25 de janeiro de 2017

Capítulo onze


Eles já tinham quase chegado no corredor quando os Mestres entraram explodindo na sala dos guardas, com mágica ardendo das mãos. Estavam de olhos arregalados, prontos para o combate. Ao verem Tamara, Aaron e Call, a bola branca de energia flutuando na frente do Mestre North escorregou e se partiu no chão em um banho de faíscas.
— Aprendizes — demandou. — O que estão fazendo aqui? Expliquem-se!
Mestre Rufus avançou, agarrando o colarinho de Aaron com uma das mãos e o de Call com a outra.
— Dentre todas as coisas imprudentes e ridículas que vocês já fizeram, essa, essa foi a pior! Colocaram não só as próprias vidas em risco, mas a de todo o Magisterium.
Tamara, que ainda não estava sendo arrastada pelo Mestre Rufus, ousou falar.
— Achamos que um dos elementais pudesse saber quem soltou Skelmis. Sei que nos fez prometer que não investigaríamos, mas isso foi antes de Call ser atacado!
Mestre Rufus lançou um olhar para ela que fez Call temer que pudesse realmente queimar a pele.
— Então invadiram o quarto de um membro da Assembleia e roubaram uma coisa de um cofre trancado? Algo que poderia ter sido roubado de vocês? Consideraram essa hipótese?
— Hum — disse Tamara, sem ter uma resposta boa.
— Ah, não seja tão duro com eles — disse Anastasia, com a voz tão fria quanto sempre. Com certeza ela sabia que tinham encontrado suas fotos e adivinhado sua senha, mas ainda assim parecia inabalada, como se não tivesse motivo para se sentir culpada ou com medo. — É difícil quando alguém está caçando a gente, nos sentimos desamparados. E eles são heróis afinal, não é? Deve ser duas vezes mais difícil para heróis.
Mestre Rufus estremeceu quando ouviu a palavra caçando, mas não diminuiu a força com que segurava Call e Aaron.
Tamara observava Anastasia. Call percebeu que ela estava tentada a dizer algo a respeito do que tinham encontrado no quarto de Anastasia, mas era difícil se colocar contra a única pessoa que está a seu lado. Além disso, Tamara ainda estava perturbada por ter visto a irmã, trancada como uma elemental qualquer.
— Não podemos deixar isso passar — disse Mestre North. — Disciplina é importante para aprendizes e magos em geral. Vamos ter que puni-los.
A mão fria de Anastasia afagou a bochecha de Call. Ele se sentiu ligeiramente congelado.
— Amanhã ainda é tempo, certamente — disse ela. — Eu fui a ofendida, afinal. Mereço ter alguma voz.
— Vou levar esses três até o quarto deles pessoalmente — disse Mestre Rufus. — Agora.
Com isso, ele arrastou Call e Aaron para os portões. Tamara foi atrás, provavelmente feliz pelo fato de Mestre Rufus só ter duas mãos. Call olhou para Anastasia; estava junto aos outros magos, mas sem interagir com eles. Seu olhar estava fixo em Aaron, com um fascínio que fez o estômago do garoto revirar sem que ele soubesse exatamente o motivo.


Call temia que a qualquer momento Mestre Rufus explodisse pela porta, aos gritos por terem invadido a cripta dos elementais. Dormiu inquieto a noite toda. Acordou várias vezes engasgando, mão no peito, saindo de um sonho em que algo que ele não conseguia ver estava prestes a cair em cima dele.
Devastação, que tinha desistido de dormir no último quarto, lambeu os pés de Call solidariamente cada vez que ele gritou. Era um pouco nojento, mas reconfortante.
Quando o alarme tocou, por mais cansado que estivesse, Call ficou quase aliviado por não ter mais que lutar contra o sono. Bocejando, vestiu o uniforme e foi para a sala compartilhada. Devastação vinha logo atrás, ansioso por um passeio.
Tamara estava sentada em um braço do sofá. Estava de roupão de banho e toalha na cabeça. Aaron estava ao lado dela, com o cabelo arrepiado da noite de sono. Ao lado deles no sofá estava Mestre Rufus, com o rosto sério. Claramente estavam esperando Call aparecer.
Bem, ele já imaginava que isso fosse acontecer. Sentou-se pesadamente ao lado de Aaron.
— Sabem que o que fizeram ontem à noite foi imperdoável — disse Mestre Rufus. — Invadiram o quarto de uma integrante da Assembleia e mandaram o guarda para longe do portão da prisão dos elementais; um menino que, por sinal, caiu em uma fenda e quebrou a perna. Se isso não tivesse acontecido, eu teria encontrado vocês bem antes.
— Ele quebrou a perna? — perguntou Aaron, parecendo horrorizado.
— Isso mesmo — disse Mestre Rufus. — Thomas Lachman agora está sob os cuidados do Mestre Amaranth na enfermaria. Por sorte um aluno o viu. Estava quase inconsciente no fundo de um desfiladeiro seco. Como podem imaginar, após a descoberta desse fato, a reunião dos Mestres desandou. Se não tivéssemos tido essa distração, a aventura de vocês no domínio dos elementais teria sido ainda mais curta do que foi. — Ele olhou friamente para os três. — Quero que saibam que eu os responsabilizo pelos ferimentos do rapaz. Se ele tivesse ficado mais tempo lá, poderia ter morrido.
Tamara parecia arrasada. Foi ela que deu a pedra-guia a Thomas.
— Mas nós... nós andamos pelas cavernas o tempo todo e nunca acontece nada.
A expressão do Mestre Rufus ficou ainda mais séria.
— Ele não foi aprendiz aqui. Anastasia o escolheu por ser de fora, por ter sido educado em um Magisterium diferente. Sendo assim, ele não tinha familiaridade com as cavernas como vocês têm.
Espontaneamente, Call se lembrou dos alertas de seu pai sobre o Magisterium e as cavernas: não tem luz lá embaixo. Nem janelas. O lugar é um labirinto. Você pode se perder e morrer e ninguém jamais ficaria sabendo.
Bem, ao menos Alastair se enganou quanto a isso, porque encontraram Thomas.
— Sentimos muito — disse Call com sinceridade. De um jeito que Rufus talvez não entendesse, ele lamentava ter ido até as criptas. Queria nunca ter ouvido Marcus dizer que a pessoa tentando matá-lo era o melhor Makar da geração deles. Queria que Tamara não tivesse visto a irmã, ou pelo menos o que restou dela. Ela não chorou e ficou terrivelmente calada quando o Mestre Rufus os deixou no quarto após puxá-los de volta da sala dos guardas. Foi para o próprio quarto e trancou a porta. Call e Aaron se entreolharam por um momento antes de irem para as próprias camas.
— Sentimos muito mesmo. — disse Aaron.
— Não é para mim que precisam dizer isso — disse Rufus. — Anastasia já considerou o castigo de vocês e decidiu que devem passar no quarto dela e se desculpar pessoalmente. — Ele ergueu a mão, já impedindo qualquer comentário. — Eu sugeriria que o fizessem esta noite. Deram sorte de escapar tão fácil.
Fácil demais, Call pensou, e não foi sorte.


Quando Call, Aaron e Tamara entraram no refeitório, um burburinho percorreu o recinto.
Aprendizes que estavam enfileirados para encher suas vasilhas com líquen, cogumelos e chá amarelo apimentado congelaram e ficaram encarando o trio.
— O que está acontecendo? — sussurrou Tamara à medida que se apressavam em direção à sua mesa habitual. — Sou eu ou estão todos agindo de um jeito bizarro?
Call olhou em volta. Alex olhava para eles de uma mesa cheia de alunos do Ano de Ouro. Acenou brevemente e depois olhou para baixo, para o próprio prato. Kai, Rafe e Gwenda também encaravam — Gwenda apontou para Célia e depois para Aaron, o que não fez o menor sentido. Quanto à própria Célia, estava sentada com Jasper, de mãos dadas com ele sobre um prato do que pareciam ser folhas molhadas. Pareciam não ter olhos para mais ninguém.
— Acho que nem sei mais o que é normal — disse Aaron baixinho. — Acha que sabem sobre a noite passada? Que invadimos a prisão dos elementais?
— Não sei — respondeu Call. Em circunstâncias normais ele teria ido e perguntado a Jasper, mas aquele Jasper apaixonado parecia incapaz de qualquer coisa que não olhar para Célia, dizer coisas tolas e babar um pouco.
Call se perguntou por quanto tempo Jasper seria um idiota apaixonado. Ficou imaginando se a mesma coisa teria acontecido com ele se tivesse ido no encontro em vez de Jasper.
— Vamos simplesmente sentar — disse Tamara, mas sua voz não estava firme. Ela estava obviamente abalada, de um jeito que Call não via desde quando ela descobriu quem ele realmente era.
Desejou que estivessem em algum lugar onde pudessem conversar sobre a irmã dela. Desejou que todos parassem de olhar para eles.
— Tamara — foi Kimiya que falou, parada de braços cruzados diante da mesa deles. — Por que não vem sentar comigo?
Tamara ergueu os olhos bruscamente, seus olhos escuros ficando arregalados. Pareceu perder a fala ao ver a irmã.
— Eu... mas por quê?
— Vamos, Tamara — disse Kimiya. — Não me faça fazer isso na frente de todo mundo.
— Fazer o quê? — perguntou Call, irritado de repente.
Kimiya estava agindo como se ele e Aaron não existissem.
— Não quero ir — respondeu Tamara. — Quero sentar com os meus amigos.
Kimiya apontou com o queixo para Aaron.
— Ele não é seu amigo. Ele é perigoso.
Aaron pareceu chocado.
— Do que você está falando?
— Seu pai está preso — disse Kimiya subitamente. Aaron se encolheu como se ela o tivesse estapeado. — O que já é ruim o bastante, mas além disso, você mentiu. Para todo mundo.
— E daí? — disse Call. — Você não tem o direito de saber detalhes da vida particular de Aaron.
— Se ele se hospeda na minha casa eu tenho sim! — Kimiya se irritou. — Meus pais mereciam saber, ao menos. — Ela encarou Aaron. — Depois de tudo que fizeram por você...
Raiva percorreu Call, fervente; parte dela era por Aaron, e parte de Aaron. Porque ele não conseguia calar a voz que o irritava por dentro, dizendo e se, e se, e se, e ele detestava todos os aspectos de não confiar em Aaron. Inclusive o próprio Aaron. Ele se levantou, encarando Kimiya.
— Seus pais puxaram o saco de Aaron porque ele é Makar — rosnou. — E agora você vai agir como se isso significasse que Aaron deve alguma coisa? Ele não deve nada a você!
— Parem! Vocês dois, parem! — Tamara virou para a irmã. — Você contou para os nossos pais?
Kimiya pareceu ofendida.
— Claro que contei. Eles têm o direito de saber que tipo de pessoa é o Makar.
Aaron baixou o rosto para as mãos.
— Dedo-duro. — Tamara se irritou com Kimiya, seu rosto ruborizando. — Quem te contou sobre o pai do Aaron? Quem?
— Eu só contei para três pessoas — disse Aaron com a voz abafada. — Call, Jasper e você.
— Bem, não soube por nenhum dos três — disse Kimiya, irritada. — Olha...
— Jasper contou para Célia — disse Alex, surgindo atrás de Kimiya e colocando a mão no braço dela. — E Célia contou para todo mundo. Sinto muito, Aaron.
Aaron ergueu a cabeça. Seus olhos verdes estavam com uma sombra escura.
— O que eu faço agora?
— Todos estão inquietos — disse Alex. — Depois do que aconteceu com Jen, e do ataque do elemental. Querem culpar alguém, e, bem, você é um Makar. Isso o toma potencialmente assustador.
— Eu não fiz mal a Jen! E jamais faria a Call — protestou Aaron. — Nem a ninguém.
Alex pareceu solidário.
— É só segurar a onda — disse ele. — As pessoas vão achar outro assunto. Sempre acham. Vamos, Kimiya.
Com um suspiro relutante, Kimiya se permitiu ser conduzida de volta à mesa dos alunos do Ano de Ouro.
Tamara ergueu o queixo.
— Vamos pegar comida — disse ela —, e se alguém disser alguma coisa na nossa cara, a gente fala uma verdades. Os que sussurrarem pelas nossas costas não merecem nossa atenção. Tudo bem?
Após um instante Aaron se levantou.
— Tudo bem. — Enquanto iam para a mesa de comida, ele falou baixinho com Call. — Obrigado por me defender.
Call assentiu, sentindo-se mal por sequer ter considerado que Aaron pudesse ser o espião.
Mesmo assim, o pensamento não ia embora.
Serviram-se. Call encheu o prato de líquen, cogumelos e batatas, mas os pratos de Tamara e Aaron estavam estranhamente vazios. Os três aprendizes foram para seus lugares de sempre à mesa onde estavam Jasper e Célia, tendo, no entanto, o cuidado de escolher lugares o mais longe possível deles.
Célia desviou o olhar de Jasper por tempo o suficiente para olhar na direção deles com pena. O olhar maléfico de Call a fez virar o rosto rapidinho. Ele sempre soube que ela era fofoqueira, mas nunca imaginou que pudesse contar uma coisa dessas para todo mundo. Jasper, é claro, provavelmente fez a família de Aaron soar pior do que era, para impressioná-la. Jasper e Célia provavelmente se mereciam. Call torceu para que se beijassem o suficiente para ficarem sem oxigênio e engasgarem.
— Precisamos encontrar o espião — disse Aaron, trazendo os pensamentos de Call de volta ao presente. — Nada disso vai passar até o verdadeiro espião ser pego. E nós, principalmente Call, não estaremos seguros até então.
— Certo — respondeu Call lentamente. — Quer dizer, sou a favor desse plano, exceto pela parte que é apenas uma declaração do objetivo final, e não um plano de fato. Como vamos encontrar o espião?
— Anastasia deve saber de alguma coisa — disse Aaron. — Quer dizer, levando em conta o que encontramos no quarto dela, ela tem que estar envolvida de alguma forma.
— A senha dela é o nome do irmão do Inimigo da... — Tamara começou a sussurrar e depois se conteve. — Quer dizer, do Capitão Cara de Peixe. A senha dela é o irmão do Capitão Cara de Peixe. Ela tem uma foto do Capitão Cara de Peixe no quarto. Ela tem que estar do lado dos seguidores dele. O único problema desta teoria é que não são eles que querem Call morto.
Call abriu a boca para protestar, mas Tamara o interrompeu.
— Ou, pelo menos não o queriam quando Automotones foi enviado para matar Call. Mesmo que Mestre Joseph tenha mudado de ideia desde então.
— Talvez ela odeie Mestre Joseph, odeie o Inimigo e guarde aquelas coisas para se lembrar da sua missão de vingança — sugeriu Aaron. — Talvez ela tenha enviado Skelmis atrás de Call porque sabe que ele realmente é o Capitão Cara de Peixe.
— Ela não parece esse tipo de pessoa — protestou Call.
— E — disse Aaron parecendo inseguro. — Você disse a mesma coisa de Célia. Pare de agir como se o espião fosse alguém que trata você mal ou que você odeie. Não pode simplesmente acreditar que uma pessoa é realmente sua amiga só porque está agindo como tal!
— Ah, é? — perguntou Call, deixando as palavras de Aaron pairarem no ar.
Aaron suspirou e abaixou a cabeça para a mesa, apoiando-a nas mãos.
— Não foi isso que eu quis dizer. Soou errado.
— Talvez devêssemos soltar minha irmã. Talvez ela possa nos ajudar — disse Tamara em voz baixa.
Call virou para ela, chocado.
— Está falando sério?
— Não sei — disse ela, empurrando algumas verduras no prato com o garfo. — Preciso pensar mais sobre o assunto. Depois que Ravan se tomou uma Devorada, meus pais, os amigos dela, enfim, todos agiram como se ela estivesse morta. Eu estava pensando nela desse modo também. Quer dizer, às vezes eu tentava imaginá-la feliz, nadando na lava de um vulcão ou coisa do tipo, mas nunca imaginei que ela estivesse presa no Magisterium. E agora, depois de ver a verdade, sinto como se todo mundo tivesse mentido para mim. Sinto que não tentamos o suficiente. E sinto como se eu não soubesse como me sentir. — Tamara deu um suspirou entrecortado.
— Se quer soltá-la, vamos soltá-la — disse Call, de coração.
— Mas precisamos ter cuidado — alertou Aaron. — Precisamos saber mais sobre os Devorados. No Ano de Ferro prometemos a você, Tamara, que não deixaríamos que fosse tentada a se tomar um deles. Acho que a promessa se estende a não deixar que você seja tentada por eles. Quando se tornam Devoradas, as pessoas continuam sendo quem eram antes? Quanto delas realmente sobra? Se fosse um parente meu ali, eu ia querer acreditar que era ele.
— Tem razão — disse Tamara, embora não parecesse totalmente convencida. — Sei que tem.
— Temos aula de manhã hoje, certo? A primeira coisa que temos que fazer depois disso é ir ao quarto de Anastasia e pedir desculpas — disse Call.
— E se ela for a espiã, também temos que sair vivos de lá — acrescentou Tamara.
— O Mestre Rufus sabe onde estaremos — disse Aaron. — Seria loucura nos atacar. Ela seria pega.
— Depende se ela vai continuar por aqui depois — disse Call. Seu braço doía; ele ainda estava com as duas pulseiras, apesar de agora estar muito mais consciente da que pertencera ao Inimigo. — Vejam, ou ela quer nos pegar e está me tratando bem para nos iludir com uma falsa sensação de segurança, ou está mancomunada com o Mestre Joseph e está me tratando bem porque eu sou o Capitão Cara de Peixe. Seja como for, a mulher é perigosa.
— Você não é o Capitão Cara de Peixe — sibilou Tamara.
— Você entendeu. — Call suspirou.
— Vamos entrar e sair rapidinho do quarto — disse Aaron. — Sem comer nada, sem beber nada, e vamos ficar juntos. Pediremos desculpa, e depois vamos. Ficaremos alertas o tempo todo.
Call e Tamara assentiram. Em termos de planos não era o melhor deles, mas com Tamara preocupada com a irmã e todo o recinto sussurrando sobre como magos do caos eram péssimos, era o melhor que conseguiriam bolar. Call não conseguia parar de lembrar o que tinha percebido depois da cerimônia no Collegium: que havia um problema no fato de o Inimigo da Morte ser considerado oficialmente morto e a guerra acabada — neste novo mundo, os Makaris não eram desesperadoramente necessários, e assustavam todo mundo.


Call se perguntava como seria a aula do Mestre Rufus naquela manhã, já que os três estavam muito abalados. Para sua surpresa, uma palestrante convidada tinha sido designada para falar ao seu grupo.
Para sua ainda mais extrema surpresa, era alguém que ele conhecia: Alma, da Ordem da Desordem.
Na última vez em que a vira, ela estava tentando sequestrar Devastação para incluí-lo em seu grande estábulo de animais Dominados pelo Caos no meio da floresta.
Ela continuava não parecendo uma sequestradora de cachorros. Parecia uma professora do jardim de infância. Seu cabelo branco estava arrumado em um penteado contra a pele morena. Usava camisa cinza sobre uma saia verde. Vários colares de contas de jade pendiam do pescoço. Quando ela os viu três, seu olhar foi imediatamente para Aaron. Alma sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos, que permaneceram profundos e atentos.
— Esta é minha velha amiga, Alma Amdurer — disse Mestre Rufus. — Ela deu aula no Magisterium quando eu era aprendiz e conheceu meu Mestre, Marcus.
Call ficou imaginando se Alma sabia o que tinha acontecido com Marcus. A expressão dela não mudou ao ouvir o nome dele.
— Ela sabe muito sobre magia do caos. Muito mais, sinto dizer, do que eu. Call e Aaron, vocês vão passar a manhã trabalhando com Alma enquanto dou aula para Tamara a sós. Andei pensando muito sobre o que Tarquin disse na reunião com os magos e decidi que, por mais que eu não goste de admitir, ela tinha razão. Vocês precisam saber das coisas, e não acho que sou a pessoa certa para ensiná-los. Alma concordou em vir, mesmo tendo sido chamada em cima da hora. Sendo assim, quero que sejam educados e ouçam com atenção o que ela tem a dizer.
O discurso deixou Call mais do que um pouco nervoso. Alma tinha ficado em êxtase quando Aaron apareceu na Ordem da Desordem. Ela estava louca para colocar as mãos em um Makar. Ele se lembrou dela tentando convencer Aaron a voltar para a Ordem da Desordem para que pudesse fazer experimentos com ele. Agora, Mestre Rufus estava praticamente entregando-o.
— Tudo bem — disse Aaron lentamente, sem soar muito entusiasmado.
— Mas nós vamos ficar por aqui, certo? — Tamara soou como se compartilhasse das preocupações de Call e não quisesse deixar Aaron sozinho.
— Estaremos na sala ao lado — disse Mestre Rufus. Com um aceno, fez a parede de pedra roncar e se abrir em uma rachadura, cada vez mais ampla, que daria passagem a ele e Tamara. Ele virou para Alma. — Avise se precisar de alguma coisa.
— Ficaremos bem — disse ele, lançando um olhar para Call e Aaron.
Call observou Mestre Rufus e Tamara entrarem na sala ao lado. Pareciam distantes depois que transpuseram a rachadura na pedra. Tamara tentava comunicar alguma coisa a Call através da expressão corporal — olhos arregalados e mãos fazendo um gesto que pareciam um pássaro moribundo — quando a pedra se fechou de volta e os dois desapareceram.
Sem escolha, Call voltou a atenção a Alma.
— Vocês parecem desconfiados — disse ela com uma risada. — Não os culpo. Posso contar algo que talvez os surpreenda? Mestre Rufus não contou a mais ninguém que ia me convidar para dar aula para vocês. Nem para o Mestre North. Nem para a Assembleia. Não contou a ninguém. A Ordem da Desordem não é exatamente respeitável nos dias de hoje, e nem eu.
— Você ameaçou meu lobo — disse Call. — E meu amigo.
Alma continuava sorrindo.
— Espero que seu amigo aqui não leve para o lado pessoal o fato de que você falou primeiro no lobo.
— Não levo — disse Aaron. — Call sabe que eu consigo cuidar de mim mesmo. Mas nenhum de nós confia em você. Espero que não leve isso para o lado pessoal.
— Eu não esperaria que confiassem. — Alma recuou até apoiar-se na mesa de pedra de Rufus. Ela cruzou os braços. — Dois Makaris — disse. — A última vez em que houve dois Makaris vivos ao mesmo tempo eram Constantine Madden e Verity Torres. Findaram protagonizando uma batalha até a morte.
— Bem, isso não vai acontecer com a gente — disse Call. Alma estava começando a irritá-lo.
— Dois Makaris no mesmo Magisterium, no mesmo grupo de aprendizes... sabem o quanto Rufus se encrenca com os outros Mestres por isso? Os outros acham que, de algum modo, ele trapaceou no Desafio de Ferro. — Alma riu. — Principalmente ao ganhar você, Call. Aaron era uma escolha óbvia, mas você é muito diferente.
— Vamos aprender alguma coisa aqui? — perguntou Aaron. — Além de fofocas de professores, quero dizer.
— Pode aprender a lição mais importante da sua vida, Makar — disse Alma em tom ríspido. — Vou ensiná-los a enxergar almas.
Os olhos de Aaron arregalaram.
— Vocês são o contrapeso um do outro — prosseguiu ela. — E ambos são magos do caos. Os dois podem trabalhar a magia do vazio, e é por isso que carregam pedras pretas em suas pulseiras; é isso que, imagino, todos lhe dizem desde que foram revelados como Makaris. Mas existe outra mágica que também podem trabalhar. A da alma humana, que é exatamente o oposto do caos, do nada. A alma é tudo.
Os olhos dela ardiam com uma luz fanática. Call olhou de lado para Aaron; ele parecia fascinado.
— A maioria dos seres humanos nunca vai enxergar verdadeiramente a alma — prosseguiu a mulher. — Trabalhamos como os cegos, no escuro. Mas vocês podem ver. Call e Aaron, olhem um para o outro.
Call virou para olhar para Aaron. Percebeu com surpresa que tinham mais ou menos a mesma altura; ele sempre foi um pouco mais baixo que o amigo. Devia ter espichado alguns centímetros.
— Se olhem — disse Alma. — Concentrem-se no que faz com que seu amigo seja quem realmente é. Imaginem que conseguem enxergar através da pele e dos ossos, do sangue e dos músculos. Não estão procurando pelo coração, mas por algo que está além disso. — A voz de Alma tinha uma cadência hipnótica.
Call ficou olhando para a frente da camiseta de Aaron. Ficou imaginando o que deveria ver. Havia uma mancha escura onde Aaron havia entornado chá no refeitório.
Olhou de relance para os olhos de Aaron e descobriu que Aaron estava olhando pra ele. Ambos sorriram, sem conseguir evitar. Call encarou mais. O que fazia Aaron ser Aaron? Ele era amigável; sempre sorria para todos; era popular; fazia piadas ruins; seu cabelo nunca arrepiava como o de Call. Era isso? Ou eram as coisas mais sombrias que sabia sobre ele — o Aaron que explodia de raiva, que sabia como fazer uma ligação direta num carro, que detestou quando se descobriu Makar porque não queria morrer como Verity Torres?
Call sentiu sua visão mudar. Continuava olhando para Aaron, mas também estava olhando dentro dele. Havia luz no interior de Aaron, de uma cor que Call nunca tinha visto antes. Não conseguia descrever essa nova tonalidade. Estava se movendo e mudando, como um brilho projetado contra uma parede, a luz refletida de um lampião sendo carregado.
Call fez um barulho e pulou para trás em surpresa. A luz e a cor desapareceram e ele descobriu que olhava para Aaron apenas, que por sua vez o encarava com os olhos verdes arregalados.
— Aquela cor — disse Aaron.
— Eu também vi! — exclamou Call. Eles riram um para o outro, como dois montanhistas que tinham acabado de chegar ao topo.
— Muito bem — disse Alma, soando satisfeita. — Vocês acabaram de ver a alma um do outro.
— É esquisito — disse Call. — Acho que não devemos mencionar para ninguém.
Aaron fez uma careta para ele.
Call se sentiu inquieto. Ele não tinha conseguido usar uma magia nova na primeira tentativa, mas ver a alma de Aaron fez sua breve desconfiança a respeito dele parecer ridícula. Aaron era seu amigo, seu melhor amigo, seu contrapeso. Aaron jamais iria querer machucá-lo. Aaron precisava dele, exatamente como ele precisava de Aaron.
O alívio foi avassalador.
— Acho que é o suficiente por hoje — disse Alma. — Vocês dois se saíram muito bem. Em seguida, quero que interajam com outras almas. Vão aprender o toque da alma.
— Não vou fazer isso — disse Call. — Não sei o que é, mas não vou gostar.
Alma suspirou como se achasse que Mestre Rufus há tempos vinha sofrendo por ter que aturar Call, o que era muito injusto considerando que antes ela havia dito que os outros Mestres gostariam de tê-lo escolhido.
— É um método para derrubar o oponente sem fazer nenhum mal verdadeiro a ele — disse ela. — Ainda assim vai se opor?
— Como sabemos que não os machuca? — perguntou Aaron.
— Não parece machucar — respondeu Alma. — Mas, como toda magia de alma, não existem estudos o bastante para comprovar totalmente qualquer coisa. Quando Joseph, eu e vários outros começamos nossas pesquisas, achamos que a magia do caos tinha potencial para fazer muito bem ao mundo. Por serem muito poucos Makaris nascidos em cada geração e pela magia do caos sempre ter sido considerada perigosa, não sabemos o suficiente sobre ela.
O maior Makar da sua geração. As palavras voltaram a Call, perturbando-o. Ele não se importava que Aaron fosse melhor do que ele, mas não gostava de ideia de alguém sendo melhor do que Aaron.
Alma continuou, aprofundando-se no assunto.
— Vocês precisam entender como tudo parecia incrível. Estávamos descobrindo coisas inteiramente novas. Ah, magos do caos já tinham visto almas antes; alguns até aprenderam como arrancá-las dos seus corpos. Mas ninguém nunca tinha tentado tocar uma alma. Ninguém nunca tinha tentado colocar o caos em um animal. Ninguém nunca tinha tentado trocar uma alma de um corpo para o outro.
— Então Joseph ficou maluco ou o quê? — perguntou Aaron. — Quer dizer, por que ele não impediu Constantine antes que ele matasse o irmão? Ele estava animado demais com a mágica?
Jericho Madden. Call sentiu sua cabeça flutuar. Apesar de tudo isso ser um passado distante, parecia mais próximo do que nunca. Ultimamente, Call sentia como se isso fosse tirá-lo da própria vida, do jeito que o Mestre Joseph queria tirar sua alma do corpo.
Os olhos de Alma anuviaram.
— Para falar a verdade, olhando em retrospecto para aquele dia, eu não sei o que aconteceu. Repassei várias vezes os eventos na cabeça e não consigo deixar de chegar à conclusão de que Jericho morreu porque Joseph o queria morto.
Isso chamou a atenção de Call.
— Quê?
— Constantine era jovem. Ele tinha outros interesses além do estudo da magia do caos; ou melhor, ele achava que tinha a vida inteira para estudar. E, claro, Rufus era seu mestre, e não Joseph. Acho que Joseph queria que Constantine tivesse compromisso com a causa.
Call ficou horrorizado.
— O Mestre Joseph arranjou a morte de Jericho para que Constantine se comprometesse mais com a ideia de usar a magia do caos para trazer de volta os mortos?
Alma fez que sim com a cabeça.
— E para que Constantine odiasse o Magisterium, que ele culpava pela morte de Jericho. Não acho que Joseph soubesse que estava criando um monstro, é claro. Acho que ele só queria garantir a lealdade de Constantine. Acho que ele queria ser o responsável pelas descobertas, queria que seu nome entrasse para a história.
Call pensou em Mestre Joseph no túmulo, na curva do seu lábio e na luz selvagem que havia em seus olhos. Call não tinha tanta certeza de que Joseph não sabia e não desejava criar um monstro.
— As pessoas se lembram do Inimigo da Morte — disse Alma. — Mas se esquecem do homem que o fez quem ele era. Constantine pode ter sido mau, mas também passou por uma tragédia. Ele queria o irmão de volta. Mestre Joseph, por outro lado, só queria poder. Apenas isso. E pessoas assim são as mais perigosas do mundo.

8 comentários:

  1. Alma falou tudo que eu penso!

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  2. Sim ela esclareceu muitas coisas

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  3. Talvez Costantine não tão ruim quanto pensavamos

    ass: elizete

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  4. 1- Gostava da Célia, não gosto mais. Detesto gente fofoqueira. Essa menina não tem nada pra fazer, não?
    2- Obviamente que o Aaron não é o traidor. E tenho a impressão de que ele que vai morrer, mas espero que nenhum dos 3 (Aaron, Tamara e Call) pq amo todos.
    3- Amo a amizade do Call e do Aaron. Queria que futuramente fossem um casal, mas acho que não vai rolar. Triste.
    4- Será que a Anastasia não era a mãe do Constantine e do Jericho? Vai saber, dizem que ela tinha filhos, mas ninguém citou nomes, e também ela é velha o suficiente pra isso.

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  5. Na moral? Eu gostava da Célia. Exatamente GOSTAVA.
    a fofoca me fez mudar de ideia ( por mais que eu goste de umas fofocas)

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  6. Sempre achei que constantine se tornou mal por conta do Mestre joseph , acho que foi apenas uma marionete para os interesses do joseph.

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  7. Não quero q nem aeron nem Tamara morrão
    Maldita profecia de Marcos
    Ass: Milly*-*

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  8. Eu tenho vontade de olhar para Call, Tamara e Aaron depois que eles têm um desses planos e perguntar: Por que sempre que acontece alguma coisa, vocês estão por perto?

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Boa leitura :)