20 de janeiro de 2017

Capítulo sete


Conforme o tempo esfriava, Call começou a usar moletons e casacos nos passeios com Devastação, que nunca havia vivenciado o outono de fato e estava se divertindo muito, se escondendo em pilhas de folhas, deixando só as patas de fora.
— Ele acha que não conseguimos vê-lo? — perguntou Célia, curiosa, certa noite, depois que Devastação pulou na lateral de uma colina e caiu em uma pilha enorme de folhas. Só o rabo era visível, saindo da ponta do monte.
— Só estou vendo o rabo — disse Call. — Ele está indo muito bem, na verdade.
Célia riu. Apesar de no início Call estranhar o fato de Célia rir de tudo, estava começando a achar bem legal a mania da amiga. Ela vestia um casaco vermelho peludo e estava com as bochechas coradas e bonitas.
— Então, como seu pai reagiu quando você levou Devastação para casa? — perguntou ela, pegando do chão um punhado de folhas amarelas, douradas e vermelhas.
Call escolheu cuidadosamente as palavras.
— Não muito bem. Quero dizer, moramos em uma cidade pequena. Seria complicado manter qualquer animal de estimação em segredo, e, apesar de ninguém saber o que é um Dominado pelo Caos, todo mundo sabe o que é um lobo grande.
— É. — Célia arregalou os olhos, solidária. — Ele deve ter ficado com medo de alguém machucar Devastação.
Célia era tão gentil, pensou Call. Nunca ocorreu a ela que o próprio Alastair pudesse machucar Devastação. O que era impressionante, considerando que a única vez em que ela viu Alastair, no dia do Desafio de Ferro, ele estava com os olhos arregalados e empunhava uma faca. Por reflexo, Call tocou o cabo de Miri, que escapava do bolso interior do casaco.
— Essa era a faca de sua mãe, não é? — perguntou Célia, tímida.
— É. Ela a fez quando era aluna do Magisterium. — Ele engoliu em seco. Tentava não pensar muito na mãe, em se ela o amaria independentemente das impressões digitais de sua alma.
— Sei que ela morreu no Massacre Gelado — disse Célia. — Sinto muito.
Call limpou a garganta.
— Tudo bem. Foi há muito tempo. Eu nunca a conheci, na verdade.
— Também não conheci minha tia — confessou ela. — Eu era bebê quando ela morreu no Massacre Gelado. Mas se eu tivesse a chance de me vingar um dia, eu...
Ela se interrompeu, parecendo envergonhada. Devastação havia se libertado das folhas e trotava pela colina, com gravetos presos em sua pelagem.
— Você o quê? — perguntou Call.
— Eu mataria o Inimigo da Morte com minhas próprias mãos — declarou, decidida. — Eu o odeio tanto.
Call sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Célia olhava para as folhas em sua mão, deixando-as cair como confete. Ele conseguia perceber que os lábios dela tremiam, que ela estava a um segundo de chorar. Outra pessoa, um amigo melhor, teria dado um passo à frente e posto um braço em volta da garota, talvez lhe afagado os ombros. Mas Call ficou paralisado. Como poderia confortar Célia por algo que ele mesmo tinha feito?
Se descobrisse a verdade, ela o detestaria.


Naquela noite, Call teve um sonho. Ele estava andando de skate por sua cidade com Devastação, que tinha o próprio skate verde e dourado, com rodas dentadas. Ambos estavam de óculos escuros, e, sempre que passavam por alguém na rua, essa pessoa começava a aplaudir espontaneamente e jogava punhados de balas para eles, como se estivessem em um desfile de dia das bruxas.
— Oi, Call — disse Mestre Joseph, aparecendo subitamente no meio da rua.
Call tentou passar direto por ele quando tudo ficou branco, como se estivessem em uma folha de papel. Devastação tinha sumido.
Mestre Joseph sorriu para Call. Ele usava as longas vestes da Assembleia e estava com as mãos entrelaçadas atrás das costas.
Call começou a recuar.
— Saia de meu sonho. — Ele olhou ao redor, descontrolado, em busca de alguma coisa, qualquer coisa que pudesse usar como arma. — Saia de minha cabeça!
— Temo que não possa fazer isso. — Havia uma mancha escura na frente das vestes de Mestre Joseph. Parecia água suja. Call se lembrou dele segurando o corpo sem vida de seu filho, Drew, como a água tinha caído sobre Mestre Joseph e como ele chorara com soluços horrorosos.
Depois, ele se levantou e chamou Call de “Mestre”. Disse que não tinha problema Drew estar morto, porque Call era Constantine Madden, e, se Constantine Madden queria Drew morto, então devia ter bons motivos para isso.
— Isso não é real — insistiu Call, apontando para a própria perna, que não estava cheia de cicatrizes nem fina, e não doía nada. — O que significa que você não é real.
— Ah, mas sou. — Mestre Joseph estalou os dedos, e a neve começou a cair, cobrindo os cabelos de Call e se prendendo em seus cílios. — Tão real quanto isso. Tão real e terrível quanto a escolha que Alastair Hunt precisa fazer.
— O quê? Que escolha? — perguntou Call, sugado para a discussão apesar de tudo.
Mestre Joseph prosseguiu, como se Call não tivesse falado nada.
— Por que você continua no Magisterium, onde só vão desprezá-lo? Você pode ficar com o homem que o criou e comigo, seu amigo leal. Pode ficar seguro. Podemos começar a reconstruir seu império. Se você concordasse, eu poderia levá-lo hoje.
— Não — respondeu Call. — Jamais irei com você.
— Ah, vai sim. Talvez não agora, mas um dia você irá. Eu o conheço, entende, muito melhor do que você mesmo se conhece.
Quando Call acordou, ainda sentia a ferroada fria da neve em seu rosto e estremeceu. Colocou a mão na bochecha. A mão voltou molhada. Ele tentou dizer a si mesmo que havia sido só um sonho, mas sonhos não derretiam em sua pele.


Na aula seguinte, Call levantou a mão antes que Mestre Rufus começasse a falar. As sobrancelhas do professor se ergueram. Tamara pareceu surpresa, e Aaron estava ocupado demais procurando alguma coisa na mochila para prestar atenção.
— Não precisa fazer isso — retrucou Mestre Rufus. — São só vocês três aqui.
— É um hábito. — Call balançou um pouco os dedos, um truque que todos que queriam uma autorização para ir ao banheiro conheciam bem.
Mestre Rufus suspirou.
— Tudo bem, então, Call. O que você quer?
Ele abaixou a mão.
— Quero saber como impedir que as pessoas nos encontrem.
Mestre Rufus passou a mão no rosto, como se tivesse ficado um pouco desconcertado pela pergunta.
— Não sei se entendi o que quer, ou por que precisa saber disso. Tem alguma coisa que queira me contar?
Tamara olhou com aprovação para Call.
— É uma coisa inteligente. Se soubéssemos nos esconder melhor, Aaron estaria mais seguro.
Call podia não ser esperto o suficiente para pensar naquilo, mas era esperto o bastante para ficar calado.
Aaron finalmente levantou o olhar ao ouvir o próprio nome, piscando algumas vezes, como se estivesse tentando entender do que estavam falando.
— O elemento ar é o que nos permite comunicação a grandes distâncias — explicou Mestre Rufus — Então é o elemento da terra que bloqueia essas comunicações. Você pode enfeitiçar uma pedra para proteger a pessoa que a veste, ou a carrega consigo. Agora me diga por que escolhemos construir a escola onde a construímos.
— Para que a localização embaixo da pedra protegesse a escola de ser encontrada? — arriscou Aaron. — Mas e aquele telefone de tornado que você deixa Call usar?
E meu sonho?, pensou Call, mas manteve-se em silêncio.
Mestre Rufus meneou a cabeça.
— Sim, a terra ao redor do Magisterium é enfeitiçada. Existem áreas de acesso onde podemos estabelecer contato com o mundo exterior. Talvez devêssemos fazer para nosso Makar uma pedra especificamente enfeitiçada contra vidência. Juntem-se que eu lhes mostro como fazê-lo. Mas, Call e Tamara, se eu descobrir que estão utilizando essa pedra para escapar por aí ou esconder alguma coisa, estarão mais encrencados do que podem imaginar. Vou trancá-los no subterrâneo como um daqueles elementais sobre os quais conversamos.
— E Aaron? Por que ele não foi incluído no sermão? — Tamara franziu o cenho.
Mestre Rufus olhou na direção de Aaron e em seguida voltou-se novamente para Tamara e Call.
— Porque individualmente você e Call podem causar problemas, mas juntos são ainda piores.
Aaron riu. Call tentou não olhar na direção de Tamara. Temeu que, se o fizesse, fosse descobrir que ela estava chateada por Mestre Rufus pensar que ela se parecia com Call em alguma coisa.


O dia em que tudo começou a se desenrolar para Call não foi tão diferente de muitos outros dias. Ele estava lá fora com o grupo de Mestra Milagros — Jasper, Nigel, Célia e Gwenda. Treinavam jogar raios de fogo uns contra os outros. A manga de Call já estava queimada, e, com sua perna, ele precisava fazer muitos desvios a fim de evitar queimaduras. Aaron, que Call de repente percebeu ser um traidor malvado e corrupto, fugia do caminho na metade das vezes, em vez de usar magia.
Por fim, Call sentou em um tronco, arfando. Jasper olhou para ele como se estivesse considerando atear fogo no assento, mas pareceu desistir da ideia quando Tamara jogou uma explosão de calor em sua direção.
— O mais importante — disse Mestre Rufus, sentando ao lado de Call — é sempre controlar as circunstâncias. As outras pessoas vão reagir a elas, mas, se você controlá-las, terá vantagem.
Isso soava perturbadoramente parecido com o que Alastair havia lhe dito no último verão. A maneira mais segura de impedir que os vizinhos façam escândalo é controlar as circunstâncias sob as quais Devastação é visto. Era fácil pensar que o treinamento de Alastair no Magisterium não o tinha afetado em nada, mas Mestre Rufus também foi seu professor.
— O que isso quer dizer? — perguntou Call.
Mestre Rufus suspirou.
— Se você não consegue pular como os outros, leve-os por um caminho em que tenham a mesma desvantagem. Para uma árvore. Um rio. Ou, melhor ainda, leve-os a um território em que você terá a vantagem. Crie sua própria vantagem.
— Não existe território no qual eu tenha vantagem — murmurou Call.
Entretanto, passou o dia todo pensando no que o Mestre Rufus dissera, enquanto comia batatas roxas no Refeitório, enquanto andava com Devastação e, depois, enquanto olhava para o teto desigual de pedra em seu quarto à noite.
Ficou pensando no pai controlando as circunstâncias e procurando um território no qual tivesse vantagem. Ficou pensando nas correntes na casa do pai e no desenho do Alkahest em sua escrivaninha. Só conseguia chegar à mesma conclusão.
Tinha quase certeza de que havia sido seu pai quem tentara roubar o Alkahest, mas aquilo também significava que havia sido seu pai quem fracassara naquela missão. Mas... e se o fracasso tivesse sido proposital?
E se Alastair tivesse fracassado, sabendo que os magos levariam o Aikahest para fora da escola, para um local mais seguro? E se ele já soubesse qual seria o provável local seguro que usariam — um território onde ele tinha a vantagem?
Em casa, ao lado dos desenhos do Alkahest, havia um mapa com o hangar onde foi realizado o Desafio de Ferro.
Call até então imaginava de onde Alastair tirara aquilo. Os pais de Tamara disseram que Alastair era um grande mago do metal, e Mestre Rufus havia garantido que o Alkahest estava seguro, em um cofre criado por magos do metal, embaixo de um local onde as crianças já estiveram. O hangar era feito quase todo de metal. Talvez Alastair — sendo um grande mago do metal — tivesse sido uma das pessoas que ajudara a construir o cofre, umas das pessoas que sabia exatamente como entrar no Hangar e abri-lo.
Se tudo aquilo fosse verdade, então Alastair não tinha falhado na tentativa de roubo. Se tudo aquilo fosse verdade, o Alkahest estava mais vulnerável que nunca.
Call ficou deitado sem dormir por um bom tempo naquela noite, olhando a escuridão.


Call passou quase todo o dia seguinte em um torpor. Não conseguiu prestar atenção na aula quando Mestre Rufus tentava ensiná-los a levitar objetos usando magia da terra e do metal, e derrubou uma vela acesa na cabeça de Tamara.
Esqueceu de passear com Devastação, o que resultou em desagrados para o tapete de seu quarto. No Refeitório, distraiu-se com um aceno de Célia e quase esbarrou em Aaron.
Aaron tropeçou, segurando-se na beirada de uma das mesas de pedra, na qual havia enormes caldeirões de sopa.
— Tudo bem — disse ele com firmeza, tirando das mãos de Call seu prato de sopa. — Chega.
Fervorosamente, Tamara fez que sim com a cabeça.
— Já passou dos limites.
— O que foi? — Call estava alarmado; Aaron tinha ficado muito sério, empilhando comida rapidamente no prato de Call. Montanhas de comida. — O que está acontecendo?
— Você está muito estranho — respondeu Tamara, que também estava com um prato cheio. — Vamos voltar ao quarto para conversar sobre isso.
— O quê? Eu não... eu não... — Mas Call foi levado pela determinação dos amigos, como uma mariposa em uma ventania. Carregando pratos, Tamara e Aaron o levaram para fora do Refeitório pelos corredores, até o quarto, e o empurraram para dentro, ainda sob protestos.
Pousaram os pratos sobre a mesa e foram pegar talheres. Segundos depois, estavam reunidos em volta da comida, espetando pizza de líquen com o garfo e comendo purê de batatas.
Hesitante, Call pegou o garfo.
— Como assim, estou estranho?
— Distraído — explicou Tamara. — Não para de derrubar e de esquecer coisas. Você chamou Mestre Rufus de Jasper, e Jasper de Célia. E se esqueceu de passear com Devastação.
Devastação latiu. Call o olhou sombriamente.
— Além disso, fica olhando para o nada, como se alguém tivesse morrido. — Aaron entregou um garfo a Call. — O que está acontecendo? E não diga que não é nada.
Call olhou para eles. Seus amigos. Estava tão cansado de mentir. Não queria ser como Constantine Madden. Queria ser uma boa pessoa. A ideia de contar a verdade era horrível, mas ser bom não era para ser uma coisa divertida, era?
— Prometem que não vão contar a ninguém? — perguntou Call aos dois. — Prometem e juram pela... pela honra de magos?
Call se sentiu um tanto orgulhoso daquilo, considerando que tinha acabado de inventar. Tanto Call quanto Tamara pareceram impressionados.
— Com certeza — respondeu Tamara.
— Definitivamente! — Aaron fez coro.
— Acho que foi meu pai quem tentou roubar o Alkahest — confessou Call.
Aaron derrubou o prato de líquen na mesa.
— O quê?
Tamara parecia absolutamente horrorizada.
— Call, não brinque com isso.
— Não estou brincando — disse Call. — Não faria isso. Acho que ele tentou roubar o Alkahest da escola, e acredito que vai tentar de novo. Desta vez, ele pode conseguir.
Aaron o encarou.
— Por que seu pai faria isso? Como você sabe?
Call contou a eles sobre o que achou no porão, sobre Devastação ter sido acorrentado, sobre os livros abertos com as ilustrações do Alkahest. Contou também sobre o mapa do hangar.
— Ele arrancaria o coração de Devastação para ativar o dispositivo? — O rosto de Tamara estava esverdeado.
Ao ouvir o próprio nome, o lobo olhou para Call e ganiu. Call fez que sim com a cabeça.
— Mas você não o viu em lugar algum? O Alkahest em si? — perguntou Aaron.
Call fez que não com a cabeça.
— Eu não sabia que era uma coisa real. Não sabia o que ele estava fazendo, ou para que queria Devastação. — Ele não mencionou as algemas do tamanho de um menino na parede. Estava preparado para contar parte da verdade, mas não toda. Não sabia exatamente em que posição aquilo se encaixava na tabela do Suserano do Mal, mas não se importava.
— Por que seu pai ia querer matar Aaron? — indagou Tamara.
— Ele não ia querer — respondeu Call rapidamente. — Tenho total e completa certeza de que meu pai não está trabalhando para o Inimigo da Morte.
— Mas então por que ele...? — Tamara balançou a cabeça. — Não entendo. Seu pai odeia mágica. Por que ele estaria tentando ativar um Alkahest se não quisesse...
Call estava começando a entrar em pânico. Por que Tamara não acreditava nele? Uma pequena parte dele sabia que deixar de fora a parte da história em que Call era o Inimigo da Morte dificultava explicar por que Alastair não queria o Alkahest por causa de Aaron.
— Ele odeia o Magisterium. — Call cerrou os punhos embaixo da mesa. — Talvez ele só queira enlouquecer os magos. Assustar.
— Talvez ele queira matar o Inimigo — sugeriu Aaron. — Talvez esteja tentando se livrar dele para que você fique seguro.
— O Inimigo está por aí há dezenas de anos — disse Tamara. — E Alastair simplesmente teve essa ideia? E é uma coincidência o fato de que no instante em que um novo Makar aparece, ele comece a trabalhar em um dispositivo que assassina justamente o Makar?
— Talvez ele esteja tentando se livrar de mim para que Call fique seguro. — Os olhos verdes de Aaron escureceram. — Quase causei a morte de vocês dois quando me sequestraram, e Call concordou em ser meu contrapeso. Isso é perigoso.
— Como Call disse, Alastair detesta magos. Não acho que ele se importe com a guerra. Se ele derrubar o Magisterium, Call não terá mais de vir para cá, e isso é o que ele mais quer na vida. — Tamara mordeu uma unha, nervosa. — Precisamos contar a alguém.
— O que? — Call se sentou, ereto. — Tamara, eu juro, Alastair não está trabalhando para o Inimigo!
— E daí? — disse Tamara com um fio de voz. — Ele está tentando roubar um dispositivo mágico poderoso. Mesmo que seu pai só queira guardá-lo para dormir melhor à noite, o Alkahest é muito valioso e extremamente mortal. E se o Inimigo souber que Alastair está com ele? Ele mataria seu pai para pegar o Alkahest. Contar aos outros magos vai ajudar a protegê-lo.
Call se levantou e começou a andar de um lado para o outro.
— Não. Eu vou até meu pai e vou dizer que sei dos planos dele. Assim ele não vai poder continuar com essa ideia, e o Alkahest permanecerá seguro.
— Isso é muito arriscado — retrucou Aaron. — Seu pai ia arrancar o coração de Devastação. Não acho que você deva chegar perto dele sozinho. Ele jogou uma faca em você, lembra?
— Ele estava jogando para mim — corrigiu Call, apesar de não acreditar mais nisso.
Tamara respirou fundo.
— Sei que não quer colocar seu pai em encrenca, mas ele cavou a própria cova.
— Ele é meu pai. Eu deveria ser a pessoa que decide. — Call olhou para Tamara. Os olhos escuros da menina estavam fixos nele. Call respirou fundo e usou sua última carta. — Vocês juraram que guardariam meu segredo. Juraram pela própria honra.
A voz de Tamara falhou.
— Call! E se você estiver enganado quanto a ele querer machucar Aaron? E se estiver enganado em relação a seu pai? Pode estar. Nem sempre se conhece a própria família como se pensa.
— Então você estava mentindo — disse Call. — Mentiu na minha cara. Você não tem honra alguma.
Aaron se levantou.
— Gente, calma...
— Olhe, eu vou contar para Mestre Rufus — declarou Tamara. — Eu sei que você não quer que eu faça isso, sei que eu disse que não faria, mas preciso.
— Não precisa. — Call elevou a voz. — Se você se importasse com alguma coisa além de avançar no Magisterium, não contaria. Você teoricamente é minha amiga. Teoricamente deve manter a palavra.
— Aaron é seu amigo! — gritou ela. — Não se importa com o que o Inimigo pode fazer com ele?
— Se Call diz que o pai não está trabalhando para o Inimigo, eu acredito — falou Aaron apressadamente. — Eu é que estou correndo perigo, então a escolha deve ser minha...
A face de Tamara estava rubra, e ela trazia lágrimas nos olhos. Call percebeu que, de qualquer maneira, ela sempre colocaria Aaron na frente dele.
— Você vai se permitir correr perigo! — berrou ela. — Você é assim! E Call sabe disso. — Ela se voltou para Call. — Como você ousa se aproveitar disso? Vou contar para o Mestre Rufus. Eu vou. E, se alguma coisa acontecer com Aaron por causa do Alkahest, então... a culpa é sua!
Ela virou e saiu do quarto. Call percebeu que estava tão ofegante quanto se estivesse correndo. E em seguida estava realmente correndo, correndo atrás de Tamara.
— Devastação — gritou ele. — Vamos! Atrás dela! Quero dizer, não a machuque. Só estropie um pouco!
Devastação uivou, mas Aaron — após lançar um olhar enojado para Call — o pegou pela coleira. O Makar se jogou sobre o lobo enquanto Call saltitava pelo corredor a tempo de ver as tranças de Tamara dobrando o fim do corredor. Ele foi atrás dela, mas sabia que com sua perna jamais conseguiria alcançá-la.
A fúria inflou em seu peito enquanto ele corria. Tamara era desconfiada e uma péssima pessoa. Ele esperava que os amigos fossem ficar bravos, mas não que fossem traí-lo. Puxões ardentes de dor subiam por sua perna; ele escorregou e caiu de joelhos, e por um instante — só um instante — pensou exatamente no que faria se tivesse duas pernas boas, se pudesse deixar a dor para trás. O que ele não faria por isso? Será que chegaria a matar? Será que pararia de se importar com sua lista de Suserano do Mal?
— Call? — Sentiu a mão sobre seu ombro, e depois sobre seu braço, puxando-o para cima. Alex Strike, alinhado como sempre, com o uniforme em perfeito estado, parecia preocupado. — O que você está fazendo?
— Tamara... — engasgou Call.
— Ela foi na direção do escritório de Rufus. — Alex apontou para um par de portas de ferro e cobre. — Tem certeza de que deve...
Mas Call já estava desviando dele. Sabia exatamente onde ficava o escritório de Rufus. Correu pelo último corredor e abriu a porta.
Tamara estava no centro do recinto, sobre um tapete circular. Rufus se apoiava sobre a mesa, iluminado pelo brilho das luzes atrás dele. Parecia muito sério.
Call parou. Seu olhar ia de Tamara para Rufus.
— Não pode — disse ele para Tamara. — Não pode contar para ele.
Tamara ajeitou os ombros.
— Preciso, Call.
— Você prometeu. — A voz de Call falhava. Ele meio que pensou que Aaron o teria seguido, mas não foi o caso, e, de repente se sentiu terrivelmente sozinho, encarando tanto Tamara quanto Rufus, como se fossem inimigos. Sentiu uma onda de raiva por Tamara. Não queria ter raiva dela, ou esconder coisas de Rufus. Jamais queria estar naquela posição. E nunca quis pensar que não podia confiar na amiga.
— Parece que tem alguma coisa séria acontecendo aqui — atestou Rufus.
— Nada — negou Call. — Não tem nada de errado.
Rufus olhou de um para o outro, de Call para Tamara. Call sabia em qual dos dois ele confiaria. Sabia até em qual dos dois deveria confiar.
— Tudo bem — falou Tamara. — Vou contar. Foi Alastair Hunt quem tentou roubar o Alkahest, e, se não o contivermos, ele vai tentar outra vez.
Mestre Rufus ergueu as sobrancelhas.
— Como sabe disso?
— Porque — continuou Tamara, mesmo enquanto Call a fuzilava com o olhar — Call contou.

15 comentários:

  1. Respostas
    1. Já não gostava muito dela. To começando a odiar ¬¬

      Excluir
  2. Eesse dai tem mt sorte olha a amiga e o pai tds morrem d inveja só com isso

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ela é tipo a Hermione no terceiro livro ela falou pra professora Minerva sobre a firebolt do Harry.. foi só por preocupação

      Excluir
  3. Isso é que é amiga. E ainda jura pela honra? Que honra minha filha. Vc nem tem isso pelo fato de nem ter pensado duas vezes.

    ResponderExcluir
  4. Não sei o q pensar .....

    ResponderExcluir
  5. Nossa Tamara,daqui a pouco vou achar que você é a Traidora,como diz a profecia
    Um irá morrer
    E espero que seja você

    ResponderExcluir
  6. Eu ainda gosto da Tamara, e entendo o pq dela contar, mas se eu fosse Call também teria ficado muito puta. E nesse momento ela me lembrou mto a Hermione.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sempre achei que o Aaron e o Call tiveram uma "evolução" no decorrer da série. Acho que esse ato da Tamara possq deixar ela ser desenvolvida melhor. Veremos se isso vai acontecer...

      Ezequiel

      Excluir
  7. Acho que a Tamara gosta do Aaron

    ResponderExcluir
  8. Mas se Call for mesmo Constantine Madem por que ele não explora os poderes de Makar? Será que o corpo novo não pode controlar o Caos ou isto está ligado a alma dele? Ou será que ele não estuda o Caos porque não quer se tornar mau?
    Se eu fosse ele estudaria o Caos pela minha própria segurança e a dos outros.

    ResponderExcluir
  9. Eu ainda não estou convencida que call seja o constantine,e se for o Aaron?muito suspeito a estória dele de orfanato sei lá conjecturas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu também penso a mesma coisa. Acho que a cena da caverna foi só para confundir as pessoas.

      Excluir
  10. Entendo a Tamara, ela quer se importa com os amigos e não acha que vai prejudicar o Call protegendo o Aaron. Ninguém sabe sobre isso de transferência de alma, Joseph pode estar completamente erra, nada garante que Call está destinado a maldade como Constantine, e isso pode ser a chave para o desfecho de tudo. Por isso o interesse em elementais adormecidos, seres aue não são bons nem maus. Será mesmo que Alistair quer machucar o Call?

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)