25 de janeiro de 2017

Capítulo sete


— Vocês foram sem mim? — perguntou Jasper, espetando a sobremesa cinza com o garfo.
Era o turno da tarde. Call, Tamara e Aaron dormiram e perderam o café da manhã após a aventura nos túneis na noite anterior. Call sentiu dor e tontura durante a aula e tinha quase jogado uma bola de fogo na cabeça de Tamara e queimado os próprios dedos. Tinha se esquecido de passear com Devastação até a metade da aula e teve que limpar a bagunça que resultou disso. Voltar à escola não estava sendo tão fácil quanto ele tinha imaginado.
— Foi coisa de momento — disse Call em tom conciliatório. Então se lembrou de com quem estava falando. — Quer dizer, não que eu fosse optar por levar você a qualquer lugar que fosse, mas, neste caso, deixar você de lado foi apenas um efeito colateral benéfico.
— Ei — disse Jasper. — Estou tentando salvar sua vida!
— Não ligue para ele — interrompeu Aaron. — Ele fica irritadiço quando está cansado.
— Então, o que Anastasia fez com você? — perguntou Jasper. — Meu pai sempre disse que ela é uma espécie de rainha de gelo com o coração de pedra.
— Ela foi muito gentil com Call — disse Tamara. — Foi estranho. Ela não me deu a menor bola e mal olhou para Aaron. Foi só Call, Call, Call.
— Acho que sou o Makar-novidade e você o Makar-não-tão-novidade-assim — desse Call a Aaron. — Eu faço esse uniforme azul parecer lindo.
Tamara riu. Aaron suspirou, resignado.
— Uau — disse Jasper, olhando para Call com olhos arregalados. — Você não me disse que ele delirava quando estava cansado.
Call tomou um grande gole da substância marrom que parecia chá em sua caneca de madeira. Torceu desesperadamente para que tivesse cafeína. Ao longo das férias ele pôde tomar quantos cafés ele quis — Alastair tinha consertado uma máquina antiga que chiava feito um trem —, mas agora, quando ele realmente precisava, não havia café em lugar nenhum.
Ele estava cansado. Cansado de ser vigiado pelos amigos, mesmo que eles só quisessem mantê-lo em segurança. Cansado de ter essa coisa horrível a seu respeito — algo que não podia controlar — pairando sobre si o tempo todo. Ele queria frequentar a escola como uma pessoa normal e, naquele momento, estava disposto a tudo para fazer isso acontecer.
— Certo — disse ele. — Vamos seguir esse seu plano idiota.
— Quê? — perguntou Jasper, franzindo a testa para ele. — Que plano idiota?
Call fez uma breve careta, subiu na cadeira, e da cadeira para a mesa. Por pouco seu pé não aterrissou bem na sobremesa cinza de Jasper. Call examinou o recinto.
— Ah, não — disse Aaron. — Acho que você estava certo sobre ele estar delirando de cansaço.
Vários alunos riam e conversavam uns com os outros. Magos comiam líquen. Até que Rafe viu Call em cima da mesa. Ele soltou um gritinho e cutucou Gwenda, que estava ao seu lado. Um murmúrio percorreu o recinto e logo todos estavam olhando para Call, apontando e sussurrando.
— Call! — Tamara sibilou em um sussurro. — Desce daí!
Call não estava nem aí.
— ADIVINHEM SÓ — gritou ele, a voz alta o suficiente para alcançar todo o refeitório. — ESTAREI NA BIBLIOTECA HOJE À MEIA-NOITE. SOZINHO.
Voltou a sentar. Tamara, Aaron e Jasper olharam para ele. Outros aprendizes olhavam para a mesa deles. Gwenda sussurrou alguma coisa ao ouvido de Célia e as duas começaram a rir. Alex Strike estava com uma expressão estranha e preocupada no rosto. Mestra Milagros olhava para Call como se alguém tivesse deixado ele cair de cabeça quando era pequeno.
— Isso... Isso... O que foi isso? — perguntou Tamara. — Você ficou maluco?
— Ele estava se transformando em isca — disse Aaron, olhando para Call com uma expressão séria. — Espero que tenha sido uma boa ideia. A desvantagem de avisar a todos que você estará sozinho para que possam atacá-lo é que todos saberão que estará sozinho para ser atacado.
— Pfff — disse Tamara. — Ninguém vai ser burro o suficiente para ir atrás dele por causa dessa declaração pública. Qualquer um seria pego imediatamente.
Call deu de ombros deu uma boa mordida no líquen. Sentia-se estranhamente melhor. As coisas estavam de volta aos devidos lugares — seus amigos o achavam louco, e ele estava prestes a fazer uma tolice. Um sorriso se formou no canto de sua boca.
— Alguém tem que sedar esse cara depressa — disse Jasper. — Sabe-se lá o que ele vai fazer em seguida.
Mas, ou o líquido marrom de Call tinha cafeína ou ter algo a fazer ajudou, porque estava cheio de energia correndo nas veias. Não estava mais cansado. Estava pronto.


Call meio que esperava encontrar um grupo de curiosos quando chegou à biblioteca naquela noite, mas o lugar estava vazio. Tamara, Aaron e Jasper fizeram uma varredura, olhando atrás de prateleiras, enquanto Devastação farejava embaixo das mesas. Estava definitivamente deserto.
Call se sentou à uma das mesas, iluminada por uma enorme estalactite que tinha atravessado o centro do tampo de madeira, prendendo a mesa ao chão. Luz girava e brilhava dentro da estalactite.
— Certo — disse Tamara, voltando do andar superior da biblioteca em espiral. — Você está por conta própria.
Aaron colocou a mão no ombro de Call.
— Não se esqueça, Call — disse ele. — Se precisar fazer alguma magia do caos, não tente fazer sozinho. Eu sou seu contrapeso. Estarei ali fora com os outros. Puxa de mim, da minha energia do caos, como puxaria o ar se estivesse embaixo d’água.
Call assentiu quando Aaron o soltou e agarrou o pelo de Devastação. Seus olhos verde-escuros estavam preocupados.
-— Tente não fazer nenhuma idiotice — disse Jasper. No quesito manifestações de apoio, essa não era uma das piores de Jasper. — Aqui, tente fingir que está lendo alguma coisa em vez de ficar aqui sozinho feito um maluco. — Ele colocou uma porção de livros sobre a mesa na frente de Call e virou para sair.
Call observou enquanto seus amigos saíam do recinto. Um instante depois ele estava sozinho na biblioteca. Puxa de mim, Aaron tinha dito. Mas a verdade era que Call ainda tinha medo de usar Aaron como contrapeso. Foi isso o que transformou Constantine no Inimigo da Morte. Todos os magos do caos tinham que ter um contrapeso que fosse um ser humano, uma alma viva que os ancorasse ao mundo real e os impedisse de cair no caos. O de Constantine era seu irmão gêmeo, Jericho. Até que um dia sua mágica saiu do controle. Ele foi dominado e puxou a magia do irmão para tentar se ancorar, mas foi em vão. Tudo que conseguiu foi destruir Jericho.
Call não conseguia imaginar como seria isso, matar acidentalmente alguém que amava. Mas eu deveria saber como é, pensou. Afinal de contas, isso tinha acontecido com uma alma que agora o habitava e certamente esse tipo de coisa devia deixar marcas. Mas Call não sentia nada quando pensava no assunto, só se preocupava com a possibilidade de cometer o mesmo erro.
Talvez isso fosse prova do que havia de errado com ele. Ele deveria estar com pena de Jericho, que tinha morrido. Mas tinha pena de Constantine.
— Call?
Ele quase saltou para fora do corpo. Ao virar, viu que alguém tinha entrado na biblioteca. Uma loura vestindo jeans e camiseta e com o cabelo preso em dois rabos. Estava com as mãos enfiadas de um jeito meio esquisito nos bolsos traseiros da calça.
— Call? — disse Célia novamente. Ela deu mais um passo, mais para perto dele. Estava vermelha de vergonha, o que imediatamente fez Call enrubescer também, como se fosse algo contagioso como catapora. — Você disse que ia ficar sozinho aqui, então pensei...
— Hum?
No que Célia tinha pensado? Que talvez Call tivesse ficado maluco e precisasse ler levado para a enfermaria?
— Achei que talvez quisesse falar comigo — disse ela, se empoleirando em uma mesa em frente a ele. — É difícil conversar a sós em qualquer lugar... O refeitório vive cheio, a Galeria também, e não tenho visto você passeando com Devastação ultimamente...
Era verdade. No último ano, durante uma época, Call e Célia passeavam toda noite com Devastação. Mas agora ele não podia mais sair sozinho com o lobo. Tamara e Jasper alternavam-se para acompanhar Call nesses passeios.
— É, eu ando... — A voz de Call falhou. Ele ficou imaginando se seria possível ter uma conversa inteira com frases interrompidas. Se sim, ele e Célia estavam prestes dar um exemplo marcante.
— Onde arrumou? — perguntou Célia, rindo de repente.
Call olhou para baixo e percebeu que ela apontava para os livros sobre a mesa.
Elementos de Fogo e Feitiços, uma Cartilha.
A Alquimia do Amor.
Magia da Água e Feitiços de Compromisso: Como Fazê-la Dizer Sim.
Ele ia matar Jasper.
— Eu... bem, eu estava só... é para um trabalho — disse Call.
Célia apoiou os cotovelos nos joelhos e olhou para ele, pensativa.
— Se quer me chamar para sair, Call, é só falar — disse ela. — Estamos no terceiro ano agora, e gosto de você desde o Ano de Ferro.
— Jura? — Call estava impressionado.
Ela sorriu com hesitação.
— Você não sabia? Todas aquelas vezes em que levamos Devastação para passear. E o beijo. Achei que você soubesse, mas a Gwenda me disse que eu devia te contar, então aqui estou.
— Ela falou que você devia me contar? — Call se sentiu muito burro por repetir o que Célia dizia, mas sua cabeça tinha ficado completamente vazia. Será que ele tinha que agradecê-la, como se gostar dele fosse um elogio? Não parecia certo. Ele provavelmente deveria dizer que gostava dela também, e ele realmente gostava, mas contar a ela significaria o quê? Que iriam namorar? Teriam que se beijar? Significaria que não poderiam mais passear com Devastação juntos e se divertir?
Quando Call abriu a boca para dizer alguma coisa — apesar de não saber ao certo o que — Tamara e Jasper vieram subiram a escada correndo. Aaron e Devastação vieram do alto. O lobo Dominado pelo Caos começou a latir. Aaron parecia pronto para briga.
— Pare aí mesmo! — gritou Jasper.
Fogo acendeu na palma de Tamara.
Célia girou, com olhos arregalados.
A chama se apagou subitamente. Tamara fechou as duas mãos atrás das costas.
— Ah, oi — disse ela com uma risada constrangida e ligeiramente histérica. — Estávamos só...
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Aaron. Um pouco da luz da luta ainda brilhava em seus olhos e ele não soava gentil como sempre. Devem ter ficado muito surpresos quando viram que Call não estava sozinho; surpresos e assustados.
— Call estava prestes a me chamar para sair — disse Célia, confusa e claramente chateada. — Ou ao menos eu achei que estivesse. O que todos vocês estão fazendo aqui? Por que está todo mundo gritando?
Por um longo instante todos ficaram quietos. Call não fazia ideia de como explicar isso para ela. Talvez eu devesse simplesmente falar a verdade, pensou. Ao menos parcialmente. Ele não precisava falar sobre a questão do Capitão Cara de Peixe. Mas Call logo percebeu que nada faria sentido se não mencionasse o Capitão Cara de Peixe. Mesmo assim, ele precisava falar alguma coisa. Célia ainda era sua amiga.
— A questão é que tem alguém tentando... — Call começou, seu corpo inteiro ficando vermelho e quente de vergonha. Ele tinha certeza de que ia falar alguma coisa idiota e que Tamara começaria a rir da cara dele. Ele tinha certeza de que Célia não ia entender.
— Eu vim para te convidar para sair comigo — disse Jasper subitamente em voz alta, interrompendo a explicação de Call. — Por isso eu disse “pare aí mesmo”. Porque, hum, eu queria impedir que ele te convidasse para sair antes que eu tivesse chance. Não saia com ele! Saia comigo.
As sobrancelhas de Aaron se ergueram. Tamara emitiu um ruído engasgado. Call não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
Célia olhou surpresa para Jasper.
— Você gosta de mim?
— Gosto! — disse ele, um pouco afobado. — Definitivamente gosto de você.
Call lembrou que quando Jasper perguntou se ele gostava de Célia, quando disse que talvez quisesse convidá-la para sair. Ele queria mesmo? Ou só estava tentando despistá-la do que realmente estava acontecendo? Ou será que estava tentando irritar Call? A última hipótese parecia a mais provável.
Ansiosa, Célia desviou o olhar para Call, como se ele devesse falar ou fazer alguma coisa. Ele retribuiu o olhar com total espanto.
Finalmente, ela suspirou e virou para Jasper.
— Eu adoraria sair com você.


— Bem, acho que todos podemos concordar que isso foi uma roubada total — disse Aaron enquanto voltavam para os quartos.
— Não para Jasper — disse Tamara, que, para irritação de Call, parecia achar tudo aquilo um pouco engraçado. Muito engraçado, na verdade. Ela quase explodiu tentando segurar o riso depois que Célia concordou sair com Jasper. Call não sabia quem parecia mais confuso, ele ou Jasper. No entanto, Jasper logo se recuperou e começou a falar a Célia sobre como iriam se divertir na Galeria.
Àquela altura, Call já tinha desistido. Saiu da biblioteca. Aaron, Tamara e Devastação foram atrás. Tamara dançava com Devastação, fazendo-o pular para colocar as patas em seus ombros.
— Este vai ser o melhor encontro do mundo — disse ela. — Jasper não sabe nada sobre meninas. Provavelmente ele vai dar um buquê de peixes cegos pra ela.
— Não vai ser o melhor encontro do mundo! — Call se irritou. — Jasper está fazendo isso só para me irritar. Provavelmente ele vai ser péssimo com ela. Vai acabar magoando Célia e vai ser tudo minha culpa.
— Ah, Call, pelo amor de Deus. — Tamara bufou. — Ele não vai ser péssimo com Célia. Nem tudo gira ao seu redor.
— Isso gira — disse Call.
— Talvez não. — Havia um tom determinado na voz de Tamara. — Talvez ele goste dela.
— Acho que vocês dois estão perdendo o foco aqui — disse Aaron ao dobrarem uma esquina no ponto em que o corredor ficava mais estreito. — E se Célia for a assassina?
— Quê? — perguntou Call.
— Bem, ela foi até lá quando soube que você ia estar sozinho na biblioteca — Aaron observou.
— Para ver se eu ia chamá-la para sair — disse Call.
— Essa é a história que ela contou. Aposto que ela blefou quando percebeu alguma coisa errada ao chegar.
— Por que Célia iria querer matar Call? — perguntou Tamara. Eles tinham chegado ao corredor dos quartos, e ela usou a pulseira para abrir a porta. Entraram na sala compartilhada, que estava na penumbra. Devastação rapidamente saltou no sofá e se espreguiçou com vontade, pronto para dormir.
— É — disse Call. — Por que ela iria querer me matar?
— Pode ser que ela esteja à serviço de alguma organização — respondeu Aaron, teimoso. — Gente, Drew tinha uma história totalmente falsa. Ele não era quem dizia ser. Além disso, o Mestre Rufus disse que há um espião entre nós. Pode ser ela.
Call balançou a cabeça, retirando Miri do cinto e colocando a faca sobre a mesa da cozinha.
— Célia vem de uma família tradicional de magos. Ela é quem diz ser.
— Como você sabe? — insistiu Aaron. — Só porque ela contou sobre alguma tia não quer dizer que isso seja verdade. Ou talvez toda a família dela apoie o Inimigo. Lembra que você achou que o bilhete era dela? E se fosse mesmo? Seria uma explicação mais simples do que qualquer outra. Além do mais, se dá para perceber que ela é uma espiã, não é das melhores, né?
— Você pode acusar Devastação de ser espião também, que tal? — disse Call.
Todos olharam para Devastação, que dormia com a língua pendurada até o chão. As patas balançavam como se ele estivesse indo atrás de um pato imaginário.
— Não estou dizendo que a gente deva arrastar Célia e colocá-la na frente da Assembleia imediatamente — disse Aaron. — Só acho que devemos ficar de olho. Aliás, temos que ficar de olho em qualquer pessoa se comportando de maneira esquisita.
— Querer que Call a convide para sair não é esquisito — disse Tamara, esfregando o estômago de Devastação. — Bem, talvez seja um pouco, mas não é ilegal.
— Obrigado — disse Call. — Obrigado pelo apoio. — Call pegou Miri e foi para o quarto. Quando estava quase entrando, virou para Aaron. — Estou indo dormir.
— Eu também. — Aaron cruzou os braços sobre o peito. — Vou dormir no chão do lado de fora do seu quarto. Para o caso de alguma coisa tentar atacar você durante a noite.
Call ficou arrasado.
— Precisa mesmo?
Em resposta, Aaron deitou exatamente onde disse que deitaria, cruzou os braços sobre o peito e fechou os olhos. Devastação deitou ao lado dele.
Traidor, Call pensou. Com um suspiro, entrou no quarto e fechou bem a porta.
O cômodo estava iluminado por uma luz fosforescente fraca. Call tirou as botas e sentou na cama. A perna doía. Sentia-se cansado, desanimado e mais irritado com a questão Célia/Jasper do que imaginava. Viu seu reflexo no espelho do armário. Parecia cansado. O quarto estava cheio de sombras.
Call congelou.
Uma delas se moveu.

4 comentários:

  1. Em resposta, Aaron deitou exatamente onde disse que deitaria, cruzou os braços sobre o peito e fechou os olhos. Devastação deitou ao lado dele.
    Traidor, Call pensou. Com um suspiro, entrou no quarto e fechou bem a porta.






    Look son, a traitor

    ResponderExcluir
  2. Elementos de Fogo e Feitiços, uma Cartilha.
    A Alquimia do Amor.
    Magia da Água e Feitiços de Compromisso: Como Fazê-la Dizer Sim.
    Ele ia matar Jasper.😂😂😂😂 morri nessa parte😂😂

    ResponderExcluir
  3. 😂😂😂😂😂😂😂 ri mto com os livros do Jasper...

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)