20 de janeiro de 2017

Capítulo seis


Call vagou pelos corredores do Magisterium, dirigindo-se para os lagos frios e os rios que corriam pelas cavernas. Por fim, parou ao lado de um deles, tirou as botas e mergulhou os pés na água lamacenta.
Mais uma vez ficou pensando se ele era ou não uma boa pessoa. Sempre se considerou um garoto tranquilo, igual à maioria das pessoas. Não era terrível, mas também não era ótimo. Normal.
Mas Constantine Madden era um assassino. Um louco perverso que criou monstros e tentou enganar a morte. E Call era Constantine. Então isso não o tomava responsável por tudo que Constantine já tinha feito, mesmo que não se lembrasse?
E agora Call preocupava Aaron, que se preparava para uma ameaça que sequer existia, apenas porque era egoísta.
Call chutou a água, espalhando gotas pra todo lado e assustando os peixes pálidos e sem olhos que tinham se reunido em volta de seus pés.
Exatamente naquele momento um lagarto caiu do teto na pedra ao lado de Call.
— Argh! — gritou Call, levantando-se de um pulo. — O que você está fazendo aqui?
— Eu moro aqui — respondeu Warren, com a língua para fora, pronto para lamber o próprio olho. — Estou olhando você.
Porque aquilo não era nem um pouco bizarro.
Call suspirou. A última vez em que tinha visto o lagarto, Warren conduziu Call, Tamara e Aaron para a sala de um dos Devorados, um mago que tinha usado tanta magia do fogo que se tornara um elemental. O alerta do Devorado soou novamente nos ouvidos de Call: Um de vocês vai fracassar. Um de vocês vai morrer. E um de vocês já está morto.
Agora ele sabia qual dos três era ele. Callum Hunt já estava morto.
— Vá embora — avisou ao lagarto. — Vá embora, ou eu o afogo no rio.
Warren o encarou com olhos arregalados antes de subir pela parede.
— Não sou a única coisa que está observando você — disse ele, antes de desaparecer pela escuridão.
Com um suspiro, Call pegou as botas e voltou descalço para seus aposentos.
Lá, se jogou em um dos sofás e ficou observando a lareira, se concentrando em não pensar nada de mal até Tamara e Aaron voltarem com Devastação trotando atrás deles. Aaron trazia um grande prato de líquen.
Apesar de tudo, o estômago de Call roncou ao sentir o cheiro de frango frito que vinha da massa esverdeada.
— Você não apareceu no jantar — disse Tamara. — Rafe e Kai mandaram oi.
— Está tudo bem? — perguntou Aaron.
— Está. — Call pegou uma garfada de líquen e acrescentou mais uma mentira à lista crescente do Suserano do Mal.


As aulas começaram na manhã seguinte. Pela primeira vez, tinham uma sala de aula só para eles. Ou uma caverna de aula, ele supôs. Era grande, com paredes desiguais de pedra e uma depressão circular no centro. O círculo era um banco afundado, ao redor do qual podiam sentar para as aulas. Havia também uma piscina para praticar magia da água e para oferecer um contrapeso ao fogo.
Além disso, havia um fosso de terra queimada. E — provavelmente só para Aaron — havia um pedestal feito de ferro, sobre o qual havia uma pedra preta, símbolo do vazio.
Aaron, Tamara e Call sentaram no banco enquanto Mestre Rufus alisava um pedaço de uma das paredes. Enquanto gesticulava, faíscas voavam de seus dedos, traçando letras sobre a pedra.
— Ano passado vocês atravessaram o Portal do Controle. Dominaram sua magia. Este ano vamos começar a trabalhar no controle dos próprios elementos.
Rufus começou a andar de um lado para o outro. Ele sempre fazia isso quando pensava.
— Alguns Mestres separam os alunos quanto tem um mago do caos em seu grupo. Eles o ensinam individualmente por acharem que um mago do caos pode interromper o equilíbrio do grupo de aprendizes.
— O quê? — Aaron parecia horrorizado.
— Eu não vou fazer isso. — Rufus franziu a testa para eles. Call ficou imaginando como era para ele ser o Mestre que tinha acabado com o Makar em seu grupo. A maioria dos Mestres mataria para ter essa oportunidade, mas a maioria dos mestres não era Rufus. Ele havia sido o professor de Constantine Madden, e aquilo deu muito errado. Talvez não quisesse mais correr riscos. — Aaron vai ficar com o grupo. E entendo que Call será seu contrapeso, certo?
Aaron olhou para Call como se estivesse esperando que o amigo retirasse a oferta.
— Eu serei — assegurou Call. — se ele ainda quiser.
Isso fez com que Aaron abrisse um sorriso torto.
— Eu quero.
— Ótimo — assentiu Mestre Rufus. — Então trabalharemos exercícios de contrapeso, todos nós. Terra, ar, água e fogo. Aaron, quero que você seja proficiente em tudo isso antes de tentar utilizar Call como seu contrapeso.
— Porque eu poderia machucá-lo — concluiu Aaron.
— Poderia matá-lo — corrigiu Mestre Rufus.
— Mas não vai — garantiu Tamara a Aaron.
Call fez uma careta, imaginando o quão próximos os dois tinham se tornado durante o verão, e se havia outra razão pela qual Aaron não havia mencionado a estadia na casa de Tamara.
Tamara olhou para Call com uma expressão estranhamente intensa.
— Não vou deixar nada de mal acontecer a você.
— Tenho certeza de que ninguém acha que você machucaria um amigo de propósito. — Mestre Rufus olhava para Call. — E vamos nos certificar de que nenhum de vocês se machuque por acidente.
Call bufou. Era exatamente aquilo que ele queria aprender. Como não machucar ninguém, nunca, nem por acidente. Aaron pareceu horrorizado.
— Posso simplesmente não ter um contrapeso, já que ele pode morrer?
Mestre Rufus olhou para ele com alguma coisa que poderia ser pena.
— A magia do caos exige muito do Makar, e nem sempre é fácil perceber quando você está exagerando. Você precisa de um contrapeso para sua própria segurança, mas seria melhor se você nunca necessitasse fazer uso de um.
Call tentou sorrir para Aaron de forma a encorajá-lo, mas o amigo não o encarava.
Mestre Rufus seguiu enumerando o resto dos estudos daquele ano. Partiriam em missões na floresta que cercava o Magisterium e fariam pequenas tarefas — moveriam os cursos dos rios, apagariam labaredas, observariam os arredores e colheriam itens para análises mais cuidadosas. Algumas das missões incluiriam outros grupos de aprendizes, e, eventualmente, todos os alunos do Ano do Cobre seriam enviados juntos para capturar elementais rebeldes.
Call pensou em acampar sob as estrelas com Tamara, Aaron e Devastação. Parecia incrível. Poderiam esquentar marshmallows — ou ao menos torrar líquen — e contar histórias de fantasmas. Até o Ano de Cobre acabar e o verão recomeçar, poderiam fingir que o resto do mundo e todas as expectativas que ele envolvia não existiam.


Naquela noite, Call estava a caminho do Portão das Missões com Devastação quando Célia o alcançou. Ela havia trocado o uniforme que usava durante as horas escolares e trajava uma saia cor-de-rosa felpuda e uma blusa listrada de rosa e verde.
— Está indo para a Galeria? — perguntou ela, um pouco ofegante. — Podemos ir juntos.
Normalmente ele adorava as piscinas quentes, as bebidas gasosas e os filmes da Galeria, mas não sabia se queria ficar perto de tanta gente naquele momento.
— Só estava levando Devastação para dar uma volta.
— Vou junto. — Ela sorriu para ele, como se realmente achasse que ficar lá fora no escuro infestado de mosquitos com ele fosse tão divertido quanto a Galeria. Ela se abaixou para afagar a cabeça de Devastação.
— Hum, tudo bem. — Call não conseguia esconder a própria surpresa. — Ótimo.
Saíram e ficaram observando enquanto Devastação farejava pedaços de ervas daninhas. Vagalumes iluminavam o ar, como faíscas de uma fogueira.
— Gwenda trouxe um animal clandestinamente esse ano — informou Célia, de forma abrupta. — O nome dele é Bola de Pelo. Ela disse que como vocês têm um lobo o furão dela não será problema. O bicho nem é Dominado pelo Caos. Mas Jasper é alérgico, então não sei se Gwenda pode manter Bola de Pelo, independentemente do que diga.
Call sorriu. Qualquer coisa que fosse ruim para Jasper, tinha de ser boa para o mundo.
— Acho que gosto de Bola de Pelo.
No fim das contas, Célia se mostrou uma excelente fonte de informação. Ela contou a Call qual aprendiz estava sofrendo com uma coceira estranha, quem tinha piolho de caverna, que aluno do Ano de Ferro supostamente fez xixi na cama. Célia sabia que Alex e Kimiya tinham terminado e que Alex estava chateado. Ela também acusou Rafe de não valer nada.
— Como assim? Ele cola nas provas? — perguntou Call, confuso.
— Não. — Célia riu. — Ele beijou uma garota na boca depois que contou para outra que gostava dela. É Susan DeVille quem cola em provas. Ela escreve as respostas no pulso com tinta invisível e depois usa magia para transformar em tinta roxa.
— Você sabe tudo — comentou Call, impressionado. Ele não fazia a menor ideia de que aprendizes estavam confessando para outros aprendizes que gostavam uns dos outros. — E Jasper? Conte-me alguma coisa ruim sobre Jasper.
Ela o olhou com reprovação.
— Jasper é legal. Não sei de nada ruim sobre ele.
Call suspirou desapontado, justamente quando Devastação voltou com um galho enorme e cheio de folhas na boca. Largou-o aos seus pés, abanando o rabo, como se tivesse trazido um graveto de tamanho normal e quisesse que Call o arremessasse.
Após um momento de silêncio espantado, tanto Call quanto Célia começaram a rir.
Depois daquela noite, Célia se tomou companhia quase constante nas caminhadas noturnas de Devastação. Às vezes, Tamara e Aaron também iam, mas, como Tamara levava Devastação para passear de manhã e Aaron tinha muito trabalho extra por ser o Makar, na maioria das vezes eram apenas Call e Célia.
Certa noite, perto do fim de setembro, outra pessoa se juntou a Call na trilha fora da escola. Por um segundo, quando viu um menino pulando na direção dele de calça jeans e casaco — o calor tinha dado trégua e definitivamente havia um frio no ar —, pensou que fosse Aaron, mas, ao se aproximar, Call percebeu que era Alex Strike.
Ele parecia desalinhado e um pouco pálido, apesar de que podia ser só uma questão de o bronzeado do verão estar desbotando. Call estava parado no caminho segurando a coleira de Devastação, esperando enquanto Alex se aproximava. Call ficou definitivamente confuso. Desde o começo das aulas, Alex sequer havia sorrido para ele no Refeitório, e, se Alex ainda andava ajudando Mestre Rufus, Call não o viu. Presumiu que Alex estivesse evitando o grupo por causa de Kimiya, e também porque, bem, Alex era um dos garotos mais populares da escola e provavelmente não tinha tempo para um bando de alunos do Ano de Cobre.
Mas agora Alex definitivamente estava procurando por ele. Levantou a mão para cumprimentá-lo ao se aproximar de Call e Devastação.
— Oi, Call. — Ele se abaixou para afagar o lobo. — Devastação, quanto tempo.
Devastação ganiu, parecendo mortalmente ofendido.
— Achei que estivesse nos evitando — comentou Call. — Por causa de Kimiya.
Alex se recompôs.
— Você em algum momento não fala o que está pensando?
— Essa, de algum jeito, parece uma pergunta capciosa — refletiu Call.
Devastação puxou a coleira, e Call começou a caminhar pela trilha, seguindo lobo. Alex trotou atrás dele.
— Na verdade era sobre a Kimiya que eu queria conversar com você — revelou Alex. — Você sabe que a gente terminou...
— Todo mundo sabe. — Call fechou o zíper do casaco de capuz. Chovera recentemente, e as árvores estavam pingando.
— Tamara comentou alguma coisa sobre Kimiya com você? Sobre se ela ainda está com raiva de mim?
Devastação puxou a coleira. Call o soltou, e o lobo correu atrás de alguma coisa, provavelmente um esquilo.
— Acho que Tamara nunca me falou nada sobre Kimiya e você — respondeu Call, confuso. O primeiro instinto era dizer que não havia razão para lhe perguntar o que quer que fosse, porque ele não entendia nada sobre garotas e muito menos sobre namoro. Além disso, Tamara nunca mencionava as escolhas amorosas da irmã. E Kimiya era tão bonita que provavelmente já tinha outro namorado àquela altura.
Porém, o segundo instinto dizia que o primeiro era coisa de Suserano do Mal, Suseranos do Mal não ajudavam os outros com suas vidas amorosas.
Ele, Call, poderia ajudar Alex.
— Tamara tem um certo temperamento — continuou Call. — Quero dizer, ela se irrita com facilidade. Mas não permanece irritada por muito tempo. Então, se Kimiya for como a irmã, provavelmente não está mais irritada. Você pode tentar falar com ela.
Alex fez que sim com a cabeça, mas não parecia que Call estava falando nada que ele já não tivesse pensado.
— Ou você pode tentar não falar com ela — continuou Call. — Quando eu não falo com Tamara, ela vem e me bate, então essa pode ser uma forma de Kimiya vir até você primeiro. Além disso, uma vez que ela te bater, o gelo se quebra.
— Ou meu ombro — completou Alex.
— Quero dizer, se não funcionar, então, como dizem, “se você ama alguém, liberte-o, não prenda no subterrâneo ou em uma caverna”.
— Não acho que a citação seja assim, Call.
Call olhou para Devastação correndo pela grama.
— Só não mostre a ela quem você é de verdade — disse Call. — Finja que é uma pessoa que ela pode amar, e aí ela vai amar. Porque, de qualquer jeito, as pessoas amam quem elas pensam.
— Quando você se tomou tão cínico? Herdou de seu pai?
Call fez uma careta. Não sentia mais a menor vontade de ajudar
— Isso não tem nada a ver com meu pai. Por que trazê-lo para a conversa?
Alex recuou, levantando as mãos.
— Ei, tudo que sei é o que as pessoas dizem. Que ele foi amigo do Inimigo da Morte um dia. Já fez parte do grupo de magos dele. E agora odeia os magos e tudo que se relacione a magia.
— E daí se odeia? — Call se irritou.
— Ele já procurou alguém? Algum mago? Alguém de quem costumava ser amigo?
Call balançou a cabeça.
— Acho que não. Ele tem uma vida diferente agora.
— É horrível quando as pessoas são solitárias — comentou Alex. — Minha madrasta ficou solitária quando meu pai morreu, até entrar para a Assembleia. Agora ela é feliz controlando a vida de todo mundo.
Call queria negar que Alastair não era feliz com seus novos amigos nerds e que nada sabiam sobre magia. Mas lembrou-se da rigidez na mandíbula do pai, na quietude ao longo dos anos, na forma assombrada que ele assumia algumas vezes, como se os fardos que carregava fossem pesados demais para suportar.
— É — falou Call afinal, estalando os dedos. Devastação correu pela montanha em sua direção, as garras arranhando a terra molhada. Tentou não pensar no pai, sozinho, em casa. No que o pai pensou quando Mestre Rufus disse que Call não queria nem o ver. — É horrível.
Pensou nisso no dia seguinte enquanto ouvia a aula de Mestre Rufus sobre o uso avançado de elementos. Mestre Rufus caminhava de um lado para o outro na frente da turma, explicando como elementais rebeldes eram perigosos e normalmente precisavam ser eliminados, porém ocasionalmente os magos os consideravam úteis quando os enfeitiçavam para lhes servir.
— Voar, por exemplo, exaure nossas energias mágicas — O Mestre Rufus.
Aaron levantou a mão, um reflexo dos anos passados na escola pública.
— Mas controlar os elementais também não gasta energia mágica?
Mestre Rufus fez que sim com a cabeça.
— Interessante sua pergunta. Sim, gasta energia, mas não de forma contínua. Uma vez que você domina um elemental, mantê-lo exige menos energia. Quase todos os magos têm um ou dois elementais a seu dispor. E escolas como o Magisterium têm muitos.
— O quê? — Call olhou ao redor, meio que esperando ver um dragonete aquático tentando quebrar a parede de pedra.
Mestre Rufus ergueu uma das sobrancelhas,
— Como você acha que os uniformes ficam limpos? Ou os quartos de vocês, aliás?
Call nunca tinha pensado muito naquele tipo de coisa, mas ficou nervoso. Será que alguma criatura como Warren estava esfregando suas cuecas? Ficou ligeiramente alarmado com aquilo. Mas talvez isso fosse apenas um preconceito de espécie. Talvez precisasse abrir mais a cabeça.
Lembrou-se de Warren mastigando os peixes cegos. Talvez não.
Mestre Rufus prosseguiu, chegando ao ponto que queria.
— E, claro, há os elementais que usamos em exercícios, embora alguns também sejam utilizados para a defesa da escola. Elementais antigos, que dormem profundamente nas cavernas, à espera.
— À espera do quê? — perguntou Call, com olhos arregalados.
— A invocação para a batalha.
— Está falando sobre se a guerra começar de novo. — A voz de Aaron não expressava nenhuma emoção. — Eles serão enviados para combater o inimigo.
Mestre Rufus fez que sim com a cabeça.
— Mas como vocês conseguem fazer para que eles os obedeçam? — insistiu Call. — Por que concordariam em ficar tanto tempo dormindo, e depois acordar só para a luta?
— Eles estão ligados ao Magisterium por uma antiga magia elemental — explicou Rufus. — Os primeiros magos que fundaram a escola os capturaram, eliminaram seus poderes e os posicionaram a muitos quilômetros debaixo da terra. Eles despertam ao nosso comando e são controlados por nós.
— E no que isso nos difere do Inimigo e dos Dominados pelo Caos? — De algum jeito, Tamara pegou as duas tranças e as transformou em um coque torto preso por uma caneta.
— Tamara! — retrucou Aaron. — É completamente diferente. Os Dominados pelo Caos são do mal. Exceto Devastação — acrescentou ele, mais que depressa.
— Então o que são essas coisas? Criaturas boas? — Tamara quis saber. — Se são boas, por que mantê-las presas no subterrâneo?
— Não são nem más, nem boas — respondeu Rufus. — São muitíssimo poderosas, como os Titãs gregos, e não se importam nem um pouco com os seres humanos. Aonde vão, a morte e a destruição seguem em seu encalço, não porque queiram matar, mas porque não entendem nem reconhecem o que fazem. Culpar um grande elemental por destruir uma cidade seria o mesmo que culpar um vulcão por entrar em erupção.
— Então eles precisam ser controlados para o bem de todos. — Call foi capaz de ouvir a dúvida e a desconfiança na própria voz.
— Um dos elementais metálicos, Automotones, escapou depois da batalha de Verity Torres com o Inimigo — lembrou Rufus. — Ele destruiu uma ponte. Os carros que estavam sobre ela caíram na água. Pessoas se afogaram antes de ele ser devolvido ao seu lugar debaixo do Magisterium.
— Ele não foi punido? — Tamara parecia particularmente interessada no tema.
Rufus deu de ombros.
— Como eu disse, seria como punir um vulcão por entrar em erupção. Precisamos dessas criaturas. São tudo o que temos para igualarmos a força dos Dominados pelo Caos de Constantine.
— Podemos ver alguma? — perguntou Call.
— O quê? — Rufus fez uma pausa, com a caneta em uma das mãos.
— Quero ver uma. — Nem Call sabia ao certo por que estava pedindo aquilo.
Alguma coisa o atraía na ideia de uma criatura que não era nem boa, nem ruim. Que nunca tinha de se preocupar com o próprio comportamento. Uma força da natureza.
— Daqui a algumas semanas vocês começarão a ter missões — disse Rufus. — Ficarão sozinhos fora do Magisterium, viajando, conduzindo projetos. Caso sejam bem-sucedidos nessas tarefas, não vejo razão para que não possam ver um elemental adormecido.
Bateram à porta e, depois que Rufus autorizou a entrada, a empurraram. Rafe entrou. Ele parecia muito mais feliz desde a saída de Mestre Lamuel do Magisterium, mas Call ficou imaginando se ele havia ficado com medo de voltar à escola após a morte de Drew.
— Mestre Rockmaple mandou isso para você. — Ele estendeu um papel dobrado para Mestre Rufus.
O professor o leu e, em seguida, amassou o bilhete em uma das mãos. O papel pegou fogo, escurecendo até se transformar em cinzas.
— Obrigado — agradeceu ele a Rafe com um aceno de cabeça, como se queimar correspondências fosse uma atitude totalmente razoável. — Diga ao seu mestre que o encontrarei no almoço.
Rafe se retirou, com os olhos arregalados.
Call queria desesperadamente saber o que havia naquele papel. O problema de guardar um grande segredo era que toda vez que alguma coisa acontecia, Call se preocupava com a possibilidade de ter alguma coisa a ver com ele.
Entretanto, Mestre Rufus sequer olhou em sua direção ao retomar a aula.
Como nada de especial aconteceu nos dias subsequentes, Call esqueceu de se preocupar.
Na medida em que as semanas passavam e as folhas nas árvores começavam a ficar amarelas, vermelhas e laranjas, como um fogo conjurado, ficava cada vez mais fácil para Call se esquecer de que tinha um segredo.

8 comentários:

  1. Vixii!!! Ele perguntando coisa que não quer perguntar, acho que isso é coisa do Constantini Madem.

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    1. Constantine Madden tem fome de poder, é curioso, e ele tem essas características, obviamente, acho isso interessante.

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  2. Titãs Gregos... Saudades de Percy Jackson... ;-;

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  3. Passional essa garota ein? tudo isso por uma tia que nem conheceu

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  4. Os elementais do Magisterium parecem os elfos domésticos em HP!

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  5. Torcendo aqui para que Call domine Constantine

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  6. Eu sempre confundo o mestre Lamuel como mestre Rockmaple, e eu nem sei o porque

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Boa leitura :)