16 de janeiro de 2017

Capítulo quinze


Call acordou com o som de algo se movendo do lado de fora da porta do seu quarto. Seu primeiro pensamento foi que Tamara e Aaron estudavam até mais tarde na sala compartilhada, entretanto os passos eram muito pesados para pertencer a qualquer um de seus amigos, e as vozes retumbantes que seguiram pertenciam definitivamente a adultos.
Ele não conseguiu evitar a voz de Alastair que pairava em sua cabeça. “Eles não têm a menor misericórdia. Nem mesmo pelas crianças.”
Call permaneceu acordado encarando o teto até que um dos conjuntos de cristais na parede começou a brilhar. Tirou Miri de uma das gavetas e a prendeu no cinto, contraindo o corpo quando seus pés tocaram o chão de pedra gelada. Sem os cobertores pesados, ele podia sentir o ar congelante atravessar seu pijama de tecido fino.
Ele ergueu Miri no ar bem no momento em que a porta se abriu. Três mestres estavam de pé no batente, olhando para ele. Os magos vestiam seus uniformes negros e sua expressão era sombria e muito séria.
O olhar do Mestre Lemuel ia do rosto de Call para a adaga.
— Rufus, o seu aprendiz foi muito bem treinado.
Call não sabia o que dizer diante daquela afirmação.
— Você não precisará de nenhuma arma esta noite — informou o Mestre Rufus. — Deixe Semíramis na cama e venha conosco.
Olhando para o seu pijama com estampa de Lego, Call amarrou a cara.
— Não estou vestido para sair do quarto.
— Bem treinado para estar sempre alerta — comentou o Mestre North. — Pessimamente treinado em termos de obediência. — Ele estalou os dedos. — Baixe a adaga.
— North — disse o Mestre Rufus. — Deixe a disciplina dos meus aprendizes por minha conta. — Ele se aproximou de Call, que não tinha certeza do que fazer. Depois do comportamento bizarro de Drew, dos avisos do pai e da profecia sinistra do Devorado, ele se sentia profundamente inquieto. Não queria largar a adaga.
Uma das mãos de Rufus se fechou ao redor do punho de Call e o menino soltou Miri. Ele não sabia o que mais poderia fazer. Call conhecia o Mestre Rufus. Eles haviam comido juntos por meses, e Rufus era seu professor. Rufus era uma pessoa. Rufus o salvara do Devorado. “Ele não vai me machucar”, Call disse a si mesmo. “Ele não vai fazer isso. Não importa o que meu pai tenha dito.”
Uma expressão estranha passou rapidamente pelo rosto de Rufus, e logo desapareceu.
— Venha — ele pediu.
Call seguiu os mestres até a sala compartilhada, onde Tamara e Aaron já estavam à sua espera. Ambos também vestiam pijamas. Aaron usava uma camiseta praticamente transparente de tanto ser lavada e uma calça de moletom rasgada em um dos joelhos. Seu cabelo loiro estava arrepiado como as penas de um filhote de pato e ele parecia estar semiacordado. A tensão tomava conta do rosto de Tamara. Ela prendera o cabelo cuidadosamente em duas tranças e vestia um pijama cor-de-rosa com os dizeres: EU LUTO COMO UMA GAROTA. Sobre essas palavras, havia uma serigrafia de três meninas de um desenho animado executando movimentos ninjas mortais.
“O que está havendo?”, Call perguntou a eles silenciosamente, apenas mexendo os lábios.
Aaron deu de ombros e Tamara balançou a cabeça. Era óbvio que eles também não faziam ideia do que estava acontecendo, apesar de Tamara estar tão chocada que parecia saber o suficiente.
— Sentem-se — ordenou o Mestre Lemuel. — Por favor, sem enrolação.
— Você pode ver claramente que nenhum deles estava tentando... — disse o Mestre Rufus em uma voz baixa, que logo desapareceu como se ele não quisesse pronunciar o resto.
— Isso é muito importante — o Mestre North começou quando Call, Aaron e Tamara se sentaram um ao lado do outro no sofá.
Tamara deu um longo bocejo e se esqueceu de cobrir a boca, o que significava que estava realmente cansada.
— Vocês viram Drew Wallace? Várias pessoas nos disseram que ele os seguiu bastante transtornado quando saíram do Refeitório. Ele mencionou algo? Discutiu algum plano?
Call franziu a testa. A última vez que vira Drew tinha sido esquisita demais para que pudesse falar a respeito.
— Que planos?
— Conversamos sobre nossas aulas — Aaron se voluntariou a responder. — Drew nos seguiu pelo corredor. Ele queria falar com Call.
— Sobre os Devorados. Acho que ele estava mesmo muito assustado. — Call não sabia mais o que poderia dizer. Não tinha outra explicação para o comportamento de Drew.
— Obrigado — agradeceu o Mestre North. — Agora precisamos que vocês voltem para seus quartos e vistam os uniformes. Vamos precisar da ajuda de vocês. Drew saiu do Magisterium em algum momento depois das dez da noite. Só descobrimos que havia ido embora porque outro aprendiz levantou para tomar água e encontrou o bilhete deixado por ele.
— O que dizia esse bilhete? — Tamara perguntou.
O Mestre Lemuel olhou para ela furioso e o Mestre North parecia surpreso por ter sido interrompido. Evidentemente nenhum deles conhecia Tamara muito bem.
— Que ele estava fugindo do Magisterium — o Mestre Lemuel explicou em voz baixa. — Vocês sabem o quanto é perigoso ter um mago que ainda não terminou seu treinamento solto no mundo? Sem falar nos animais Dominados pelo Caos que construíram suas tocas nas florestas ao redor da escola.
— Precisamos encontrá-lo. — O Mestre Rufus balançou a cabeça devagar. — Todo o Magisterium ajudará nas buscas. Cobriremos uma área maior trabalhando dessa forma. Espero que essas explicações tenham sido suficientes, Tamara. O tempo é realmente essencial neste caso.
Com o rosto vermelho, Tamara se levantou e foi para o quarto. Aaron e Call também foram para os seus aposentos. Sem pressa, Call vestiu roupas de inverno: o uniforme cinzento, um suéter grosso e um casaco de zíper com capuz. A adrenalina de ser acordado por magos no meio da noite começava a queimar em seu corpo, e ele começava a se dar conta do quão pouco havia dormido, mas só a ideia de Drew tropeçando na escuridão fazia Call piscar os olhos para tentar acordar. O que teria feito Drew fugir?
Os dedos de Call passaram pelo bracelete de Alastair e pela carta misteriosa para o Mestre Rufus quando ele procurou sua braçadeira. Ele se lembrou das palavras do pai: “Call, você precisa me escutar. Você não sabe o que você é. E você precisa fugir assim que for possível.”
Ele é quem deveria ter fugido, não Drew.
Após uma batida, a porta se abriu e Tamara entrou. A menina vestia o uniforme e usava duas tranças presas por grampos ao redor da cabeça. Ela parecia mais acordada que ele.
— Call, vamos logo, temos de... O que é isso?
— O que é o quê? — Ele olhou para baixo e percebeu que a gaveta ainda estava escancarada, com o bracelete de Alastair e a carta do pai totalmente à vista. Ele pescou o bracelete e jogou o corpo para trás, fechando a gaveta com o peso do próprio corpo. — Eu... esta é a braçadeira do meu pai. De quando ele esteve no Magisterium.
— Posso ver? — Tamara não esperou por uma resposta. Simplesmente esticou um dos braços e arrancou o bracelete da mão de Call. — Ele deve ter sido um excelente aluno.
— Por que você está dizendo isso?
— Essas pedras. E esse... — Ela parou de falar, piscando. — Este não pode ser o bracelete do seu pai.
— Bem, acho que pode ser da minha mãe...
— Não. Vimos as impressões digitais deles no Hall dos Graduados. Os dois terminaram os estudos, Call. Seja quem for o dono deste bracelete, só estudou até o Ano de Prata. Não tem nenhum ouro aqui. — Ela devolveu o bracelete para ele. — Esse bracelete pertence a alguém que jamais se formou no Magisterium.
— Mas... — Call foi interrompido pela chegada de Aaron. Seu cabelo ondulado estava grudado na testa. Parecia que ele havia jogado água no rosto para tentar acordar.
— Vamos, pessoal — ele disse. — O Mestre Lemuel e o Mestre North já foram, mas o Rufus parece estar prestes a quebrar a porta.
Call jogou o bracelete no bolso, ainda consciente do olhar curioso que Tamara lançava sobre ele, e seguiu o Mestre Rufus pelos túneis. Sua perna estava rígida, como costumava ficar quando ele acordava, impedindo-o de andar depressa, mas Aaron e Tamara tiveram o cuidado de acompanhar Call na velocidade dele. Pelo menos uma vez na vida ele não ficou com raiva por causa disso.
Próximo à saída, o grupo se juntou ao resto dos aprendizes, que eram guiados pelos seus mestres, incluindo Lemuel e North. Os garotos pareciam tão confusos e preocupados quanto os aprendizes do Mestre Rufus.
Mais algumas viradas e eles chegaram a uma porta. O Mestre Lemuel a abriu e eles entraram em outra caverna com uma abertura do lado oposto, de onde vinha um vento.
Eles sairiam do Magisterium — e por um caminho diferente daquele do primeiro dia. Na abertura, havia um gigantesco portão duplo de metal.
O portão fora claramente forjado por um mestre do metal. No seu topo havia pontas afiadas que quase tocavam o teto da caverna. Do outro lado do portão, o metal fora envergado para formar as seguintes palavras:

O CONHECIMENTO E A AÇÃO SÃO DUAS FACES DA MESMA MOEDA

Aquele era o Portão das Missões. Call se lembrou do garoto preso à maca feita de galhos de árvore, com a pele parcialmente queimada, e se deu conta de que, em meio a toda aquela confusão, ele não prestara muita atenção no portão propriamente dito.
— Call, Tamara, Aaron — o Mestre Rufus os chamou. Ao lado dele estava Alex, alto e com seus característicos cabelos cacheados, embora estivesse com uma aparência sombria que não combinava com ele. Usava seu uniforme debaixo do que parecia ser um sobretudo. As mãos estavam enluvadas. — Alexander irá guiá-los. Não saiam do lado dele. O resto de nós estará por perto, de olho em vocês. Queremos que cubram a área junto a uma das saídas menos utilizadas do Magisterium. Procurem qualquer pista sobre Drew, e, se por acaso o virem, chamem-no. Acreditamos que é mais fácil ele confiar em um de seus colegas do Ano de Ferro que em um mestre ou até mesmo em um aluno mais velho, como Alex.
Call imaginou por que os mestres pensavam que Drew estaria mais propenso a confiar em outros alunos de seu mesmo ano. Ele se perguntou se eles sabiam mais sobre a fuga de Drew do que o que lhes diziam.
— E então o que deveremos fazer? — Aaron indagou.
— Caso algum de vocês o veja, Alex enviará um sinal para os mestres. Tudo o que terão de fazer é mantê-lo conversando até que cheguemos. Vocês e os aprendizes da Mestra Milagros irão para o Leste. — O Mestre Rufus acenou para alguém na multidão e a Mestra Milagros veio até ele acompanhada por Célia, Jasper e Gwenda. — Os alunos do Ano de Bronze irão para o Oeste, os do Ano de Cobre para o Norte e os aprendizes dos Anos de Prata e Ouro que não estão auxiliando os mestres irão para o Sul e para o Norte.
— E os animais Dominados pelo Caos que estão na floresta? — Gwenda quis saber. — Eles também não representam um perigo para a gente?
Mestra Milagros lançou um olhar para Alex e outro aluno mais velho.
— Vocês não estarão sozinhos. Fiquem juntos e enviem imediatamente um sinal para nós se tiverem qualquer problema. Estaremos por perto.
Alguns grupos de aprendizes já abriam caminho na noite, conjurando orbes luminosos que flutuavam como lanternas voadoras. O zumbido dos sussurros os acompanhava enquanto eles entravam na floresta escura.
Call e os outros seguiram Alex. Quando o último aprendiz passou pelo portão, ele se fechou com um clangor definitivo atrás deles.
— Sempre faz esse barulho — disse Alex, ao ver a expressão no rosto de Call. — Venham... nós vamos por aqui.
Ele seguiu na direção da floresta, passando por um caminho escuro. Call tropeçou em uma raiz. Aaron, que sempre procurava alguma desculpa para fazer magia, conjurou uma bola azul de energia resplandecente, aparentemente satisfeito por ver que aquilo era útil. Ele abriu um grande sorriso e começou a rodar a bola entre os dedos, iluminando o ar ao redor deles.
— Drew — Gwenda chamou. Os ecos dos gritos dos outros alunos podiam ser ouvidos ao longe. — Drew!
Jasper esfregou os olhos. Ele vestia o que parecia ser um casaco forrado de pele e um chapéu com protetores de orelha que pareciam levemente grandes demais para sua cabeça.
— Por que a gente tem de correr perigo por causa de um nerd que decidiu fugir? — ele quis saber.
— Não entendo por que ele saiu no meio da noite. — Célia estava com os braços ao redor do corpo e tremia apesar de usar uma parca longa de um tom vivo de azul. — Nada disso faz o menor sentido.
— Não sabemos nada além daquilo que contaram para vocês — explicou Tamara. — Mas, se o Drew fugiu, ele deve ter tido um motivo.
— Esse garoto é um covarde — acusou Jasper. — É a única razão possível para ele ter deixado a escola.
O chão da floresta estava coberto por uma camada fina de neve, e o grupo estava cercado por árvores ressequidas. A bola azul de Aaron iluminava ao redor apenas o suficiente para enfatizar a estranheza mórbida dos galhos afiados.
— Do que você acha que ele estava com medo? — Call perguntou.
Jasper não respondeu.
— Temos de ficar juntos — Alex lembrou, e em seguida conjurou três bolas de fogo douradas que rodopiaram sobre eles, iluminando até mesmo os últimos membros do grupo. — Caso vejam ou ouçam qualquer coisa, me avisem. Não fujam.
Folhas congeladas estalaram sob os pés de Tamara quando ela ficou para trás para caminhar ao lado de Call.
— E então — ela disse com suavidade —, por que você achou que aquele bracelete era do seu pai?
Call olhou para os outros na tentativa de descobrir se eles poderiam ouvi-lo.
— Porque foi enviado por ele.
— Ele mandou o bracelete para você?
Call balançou negativamente a cabeça.
— Não exatamente. Eu... o achei.
— Você o achou? — Tamara aparentava muito desconfiança.
— Sei que você pensa que ele é maluco...
— Ele jogou uma faca em você!
— Ele jogou uma faca para mim — corrigiu Call. — E então ele enviou aquele bracelete para o Magisterium. Acho que ele está tentando dizer algo... Avisar sobre alguma coisa.
— Tipo o quê?
— Alguma coisa sobre mim — emendou Call.
— Você quer dizer que está em perigo?
Tamara parecia alarmada, mas Call não respondeu. O menino não sabia como lhe dar mais alguma informação sem contar toda a história. E se houvesse mesmo algo de errado com ele? E se Tamara soubesse de tudo, será que ela ainda manteria segredo, independentemente do quão ruim fosse?
Ele queria confiar nela. Tamara lhe contara mais sobre o bracelete do que ele descobrira durante todos os meses em que passou olhando para o objeto.
— Sobre o que vocês estão conversando? — Aaron também ficou para trás no intuito de se juntar aos dois.
Tamara imediatamente parou de falar.
Seus olhos iam de Aaron para Call. Dava para perceber que a menina não contaria nada para Aaron a não ser que Call lhe permitisse. Essa certeza fez com que um estranho calor cintilasse no estômago de Call.
Ele nunca tivera amigos que guardassem seus segredos.
Aquilo foi o suficiente para que Call se decidisse.
— Estamos falando sobre isto aqui. — Ele tirou o bracelete do bolso e o entregou para Aaron, que o examinou durante algum tempo. Call explicou toda a história: sua conversa com o pai, o aviso de que o menino não sabia o que ele era, a carta que Alastair mandou para Rufus, a mensagem enviada junto com o bracelete: Interditar sua magia.
— Interditar sua magia? — Aaron ergueu a voz.
— Shhh — fez Tamara.
— Por que ele pediria a Rufus para fazer uma coisa dessas? — Aaron voltou a falar em um sussurro rouco. — Isso é loucura!
— Eu não sei — Call murmurou de volta, olhando para a frente, ansioso. Alex e os outros garotos não pareciam prestar a menor atenção neles enquanto subiam um pequeno monte, serpenteando para desviar de grandes raízes de árvores, gritando por Drew. — Não entendo nada disso.
— Bem, com toda a certeza o bracelete era uma mensagem para Rufus — concluiu Tamara. — Significa alguma coisa, só não sei o quê.
— Talvez se a gente soubesse quem foi o seu dono — disse Aaron, devolvendo o bracelete para Call, que o pôs em um dos pulsos, acima do seu próprio bracelete, e os cobriu com a manga do uniforme.
— Alguém que não se formou. Alguém que deixou o Magisterium quando tinha dezesseis ou dezessete anos... Ou alguém que morreu aqui. — Tamara franziu a testa ao se lembrar das medalhinhas e dos símbolos presos ao bracelete. — Não sei exatamente o que essas coisas significam. Provavelmente excelência em algo, mas em quê? Se nós soubéssemos, teríamos uma pista. E também não sei o que aquela pedra negra significa. Eu nunca tinha visto uma antes.
— Vamos perguntar a Alex — disse Aaron.
— De jeito nenhum! — disse Call, balançando a cabeça, e olhou com cautela para os outros que marchavam pela neve na escuridão. — E se houver mesmo alguma coisa de errado comigo e ele descobrir isso só de olhar para o bracelete?
— Não há nada de errado com você — Aaron comentou, inabalável. Só que ele era o tipo de gente que tinha fé nas pessoas e acreditava em coisas como aquela.
— Alex! — Tamara gritou. — Alex, podemos perguntar uma coisa para você?
— Tamara, não! — Call sibilou, mas o aluno mais velho já havia diminuído o passo, caminhando ao lado deles.
— O que foi? — Os olhos azuis de Alex eram inquisidores. — Vocês estão bem?
— Eu só estava pensando se a gente poderia ver o seu bracelete — Tamara lançou um olhar para Call, acalmando-o, e ele realmente se sentiu mais tranquilo.
— Ah, claro. — Alex soltou o bracelete e o passou para Tamara. A joia tinha três tiras de metal, sendo que a última era de bronze e também ostentava pedras preciosas de diferentes cores: vermelho e laranja, azul e índigo, e escarlate.
— Para que servem essas coisas? — Tamara perguntou, inocente, apesar de Call ter a sensação de que ela provavelmente já sabia a resposta.
— Essas pedras significam que eu completei diferentes tarefas. — Alex soava completamente sincero e nada arrogante. — Esta foi por ter usado o fogo de forma correta para dispensar um elemental. Esta foi por usar o ar para criar uma ilusão.
— E o que significaria se você tivesse uma pedra negra? — Aaron indagou.
Os olhos de Alex se arregalaram. Ele abriu a boca para responder no mesmo momento em que Jasper berrou:
— Olhem!
Uma luz intensa brilhou do alto de um monte em frente a onde eles estavam. Enquanto observavam, um grito cortou a noite, agudo e terrível.
— Fiquem aqui! — Alex berrou e começou a correr, praticamente escorregando pela encosta do monte onde estavam, indo na direção da luz. De repente, a noite se tornou repleta de sons. Call pôde ouvir outros grupos gritarem e chamarem uns aos outros.
Algo escorregou do céu sobre eles — uma coisa escamosa e que lembrava uma cobra —, mas Alex não olhava para cima.
— Alex! — Tamara berrou, mas o garoto mais velho não a ouviu. Ele havia chegado ao outro monte e começava a subi-lo. A sombra escamosa estava sobre sua cabeça, arremetendo contra Alex.
Os garotos começaram a gritar para Alex na tentativa de adverti-lo. Todos berravam, exceto Call. Ele começou a correr, ignorando a queimação que torcia sua perna enquanto ele escorregava pelo barranco, quase caindo.
Ele ouviu Tamara chamar seu nome e Jasper berrar:
— Nós deveríamos ficar aqui.
Mesmo assim, Call não diminuiu o passo.
Ele seria o aprendiz que Aaron achava que ele era, aquele que não tinha nada de errado. Realizaria o tipo de coisas que o fariam conquistar marcos de façanhas heroicas misteriosas em seus braceletes. Ele se lançaria para a briga.
Ele tropeçou em uma pedra solta, que caiu e rolou até o pé do monte, batendo feio com um dos ombros em uma raiz de árvore.
“Tudo bem”, ele pensou, “esse não foi o melhor dos começos”.
Call ficou de pé e começou a subir novamente. Ele então pôde ver as coisas com mais clareza graças ao brilho que vinha do topo do morro. Era uma luz nítida e penetrante que deixava visíveis todos os pedregulhos e buracos, para profundo alívio de Call. Próximo do topo, a subida se tornou mais íngreme. Ele sentiu os joelhos e teve de escalar os últimos metros, rolando até a superfície plana no alto do monte.
Alguma coisa tocou Call. Algo imenso, que trouxe consigo uma lufada de ar que espalhou poeira nos olhos do menino. Ele engoliu em seco e ficou de pé.
— Socorro! — ele ouviu uma voz fraca gritar. — Por favor, me ajude!
Call olhou ao redor. A luz intensa havia se apagado. Apenas as estrelas e a lua iluminavam o topo do monte, que era coberto por um emaranhado de raízes e galhos.
— Quem está aí? — ele perguntou.
Ele ouviu o que soou como um soluço:
— Call?
O menino começou a avançar, desajeitado, na direção da voz, abrindo caminho entre a vegetação.
Atrás dele, as pessoas gritavam seu nome. Ele chutou algumas pedras para longe e meio que deslizou por uma pequena inclinação.
Viu-se dentro de uma depressão sombria no solo, cercada por moitas de espinhos. Uma figura curvada estava de pé do outro lado.
— Drew? — Call chamou.
O garoto franzino fez um esforço para se virar. Call pôde ver que um de seus pés estava preso no que parecia ser uma toca de esquilo e torcido em um ângulo feio, aparentemente bastante doloroso.
Atrás dele, dois orbes brilhantes lançavam uma luz suave na noite. Call olhou para eles e viu que flutuavam sobre o monte onde estavam os outros alunos. Ele mal conseguia ver os outros de onde estava e não tinha certeza se eles eram capazes de vê-lo.
— Call? — As lágrimas brilhavam no rosto de Drew sob o luar. Mais que depressa, Call se aproximou.
— Você está preso? — ele perguntou.
— É... é claro — Drew sussurrou. — Eu estava tentando fugir e o máximo que consegui chegar foi até aqui. Isso é hu... humilhante.
Drew batia os dentes. Ele usava apenas uma camiseta fina e uma calça jeans. Call não conseguia acreditar que ele planejara fugir do Magisterium vestido daquele jeito.
— Ajude-me — Drew pediu, sem parar de bater o queixo. — Ajude-me a me soltar. Preciso continuar a correr.
— Não estou entendendo. O que há de errado? Para onde você vai?
— Eu não sei. — O rosto de Drew se contorceu. — Você não faz ideia de como é o Mestre Lemuel. Ele... ele descobriu que, às vezes, quando eu estou sob uma carga alta de estresse, acabo me saindo melhor. Tipo, muito melhor. Sei que é estranho, mas sempre foi assim. Eu me dou melhor em dias de prova do que em situações normais. Então, depois que o Mestre Lemuel descobriu isso, ele me deixa estressado o tempo todo. Eu mal... mal consigo dormir. Ele só permite que eu coma de vez em quando e eu nunca sei o que vai acontecer. Ele me provoca sustos, conjurando ilusões de monstros e elementais quando estou sozinho no escuro e eu... eu quero melhorar. Quero me tornar um mago melhor, só que... — Ele olhou para o outro lado e engoliu em seco, a garganta subia e descia graças aos soluços. — Eu não consigo.
Call olhou para ele mais de perto. Era verdade que Drew não se parecia mais com o garoto que Call conhecera no ônibus para o Magisterium. Estava mais magro. Bem mais magro. Dava para ver que o jeans estava largo, sustentado por um cinto preso no último buraco. As unhas estavam roídas e havia sombras negras debaixo dos seus olhos.
— Tudo bem — disse Call. — Mas você não vai conseguir correr para lugar nenhum desse jeito. — Ele se abaixou e colocou uma das mãos sobre o tornozelo de Drew. Ao tocá-lo, Call percebeu que estava quente.
Drew uivou.
— Isso dói!
Call observou o tornozelo exposto abaixo da barra da calça jeans. Parecia inchado e escuro.
— Acho que você pode ter quebrado um osso.
— Sé... sério? — Drew parecia estar em pânico.
Call se concentrou na força que carregava dentro de si, fazendo com que ela atravessasse seu corpo e penetrasse no chão onde ele se ajoelhava. “A terra quer unir.” Ele sentiu a terra se afastar sob o seu toque, abrindo caminho para que a magia fluísse, da mesma forma que a água vertia em um buraco aberto na areia da praia.
Call fez com que a magia fluísse pelo seu corpo até suas mãos, deixando que ela chegasse até Drew, que soltou um suspiro.
Call se afastou.
— Desculpe...
— Não. — Drew olhou para ele, maravilhado. — Está doendo menos. Funcionou!
Call nunca fizera magia daquele jeito antes. O Mestre Rufus havia falado sobre cura, mas eles nunca haviam praticado. Só que ele conseguiu. Talvez não houvesse mesmo nada de errado.
— Drew! Call! — Era Alex, seguido por um globo de luz resplandecente que iluminava as pontas do seu cabelo como um halo. Alex derrapou em um declive e quase caiu em cima deles. Seu rosto estava pálido sob a luz do luar.
Call abriu caminho para o aluno mais velho.
— Drew está preso. Acho que quebrou o tornozelo.
Alex se inclinou sobre Drew e tocou a terra que prendia sua perna. Call se sentiu estúpido por não ter pensado na mesma coisa enquanto o chão perto de Drew desmoronava e Alex colocava os braços sobre os ombros dele, libertando-o. Drew soltou um grito agudo de dor.
— Você não me ouviu? O tornozelo dele está quebrado... — Call começou.
— Call, não temos tempo para isso. — Alex se ajoelhou para erguer Drew nos braços. — Precisamos sair daqui.
— O... o quê? — Drew parecia estar muito impressionado para agir de modo normal. — O que está acontecendo?
Alex inspecionava a área, ansioso. Call imediatamente se lembrou de todos os avisos sobre o que espreitava na floresta do lado de fora das cavernas da escola.
— Os Dominados pelo Caos — Call concluiu. — Eles estão aqui.

9 comentários:

  1. ''A tensão tomava conta do rosto de Tamara. Ela prendera o cabelo cuidadosamente em duas tranças e vestia um pijama cor-de-rosa com os dizeres: EU LUTO COMO UMA GAROTA. Sobre essas palavras, havia uma serigrafia de três meninas de um desenho animado executando movimentos ninjas mortais.''
    Tamara <3 Esse pijama <3

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  2. Gente, só eu que tive a sensação de que toda essa coisa do Drew foi só pra atraiatrair todo mundo pra fora pros Dominados atacarem??

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  3. Pera call usou magia de cura?
    Interessante 😐.
    E aquele bracelete com uma pedra preta
    Acho q tem o significado do caos.
    Concluindo: o bracelete e daquela garota que tinha amagia do caos e morreu cedo ou do próprio inimigo😕.
    Ass: Milly*-*
    Obs:espero que eu esteja certa

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    1. Faria mais sentido c fosse do inimigo mas daonde q o pai dele ia ter esse bracelete e 2 oqq quer dizer issu sera q ele é um dominado pelo caos tbm

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  4. Eita porra. Pernas pra que te quero?! É...pareceu melhor na minha cabeça, sem trocadilhos. Acho o Drew estranho, mas não perigoso, ou suspeito.

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  5. Suspeito,muito suspeito

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  6. Cara, esse negócio de achar todo mundo suspeito é muito The 39 Clues
    "Não confiem em ninguém"

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Boa leitura :)