20 de janeiro de 2017

Capítulo quinze


Call correu pelas escadas o mais rápido que conseguia, xingando a própria perna por atrapalhá-lo enquanto as paredes eram devoradas pelo nada. Ao redor, a escuridão quase o alcançava, como se quisesse puxá-lo para um abraço eterno.
A magia do caos que ele tinha liberado, mas não fazia ideia de como conter.
— Call — gritava Alastair do corredor, as mãos erguidas para segurar o teto acima deles com magia. — Call, onde você está? Call!
Ele correu para o pai, as pedras girando sobre eles, pedras que teriam caído se o pai não tivesse voltado para buscá-lo.
— Aqui — respondeu ele, sem fôlego. — Estou bem aqui.
— Agora vamos juntos. Alastair esticou um dos braços, e Call viu que a mão queimada do pai havia se curado; não completamente, mas as marcas negras borbulhantes se transformaram em pele vermelha e apenas machucada. — Magia de cura — explicou Alastair ao ver a expressão surpresa de Call. — Vamos, apoie-se em mim.
— Tudo bem. — Call permitiu que o pai deslizasse um dos braços sobre seus ombros e o ajudasse a passar pelos corpos de Drew e Jericho, pela cabeça risonha de Verity, até o gramado onde Jasper, Tamara e Aaron aguardavam; Aaron com as duas mãos erguidas, obviamente fazendo tudo que estava ao seu alcance para conter a magia do caos que tentava destruir a tumba. Assim que viu Call e Alastair, caiu de joelhos.
A escuridão rugiu como as cinzas de um vulcão. Call e Alastair pararam. Call desabou sobre o pai enquanto assistiam ao jazigo perpétuo do Inimigo da Morte ser devorado pela magia do caos. Uma escuridão espessa e oleosa cobriu a construção. Tentáculos deslizavam do lado de fora, como plantas. Enquanto assistia, Call percebeu que aquela massa não era de fato negra — era algo mais escuro, algo que seus olhos tentavam traduzir em algum termo que fizesse sentido, porque o que ele estava vendo era simplesmente o nada. E tudo o que o nada tocava deixava de existir, até estarem olhando para a terra lisa, onde um dia existiu um mausoléu, a risada estranha e terrível de Verity ainda pairando no ar.
— Acabou? — perguntou Jasper.
Aaron o olhou, exaurido.
— O mausoléu foi para o mesmo lugar ao qual mandei o Automotones...
— Automotones? — Alastair pareceu chocado pela declaração. — Mas ele está preso nas profundezas do Magisterium.
— Estava — corrigiu Call. — O Magisterium o mandou atrás da gente.
Alastair respirou fundo, de um jeito que só fazia quando estava irritado, surpreso ou os dois. Deu alguns passos para longe do resto do grupo, obviamente tentando clarear as ideias. Call ajeitou a mochila no ombro. Estava exausto.
Mestre Joseph havia escapado — e, pior, tinha escapado com o Alkahest, o dispositivo que Call tentara manter longe dele. O exército enorme de Dominados pelo Caos tinha desaparecido. Mestre Joseph provavelmente ordenou que o levassem de volta à costa. Provavelmente também tinha levado todos os barcos, só por ser um babaca.
De repente, Call se lembrou de que Devastação estava com os Dominados pelo Caos, e, se Mestre Joseph conseguia comandar todos eles, provavelmente também conseguiria controlar o lobo.
— Devastação! — gritou ele. O pânico lhe subia pelo peito. — Devastação!
Como pôde deixar seu lobo de fora do mausoléu? Tinha deixado Devastação para trás, como se ele fosse um cachorro, quando ele era muito mais que isso.
Call correu pela trilha de volta à praia, a perna doendo, praticamente se debulhando em lágrimas, chamando pelo lobo. Era mais uma coisa para a qual não estava preparado, mais uma coisa que não podia suportar.
— Call! — gritou o pai. Call se virou e viu Alastair parecendo exausto, caminhando pela trilha com Devastação logo atrás. Call o encarou. A mão que não havia sido queimada estava enterrada no pelo de Devastação, e havia cinzas na pelagem do lobo, mas fora isso ele não parecia ferido. — Ele está bem. Você correu antes de podermos avisar, mas ele tentou voltar ao mausoléu. Tivemos de contê-lo, mas não foi fácil.
— Seu pai o conteve — falou Aaron.
Devastação deu alguns passos em direção a Call, que estendeu os braços. O lobo correu para ele, lambendo o rosto do dono.
— Isso é muito mais comovente que o que você passou comigo — disse Tamara.
Ela cuidava dos cortes e arranhões de Aaron, utilizando a magia da terra para curar os piores. Já tinha consertado o lábio sangrento de Jasper.
Call afagou a cabeça de Devastação.
— Eu deveria saber que Mestre Joseph não iria sequestrá-lo. Ele só gosta de coisas mortas e estranhas.
— Somos todos estranhos — observou Tamara. Ela examinou Aaron. Ele tinha usado o que só podia ser uma quantidade imensa de magia caótica sem um contrapeso e, apesar de ainda estar de pé, parecia à beira de um colapso. — Bem, não está mais sangrando, mas não sei o suficiente sobre magia de cura para checar se você está com alguma torção ou alguma coisa quebrada ou...
— Alguém vai falar sobre o fato de que Call é um Makar? — perguntou Jasper, interrompendo o assunto.
Todos pareceram horrorizados.
— Jasper! — disse Tamara.
— Ah, desculpe. Não sabia que estávamos fingindo que não aconteceu. — Ele se voltou para Call. — Você já sabia que era um Makar? Ah, espere, esqueça, lembrei que não posso acreditar em nada do que diz.
— Ele não sabia — garantiu Alastair. — A magia do caos estava no corpo de Constantine, e, quando o corpo foi destruído, a magia foi liberada. Deve ter sido atraída pela alma de Call. Quando Constantine se tornou um Makar, foi porque seu irmão estava em perigo. Jericho foi atacado por um elemental rebelde nas cavernas, e Constantine o fez desaparecer.
Tamara apertou os olhos na direção do pai de Call.
— Como sabe disso?
— Porque eu fazia parte do grupo de aprendizes dele — respondeu Alastair. — Éramos cinco. Sarah, Declan, Jericho, Constantine e eu. Rufus era nosso Mestre.
Aaron, Tamara e Jasper o encararam.
— Dizem que Constantine obteve resultados perfeitos no Desafio de Ferro. Resultados perfeitos — enfatizou Jasper.
— Éramos os melhores de nosso ano. — Alastair soou cansado e distante, como se estivesse falando sobre alguma coisa que tinha acontecido há um milhão de anos.
— Você era amigo de Constantine? Amigo próximo? — Aaron quis saber.
Apesar de estar bagunçado, sangrento e sujo, ele parecia pronto para se defender, para defender a todos eles.
— Ele, Jericho e Sarah eram meus melhores amigos. Vocês sabem como são os grupos de aprendizes.
— Por falar nisso... — Tamara lançou um olhar preocupado para Aaron. — Precisamos descobrir como tirar este grupo de aprendizes daqui.
— Boa lógica — murmurou Call.
Tamara olhou feio para ele.
— Magia da água. — Alastair foi andando até a beira da praia. — Peguem um pouco de madeira. Vamos montar uma jangada.
De repente, a praia toda se acendeu como se um farol a tivesse iluminado.
Call cambaleou para trás, agarrando a mochila, os dedos enterrados na alça. Ele ouviu Jasper gritar alguma coisa, e, em seguida, os magos estavam voando sobre eles.
Mestre North, Mestre Rockmaple, Mestra Milagros e Mestre Rufus pairavam no ar.
— Pai — gritou Call, correndo para Alastair. — Eles vão matá-lo, você precisa fugir. Posso tentar segurá-los!
— Não! — insistiu Alastair contra o vento. — Mereço a punição por ter roubado o Alkahest, mas não sou eu quem está correndo perigo de verdade...
— CALLUM — chamou Mestre Rufus. — TAMARA. AARON. ALASTAIR. JASPER. NÃO RESISTAM.
E, com isso, o ar girou em volta de Call, engrossando e os levantando para o céu. Apesar do que Mestre Rufus disse, ainda assim Call resistiu.
— O mausoléu devia estar nos escondendo deles — cogitou Tamara. — Devia ter um feitiço antirrastreamento sob o lugar, da mesma forma que no Magisterium. Mas agora que o mausoléu foi destruído, eles nos encontraram.
— Não nos machuquem! — implorou Jasper. — Nós nos rendemos!
Mestre North ergueu as mãos, e, das nuvens, surgiram três elementais longilíneos, que pareciam enguias. Eram grandes e plácidos, até abrirem as enormes bocas. Ele viu um deles engolir Aaron. Um instante mais tarde, o segundo elemental acelerava em sua direção, com uma barriga enorme o esperando.
— Aaaaugh! — grunhiu Call ao ir para dentro dele. Esperava aterrissar no estômago da criatura, mas o lugar onde caiu parecia suave, amorfo e seco, como imaginou que seria deitar em nuvens, apesar de ele saber que nuvens na verdade eram feitas de água.
Devastação veio rolando atrás dele, parecendo muito assustado. O lobo Dominado pelo Caos uivou, e Call correu para tentar acalmá-lo. Call não sabia ao certo se Devastação se acostumaria a voar. Então veio Alastair, as mãos ainda levantadas, como se estivesse no meio de um feitiço.
O elemental começou a se movimentar, nadando pelo céu, seguindo os magos de volta ao Magisterium. Call sabia para onde estava indo porque conseguia enxergar através da criatura em certos pontos. Sua pele era opaca e nebulosa em alguns lugares, e translúcida em outros. Mas, onde quer que ele tocasse, o elemental parecia uma coisa sólida.
— Pai? — chamou Call. — O que está acontecendo?
— Acho que os magos querem se certificar de que não iremos escapar, então criaram uma prisão dentro de um elemental. Impressionante! — Alastair se sentou na barriga de nuvem da criatura. — Vocês quatro devem ser bem escorregadios.
— Acho que sim. — Call sabia o que precisava contar ao pai, o que queria dizer desde que encontrou as cartas para Mestre Joseph. — Sinto muito pelo que aconteceu. Você sabe, neste verão.
Alastair olhou para Devastação, que tentava ficar de pé, mas as patas escorregavam. Call seguiu o olhar e se lembrou de que não se arrependia de tudo.
— Sinto muito também, Callum — respondeu Alastair. — Você deve ter se assustado muito com o que viu na garagem.
— Temi que você fosse machucar Devastação — disse Call.
— Só isso?
Call deu de ombros.
— Achei que você fosse usar o Alkahest para testar sua teoria sobre mim. Tipo, se eu morresse, então eu realmente era...
Alastair o interrompeu.
— Eu entendi. Não precisa falar mais nada. Não quero que ninguém nos ouça.
— Quando começou a desconfiar?
Call percebeu o cansaço no rosto de Alastair.
— Há muito tempo. Talvez desde que eu deixei a caverna.
— Por que não disse nada, pelo menos para mim?
Alastair olhou em volta, como se estivesse tentando determinar se o elemental estaria ouvindo a conversa.
— De que adiantaria? — respondeu, afinal. — Achei que era melhor que você não soubesse. Talvez fosse melhor que jamais soubesse. Mas não podemos falar mais sobre isso agora.
— Você está bravo comigo? — A voz de Call saiu fraca.
— Pelo que aconteceu no depósito? Não, estou bravo comigo mesmo. Desconfiei que Mestre Joseph estivesse tentando entrar em contato; me preocupei com a possibilidade de ele já ter posto as garras em você. Achei que, se você soubesse mais, poderia se sentir tentado pela ideia do poder. E, depois que ele começou a escrever para mim, tive medo do que ele poderia querer fazer com você. Mas me esqueci do medo que você devia estar sentindo.
— Achei que tivesse machucado você de verdade. — Call deixou a própria cabeça cair sobre a maciez da parede do elemental. A adrenalina abandonava rapidamente seu corpo, deixando apenas a exaustão no lugar. — Achei que eu fosse tão terrível quanto...
— Estou bem — disse Alastair. — Está tudo bem, Callum. As pessoas não iniciam guerras porque se irritam ou perdem o controle sobre a própria magia.
Callum não tinha certeza se isso era verdade, mas estava cansado demais para discutir.
— Você nunca deveria ter ido ao mausoléu, Callum, você sabe disso, não sabe? Devia ter me deixado cuidar das coisas. Se Joseph tivesse conseguido fazer o que planejou, quem sabe o que teria feito com você. — Alastair estremeceu.
— Eu sei — respondeu Call. Se sua alma tivesse sido transportada para o corpo de Constantine, talvez todas as suas lembranças como Callum tivessem desaparecido, o que, quando se permitiu pensar a respeito, parecia um destino muito pior que a morte.
Mas, quanto mais longe vagavam seus pensamentos, mais a exaustão tomava conta de seu corpo. Lembrou-se de como Aaron se sentiu esgotado após usar a magia do caos em Automotones.
Vou só fechar os olhos por um instante, disse ele a si mesmo.
Quando Call acordou, foi porque havia braços em torno dele, e ele se movia. Percebeu que estava sendo carregado sobre as pedras do lado de fora do Magisterium. Abriu um dos olhos e observou ao redor.
A luz da manhã queimou os olhos de Call. Imaginou que devia ser mais ou menos a hora do café da manhã. Os Mestres North e Rockmaple estavam atrás dele, observando junto a enormes elementais. Pareciam severos e firmes.
Devastação, Tamara, Aaron e Jasper seguiam Mestre Rufus por uma trilha até um portão na parede do Magisterium. Alastair ia atrás, e ele estava carregando Call de um jeito que não fazia desde que o filho era pequeno, deixando que a cabeça encostasse em seu ombro.
A mochila. Call tentou pegá-la, e percebeu que o pai também a carregava em um dos ombros. Suspirou aliviado.
— Quer descer? — perguntou Alastair em voz baixa.
Call não disse nada. Parte dele queria descer sobre seus pés imperfeitos. Outra parte pensou que aquela provavelmente seria a última vez em que seu pai o carregaria.
As pedras tinham dado lugar a um gramado ao lado do Magisterium. Estavam diante de duas portas de cobre, talhadas em forma de curvas que pareciam chamas.
Sobre a porta as palavras: AQUELE QUE NÃO AMA NADA NÃO ENTENDE NADA.
Call respirou fundo.
— Sim.
O pai o colocou no chão, e a dor habitual subiu por sua perna. Alastair lhe entregou a mochila, e Call a ajeitou sobre um dos ombros.
— Jamais vi essa porta antes — comentou Tamara.
— Esta é a entrada para o Magisterium utilizada pela Assembleia — informou Mestre Rufus. — Nunca imaginei que algum de vocês fosse ter motivo para usá-la.
Durante o tempo em que esteve no Magisterium, Call havia sentido muita coisa em relação àquele lugar. Começou com medo, depois passou a se sentir em casa, depois aquilo se tomou um refúgio onde podia se proteger do pai, e agora, mais uma vez, era um lugar em que ele não sabia se podia confiar.
Talvez Alastair estivesse certo o tempo todo, afinal. Certo em relação a tudo. Mestre Rufus tocou o bracelete nas portas, e elas se abriram. O corredor ali dentro não se parecia em nada com os outros corredores do Magisterium, com as paredes de pedra habituais e o chão de terra. Aquele corredor era revestido com cobre polido, e a cada passo Call via símbolos de um elemento — ar e metal, fogo e água, terra e caos —, com palavras em latim abaixo.
Rufus chegou a um ponto na parede que parecia exatamente igual a todos os outros. Encostou o bracelete outra vez, e então um pedaço de metal do tamanho de uma porta deslizou para expor uma sala. Era uma sala de paredes nuas, com pedra aparente, ladeada por um longo banco de pedra.
— Vocês, esperem aí — ordenou ele. — Mestre North e Mestre Rockmaple logo estarão de volta para acompanhá-los à sala de reunião. A Assembleia está reunida agora para decidir o que fazer com vocês.
Tamara engoliu em seco. Seus pais eram da Assembleia. Jasper parecia apavorado, e até Aaron estava desconfortável.
— Eu levo Devastação. — declarou Rufus, e levantou a mão antes que Call pudesse protestar. — Ele estará perfeitamente seguro nos aposentos de vocês, o que é mais do que eu poderia oferecer se o levássemos conosco. A Assembleia não morre de amores por animais Dominados pelo Caos.
Ele estalou os dedos, e Devastação trotou para perto dele. Call lançou um olhar sombrio de traição para o lobo.
— Alastair — chamou Rufus, — Venha até aqui um instante.
Alastair pareceu surpreso, em seguida se aproximou de Rufus. Os dois se entreolharam. A mudança na expressão de Rufus foi sutil, mas Call teve a impressão de perceber, no rosto do Mestre, que o Alastair que ele via era muito diferente do homem que Call enxergava quando olhava para o pai. Parecia que ele via um menino, talvez da idade de Call, com cabelos escuros e olhos travessos.
— Seja bem-vindo de volta ao Magisterium, Alastair Hunt — saudou Rufus. — Este lugar sentiu sua falta.
Quando Alastair olhou de volta para Mestre Rufus, não exibia raiva na expressão. Parecia apenas esgotado, o que fez o estômago de Call revirar.
— Não senti a menor falta daqui — retrucou. — Olhe, toda essa situação é culpa minha. Deixe as crianças voltarem para seus quartos e me ponha diante da Assembleia. Não me importo com o que farão.
— É um bom plano — declarou Jasper, levantando-se.
— Sente-se, deWinter — ordenou Mestre Rufus. — Tem sorte por Mestra Milagros não estar aqui. Ela queria pendurá-los no Poço sem Fundo.
— No quê? — Call perguntou.
Jasper se sentou mais que depressa enquanto Mestre Rufus se inclinava para a frente a fim de dizer alguma coisa a Alastair, algo que Call não conseguiu ouvir. Mestre Rufus recuou com Devastação e, mais uma vez, tocou o bracelete na parede. A porta se fechou, trancando-os na sala.
Call respirou fundo. Estava satisfeito por poder falar diante da Assembleia. Precisava ficar. Precisava explicar antes que outra pessoa o fizesse. Precisava mostrar o que não acreditariam de outra forma.
Olhando para Jasper, Call tentou adivinhar o que ele poderia contar à Assembleia. Definitivamente falaria sobre o sequestro — então Call tinha de falar primeiro, para transmitir o que precisava antes de os guardas o arrastarem.
Jasper olhou para ele com olhos pensativos.
— O que vamos falar? — perguntou ele. — Quero dizer, qual é o plano, sobre contar para a Assembleia?
— Contaremos a verdade — respondeu Call. — Contaremos tudo.
— Tudo? — Aaron pareceu espantado.
Call sentiu o estômago apertar ainda mais. Será que Aaron estava pronto para mentir por ele?
— Call tem razão — concordou Alastair. — Pensem em termos práticos. A pior coisa a se fazer é cair em contradição lá dentro. Só se contarmos exatamente a verdade contaremos a mesma história.
— Não sei porque estamos ouvindo os conselhos de um criminoso procurado — murmurou Jasper.
— Todos nós somos criminosos procurados, Jasper — rebateu Tamara, e, em seguida, afagou o ombro de Call. — Vai ficar tudo bem.
— É, melhor confortar o vilão aí — declarou Jasper. — Ele é frágil. O papai dele o carregou como uma princesa até aqui.
— Ah, não enche — reclamou Aaron. — Você fica babaca sempre que está nervoso.
Call olhou para Jasper, surpreso. Será que aquilo era verdade? Pela experiência de Call, Jasper era desagradável em boa parte do tempo, mas Call certamente sabia o que era ter uma boca com vontade própria. Call disse muitas coisas antes de pensar melhor no assunto.
Ele não queria admitir que tinha algo em comum com Jasper, principalmente com algo de que não gostava em Jasper.
Constantine Madden era charmoso, Tamara dissera.
A porta se abriu, e Mestre North entrou.
— A Assembleia vai ouvi-los agora — informou ele.
Seja charmoso, pensou Call. Se você é Constantine, então extraia alguma vantagem disso. Seja charmoso.
Todos se levantaram e seguiram Mestre North pelo corredor de cobre, atravessando um arco até uma grande sala circular. Call já havia estado ali antes, mas disfarçou o fato de que reconhecia aquele lugar. Ele estava vagando pelo Magisterium quando descobriu que uma reunião de magos acontecia ali.
Entretanto, aquela provavelmente não era a melhor hora para falar que andara bisbilhotando.
Joias decoravam as paredes da caverna, formando constelações. O centro do salão era dominado por uma grande mesa redonda, com um buraco bem no meio. Parecia feita de um pedaço de tronco, mas a árvore devia ser enorme — maior que a maior das sequoias. Call não pôde deixar de sentir vontade de passar os dedos no tampo.
Em um dos lados estavam sentados os membros da Assembleia, com suas vestes cor de azeitona, alternados com magos do Magisterium, que trajavam preto. Pareciam peças de xadrez.
Mestre North fez um gesto, e uma parte da mesa se levantou como uma fatia de bolo sendo cortada. Gesticulou para Call e os outros caminharem pelo buraco no círculo. Após um instante de hesitação, Alastair deu o primeiro passo, e as crianças o seguiram. Assim que o último deles — Jasper — entrou no círculo formado pela mesa, a seção que se levantou voltou para o lugar. Call e os amigos estavam presos no círculo da mesa, completamente cercados pela Assembleia.
Call olhou em volta, para as faces presunçosas dos adultos. Bem, talvez nem todos parecessem presunçosos. Mestre Rufus, Mestre North, Mestre Rockmaple e Mestra Milagros pareciam tensos, e os pais de Tamara, preocupados. Além dos professores e dos Rajavi, a única integrante da Assembleia que Call reconheceu foi a madrasta de Alex, a senhora Tarquin. Ela estava sentada imponente como uma rainha, os cabelos prateados ajeitados no alto da cabeça. Ninguém se apresentou.
— Por onde começar — disse um senhor com roupas da Assembleia. — Desde Constantine Madden não temos um problema tão grande, um golpe tão forte contra o Magisterium, e tudo que ele representa, como aconteceu nesta semana.
— Nunca tivemos a intenção de macular o Magisterium — declarou Tamara.
— Sério? — O senhor pulou ao ouvir aquelas palavras, como um gato saltaria sobre um rato. — Sabe como é desmoralizante para os outros aprendizes ouvirem que nosso Makar fugiu da escola? Pensou nisso, Aaron Stewart?
— Eu não fugi, Deputado Graves. — Aaron se ajeitou em seu lugar. Ainda estava com a roupa do brechó, apesar de coberta de sujeira e sangue. Ele era um menino de 13 anos de idade, e seu corte de cabelo idiota tinha crescido um pouco, mas, quando falava, todos olhavam para ele. Call viu as expressões dos integrantes da Assembleia se tomando mais suaves. Queriam ouvir Aaron. Era isso que Constantine possuía. Foi a isso que Tamara se referiu quando falou que o Inimigo era charmoso. — Durante o verão, conversei com muitos membros desta Assembleia e muitos magos da comunidade. Todos destacaram que eu era a única arma capaz de deter o Inimigo. Bem, me parece correto garantir a todos que não me escondo no Magisterium quando precisam de mim.
Fez-se um breve silêncio, e Graves limpou a garganta.
— Seu entusiasmo é admirável, mas, se realmente achou que era necessário para conter Alastair Hunt, por que você não lidou com ele quando o alcançou? Por que ele continua com você?
Uma chama de raiva inflou no peito de Call.
— Não é assim — retrucou Tamara. — Vocês precisam ouvir a história toda.
— Tamara Rajavi, achávamos que, depois do que aconteceu com sua irmã, você teria mais juízo — censurou Mestre North.
O rosto de Tamara desmoronou.
A chama no peito de Call ardeu ainda mais quente.
— E você, Callum Hunt — apontou Mestre North. — Permitimos seu ingresso no Magisterium apesar dos resultados lamentáveis no Desafio de Ferro, e é assim que retribui? Considere descartada sua inscrição para atuar como contrapeso do Makar, e considere-se um rapaz de sorte se isso for tudo que lhe acontecer.
As mãos do Mestre Rufus estavam cerradas. Call teve a sensação de estar se engasgando com água fervente.
— Vocês não têm o direito de punir a nenhum de nós. — Os olhos de Jasper ardiam. — Mandaram um elemental para nos matar!
— Jasper! — Mestra Milagros parecia horrorizada. — Você entende onde está, o que isso significa? Mentir não vai ajudar.
— Ele não está mentindo — disse Call. — E sabemos que o Magisterium não se importa com a verdade. O que aconteceu com Mestre Lemuel? Ele não machucou Drew de verdade, então por que não o deixaram voltar? Por que ele tem de ficar com uns malucos que fazem experiências com animais no meio da floresta?
Mestre Rufus suspirou.
— Ele escolheu não voltar, Call.
Call mordeu a língua.
— Mentir certamente não vai ajudar a petição de seus pais para reingresso na Assembleia — disse a senhora Rajavi a Jasper, com a voz baixa, em seguida se voltou para Alastair. — E onde está o Alkahest? Por que não o vejo sobre a mesa?
— Está com Mestre Joseph — respondeu Alastair secamente. Call se encolheu. Se ele não era particularmente charmoso, sabia a quem culpar por não o ensinar.
— Mestre Joseph? — repetiu a senhora Tarquin calmamente. — O braço direito do Inimigo da Morte? Aquele que o conduziu para o caminho do mal?
Graves se levantou.
— Vocês permitiram que este traidor entregasse o Alkahest ao Inimigo? Devíamos trancar Alastair e todos vocês com ele...
— O Inimigo da Morte não está com o Alkahest — interrompeu Call. — Ele não tem nada. E não é graças a nenhum de vocês.
Graves cerrou os olhos.
— Como sabe tanto sobre o que o Inimigo tem ou não?
— Callum — alertou Alastair.
Mas Call não ia parar. Havia se preparado para esse momento. Alcançou a mochila e pegou um punhado de cabelo. Engolindo a raiva e a náusea, ele puxou a cabeça de Constantine Madden da mochila.
Colocou a cabeça sobre a mesa, diante de Mestre Graves. Não havia sangue; o ferimento no pescoço de Constantine parecia cauterizado onde Call o cortou com Miri. O rosto do Inimigo estava sujo de cinzas, mas continuava perfeitamente reconhecível como Constantine Madden.
— Porque meu pai o matou — revelou Call. — Ele usou o Alkahest.
Toda a Assembleia se calou. A senhora Tarquin emitiu um ruído engasgado e virou o rosto. Mestre Rufus estava estranhamente chocado. O Deputado Graves parecia prestes a ter um enfarte, enquanto os Rajavi olhavam para Tamara como se jamais a tivessem visto antes.
Aaron cortou o silêncio com a voz mais alta, ainda que falhando levemente.
— Você cortou a cabeça dele?
Call supôs que aquilo não fosse exatamente um ato charmoso. A cabeça encarava os membros da Assembleia, que a olhavam com horror e receio, como se esperassem que ela fosse começar a falar. Call percebeu que havia um pedaço de bala laranja e um pelinho presos na bochecha do Inimigo, mas não queria chamar mais atenção dando um peteleco na cabeça para limpar aquilo.
— Achei que pudéssemos precisar de provas — explicou Call.
— Eu toquei nessa mochila! — lembrou Tamara. — É a coisa mais nojenta que eu já...
Alastair soltou uma gargalhada e, uma vez que ele começou a rir, não parecia capaz de parar. Lágrimas escorreram por suas bochechas. Limpou os olhos e se apoiou na mesa para não cair. Tentou falar, mas nem conseguiu pronunciar as palavras.
Call torceu para que a visão da cabeça de Constantine Madden não tivesse enlouquecido ninguém permanentemente, muito menos o pai. Muitas pessoas no recinto pareciam um pouco perturbadas.
— Callum. — Mestre Rufus aparentemente havia sido o primeiro a se recuperar. — Como Alastair matou o Inimigo da Morte?
— Ele manipulou Mestre Joseph a levá-lo até o local onde Constantine estava. — Call tomava cuidado para não mentir. — Em seguida, usou o Alkahest no Inimigo. Depois disso, Constantine morreu. — Call não mencionou o fato de que ele já estava morto antes disso. — Estava cheio de Dominados pelo Caos ao nosso redor. Nós ajudamos a combatê-los, mas, quando o fizemos, o mausoléu foi destruído.
— E o Alkahest se perdeu? — perguntou Mestre Milagros.
Call fez que sim com a cabeça. Tinha quase certeza de que a Assembleia deveria estar fazendo mais perguntas, mas todos os membros pareciam chocados demais para interromper.
— Achamos que Mestre Joseph escapou com ele quando o local estava em ruínas.
Finalmente as risadas de Alastair cessaram.
— O que aconteceu com o corpo do Inimigo? — Quis saber Mestre North.
— Desapareceu com o resto do mausoléu. O caos, hum... devorou tudo.
Mestre Rufus assentiu.
— Não foi isso que aconteceu. — Jasper balançou a cabeça. — Você está excluindo coisas importantes.
Call sentiu o pai ficar tenso. Os dedos de Alastair se enterraram em seu ombro. Deu para ver que Tamara tinha prendido a respiração e Aaron lançava olhares afiados na direção de Jasper.
— E o que é? — perguntou o Deputado Graves, parecendo se recuperar de choques inumeráveis.
— O motivo pelo qual o mausoléu foi destruído é Call — continuou Jasper. Porque Call é o Inimigo da Morte. Porque Call é Constantine Madden renascido e, assim como Constantine destruiu o Magisterium, Call destruiu o mausoléu. Interditem a magia dele; matem-no.
Call ficou encarando em um pavor congelado enquanto Jasper prosseguia.
— Call utilizou magia do caos para manter os Dominados afastados. Saiu um pouco do controle, porque foi a primeira vez que ele a usou. — Jasper lançou a todos eles um olhar presunçoso, como se soubesse do pânico que estavam sentindo. — É isso mesmo. Call é um Makar, como Aaron. Agora temos dois.
Call soltou um suspiro de alívio. Os integrantes da Assembleia olhavam para Jasper como se ele tivesse desenvolvido uma segunda cabeça.
Finalmente, de verdade, Jasper o surpreendeu.
Naquele instante, Anastasia Tarquin se levantou. Estava com a coluna ereta, os cabelos prateados brilhavam. Olhou diretamente para Call enquanto falava.
— O Inimigo está morto, afinal. Graças a vocês cinco. — Ela fez um gesto na direção de Call, Alastair, Tamara, Jasper e Aaron. — Verity Torres e os muitos que pereceram no Massacre Gelado finalmente foram vingados.
Call pensou na cabeça de Verity, pregada na porta do mausoléu, e engoliu em seco.
As palavras da senhora Tarquin pareceram despertar o Deputado Graves do choque.
— Anastasia está certa — declarou ele. — O Tratado está, então, anulado. O Alkahest deve ser recuperado, mas, por enquanto, este é um momento de celebração. A guerra acabou.
Os demais membros da Assembleia começaram a murmurar, os sorrisos se espalhando em suas faces. Mestre Milagros começou a aplaudir, e o movimento logo se espalhou. Membros da Assembleia e Mestres se levantavam para aplaudi-los. Tamara pareceu surpresa; Jasper, convencido, e Alastair, aliviado.
Então Call olhou para Aaron. Aaron não estava sorrindo. Exibia uma expressão estranha e conflituosa no rosto, como se estivesse imaginando, sabendo o que sabia sobre Call, se estava fazendo uma coisa horrível em esconder o que descobrira.
Mas talvez Aaron não estivesse pensando nisso. Talvez estivesse exausto e não pensasse em nada.

13 comentários:

  1. Vish.
    Aaron não vai ficar do mal, vai?
    Por favor não faça isso Aaron, te amo, bjs.

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  2. AAAAAAAAAAAAAAA MEUS DEUSES EU TO TÃO FELIZ QUE TUDO ACABOU BEM

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  3. Constantine Madden era charmoso.Seja charmoso. kkkk

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  4. DEUS DO DO céu SÓ VI O INÍCIO DO DESENHO E ME BORREI

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  5. Parem com esse negócio de cabeça, por favor

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  6. Esse negócio de tirar a cabeça decepada da mochila me lembrou da Celaena

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    1. Verdade, eu amo aquela mulher kkkk

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    2. Verdade, amo aquela mulher kkkkk

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  7. Acho que sou" xharmosa" como um membro da família Hunt huehueheu

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  8. Nossa, de mais esse capítulo.
    Se com 12 anos Call arranca cabeça de defunto com faca imagina aos 15 o que estará fazendo.

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  9. Como esses livro dos deus pode ser tão diferente e ao mesmo tempo tão igual a HP?

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Boa leitura :)