16 de janeiro de 2017

Capítulo sete


Call estava preparado para uma longa e dolorosa caminhada pelas cavernas, mas, em vez disso, o Mestre Rufus os conduziu por um corredor reto até um rio subterrâneo.
Call achou o lugar parecido com os túneis do metrô de Nova York. Ele já tinha ido até a cidade com o pai para caçar antiguidades e se lembrava de ter olhado para a escuridão em busca das luzes que indicavam a chegada do trem. Seus olhos acompanharam o rio da mesma maneira, apesar de não ter certeza do que procurava e se haveria algum sinal. Uma parede de rocha escarpada se ergueu atrás deles e a água fluiu depressa até uma caverna menor onde eles só conseguiam ver sombras.
Um odor mineral e úmido tomava conta do ar, e na margem havia sete barcos cinzentos atracados organizadamente em fila. Eles eram feitos de tábuas presas uma ao lado da outra e que se encontravam na proa, onde eram afixadas com pregos de cobre. Tudo isso fazia com que parecessem pequenos barcos vikings. Call olhou ao redor em busca de remos, um motor ou até mesmo um poste que servisse de suporte para uma vela, mas não viu nada que pudesse servir para impulsionar os barcos.
— Vamos — disse o Mestre Rufus. — Entrem.
Aaron se equilibrou dentro do primeiro barco da fila e ergueu uma das mãos para ajudar Call a subir no barco. Ressentido, ele a aceitou. Tamara entrou atrás dele, aparentemente um pouco nervosa. Assim que ela se acomodou, o Mestre Rufus entrou no barco.
— Esta é a maneira mais usual de nos locomovermos pelo Magisterium, utilizando os rios subterrâneos. Até que vocês sejam capazes de navegar, eu os conduzirei pelas cavernas. Em breve vocês conhecerão os caminhos e aprenderão a persuadir a água a nos levar para onde quiserem ir.
O Mestre Rufus se abaixou na lateral do barco e sussurrou para a água. Uma marola suave se formou na superfície, como se o vento soprasse, apesar de não haver nem mesmo uma brisa embaixo da terra.
Aaron se inclinou para a frente a fim de fazer outra pergunta, mas, de repente, o barco começou a se mover e ele caiu para trás em seu banco.
Certa vez, quando Call era muito mais novo, o pai o levara a um grande parque com brinquedos que tomavam impulso exatamente daquela forma. Ele gritara como um louco em todos eles, apavorado, apesar da música animada e dos bonecos autômatos que dançavam. E eram apenas brinquedos.
Aquilo era real. Call não conseguia parar de pensar em morcegos, rochas afiadas e que às vezes havia precipícios e buracos dentro das cavernas de um milhão de metros abaixo do nível do mar. Como eles seriam capazes de evitar coisas como aquelas? Como saberiam se seguiam pelo caminho certo naquela escuridão?
O barco cortava a água no escuro. Era a mais negra escuridão que Call já vira. Ele não conseguia ver nem ao menos um palmo diante de si. Seu estômago revirava.
Tamara fez um som baixinho. Call ficou contente por não ser ele quem surtava.
Foi então que a caverna ganhou vida ao redor deles. Eles passaram por salas onde as paredes eram iluminadas por um lodo verde bioluminescente. A própria água parecia se iluminar onde a proa do barco a tocava. Quando Aaron afundou a mão no rio, a água também se iluminou ao redor de seus dedos.
Ele balançou a mão no ar e ela se transformou em uma cascata de centelhas.
— Legal — Aaron relaxou.
Aquilo era mesmo legal. Call começou a relaxar enquanto o barco deslizava silenciosamente pela água iluminada. Eles passaram pelas paredes de rocha listrada com dezenas de cores e uma sala onde longas vinhas de cor clara pendiam do teto, com os cachos alcançando o rio. Eles então deslizaram novamente por um túnel escuro e emergiram em uma nova câmara de pedra onde as estalactites de quartzo eram afiadas como lâminas de facas e as pedras pareciam crescer naturalmente no formato de bancos curvos e até mesmo de mesas. Em uma das câmaras, eles passaram por dois mestres que jogavam xadrez com peças que se moviam no ar.
— Te peguei — disse um deles, e as peças de madeira começaram a voltar para suas posições iniciais do jogo.
Como se fosse conduzido por uma mão invisível, o barco atracou próximo a uma pequena plataforma com alguns degraus, movendo-se gentilmente até parar no lugar certo.
Aaron foi o primeiro a descer, seguido por Tamara e depois Call. Aaron ergueu uma das mãos para ajudá-lo, mas Call deliberadamente o ignorou. Ele apoiou os braços nos lados do barco para tomar impulso e aterrissou, desajeitado, em terra firme. Por um momento, ele pensou que cairia para trás, indo parar no rio e respingando água bioluminescente para todos os lados. Uma mão grande segurou seu ombro, ajudando-o a recuperar o equilíbrio. Ele olhou para trás e ficou surpreso ao ver que o Mestre Rufus o observava com uma expressão estranha no rosto.
— Não preciso da sua ajuda — Call disse, perplexo.
Rufus não falou nada. Call não conseguiu identificar nem um único traço de sua expressão. Ele tirou a mão do ombro do menino.
— Vamos — ele disse, e começou a atravessar uma ponte que cortava as margens feitas de quartzo. Os aprendizes correram aos tropeços para alcançá-lo.
O caminho levava até uma parede de granito sem nada de especial. Quando Rufus colocou uma das mãos na rocha, ela se tornou transparente. Call não ficou nem mesmo surpreso. Já tinha se acostumado com aquelas bizarrices. Rufus atravessou a parede como se ela fosse feita de ar. Tamara o seguiu. Call olhou para Aaron, que deu de ombros. Respirando fundo, Call os seguiu.
Ele entrou em uma câmara cujas paredes eram de rocha nua. O chão era feito de uma pedra bastante lisa. No centro da sala havia um monte de areia.
— Primeiro, gostaria de repassar os Cinco Princípios da Magia. Vocês devem se lembrar de alguns deles da primeira palestra que ouviram no ônibus, mas não espero que ninguém aqui, nem mesmo você, Tamara, independentemente de quantas vezes seus pais a sabatinaram, os compreenda de fato até que tenha aprendido muitas outras coisas. Vocês podem, entretanto, fazer anotações, e espero que meditem a respeito.
Call revirou a bolsa e tirou lá de dentro o que parecia ser um caderno costurado à mão e uma daquelas canetas irritantes utilizadas no Desafio. Ele a balançou levemente, torcendo para que não explodisse desta vez.
O Mestre Rufus começou a falar e Call fez um monte de garranchos para acompanhar a velocidade do discurso do mago. Ele escreveu:

1. O poder vem do desequilíbrio. O controle vem do equilíbrio;
2. Todos os elementos atuam de acordo com a natureza: o Fogo quer queimar, a Água quer fluir, o Ar quer se erguer, a Terra quer unir, o Caos quer devorar;
3. Em toda magia há uma troca de poder;
4. É possível mudar a forma das coisas, mas não a sua natureza essencial;
5. Todos os elementos possuem um contrapeso. O fogo é o contrapeso da água. O ar é o contrapeso da terra. O contrapeso do caos é a alma.

— Durante os testes — continuou o Mestre Rufus —, todos vocês demonstraram poder. Porém, sem foco, o poder não significa nada. O fogo pode tanto queimar sua casa quanto aquecê-la; a diferença está na habilidade de controlar o fogo. Sem ter foco, lidar com os elementos pode ser uma ação muito perigosa. Não preciso dizer a alguns de vocês o quanto isso é perigoso.
Call olhou para cima, esperando que o Mestre Rufus estivesse olhando para ele, já que o professor parecia estar sempre olhando para Call quando dizia alguma coisa ruim. Entretanto, desta vez ele encarava Tamara. As bochechas dela ficaram vermelhas e seu queixo se ergueu como quem lança um desafio.
— Durante quatro dias na semana, vocês treinarão comigo. No quinto dia, assistirão às palestras ministradas por outro mago e, após um mês, vocês farão um exercício no qual colocarão em prática o que aprenderam. Nesse dia, vocês podem tanto competir com outro grupo de aprendizes quanto trabalhar junto com eles. Os fins de semana e as noites são livres para que vocês pratiquem ou realizem outros estudos. Temos uma biblioteca e também salas de treinamento, além da Galeria, onde vocês podem passar o tempo. Alguém tem alguma pergunta antes de começarmos nossa primeira lição?
Todos permaneceram calados. Call queria dizer algo sobre como ele adoraria saber como chegar à Galeria, mas se conteve. Ele se lembrou de falar para o pai no hangar que iria fazer de tudo para ser expulso do Magisterium, porém, naquela manhã, acordou se sentindo desencorajado, como se aquela não fosse uma boa ideia. Tentar levar bomba nos testes diante de Rufus não tinha funcionado, por isso fingir para ser expulso provavelmente também não daria certo. Era óbvio que o Mestre Rufus não iria deixar Call se comunicar com Alastair até que ele estivesse estabelecido na condição de aprendiz. Por mais que isso lhe desse nos nervos, ele provavelmente teria de se comportar da melhor forma possível até que Rufus relaxasse e lhe desse autorização para entrar em contato com o pai. E então, quando ele finalmente pudesse falar com Alastair, eles planejariam a fuga.
Ele só queria se sentir um pouco mais animado com a possibilidade de fugir.
— Muito bem. Vocês podem então me dizer por que arrumei a sala desta maneira?
— Você precisa fortificar o seu castelo de areia? — Call murmurou entredentes. Até mesmo o seu melhor comportamento não parecia ser tão bom assim. Aaron, que estava de pé ao lado dele, abafou uma risada.
O Mestre Rufus ergueu uma das sobrancelhas, mas não demonstrou de nenhuma outra forma que ouvira o comentário de Call.
— Eu gostaria que vocês se sentassem formando um círculo ao redor da areia. Podem se sentar da forma que se sentirem mais confortáveis. Assim que estiverem prontos, devem se concentrar em mover a areia com a força do pensamento. Sintam-na se erguer pela sola dos seus pés e no ar que respiram. Agora, mantenham o foco nela. De grão em grão, vocês separarão a areia em dois montes: um com os grãos claros e outro com os escuros. Podem começar!
O Mestre Rufus disse a última frase como se eles estivessem em uma corrida e a luz verde tivesse sido acesa, mas Call, Tamara e Aaron simplesmente olharam para ele, horrorizados.
Tamara foi a primeira a recuperar a voz.
— Separar a areia? — ela repetiu. — Mas a gente não deveria aprender alguma coisa mais útil? Como lidar contra elementais trapaceiros, pilotar o barco ou...
— Duas pilhas — disse o Mestre Rufus. — Uma clara, outra escura. Comecem agora.
Ele deu meia-volta e se afastou. A parede se tornou transparente mais uma vez à medida que o mago se aproximava e depois voltou a se transformar em pedra quando ele a atravessou.
— A gente não vai receber nem um kit de ferramentas? — Tamara comentou, triste, ao lado de Call.
Os três estavam sozinhos em uma sala sem janelas nem portas. Call ficou contente por não ter claustrofobia, ou então estaria mordendo o próprio braço.
— Bem — disse Aaron —, acho que devemos começar.
Nem mesmo ele conseguiu pronunciar aquelas palavras com algum entusiasmo.
O chão estava gelado quando Call se sentou, e ele imaginou quanto tempo levaria para que a umidade começasse a fazer com que sua perna doesse. Ele tentou ignorar esse pensamento enquanto Tamara e Aaron se sentavam, formando um triângulo ao redor do monte de areia. Os três encararam os grãos. Por fim, Tamara ergueu uma das mãos e fez com que um pouco de areia se erguesse no ar.
— Claro — ela disse, fazendo com que um grão girasse pelo chão. — Escuro. — Ela arrastou outro grão pelo chão, fazendo com que parasse a certa distância do anterior. — Claro. Escuro. Escuro. Claro.
— Não posso acreditar que eu estava preocupado com os perigos da escola de magia. — Call estreitou os olhos enquanto contemplava o monte de areia.
— Dá para morrer de tédio — Aaron completou.
Call riu baixo.
Tamara olhou para cima, infeliz.
— Esse pensamento é a única coisa que me faz seguir em frente.
Por mais difícil que Call achasse que era mover minúsculos grãos de areia com o poder do pensamento, na verdade, era ainda pior. Ele se lembrou das vezes em que movera coisas antes, como quando acidentalmente quebrara a tigela durante seu teste com o Mestre Rufus e como sentira uma espécie de zumbido em sua cabeça. Ele se concentrou naquele zumbido enquanto olhava para a areia, e os grãos começaram a se mover. A sensação era parecida com operar algum aparelho eletrônico com um controle remoto. Não eram os dedos dele que pegavam a areia, mesmo assim eles se moviam. As mãos estavam pegajosas e o pescoço, tenso. Fazer um único grão de areia pairar no ar por tempo suficiente para decidir se era claro ou escuro se mostrava complicado.
Mais de uma vez ele se distraiu e colocou o grão no monte errado, de forma que tinha de encontrá-lo e levá-lo até o lugar certo, o que requereria tempo e ainda mais concentração.
Não havia relógio na parede, e nenhum deles usava relógio de pulso, de forma que Call não fazia a menor ideia de quanto tempo se passara. Por fim, outro estudante surgiu na sala. Ele era alto e magricela, estava vestido de azul, com um bracelete de bronze que indicava que já estava havia três anos no Magisterium. Call imaginou que deveria estar sentado com a irmã de Tamara e o Mestre Rockmaple no Refeitório naquela manhã.
Call estreitou os olhos para conferir se havia algo de particularmente sinistro nele, mas o garoto apenas sorriu debaixo de um emaranhado de cabelos castanhos bagunçados e largou junto aos seus pés uma sacola de juta com líquen e sanduíches de queijo e uma jarra de barro com água.
— Comam, crianças — ele disse, antes de sair pelo mesmo lugar por onde entrou.
Só então Call se deu conta de que estava faminto. Estava concentrado havia tantas horas que sentia uma grande confusão no cérebro. Estava exausto, cansado demais para conversar enquanto comia. O pior de tudo foi ver a areia que ainda faltava e perceber que eles haviam dividido apenas uma pequena parte do monte. A quantidade de grãos a ser separada era enorme.
Aquilo não era voar. Não era o que ele imaginara quando pensava em fazer magia.
Aquilo era uma bela porcaria.
— Vamos continuar — disse Aaron. — Ou vamos ter de jantar aqui.
Call tentou se concentrar, focando toda a sua atenção em um único grão, mas então sua mente escapou pela tangente e tudo que ele sentia era raiva. A areia explodiu, todos os montes voaram para os lados, os grãos colidiram nas paredes e se espalharam pelo chão, todos misturados, em uma bagunça sem precedentes. Todo o trabalho duro que eles haviam realizado fora destruído.
Tamara prendeu a respiração, horrorizada.
— O que... o que você fez?
Até mesmo Aaron olhou para Call como se fosse estrangulá-lo. Era a primeira vez que Call via Aaron irritado.
— Eu... eu... — Call queria dizer que sentia muito, mas engoliu suas palavras. Sabia que elas não fariam a menor diferença. — Simplesmente aconteceu.
— Vou te matar — Tamara disse com toda a calma. — Vou separar as suas tripas em montinhos.
— Ui — gemeu Call, quase acreditando nela.
— Tudo bem. — Aaron respirou fundo algumas vezes para se acalmar. Ele mantinha as mãos na cabeça como se tentasse manter a raiva dentro do crânio. — Tudo bem, só precisamos começar de novo.
Tamara chutou a areia, mas logo em seguida se agachou e começou novamente o trabalho tedioso de mover os grãos, um por um, com o poder da mente. Ela nem mesmo olhava para Call.
Call tentou se concentrar mais uma vez, porém seus olhos ardiam. Quando o Mestre Rufus voltou para a sala e lhes informou que estavam liberados para jantar e voltar para os seus quartos, a cabeça de Call pulsava e ele decidiu que nunca mais iria à praia.
Aaron e Tamara não olharam para ele enquanto seguiam pelos corredores.


O Refeitório estava repleto de alunos que conversavam amigavelmente, muitos deles rindo e gargalhando. Call, Tamara e Aaron pararam na porta atrás do Mestre Rufus e olharam, sonolentos, para o salão. Os três tinham areia nas mãos e traços de sujeira no rosto.
— Hoje comerei com os outros mestres — informou o Mestre Rufus. — Façam o que desejarem com o restante de sua noite.
Movendo-se como robôs, Call e os outros apanharam comida — sopa de cogumelo, mais pilhas de liquens de diferentes cores e, de sobremesa, um pudim esquisito, de aparência opalina — e foram se sentar junto com outro grupo de alunos do Ano de Ferro.
Call reconheceu alguns deles, como Drew, Jasper e Célia. Ele se sentou diante de Célia e ela não virou sua tigela de sopa na cabeça dele — algo que de fato acontecera em sua outra escola —, o que aparentemente era um bom sinal.
Os mestres se sentavam juntos a uma mesa redonda do outro lado do salão, provavelmente maquinando novas maneiras de torturar os alunos. Call tinha certeza de que podia ver alguns deles sorrindo de um jeito muito sinistro. Enquanto ele observava, três pessoas em uniformes verde-oliva — duas mulheres e um homem — atravessaram a porta. Eles cumprimentaram os mestres curvando discretamente a cabeça.
— Eles são membros da assembleia — Célia informou Call. — São o nosso governo, estabelecido após a Segunda Guerra dos Magos. Estão achando que um dos garotos mais velhos se transformou em um mago do caos.
— Como aquele tal de Inimigo da Morte? — Call perguntou. — O que acontece se eles encontrarem magos do caos? Eles os matam ou coisa assim?
Célia baixou a voz.
— É claro que não! Eles querem encontrar um mago do caos. Dizem que só um Makar pode deter outro Makar. Já que o Inimigo é o único Makar vivo, ele tem uma vantagem sobre nós.
— Se eles tiverem uma desconfiança mínima de que alguém aqui tem esse poder, vão averiguar — disse Jasper, aproximando o seu banco para se juntar à discussão. — Eles estão desesperados.
— Ninguém acredita que o Tratado vá durar — disse Gwenda. — E, se a guerra começar de novo...
— Bem, o que faz com que pensem que alguém aqui pode ser quem estão procurando? — Call perguntou.
— É como eu disse — Jasper explicou. — Eles estão desesperados. Mas não se preocupe, suas notas são muito baixas. Magos do caos têm que ser bons em magia.
Por um minuto, Jasper agira como um ser humano normal, mas aparentemente aquele minuto já acabara. Célia o encarou.
Eles começaram a conversar sobre suas primeiras lições. Drew contou que o Mestre Lemuel havia sido muito duro em suas primeiras aulas, e ele queria que todos os outros professores agissem da mesma forma.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo, fazendo descrições de aulas que soavam muito menos frustrantes e infinitamente mais divertidas que a de Call.
— A Mestra Milagros nos deixou pilotar os barcos — Jasper se vangloriou. — Tinha várias cachoeirinhas. Foi como fazer rafting. Iradíssimo.
— Ótimo — disse Tamara, sem muito entusiasmo.
— Jasper fez com que a gente se perdesse — Célia entregou enquanto mordiscava serenamente um pedaço de líquen, e os olhos de Jasper lampejaram de irritação.
— Foi só por um minuto — Jasper se explicou. — Deu tudo certo.
— O Mestre Tanaka nos ensinou a fazer bolas de fogo — comentou um menino chamado Peter, e Call se lembrou de que Tanaka era o nome do Mestre que escolheu seus aprendizes depois de Milagros. — Tivemos o fogo em nossas mãos e não nos queimamos. — Os olhos dele brilhavam.
— O Mestre Lemuel jogou pedras na gente — disse Drew.
Todos olharam para ele.
— Como assim? — perguntou Aaron.
— Drew — silvou Laurel, outra das aprendizes do Mestre Lemuel —, ele não fez nada disso. O Mestre Lemuel estava nos mostrando como mover pedras com o poder da mente e o Drew ficou bem na frente de uma delas.
“Isso explica esses roxos imensos na clavícula de Drew”, Call pensou, sentindo-se um pouco enjoado. Ele se lembrou dos avisos do pai sobre como os mestres não se importavam em machucar os alunos.
— Amanhã aprenderemos a mover metal — continuou Drew. — Aposto que ele vai atirar facas na gente.
— Eu preferiria que atirassem facas em mim a passar o dia inteiro em um monte de areia — comentou Tamara, apática. — Ao menos das facas se pode desviar.
— Bem, parece que Drew não consegue fazer isso. — Jasper abriu um sorriso maroto.
Pelo menos ele implicava com alguém diferente de Call, embora Call não tenha achado a menor graça.
— Não é possível que tudo neste lugar sejam só lições. — A voz de Aaron era apenas uma sombra de seu tom geralmente pacífico. — Não é? Deve haver alguma coisa divertida. Que lugar era aquele que o Mestre Rufus comentou com a gente?
— Podemos ir para a Galeria depois do jantar — disse Célia diretamente para Call. — Tem jogos lá.
Jasper parecia irritado. Call sabia que deveria ir com Célia para a Galeria, não importava o que fosse aquele lugar. Qualquer coisa que deixasse Jasper louco da vida valia a pena, e, além disso, ele tinha de aprender a percorrer o Magisterium, desenhar um mapa do mesmo jeito que costumava fazer quando jogava video game.
Ele precisava de uma rota de fuga.
Call balançou a cabeça e comeu uma garfada cheia de líquen. Tinha gosto de carne. Ele olhou para Aaron na outra ponta da mesa. Ele também parecia muito cansado.
Call sentia o corpo pesado. Tudo que ele queria era dormir. Começaria a procurar um jeito de dar o fora do Magisterium no dia seguinte.
— Acho que não estou muito no clima para jogos — disse Call. — Talvez outra hora.


— Talvez hoje tenha sido um teste — Tamara cogitou enquanto eles voltavam para seus quartos após o jantar. — Como a nossa paciência ou nossa habilidade de seguir ordens. Talvez amanhã o nosso verdadeiro treinamento tenha início.
Aaron, arrastando uma das mãos pela parede enquanto andava, levou um momento para responder:
— É. Talvez.
Call nada disse. Estava cansado demais.
Ele descobria que a magia era mesmo um trabalho árduo.


No dia seguinte, as esperanças de Tamara foram frustradas quando eles voltaram para o lugar que Call apelidara de Sala da Areia e do Tédio para terminar a triagem dos grãos.
Eles ainda tinham um monte de areia para separar. Call se sentiu culpado mais uma vez.
— Quando terminarmos, faremos outra tarefa diferente, não é? — Aaron perguntou para o Mestre Rufus.
— Concentrem-se em uma tarefa de cada vez — replicou o mago, enigmático, e atravessou a porta.
Com suspiros profundos, eles se sentaram para trabalhar. A triagem da areia durou a semana inteira. Tamara passava todo o tempo após as aulas com a irmã ou Jasper, ou com outros alunos de legado com cara de ricos, e Aaron ficava junto com todo mundo, enquanto Call se amuava no quarto. Eles passaram mais uma semana inteira separando a areia — o montículo de grãos parecia crescer cada vez mais, como se alguém não quisesse que aquele teste terminasse.
Call ouvira falar de um tipo de tortura onde uma única gota de água pingava na testa da pessoa sem parar até que o cara ficasse louco. Ele nunca tinha entendido como aquilo funcionava, mas, agora, compreendia perfeitamente.
“Tem de haver um jeito mais fácil”, ele pensou, embora a parte do seu cérebro que fazia esse tipo de maquinação devesse ser a mesma utilizada pela magia, porque Call não conseguia pensar em nada.
— Olha só — Call finalmente falou —, vocês são bons nisso, não é? Vocês foram os melhores magos nos testes. Tiveram as melhores notas.
Os outros dois olharam para ele sem entender nada. Aaron parecia ter sido atingido por um pedregulho quando ninguém olhava.
— Acho que sim — Tamara concordou, apesar de não parecer muito empolgada com esse fato. — Fomos pelo menos os melhores do nosso ano.
— Certo. Bem, eu sou péssimo, o pior. Fiquei em último lugar e já estraguei as coisas para a gente, de modo que é evidente que eu não sei nada de nada. Só que deve haver uma maneira mais rápida. Algo que deveríamos estar fazendo. Alguma lição que deveríamos aprender. Vocês conseguem pensar em algo? Qualquer coisa? — Havia um quê de súplica no tom de Call.
Tamara hesitou. Aaron balançou a cabeça.
Call percebeu a expressão no rosto da garota.
— O que foi? Você sabe de alguma coisa?
— Bem, existem alguns princípios mágicos... algumas... maneiras especiais de tirar vantagem dos elementos. — As tranças negras de Tamara balançavam enquanto ela mudava de posição. — Coisas que provavelmente o Mestre Rufus não quer que a gente saiba.
Aaron balançou a cabeça, ansioso. A esperança de se livrar logo daquela sala iluminou seu rosto.
— Vocês se lembram de quando Rufus falou sobre sentir o poder da terra e todo o resto? — Tamara não olhava para eles. Em vez disso, encarava a pilha de areia como se sua atenção estivesse voltada para algo bem longe dali. — Bem, existe uma maneira de conseguir mais poder, mais depressa. Mas vocês precisarão se abrir para o elemento... e, bem, comer um grão de areia.
— Comer areia? — Call repetiu. — Você só pode estar de brincadeira.
— É uma coisa meio perigosa, por causa de todo aquele papo do Primeiro Princípio da Magia. Mas funciona exatamente pelo mesmo motivo. Você se aproxima do elemento, tipo, se estiver fazendo magia da terra, você come pedras ou areia; magos do fogo comem palitos de fósforo; magos do ar podem consumir sangue para o seu oxigênio. Não é uma boa ideia, mas...
Call se lembrou de Jasper sorrindo diante do sangue que fluía de seu dedo durante o Desafio. Seu coração parou dentro do peito.
— Como você sabe disso?
Tamara olhou para a parede e respirou fundo.
— Meu pai. Ele me ensinou a fazer isso, mas disse que eu só deveria usar esse truque em caso de emergência. Mesmo assim, nunca fiz, porque tenho medo. Se reunir muito poder e não conseguir controlá-lo, você pode ser tragado para dentro do elemento. Ele queima a sua alma e a substitui por fogo, ar, água, terra ou caos. Você se torna uma criatura desse elemento. Um elemental.
— Um daqueles lagartos? — Aaron perguntou.
Call ficou aliviado por não ser ele a perguntar aquilo, pois tinha a mesma dúvida.
Tamara balançou a cabeça, concordando.
— Existem elementais de todos os tamanhos. Alguns são pequenos como aqueles lagartos, outros são grandes e transbordam magia, como serpes, dragões e serpentes marinhas. Eles podem até mesmo ter o tamanho de um ser humano. Por isso, temos de tomar cuidado.
— Eu posso ser cuidadoso — disse Call. — E você, Aaron?
Aaron passou as mãos sujas de areia pelo cabelo loiro e deu de ombros.
— Qualquer coisa é melhor que isso. E, se terminarmos mais rápido do que o Mestre Rufus planejou, ele vai nos dar outra coisa para fazer.
— Tudo bem. Vamos ver no que isso vai dar. — Tamara lambeu a ponta de um dos dedos e tocou o monte de areia. Alguns grãos grudaram em sua pele. Ela pôs o dedo na boca.
Call e Aaron repetiram o gesto. Quando Call colocou o dedo úmido na boca, não conseguiu evitar pensar no que teria dito algumas semanas antes se alguém lhe contasse que estaria sentado em uma caverna subterrânea comendo areia. A areia não tinha um gosto ruim. Na verdade, não tinha gosto de nada. Ele engoliu os grãos ásperos e esperou.
— E agora? — Call indagou depois de alguns segundos. Ele começava a ficar nervoso.
“Nada acontecera com Jasper no Desafio”, Call disse para si mesmo. “Nada aconteceria com eles.”
— Agora a gente precisa se concentrar — Tamara informou.
Call olhou para a areia. Desta vez, quando ele arrastou seus pensamentos para o montículo de areia, pôde sentir cada um dos grãozinhos. Pedaços minúsculos de concha brilharam em sua mente, além de fragmentos de cristal e pedras hexagonais amareladas e pontiagudas. Aquilo podia ser pesado e era bem capaz que a areia escapasse por entre seus dedos, espalhando-se pelo chão.
Ele tentou esquecer tudo que estava ao seu redor — Tamara e Aaron, a pedra gelada debaixo de seu corpo, o vento débil que soprava na sala — e limitou sua concentração às duas únicas coisas que importavam: ele e a pilha de areia. A areia lhe transmitia uma sensação sólida e leve, como isopor. Seria fácil erguer os grãos. Ele poderia erguer todo o monte com uma das mãos. Com um dedo. Com um... pensamento. Call imaginava a pilha se erguendo e os grãos se separando...
A pilha de areia deu uma guinada, despejando alguns poucos grãos no topo, e então se ergueu, pairando sobre os três como uma pequena nuvem de chuva.
Tamara e Aaron olhavam para a areia. Call caiu de costas, aparando a queda com as mãos. Era como se suas pernas tivessem sido picadas por agulhas e alfinetes. Ele devia ter se sentado de mau jeito e estava muito concentrado para se dar conta disso.
— É a vez de vocês — Call disse enquanto sentia que as paredes se aproximavam, que podia sentir a pulsação da terra sob os pés.
Ele imaginou como seria afundar no chão.
— Claro — concordou Aaron. A nuvem de areia se dividiu em duas metades, uma composta por areia clara, outra, por escura.
Tamara ergueu as mãos e lentamente traçou uma espiral no ar. Call e Aaron observaram, impressionados, enquanto a areia formava diversos padrões de redemoinhos sobre suas cabeças.
A parede se abriu. O Mestre Rufus surgiu no umbral. Seu rosto era uma máscara.
Tamara soltou um gritinho agudo e o monte de areia flutuante desabou, espalhando baforadas de poeira que fizeram Call engasgar.
— O que vocês fizeram? — o Mestre Rufus inquiriu.
Aaron ficou pálido.
— Eu... nós não tínhamos a intenção...
O Mestre Rufus gesticulou de modo brusco para eles.
— Aaron, cale-se. Callum, venha comigo.
— Como assim? — Call começou. — Mas eu... Isso não é justo!
— Vamos. Comigo — Rufus repetiu. — Agora.
Call se levantou com cuidado, sentindo pontadas na perna ruim. Olhou rapidamente para Aaron e Tamara, mas eles encaravam as próprias mãos com a cabeça baixa. “Quanta lealdade”, ele pensou enquanto seguia o Mestre Rufus para fora do salão.


Rufus o guiou em uma caminhada curta por alguns corredores sinuosos até seu escritório.
A sala não era como Call esperava. Os móveis eram modernos. Estantes de metal tomavam um dos lados do cômodo e diante delas havia um sofá macio, grande o suficiente para tirar uma soneca. Inúmeras folhas de papel pendiam de uma das paredes, presas por percevejos, contendo o que pareciam ser equações escritas às pressas, porém, em vez de números, elas continham símbolos estranhos. Diante dos papéis havia uma mesa de trabalho feita de madeira bruta cuja superfície era sarapintada de manchas e coberta por facas, béqueres e os corpos empalhados de animais de aparência bastante esquisita. Junto a modelos delicados de engrenagens que pareciam ser uma mistura de ratoeira com relógio, havia um animal vivo dentro de uma pequena jaula — um daqueles lagartos com chamas azuis nas costas. A escrivaninha de Rufus ocupava um dos cantos da sala. Era um modelo antigo, com tampo de correr, que contrastava com o resto do ambiente. Sobre ela, um pote de vidro continha a miniatura de um tornado que girava sem sair do lugar.
Call não conseguia tirar os olhos do pote, esperando que o tornado saltasse lá de dentro a qualquer momento.
— Callum, sente-se. — O Mestre Rufus indicou o sofá. — Quero explicar por que trouxe você para o Magisterium.

8 comentários:

  1. Esqueceram do: A terra quer unir, no segundo princípio da magia.

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  2. O fogo é o contrapeso da água. O ar é o contrapeso da água. O contrapeso do caos é a alma.
    N é a agua o contrapeso do fogo?

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    1. Dá no mesmo...
      É como dizer que o frio é o contrário do calor, ou que o valor é o contrário do frio

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  3. Só sei que o ar é o contrapeso da terra, pq o Aang teve mais dificuldade em dominar esse elemento. Me orgulho de saber disso, me orgulho de ser da geração TV Globinho. Call separando areia é tipo eu fazendo os trabalhos acadêmicos, vontade de jogar tudo pro alto, mandar pra...enfim.

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Boa leitura :)