25 de janeiro de 2017

Capítulo quatro


A visão de Call estava turva e isso deixava tudo um pouco surreal. As pessoas entravam, chocadas e boquiabertas. Vozes murmurando e gritando inundaram seu cérebro.
O lustre parecia um enorme animal morto, abatido no meio do salão. Quase todos os braços da peça estavam estilhaçados, e cacos de vidros se espalhavam por todo canto, brilhantes e afiados.
— O que está acontecendo aqui? — gritou um homem de cabelos negros. Call tinha uma vaga lembrança da cerimônia e achava que ele era um professor do Collegium e se chamava Mestre Sukarno. Era um homem grande, imponente e estava com o rosto rubro de fúria. — Isso foi magia do caos! — Ele virou para Aaron e Call. — Vocês estavam brincando com magia do vazio? São realmente tolos assim? Em todos os lugares esse tipo de magia é estritamente regulamentada, mas aqui nestes salões ela é proibida. Estamos em baixo d’água e não podemos arriscar a integridade da estrutura da escola porque crianças arrogantes resolveram se divertir! Poderíamos ter todos nos afogado.
Tamara parecia prestes a explodir de raiva.
— Como ousa — disse ela. — Ninguém estava brincando. Estávamos aqui quando o lustre caiu e quase nos esmagou. Se Aaron não tivesse feito o que fez, eu e Call estaríamos mortos! Não aconteceu nada com seu precioso Collegium! Está tudo bem!
— O que vocês fizeram para o lustre cair? — perguntou o Mestre Taisuke, um dos Mestres do Magisterium. — Ele está pendurado aí há cem anos. Vocês três entram aqui e ele simplesmente cai?
— Basta! — Era a voz do pai de Tamara. Os Rajavi tinham levitado sobre os destroços para chegar até a filha. Do outro lado do recinto, Call conseguia ver Kimiya e Alex juntos, ambos olhando a cena com os olhos arregalados de horror. A mãe de Tamara disparou em direção à filha, puxando-a para longe de Call, afagando seu cabelo e olhando para ela com preocupação. A mulher cuidou do corte na bochecha de Tamara, estancando o sangue com um guardanapo. Logo depois era Alastair quem abria caminho na multidão para chegar a Call. Ele estava pálido, mais pálido do que Call esperaria. Ele nem se incomodou em levitar, só abriu caminho pelos cristais estilhaçados e pelo metal retorcido, até agarrar Call e puxá-lo para os seus braços.
— Callum — disse ele com a voz áspera. Sobre o ombro do pai, Call podia ver Aaron, ainda apoiado contra a parede. Não havia ninguém ali para cuidar de seus cortes ou abraçá-lo. Com uma expressão estranha no rosto, ele olhava para a própria mão, a que tinha usado para liberar o caos.
— Minha filha não é encrenqueira — irritou-se o Sr. Rajavi. — Caso tenha se esquecido, estamos todos aqui hoje para homenagear o heroísmo dela...
— E o heroísmo de vários outros alunos — acrescentou o Mestre North, que tinha afastado alguns dos curiosos para perto da parede, para que ele e Mestre Rufus pudessem examinar os destroços do lustre.
— Eu fui contra a cerimônia de premiação desde o princípio — disse Taisuke. — Crianças não devem ser recompensadas por desobediência, mesmo que o resultado final seja positivo.
Mentalmente, Call colocou o Mestre Taisuke na categoria Não É Meu Fã. Era uma categoria em expansão.
— Os Makaris, especialmente, deveriam ser controlados — continuou Taisuke. — Como vimos com Constantine Madden, um jovem Makar que não conhece o próprio poder é a coisa mais perigosa do mundo.
— Então você está dizendo que jovens Makaris devem ser mortos, como é o costume em outros países? — perguntou Mestre Rufus. Ele não falou alto, mas a voz soou clara, poderosa e firme. — Porque alguém tentou fazer isso. O lustre caiu porque mexeram na corrente. Alguém estava tentando assassinar os Makaris.
— Assassinar? — perguntou Mestre Sukamo, murchando um pouco.
Outro professor do Collegium fez um gesto abrupto no ar e disse uma palavra estranha.
Um rugido súbito e ensurdecedor percorreu o salão. Alastair apertou Call ainda mais, os pais de Tamara a agarraram, e o Mestre Rufus foi na direção de Aaron. Uma espécie de sistema de alarme parecia ter disparado — então de repente um caminho se acendeu diante deles e, na parede, Call viu portas antes ocultas agora iluminarem-se. Ele, Aaron e Tamara foram levados por uma delas, percorreram um corredor e chegaram a uma sala escura e sem janelas, cheia de sofás e cadeiras.
Funcionários do Collegium corriam de um lado para o outro, protegendo a área. Alguém trouxe cobertores e canecas de chá bem doce que pareciam um pedido de desculpas por Mestre Sukarno tê-los acusado de serem delinquentes relapsos. Anastasia Tarquin surgiu com uma barrinha de cereal e a entregou a Aaron, dizendo que usar toda aquela magia caótica, mesmo com um contrapeso, provavelmente o havia deixado exausto.
Por um instante, Call achou que talvez isso significasse que os adultos os deixariam sozinhos. Tamara estava aconchegada em um sofá com os pais, e Aaron estava encolhido em uma poltrona, parecendo arrasado e exausto. Mas, claro, nada disso importava. Assim que a equipe do Collegium saiu, Mestre Rufus, Mestre North, Anastasia e Graves começaram a fazer inúmeras perguntas desconfortáveis.
Por que Call foi para a Sala de Troféus? Alguém o ameaçou na festa? Ele sabia que Aaron iria atrás dele?
Não fazia sentido se colocar em uma situação constrangedora na frente da equipe de professores do Magisterium e do Collegium, quanto mais da Assembleia, então Call mentiu. Não, ninguém sabia que ele estava indo para a Sala de Troféus. Não, ninguém sabia que Aaron estaria com ele. Ele detestava dançar e estava andando sem rumo, olhando para os objetos antigos. É claro que ele não tinha levado um bolo em um possível encontro. Definitivamente ele não era um perdedor cujos amigos quase foram esmagados sob o lustre da derrota.
Depois, Célia e Jasper foram autorizados a entrar. Célia com suas duas mães e Jasper com a mãe e o pai. O Sr. DeWinter deu um empurrãozinho e lançou um olhar severo a Jasper, como se alertando o filho a não fazer qualquer coisa potencialmente humilhante para o nome da família.
Call suspirou, preparado para o pior. Já tinha sido ruim o bastante imaginar Célia explicando por que tinha decidido não ir ao seu encontro, mas ouvir a explicação na frente de todo mundo era como uma bola extra de humilhação em cima de um sundae de vergonha que já era suficientemente grande. Call se perguntou se era ruim desejar ter sido esmagado pelo lustre.
— Vocês são amigos desses três — disse Mestre North a Célia e Jasper, indicando Call, Aaron e Tamara. Célia pareceu satisfeita ao ouvir isso; Jasper, por sua vez, pareceu encarar como uma acusação. — Notaram alguma coisa diferente esta noite? Alguém se comportando de maneira suspeita em relação a eles?
— Jennifer Matsui estava falando com Call — disse Jasper. — O que é estranho porque ela é bonita e popular, enquanto ele é horrível e zero popular — Jasper viu Alastair olhando para ele, e enrubesceu. — Brincadeira. Mas eu não sabia que eles se conheciam.
— Superficialmente — disse Tamara. — Jennifer é amiga da minha irmã.
— Mas ela não é amiga do Call — disse Célia, virando-se para ele. — Por que você estava falando com Jennifer, Call?
Call ficou de saco cheio.
— Ela estava entregando o bilhete para mim — disse ele. — O seu bilhete.
— Que bilhete? — Célia pareceu totalmente espantada. — Não escrevi bilhete nenhum.
Call pegou o papel do bolso.
— Então o que é isso?
Célia franziu o rosto para o papel.
— Essa não é a minha letra. E não tem a minha assinatura nem nada; só o meu nome escrito. Ela disse que era meu? — Em seguida, releu as palavras e ruborizou, o pescoço vermelho. — Você foi para a Sala de Troféus porque achou que fosse me encontrar lá?
Tamara fez uma careta.
— Você não contou isso.
— Callum — disse Mestre North, com a voz austera o suficiente para que todos se calassem. — Vamos refazer os acontecimentos de hoje, lentamente. E, desta vez, não vai deixar nenhum detalhe de fora. Está entendendo? Isso é muito importante.
— Certo — disse Call, resignado. — Foi só que eu...
— Sem desculpas — disse Mestre North. — Comece.
— Eu estava procurando Alastair quando Jennifer Matsui me entregou o bilhete e disse que era de... uma loura bonita — disse Call, desejando saber fazer magia o suficiente para se tornar invisível ou fumaça e descer pelos tacos do chão.
Célia sorriu para ele.
— Jura?
Jasper tinha começado a rir em silêncio. Ao ver a expressão de Mestre Rufus, tentou parar, mas não teve muito sucesso.
— Você é a única loura que ele conhece — disparou Tamara, claramente menos entretida. Ser quase esmagada por dez toneladas de vidro e cristal pareceu deixá-la menos interessada em fazer Call passar vergonha.
Mestre North esticou a mão para pegar o bilhete das mãos de Célia. Olhou o papel por um instante, depois de volta para ela.
— Você não escreveu isso? Tem certeza?
Célia balançou a cabeça.
— Não escrevi. Quer dizer... — Célia lançou um olhar infeliz para Call. — Estou me sentindo muito mal que alguém tenha tentado usar meu nome para tentar machucar você.
— Tudo bem — disse Call, tentando parecer que não se portava com isso. Depois, percebeu que dizer “tudo bem” depois de quase ser esmagado por um lustre era um pouco bizarro. Desolado, ele olhou para o pai. Alastair deu de ombros.
— Onde está Jennifer Matsui agora? — perguntou Mestre Rufus, claramente impaciente com o vacilo de Call. — Provavelmente foi o responsável por sabotar o lustre quem entregou o bilhete a ela. A não ser que a própria Jennifer tenha feito isso.
— Jennifer? — disse Tamara. — Por que ela faria isso?
Aaron franziu a testa.
— Por que alguém iria querer matar Call?
— Bem, ele é um Makar — disse Mestre Rufus. — Assim como você.
Aaron, Tamara e Call se entreolharam rapidamente. Era verdade que Call era Makar, mas, na pergunta de Aaron, Call tinha ouvido outra pergunta implícita, a mesma que todos que conheciam o seu segredo provavelmente estavam se fazendo. Um questionamento que não podiam fazer nem compartilhar. Porque enquanto todos pensavam que a pessoa tentando matar Call estava tentando pegar um dos Makaris, havia outra possibilidade: a de essa pessoa estar tentando matá-lo por saber quem ele realmente era.
Talvez, se a verdade vier à tona, Call pensou, quem quer que tenha tentado jogar um lustre na minha cabeça receba um prêmio também.
— Sim, com essa personalidade incrível que ele tem é difícil imaginar quem iria querer uma coisa dessas — disse Jasper.
— Jasper! — disse Tamara, mas Call, pela primeira vez, não se importou. Jasper ser um babaca com ele era normal, e naquele momento, normalidade era tudo que Call queria.
Mas isso não iria acontecer. Um grito parou a sala — seguido de outro e depois mais outro. Alguém no Collegium estava berrando de pavor.
Tamara ficou de pé. A barrinha cereal de Aaron voou. Alastair parecia apavorado.
— O que está acontecendo? — perguntou a senhora Rajavi, virando para olhar para os Mestres.
Call também tinha levantado e foi correndo para a porta. A perna dele doía e assim mesmo ele forçou o movimento — mas ainda não era tão veloz quanto os outros. Podia ouvir vozes, gritos e berros, todos ecoando de um dos lados do Collegium.
Correram por um longo corredor, atravessaram outro salão e voltaram para a Sala de Guerra.
Estava cheia de gente. A pessoa ainda gritava. Era Kimiya. Uma de suas mãos estava segurando a frente do vestido, e a outra apontava para cima.
Do outro lado do vidro claro, Call via a água ao redor de todo o Collegium, brilhando em um azul-esverdeado meio embaçado. Os cardumes de peixes tinham desaparecido. Havia apenas a água e um corpo flutuando nela. Uma menina, descalça, com um vestido que a envolvia parcialmente, como alga. Seus cabelos escuros balançavam com a corrente.
Tamara correu na direção da irmã, mas Alex já estava abraçando Kimiya. Ele tinha uma expressão de horror no rosto.
— Jen — disse Kimiya entre soluços, o rosto colado na camisa dele. — Jen...
Call sentiu-se congelar. O corpo na água boiou, virou e Call viu duas coisas: primeiro, que havia uma longa adaga de ferro enfiada no peito da menina morta. Segundo, que o rosto era familiar.
Era Jennifer Matsui, e alguém a tinha matado.

6 comentários:

  1. ''Não fazia sentido se colocar em uma situação constrangedora na frente da equipe de professores do Magisterium e do Collegium, quanto mais da Assembleia, então Call mentiu. Não, ninguém sabia que ele estava indo para a Sala de Troféus. Não, ninguém sabia que Aaron estaria com ele. Ele detestava dançar e estava andando sem rumo, olhando para os objetos antigos. É claro que ele não tinha levado um bolo em um possível encontro. Definitivamente ele não era um perdedor cujos amigos quase foram esmagados sob o lustre da derrota.'' Como o Call é lerdo, ele nem pra raciocinar que não tinha levado um bolo e que na verdade tinham armado pra ele. Você tem que ser mais desconfiado meu filho.
    E acho que a Tamara tá com ciume.

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  2. ai que dó do meu Aaron gente precisa de um abraço e eu nao estava la kkkkkk serio fiquei com uma vontade de abraçar ele que so Deus .... tamara com ciumes mds e como call ousa dizer que ninguem que ele

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  3. Vontade de dar um abraço no Aaron, tão solitário. Muito conveniente ela morrer. Ai, desisto das minhas teorias.

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  4. Legal essa tal de Jennifer apareceu num capítulo para morrer nô outro

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  5. — Mas ela não é amiga do Call — disse Célia, virando-se para ele. — Por que você estava falando com Jennifer, Call?
    Notei algo chamado ciúme no jeito dela de falar... ;v;

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Boa leitura :)