16 de janeiro de 2017

Capítulo onze


Call não conseguiu dormir naquela noite. Ainda estava nervoso por causa da luta, e sua mente repassava as palavras no bilhete do pai, tentando descobrir o que elas queriam dizer. Não ajudou em nada o fato de Call ter comido de uma vez só todo o pacote de balas de goma que tinha ganhado, o que fez com que ele tivesse a impressão de ser capaz de flutuar até o teto da caverna sem a necessidade do sopro de uma serpe para erguê-lo. Se o pai tivesse enviado o skate de Call (e era irritante pensar que ele não fizera isso), o menino poderia estar subindo pelas paredes côncavas sobre as rodinhas.
O pai escrevera que não estava com raiva, e as palavras que ele usara também não soavam raivosas, mas ele parecia ser outra pessoa. Triste. Fria, talvez. Distante.
Talvez o pai estivesse preocupado com a possibilidade de os magos interceptarem a correspondência de Call e lerem seu bilhete. Talvez ele tenha ficado com medo de escrever qualquer coisa pessoal. Nem era preciso dizer que o pai podia ser meio paranoico às vezes, especialmente quando o assunto possuía alguma relação com os magos.
Se Call simplesmente pudesse falar com ele, só por um segundo. Queria que o pai tivesse certeza de que ele estava bem e de que ninguém além dele abrira o pacote. Até onde ele percebera, o Magisterium não era assim tão ruim. Era até meio divertido.
Se pelo menos tivesse telefones naquela escola!
Os pensamentos de Call imediatamente se voltaram para a miniatura de tornado sobre a mesa do Mestre Rufus. Se ele esperasse aprender a pilotar barcos para se esgueirar até lá, podia ter de esperar uma eternidade para falar com o pai. No teste, ele provara que podia adaptar sua magia a muitas situações para as quais não fora especificamente treinado. Talvez ele pudesse adaptá-la a essa também.
Após passar tanto tempo com apenas dois uniformes, era incrível ter um monte de roupas para escolher. Uma parte dele queria vestir todas ao mesmo tempo e se pavonear pelo Magisterium como se fosse um pinguim.
Por fim, ele escolheu um jeans preto e uma camiseta com um logo desbotado do Led Zeppelin, a composição que ele considerou mais discreta para se esconder nas sombras.
Após meditar por um momento, ele prendeu Miri em uma das passagens do cinto na calça e escapuliu para a escuridão da sala compartilhada.
O menino olhou ao redor e subitamente se deu conta de que as coisas dele e as de Tamara estavam espalhadas por todos os cantos. Ele deixou o caderno no balcão da pequena cozinha, a bolsa jogada ao acaso sobre o sofá e uma das meias estava no chão ao lado de uma pilha de biscoitos cristalinos com algumas mordidas. Tamara espalhara ainda mais suas coisas: livros que trouxera de casa, elásticos de cabelo, brincos com pingentes, canetas com penas nas pontas e pulseiras. Porém, não havia nada que pertencesse a Aaron. Todas as poucas coisas que o garoto possuía estavam em seu quarto, que ele mantinha extremamente arrumado, com a cama feita com todo o cuidado, como se estivesse em uma escola militar.
Call podia ouvir as respirações constantes dele e de Tamara vindas de seus quartos. Por um momento, se perguntou se não seria melhor simplesmente voltar para a cama. Ele ainda não conhecia os túneis muito bem e se lembrou de todos os avisos sobre os perigos de se perder. Os aprendizes também não deveriam sair de seus quartos àquela hora sem a permissão dos mestres, de modo que ele corria o risco de se meter em encrenca.
Respirando fundo, Call expulsou todas aquelas dúvidas de sua mente. Ele conhecia o caminho até o gabinete do Mestre Rufus durante o dia. Tudo que tinha de fazer era encontrar os barcos.
O corredor do lado de fora da sala compartilhada era iluminado pela luz fraca das pedras e estava em um silêncio profundo, sinistro. A quietude era pontuada apenas pelas gotas de sedimento que escapavam das estalactites para as estalagmites.
— Tudo bem — Call murmurou. — Lá vamos nós.
Ele começou descendo um caminho que levava até o rio. O som de seus passos na pedra criava um padrão, como passos de shuffle, em meio ao silêncio.
O salão por onde o rio seguia era ainda menos iluminado que o corredor. A água era escura, um fluxo pesado de sombras. Com cuidado, Call atravessou o caminho pedregoso que levava até a beira do rio, onde um dos barcos estava atracado. Ele tentou se equilibrar, mas a perna ruim oscilou e Call teve de ficar de joelhos e engatinhar para entrar no barco.
Parte da palestra do Mestre Rockmaple sobre os elementais fora sobre as criaturas que podiam ser encontradas na água. De acordo com ele, era possível persuadir esses elementais com bastante facilidade. Por meio de uma pequena quantidade de poder, eles costumavam obedecer às ordens dos magos.
O único problema é que o Mestre Rockmaple falara apenas sobre a teoria, mas não explicara nenhuma técnica. Call não tinha a menor ideia de como fazer aquilo.
O barco balançou sob seus joelhos. Imitando o Mestre Rufus, ele se curvou sobre uma das bordas e sussurrou:
— Tudo bem, estou me sentindo um idiota fazendo isso. Mas, bem... será que você podia me ajudar? Estou tentando descer o rio e não sei como fazer isso... Olha, será que você podia tentar evitar que o barco bata nas paredes ou fique girando sem sair do lugar? Por favor?
Onde quer que os elementais estivessem, ou o que quer que fizessem naquele momento, eles não responderam.
Por sorte, a corrente já seguia na direção que ele desejava ir. Inclinando-se para a frente, Call empurrou as margens com a ponta dos dedos, o que fez o barco oscilar até o centro do rio. Por um momento, ele sentiu um sucesso inebriante, até se dar conta de que não teria como parar o barco.
Reconhecendo que não havia muito que pudesse fazer, ele se jogou sobre o assento na popa e se resignou a se preocupar com aquilo apenas quando chegasse ao outro lado do rio. A água batia dos lados do barco e com frequência um peixe se erguia sobre ela com sua cor clara e brilhante para logo em seguida mergulhar e desaparecer nas profundezas do rio mais uma vez.
Infelizmente, ele não pareceu ter feito a coisa certa quando resolveu sussurrar para os elementais. O barco sacudia tanto que Call se sentiu enjoado. Em certo momento, teve de remover uma estalagmite para que o barco não encalhasse. Por fim, ele chegou a uma margem que conseguiu reconhecer como próxima ao gabinete de Rufus. Olhou ao redor em busca de uma maneira de se aproximar da margem. Não estava muito a fim de colocar a mão naquela água fria e escura, mas, mesmo assim, ele o fez, passando a remar freneticamente.
A proa se chocou contra a margem, e Call se deu conta de que teria de sair na água rasa, já que não conseguia apoiar o barco em uma saliência como o Mestre Rufus fazia.
Reunindo suas forças, ele colocou uma das pernas para fora, que imediatamente afundou no limo. Ele perdeu o equilíbrio, caiu e bateu a perna ruim contra um dos lados do barco. Por um longo momento, a dor o deixou sem ar.
Quando se recuperou, percebeu que sua situação era ainda pior. O barco havia flutuado para o meio do rio, longe do seu alcance.
— Volte! — ele berrou para o barco. Então, percebendo seu erro, Call se concentrou na água. Por mais que se esforçasse, tudo o que conseguia fazer era criar pequenos redemoinhos.
Ele passara um mês trabalhando com areia, mas ainda não experimentara os outros elementos.
Ele estava encharcado e logo o barco iria embora, desaparecendo em um túnel e adentrando as profundezas das cavernas. Resmungando, ele caminhou pela água até a margem. O jeans estava pesado e molhado, grudando em suas pernas. O tecido também estava gelado. Ele teria de andar todo o caminho de volta daquele jeito... caso conseguisse achar o caminho de volta.
Call deixou essas preocupações para depois e seguiu em direção à pesada porta de madeira do gabinete do Mestre Rufus.
Prendendo a respiração, tentou girar a maçaneta. A porta se abriu sem nem mesmo um rangido.
O pequeno tornado ainda girava sobre a escrivaninha com tampo de correr do Mestre Rufus. Call deu um passo para dentro. O lagartinho continuava sobre a bancada como antes, com as chamas ardendo nas costas.
Ele observou Call com seus olhos luminosos.
— Deixe-me sair — disse o lagarto. Sua voz era um coaxo sussurrante, embora as palavras soassem claras. Call o encarou, confuso. As serpes não falaram durante o exercício, e ninguém nunca comentara nada sobre os elementais poderem falar. Talvez os elementais do fogo fossem diferentes.
— Deixe-me sair — ele repetiu. — A chave! Vou contar onde ele deixa a chave e você vai me soltar.
— Não vou fazer isso — Call informou ao lagarto, franzindo a testa. Ele ainda não tinha se recuperado do fato de aquele bicho falar. Afastando-se da gaiola, o menino se aproximou do tornado sobre a escrivaninha.
— Alastair Hunt — ele sussurrou para a areia rodopiante.
Nada aconteceu. Talvez não fosse assim tão fácil quanto ele pensava.
Call colocou uma das mãos no vidro, esforçou o pensamento o quanto pôde para pensar no pai. Lembrou-se do perfil aquilino de Alastair, e o som familiar que ele fazia enquanto consertava coisas na garagem.
Lembrou-se dos olhos cinza do pai, de sua voz que se elevava quando torcia para seu time e que se tornava mais baixa quando falava sobre coisas perigosas, como magos.
Call pensou em como o pai sempre lia para ele antes de dormir e como seus casacos de lã cheiravam a fumaça de cachimbo e a limpador de madeira.
— Alastair Hunt — ele repetiu, e desta vez a areia rodopiante se contraiu e em seguida se solidificou. Em segundos, Call olhava para a figura do pai, com os óculos sobre a cabeça. Ele vestia um moletom e uma calça jeans e tinha um livro aberto no colo. Call acabara de interromper sua leitura.
De repente, o pai se levantou, olhando na direção de Call. O livro escorregou para o lado, saindo do campo de visão.
— Call? — o pai chamou com a voz repleta de incredulidade.
— Sim! — Call respondeu, empolgado. — Sou eu. Recebi as roupas e a sua carta e queria encontrar uma maneira de entrar em contato com você.
— Ah — disse o pai, estreitando os olhos como se quisesse vê-lo melhor. — Bem, isso é bom, muito bom. Fico feliz por as coisas terem chegado até aí.
Call assentiu. Algo no tom cauteloso do pai cortou um pouco do prazer que sentia em vê-lo.
O pai colocou os óculos sobre o nariz.
— Você parece bem.
Call olhou para as próprias roupas.
— É, estou bem. Até que aqui não é tão ruim. Quero dizer, pode ser bem chato de vez em quando... e assustador às vezes. Mas estou aprendendo umas coisas. E não sou um mago dos piores. Quero dizer, até agora.
— Jamais pensei que você seria inábil, Call. — O pai se levantou e pareceu caminhar até Call. Sua expressão era estranha, como se reunisse forças para realizar alguma tarefa bastante difícil. — Onde você está? Alguém sabe que você está falando comigo?
Call negou balançando a cabeça.
— Estou no gabinete do Mestre Rufus. Eu... tipo... peguei emprestado o tornado em miniatura.
— Pegou o quê? — O pai de Call franziu a testa, juntando as sobrancelhas, confuso, e logo em seguida soltou um suspiro. — Deixa para lá. Estou feliz por ter a oportunidade de lembrar você sobre o que é importante. Os magos não são o que parecem. A magia que estão lhe ensinando é perigosa. Quanto mais você souber sobre o mundo mágico, mais será atraído por ele... Atraído por seus conflitos ancestrais e tentações arriscadas. Por mais que você esteja se divertindo — o pai pronunciou a expressão como se fosse venenosa —, por mais amigos que esteja fazendo, não se esqueça de que essa não é uma vida para você. Precisa dar o fora assim que for possível.
— Você está me dizendo para fugir?
— Isso seria o melhor para todos — Alastair respondeu com a mais completa sinceridade.
— Mas e se eu decidir que quero ficar? — Call indagou. — E se eu chegar à conclusão de que sou feliz no Magisterium? Você vai me deixar ir em casa de vez em quando?
Houve um silêncio. A pergunta ficou no ar entre eles. Mesmo se algum dia se tornasse um mago, também queria continuar a ser o filho de Alastair.
— Eu não... eu... — O pai respirou fundo.
— Sei que você odeia o Magisterium porque a mamãe morreu no Massacre Gelado — Call falou depressa, tentando pronunciar as palavras antes que perdesse a coragem.
O quê? — Os olhos de Alastair se arregalaram.
Ele parecia furioso. E com medo.
— Entendi o porquê de você nunca ter me contado nada a respeito. Não estou com raiva. Mas aquilo foi uma guerra. Estamos passando por uma trégua. Não acontecerá nada comigo aqui no...
— Call! — Alastair grasnou. O rosto dele ficou pálido. — Você não pode de maneira alguma ficar nessa escola. Você não entende... é muito perigoso. Call, você precisa me escutar. Você não sabe o que você é.
— Eu... — Call foi cortado pelo som de algo se partindo atrás dele. Ele se virou para ver que, de alguma forma, o lagarto conseguira derrubar a gaiola da beira da bancada, que fora parar no chão ao lado do menino, coberta por uma montanha de papéis e os restos de um dos modelos de Rufus. Lá dentro, o elemental murmurava palavras como Splerg! e Gelferfren!
Call se virou novamente para o tornado, mas já era tarde demais. Sua concentração fora quebrada. O pai desaparecera e suas últimas palavras permaneciam no ar.
“Você não sabe o que você é.”
— Seu lagarto estúpido — Call berrou, chutando uma das pernas da bancada. Mais papéis caíram no chão.
O elemental ficou quieto. Call caiu mais uma vez na cadeira de Rufus com a cabeça nas mãos. O que seu pai havia dito? O que ele queria dizer?
“Call, você precisa me escutar. Você não sabe o que você é.”
Um arrepio desceu pela espinha de Call.
— Deixe-me sair — insistiu o lagarto.
— Não! — Call berrou, contente por ter um alvo para sua raiva. — Não, eu não vou deixar você sair, pare de pedir!
O lagarto observou de sua gaiola quando Call se ajoelhou para pegar os papéis e as engrenagens do modelo. Ao esticar uma das mãos para alcançar um envelope, os dedos de Call se fecharam ao redor de um pequeno pacote que também devia ter caído da mesa.
Ele o puxava para si quando percebeu mais uma vez a inconfundível caligrafia que lembrava uma teia de aranha de seu pai. A correspondência era endereçada a William Rufus.
“Ah”, Call pensou. “Uma carta do meu pai. Isso não pode ser bom.”
Ele deveria abri-la? A última coisa que precisava era de seu pai dizendo coisas malucas para o Mestre Rufus e implorando para que Call fosse enviado para casa. De qualquer forma, Call já estava encrencado por ter saído escondido, por isso talvez não fosse possível se meter em mais confusão por abrir a correspondência alheia.
Ele cortou a fita com a borda dentada de uma engrenagem e desdobrou um bilhete muito parecido com o que ele recebera, e então se pôs a ler:

Rufus,
Se algum dia você já confiou em mim, se já sentiu alguma lealdade pelo tempo em que fui seu aluno e pela tragédia que compartilhamos, você precisa interditar a magia de Callum até o fim do ano.
Alastair

4 comentários:

  1. O pai dele sabe que ele tem o Caos. So pode.

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    1. Com certeza. E ainda tem a mensaguem da mãe do Call. Não é atoa que ele quase morreu com uma adaga na cara...

      Ezequiel

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  2. A cada capítulo eu tenho mais certeza que ele pode ser perigoso, mas como é protagonista, vai ser aliado. Se ele é um Mak...eu n prestei atenção em como escreve isso, será que é o único capaz de falar com elementais?

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  3. Call, caos. Sei não em... até rima

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Boa leitura :)