20 de janeiro de 2017

Capítulo quatro


Call entendeu por que os vizinhos queriam entrar de penetras na festa. Quando voltou com Aaron, Tamara e um recém-escovado Devastação de coleira nova, o menino se deu conta da magnitude do evento e ficou impressionado.
Mesas cobertas com toalhas estavam cheias de travessas de comida — pequenas linguiças de frango envoltas em massa folhada, frutas cortadas em formato de luas, estrelas e sóis, saladas de ervas e tomates picados, blocos de queijo e biscoitos, camarão em espetinhos, escalopes defumados, atum grelhado, formas de gelatina com pedaços de carne e latinhas frias, contendo pequenas contas pretas em potes de gelo, que Call concluiu ser caviar.
Esculturas de gelo do tamanho de leões retratavam manticoras, suas asas cristalinas enviando uma brisa fria pelo ar; sapos de gelo saltavam de mesa em mesa, e navios piratas voavam pelo céu antes de aterrissarem no chão sobre pedras de gelo. Na mesa central, um chafariz de gelo jorrava coquetel de frutas em vez de água. Quatro pavões de gelo estavam empoleirados nas bordas da escultura, utilizando garras brilhantes para servir bebidas aos convidados em copos também feitos de gelo.
Ao lado do banquete havia uma fila de topiários esculpidos em formas elaboradas — flores, símbolos, estampas e letras. Flores resplandecentes cobriam cada arca, mas a visão mais brilhante de todas era um imenso castelo, repleto de detalhes, do qual vertia uma cachoeira de fogo líquido. Flamejava e piscava na grama onde meninas descalças, com vestidos de festa, corriam de um lado para o outro, colocando as mãos nas faíscas, que corriam por suas peles sem parecer queimá-las. Como que para deixar bem clara a questão, uma placa que flutuava no ar acima da cachoeira informava: CRIANÇAS, POR FAVOR, BRINQUEM COM FOGO.
Call meio que queria correr ali também, mas não sabia ao certo se podia, ou se aquela era uma diversão destinada apenas a crianças pequenas. Devastação farejava a grama em busca de pedaços de comida. Tamara havia colocado um laço cor-de-rosa em volta do pescoço do lobo. Call ficou imaginando se Devastação estaria se sentindo humilhado. Não parecia.
— Tem frequentado festas assim o verão inteiro? — perguntou Call a Aaron.
Aaron parecia um pouco desconfortável.
— Basicamente.
— Frequento festas assim desde que nasci. — Tamara os arrastou para longe dali. — São apenas festas. Logo ficam chatas. Agora vamos, os feitiços na verdade são legais. Não vão querer perder.
Passaram pelos topiários e pela cachoeira de fogo, pelas mesas e pelo aglomerado de pessoas, até um pedaço de grama, onde um pequeno grupo havia se reunido. Call percebeu que eram magos não só pelas pulseiras que brilhavam em seus pulsos, mas também pela atmosfera de confiança e poder.
— O que vai acontecer? — perguntou Call.
Tamara sorriu.
— Os magos vão se exibir.
Como se tivesse ouvido, um dos magos, um homem compacto de pele levemente morena, levantou a mão. A área ao redor dos magos começou a ficar lotada quando o senhor e a senhora Rajavi chamaram o resto dos convidados.
— Esse é Mestre Cameron — sussurrou Tamara, olhando para o mago, cuja mão havia começado a brilhar. — Ele é professor lá da escola e faz truques com...
De repente, uma onda se elevou da mão do mago. Foi como se a grama se tomasse um oceano à beira de um maremoto. Foi crescendo e crescendo até se elevar sobre eles, sombreando a festa, grande o suficiente para derrubar a casa e inundar o terreno. Call respirou fundo.
O ar cheirava a maresia. Dentro da onda, ele viu coisas se movendo. Enguias e tubarões abrindo a boca. Um esguicho salgado atingiu o rosto de Call enquanto a coisa toda caía... e logo em seguida desapareceu.
Todos aplaudiram. Call teria aplaudido também se não estivesse segurando a coleira de Devastação em uma das mãos. Devastação gania e farejava o próprio pelo. Detestava ficar molhado.
— Água — concluiu Tamara com uma risada. — Uma vez, quando estava muito calor, ele veio e fez um chuveiro enorme perto da piscina. Todos nós corremos pela água – até Kimiya.
— Como assim, até Kimiya? — Uma voz provocadora se fez ouvir. — Gosto de água tanto quanto qualquer pessoa! — A irmã mais velha de Tamara, com um vestido e sandálias prateados, tinha chegado por trás deles. Segurando sua mão, estava Alex Strike, prestes a ingressar no quarto ano do Magisterium e um assistente contumaz de Mestre Rufus. Estava vestido de forma casual, com jeans e camiseta, e ainda ostentava uma pulseira de bronze no pulso, considerando que ainda não tinha recebido uma de prata. Ele sorriu para Call.
— Oi, esguicho — cumprimentou ele.
Call sorriu um pouco desconfortável. Alex sempre fora gentil com ele, mas Call não sabia que Alex estava namorando a irmã mais velha de Tamara.
Kimiya era muito bonita e popular, e Call sempre tinha a sensação de que ia cair ou atear fogo em si mesmo quando estava perto dela. Fazia sentido que duas pessoas populares ficassem juntas, mas também o deixava mais consciente sobre várias coisas — sua perna manca, os cabelos desalinhados, o fato de que estava ali com as roupas que pegou emprestadas de Aaron.
Mestre Cameron encerrou sua apresentação com um floreio — gotículas brilhantes que gritavam para os convidados. Todos suspiraram, antecipando que se molhariam, mas a água evaporou a poucos centímetros da multidão, transformando-se em linhas de vapor colorido. O senhor e a senhora Rajavi puxavam os aplausos quando outra bruxa entrou em cena, uma mulher alta, com um cabelo prateado magnífico. Call reconheceu a mulher que tinha passado por ele imperiosamente na entrada.
— Anastasia Tarquin — explicou Tamara com um sussurro. — Ela é madrasta de Alex.
— Isso mesmo — confirmou Alex. Sua expressão ao olhar para a mulher era neutra. Call ficou imaginando se o amigo gostava dela. Quando Call era mais novo, queria que o pai se casasse de novo para que tivesse uma madrasta; parecia melhor que não ter mãe alguma. Só depois de crescido foi que imaginou como teria sido se o pai houvesse casado com uma pessoa de quem ele não gostasse.
Anastasia Tarquin ergueu as duas mãos, imponente, varinhas finas de metal em cada uma. Quando as soltou, elas se alinharam no ar na frente dela. Ela estalou os dedos, e uma delas vibrou, emitindo uma única nota musical perfeita.
Call pulou, surpreso.
Alex olhou para ele.
— Maneiro, né? Quando você domina o metal, consegue fazê-lo vibrar na frequência que quiser.
As outras varinhas também começaram a tremer, como diferentes cordas de violão sendo tocada, emitindo uma torrente musical. Call gostava de música tanto quanto qualquer pessoa, mas jamais pensara naquela possibilidade antes, sobre como a magia alquímica podia ser usada não apenas para fortalecer e defender o mago, ou para atacar e guerrear, mas para fazer arte. A música era como chuva rompendo o ar úmido; fez Call pensar em cachoeiras, neve e gelo flutuando no oceano.
Quando a última nota acabou de soar, as varinhas de metal despencaram, derretendo, como água de chuva afundando na lama. A senhora Tarquin fez uma reverência e se retirou em meio a uma salva de palmas. Enquanto saía, deu uma piscadela na direção de Alex. Talvez se dessem bem, afinal.
— E agora — disse o senhor Rajavi —, talvez nosso Makar, Aaron Stewart, pudesse nos agradar com um pouco de magia do caos?
Call sentiu Aaron enrijecer ao seu lado enquanto todos aplaudiam, entusiasmados. Tamara se virou e afagou um dos ombros de Aaron. Ele a olhou por um segundo, mordendo o lábio, antes de se ajeitar e ir para o centro do círculo do mago.
Ele parecia muito pequeno ali.
Fazendo truques e indo a festas, foi o que Aaron disse a Call, mas Call não pensou que se referisse a truques de fato, Call não tinha ideia do que um mago do caos podia fazer de bonito ou artístico. Ele se lembrou da escuridão devoradora e em espiral na qual os outros lobos Dominados pelo Caos desapareceram; lembrou-se do elemental do caos com bocas largas e molhadas; e estremeceu com uma sensação que era parte pavor e parte ansiedade.
Aaron ergueu as mãos, os dedos bem separados. Ele conjurou a Escuridão.
Um silêncio se espalhou sobre a festa enquanto mais gente se juntava ao grupo, olhando para o Makar e as sombras crescentes ao seu redor. A magia do caos vinha do vazio, vinha do nada. Era criação e destruição ao mesmo tempo, e Aaron a comandava.
Por um instante, até Call teve um pouco de medo dele.
As sombras congelaram nas formas gêmeas de dois elementais do caos. Eram criaturas finas e esguias, que lembravam cachorros feitos inteiramente de escuridão, menores que o do covil de Mestre Joseph. Mesmo assim, os olhos brilhavam com a loucura do vazio.
Engasgos dominaram a festa. Tamara agarrou o braço de Call.
Call, por sua vez, ficou boquiaberto. Aquilo não parecia ser um truque. Aquelas coisas pareciam perigosas. Olhavam para a multidão como se estivessem loucos para devorar a todos e, em seguida, palitar os dentes com os ossos das pessoas enquanto escolhiam sua próxima refeição.
As figuras começaram a deslizar sinuosamente pela grama.
Tudo bem, Aaron, pensou Call. Pode dispensá-los. Faça-os sumir. Faça alguma coisa.
Aaron levantou as mãos. Fios de escuridão começaram a subir dos dedos dele em espiral. O menino tinha o cenho franzido de concentração. Ele esticou...
Devastação começou a latir descontroladamente, espantando tanto Call quanto Aaron. Call percebeu o momento em que a concentração de Aaron lhe escapou e as sombras sumiram de seus dedos.
O que quer que ele pretendesse fazer, não aconteceu. Em vez disso, um dos elementais do caos pulou para o ar, na direção da mãe de Tamara. Ela arregalou os olhos, a boca se abrindo em um terror assombrado. Uma das mãos da mulher se ergueu, e uma chama surgiu no meio da palma.
Aaron caiu de joelhos, sacudindo as duas mãos. A escuridão se expandiu, cercando o elemental. A criatura desapareceu, junto de sua gêmea. Os elementais do caos se foram, sumindo nas sombras que evaporaram e na luz do sol que voltou. Call percebeu que era um dia de verão novamente, um dia de verão em uma festa chique no jardim. Não sabia ao certo se houvera de fato algum perigo real.
Todos começaram a rir e a aplaudir. Até a senhora Rajavi parecia entretida.
Aaron arfava. Seu rosto estava pálido, com um rubor agitado nas bochechas, como se estivesse doente. Ele não parecia alguém que acabara de realizar um truque. Parecia mais alguém que tinha acabado de fazer a mãe de sua amiga ser devorada.
Call se virou para Tamara.
— O que foi aquilo?
Os olhos dela brilharam.
— Como assim? Ele foi sensacional!
— Ele podia ter morrido! — sibilou Call para ela, contendo-se antes de acrescentar que a mãe dela provavelmente também podia ter sido devorada.
Aaron se pôs de pé e começou a abrir caminho pela multidão em direção a eles. Não estava avançando muito rápido, considerando que todo mundo queria se aproximar dele para cumprimentá-lo e afagá-lo nas costas.
Tamara zombou.
— Foi só um truque de festa, Call. Todos os outros magos estavam perto. Teriam interferido se algo tivesse dado errado.
Call sentiu o gosto amargo da raiva no fundo da garganta. Ele sabia, e Tamara também, que magos não eram infalíveis. Nem sempre interferiam para conter as coisas a tempo. Ninguém interferiu para conter Constantine Madden quando ele exagerou tanto na magia do caos a ponto de matar o irmão e quase destruir o Magisterium. Ele ficou tão ferido e marcado pelo que aconteceu que passou a usar sempre uma máscara de prata para cobrir o rosto depois disso.
Devia detestar a própria aparência.
Call levantou a mão para tocar a pele intacta do próprio rosto exatamente quando Aaron se aproximou deles, enrubescido e com o olhar desgovernado.
— Podemos sentar em algum lugar? — pediu ele, baixo o suficiente para que as palavras não alcançassem a multidão. — Preciso recuperar o fôlego.
— Claro. — Call se posicionou um pouco à frente de Aaron ao se inclinar para Devastação. — Me puxe até o chafariz — sussurrou ele para o lobo, e Devastação o rebocou. A multidão mais que depressa abriu caminho para permitir que Devastação passasse, e Call, Tamara e Aaron o seguiram. Call tinha consciência de que Alex os olhava com solidariedade, apesar de Kimiya já ter voltado sua atenção para o próximo truque de mágica.
Faíscas coloridas se ergueram no ar atrás deles enquanto circulavam a cerca viva em forma de escudo e dirigiam-se a um chafariz redondo, feito de pedra amarela e com uma aparência envelhecida, que fez Call imaginar se havia sido trazido de algum outro lugar. Aaron sentou na borda, esfregando as mãos nos cacheados cabelos louros.
— Detesto meu corte de cabelo — comentou ele.
— Está legal — garantiu Call.
— Você não acha isso de verdade — refutou Aaron.
— Na verdade, não. — Call ofereceu a Aaron o que imaginava ser um sorriso solidário. Talvez não tenha sido muito bem-sucedido. — Tudo bem?
Aaron respirou fundo.
— Eu só...
— Você soube? — Uma voz adulta flutuou pelo ar, através das folhas. Era profunda e grave. Call já a ouvira antes. — Alguém invadiu o Magisterium na semana passada. Tentaram roubar o Alkahest.
Call e Aaron trocaram um olhar e depois se voltaram para Tamara, que estava completamente imóvel. Ela colocou um dos dedos sobre os lábios, um sinal para que os dois ficassem quietos.
— Alguém? — repetiu uma voz leve e feminina. —Você quer dizer os capangas do Inimigo. Quem mais? Ele quer começar uma nova guerra.
— Nenhum Alkahest vai salvá-lo uma vez que nosso Makar esteja treinado e pronto. — Foi a resposta do homem.
— Mas, se ele conseguir consertá-lo, a tragédia de Verity Torres pode se repetir — observou uma terceira voz, cautelosa. Era uma voz de homem, aguda e nervosa. — Nosso Makar é jovem, como ela era. Precisamos de tempo. O Alkahest é poderoso demais para algum de nós tentar roubá-lo inconsequentemente.
— Vão levar o Alkahest para algum lugar mais seguro — disse a voz feminina outra vez. — Foram tolos de o deixarem exposto.
— Até termos certeza de que está em algum lugar protegido, a segurança do nosso Makar tem que ser nossa prioridade máxima — retrucou a primeira pessoa.
Aaron estava congelado no lugar, a água borbulhante do chafariz soava alto nos ouvidos de Call.
— Achei que ter um Makar por perto fosse nos deixar mais seguros — argumentou a voz nervosa. — Se estivermos ocupados cuidando dele, quem cuidará de nós?
Call se levantou, atingido pelo pensamento de que estavam a segundos de ouvir um dos magos falando alguma coisa negativa sobre Aaron. Alguma coisa pior que uma mera especulação sobre os planos do Inimigo de matá-lo.
Call desejou poder dizer a Aaron que tinha certeza de que o Inimigo da Morte não tinha tentado roubar o Alkahest — o que quer que fosse aquilo — e, no momento, também não estava planejando nada mais grave que uma vingança contra Jasper.
Claro, ele não fazia ideia do que Mestre Joseph estava aprontando. Então talvez os capangas do Inimigo da Morte estivessem por trás da tentativa de roubo, o que era menos tranquilizante. Mestre Joseph tinha muito poder por si só. Há 13 anos ele já se virava muito bem sem a ajuda de Constantine Madden, por mais que dissesse que precisava de Call.
— Vamos — disse Tamara em voz alta, pegando o braço de Aaron e o afastando dali. Ela devia estar pensando a mesma coisa que Call. — Estou morrendo de fome. Vamos procurar alguma coisa para comer.
— Claro — disse Aaron, apesar de Call ter percebido que ele não estava com o menor ânimo para pensar em comida. Mesmo assim, seguiu Call e Tamara até a mesa do bufê e assistiu enquanto Call enchia três pratos com torres de camarões, escalopes, linguiças e queijo.
As pessoas não paravam de cumprimentar Aaron, parabenizando-o por seu controle sobre os elementais do caos, querendo convidá-lo para coisas, ou contar alguma história sobre seu envolvimento na última guerra. Aaron foi educado, acenando com a cabeça até para as histórias mais chatas.
Call preparou um prato de queijo para Tamara, essencialmente porque tinha certeza de que os Suseranos do Mal não faziam pratos para os outros, Suseranos do Mal não se importavam se seus amigos tinham fome.
Tamara pegou o prato de queijo, deu de ombros e comeu um damasco seco que estava em uma bandeja ali perto.
— Isso aqui está um porre — sussurrou ela. — Não dá para acreditar que Aaron não morreu de tédio.
— Temos de fazer alguma coisa. — Call jogou um camarão empanado no ar e o pegou com a boca. — Pessoas como Aaron são super simpáticas até de repente explodirem e banirem algum velho irritante para o vazio.
— Isso não é verdade, — Tamara revirou os olhos. — Você poderia fazer isso, mas Aaron não.
— Ah, não? — Call ergueu as sobrancelhas. — Dê uma boa olhada na cara dele e repita isso.
Tamara examinou Aaron por um longo momento. Ele estava imerso em uma conversa com um velho mago magricela, que vestia um terno cor-de-rosa, e seus olhos pareciam vítreos.
— Tudo bem. Sei aonde podemos ir. — Ela dispensou o prato preparado por Call e pegou Aaron por uma das mangas. Ele se virou para a amiga, surpreso, em seguida, desamparado deu de ombros, sinalizando para o adulto com quem conversava, enquanto ela o arrastava para dentro da casa.
Call abandonou a comida pela metade em um corrimão de pedra e correu atrás de ambos, Tamara lhe lançou um sorriso brilhante e louco enquanto puxava Aaron para dentro, Devastação trotando atrás deles.
— Para onde vamos? — perguntou Aaron,
— Por aqui. — Tamara os conduziu pela casa até chegarem a uma biblioteca alinhada com livros elegantes. Vitrais protegidos por grades faziam com que raios brilhantes de luz entrassem no salão, e o chão era coberto por tapetes vermelhos.
Tamara atravessou a sala em direção a uma enorme lareira, flanqueada por urnas de pedra, esculpidas em ágata colorida. Cada uma tinha uma palavra marcada.
Tamara pegou a primeira e a rodou de modo que a palavra ficasse de frente para eles. Prima. Ela mexeu a segunda, girando-a até a segunda palavra também ficar diante deles. Materia.
Prima materia, Call sabia, era um termo alquímico. Significava a primeira substância do mundo, a substância da qual tudo que não era caos — terra, ar, fogo, água, metal e almas — originava-se.
Eles ouviram um clique agudo, e uma parte da parede se abriu para um corredor de pedra iluminado.
— Uau! — exclamou Call.
Ele não sabia exatamente para onde esperava que Tamara fosse levá-los — talvez para seu quarto, ou para um canto tranquilo da casa. Não tinha imaginado uma porta secreta.
— Quando ia me contar sobre isso? — Aaron correu até Tamara. — Estou morando aqui há um mês!
Tamara parecia radiante por ter sido capaz de esconder um segredo dele.
— Não posso mostrar para ninguém. Tem sorte por estar vendo agora, Makar.
Aaron mostrou a língua para ela.
Tamara riu e entrou no corredor, esticando o braço para pegar uma tocha da parede. A chama emitia um brilho dourado esverdeado e um leve odor sulfúrico. Ela seguiu pelo corredor, parando ao perceber que os meninos não a seguiram prontamente.
Ela estalou os dedos, os cachos balançando.
— Vamos — ordenou ela. — Vamos logo, seus lerdinhos.
Eles se entreolharam, deram de ombros e foram atrás da amiga.
Enquanto caminhavam, com Devastação farejando tudo atrás deles, Call percebeu por que os corredores eram tão estreitos: atravessavam toda a casa, como veias ao lado dos ossos, para que qualquer um nos recintos públicos pudesse ser espionado. E, em intervalos regulares, havia portinholas que se abriam para o que pareciam ser dutos de ar, cobertos por elaborados registros de ferro.
Call abriu uma delas e espiou a cozinha, onde os funcionários preparavam jarras frescas de limonada com água de rosas e colocavam quadradinhos de atum em folhas individuais, pousadas sobre travessas de vidro. Ele abriu mais uma e viu Alex e a irmã de Tamara abraçados em um sofá, ao lado de duas estátuas metálicas de cachorros. Enquanto assistia, Alex se inclinou e beijou Kimiya.
— O que você está fazendo? — perguntou Tamara, baixinho.
— Nada! — Call fechou a portinhola. Caminhou mais um pouco sem cair em tentação, mas fez uma pausa ao escutar os pais de Tamara. Quando parou, ouviu a senhora Rajavi comentar alguma coisa sobre os convidados da festa. Call sabia que devia seguir Tamara, mas estava se coçando para saber mais.
Aaron parou e se virou para o amigo. Call o chamou com um gesto, e Aaron e Tamara se juntaram a ele na portinha. Aaron a abriu silenciosamente com seus dedos ágeis, e todos espiaram.
— Provavelmente não deveríamos... — Tamara começou a falar, mas a curiosidade pareceu se sobrepor às objeções no meio da frase. Call ficou imaginando com que frequência ela fazia isso sozinha, e quais segredos teria descoberto assim.
A mãe e o pai de Tamara estavam no escritório, com uma mesa de madeira entre eles. Sobre esta havia um tabuleiro de xadrez, mas Call não viu os cavalos, as torres e os peões habituais; em vez disso, as peças tinham formas que ele não reconhecia.
— ... Anastasia, é claro — concluiu o senhor Rajavi. Tinham chegado no meio da frase dele.
A senhora Rajavi fez que sim com a cabeça.
— Claro. — Ela pegou uma taça vazia que repousava em uma bandeja de prata, e, enquanto assistiam, a taça se encheu com um líquido claro. — Só queria que tivesse algum jeito de não convidar os deWinter para essas coisas. Aquela família acredita que, se fingir o bastante, ainda serão os tempos de glória do empreendimento da magia, talvez ninguém note como as roupas e a conversa deles desbotaram. Graças aos céus, Tamara deu um gelo no filho deles quando as aulas começaram.
O senhor Rajavi bufou.
— Os deWinter ainda têm amigos na Assembleia. Não seria prudente descartá-los por completo.
Aaron pareceu decepcionado por flagrar apenas fofocas, mas Call estava em êxtase. Os pais de Tamara eram incríveis, concluiu ele. Qualquer um que quisesse excluir Jasper de uma festa era gente boa para ele.
A senhora Rajavi fez uma careta.
— Claramente estão tentando jogar o filho mais novo para o caminho do Makar. Provavelmente torcendo para que se eles se tornarem amigos, parte da glória vai transbordar para ele também e, por extensão, para a família.
— Pelo que Tamara contou, Jasper fracassou em encantar Aaron — comentou o senhor Rajavi secamente. — Acho que não tem nada com que se preocupar, querida. É Tamara quem está no grupo de aprendizes de Aaron, e não Jasper.
— E Callum Hunt, é claro. — A mãe de Tamara tomou um gole da taça. — O que você acha dele?
— Ele lembra o pai. — O senhor Rajavi franziu o rosto. — Uma infelicidade o caso de Alastair Hunt. Ele era um mago do metal bastante promissor quando estudava com Mestre Rufus.
Call congelou. Aaron e Tamara olhavam para ele, apreensivos, enquanto o senhor Rajavi prosseguia.
— Foi levado à loucura pela morte da esposa no Massacre Gelado, pelo que dizem. Resmunga sobre não utilizar magia, desperdiçando a própria vida. Mesmo assim, não há motivo para não darmos as boas-vindas ao filho dele. Mestre Rufus deve ter visto alguma coisa nesse garoto para escolhê-lo como aprendiz.
Call sentiu a mão de Tamara em seu braço, afastando-o da portinhola. Aaron fechou-a atrás deles enquanto prosseguiam pelo corredor. Call afundou os dedos na pelugem de Devastação para se sentir seguro. Seu estômago parecia oco, e ele ficou aliviado quando chegaram a uma porta estreita, que levava ao que parecia um outro escritório.
A luz verde-dourada da tocha mostrava grandes sofás confortáveis no meio do recinto, uma mesa de centro e uma escrivaninha. Em uma parede havia uma prateleira de livros, mas os tomos ali não eram os mesmos volumes vistosos e elegantes que Call viu na biblioteca. Aqueles pareciam mais antigos, mais empoeirados e gastos. Algumas lombadas estavam rasgadas. Alguns eram apenas manuscritos, amarrados com cordas.
— Para que serve esse lugar? — perguntou Call, enquanto Devastação pulava em um dos sofás, circundando-o algumas vezes antes de se jogar em uma posição propícia para um cochilo.
— Reuniões secretas — explicou Tamara, com os olhos brilhando. — Meus pais acham que eu não sei, mas eu sei. Existem livros sobre técnicas perigosas de magia aqui, e todo tipo de registro, datados de muitos anos. Houve um tempo em que os magos podiam lucrar com a magia, quando tinham negócios enormes. Então aprovaram as Leis de Empreendimento. Não é mais permitido usar magia para ganhar dinheiro no mundo normal. Algumas famílias perderam tudo.
Call ficou imaginando se tinha sido isso o que acontecera com a família de Jasper. Ficou imaginando se a família Hunt também havia ganhado dinheiro daquela forma — ou se a família de sua mãe também se enveredara por aqueles caminhos. Percebeu que não sabia quase nada sobre eles.
— Então como os magos ganham dinheiro? — Aaron olhou em volta, claramente pensando na casa imensa onde estavam e na festa de que tinham acabado de participar.
— Podem trabalhar para a Assembleia ou arrumar um emprego normal — explicou Tamara. — Mas, se já tiverem dinheiro, podem investir.
Call ficou imaginando como Constantine Madden tinha ganhado dinheiro, mas então se deu conta de que ele provavelmente não achava que estava sujeito às Leis de Empreendimento, considerando que declarou guerra aos outros magos. O que trouxe Call à razão pela qual tinha vindo até a casa de Tamara.
— Acha que alguma das pessoas da festa vai para o Magisterium? De repente eu posso pegar carona com alguém.
— Uma carona? Para o Magisterium? Mas não tem ninguém lá — disse Aaron.
— Alguém tem de estar — insistiu Call. — E preciso ficar em algum lugar. Não posso voltar para casa.
— Não seja ridículo — retrucou Tamara. — Pode ficar aqui até as aulas começarem. Podemos nadar na piscina e treinar magia. Já falei com meus pais. Arrumamos um quarto de hóspedes para você e tudo.
Call esticou o braço para afagar a cabeça de Devastação. O lobo nem abriu os olhos.
— Acha que seus pais não se importam?
Todos ouviram os pais dela falando sobre ele, afinal.
Tamara balançou a cabeça.
— Estão felizes em recebê-lo. — O tom de voz de Tamara deixava claro que eles recebiam Call por alguns bons motivos e por outros motivos não tão bons assim.
Mas era um lugar para ficar. E não tinham falado nada de mal sobre ele, não realmente. Disseram que Mestre Rufus devia tê-lo escolhido por um bom motivo.
— Você pode ligar para Alastair — sugeriu Aaron. — Para ele não se preocupar. Quero dizer, mesmo que ele não queira que você volte ao Magisterium, ele precisa saber que você está seguro.
— É. — Call lembrou do pai jogado contra a parede da adega, imaginando o quanto Alastair se dedicaria a ir atrás dele para matá-lo. — Talvez amanhã. Depois que descobrirmos mais segredos sobre Jasper. E comermos toda a comida do bufê. E nadarmos na piscina.
— E podemos treinar um pouco de magia. — Aaron abriu um sorriso. Mestre Rufus vai ser pego de surpresa. Vamos atravessar o Segundo Portal antes de todo mundo.
— Contanto que seja antes de Jasper... — completou Call.
Tamara soltou uma gargalhada. Devastação rolou sobre as costas, roncando levemente.

9 comentários:

  1. Respostas
    1. EU NAO ENTENDO O CALL AINDA NAO FEZ NADA DE IMPORTANTE NEM PARECE QUE ELE EO PRINCIPAL

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  2. O Call é muito doido. Eu provavelmente teria virado mendiga, nunca que eu teria coragem de pegar um ônibus pra outra cidade, depois um taxi até a casa da Tamara pra ela mesma pagar.

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    1. Por isso vc jamais será um suserano do mal.

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    2. O CALL NEM PARECE O PRINCIPAL NESSE LIVRO

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    3. Ai, gente. Acho essa dualidade dele de bem e mal muito mais interessante do que se ele fosse um herói que nem os outros. Ele não tem que fazer nada surpreendente pra ser o protagonista. Eu gostei muito dessa linha que o livro segue.

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  3. Só fico pensando no q o pai de call vai fazer
    Ass: Milly*-*

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  4. Jasper é muito um Malfoy falido. Kkkkkk. Acham que futuramente pode acontecer...Tamaaron?

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Boa leitura :)