16 de janeiro de 2017

Capítulo oito


Call olhou fixamente para o mago. Depois de duas semanas separando areia, o garoto até já desistira da ideia de que Rufus algum dia seria direto com ele. Na verdade, Call desistira totalmente da ideia de descobrir por que, afinal, estava no Magisterium.
— Sente-se — Rufus repetiu, e desta vez Call obedeceu, contraindo-se ao sentir uma pontada na perna. O sofá era confortável após as horas passadas no chão de pedra fria, e ele se deixou afundar sobre o assento.
— O que você está achando da escola até agora?
Antes que Call pudesse responder, ouviu-se o som de um vento que se agitava. O menino piscou e percebeu que o barulho vinha do pote sobre a escrivaninha do Mestre Rufus.
O pequeno tornado se tornou mais escuro e se condensou, assumindo uma nova forma. Um momento depois, ele se transformou na miniatura de um membro da Assembleia, um homem de cabelos muito escuros, que vestia uma farda verde-oliva da marinha. A imagem pestanejou por um momento.
— Rufus? — ele chamou. — Rufus, você está aí?
O mestre fez um som de impaciência e virou o pote de cabeça para baixo.
— Agora, não — ele disse para a imagem, que se transformou novamente em um tornado.
— É tipo um telefone? — Call perguntou, impressionado.
— Parecido. Como expliquei antes, a concentração de magia elemental no Magisterium interfere na maioria dos aparatos tecnológicos. Além disso, preferimos fazer as coisas à nossa própria maneira.
— Meu pai provavelmente está preocupado por não ter recebido nenhuma notícia minha até agora... — Call começou.
O Mestre Rufus se encostou na escrivaninha e cruzou os braços sobre o peito largo.
— Antes de qualquer outra coisa, quero saber o que você tem achado do Magisterium e do seu treinamento.
— Fácil — Call respondeu. — Chato e inútil, mas fácil.
Rufus abriu um sorriso tímido.
— O que você fez lá foi mesmo muito inteligente — disse ele. — Você quer me irritar porque acredita que assim eu o mandarei para casa. E creio que você queira voltar para o seu pai.
Na verdade, Call havia desistido do plano.
Dizer coisas insolentes era algo que lhe ocorria naturalmente. Ele deu de ombros.
— Você deve se perguntar por que eu o escolhi. Justo você, que tirou as piores notas. O menos competente de todos os aspirantes a mago. Creio que você esteja imaginando que fiz isso porque vi algo em você. Algum potencial que escapou aos outros mestres. Alguma fonte inexplorada de habilidade. Talvez até mesmo algo que me tenha feito recordar de mim mesmo.
O tom do Mestre era de leve deboche. Call ficou em silêncio.
— Eu o escolhi — Rufus continuou — porque você tem a habilidade e o poder, mas também muita raiva. E praticamente não tem controle sobre nenhuma dessas coisas. Não queria que você fosse um fardo para algum dos outros magos. Nem queria que um deles o escolhesse por razões equivocadas. — Os olhos dele relancearam para o tornado dentro do pote de cabeça para baixo. — Muitos anos atrás, cometi um erro com um aluno. Um erro que teve graves consequências. Escolher você foi a minha punição.
O estômago de Call revirou como se ele fosse um cachorrinho que acabara de receber um chute. Doía ouvir que ele era desagradável a ponto de servir de punição para alguém.
— Então me mande para casa — ele explodiu. — Se você só me escolheu porque achava que os outros magos não deveriam me ensinar, me mande para casa.
Rufus balançou a cabeça.
— Você ainda não entendeu. Uma magia como a sua sem o devido controle é um perigo. Mandar você de volta seria o equivalente a jogar uma bomba na sua cidadezinha. Mas não se engane, Callum. Se insistir em desobedecer, se você se recusar a aprender a controlar sua magia, então eu vou ter de mandá-lo de volta para casa. Mas, antes disso, terei de interditar sua magia.
— Interditar minha magia?
— Sim. Até que um mago passe pelo Primeiro Portal no fim de seu Ano de Ferro, sua magia pode ser interditada por um dos mestres. Você não será capaz de acessar os elementos nem de usar seu poder. E também teremos de apagar suas memórias relacionadas à magia, de forma que você perderá alguma coisa, uma parte essencial de quem você é, embora não saiba mais do que se trata essas lembranças. Você pode passar o resto da vida atormentado pela falta de algo que não se lembra de ter perdido. É isso o que você quer?
— Não — Call sussurrou.
— Se eu achar que você está atrapalhando os outros ou que não é capaz de ser treinado, sua estadia no Magisterium estará terminada. Entretanto, se você prosseguir com seus estudos durante o ano e passar pelo Primeiro Portal, ninguém jamais poderá tirar sua magia. Aguente firme durante este ano e você poderá deixar o Magisterium, se assim o desejar. Você já terá aprendido o suficiente para não ser mais um perigo para o mundo. Pense nisso, Callum Hunt, enquanto separa a areia do jeito que eu o instruí. Grão a grão. — O Mestre Rufus parou por um momento e em seguida fez um gesto dispensando Call. — Pense nisso e faça sua escolha.


Concentrar-se em mover a areia era tão extenuante quanto sempre fora, porém era ainda pior quando Call se lembrava do quanto ficara contente com sua esperteza por ter imaginado uma solução melhor. Por um momento, ele achou que os três poderiam realmente se tornar uma equipe, talvez até amigos.
Aaron e Tamara se concentravam em silêncio. Quando Call olhava para eles, ambos desviavam o olhar. Estavam provavelmente loucos da vida com ele, Call pensou. Afinal, havia sido ele quem insistira em pensar em uma maneira mais prática de concluir o exercício. E, mesmo que ele tivesse sido o único a ser arrastado para a sala de Rufus, todos os três estavam encrencados.
Talvez Tamara até pensasse que ele a tinha dedurado. Além disso, a magia dele havia espalhado os montes no primeiro dia.
Call era um fardo no grupo, e todos sabiam disso.
“Ótimo”, Call pensou. “O Mestre Rufus disse que eu só tenho que suportar este ano, então eu vou fazer isso. Vou ser o melhor mago deste lugar, só porque ninguém acha que eu posso fazer isso. Nunca tentei de verdade antes, mas vou tentar agora. Vou ser melhor que vocês dois, e, depois, quando eu os tiver impressionado e vocês quiserem ser meus amigos, vou dar as costas e dizer que não preciso nem de vocês nem do Magisterium. Assim que eu passar pelo Primeiro Portal e vocês não puderem mais interditar minha magia, vou para casa e ninguém vai pode me deter.”
“É isso que vou dizer ao meu pai assim que conseguir usar aquele tornado-telefone.”
Call passou o resto do dia movendo a areia com a mente, mas, em vez de fazer isso como na primeira aula, empenhando-se para capturar cada grão, empurrando-o com os esforços mais desesperados de seu cérebro, desta vez ele se permitiu fazer uma experiência.
Call tentou utilizar toques cada vez mais leves para que a areia rolasse pelo chão em vez de flutuar. Afinal, ele já fizera aquilo antes. O truque era não pensar no monte como algo único — uma nuvem de areia —, mas sim como trezentos grãos isolados.
Talvez ele pudesse fazer a mesma coisa agora, pensar em todos os grãos escuros como uma única coisa.
Call tentou empurrá-los com a mente, mas a quantidade era muito grande e o menino perdeu o foco. Ele desistiu da ideia e se concentrou em cinco grãos de areia escura.
Desta vez conseguiu movê-los, rolando-os juntos em direção ao monte correto.
Call caiu para trás, impressionado, sentindo que acabara de fazer algo incrível. Ele queria dizer algo para Aaron, mas manteve a boca fechada e praticou sua nova técnica, saindo-se cada vez melhor, até que conseguiu mover vinte grãos de cada vez. Entretanto, não conseguiu ultrapassar esse número, independentemente do quanto se esforçasse. Aaron e Tamara viram o que ele fazia, mas nenhum dos dois falou nada nem tentou imitá-lo.
Naquela noite, Call sonhou com areia. Ele estava sentado na praia, tentando construir um castelo para uma ratazana-toupeira que pegara durante uma tempestade, mas o vento soprava a areia para longe, enquanto a água se aproximava cada vez mais. Por fim, frustrado, ele se levantou e chutou o castelo até que caísse por terra e se transformasse em um imenso monstro com enormes braços e pernas feitos de areia. A criatura o perseguiu pela praia, sempre prestes a pegá-lo, mas nunca conseguia chegar perto o suficiente enquanto berrava para ele com a voz do Mestre Rufus: “Lembre-se do que o seu pai falou sobre a magia, garoto. Vai lhe custar tudo o que você tem”.


No dia seguinte, em vez de levar os alunos até o salão e ir embora logo em seguida, o Mestre Rufus se sentou em um canto distante da Sala da Areia e do Tédio, pegou um livro e um pacote de papel encerado e começou a ler. Depois de cerca de duas horas, ele abriu o pacote, que continha um sanduíche de queijo e presunto no pão integral.
Ele pareceu indiferente ao método de Callum de mover mais de um grão ao mesmo tempo, de modo que Aaron e Tamara começaram a fazer o mesmo. A partir daí, as coisas andaram mais depressa.
Naquele dia, eles finalmente conseguiram separar toda a areia antes da hora do jantar.
O Mestre Rufus olhou para o trabalho realizado, assentiu, satisfeito, e chutou a areia para que formasse novamente uma única grande pilha.
— Amanhã vocês irão separar cinco gradações de cor — ele informou.
Os três suspiraram em uníssono.


As coisas seguiram sem grandes mudanças por uma semana e meia. Fora da sala de aula, Tamara e Aaron ignoravam Call, que, por sua vez, os ignorava também. Entretanto, eles melhoraram sua habilidade de mover a areia, tornando-se mais precisos e hábeis no controle de diversos grãos ao mesmo tempo.
Durante as refeições, eles ouviam sobre as lições dos outros aprendizes, que pareciam muito mais interessantes que a areia — especialmente quando as coisas davam errado.
Como quando Drew pôs fogo em si mesmo e conseguiu incendiar um dos barcos, além de chamuscar o cabelo de Rafe antes de ser expulso da aula. Ou quando os alunos de Milagros e Tanaka praticavam juntos e Kai Hale jogou um lagarto elemental nas costas de Jasper (Call pensou que Kai merecia uma medalha). Ou quando Gwenda decidiu que gostava tanto daquele cogumelo que lembrava uma pizza que queria mais um pedaço dele e então inflou tanto o cogumelo que estava em seu prato que ele tomou conta do Refeitório e empurrou todo mundo — até mesmo os mestres — para fora, impedindo que as pessoas usassem a sala por vários dias até que o crescimento do cogumelo fosse controlado.
O menu do jantar na noite em que eles puderam retornar ao Refeitório foi líquen e mais pudim. Não havia nem mesmo uma sombra de cogumelo. O que era interessante sobre o líquen é que o gosto nunca era o mesmo — algumas vezes tinha gosto de carne e, em outras, de tacos de peixe ou de vegetais com molho picante, mesmo tendo sempre a mesma cor. O pudim cinzento daquela noite tinha gosto de caramelo.
Quando Célia flagrou Call dando meia-volta para ir para o seu quarto, cutucou o pulso dele com a colher, toda animada.
— Qual é, vocês deveriam ir até a Galeria — ela disse. — Lá tem uns petiscos muito legais.
Call olhou de relance para Aaron e Tamara, que deram de ombros, concordando.
Os dois ainda estavam sendo frios e não puxavam assunto com Call, conversando apenas quando era estritamente necessário. Call imaginou se eles pensavam em perdoá-lo algum dia ou se aquela situação incômoda perduraria pelo resto do tempo que passariam ali.
Call largou a tigela de volta na mesa e alguns minutos depois se viu em um grupo sorridente de alunos do Ano de Ferro que seguiam para a Galeria. Enquanto andavam, Call percebeu que os cristais brilhantes incrustados nas paredes faziam com que o corredor parecesse estar coberto por uma fina camada de neve.
Ele se perguntou se algum desses corredores levava à sala de Mestre Rufus. Não houve um dia em que ele não pensasse em escapulir até lá para usar o telefone-tornado. Mas, até que o Mestre Rufus os ensinasse a controlar os barcos, Call precisaria de uma nova rota.
Eles caminharam por alguns túneis que não eram familiares a Call. Um deles parecia apresentar uma leve subida, com um atalho sobre um lago subterrâneo. Desta vez, Call não se importou com a distância extra, pois essa parte das cavernas continha um monte de coisas legais para serem vistas: uma formação calcária composta por calcita branca que lembrava uma cachoeira congelada, concreções no formato de ovos fritos e estalagmites que se tornavam azuis ou verdes graças ao cobre contido na rocha.
Por se mover mais devagar que os outros, Call era o último do grupo, de forma que Célia diminuiu um pouco o passo para conversar com ele. Ela mostrou coisas que Call ainda não tinha visto, como os buracos bem no alto da rocha onde viviam os morcegos e as salamandras. Eles passaram por uma grande sala circular da qual saíam duas passagens.
Sobre uma delas lia-se a palavra “Galeria”, escrita com letras ornamentadas feitas de um cristal brilhante. Na outra, havia a inscrição “Portal das Missões”.
— O que é isso? — Call perguntou.
— Outro caminho que dá para fora das cavernas — Drew entreouviu a conversa e respondeu, mas logo em seguida pareceu estranhamente culpado, como se não devesse ter contado aquilo.
Talvez Call não fosse o único que não entendia as regras da escola de magia. Quando olhou mais de perto, percebeu que Drew parecia estar tão exausto quanto ele.
— Mas não podemos sair — Célia acrescentou, lançando um olhar amargo para Call, como se achasse que, toda vez que ele ouvia falar sobre uma nova saída, começaria imediatamente a pensar se seria possível escapar por ali. — Essa porta é destinada apenas aos aprendizes que estão em missão.
— Missão? — Call repetiu enquanto seguia os outros até a Galeria. Ele se lembrou de que Célia já mencionara algo a respeito, quando explicou o motivo pelo qual nem todos os aprendizes estavam no Magisterium.
— A serviço dos mestres. Lutando contra os elementais. Ou contra os Dominados pelo Caos — Célia explicou. — Sabe, essas paradas de magia.
“Claro”, Call pensou. “Pegue algumas beladonas e mate uma serpe no caminho de volta. Sem problema.” Porém, como não queria irritar Célia, já que ela era a única pessoa que ainda falava com ele, Call decidiu guardar esses pensamentos para si.
A Galeria era imensa, com um teto que subia por pelo menos algumas dezenas de metros acima deles e um lago em uma das extremidades que se espalhava até perder-se de vista, pontuado por várias ilhotas. Alguns garotos mergulhavam na água, que fluía sem pressa. Um filme era projetado em uma parede de cristal — Call já vira aquele filme, mas tinha certeza de que o que acontecia na tela não era exatamente fiel à versão a que ele assistira.
— Adoro essa parte — Tamara comentou e correu para onde um pessoal estava acomodado em fileiras de cogumelos gigantes que pareciam ter sido forrados com veludo.
Jasper apareceu do nada e se jogou no cogumelo bem ao lado dela. Aaron parecia um pouco confuso, mesmo assim os seguiu.
— Você precisa provar as bebidas gasosas. — Célia puxou Call até uma saliência na pedra onde um enorme recipiente de vidro, repleto de um líquido que lembrava água, repousava ao lado de três estalactites. Ela pegou um copo, encheu-o com um pouco do conteúdo na torneira do recipiente e o colocou debaixo de uma das estalactites. Um jorro de líquido azul foi borrifado sobre a água e um pequeno redemoinho surgiu dentro do copo, misturando as duas substâncias.
Bolhas começaram a surgir no topo da bebida.
— Prove isso! — Célia o encorajou, animada.
Call lançou um olhar suspeito para a bebida antes de pegar o copo das mãos dela e dar um grande gole.
Ele teve a sensação de que cristais doces de mirtilo, caramelo e morango explodiam dentro de sua boca.
— Isso é fantástico — ele elogiou quando terminou de engolir.
— O verde é o meu preferido. — Célia sorriu para o copo que havia acabado de servir para si. — Tem gosto de pirulito derretido.
Sobre a saliência, havia pilhas de outras guloseimas de aparência interessante: tigelas repletas de pedras claramente feitas de açúcar, pretzels enrolados no formato de símbolos alquímicos sobre os quais dava para ver o brilho do sal e um pote com o que, à primeira vista, pareciam ser batatas fritas crocantes, só que, vistas mais de perto, apresentavam um tom de dourado mais escuro que o das batatas comuns. Call experimentou uma. O gosto era quase igual ao de pipoca com manteiga.
— Vamos. — Célia o pegou por um dos pulsos. — Estamos perdendo o filme. — Ela o conduziu até os cogumelos aveludados. Call a acompanhou um tanto relutante. O clima ainda estava muito carregado entre ele, Tamara e Aaron. Ele achou que seria melhor evitá-los e explorar a Galeria sozinho. Mas, de qualquer forma, ninguém prestava mesmo atenção nele. Todos pareciam hipnotizados pelo filme que era projetado na parede mais afastada. Jasper não parava de se inclinar para dizer coisas no ouvido de Tamara que a faziam rir, enquanto Aaron conversava com Kai, que se sentara ao seu lado. Felizmente, havia vários garotos mais velhos por ali para que Call pudesse se sentar longe dos outros aprendizes de seu grupo sem parecer que aquela fora uma escolha intencional.
Quando Call relaxou em seu assento, percebeu que o filme não estava sendo exatamente projetado. Um bloco sólido de ar colorido pairava sobre a parede de pedra. As cores serpenteavam, aparecendo e sumindo tão depressa que era impossível acompanhar todas as mudanças, o que criava a ilusão de uma tela.
— Magia do ar — disse ele, quase que apenas para si mesmo.
— É o Alex Strike que faz os filmes. — Célia abraçou os próprios joelhos, concentrada no que acontecia na tela. — Você deveria conhecê-lo.
— E por que eu deveria?
— Ele é do Ano de Bronze. Um dos melhores alunos. Ele ajuda o Mestre Rufus de vez em quando. — A voz dela era repleta de admiração.
Call olhou sobre um dos ombros. Nas sombras detrás das fileiras de almofadas em forma de cogumelo havia uma cadeira mais alta. O garoto moreno e magricela que levara sanduíches para eles alguns dias antes estava sentado nela. Seus olhos estavam fixos na tela diante dele. Os dedos se moviam para a frente e para trás, lembrando vagamente alguém que manipula uma marionete. Toda vez que ele movia as mãos, as formas na tela se alteravam.
“Isso é mesmo muito legal”, disse aquela vozinha traiçoeira dentro de Call. “Quero fazer isso.” Ele fez a voz se calar. Daria no pé assim que passasse pelo Primeiro Portal da Magia. Jamais iria para o Ano de Cobre, de Bronze ou a qualquer outro além do de Ferro.
Terminado o filme — Call tinha certeza de que não se lembrava de nenhuma cena de Guerra nas Estrelas em que Darth Vader dançava conga com os Ewoks, se bem que ele assistira ao filme uma única vez —, todos se levantaram em um pulo e começaram a aplaudir. Alex Strike jogou o cabelo para trás e sorriu. Quando viu que Call olhava para ele, cumprimentou-o balançando levemente a cabeça.
Todos logo se espalharam pela sala para brincar com outras coisas divertidas. Era como um fliperama, Call pensou, só que sem nenhum tipo de supervisão. Havia uma piscina onde a água quente borbulhava e mudava de cor. Alguns dos estudantes mais velhos, incluindo a irmã de Tamara e Alex, nadavam dentro dela, distraindo-se ao fazer pequenos redemoinhos dançarem sobre a superfície. Call colocou as pernas na água por algum tempo — a sensação era boa depois de todas as andanças dos últimos dias — e então se juntou a Drew e Rafe, que alimentavam os morcegos domesticados. Os bichos pousavam nos ombros deles para receber pedaços de frutas. Drew dava risadinhas quando as asas macias faziam cócegas em suas bochechas. Mais tarde, Call se juntou a Kai e Gwenda em um jogo estranho que envolvia acertar com um taco uma bola de fogo azul. Quando a bola o atingiu no peito, Call percebeu que, na verdade, ela era gelada. Cristais de gelo ficaram pendurados em seu uniforme cinzento, mas ele não se importou. A Galeria era tão divertida que ele se esqueceu de se preocupar com o Mestre Rufus, com seu pai, com a interdição de sua magia ou até mesmo com o fato de Tamara e Aaron o odiarem.
“Será que vai ser difícil desistir de tudo isso?”, ele se perguntou. Call pensou que poderia ser um mago e brincar com bolhas e transformar o ar em uma tela de cinema.
Imaginou que era bom nessa coisa de magia, que poderia se tornar até mesmo um mestre.
Porém, a imagem de seu pai sentado sozinho à mesa da cozinha o afligiu e ele se sentiu péssimo.
Quando Drew, Célia e Aaron decidiram voltar para seus quartos, Call resolveu acompanhá-los. Se ficasse acordado até mais tarde, passaria todo o dia seguinte de mau humor, e, além disso, não estava certo se sem eles acertaria o caminho. Eles refizeram o mesmo caminho pelas cavernas. Era a primeira vez em dias que Call se sentia relaxado.
— Onde está Tamara? — Célia perguntou enquanto caminhavam.
Call a tinha visto com a irmã quando deixaram a Galeria e estava prestes a responder quando Aaron falou:
— Discutindo com a irmã.
Call ficou surpreso.
— Como assim?
Aaron deu de ombros.
— Kimiya estava dizendo a Tamara que durante o Ano de Ferro ela não deveria perder tempo brincando na Galeria, sendo que poderia estar estudando.
Call franziu a testa. Ele sempre meio que quisera ter um irmão, mas agora passou a reconsiderar esse seu desejo.
Ao lado dele, Aaron congelou.
— Que barulho é esse?
— Está vindo do Portal das Missões. — Célia parecia preocupada.
Um momento depois, Call ouviu o mesmo som: o rufar do solado de botas sobre a rocha, o eco de vozes que reverberava pelas paredes de pedra. Alguém pedia ajuda.
Aaron saiu correndo pela passagem que levava ao Portal das Missões. Os outros hesitaram antes de acompanhá-lo. Drew estava tão inseguro que seguia na mesma velocidade de Call, que, por sua vez, se esforçava para correr o máximo que podia. A passagem começou a ficar repleta de gente que os empurrava para abrir caminho, quase derrubando Call. Algo pressionou seu braço e ele foi jogado para o lado junto a uma parede, protegido da multidão.
Aaron. Aaron o imprensou contra a pedra enquanto observava, com os lábios apertados, um grupo de garotos mais velhos — um grupo usava braceletes de prata e outro, de ouro — mancar pela passagem. Alguns eram carregados em macas improvisadas feitas com galhos de árvore. Dois aprendizes erguiam outro garoto — toda a frente de seu uniforme parecia ter sido queimada, e a pele debaixo dele estava vermelha e repleta de bolhas. Todos tinham marcas de queimadura nos uniformes e seus rostos estavam cobertos por uma fuligem negra. Muitos sangravam.
Drew parecia prestes a cair em prantos. Call ouviu Célia, que se encostara na parede ao lado de Aaron, sussurrar algo sobre elementais do fogo. Call observou um garoto em uma maca se contorcer, agoniado. Uma das mangas do uniforme havia sido queimada, e o braço parecia estar iluminado pelo lado de dentro, como uma brasa em uma fogueira.
“O fogo quer queimar”, Call pensou.
— Vocês! Vocês, do Ano de Ferro! Vocês não deveriam estar aqui! — Era o Mestre North, com uma expressão crescente de irritação à medida que se afastava do grupo de feridos. Call não tinha certeza de como ele os vira nem por que estava ali.
O mestre não precisou falar duas vezes.
Mais que depressa, eles deram o fora.

3 comentários:

  1. Pra onde esses estudantes foram? 😐
    Q missões são essas?
    Ass: Milly*-*
    Não sei pq mas desconfio no aeron ele é bonzinho demais senpre calmo ou tentando ficar calmo e feliz

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  2. Será que eles vão ficando mais velhos em cada livro, como em PJO? Call e Célia <3 Tamara e Jasper <3. Nada a declarar sobre o Aaron, ele é legal com todo mundo.

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Boa leitura :)