25 de janeiro de 2017

Capítulo seis


As aulas naquele primeiro dia foram ao ar livre, sob o sol quente, os alunos sentados em um semicírculo de pedras. O Mestre Rufus achava que, como a Assembleia em breve pretendia começar andar pela floresta, era melhor usarem a parte externa o máximo possível até lá. Call sentiu falta do frescor das cavernas. Sua camisa logo ficou molhada de suor. Até o couro cabeludo parecia estar queimando com o sol. O nariz e as bochechas de Aaron já estavam vermelhos, e Tamara estava usando um dos cadernos como chapéu.
— Bem-vindos ao Ano de Bronze do Magisterium — disse Mestre Rufus, andando de um lado para o outro na frente deles, a cabeça careca brilhando. — Vocês podem não ser a maior encrenca que já peguei em termos de aprendizes, mas certamente estão quase lá. Vamos tentar conduzir este ano de um jeito diferente.
Considerando que Mestre Rufus se referia a um antigo grupo de aprendizes que incluía o próprio Capitão Cara de Peixe, isso realmente era significativo.
— Todos nós acabamos de receber medalhas! — disse Tamara, que recebeu um olhar severo por interrompê-lo, mas continuou assim mesmo: — Somos o oposto de encrenca.
As sobrancelhas do Mestre Rufus fizeram um movimento complicado, subindo e sacudindo ao mesmo tempo.
— Mesmo assim, vamos tentar nos certificar de que nenhum de vocês seja sequestrado ou partam em missões de resgate ou adotem mais animais Dominados pelo Caos ou abandonem a escola por algum motivo.
Ninguém teve o que responder diante disso.
— Este ano aprenderemos sobre responsabilidade pessoal. Vocês podem achar que isso não seja particularmente parecido com uma lição de mágica, mas foi no Ano de Bronze que Constantine iniciou seus experimentos com Mestre Joseph, tentando descobrir um caminho para a imortalidade. Este é o ano em que vocês deixam o básico para trás e começam a focar naquilo em que podem se especializar. Sendo assim, queremos ter certeza de que todos, mas principalmente Call e Aaron, entendam a amplitude de implicações embutidas em cada especialização. É bom que comecem a pensar nos limites da magia do caos. Em como é irresponsável e desonesto usar métodos que ponham vidas em risco só para descobrir esses limites. Como todas as escolas, estamos sempre interessados em aprendizado, pesquisa e em ampliar os limites do conhecimento. Mas temos de equilibrar isso com a nossa obrigação de proteger o mundo, mesmo que seja de nós mesmos. E — Mestre Rufus prosseguiu — quero que se lembrem que, nos anos anteriores, vocês atravessaram os portões da magia antecipadamente. Isso deve lhes ensinar não que são melhores do que os outros alunos, mas que os portões da magia só se abrem quando o aluno está pronto. Se não aprenderem as lições do Ano de Bronze, permanecerão no ano de Bronze até que o façam.
Call olhou para Aaron e Tamara. Pareciam tão assolados quanto o próprio Call. Não sabia ao certo como nenhuma das coisas que o Mestre Rufus estava falando poderia ser ensinada na escola. Era remotamente possível, no entanto, que seu cérebro estivesse ficando lento por insolação.
— Mais uma coisa — disse Mestre Rufus. — Em relação ao espião no Magisterium. Tamara, acho que não falei diretamente com você sobre isso, mas tenho certeza de que Call ou Aaron já lhe informaram, então não vou constranger a nenhum de nós fingindo o contrário. Você tem direito de saber. Contudo, eu insisto, insisto, que não tentem capturar o espião por conta própria. Deixem isso conosco.
Nenhum dos dois disse nada.
As sobrancelhas do Mestre Rufus ficaram ainda mais unidas.
— Entenderam?
Call assentiu.
— Claro — disse Aaron.
— Tudo bem — disse Tamara.
Foi a cena menos convincente que Call já tinha visto na vida. Ele não sabia ao certo se Mestre Rufus tinha acreditado ou simplesmente desistido quando fez que sim com a cabeça e falou.
— Ótimo! Agora, acho que nossa primeira aula deve ser sobre o elemento água e sobre como equilibrá-la com o ar de modo a podermos respirar quando submersos. Sei exatamente em que lago podemos treinar.
Call ficou de pé num pulo, feliz com a ideia de se refrescar. Só quando começaram a se mover que ele se lembrou do corpo de Jen flutuando no mar e ficou imaginando se haveria algum motivo para o Mestre Rufus ter colocado esta aula no primeiro dia.
Apesar dos pensamentos sombrios de Call, a turma passou um dia agradável boiando na parte rasa de um pequeno lago perto da escola. Mestre Rufus deu a cada aluno um amuleto cheio de ar, de onde poderiam extrair oxigênio enquanto estivessem embaixo d’água. Nas primeiras tentativas, Call não conseguiu se concentrar e emergiu, cuspindo e engasgando. Aaron também não se saiu muito bem, mas Tamara pareceu tranquila.
Frustrado, Call por fim pegou o amuleto e mergulhou em direção ao fundo do lago. Ele sempre gostou de nadar — na água, sua perna não doía. Ele manteve os olhos abertos. A água era um pouco lodosa, mas fresca; dava para ver as formas borradas de Tamara e Aaron debaixo dela.
Por algum motivo, Call pensou no pai. Tinha visto nas lembranças de Mestre Joseph como Alastair havia escalado a face de uma geleira para chegar até a cena do Massacre Gelado, onde o Inimigo da Morte tinha matado dezenas de magos indefesos. Alastair tinha feito isso pela mulher e pelo filho; utilizara magia da água para formar apoios para as mãos e os pés na face da geleira. Deve ter sido exaustivo. Deve ter parecido impossível.
Comparado àquilo, isso aqui não era nada.
Call apertou o amuleto com força, tanto que teve a impressão de tê-lo sentido rachar. Ar, pensou. Ar ao seu redor, havia ar na água, todos os elementos eram um só, fogo, ar e água... É tudo uma coisa só, não são quatro, nem duas, nem três, mas uma.
Ele abriu a boca e respirou.
Foi como respirar um ar úmido e pantanoso. Ele engasgou um pouco, deixando o corpo boiar para o alto enquanto o ar preenchia os seus pulmões. A segunda vez que puxou o ar foi mais fácil, e na terceira e na quarta ele estava respirando normalmente. Estava em pé, no fundo do lago, respirando normalmente. Muito contente, Call jogou o amuleto de lado e começou a emergir até romper a superfície com um grito.
— Consegui! — gritou. — Respirei embaixo d’água!
— Eu sei! — disse Tamara, jogando água. — Eu vi!
— Uhul! — disse Aaron. Ele socou a superfície do lago, fazendo-a esguichar para cima. — Você é incrível!
— Alô, todos nós somos! — protestou Tamara.
Call nadava em círculos, mergulhando para respirar e voltando à tona. Ele esguichou água e sorriu.
Às vezes a mágica era realmente tão incrível quanto ele secretamente torcia para que fosse.


Naquela noite, Tamara, Call, Aaron e Jasper eram as únicas pessoas na biblioteca. Os quatro reuniam-se em torno de uma mesa onde uma luz brilhava em um abajur cuja cúpula era a concha de uma lesma marinha enorme. Mantiveram as vozes baixas; o som tendia a ecoar naquela grande sala de pedra.
— Então a questão é saber se a pessoa que tentou matar Call na cerimônia é alguém que estaria no Magisterium — disse Tamara, mexendo em alguns papéis. — Fiz uma lista de todas as pessoas que estudam ou dão aula aqui, assim como membros da Assembleia que têm trânsito livre.
Jasper se inclinou para frente para olhar a lista.
— Você não está nela — disse ele.
— Claro que não! — Tamara ficou vermelha. — Eu não tentei matar Call.
— Kimiya também não tá — disse Jasper. — Nem Aaron.
— Porque eles não estão tentando me matar — disse Call.
— Você não tem como saber — disse Jasper. — A lista deve ser objetiva. Eu também tenho que estar nela.
— Você está — disse Tamara. — Pode acreditar.
Jasper fez uma careta.
— Ótimo.
— Vejam, eu sei que nos metermos onde não somos chamados é a nossa marca registrada — disse Call, interrompendo os amigos. — Mas que tal se dessa vez a gente não tentasse pegar o espião por conta própria? O Mestre Rufus disse que eles têm um plano, a madrasta do Alex está aqui para preparar uma armadilha. Talvez a gente possa deixar isso por conta deles.
Todos encararam Call como se ele tivesse duas cabeças. Finalmente Aaron se manifestou.
— Você bebeu muita água do lago hoje ou coisa do tipo? Você jamais diria uma coisa dessas se fosse um de nós correndo perigo.
— Pense desta forma — disse Jasper. — Se a mesma pessoa que soltou o Automotones tentou derrubar o lustre em você, então qualquer pessoa ao seu lado tem tanta probabilidade de ser assassinada quanto você. Então, pelo meu próprio bem, eu quero investigar.
Call não tinha como argumentar contra uma lógica dessas.
— Estive pensando — disse Tamara. — Precisamos descer nos túneis onde os grandes elementais ficam. Talvez a gente consiga descobrir quem teve acesso ao Automotones e como. Podemos usar essa lista para ver se alguma dessas pessoas esteve lá embaixo; deve haver algum registro de visitantes ou de pessoas autorizadas a entrar.
— Mas será que os magos já não fizeram isso? — perguntou Aaron.
Tamara deu de ombros.
— Mesmo que tenham, eles não vão dar os nomes. Os túneis são um bom lugar para começarmos a reduzir nossa lista de suspeitos.
— Acho que alguém passou as férias lendo livros de mistério — comentou Jasper.
Tamara ofereceu a ele um sorriso cheio de dentes.
— Acho que alguém vai levar um soco na cara.
— Você tem uma ideia melhor? — perguntou Aaron. — Porque se não tiver, não critique.
— E se Call se fizer de isca? — sugeriu Jasper. — Quer dizer, por que termos todo esse trabalho quando podemos fazer o assassino vir até nós? É só espalharmos que Call vai estar em algum lugar afastado, sozinho, e depois, quando o assassino aparecer para acabar com ele, a gente ataca e...
— Ei, calma aí — disse Call. — Essa ideia é idiota.
— Achei que não fosse para criticar — disse Jasper, sorrindo de satisfação. — Acho que não tem como um plano desses dar errado.
Tamara balançou a cabeça.
— Call pode acabar morrendo!
— Ainda assim pegaríamos o espião — respondeu Jasper, depois fez uma careta após levar um chute violento por baixo da mesa. — Quê? Não são muitos planos que vêm com essa garantia embutida!
— Vamos tentar a estratégia da Tamara primeiro — disse Aaron, que logo depois bocejou e ficou de pé. — Amanhã, depois da aula, a gente se encontra aqui de novo. Podemos olhar os mapas do Magisterium para ver se conseguimos descobrir onde ficam os elementais. Eu fico com o primeiro turno hoje à noite. Tamara, Call, vocês dois podem dormir.
— Então até mais, babacas — disse Jasper que foi embora pela escada em espiral, subindo dois degraus por vez.
Call queria protestar, dizer que era desnecessário que um deles ficasse acordado vigiando, mas ninguém ia dar ouvidos. Ele se levantou com um suspiro e seguiu Tamara e Aaron de volta para os respectivos quartos.
Mas, no meio do caminho, uma ideia súbita o fez parar.
— Eu sei quem teria acesso a esses elementais! — disse Call — Warren!
No fim das contas, o pequeno lagarto era um elemental do fogo e, apesar de não ser totalmente confiável, ele conhecia as dependências do Magisterium melhor do que qualquer um ou qualquer coisa.
Ele já tinha guiado o grupo pelos labirintos antes é bem verdade que isso os havia colocado no radar de um elemental mais poderoso e sinistro —, mas ainda assim, nada de tão mim aconteceu.
Além disso, no ano anterior eles haviam salvado a vida de Warren. Na ocasião, o Mestre Rufus preparou um teste para a magia do caos em que Aaron deveria mandar o lagarto para o vazio. Call não sabia ao certo o que acontecia com coisas que eram sugadas para o nada, mas tinha certeza de que não sobreviveriam. Ele tinha ajudado Aaron a fazer algumas mágicas complexas para que o lagarto pudesse escapar. Até onde Call sabia, Warren estava em dívida com eles.
— Vamos — disse ele, dando meia-volta no meio do corredor. — Por aqui.
Quanto mais tempo o espião estivesse entre eles, mais tempo os amigos ficariam na cola de Call como se houvesse algo de errado. Ele detestava isso. Não queria que ficassem acordados enquanto ele dormia. Não queria que corressem perigo. Se havia algo a ser feito, ele queria fazer agora.
— Aonde vamos? — Tamara protestou quando viu que iriam voltar pelo caminho percorrido. — Voltar para a biblioteca?
O corredor se dividia em dois. Call foi para a esquerda. Ele se lembrou de como achou que jamais fosse aprender a se localizar nos túneis quando chegou ao Magisterium, com seus corredores que pareciam labirintos passando por baixo e através da montanha. Mas ele aprendeu, e agora caminhar pelos andares superiores do Magisterium era tão familiar quanto andar pelas ruas da cidade onde morava.
— Vamos para o rio? — perguntou Aaron meio que sussurrando.
O ar nos túneis começava a ficar mais úmido. Passaram pelos quartos de vários outros grupos de aprendizes, nenhuma luz saindo pela fresta embaixo de cada porta. O Magisterium dormia.
Os rios que corriam pela escola eram seu sistema vascular. Levavam alunos das salas para os portões da área externa, para o refeitório e de volta aos quartos. Pequenos barcos trafegavam por esse sistema, guiados por mágica e assistidos por elementais da água. Na medida em que Call, Aaron e Tamara se aproximaram da água, a caverna se tornou mais fria e Call pôde ouvir o ruído da correnteza.
Aaron e Tamara murmuravam a respeito de Call estar levando-os até um barco. O corredor se abriu em uma praia de pedras subterrânea. Lodo fosforescente se agarrava às paredes e ao teto, iluminando o espaço. Peixes cegos nadavam.
— Warren! — chamou Call. — Warren!
Aaron e Tamara trocaram um olhar. Estava claro que achavam que Call tinha enlouquecido.
— Talvez ele precise dormir — disse Tamara.
— Talvez precise comer — disse Aaron.
— Warren! — Call gritou novamente. — O fim está mais próximo do que imagina!
— Lagartos não vêm quando a gente chama — disse Tamara. — Vamos sair daqui, Call...
Alguma coisa se mexeu das pedras acima deles. Então um vislumbre de fogo, uma luz refletindo em algo escamoso. Olhos vermelhos brilharam no escuro. O que parecia um dragão de Komodo minúsculo, com uma barba e uma crista de fogo nas costas, se arrastou na direção deles pelas pedras.
— Warren? — disse Call.
— Ele realmente veio — Aaron pareceu impressionado. — Incrível, Call.
— Sorrateiros. — Warren parecia irritado. — Sorrateiros e incomodando Warren. O que vocês querem, estudantes magos?
— Queremos que nos leve aos elementais adormecidos. Os que são presos pelo Magisterium — respondeu Call.
— Agora? — perguntou Tamara, virando para Call. — Achei que a gente estivesse indo dormir!
— Sim, dormir. Andar furtivamente por aí perigoso — disse Warren. — Túneis muito profundos.
— Você está em dívida com a gente, Warren — disse Call. — Salvamos a sua vida. Não se lembra?
— Já paguei — murmurou Warren. — Avisei. Ultima Forsan.
— Isso não ajuda em nada — disse Call. Ele sabia o que Ultima Forsan era: a frase em latim gravada no jazigo perpétuo do Inimigo da Morte. Significava O fim está mais próximo do que imagina. Call só não conseguia entender como isso poderia ser um alerta útil. — Nos levar até os elementais é o que ajudaria.
— Talvez você não saiba como chegar lá — disse Aaron, provocando o lagarto. Apesar de ter sido ele quem bocejou de sono na biblioteca, agora estava com os olhos brilhando e não parecia nem um pouco cansado. Aaron não era do tipo que gostava de falar sobre fazer coisas, mas sim de fazê-las. — O problema é esse? No fim das contas talvez você não saiba tanto assim sobre o Magisterium.
Os olhos vermelhos de Warren moveram-se rapidamente.
— Eu sei — disse ele. — Sei tudo. Mas isso é perigoso, pequenos estudantes de magos. Assunto perigoso. Posso levar vocês, mas vão ter que enganar a guardiã.
— A guardiã? — perguntou Tamara, apavorada.
Call também gostaria de maiores esclarecimentos, mas Warren, aparentemente decidindo que sua participação na conversa tinha acabado, pulou para a parede de mica brilhante e correu para cima, antes de disparar na direção da entrada da outra caverna.
— Sigam aquele lagarto! — anunciou Call, indo atrás dele.
Tamara resmungou, mas foi atrás.
Ele tinha se esquecido que se deixar guiar por Warren pelas cavernas do Magisterium — inclusive por algumas passagens que talvez jamais tivessem sido usadas por nenhum mago antes deles — era um exercício frustrante e por vezes assustador. O lagarto os conduziu por penhascos naturais e por lagos que pareciam ser de lama fervente. Warren os guiou por recintos nos quais quase engasgaram com o cheiro de enxofre e nos quais tinham que se encolher e desviar para não serem arranhados por estalactites pontiagudas.
Call não sabia ao certo o quanto tinham andado quando sua perna começou a doer — o tipo de dor muscular violenta que só ia piorar. Ele se sentiu idiota por sugerir que fizessem isso, por pensar que poderia andar tanto, mas não podia pedir que Warren parasse — o lagarto estava muito adiantado em relação a eles, pulando de rocha em rocha, os cristais brilhando em suas costas.
E se Tâmara e Aaron parassem para esperá-lo, Warren podia disparar, deixando o grupo perdido nas cavernas. Isso já tinha acontecido antes.
A título de teste, Call invocou magia do ar, empurrando de leve. Ele se lembrou de como Alastair o levou pelos muitos degraus do Collegium. Ele se lembrou de como havia descido sozinho. Tudo que tinha de fazer era se concentrar e empurrar.
Call levitou, rápido o suficiente para ter que morder o lado da bochecha a fim de evitar um grito, mas logo conseguiu se estabilizar. Estava flutuando só um pouco acima do solo e não tinha nenhum peso na perna. Sentiu-se ótimo.
Call foi então propelindo o corpo com o poder da mente, sem tropeçar mais como Aaron e Tamara. Deslizava sobre a terra como se tivesse sido feito para andar assim. Ao prosseguirem, as passagens se aprofundavam na montanha, as paredes tomavam mais lisas e o chão, mais lustroso. Era como se percorressem o corredor de um museu. As portas na pedra de cada lado eram elegantes, decoradas com símbolos alquímicos e alfabetos que Call não conhecia.
Finalmente, Warren parou diante de uma porta imensa feita com os cinco metais do Magisterium — ferro, cobre, bronze, prata e ouro.
— Aqui, estudantes de magos. Aqui está a porta no caminho do caminho. A guardiã está aqui. Vocês devem enfrentá-la para seguir adiante.
— O que a gente faz?
— Respondam os enigmas — disse Warren, que esticou a língua para capturar um inseto que Call não tinha visto até então e correu pelo teto. — Enigmatizem as respostas dela! — gritou ele antes de desaparecer.
— Droga — disse Aaron. — Isso sempre acontece. Odeio enigmas.
Tamara parecia engolir as palavras eu sabia e detestar o gosto delas.
— A gente simplesmente bate? — Call levantou a mão fechada em punho e hesitou.
— Eu bato — Tamara bateu à porta. — Olá? Somos alunos e viemos fazer um projeto...
A porta abriu. Lá dentro, com um terno branco absolutamente intocado, estava Anastasia Tarquin.
Sua nuvem de cabelo prateado estava penteada para trás com firmeza e os brincos de prata em suas orelhas pareciam ter sido enfeitiçados para brilhar daquela forma. Suas sobrancelhas feitas se ergueram ao ver o grupo, e a boca comprimiu-se em uma linha fina.
— Você é a guardiã? — perguntou Aaron, incrédulo.
— Não sei do que você está falando — disse ela, abrindo mais a porta. Atrás dela, dava para ver um longo corredor que descia. Dois meninos com idade de frequentar o Collegium, uniformizados, estavam junto às paredes. Guardas, Call pensou. — O que eu sei é que vocês não deveriam estar aqui.
— O Mestre Rufus quer que comecemos um projeto — disse Call. — Como Tamara disse. É nosso Ano de Bronze e temos que começar a decidir sobre o nosso futuro e responsabilidades. Como estamos pensando em nos especializar em elementais pensamos em, hum, conhecer alguns.
— Os três? — perguntou Anastasia. — Inclusive os dois mágicos do caos? Todos querem se especializar em elementais?
— Estamos pensando. — Aaron respondeu rapidamente. — Não queremos nos precipitar, mas é interessante. Achamos que se pudéssemos ver alguns dos melhores elementais, poderíamos ter certeza do que queremos.
Anastasia Tarquin não pareceu acreditar nem um pouco.
— Temo informar que, apesar de alguns alunos terem sido autorizados a entrar, embora com baixíssima frequência, esse privilégio foi suspenso por motivos que imagino que conheçam.
Automotones. Call se lembrou do enorme monstro de metal vindo para cima deles, rasgando o ar como fogo e garras.
— Agora — disse Anastasia —, a não ser que queiram que eu discuta a questão com Mestre Rufus, sugiro que voltem pelo caminho que vieram, e vamos todos fingir que não nos vimos.
Call olhou de Tamara para Aaron.
— E nada de enigmas — suspirou Aaron. Em seguida, sempre educado, ele virou para Anastasia Tarquin. — Sentimos muito pelo incômodo.
Ela, no entanto, não parecia particularmente encantada por ele. Seus olhos não perderam a rigidez usual.
— Só um instante — disse ela, mas não estava olhando para Aaron. — Callum Hunt. Entre. Gostaria de falar com você. A sós.
— Comigo? — perguntou Call, com a voz levemente esganiçada. Ele não esperava por isso, e com toda a questão do espião, não sabia se queria ficar sozinho com qualquer membro da Assembleia. Mas Anastasia era madrasta de Alex e tinha sido enviada pela Assembleia para protegê-lo. — Tudo bem.
Tamara e Aaron olharam em silêncio para ele. Call tinha toda certeza de que os dois não iriam querer trocar de lugar com ele naquele momento.
Ele passou pela porta que logo em seguida Anastasia fechou com uma batida pesada.
Ela colocou uma das mãos no ombro de Call.
— Você deve estar muito preocupado para vir até aqui procurando respostas — disse ela, sua voz suavizando de um jeito que o deixou nervoso. Call pensou em como as cobras que ele via na televisão faziam uma pequena dança antes de atacarem. — E eu sei o quanto você é próximo de Aaron. Vocês cuidam um do outro, não é?
— Sim? Quer dizer, sim. Aaron, Tamara e eu. Todos nós.
— É muito bom ter amigos próximos — disse Anastasia, assentindo. — Principalmente quando se tem um pai que não aprova magia.
— Meu pai está começando a ceder — disse Call, tentando adivinhar qual era o assunto.
— Quando me casei com o pai de Alex, jurei que jamais tentaria substituir a mãe dele. Eu tinha meus filhos do primeiro casamento e sabia o quanto era importante não tentar me impor onde não me queriam. Tentei ser amiga, guia, mentora. Alguém que pudesse responder as perguntas dele objetivamente, como muitos adultos não fazem. Eu ficaria feliz em fazer o mesmo por você, se algum dia precisar conversar com alguém.
— Hum, tudo bem — disse Call, confuso com toda aquela conversa. Ele tentou olhar um pouco além de Anastasia, ver o que havia escondido atrás dela. Os dois guardas do Collegium estavam completamente mudos, encostados às paredes da sala como armaduras. Havia um jornal em cima de um sofá, provavelmente onde ela estivera sentada, e um corredor que se estendia atrás. Um brilho vermelho profundo iluminava as paredes. — Então, definitivamente não vai nos deixar entrar?
Anastasia pareceu entretida em vez de irritada.
— Você quer que eu diga que deixaria se pudesse, imagino. Mas você não faz ideia do quão perigosos são os grandes elementais. Seria quase o mesmo que jogá-lo na boca de um vulcão. Um amigo jamais o colocaria em perigo, Callum, você entende?
— Porque eu sou um Makar —, disse Call. — Eu entendo, mas...
— Sem “mas”. — Anastasia balançou a cabeça. — Você e Aaron deveriam voltar para dormir. São importantes demais para se arriscarem. Tente se lembrar disto.
Com isso, ela abriu a porta. Quando Call saiu para onde Aaron e Tamara o aguardavam, ouviu a porta bater atrás de si.

8 comentários:

  1. Ela quis dizer que a Tamara não é importante e se ela morrer tanto faz

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    1. É também percebi isso

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    2. Infelizmente, também percebi. Achei que tinha sido ilusão da minha mente, mas pelo visto ñ fui a única...

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    3. Não é? Foi tipo assim, Aaron e Callum são importantes demais para se machucarem, já você, bem, é você.

      Fora que ela perguntou somente de Aaron para Call, como se no grupo só os dois importassem.

      E também: Você e Aaron deviam voltar a dormir. São muito importantes.

      Cadê Tamara ai povo??

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  2. Também percebi, e isso é revoltante.
    Tamara é super importante. Na missão deles, ela quebrou muitos galhos com suas magias.

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  3. "Contudo, eu insisto, insisto, que não tentem capturar o espião por conta própria. Deixem isso conosco."
    É a mesma coisa de pedir:"Por favor,procurem o espião para nós!"
    Eu não gosto dessa Anastasia

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  4. Por mais que a Anastasia seja suspeita (eu suspeito mto dela), agora tenho minhas dúvidas. Exatamente porque está mto óbvio que ela possa ser uma vilã. Ela chamar o Call pra conversar em particular pode ser porque está interessada em dar o golpe do baú, no pai dele kkkkk

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  5. Anastasia parece suspeita, só por isso não vou suspeitar dela. Naa nunca é o que parece. E aquela merda de um deles morrer nunca sai da minha cabeça. Ainda acho que é o Aaron.

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Boa leitura :)