16 de janeiro de 2017

Capítulo nove


O dia seguinte foi de mais areia e mais cansaço. Naquela noite, no Refeitório, Call se jogou diante da mesa com um prato repleto de líquen acompanhado por uma pilha de biscoitos de aparência tão cristalina que chegavam a brilhar. Célia mordeu um deles e se ouviu um som que lembrava vidro sendo quebrado.
— É seguro comer isso, não é? — Call perguntou a Tamara, que comia mais uma colherada de algum tipo de pudim roxo que manchava seus lábios e deixava sua língua azul-escura.
Ela revirou os olhos. Havia manchas escuras debaixo deles, mas sua aparência era, como sempre, elegante. Call sentiu uma pontada de ressentimento no peito. Tamara só podia ser um robô, ele concluiu. Um robô com sentimentos humanos. Ele torceu para ela entrar em curto-circuito.
Célia, vendo a ferocidade na maneira como ele olhava para Tamara, tentou falar algo, mas estava com a boca cheia de biscoito. Alguns bancos à frente, Aaron dizia:
— Tudo que fazemos é dividir areia em montes. Por horas e mais horas. Quero dizer, é claro que deve haver uma razão para isso, mas...
— Sinto muito por você — Jasper o interrompeu. — Os aprendizes do Mestre Lemuel têm lutado contra os elementais e nós temos feito coisas incríveis com a Mestra Milagros. Produzimos bolas de fogo, e ela nos ensinou a utilizar o metal presente na terra para levitar. Já consigo me erguer quase três centímetros do chão.
— Uau — comentou Call, cheio de desprezo. — Quase três centímetros.
— É por sua causa que o Aaron e a Tamara estão sofrendo — Jasper rebateu, com os olhos brilhando de raiva. — Porque você foi muito mal nos testes. É por isso que todo o grupo está preso em uma caixa de areia enquanto o resto de nós já está com o time em campo.
Call sentiu o sangue subir à cabeça. Aquilo não era verdade. Não podia ser verdade. Ele viu Aaron, na outra ponta da mesa, balançar a cabeça, prestes a dizer algo, mas Jasper não parou. Com um sorriso de escárnio, ele acrescentou:
— Se eu fosse você, não desdenharia dos nossos exercícios de levitação. Se você pudesse ao menos aprender a levitar, talvez não ficasse atrasando a Tamara e o Aaron ao mancar atrás deles.
No momento que se seguiu após essas palavras deixarem sua boca, Jasper pareceu chocado, como se nem mesmo ele esperasse ir tão longe.
Aquela não era a primeira vez que alguém dizia algo do gênero para Call, mas a sensação era sempre como se jogassem um balde de água fria bem na sua cara.
Aaron sentou-se ereto, com os olhos arregalados.
Tamara bateu na mesa com uma das mãos espalmadas.
— Cale a boca, Jasper! Não estamos separando areia por causa do Call. Estamos fazendo isso por minha causa. A culpa é minha, ok?
— O quê? Não! — Jasper estava totalmente confuso. Era óbvio que ele não queria irritar Tamara. Talvez até mesmo quisesse impressioná-la com toda aquela conversa. — Você foi muito bem no Teste. Todos nós fomos, exceto ele. Esse garoto roubou o meu lugar. O seu mestre sentiu pena dele e quis...
Aaron ficou de pé, segurando o garfo em uma das mãos. Ele parecia furioso.
— Não era o seu lugar — ele cuspiu as palavras em Jasper. — Não se trata apenas de pontos, mas sim de quem cada mestre deseja ensinar. E eu posso perceber muito bem por que o Mestre Rufus não quis você.
Aaron falou tão alto que as pessoas nas mesas mais próximas se viraram para ele. Com um último olhar enojado para Jasper, Aaron largou o garfo sobre a mesa e se afastou com os ombros rígidos.
Jasper se voltou para Tamara.
— Eu achava que você tinha um maluco no seu grupo, mas agora estou vendo que são dois.
Tamara observou Jasper com atenção por um longo momento e em seguida pegou sua tigela de pudim e a virou bem em cima da cabeça dele. Uma gororoba roxa escorreu pelo rosto de Jasper. Ele gemeu, surpreso.
Por um instante, Call ficou surpreso demais para ter qualquer tipo de reação, mas logo caiu na gargalhada. Célia o acompanhou e em pouco tempo toda a mesa morria de rir enquanto Jasper lutava para tirar a tigela da cabeça. Call gargalhou ainda mais alto.
No entanto, Tamara não estava rindo. Parecia que ela não acreditava que tinha perdido a compostura daquela maneira. A garota ficou congelada na mesma posição por um longo momento e então se levantou com dificuldade e correu até a porta, seguindo na mesma direção por onde Aaron saíra. Do outro lado do Refeitório, sua irmã, Kimiya, a observava em desaprovação, com os braços cruzados sobre o peito.
Jasper jogou a tigela sobre a mesa e lançou para Call um olhar carregado com o mais puro e angustiado ódio. Seu cabelo estava coberto por uma camada de pudim.
— Poderia ter sido pior — disse Call. — Em vez de pudim, poderia ter sido aquela coisa verde.
A Mestra Milagros surgiu ao lado de Jasper. Ela lhe entregou alguns guardanapos e exigiu que lhe explicassem o que havia acontecido. O Mestre Lemuel, que estava sentado a uma mesa próxima, se levantou e foi até eles para repreender todos da mesa.
Em determinado momento, o Mestre Rufus se juntou a ele. Seu rosto permanecia impassível, como sempre. O blá-blá-blá de vozes adultas parecia não ter fim, mas Call  não prestava atenção.
Durante seus doze anos de vida, Call não conseguia se lembrar de ter sido defendido por mais ninguém além de seu pai. Nem mesmo quando as pessoas chutavam sua perna ruim durante o futebol ou riam dele por ficar no banco durante as aulas de Educação Física ou por ser o último a ser escolhido em todos os times. Ele se lembrou de Tamara virando a tigela de pudim na cabeça de Jasper e das palavras de Aaron dizendo: “não se trata apenas de pontos, mas sim de quem cada mestre deseja ensinar”, e sentiu uma onda de calor dentro do peito.
Mas, então, ele se recordou do verdadeiro motivo pelo qual o Mestre Rufus queria ensiná-lo e o calor desapareceu.
Call voltou para os seus aposentos sozinho, seguindo os túneis de pedra que ecoavam o som de seus passos. Quando chegou à sala coletiva, Tamara estava sentada no sofá com as mãos curvadas ao redor de uma caneca fumegante feita de pedra. Aaron conversava com ela em voz baixa.
— E aí? — Call ficou parado no batente da porta, sentindo-se incomodado, sem saber se deveria ou não ir embora. — Obrigado por... bem, eu só queria agradecer.
Tamara olhou para ele e fungou.
— Você vai entrar ou não?
Já que seria ainda mais incômodo ficar no corredor, Call deixou que a porta batesse atrás de si e começou a caminhar rumo ao seu quarto.
— Call, fique aqui — Tamara pediu.
Ele se virou para olhar para ela e Aaron, que estava sentado no braço do sofá, lançando olhares ansiosos para ambos. O cabelo escuro de Tamara continuava perfeito e sua coluna, ereta, embora o rosto estivesse com várias manchas, como se ela tivesse chorado. Os olhos de Aaron demonstravam preocupação.
— O que aconteceu com a areia foi culpa minha — disse Tamara. — Desculpe. Desculpe por ter colocado você em encrenca. Aliás, em primeiro lugar, desculpe por ter sugerido algo tão perigoso. E desculpe também por não ter contado nada antes.
Call deu de ombros.
— Eu pedi que você desse alguma ideia. Qualquer uma. Não foi culpa sua.
Ela lhe lançou um olhar estranho.
— Mas eu achei que você estivesse morrendo de raiva.
Aaron assentiu.
— É, pensamos que você estivesse irritado. Você mal falou com a gente durante três semanas inteiras.
— Não — Call corrigiu. — Vocês é que não falaram comigo durante três semanas inteiras. Eram vocês que estavam com raiva de mim.
Os olhos verdes de Aaron se arregalaram.
— Por que a gente estaria irritado com você? Foi você quem se encrencou com o Rufus, não nós. E você nem jogou a culpa na gente, embora pudesse ter feito isso.
— De nós três, sou eu quem sabe mais sobre essas coisas. — Tamara apertava tanto a asa da caneca que os nós de seus dedos ficaram esbranquiçados. — Vocês dois não sabem praticamente nada sobre magia, o Magisterium, os elementos. Mas eu sei. Minha... irmã mais velha...
— Kimiya? — Call estava confuso. Sua perna doía. Ele se apoiou na mesa de centro, esfregando o joelho sobre o uniforme de algodão.
— Tenho outra irmã — Tamara sussurrou.
— O que aconteceu com ela? — A voz de Aaron não era mais que um murmúrio para acompanhar o tom da menina.
— O pior — emendou Tamara. — Ela se transformou em uma daquelas coisas sobre as quais eu contei a vocês. Um elemental humano. Existem grandes magos que podem nadar pela terra como se fossem peixes, fazer com que adagas sejam lançadas das paredes, criar tempestades elétricas ou redemoinhos gigantes. Minha irmã queria ser um deles, então instigou sua magia até ser tomada pelo seu próprio poder.
Tamara balançou a cabeça e Call imaginou o que passava pela mente dela enquanto contava a eles aquelas coisas.
— A pior parte é lembrar o quanto meu pai ficou orgulhoso no início, enquanto ela ia bem. Ele costumava dizer que Kimiya e eu deveríamos ser como ela. Agora, ele e minha mãe não falam mais nem uma única palavra sobre nossa irmã. Eles nem mesmo mencionam seu nome.
— E qual era o nome dela?
Tamara pareceu surpresa.
— Ravan.
Aaron ergueu uma das mãos por um segundo, como se quisesse afagar os ombros de Tamara, mas não tinha certeza se deveria fazer isso.
— Você não vai acabar como ela — Aaron a consolou. — Não precisa se preocupar.
Ela balançou a cabeça mais uma vez.
— Eu disse a mim mesma que não seria como meu pai e minha irmã, que eu jamais correria esse risco. Queria provar que podia fazer tudo do jeito certo, sem precisar de nenhum atalho e que ainda assim eu seria a melhor. Só que apelei para atalhos e ensinei vocês a fazer o mesmo. Não consegui provar nada.
— Não diga isso — insistiu Aaron. — Você provou algo esta noite.
Tamara fungou.
— O quê?
— Que o Jasper fica muito melhor com pudim no cabelo — Call sugeriu.
Aaron revirou os olhos.
— Não era isso o que eu ia dizer... apesar de querer muito ter visto essa cena.
— Foi incrível. — Call abriu um sorriso.
— Tamara, você provou que se importa com seus amigos. E nós nos importamos com você. E vamos garantir que você não usará mais nenhum atalho. — Aaron olhou para Call. — Não é?
— É. — Call estudou a ponta de suas botas, sem ter certeza se ele era a melhor pessoa para aquela atribuição. — E, Tamara?...
Ela esfregou o canto dos olhos com uma das mãos enluvadas.
— O quê?
Ele não ergueu os olhos e podia sentir o calor da vergonha lhe subir pelo pescoço e fazer com que suas orelhas ficassem coradas.
— Ninguém nunca tinha me defendido como vocês me defenderam hoje.
— Sério que você falou alguma coisa legal pra gente? — Tamara perguntou. — Tem certeza de que está se sentindo bem?
— Eu não sei — Call respondeu. — Talvez eu precise me deitar um pouco.
Só que Call não foi se deitar. Ele ficou acordado conversando com seus amigos durante boa parte daquela noite.

3 comentários:

  1. Aaah, finalmente eles tão se dando bem <3
    E bem feito pra esse idiota do Jasper!

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  2. Gente, 3 semanas???? Olha o que faz a falta de um diálogo kkkkkk

    p.s: Não sei pq, tbm achei que Aaron e a Tamara pensavam que o Call tava com raiva deles...

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  3. Ah, me poupe. Três semanas de mal entendido. Oxente, eu sabia que esses três iam se entender. Adoro trios de personagens, três é um número de sorte. John, Seis e Sam; Alec, Jace e Izzy; Annabeth, Percy e Grover; o trio de ouro; os três porquinhos, os três grandes, três espiãs, e vou parar, me empolguei.

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Boa leitura :)