20 de janeiro de 2017

Capítulo nove


Viajar para longe do Magisterium não foi tarefa fácil. Tiveram de atravessar a floresta até a rodovia, guiando-se pelo mapa no celular de Tamara. Pelo caminho, podiam encontrar elementais e animais Dominados pelo Caos. Além disso, ainda havia a possibilidade de se perderem.
Mesmo assim, o clima estava agradável, e, com o canto das cigarras e as reclamações de Jasper soando em seu ouvido, Call não se incomodou com a caminhada. Pelo menos até a perna ruim começar a enrijecer e ele se dar conta de que, mais uma vez, atrasaria o resto do grupo. Mesmo em uma missão para salvar o próprio pai.
Se fossem apenas Aaron e Tamara acelerando na frente, Tamara carregando um graveto pesado e o fincando na terra para auxiliá-la, como se ela se achasse o Gandalf, os cabelos louros de Aaron brilhando ao luar, talvez Call tivesse reclamado. Mas a ideia de dar a Jasper um motivo extra para desdenhá-lo o enervava demais. Ele cerrou os dentes, ajeitou a mochila no ombro e ignorou a dor.
— Você acha que vai ser expulso? — perguntou Jasper casualmente. — Quero dizer, por ajudar o Inimigo. Ou pelo menos o capanga do Inimigo.
— Meu pai não é um capanga do Inimigo.
Jasper prosseguiu, ignorando Call.
— Você está me sequestrando. Colocando o Makar em perigo...
— Estou bem aqui, você sabe muito bem disso — retrucou Aaron. — Posso tomar minhas próprias decisões.
— Não sei bem se a Assembleia concordaria com isso — argumentou Jasper. Já tinham passado a parte da floresta em que as árvores eram mais jovens graças ao fogo e à destruição provocados por Constantine Madden, quinze anos antes. As árvores no trecho que atravessavam agora eram enormes e com galhos espessos. A luz do luar penetrava as folhas e atingia os pelos de Devastação. — Call, talvez você consiga o que quer. Pode de fato conseguir ser expulso do Magisterium. Pena que é tarde demais para interditar sua mágica.
— Cale a boca, Jasper — ordenou Tamara.
— E, Tamara, bem, sua família já se desgraçou antes. Pelo menos estão acostumados.
Tamara lhe bateu na nuca.
— Cale a boca. Se você falar demais, vai se desidratar.
— Ah — reclamou Jasper.
— Shhiii! — pediu Aaron.
— Já entendi. — O tom de Jasper era amargo. — Tamara já me mandou calar a boca.
— Não! Estou falando com todos, fiquem quietos. — Aaron se agachou atrás da raiz coberta de lodo de uma árvore. — Tem alguma coisa ali.
Jasper imediatamente se jogou de joelhos no chão. Tamara arregaçou as mangas e se agachou, formando uma concha com uma das mãos. O fogo já se acendia em sua palma.
Call hesitou. Sua perna estava dura, e ele temeu não conseguir se levantar outra vez, pelo menos não com elegância, caso se abaixasse.
— Call, se esconde — sibilou Tamara. A luz entre as palmas se ampliava, formando um quadrado brilhante. — Não banque o herói.
Call quase não conseguiu conter a risada sarcástica ao ouvir aquilo.
O quadrado brilhante se elevou, e Call percebeu que Tamara tinha esculpido a energia do ar em algo que funcionava como a lente de um telescópio. Todos se inclinaram para a frente enquanto o vale abaixo deles se tomava visível.
Olhando através da lente mágica de Tamara, eles conseguiram enxergar uma clareira circular, com casas pequenas de madeira, pintadas em cores brilhantes, espaçadas de forma equidistante. Uma grande construção de madeira se encontrava ao centro. Havia uma placa sobre a porta. Para a surpresa de Call, a lente mágica de Tamara permitiu que ele conseguisse ler as palavras ali escritas.

PENSAMENTOS SÃO LIVRES E NÃO SÃO SUJEITOS A REGRAS.

— É o que está escrito na entrada do Magisterium — concluiu ele, surpreso.
— Bem, pelo menos em uma das entradas — disse uma voz atrás dele.
Ele se virou. Havia um homem entre as folhas caídas e as samambaias, vestido com um uniforme preto de Mestre. Jasper engasgou e recuou até bater no tronco de uma árvore.
— Mestre Lemuel — atestou Call. — Mas eu achei que você... Pensei que eles...
— Tivessem me demitido do Magisterium?
Nenhum deles falou por um longo instante. Finalmente, Aaron fez que sim com a cabeça.
— Bem, sim. Me ofereceram uma licença, e eu aceitei. — Lemuel franziu a testa para eles. — Aparentemente, não fui o único.
— Estamos em uma missão — mentiu Tamara com grande convicção e sem qualquer traço de irritação. — Isso é óbvio. Do contrário, por que traríamos Jasper conosco?
Ela era uma ótima mentirosa, pensou Call. Ele agia como se isso fosse ruim. Mas, naquele momento, ele ficou satisfeito.
Jasper abriu a boca para protestar — ou possivelmente dar com a língua nos dentes — quando Aaron o pegou pelo ombro. Com força.
Mestre Lemuel bufou.
— Como se eu me importasse? Não me importa. Podem fugir do Magisterium se quiserem. Utilizem a mágica de vocês para entrar em boates. Divirtam-se com elementais. Não tenho mais aprendizes dos quais cuidar, graças aos céus, e certamente não tenho a menor intenção de cuidar de nenhum de vocês.
— Hum, tudo bem — disse Call. — Então está tudo certo?
— Que lugar é esse? — perguntou Aaron, esticando o pescoço para olhar em volta.
— Um enclave de indivíduos com pensamentos semelhantes. — Mestre Lemuel fez um gesto de desdém com as mãos. — Agora sigam em frente. Vão.
— Quem está aí? — perguntou uma mulher mais velha, com sardas e pele bronzeada de sol, usando um vestido de linho cor de açafrão. Seus cabelos brancos estavam presos em uma trança. — Você está aterrorizando essas crianças?
— Nós o conhecemos — revelou Tamara. — Do Magisterium.
— Ora, vamos! — A mulher os chamou. — Venham tomar alguma coisa gelada. Caminhar pela floresta dá sede.
Call olhou para Tamara e Aaron. Se Jasper começasse a reclamar sobre ser um prisioneiro, será que Mestre Lemuel acharia engraçado? Será que ele sabia que o Alkahest tinha sido roubado? Call tinha certeza de que esta parte ele não acharia engraçada.
— Melhor irmos — desconversou Tamara. — Obrigada por tudo, mas...
— Ah, não, não aceito não como resposta. — A mulher deu o braço para Aaron, e Aaron, sempre educado, deixou que ela o conduzisse até o acampamento. — Meu nome é Alma. Sei o tipo de comida horrível que servem no Magisterium. Será apenas uma visita rápida e depois vocês podem seguir.
— Hum, Aaron — disse Call. — Estamos com um pouco de pressa.
Aaron pareceu desamparado. Ele claramente não queria ser grosso. Pressão social era aparentemente sua kriptonita.
Mestre Lemuel parecia mais contrariado que satisfeito, o que provavelmente significava que aquilo não era nenhuma espécie de armadilha. Com um suspiro e um olhar cúmplice a Tamara, ele seguiu Alma e Aaron pelo singelo declive que levava a uma das casas, dotada de uma pequena varanda e estrelas azuis na porta. Lá dentro, Call pôde ver uma pequena cozinha, com longas prateleiras de madeira alinhadas, exibindo garrafas rotuladas a mão. Um forno a lenha soltava fumaça em um dos cantos, uma rede balançava em outro, e uma mesa com uma pintura peculiar cercada por cadeiras se encontrava no centro do recinto. A mulher abriu um armário, cheio de gelo seco. Ela colocou a mão ali dentro e pegou uma jarra de limonada; o vidro parecia embaçado graças ao frio, e várias rodelas de limão flutuavam lá dentro.
Ela pegou alguns copos descombinados e começou a servi-los. Aaron pegou um, tomou tudo, em seguida fez uma careta de dor.
— Meu cérebro congelou — explicou ele.
Call pensou, incomodado, em casas feitas de pão de ló e em velhinhas, e não bebeu nada. Não confiava em Mestre Lemuel e, definitivamente, não confiava em ninguém capaz de aturar o Mestre.
Contudo, ele se sentou em uma das cadeiras e esfregou a perna. Não se lembrava de nada ruim que acontecia quando alguém sentava nos contos de fadas.
— Então, este lugar — começou Tamara. — O que é?
— Ah, sim — respondeu a mulher. — Vocês viram a placa acima de nossa Casa Grande?
— “Pensamentos são livres e não são sujeitos a regras” — repetiu Tamara.
A mulher fez que sim com a cabeça. O Mestre Lemuel os seguiu até a casa.
— Alma, conheço essas crianças. Não são só encrenca, elas são o epicentro da encrenca. Não conte nada a eles de que vá se arrepender depois.
A mulher acenou vagamente para ele e, em seguida, voltou-se para os meninos. Ela apontou para Devastação, que ganiu um pouco e foi para trás da cadeira de Call.
— Nós estudamos os Dominados pelo Caos. Vejo que tem um lobo, um jovem lobo. O Inimigo pôs o caos tanto em humanos quanto em animais, mas, ao passo que o caos pareceu afetar a retórica e a inteligência das pessoas, os animais reagiram de outra forma. Continuaram procriando, de modo que as criaturas Dominadas pelo Caos dos dias de hoje jamais conheceram os comandos de um Makar, pois não havia um, até agora.
Ela olhou para Aaron.
— Devastação obedece a Call, não a mim — corrigiu Aaron.
— E Call não é o Makar.
— Isso é muito interessante para nós — observou Alma. — Como encontrou Devastação, Call?
— Ele estava na neve. — Call afagou os pelos de Devastação com as costas dos dedos. — Salvei a vida dele.
Tamara o olhou, incrédula, como se achasse que Devastação fosse ter ficado bem sem ele.
— Devastação nasceu Dominado pelo Caos — atestou Alma. — Não existem humanos assim. Humanos não podem ter o caos introduzido em seus corpos. Humanos Dominados pelo Caos são criados a partir dos recém-mortos.
Aaron estremeceu.
— Parece nojento. Como zumbis.
— É nojento, de certa forma — concordou Alma. — Existe um velho ditado alquímico que diz: “todo veneno é também uma cura; só depende da dose”. O Inimigo conseguiu curar a morte, mas a cura foi pior que a condição original.
— Mestra Milagros também diz isso. — Jasper fechou os olhos. — Você era professora no Magisterium?
— Era — respondeu Alma. — Na mesma época em que Mestre Joseph estava lá, fazendo experimentos com a magia do vazio. Muitos de nós estávamos. Ajudei com algumas das experiências.
Tamara derrubou o copo de limonada.
— Você ficou olhando enquanto Constantine introduzia o caos nas pessoas, em animais? Por que alguém faria isso?
— A Ordem da Desordem — sussurrou Call. Eles só podiam fazer parte dela. No livro dizia que eles tinham passado a pesquisar animais Dominados pelo Caos. Onde mais os encontrariam, a não ser no bosque ao redor do Magisterium? Eram os criadores do Alkahest.
Alma sorriu para ele.
— Vejo que já ouviu falar de nós. Nunca se perguntou o que Mestre Joseph e Constantine Madden estavam tentando fazer?
— Estavam tentando fazer com que ninguém mais tivesse de morrer — disse Call.
Todos lhe lançaram um olhar estranho.
— Bela maneira de prestar atenção às aulas — sussurrou Aaron.
— Somos seres de energia. — Lemuel entrou na conversa. — Quando nossa energia é gasta, nossas vidas se acabam. O caos é uma forma de energia infinita. Se o caos puder ser inserido de forma segura em uma pessoa, ela poderia se alimentar dessa energia eternamente. Jamais morreria.
— Mas não pode ser — retrucou Aaron. — Quero dizer, o caos não pode ser colocado em uma pessoa sem matá-la.
— Isso é o que ainda estamos tentando determinar — disse Alma. — Estamos trabalhando com animais, porque animais parecem reagir ao caos de forma diferente. Seu lobo tem caos dentro de si, nasceu com ele, mas ele continua tendo uma personalidade, ele tem sentimentos, não tem? Ele é tão vivo quanto você.
— Bem... sim — concordou Call.
— E ele definitivamente nunca vai se descontrolar e devorar a gente — interrompeu Jasper. — Não é?
— Quem sabe? — declarou Mestre Lemuel. Ele certamente parecia mais feliz do que quando era professor no Magisterium, pensou Call. Metade da boca se curvava para cima, como se ele pudesse, de fato, sorrir.
Jasper deslizou pela cadeira.
— Nojento.
Tamara olhou ao redor.
— Então, se estão estudando animais Dominados pelo Caos, vocês os capturam? Os colocam em jaulas?
Alma sorriu e olhou Devastação de um jeito que Call não gostou.
— Então, contem-me sobre a missão de vocês. Qual é a tarefa?
— Achei que tivesse dito não se importar com nosso destino — disse Aaron a Mestre Lemuel.
— Eu não me importo. Não disse que ninguém se importava. — O meio sorriso de Lamuel se completou, malicioso. — Não é fácil fugir do Magisterium.
— Drew certamente descobriu isso — murmurou Jasper.
Mestre Lemuel enrubesceu.
— Drew não estava tentando fugir. Tudo que ele falou a meu respeito era mentira.
— Olhe, sabemos disso. — Aaron levantou as mãos, pedindo paz. — E estamos em uma missão, só não é uma missão que todos da escola saibam. Então, se puderem nos informar qual é o caminho mais rápido para a estrada...
Houve uma comoção do lado de fora.
Um senhor careca e de barba correu para dentro da casa.
— Alma! Lemuel! Os Mestres do Magisterium estão vindo para cá. É uma busca.
Lemuel olhou, presunçoso, para Call e os outros.
— Não estão fugindo, hein?
— Só para registrar — disse Jasper —, essas pessoas me sequestraram e estão me forçando a acompanhá-los em uma missão tola para...
Tamara abriu a mão. Jasper parou de falar subitamente e começou a se engasgar. Tamara aparentemente havia arrancado as palavras da boca do garoto — literalmente — e levado também o ar que Jasper respirava. Os adultos não pareceram notar, mas Call se impressionou.
— Atrase-os, Andreas — ordenou Alma calmamente.
O homem barbado correu de volta para a direção de onde tinha vindo.
Call se levantou, com o coração na garganta.
— Precisamos sair daqui.
Aaron e Tamara foram atrás dele. Só Jasper permaneceu sentado, ainda ofegando e encarando os outros.
— Vamos nos esconder na floresta — sugeriu Aaron. — Por favor, deixem-nos ir, e nunca falaremos para ninguém sobre esse lugar.
— Posso fazer melhor que isso — prometeu Alma. — Vamos escondê-los. Mas terão de retribuir o favor.
O olhar de Alma voltou-se para Devastação.
— De jeito nenhum. — Tamara colocou uma das mãos sobre o lobo. — Não vamos permitir que faça o que quer que esteja...
— Promete que ele não vai se machucar? — perguntou Call mais que depressa, interrompendo-a. Não queria considerar a hipótese, pensando em como seu pai havia amarrado Devastação, mas ele viu a cobiça com que Alma olhava para o lobo. Precisava concordar, para ganhar tempo até encontrar uma maneira de tirar todos dali, inclusive Devastação.
— Call, você não pode — protestou Tamara, com os dedos no pelo de Devastação.
— Claro que ele pode — disse Jasper. — Acha que ele vai ser leal a alguém ou coisa do tipo? Vamos voltar para o Magisterium.
— Cale a boca — ordenou Aaron. — Call, tem certeza...
Alma riu.
— Vocês não entenderam. Não é Devastação que queremos, apesar de ele ser muito interessante. É Aaron.
— Bem, vocês definitivamente não podem ficar com Aaron — declarou Tamara.
— Temos muitas teorias, mas não temos como testá-las sem um Makar. Sabemos que não pode ficar agora, Aaron, mas, me prometa que voltará, e deixe o lobo como garantia. Quando retornar, precisaremos apenas de algumas horas de seu tempo. E talvez quando você vir o que pode fazer, como pode ajudar o mundo sendo algo além de uma defesa contra um inimigo com o qual nem estamos mais guerreando, aí talvez decida se juntar a nós.
Nenhum deles falou nada.
— O lobo vai ficar bem — garantiu Alma.
— Tudo bem — concordou Aaron após um longo momento. — Prometo voltar, mas não podem ficar com Devastação. Não precisam de garantia. Vocês têm minha palavra.
— Confiamos em você, Makar, mas nem tanto. Depressa, crianças. Decidam. Podemos escondê-los, ou entregá-los aos magos. Mas devem saber que nosso trato com eles será trocar vocês quatro pelo lobo.
Call não tinha a menor dúvida quanto às palavras de Alma; não àquela altura.
— Tudo bem. Mesmo acordo de antes. Mas Devastação não vai ser cobaia de nenhuma experiência.
Alma pareceu bem satisfeita.
— Ótimo. De acordo. Todos vocês, sigam-me. — Ela os conduziu pela porta dos fundos. Eles correram pelo espaço verde entre as casas.
Call se sentiu terrivelmente exposto. Dava para ver as sombras se movendo pelas árvores que cercavam a clareira, e ouviras vozes elevadas. Os Mestres gritando seus nomes. Correndo atrás de Tamara, ele viu que ela agarrava o pulso de Jasper, impedindo que ele corresse na direção oposta. Call pensou ter ouvido a voz de Mestre Rufus. Agarrou a coleira de Devastação e o puxou mais para perto. O lobo olhou para ele como se desconfiasse de que algo de ruim estava prestes a acontecer.
Se corressem para a floresta, seriam pegos. A única opção era seguir Alma — que era totalmente assustadora, que já tinha trabalhado com Constantine Madden e com Mestre Joseph, que queria fazer experimentos em Devastação, que provavelmente tinha todas as qualificações para preencher sua lista de Suserana do Mal — e torcer para que ela cumprisse a promessa de escondê-los.
Com um suspiro, Call seguiu em frente. Alma tirou um molho com várias chaves do bolso do vestido açafrão e destrancou a porta da construção central Imediatamente, ficaram impressionados com os ruídos de latidos, uivos e choros. A casa em que entraram estava tomada por todos os lados com jaulas de vários tamanhos, e nelas havia animais Dominados pelo Caos. Desde ursos pardos com olhos selvagens e rodopiantes até raposas cinzentas e um único lince que rugiu quando Call entrou.
— Este é o pior zoológico do mundo — comentou Jasper.
A mão de Tamara subiu para cobrir a boca do garoto.
— Então é aqui que você os prende.
Alma levou Call a uma das jaulas.
— Coloque o seu lobo aí dentro. Rápido. Preciso dar um jeito em vocês e depois cuidar dos magos.
— Como podemos ter certeza de que você vai cumprir sua palavra? — Aaron parecia motivado além do medo de ofender.
— Makar, olhe só as criaturas que temos aqui. Foram muito mais perigosas de ser obtidas. São perigosas de ser mantidas. Mas você é mais perigoso que todas elas. Não o trairíamos assim. Precisamos de sua ajuda.
Lá fora, as vozes se tornaram mais altas. Mestre Lemuel discutia com outro mago.
Respirando fundo, Call colocou Devastação na jaula e permitiu que Alma a trancasse. Ela pegou a chave e a colocou no bolso, depois os levou a outra sala. Não tinha janelas e estava cheia de caixas.
— Fiquem aqui até eu voltar para buscá-los. Não vou demorar — garantiu Alma antes de fechar a porta. Ouviram a tranca virar e, em seguida, passos se afastando.
Tamara virou para Call e Aaron.
— Como pôde concordar que eles ficassem com Devastação? Ele é nosso lobo!
— Ele é meu lobo — corrigiu Call.
— Não é mais. — Jasper começou a examinar as próprias unhas.
— E você. — Tamara se virou para Aaron. — Concordando com uma proposta imbecil. Você dois são idiotas.
Call levantou as mãos.
— O que mais poderíamos fazer? Precisávamos deles para nos esconder, e eles realmente fizeram isso. Se fugirmos e pegarmos Devastação enquanto eles conversam com os Mestres, podemos sair sem que ninguém perceba. E aí Aaron não terá de voltar.
Aaron abriu a boca para falar alguma coisa, mas Call o interrompeu.
— Não diga nada sobre cumprir sua promessa. Não foi uma promessa de verdade.
— Tudo bem — concordou Aaron.
— Vai ser fácil soltar o lobo. Provavelmente tem alguma tranca mágica naquelas jaulas — disse Jasper.
— Ele tem razão — falou Tamara.
— Eu tenho um plano. — Call espiou pelo buraco da fechadura. — Aaron, você consegue abrir essa porta?
— Se está me perguntando se consigo abrir trancas, não consigo.
— Sim, mas você é um Makar — insistiu Call. Pelo buraco da fechadura, dava para ver a sala cheia de jaulas, e Devastação encolhido, parecendo arrasado. — Um Makar pode abrir uma porta ou fazer alguma coisa do tipo.
Aaron olhou para ele como se estivesse falando loucuras. Em seguida, virou e arrombou a porta. A porta explodiu com as dobradiças arrancadas.
— Ou pode fazer isso — completou Call. — Também funciona.
O corpo de Jasper enrijeceu, como se estivesse pensando em fugir.
Tamara virou-se para ele.
— Por favor, não vá. Fique com a gente, tudo bem? Mais um pouco. Sei que não é divertido, mas é realmente importante.
Jasper olhou para ela com uma expressão estranha no rosto, como se Tamara tivesse conseguido dizer a única coisa que pudesse convencê-lo a não fugir dali e dar com a língua nos dentes. De forma estranha, aparentemente as palavras em questão foram por favor.
— Bem, você tem razão quanto a não ser divertido. — Ele se inclinou contra a porta e cruzou os braços sobre o peito.
Call foi até as jaulas. Conforme a previsão de Jasper, as trancas traziam, entrelaçados, vários símbolos alquímicos que ele não reconhecia. E três buracos de fechadura.
— Tamara, o que isso significa? — perguntou ele.
Ela espiou sobre o ombro dele e franziu a testa.
— É protegido contra magia.
— Ah. — Em casa, durante a Parada de Primeiro de Maio, ele tinha soltado uma toupeira e ratos brancos, sem usar nenhum tipo de magia, apenas engenhosidade. Depois que Aaron abriu a porta e os levou até a sala principal, Call teve a sensação de que tinha que ser ele a abrir as jaulas. De algum jeito.
Aaron agarrou as barras, fechou os olhos e puxou com toda a força de que foi capaz.
— Esse é seu plano? — Jasper soltou uma gargalhada. — Está brincando?
— Precisamos de uma chave. — Um pequeno sorriso começou a se formar nos cantos da boca de Aaron. — Ou, bem, muitas chaves.
Um dos ursos rugiu, esticando a pata através das barras da jaula e batendo no ar. Seus olhos eram laranja e flamejantes, ardendo graças ao caos. Aaron olhou para o animal, boquiaberto.
— Nunca vi um desses antes.
Call não sabia se ele estava falando sobre nunca ter visto um urso, ou nunca ter visto um urso Dominado pelo Caos, coisa que ele apostaria que nenhum deles jamais vira.
— Tenho uma ideia. — Tamara lançou um rápido olhar preocupado na direção do urso. — Não podemos usar magia nas trancas, mas...
Call se virou para ela.
— O quê?
— Me dê alguma coisa metálica. Qualquer coisa.
Call ergueu um astrolábio de bronze de uma das mesas e o estendeu para a menina.
Nas mãos de Tamara, o metal começou a derreter. Não, quanto mais Call olhava, mais ele notava que o metal liquidificado estava flutuando sobre as mãos dela. Formou uma bolha vermelha ardente, que escurecia ao esfriar no ar, e que flutuava para a jaula de Devastação. Ao chegar lá, três gavinhas de metal líquido se esticaram para os buracos de chaves.
— Jogue água fria. — O corpo de Tamara, estava rígido graças à concentração.
Call puxou água dos potes dos animais, formando uma bola e utilizando a magia do ar para esfriá-la.
— Mais rápido — disse ela, rangendo os dentes.
Ele jogou água no que restava do astrolábio. O metal chiou, e a água evaporou em uma nuvem. Call deu um salto para trás, caindo desconfortavelmente contra uma das jaulas.
Quando a nuvem clareou, Tamara estava segurando uma chave com três segredos.
Devastação gemeu. Tamara pressionou a chave na fechadura e girou; três cliques diferentes soaram — um, dois e, em seguida, um terceiro — e ecoaram por todo o recinto. A jaula se abriu, e Devastação correu, fazendo a porta balançar. Em seguida, mais cliques soaram enquanto todas as jaulas se abriram.
— Talvez não devêssemos ter aberto todas as três trancas — disse Call no silêncio enervante que seguiu.
Enquanto os animais se libertavam das jaulas, Jasper começou a gritar. O urso veio correndo. Raposas, cachorros, lobos e furões saíram de suas prisões.
— Vão! — gritou Call. — Vão e ataquem, quero dizer, distraiam os Mestres! Levem-nos para longe daqui!
— Isso, vão distraí-los! — acrescentou Tamara.
Os animais Dominados pelo Caos correram para a saída, mal prestando atenção a qualquer um deles. Aaron abriu a porta bem a tempo de eles atravessarem, como trovões.
Ouviu-se gritos vindo de fora, assim como rugidos e grasnados. Call pôde ouvir pessoas correndo e gritando.
Devastação foi para cima de Call, abanando o rabo, lambendo-o vigorosamente. Call se abaixou para abraçá-lo.
— Bom lobo — murmurou ele. — Bom lobo. — Devastação o acariciou com o focinho, os olhos flamejando em um tom amarelado.
— Abaixe-se! — gritou Tamara, e esticou o braço para puxar Jasper, que tinha subido na mesa e tentava abrir a janela.
— Estou tentando ajudar! — protestou ele.
Aaron se inclinou pela janela aberta.
— E se alguns dos Dominados pelo Caos atacarem algum dos magos? E se alguém se machucar? Nem todos os animais são como Devastação.
— Não se preocupe com os Mestres — disse Call. — Esses animais não parecem estar na melhor das formas. Aposto que a maioria deles vai correr para a floresta na primeira chance.
— Como a gente deveria estar fazendo — lembrou Tamara, indo em direção à porta e passando por Aaron. — Vamos sair daqui.
Com a cabeça abaixada e os dedos nos pelos de Devastação, Call a seguiu. Aaron vinha atrás de todos, mantendo Jasper à frente.
Eles saíram em uma clareira e congelaram onde estavam. O pequeno acampamento estava totalmente revirado. Os Mestres corriam de um lado para o outro, tentando capturar os fugitivos animais Dominados pelo Caos. Jatos de fogo e gelo voavam pelo ar. Call teve quase certeza de ter visto Mestre Rockmaple sendo perseguido ao redor de uma árvore por um golden retriever Dominado pelo Caos. Mestre North se virou, uma bola brilhante de fogo começando a se elevar da palma de sua mão.
Alma de repente surgiu da pequena casa de madeira onde havia servido limonada. Um redemoinho de ar chicoteava ao seu redor. Ela esticou uma das mãos e liberou uma gavinha de ar, derrubando Mestre North. O raio de fogo se expandiu, alcançando as folhas e os galhos de árvores sobre sua cabeça; estes começaram a queimar enquanto Tamara agarrava Call com firmeza e o puxava para fora da clareira em direção à floresta.
Todos corriam, Tamara, Aaron, Jasper, até mesmo Call, mancando um pouco e ganhando bastante velocidade. Justo quando os sons da luta atrás deles começaram a diminuir, Call escutou uma voz.
— Avisei a Alma que vocês eram encrenca — disse Mestre Lemuel, posicionado sinistramente no caminho deles. — Ela não quis me ouvir.
Aaron parou onde estava, e os outros quase esbarraram nele. Mestre Lemuel ergueu as sobrancelhas.
— Vou dizer uma coisa, e vocês podem acreditar em mim ou não. Mas nutro ainda menor apreço pelos Mestres do Magisterium do que tenho por vocês. E não quero que eles consigam o que querem. Entendem?
Todos fizeram que sim com a cabeça ao mesmo tempo.
Ele apontou para um riacho estreito que corria pelas árvores. Na verdade, aquele até que era um lugar bem bonito, pensou Call, um lugar que poderia ter apreciado em outras circunstâncias.
— Sigam esse riacho até a estrada — explicou Lemuel. — É o caminho mais rápido. A partir daí, estão por conta própria.
Fizeram silêncio por um tempo. Em seguida Aaron disse:
— Obrigado.
Claro que Aaron agradeceria, pensou Call, enquanto corriam ao longo do riacho. Se alguém estivesse golpeando Aaron na cabeça, ele agradeceria a pessoa por parar.
Caminharam por meia hora em silêncio antes de Jasper se pronunciar.
— Então qual o plano agora? Não é como se fôssemos ficar seguros na estrada. Não têm ônibus, e não temos um carro...
— Eu tenho um plano — declarou Tamara.
Call se virou para ela.
— Tem?
— Eu sempre tenho um plano — disse ela, e ergueu as sobrancelhas. — Às vezes, até um passo a passo. Eu deveria dar aula a vocês.
— É bom que esse plano seja ótimo. — Aaron sorriu. — Porque você certamente está fazendo muita propaganda.
Tamara pegou o telefone da bolsa, checou a tela e, em seguida, continuou andando.

12 comentários:

  1. Ela chamou um Uberlândia kkkkk

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  2. "Eu sempre tenho um plano"
    Ui, filha de Atena

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  3. "-Eu sempre tenho um plano"
    Soou meio Annabeth,gostei disso
    É aposto que tá procurando um Uberlandia
    (foi mal Samira usar a sua piada)

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  4. Mulher prevenida vale por duas não é isso?

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  5. Tamaravilhosa! Super filha de Atena, sempre com um plano.

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  6. É alguém pode me informar como eles planejam achar Alastair? Saindo assim simplesmente?

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    1. Boa pergunta. Foi só no impulso, parece. Mas Cal deve ter ideias de onde encontrá-lo, lugares em que frequentavam, um número pra ligar, alguém a quem contatar...

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Boa leitura :)