pôde se esgueirar por ela sem precisar olhar para nenhum dos outros aspirantes. Ele podia até imaginar a cara de Jasper quando visse o sangue nas suas roupas.
As mãos de Call tremiam.
As arquibancadas estavam repletas de pais com a expressão entediada e alguns irmãos mais novos que corriam pelo hangar. O burburinho de conversas em voz baixa ecoava pelo lugar, e só então Call se deu conta de quão estranhamente silenciosos eram os corredores. Ele chegou a tomar um susto ao ouvir o barulho de pessoas novamente. Os aspirantes saíam de cinco portas diferentes e aos poucos se juntavam às respectivas famílias.
Três quadros brancos foram colocados nos pés das arquibancadas, onde os magos escreviam as notas assim que retornavam ao hangar. Call não olhou para eles. Ele foi direto para onde estava o pai.
Alastair tinha um livro fechado sobre o colo, como se tivesse a intenção de ler, mas jamais dera início a sua leitura. Call percebeu o alívio no rosto do pai quando se aproximou, porém essa expressão foi logo substituída pela preocupação assim que ele lançou um olhar mais atento para o filho.
Alastair se levantou em um pulo, deixando o livro cair no chão.
— Callum! Você está coberto de sangue e tinta e cheirando a plástico queimado. O que aconteceu?
— Eu ferrei com tudo. Eu... eu acho que ferrei mesmo com tudo. — Call podia ouvir sua voz tremer. Em sua mente, ainda passavam as cenas dos destroços da tigela em chamas e a expressão nos olhos do Mestre Rufus.
O pai colocou uma das mãos no ombro de Call, confortando-o.
— Call, está tudo bem. Você deveria mesmo ferrar com tudo.
— Eu sei, mas eu achei que seria... — Ele enterrou as mãos nos bolsos, lembrando-se de todas as palestras do pai sobre como ele teria de tentar falhar. Só que nem ao menos tentara. Ele falhou em todas as tarefas porque não sabia o que estava fazendo, por ser muito ruim em magia. — Eu achei que tudo seria diferente.
O pai abaixou a voz.
— Sei que, quando falhamos em alguma coisa, a sensação não é nada boa, Call, mas foi para o seu bem. Você foi ótimo.
— Só se com “ótimo” você queira dizer “um lixo” — Call resmungou.
O pai abriu um sorriso.
— Por um minuto fiquei com medo, pois você tirou a nota máxima no primeiro teste, mas então eles tiraram esses seus pontos. Nunca vi ninguém perder pontos antes.
Call franziu o cenho. Ele sabia que aquilo era um elogio, porém não se parecia nada com um.
— Você ficou em último lugar. Há garotos sem poderes mágicos que tiram notas melhores. Acho que no caminho para casa você merece um sundae. O maior que conseguir comer. O seu preferido, com caramelo, manteiga de amendoim ursinhos de goma. Combinado?
— É. — Call se sentou. Ele estava muito desapontado até mesmo para pensar em manteiga de amendoim, caramelo e ursinhos de goma. — Tudo bem.
O pai também voltou a se sentar. Ele balançava a cabeça para si mesmo, parecendo satisfeito. Parecia ainda mais satisfeito à medida que mais notas iam sendo divulgadas.
Call se permitiu olhar para os quadros brancos. Aaron e Tamara estavam na liderança, com notas globais idênticas. Para sua irritação, Jasper estava três pontos atrás deles, em segundo lugar.
“Ah, beleza”, Call pensou. O que ele esperava? Os magos eram uns babacas, exatamente como o pai lhe dissera, e os mais babacas entre os babacas conseguiram as melhores notas. Tinha tudo a ver.
Porém, nem todos os babacas estavam entre os primeiros lugares. Kylie havia se dado mal, enquanto Aaron tinha excelentes notas. Aquilo era bom, Call supôs. Parecia que Aaron tinha mesmo tentado se dar bem. A não ser, é claro, pelo fato de que se dar bem significava ir para o Magisterium e o pai de Call sempre dissera que isso era algo que ele não desejaria nem para o seu pior inimigo.
Call não estava certo sobre se deveria ficar feliz ou triste por Aaron, que pelo menos havia sido legal com ele. Tudo que o menino sabia é que esse pensamento lhe causava dor de cabeça.
O Mestre Rufus saiu de uma das portas com passos largos. Não disse nada em voz alta, mas toda a multidão ficou em silêncio como se ele houvesse dito algo. Olhando ao redor, Call podia ver alguns rostos familiares — Kylie, que aparentava ansiedade; Aaron, que mordia o lábio; Jasper, pálido e tenso; enquanto Tamara parecia calma e controlada, nem um pouco preocupada. Ela estava sentada entre um elegante casal de cabelos escuros, cujas roupas de cores claras contrastavam com as peles morenas. A mãe usava um vestido marfim e luvas, e o pai vestia um terno creme.
— Aspirantes deste ano — começou o Mestre Rufus, e todos se inclinaram para a frente ao mesmo tempo —, obrigado por estarem conosco hoje e por se esforçarem tanto no Desafio. O agradecimento do Magisterium também se estende a todas as famílias que trouxeram seus filhos e esperaram por eles até o final.
Ele colocou as mãos para trás, e seu olhar varreu as arquibancadas.
— Temos nove magos aqui, e cada um deles está autorizado a escolher até seis candidatos, que serão seus aprendizes pelos cinco anos que passarão no Magisterium. Esta não é uma escolha fácil. Vocês também devem entender que o número de jovens presentes é maior que o de vagas. Se vocês não forem selecionados, é porque não são hábeis o suficiente para este tipo de treinamento. Por favor, entendam que há muitas razões pelas quais alguém pode não ser hábil, e uma exploração mais profunda de seus poderes poderia ser mortal. Antes de se retirarem, um mago irá explicar sobre a obrigatoriedade do sigilo e sobre as maneiras de proteger a si mesmos e suas famílias.
“Termina logo com isso”, Call pensou, mal prestando atenção às palavras de Mestre Rufus.
Os outros estudantes não paravam quietos nas arquibancadas, igualmente incomodados.
Jasper, sentado entre sua mãe oriental e o pai caucasiano, ambos ostentando cortes de cabelo sofisticados, tamborilava os dedos nos joelhos. Call olhou de relance para o pai, que encarava Rufus com uma expressão que ele jamais vira antes. Parecia até que ele queria passar por cima do mago com o reformado Rolls-Royce, mesmo que isso quebrasse a transmissão mais uma vez.
— Alguém tem alguma pergunta? — Rufus perguntou.
A sala ficou em silêncio.
— Está tudo bem — o pai sussurrou para Call, apesar de em nenhum momento o menino indicar que não estava tudo bem. O pai apertou Call com ainda mais força, os dedos chegavam a afundar em seu ombro. — Você não será escolhido.
— Muito bem! — Rufus declarou em voz alta. — Que comece o processo de seleção! — Ele deu um passo para trás até ficar diante dos quadros com as notas. — Aspirantes, enquanto chamamos seus nomes, por favor, levantem-se e reúnam-se com seu novo Mestre. Como o mago mais velho depois de Mestre North, que não irá selecionar nenhum aprendiz, começarei a seleção. — Os olhos dele examinaram novamente a multidão.
— Aaron Stewart.
Houve uma salva de palmas, embora a família de Tamara não tenha se unido ao coro. Ela se sentava inacreditavelmente imóvel, como se tivesse sido embalsamada. Seus pais pareciam furiosos. O pai se inclinou para a frente e sussurrou algo no ouvido da filha. Call a viu se encolher em resposta.
Talvez, no fim das contas, ela fosse mesmo humana.
Aaron se levantou. “Uma escolha realmente surpreendente”, Call pensou, sarcástico.
Aaron parecia o Capitão América, com seu cabelo loiro, corpo atlético e aquela atitude de sr. perfeito. Call queria jogar o livro do pai na cabeça de Aaron, apesar de ele ser legal. O Capitão América também era legal, mas isso não significava que ele quisesse ter de competir com ele.
E então, em um clique, Call percebeu que, apesar dos aplausos das pessoas nas arquibancadas, Aaron não tinha nenhum familiar sentado ao lado dele. Ninguém o abraçava nem lhe dava tapinhas nas costas. Ele devia ter vindo sozinho. Engolindo em seco, Aaron sorriu e então correu arquibancada abaixo para se juntar ao Mestre Rufus.
Rufus pigarreou.
— Tamara Rajavi — disse ele.
Tamara ficou de pé. Seu cabelo preto flutuava. Os pais dela aplaudiam educadamente, como se estivessem em uma ópera.
Tamara não parou para abraçar nenhum deles. Ela simplesmente caminhou controladamente e se pôs ao lado de Aaron, o qual lhe dirigiu um sorriso de felicitação.
Call imaginou se o fato de o Mestre Rufus ser o primeiro a escolher seus aprendizes e ter ido logo para o topo da lista de notas não havia deixado os outros magos irritados. Isso teria deixado Call louco da vida.
Os olhos escuros do Mestre Rufus voltaram a inspecionar a plateia. Call pôde sentir a quietude nas arquibancadas enquanto as pessoas esperavam que Rufus chamasse o próximo nome. Jasper já havia tirado metade do corpo do assento.
— E o meu último aprendiz é Callum Hunt — ele disse, e o mundo de Call desmoronou.
Ouviram-se mais alguns suspiros surpresos de outros aspirantes e murmúrios confusos da plateia enquanto eles conferiam os quadros brancos em busca do nome de Call e o encontravam bem lá no final, com uma nota negativa.
Call encarou o Mestre Rufus. Este, por sua vez, lhe devolveu o olhar com uma expressão totalmente vazia. Ao lado dele, Aaron lhe dirigia um sorriso de encorajamento enquanto Tamara fitava Call com uma expressão de total espanto.
— Eu disse Callum Hunt — o Mestre Rufus repetiu. — Callum Hunt, por favor, desça até aqui.
Call começou a se levantar, mas o pai o empurrou para que voltasse para o banco.
— Absolutamente não! — Alastair Hunt se levantou. — Isto já foi longe demais, Rufus. Você não pode ficar com ele.
O Mestre Rufus olhou para cima como se não houvesse mais ninguém na sala.
— Vamos lá, Alastair. Você conhece as regras tão bem quanto qualquer outro. Pare de fazer drama por causa de algo que é inevitável. O garoto precisa ser instruído.
Os Magos começaram a subir as arquibancadas de ambos os lados. O pai de Call o prendia, evitando que ele saísse do lugar. Os magos, em seus mantos negros, eram tão sinistros quanto o pai os descrevera. Pareciam prontos para a batalha. Assim que atingiram a fileira de bancos onde Call estava sentado, eles pararam, esperando que o pai desse o primeiro passo.
O pai de Call havia desistido da magia anos atrás. Ele estava completamente fora de forma. Não teria a menor chance. Os outros magos iriam transformá-lo em um pano de chão.
— Eu vou — Call disse ao se virar para o pai. — Não se preocupe. Não sei o que estou fazendo. Vou ser expulso. Eles não vão me querer por muito tempo e então voltarei para casa e tudo continuará o mesmo...
— Você não entende. — O pai puxou Call para perto dele e o envolveu com braços de águia. Todos na sala olhavam para eles, e não era para menos. O pai parecia estar fora de si, com os olhos arregalados e saltados. — Vamos, temos de correr.
— Eu não consigo — ele lembrou ao pai, porém o homem estava tão alterado que não lhe dava ouvidos.
O pai o puxou pelas arquibancadas, pulando de banco em banco. As pessoas abriam caminho para eles, esquivando-se para o lado ou se levantando. Os magos que estavam parados nos degraus correram atrás dos dois. Call cambaleava pelo caminho, concentrando-se para manter o equilíbrio enquanto desciam.
Assim que chegaram ao chão do hangar, Rufus se pôs diante do pai de Call.
— Já chega — disse o Mestre. — O garoto fica.
O pai de Call parou de forma abrupta. Ele colocou os braços nas costas de Call, o que era estranho. O pai nunca o abraçava, só que aquele mais parecia um agarramento em uma disputa de luta livre. A perna de Call doía graças à correria pelas arquibancadas. O menino tentou se virar para ver o rosto do pai, mas ele encarava o Mestre Rufus.
— Você já não matou membros suficientes da minha família? — o pai de Call inquiriu.
O Mestre Rufus baixou a voz para que a multidão nas arquibancadas não pudesse escutá-lo, apesar de Tamara e Aaron obviamente os ouvirem em alto e bom som.
— Você não ensinou nada a ele. Um mago sem treinamento é como uma rachadura na terra esperando ser rompida e aberta, e, se isso acontecer, ele irá matar não apenas muitas pessoas como também a si mesmo. Não venha me falar de morte.
— Tudo bem — disse o pai de Call. — Eu mesmo vou ensiná-lo. Vou levá-lo comigo e lhe darei aulas. Eu o prepararei para o Primeiro Portal.
— Você teve doze anos para ensiná-lo e não fez isso. Desculpe, Alastair. É assim que tem de ser.
— Olhe para as notas dele... Ele não deveria ser aprovado. Ele não quer ser aprovado! Não é, filho? Não é? — O pai começou a sacudir o menino enquanto falava. Call não conseguiria pronunciar nem uma única palavra, mesmo se quisesse.
— Solte-o, Alastair — disse o Mestre Rufus, com a voz profunda, marcada pela tristeza.
— Não — insistiu o pai de Call. — Ele é meu filho. Tenho os meus direitos. Eu devo decidir sobre o futuro dele.
— Não — discordou Mestre Rufus —, você não tem.
O pai de Call tentou correr, mas não foi rápido o suficiente. Call sentiu braços o agarrarem, enquanto dois outros magos o tiravam à força do abraço do pai. Alastair gritava e Call se retorcia e chutava, mas nada disso fazia a menor diferença à medida que ele era arrastado para onde Aaron e Tamara estavam. Ambos pareciam horrorizados. Call deu uma cotovelada com toda a força em um dos magos que o seguravam. Ele ouviu um grunhido de dor, e seu braço foi imobilizado nas costas. Ele se contorceu e imaginou o que todos aqueles pais sentados nas arquibancadas, que se reuniam ali para enviar seus filhos para a escola de aerodinâmica, achavam daquilo.
— Call! — O pai era contido por dois outros magos. — Call, não ouça nada que eles disserem! Eles não sabem o que estão fazendo! Eles não sabem nada sobre você! — Eles arrastavam Alastair em direção à saída.
Call não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.
De repente, algo cintilou no ar. Ele não vira nenhum dos braços do pai se livrar das garras dos magos, mas, de alguma maneira, ele deve ter conseguido fazer isso. Uma adaga voou em sua direção. A arma planava em linha reta e certeira, mais depressa do que qualquer outra adaga poderia ser lançada.
Call não conseguia tirar os olhos dela enquanto ela rodopiava com a lâmina apontada para ele.
Ele sabia que tinha de fazer alguma coisa.
Ele sabia que precisava desviar-se da adaga.
Mas, de alguma forma, não conseguia fazer nada.
Ele sentia como se estivesse preso ao chão.
A lâmina parou a alguns centímetros de Call. Aaron pegou a adaga com tanta facilidade como se colhesse uma maçã no galho mais baixo de uma árvore.
Todos ficaram imóveis por um momento, observando a cena. O pai de Call havia sido levado para as portas mais distantes do hangar por dois magos. Ele havia ido embora.
— Aqui — disse uma voz em um dos ombros de Call. Era Aaron, que segurava a adaga.
A arma não era parecida com nada que Call houvesse visto antes. Era prateada com um brilho que formava espirais e girava ao redor do metal. A empunhadura tinha o formato de um pássaro com as asas abertas.
A palavra Semíramis estava entalhada ao longo da lâmina em uma caligrafia ornamentada.
— Acho que isto é seu, não é? — Aaron perguntou.
— Obrigado. — Call pegou a adaga.
— Aquilo era o seu pai? — Tamara disse entredentes, sem virar o rosto na direção de Call. A voz dela estava repleta de frieza e desaprovação.
Alguns magos olhavam para Call como se pensassem que ele era louco ou como se por fim compreendessem por que era daquele jeito. Ele se sentiu melhor com a adaga nas mãos, mesmo que, até aquele momento, só houvesse usado facas para espalhar manteiga de amendoim no pão ou para cortar bifes.
— É — Call respondeu. — Ele quer que eu fique em segurança.
O Mestre Rufus assentiu para a Mestra Milagros e ela deu um passo à frente.
— Nós nos desculpamos profundamente por essa interrupção. Apreciaríamos se todos permanecessem em seus lugares. Por favor, fiquem calmos — ela pediu. — Esperamos que a cerimônia prossiga sem mais atrasos. Agora, selecionarei meus aprendizes.
A multidão ficou mais uma vez em silêncio.
— Escolherei cinco aprendizes — informou a Mestra Milagros. — O primeiro será Jasper deWinter. Jasper, por favor, desça até aqui e fique ao meu lado.
Jasper se levantou e foi até seu lugar ao lado da Mestra Milagros com um único olhar de ódio lançado na direção de Call.

11 comentários:

  1. Karina eu acho que tem uma parte faltando :

    As chamas subiram enquanto ele olhava ao redor da sala, se alimentando da água que espirrava como se fosse gasolina. Tudo o que

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. a continuação tá embaixo, assim:
      Tudo o que
      Call sentia..

      Excluir
  2. Pai legalzin quem n qurr 1 desses?

    ResponderExcluir
  3. Jurava que quem iria pegar a adaga ia ser o Call, todo fodão. Mas não. Foi o Aaron. Meio decepcionante mas ao mesmo tempo gostei (?).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E eu achava q ia ser o Rufus cm um olhar d raiva e incredulidade bm sinistroso do tipo "Queria lançar fogo em vc por fzr isso cm seu filho, mas não vou pq sei q vc tá devastado"
      ~Leh

      Excluir
  4. É impressão minha ou o pai de Call tentou mata-lo com a adaga?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Com certeza! Não sei como Call consegue ignorar esse fato

      Excluir
  5. 1- QUE TIPO DE PAI É ESSE
    2- Foi engraçada a parte da folha hauehauehe
    3- Jasper me lembra um pouco o Draco...

    ResponderExcluir
  6. Acho q o call e poderoso pq ele conseguiu fazer todos os testes errados mas ainda assim com muito poder.
    Mas acho q call não é o call por isso a mãe dele disse pra mata-lo apesar do pai não ter conseguido na época q ele era bebê (acho q ele tinha esperança) sendo q ele tentou agora com a adaga dá mãe de call vendo q não tinha nenhuma solução pra isso
    Ass: Milly *-*
    Será q o subconsciente de call sabia disso tudo e não fez nada quando a adaga estava vindo em sua direção?(apesar de aeron ter enpedido)

    ResponderExcluir
  7. Sim o pai do Call tentou matar ele apesar de que a mãe do Call pediu pro marido mata-lo quando ele era criança

    ResponderExcluir
  8. Ele tentou matar o filho?
    Como assim?

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)