30 de janeiro de 2017

Capítulo extra

— Qual é a sua comida preferida? — acomodando-se em uma pedra como um lagarto ao sol, Celaena lançou uma noz no ar e pegou-a com a boca.
— Qualquer coisa que me mantenha vivo no momento — Rowan disse ao lado dela, abraçando os joelhos enquanto monitorava as montanhas e vales de Wendlyn espalhando-se a sua frente.
Ela estalou a língua.
— Você poderia ser mais um animal?
Ele lançou um olhar para ela, levantando uma sobrancelha como se dissesse Você lembra qual é a minha outra forma, não lembra?
Quando ela apenas franziu o cenho, ele suspirou.
— Há um vendedor ambulante em Doranelle que vende carne no palito.
— Carne no palito — Celaena repetiu o mais estável que pode, lutando para manter seus lábios em uma linha reta.
— E suponho que a sua seja algum confeito ou porção inútil de açúcar.
— Doces não são inúteis. E sim, eu rastejaria sobre brasas quentes por um pedaço de bolo de chocolate com nozes agora. — Mentira. A última vez que ela comera isso, fora com Chaol. Ela não tinha certeza se poderia alguma vez comer bolo de novo.
— Como isso poderia de alguma forma ser bom para manter o seu corpo forte? Com a sua magia, você queimaria isso e estaria com fome de novo em menos de meia hora.
Ela levantou as sobrancelhas.
— Suas prioridades estão obscenamente fora de ordem. Nem toda comida é para sobrevivência ou construir força. Você nem provou um dos chocolates daquela cidade. Garanto que no momento em que o fizer, cada vez que eu virar as costas você os estará devorando.
O pensamento de Rowan fazendo isso fez com que ela apertasse os lábios novamente. Ela sabia que ele a obrigaria a treinar novamente no momento em que ela começasse a rir, então perguntou rapidamente:
— Cor favorita?
— Verde.
— Estou surpresa que você realmente saiba.
Ele estreitou os olhos, mas disse:
— Qual a sua?
— Por um tempo, eu me fiz acreditar que era azul. Mas sempre foi vermelho. Você provavelmente sabe porquê.
Ele fez um ruído afirmativo.
Celaena se deitou e ergueu uma das mãos à frente, tecendo uma linha de fogo através de seus dedos. Ela a trançou em torno dos dedos, e então deslizou pela sua palma até que a linha se enrolou em torno do seu punho, torcendo e se arrastando ao longo da sua pele.
— Bom — Rowan observou. — Seu controle está melhorando.
— Uhum. — ela levantou a outra mão, e anéis de chamas envolveram seus dedos. Ela começou a trabalhar em esculpir as chamas, forjando cada uma delas em um padrão individual.
— Tente isso em mim — Rowan disse, e ela virou a cabeça e franziu a testa intensamente. — Faça isso.
Ele nem mesmo piscou quando ela produziu uma coroa de chamas para ele. Exatamente no topo da sua cabeça.
Ela se levantou, ajoelhando-se na frente dele, suas próprias joias ainda brilhando em suas mãos e punhos, e se concentrou em transformar a coroa em grinalda, cada folha individual uma chama, o dourado, vermelho e azul brilhantes como qualquer pedra preciosa.
O cabelo prateado de Rowan brilhava sob o fogo.
— Jogada corajosa — ele comentou, enquanto ela continuava a acrescentar detalhes à coroa — uma que não tem muito espaço para erro.
— Estou surpresa que você não tenha coberto sua cabeça com gelo.
— Eu confio em você — ele disse tão calmamente que ela olhou para o rosto dele. Com a coroa de chamas, ele parecia com um rei, um rei guerreiro, tão brutal quanto as linhas de sua tatuagem. — E agora uma para você — ele disse, e um arrepio agradável correu pela espinha dela quando uma coroa de gelo se formou no espaço entre eles, suas pontas delicadas elevando-se altas.
Rowan levantou a coroa e a colocou na cabeça dela, seu peso leve, a frieza um balsamo contra o calor do fogo dela.
Celaena sorriu para ele, e ele lhe deu um leve repuxar de lábios como resposta. Mas então ela se lembrou que era uma coroa que ele tinha feito para ela. Uma coroa.
Suas chamas crepitaram quando ela se levantou e caminhou até a borda da pedra e parou, envolvendo o próprio corpo com os braços. Um momento depois, a coroa de gelo se dissolveu em vapor no vento da montanha.
— Teremos visitantes esta noite — Rowan disse, indo até ela.
— Eu devo me preocupar?
— Eu... eu preciso da sua ajuda.
— Ah. Então é por isso que você me deixou ter uma tarde de paz. — Ele rosnou, mas ela levantou uma sobrancelha. — Nós vamos finalmente conhecer os seus amigos misteriosos?
— Não. São nobres feéricos passando pela área. Eles solicitaram um lugar para passar a noite, e chegarão por volta do pôr do sol. Emrys está preparando um jantar para eles, e eu sou esperado para... entretê-los.
— Ah não. Não — ela reclamou quando ele apenas olhou para ela.
— Eles não aceitarão jantar com os semifeéricos, e...
— Eu sou ainda menos aceitável que um semifeérico!
— ... se eu tiver que bancar o anfitrião para eles a noite inteira, provavelmente acabará em derramamento de sangue.
— Não são favoritos seus? — ela piscou.
— Eles são a nobreza típica. Não são guerreiros treinados. Esperam ser tratados de uma certa maneira.
— E? Você é do grupinho de Maeve. E é um príncipe também. Você não é mais importante que eles?
— Tecnicamente, mas deve-se levar a política em consideração. Especialmente porque eles se reportarão diretamente à Maeve.
— Então o que, eu devo bancar a anfitriã? — ela resmungou.
O rosto dele estava tão miserável quanto o dela.
— Não. Apenas... me ajude a lidar com eles.
Outra porção de confiança, ela percebeu.
— E o que eu vou ganhar com isso?
Ele apertou a mandíbula, e ela honestamente pensou que ele diria “Eu não vou acabar com você”, mas então ele suspirou.
— Eu vou encontrar para você um bolo de chocolate com nozes.
— Não. — Quando ele levantou as sobrancelhas, ela lhe lançou um sorriso perverso — você vai ficar me devendo. Um favor que eu possa pedir quando quiser.
Ele suspirou, levantando os olhos para o céu.
— Apenas esteja apresentável ao pôr do sol.


Os sinos tocando e vozes alegres alcançaram a fortaleza muito antes de o grupo poder ser avistado das pedras.
De pé no pequeno pátio, Celaena relanceou Rowan.
— Sério? Você precisa da minha ajuda com estes idiotas saltitantes? — Mas além dos que estavam de guarda, os semifeéricos haviam sumido.
Ele olhou para ela. Ela tinha tomado banho e vestido sua túnica mais limpa, tendo até mesmo trançado seus cabelos em um agradável arranjo.
— Fale baixo — ele resmungou, apontando para as orelhas.
Ela revirou os olhos, mas não disse mais nada conforme o grupo chegou. Os cavalos deles eram todos... deuses, eram todos cavalos Asterion. Cada um deles valendo seu peso em ouro e mais um pouco. Ela possíra um uma vez... bem, ela tinha roubado um e ficado com ele, mas... ela ainda sentia falta de Kassida. Nunca tinha visto ou montado um cavalo melhor.
Havia cinco no grupo agora entrando no pátio da fortaleza, dois deles guardas de aparência entediada cuja atenção fixou-se apenas em Rowan, e os outros três... A fêmea na frente era deslumbrante, e indubitavelmente a líder.
Sob seu cabelo louro pálido, o rosto era uma mistura de marfim e rosa macio, seus olhos de um azul cerúleo brilhante. Eles reluziram em prazer quando ela olhou para Rowan.
Ela não fez mais que dispensar um olhar passageiro a Celaena conforme deslizava graciosamente de sua montaria branca.
— Rowan! — ela avançou, estendendo suas mãos. Os seus dedos eram finos e delgados, e tão perfeitos quanto ela toda.
— Lady Remelle — Rowan falou, suas mãos enormes engolfando as dela quando ele a segurou. A espinha dele estava tão reta quanto uma vara, e apesar de Remelle olhar para as mãos unidas dos dois como se esperasse que ele as beijasse – deuses, a ideia de Rowan beijando as mãos de qualquer pessoa – ele as largou sem cerimônia e se virou para os outros dois nobres que desmontavam.
Lorde Benson — ele disse para o macho mais alto e delgado, que apenas acenou para ele. Benson, Celaena notou, se dignou a olhar para ela, seu nariz longo e olhos escuros varrendo o corpo dela, e então seguindo em frente. Dispensada. — Lady Essar — Rowan disse para a pequena fêmea feérica de cabelos escuros.
Remelle poderia ser de uma beleza assombrosa, mas Essar tinha um conjunto de curvas que Celaena se encontrou invejando. A sua pele moreno-clara parecia brilhar como se iluminada por uma luz interior, e seus olhos cor de noz cintilaram com genuína gentileza quando ela estendeu as mãos a Rowan e sorriu.
Ele segurou as mãos de Essar um pouco mais calorosamente que as de Remelle, e a lady de cabelos loiros estreitou levemente os olhos para eles. Mas Remelle se recuperou rapidamente, sorriu e colocou uma mão possessivamente sobre o ombro de Rowan.
— Já faz uma era, não faz? Você nunca vem para as nossas festas, e Maeve o mantém todo para si mesma. — O rosto de Rowan ficou branco. Frio. — Houve um tempo — Remelle fez beicinho — em que eu podia ter você só para mim. Às vezes sinto falta desses dias.
Rowan apenas olhou para os guardas, que pareciam necessitar de uma refeição decente, e um descanso de suas companhias.
— Os estábulos ficam à esquerda.
Celaena estava muito ocupada olhando de Rowan para Remelle para ver se os guardas obedeceram as ordens do príncipe. Amantes.
Ela não sabia por que tinha pensado que perder o seu parceiro significava celibato, mas... alguém como Remelle...
Lembrando-se que ela existia, Rowan estendeu um braço na direção dela. Celaena honestamente debateu voltar para a fortaleza e deixar Rowan à mercê deles, mas se encontrou andando até ele, mais e mais perto, até que ele poderia tê-la comprimido ao seu lado.
Ele na verdade pareceu relaxar um pouco conforme a introduzia:
— Esta é... Elentiya. — Ela não tinha pensado em como ele a apresentaria, mas ficou agradecida pelo anonimato que ele ofereceu. — Eu a estou treinando a pedido da rainha. Elentiya, estes são Lady Remelle, Lorde Benson e Lady Essar. — Ele começou a narrar os nomes das casas e outras besteiras, e Celaena deu um pequeno aceno com a cabeça que fez com que Benson e Remelle pressionassem os lábios.
Apenas Essar disse oi, um ronronar abafado que fez Celaena imaginar por que raios Rowan não tinha levado ela para sua cama ao invés da brilhante Remelle dos sorrisos gelados.
— Então você é uma mestiça — Benson falou, seus olhos analisando-a.
Rowan, para sua surpresa, se eriçou, mas segurou o rosnado que ela sabia que ele queria soltar.
Celaena sorriu levemente.
— Minha bisavó era feérica. Então se isso me faz semifeérica, eu não sei.
Ela percebeu o olhar que Remelle deu para Rowan: um misto de exasperação, como se dissesse “Sério, Rowan? Você trouxe uma mestiça para se encontrar conosco? Que vulgar de sua parte”.
Mas Rowan não tinha pedido que ela aparecesse em sua forma feérica. Não, ele deixara que ela viesse na forma que quisesse. O pensamento a aqueceu de maneira que ela se aproximou um pouco mais dele, próximo o bastante para que seus braços quase se tocassem. Remelle não deixou de perceber isso. Que tipo de visita era essa, de qualquer maneira?
Foi Essar quem falou afinal.
— Bem, eu mal posso esperar para ouvir sobre suas aventuras, Rowan e como você veio parar aqui, Elentiya. Mas antes, eu gostaria muito de um banho e algo para mastigar. — Ela lançou um olhar de desculpas para Celaena. — Eu mataria por qualquer coisa de chocolate agora.
Apesar de tudo, Celaena decidiu que gostava dela.


— Então, você e Ramelle — Celaena comentou de onde estava deitada na cama de Rowan, a cabeça apoiada em uma das mãos.
Em sua mesa de trabalho, afiando suas armas com interesse demais, Rowan rosnou.
Eles haviam deixado os nobres nas salas de banho, pedido a Emrys para levar comida aos quartos que eles ocupariam enquanto estivessem aqui (houveram três semifeéricos que ficaram mais do que felizes em ceder seus grandes quartos se isso significasse ficar longe do caminho dos visitantes). Eles tinham uma hora até o jantar, e apesar de que Celaena pudesse até ter surrupiado um vestido... ela não teve vontade.
— Remelle foi... um grande, grande erro — Rowan disse, de costas para ela.
— Parece que ela não pensa assim.
Ele olhou por sobre o ombro.
— Foi um século atrás.
Deuses, às vezes ela esquecia quão velho ele era.
— Ela age como se você a tivesse deixado de lado inverno passado.
— Remelle apenas quer qualquer coisa que não pode ter. Uma condição que muitos imortais sofrem devido ao tédio — ele se virou, a faca de caça em suas mãos reluzindo à luz do fogo.
— Ela estava praticamente passando as garras em você.
— Ela pode tentar o quanto quiser, mas não vou cometer esse erro novamente.
— Soa como se você tivesse cometido esse erro algumas vezes.
Rowan olhou de lado para ela.
— Foi durante uma temporada, e então retomei meus sentidos.
— Hmmm.
Ele cravou a faca na mesa e andou até a cama até ficar rosto a rosto com ela. Celaena permaneceu como estava, sobrancelhas erguidas e lábios apertados.
— Uma risada — ele avisou — apenas uma risada, e eu vou atirá-la na lagoa mais próxima.
Ela tremeu com o esforço de manter a risada presa.
— Não. Ouse. — ele resmungou, inclinando-se o suficiente para que sua respiração aquecesse a boca dela. — Se você...
A porta se abriu, e Rowan congelou, um rosnado baixo ressoando nele, tão violento que ecoou nos ossos dela. Mas a ameaça era apenas Remelle, que piscou e exclamou.
— Oh!
Levou apenas um segundo para Celaena perceber o que aquilo parecia. Ela estava esparramada na cama, Rowan inclinado sobre ela, perto demais para ser casual, mas...
— O que você quer? — Rowan perguntou, se erguendo mas sem se distanciar.
Remelle observou o quarto, pegando os detalhes que sugeriam que o espaço não era apenas de Rowan: a escova de cabelos na penteadeira, as roupas de baixo que Celaena havia deixado jogadas em uma cadeira (ah, como isso seria interpretado!), as fitas que ela usava para amarrar o cabelo, as pequenas botas ao lado das enormes de Rowan, e até mesmo os vários itens pessoais que eles mantinham em suas mesinhas de cabeceira.
— Eu queria tirar o atraso das novidades — Remelle disse, olhando para todos os lados menos para Celaena — mas parece que você está... ocupado.
— Nós conversaremos no jantar — Rowan disse.
Celaena levantou-se de um salto.
— Eu tenho que ir ajudar Emrys com a refeição, na verdade. — Ela mal conseguiu esconder o seu sorriso perverso. — Por que você não fica, Remelle?
Rowan poderia ter derretido os ossos dela com o olhar que lhe lançou, mas Celaena já tinha saído do quarto e descido o corredor, assoviando para si mesma.


Rowan iria matá-la. Assim que eles terminassem de treinar, ele iria assassiná-la. E então assassinar de novo.
Remelle ainda estava na porta, franzindo o rosto na direção em que Aelin tinha ido. Quando ela se virou, um sorriso serpentino dançou em seus lábios vermelhos.
— Isso é considerado parte do treinamento dela também?
— Vá embora — foi tudo que ele disse.
Remelle estalou a língua.
— É assim que você fala comigo esses dias?
— Não sei por que você se incomodou em parar aqui, ou o que espera de mim...
— Eu ouvi que você estava aqui, e pensei em vir dizer oi e livrá-lo da tediosa companhia de mestiços. Eu não tinha percebido que você os considerava tanto.
Ele sabia exatamente o que pareceu quando ela entrou no quarto. Negar isso apenas levaria a uma dor de cabeça, mas deixar Remelle assumir que ele estava dividindo a cama com Aelin era igualmente inaceitável. Ele não conseguia decidir como Maeve interpretaria isso. A não ser...
— E quem foi que lhe disse que eu estava aqui?
— Maeve, claro. Eu reclamei de como sentia sua falta.
A questão era se Remelle era uma espiã intencional ou não. Ou se Maeve mandou Remelle para ver que tipo de relacionamento Rowan havia desenvolvido com a princesa.
— Como sua amiga, Rowan, eu tenho que dizer... a garota está abaixo de você.
Ele reprimiu uma risada. Aparentemente, Maeve não havia informado a ela quem, exatamente, ele estava treinando. Remelle fora incansável em sua perseguição por ele um século atrás, conquistando-o com seu charme e sorrisos, mas... ele não queria realmente pensar naquele tempo.
— Um — ele falou — você não é minha amiga. Dois, não é da sua conta.
Os olhos dela se estreitaram de uma maneira que o fez perceber que Remelle tornaria cada minuto um inferno para a princesa até que fosse embora – sem saber que tipo de predador ela estava provocando.
Então para não precisar ver o sangue de Remelle espalhado nas paredes antes do amanhecer, ele disse:
— Há um número limitado de quartos aqui, de maneira que temos que dividir as acomodações. — Não exatamente uma mentira, mas também não inteiramente verdade.
As sobrancelhas de Remelle mantiveram-se erguidas em seu rosto.
— Bem, suponho que seja uma boa notícia para Benson.
— O quê?
— Ele tem necessidades que precisam ser atendidas, e acha que ela é atraente o suficiente. Maeve disse que está mais que bem se ela...
— Se Benson encostar um dedo nela, ele vai se encontrar sem seus órgãos.
Maeve – Maeve havia sugerido que ela estava disponível para...
Ele reprimiu sua raiva cegante quando Remelle piscou.
— Honestamente Rowan, o que você acha que a maioria dos mestiços acaba fazendo em Doranelle?
Ele não tinha resposta, nenhuma palavra, quando ela disse isso.
— Benson olha duas vezes para ela, e ele está morto. Ele olha duas vezes para qualquer fêmea nesta fortaleza e ele morre.
As palavras foram ditas em um rosnado tão forte que foram quase incompreensíveis. Mas Remelle entendeu.
Será que Lorcan sabia? Ele era um semifeérico também, e tinha se provado meio milênio atrás. Será que ele estava ciente do que acontecia na cidade deles? Era repugnante, pior que repugnante. Os feéricos eram melhores que isso. Mas Maeve...
— Garantirei que o aviso seja recebido — Remelle ronronou.


Celaena realmente foi para a cozinha, onde ela ajudou Emrys a preparar a refeição. Luca estava lá, tagarelando, mas a conversa parou no meio.
Essar estava ao pé da escada, sorrindo levemente.
— O jantar não estará pronto por mais vinte minutos — Celaena falou, secando suas mãos na toalha antes de se aproximar da lady. Luca estava praticamente engasgando ante a pequena beldade, mas Essar deu a ele um sorriso educado e ele imediatamente se tornou bastante interessado no que quer que estivesse fazendo. — Eu posso levá-la à sala de jantar, se quiser esperar lá.
Deuses, ser educado era... estranho.
— Ah, não. Benson já está lá, e ele... acho que teremos mais diversão aqui.
Ela também deixou Emrys e Luca desconfortáveis, se o silêncio deles era qualquer indicador, mas Celaena se encontrou dizendo:
— Pode ser caótico e barulhento e bagunçado aqui...
— Eu sei como uma cozinha funciona — Essar falou. — Apenas me diga que trabalho precisa ser feito, e eu o farei.
Celaena olhou para Emrys, que se inclinou e apresentou a si e a Luca, que ficou vermelho como uma beterraba, e então ela acabou picando vegetais ao lado da lady.
— Então, você está apenas... viajando por aí? — Celaena disse a Essar após um minuto.
— Maeve nos deu uma tarefa, sobre a qual não devo falar, mas sim, envolve viajarmos um pouco. Nós estamos em nosso caminho de volta para Doranelle, no entanto, graças à Lady Brilhante.
Celaena levantou uma sobrancelha.
— Mala?
Essar levantou uma mão, e chamas dançaram nas pontas de seus dedos.
— Não é um grande dom, mas nos manteve aquecidos na estrada, pelo menos.
Celaena engoliu. Ela nunca havia conhecido outro portador do fogo. Será que Rowan sabia?
— É difícil? Dominar o fogo?
Essar deu de ombros.
— Eu era muito nova quando meu treinamento começou, e tive cerca de dois séculos para dominar o pouco poder que eu tenho. Além de algumas queimaduras e bolhas, nunca fui capaz realmente de causar muito dano, ou impressionar qualquer um, na verdade. Remelle tem o dom mais interessante – a magia dela faz com que ela domine qualquer linguagem que ela escute, não importa quão brevemente. É por isso que Maeve gosta de mandá-la aos lugares. E Benson tem o dom de se tornar invisível quando ele quiser, o que... — Essar hesitou.
— O torna um bom ouvinte — Celaena completou.
Essar devia ser uma espiã ruim se estava disposta a falar.
Essar afastou uma mexa de seu cabelo escuro e sedoso.
— Você deve ter dons impressionantes, se o príncipe Rowan está treinando você.
— Eu...
— Esses vegetais estão prontos? — Emrys perguntou, e Celaena lançou um olhar agradecido para o macho.
Ela lhe entregou uma tigela de batatas, e então foi cortar o próximo item. Essar fazia cortes perfeitos, devagar demais para ser útil, mas pelo menos ela estava tentando.
— Não posso imaginar Rowan como um professor fácil — Essar disse casualmente.
— Pode-se dizer isso.
— Mas todos são assim, Rowan e seus companheiros que servem à rainha.
— Você os conhece?
Essar ruborizou rapidamente.
— Eu estava envolvida com Lorcan, o líder deles, por um tempo. Mas... o estilo de vida dele e o meu são muito diferentes.
— E como Lorcan é?
— Um semifeérico, como você.
Ele é? Rowan havia falhado em mencionar aquele pequeno detalhe.
— Ele teve que se provar cada dia, cada hora, desde que nasceu — Essar continuou. — Ainda que seu poder não possa ser desafiado por ninguém além de Rowan, ele... Lorcan não é um macho fácil de se lidar. Alguns dias, fico surpresa que ele tenha amigos.
— E Rowan é amigo dele?
Essar deu a ela um sorriso divertido.
— De certa forma. Eles assustam até a nós, sabe. Especialmente quando estão juntos. Quando Rowan e Lorcan estão juntos em uma sala... Vamos apenas dizer que algumas vezes essa sala não é deixada intacta quando eles vão embora. Ou a cidade.
— E ainda assim Maeve os deixa trabalhar juntos?
— Ela seria uma tola se deixasse qualquer um deles ir, que é o motivo por ela os prender com o juramento de sangue. Eles já destruíram cidades por ela.
Um arrepio subiu pela espinha de Celaena.
— Destruíram cidades inteiras?
Essar acenou seriamente.
— E ainda assim Remelle pensa que pode controlar Rowan, quer possuí-lo.
Rowan poderia destruir Remelle com meio pensamento, se ele fosse provocado o suficiente.
— Ela é uma idiota.
— Realmente. Mas poder é poder, e desde que Remelle não consegue ignorar o sangue misto de Lorcan, Rowan é sua única outra opção.
— Seus... seus filhos também pertenceriam a Maeve, do jeito que Rowan pertence?
Essar levantou a cabeça.
— Eu não sei. Nenhum de seus companheiros teve alguma cria, então não há como saber o que Maeve faria.
Celaena estremeceu.
— Você não parece falar tão reverentemente sobre ela como os outros fazem.
— Nem todos os feéricos são escravos devotos dela, sabe. E parte... parte do motivo de meu relacionamento com Lorcan não ter dado certo é devido a isso. Ele é jurado de sangue a ela, e não importa o quanto eu me importava com ele, eu com certeza não era. Eu nunca faria tal juramento.
— Por que você está me contando isso?
— Porque você está treinando com o mais perigoso macho feérico puro-sangue do mundo, e ainda assim ele a trata como igual. Ele a apresentou como igual. — Havia uma questão implícita ali: “Então, você é mesmo igual?” mas Celaena não podia responder.
— Acho que Rowan apenas não queria lidar com Remelle sozinho.
— Provavelmente. Mas ele também já lidou sozinho com ela muitas vezes. E desde que Rowan não é do tipo que exibe uma nova companhia apenas por despeito a uma antiga amante...
— Não tenho certeza se estou acompanhando aonde você quer chegar.
— Acho isso tudo muito interessante.
— E acho que você está vendo coisas demais.
Mas Essar deu a ela um sorriso suave.
— Tenho certeza de que estou.


O jantar foi bem pelos seis segundos que levou para andar da porta até a grande mesa na sala de jantar vazia.
Uma vez que a mesa era tão grande, eles todos se sentaram na ponta, com Rowan na cabeceira, como sua posição exigia. O plano era Celaena sentar à esquerda dele, com Essar ao lado dela, e Benson à frente de Essar. Mas Remelle, se movendo mais rápido do que Celaena esperava, alocou Benson no lugar destinado a Celaena, se acomodou próxima a Rowan, e deixou Celaena com a escolha de sentar ao lado da lady loira ou do macho desagradável.
Ela escolheu Benson.
Rowan observou os arranjos sem comentários, sua atenção focada em Benson conforme Celaena se sentava ao lado do lorde. Mas se Benson notou ou não o olhar letal que Rowan dirigia a ele – deuses, o que era aquilo agora? – o lorde não revelou nada. Então Celaena não tinha nada melhor para fazer no silêncio...
Exceto tomar um gole de seu vinho e rezar para que a refeição acabasse logo.
O primeiro prato – uma sopa de frango assado para a qual Remelle e Benson franziram o cenho – saiu rápido o suficiente. Estava divina, e Celaena tomou uma deliciosa colherada antes que Remelle se dirigir a ela.
— Então você é do império de Adarlan.
Celaena tomou lentamente uma segunda colherada de sopa.
— Sou.
— Pensei ter detectado o sotaque – Adarlan e... Terrasen, estou certa? Lá eles destroem as palavras tão brutamente. Duvido que mesmo anos aqui a curarão do sotaque grosseiro.
Celaena tomou lentamente outra colherada de sopa.
— Eu acho o sotaque bastante charmoso, na verdade — Essar opinou.
Benson grunhiu em acordo, lançando-lhe um olhar muito longo, e Celaena lutou contra o desejo de mover sua cadeira um ou dois assentos para o lado. Ou pegar sua colher e usar para arrancar os olhos dele.
— Bem, você teve uma educação tão provincial, Essar — Remelle disse brilhantemente. — Não estou surpresa que tenha gostado.
O rosto redondo de Essar se comprimiu, mas ela não disse nada. No entanto, quando Remelle foi tomar uma delicada colher de sua sopa, ela soltou um sibilo e quase deixou a colher cair. O líquido estava realmente quente – muito mais quente do que o prato dos outros.
Essar lançou à mulher um olhar inocente e questionador.
— O cozinheiro bestial ferveu esta sopa — Ramelle apenas disse.
Celaena reprimiu uma resposta. Especialmente quando o rosto de Rowan se tornou uma máscara de calma. Uma que normalmente significava que violência estava a caminho.
Essa era a sua função, não? Impedi-lo de causar uma briga que seria reportada para Maeve.
Então Celaena engoliu sua própria raiva e disse para Essar:
— Você cresceu no campo?
Remelle revirou seus olhos, mas Essar sorriu.
— Meu pai possui uma vinha no sudeste de nosso território. Passei minha juventude vagando pelos olivais e pelos bosques de ciprestes. Mas me mudei para Doranelle quando foi considerada a hora de eu entrar para a sociedade.
— Infelizmente, Essar tem sido bastante azarada quando se trata de cumprir os desejos de seus pais e encontrar um marido adequado — observou Remelle.
— Marido — Celaena se viu dizendo. — Não companheiro?
Remelle estalou a língua.
— Mas é claro que não. Um companheiro é raro – a maioria dos feéricos não os encontra. — Celaena não conseguia se obrigar a olhar para Rowan, embora seu coração estivesse tenso. Remelle acenou com a mão. — Então, nós casamos.
— E se você se casar, e depois encontrar seu companheiro?
— Guerras foram travadas por isso — Benson finalmente falou, seus olhos escuros pareciam engoli-la por inteiro. — Mas se for esse o caso, tudo é tratado com muita delicadeza.
— É uma bagunça, é o que ele quer dizer — Essar esclareceu. — Um macho vai sentir a necessidade de matar qualquer desafiante para sua companheira, mesmo se esse desafiante já estiver casado com ela. Mesmo se eles estiverem apaixonados. Apesar de todo o nosso requinte, ainda existem instintos que não podem ser controlados.
Celaena acenou, terminando sua sopa.
Remelle, no entanto, sorriu para ela.
— Mas, como uma mestiça, você não terá que se preocupar com essas coisas. Encontrar um companheiro é ainda mais raro para aqueles com sangue diluído – e nenhum de nós vai se casar com você, de qualquer maneira.
Celaena encarou a fêmea por um longo momento, mesmo quando podia jurar sentir as reverberações na mesa enquanto Rowan rosnava baixo.
Remelle se recusou a quebrar o olhar, e Celaena se acomodou, calma fluindo em suas veias. Ela podia sentir a atenção de Essar, e quase podia ouvir as peças do quebra-cabeça se juntarem em sua mente enquanto ela reconhecia a cor dos olhos de Celaena e murmurava:
— Remelle.
Mas Remelle olhou para Rowan e começou a dizer alguma coisa na língua antiga, sorrindo docemente.
Quando Rowan não respondeu, Remelle se virou para Benson, dizendo algo mais, no qual o senhor respondeu na mesma elegante e adorável linguagem.
Remelle voltou a abrir a boca, mas Rowan disse com uma voz letalmente baixa:
— Fale a língua comum, Remelle.
Remelle pôs uma mão em seu peito em uma desculpa com zombaria.
— Às vezes eu me esqueço – não é todo dia que estou na companhia de mestiços.
Essar engoliu em seco, sua pele marrom estava um pouco pálida enquanto examinava Celaena e Remelle. Ah, sim. A dama tinha descoberto que não era qualquer pessoa sentada diante deles.
Emrys e Luca entraram, levando a sopa e trazendo o próximo prato – travessas de carne assada com legumes. Emrys ficou na soleira da porta, e Celaena pegou um pedaço do coelho, gemeu e se virou em seu assento para acenar seu entusiasmo para o cozinheiro ancião. Ele sorriu, seu rosto ruborizando.
— Rowan, deve ser um desafio para você ter que comer isto todos os dias — Remelle empurrou sua carne para o canto do prato, em seguida, colocou o garfo na mesa.
Celaena não conseguiu olhar para Emrys – não se permitiu vislumbrar seu rosto.
— Eu como melhor aqui do que em Doranelle — Rowan respondeu.
— Não há necessidade de ser gentil na intenção de ajudar — disse Remelle. — Se eles não aprenderem do que nós gostamos, o que farão na capital?
Passos soaram atrás deles, e Celaena sabia que Emrys tinha descido as escadas.
— Da próxima vez que insultar meu amigo, enfiarei seu rosto em qualquer que seja o prato que esteja na sua frente — Celaena falou suavemente .
Remelle piscou.
— Bem, eu não...
— Remelle — sussurrou Essar.
Mas Remelle pôs uma mão no antebraço de Rowan, agarrando-se com tal possessividade que Celaena ficou com raiva quando a lady sibilou para ele:
— Você pretende deixá-la me insultar assim? Fazer ameaças contra um membro da família real?
— Tire sua mão de mim — Rowan disse baixinho.
Mas Remelle não soltou Rowan quando se precipitou para Celaena.
— Você está dispensada desta mesa. Saia.
Celaena olhou para a mão branca segurando Rowan.
— Tire sua mão dele.
— Posso fazer o que me apetecer, e se você tiver algum senso, desocupará este corredor antes que eu a chicoteie para o seu...
Fogo explodiu, e o grito de Remelle ecoou nas pedras.
Chama viva envolveu a feérica, sem queimar, sem chamuscar, apena... prendendo. Até mesmo a mão em Rowan estava em chamas, e através da coluna de fogo dourado e vermelho, os olhos de Remelle estavam arregalados quando ela se voltou para Essar e disse:
— Liberte-me.
Mas Essar só olhou para Celaena.
— Não é minha magia.
Rowan continuou perfeitamente imóvel enquanto Celaena permitia que uma labareda de calor saísse do fogo. Não o suficiente para queimar, mas o suficiente para fazer Remelle começar a suar.
— Se levantar um chicote para alguém, eu vou encontrar você, e terei a certeza de que estas chamas queimem — Celaena falou então.
Ela tinha que admitir: Remelle não tinha pouca coragem, especialmente quando se irritava.
— Como se atreve a ameaçar uma dama de Doranelle?
Celaena riu em voz baixa.
— Da próxima vez que tocar Rowan sem a permissão dele, vou queimá-la em cinzas — ela virou a cabeça para Benson. — E se você olhar para mim ou para qualquer outra mulher assim, vou derreter seus ossos antes que você tenha a chance de gritar.
Benson concordou amplamente com a cabeça.
Essar estava pálida quando Celaena repuxou os lábios em um grunhido e disse a ela:
— E você guarde tudo o que aprendeu aqui para si mesma.
Essar assentiu.
Celaena finalmente encarou Rowan, que parecia estar se esforçando ao máximo para não sorrir, embora a diversão ainda dançasse em seus olhos enquanto ela falava:
— Eu me submeto ao seu julgamento, príncipe.
Ele estudou Remelle, que estava praticamente imóvel, quase sem respirar, então moveu o queixo.
— Libere-a e vamos comer.
As chamas sumiram tão rápido que era como se nunca tivessem existido.
No silêncio que caiu, Remelle se inclinou sobre o braço da cadeira e vomitou no chão.
Celaena pegou o garfo, deu uma mordida no coelho e sorriu.


— Se eu nunca os vir novamente, será cedo demais — Celaena disse na escuridão do quarto.
Rowan soltou uma gargalhada.
— Pensei que tivesse gostado de Essar.
— Eu sei, mas... você deveria tê-la ouvido tentando me fazer falar na cozinha. Sobre você. Sobre nosso relacionamento. Acho que você vai para casa com uma série de rumores desagradáveis.
— Acho que o status de nosso relacionamento será o menor dos rumores depois desta noite.
— Essar disse que você... você e Lorcan uma vez dizimaram uma cidade juntos.
Ele sibilou.
— Ah! Sollemere.
— Eu nunca ouvi falar.
— Isso é porque ela não existe mais.
Ela se virou, olhando para ele na luz da lua que vinha entre as cortinas.
Vocês a limparam do mapa – literalmente?
Ele a fixou com um longo olhar.
— Sollemere era um lugar tão perverso, cheio de gente monstruosa que fazia coisas tão indizíveis que... mesmo Maeve estava enojada com elas. Ela lhes deu uma advertência para parar com esses costumes, e disse que se eles... — ele apertou a mandíbula. — Há alguns atos que são imperdoáveis – e não vou manchar este quarto mencionando-os. Mas ela jurou que se eles continuassem a fazê-lo, ela os obliteraria.
— Deixe-me adivinhar: eles não ouviram.
— Não. Evacuamos o quanto de crianças que pudemos com nossa legião. E quando estavam longe, Lorcan e eu reduzimos a cidade ao pó.
— Você é tão poderoso assim.
— Você não parece chocada com isso.
— Você me contou muitas histórias angustiantes. Se o que essas pessoas fizeram foi tão terrível que você não vai nem mesmo repetir, então sei que mereceram.
— Tão sedenta de sangue.
— Isso é um problema para você?
— Acho agradável. — Ela lhe deu um empurrão de brincadeira, mas ele pegou sua mão e segurou-a, os calos dele roçando nos dela. — Você poderia fazer isso, sabe. Queimar uma cidade inteira.
— Espero nunca precisar.
— Eu também — ele passou os dedos pelos dela e os segurou para examinar as cicatrizes na parte de trás de sua mão, seus dedos. — Mas eu nunca vou esquecer o olhar no rosto de Remelle quando você soltou fogo de sua boca e olhos.
— Eu não soltei.
Ele riu, um som baixo e retumbante que ecoou em seu peito.
— Parte mulher, parte dragão.
— Eu não cuspi chamas.
— Seus olhos eram ouro vivo.
Celaena estreitou os mesmos olhos para ele.
— Vai me repreender?
Ele abaixou as mãos unidas para a cama, mas não as soltou.
— Por que eu deveria? Ela recebeu um aviso justo, ela ignorou, e você seguiu em frente. Seguiu as maneiras antigas, e você tinha todo o direito de mostrar-lhe quão sério falava.
Ela considerou isso, e depois de um momento, falou:
— Me assustou – como eu estava no controle. O quanto eu quis isso. Me assustou que eu não estava com medo. Me assustou que... — ela se obrigou a olhar para ele. Seu rosto era ilegível na luz fraca. — Me assustou que...
Me assustou que eu vim a me importar tanto com você que eu desenharia uma espécie de linha na areia.  Me assustou que eu queimaria, mutilaria e mataria por você, e ainda – e ainda, no final do dia, você ainda pertenceria a Maeve, e não há nada que eu possa fazer, não importa o quanto eu queime, mutile e mate, não te manteria comigo.
Ele soltou a mão dela - apenas para deslizá-la contra a bochecha dela, o gesto tão inesperado que ela fechou os olhos e se inclinou para perto dele, ouvindo as palavras não ditas no toque.
Eu sei.


A comitiva partiu na manhã seguinte, e Rowan não se deu ao trabalho de levar a princesa para vê-los. Foi o melhor, dado que Remelle ainda parecia nervosa e furiosa, Benson se recusou a olhar para qualquer um, e até mesmo Essar estava de olhos arregalados.
Rowan esperou até que todos eles estivessem montados em seus belos cavalos no pátio antes de se aproximar. Foi com Essar que ele falou, segurando o freio de sua égua Asterion.
— Vamos esperar que a noite passada tenha sido a mais movimentada de sua jornada.
Remelle fungou da sela, mas não disse nada.
Essar, no entanto, olhou para a fortaleza, como se pudesse ver através de musgo e pedra a princesa dormindo ali dentro.
Essar era uma bela mulher – macia, convidativa e inteligente – e ele nunca entenderia porque Lorcan não tinha tentado com mais empenho mantê-la. Ela tinha sido boa para ele. Mas a crueldade e ambição fria de Lorcan eram suas melhores ferramentas e suas piores inimigas. Ele só tinha visto a fêmea para o que ela oferecia dentro de seu quarto.
— Não acho que nenhum de nós vai se esquecer da noite de ontem tão cedo — Essar falou.
Nem ele. Quando Aelin envolvera Remelle em chamas, ele ficou estupidamente atordoado. Ela não tinha demonstrado habilidades desse nível, não tinha praticado esse tipo de coisa. E se Remelle tivesse tentado lutar, se Remelle tivesse machucado fisicamente ele ou alguém naquela fortaleza... A dama seria cinzas ao vento agora.
Uma ameaça tinha sido feita contra aqueles que Aelin via como dela. Tais coisas seriam tratadas com rapidez e brutalidade. Interessante – tão interessante aquele lado da princesa ter vindo rosnando para a superfície.
E ela o tinha reclamado.
Essar sabia. Ela descobriu que tipo de magia ardia nas veias de Aelin, e na noite anterior, a Rainha de Terrasen o reclamara. Se Essar contasse a Maeve...
Os outros do grupo se moveram. Remelle ficou rígida, mas Rowan permaneceu com Essar.
— Dê o preço do seu silêncio — disse Rowan.
Essar revirou os olhos castanhos.
— Você acha que correria para os fofoqueiros mais próximos e lhes contaria que Aelin Galathynius está treinando aqui?
— Você sabe do que estou falando.
Os olhos escuros de Essar se estreitaram.
— Eu não correria para Maeve, também. Remelle vai dizer-lhe que a menina lançou um ataque de raiva e atacou-a sem provocação – ela nunca admitiria qualquer parte da verdade por trás disso. Ou descobriria quem ela realmente é. E Benson... deixe-o comigo.
— E o seu preço?
— Não há preço, príncipe.
Ele segurou o freio com mais força.
— Por quê?
Essar estudou a comitiva de partida, depois a fortaleza.
— Nós nos conhecemos há algum tempo agora. Através de todos os séculos, eu nunca o vi apresentar outra mulher como sua igual – como sua amiga. E não acho que você fez isso por causa de quem ela é — Rowan abriu a boca, mas ela continuou: — Eu não tiraria esse presente de você, Rowan. Porque é um presente. Ela é um presente para o mundo e para você.
Seus dedos se afrouxaram nas rédeas, e Essar fez um gesto para mover sua montaria.
— Ela vai lutar por você, Rowan — Essar falou, olhando por cima de um ombro. — E você merece, depois de todo esse tempo. Você merece ter alguém que queimará a terra a cinzas por você — seu coração batia com força, mas ele manteve o rosto sem expressão, sua vontade de gelo e aço. — Se o vir — acrescentou Essar com um sorriso triste — diga a Lorcan que mando meus cumprimentos.
E então ela se foi.


As coisas voltaram ao seu ritmo habitual nos dois dias que se seguiram. Embora Rowan não parasse de pensar no que Essar dissera. Porque ele sabia que era verdade, porque... porque queria que fosse verdade.
Aelin não disse nada sobre isso, embora ele às vezes a pegasse franzindo o cenho para ele, como se estivesse tentando decifrar algum quebra-cabeça.
Ele estava examinando um relatório que Vaughan lhe enviara quando ela entrou em seu quarto naquela noite. O cheiro de chocolate e nozes o atingiu, e quando ele se virou, descobriu que ela carregava um bolo pequeno, malfeito, com um sorriso tímido no rosto.
— Levei horas para fazer essa maldita coisa, então é melhor você dizer que está bom.
Ela se colocou na frente dele, junto com um prato, garfo e faca. A lâmina que ela usou para fatiar a cobertura de chocolate-fosco, cortando um pedaço grande, voltou cheia de um glacê mais claro – algum tipo de recheio de aparência cremosa no meio do bolo escuro.
— Bolo de chocolate com avelã?
Ela colocou o pedaço no prato para ele e pegou sua mão, pressionando o garfo nele.
— Você não tem ideia de como foi difícil obter os ingredientes. Ou encontrar algum tipo de receita. Eu ainda não provei. Emrys parecia que ia desmaiar de horror — quando Rowan apenas olhou para o bolo, ela estalou sua língua. — Este é o favor que você me deve. Apenas experimente.
Ele lhe lançou um longo olhar fixo que geralmente mandava homens correndo para longe, mas ela mordeu o lábio e olhou para o bolo. Bastava que ele ajustasse o aperto no garfo, pegasse um pedaço e o trouxesse à boca.
Enquanto ele mastigava e engolia, ela estava praticamente pulando de pé em pé e torcendo as mãos. Então ele soltou um grunhido de prazer, deu outra mordida, depois outra, até que toda a fatia foi limpa do prato.
Então pegou outro pedaço. E outro. Até que seu estômago estava protestando e não havia mais nada no prato além de um pedacinho.
— Eu lhe disse que estava delicioso — ela se vangloriou, dando-lhe um sorriso triunfante enquanto abaixava seu garfo. Ela balançou o cabelo, mas ele pegou seu pulso, apertando gentilmente enquanto se levantava de seu assento e trazia seu rosto perigosamente perto do dela.
Ele conhecia cada mancha de ouro naqueles olhos notáveis – sabia como era o gosto de seu sangue. E a proximidade dela, suas respirações se misturando...
— Agora estamos quites — ele falou, e saiu do quarto.
Ele estava a três passos do corredor, quando o garfo de Aelin raspou o prato, sem dúvida pegando o pedaço de bolo que ele tinha deixado. Um momento depois, seu xingamento reverberou nas pedras da fortaleza, seguido de cuspidos e tossidos.
Apesar de si mesmo, Rowan estava sorrindo quando abriu a porta do banheiro – e rapidamente expeliu todo o conteúdo de seu estômago.

26 comentários:

  1. Deus! Como eu amo esses dois!!! 😍😍😍

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  2. Kkkkkkkkkkkkk Que extra mais fofo! Rindo muito com esse bolo da Celaena. Hummm... então quer dizer que ela reclamou o Rowan nesse dia ai e nem sabia?! 🤔 Rowan é um cabeçudo por ter percebido e não ter falado nada, maaas eu particularmente gosto muito do terceiro livro exatamente pela amizade que se forma entre eles, sem nada de romance.

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  3. muito obrigado por postar karina eu tava pensando nessa cena desde herdeira do fogo ameeeiii

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  4. Hahahaha obrigado 😎😎😎😎😆😆😆😗

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  5. eu li primeiro Remella ao invés de Remelle
    kkkkkkkkkkkk

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  6. Ele já tava caidinho por ela aí, e fez jogo duro até mais da metade do outro livro!

    Flavia

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  7. Remelle parece Remela... Kkkkkk. Sdds deles nessa época. Senti uma baita agonia quando li que ela raspou o prato c/o garfo

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  8. Para quemim já leu o livro todo esse extra acaba comigo...😢😢😢😢 Gente amo muito eles juntos.... E eu acho que foi nesse dia que surgiu o apelido " Rainha cadela guspidora de fogo"😂😂❤😔

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  9. Gente da onde vem esses extras? Tenho todos os livros e estas cenas não estão neles. Da onde vem?

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    1. Nos EUA algumas redes de livraria fazem uma parceria com o autor, oferecendo um bônus. Na maioria das vezes esses extras não vêm para o Brasil, então traduzimos :)

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  10. Karina,
    Há um problema aqui: se ao final de anoitecer, vc clicar em "próxima página" o blog te mandará para o capítulo 1 e não para esse extra, o que eu acho que seria o correto.

    Obrigado

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    1. Oi Reginaldo, vou corrigir. Obrigada :)

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  11. Agora eu entendi quando ela fica falando com ele sobre uma tal de Remelle nos outros livros kkkkk eles são muito fofos sen orrrr

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  12. Imaginai a Aelin estalando os dedos e balançado o pescoço e dizendo "Escuta aqui quirida tira a mão do meu macho" kkkk

    Naiara Guedes

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  13. Karina esse bônus não deveria estar no final do livro Herdeira do fogo ou no começo de Rainha das sombras?

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    1. Sim, é de lá, mas veio como bônus nesse livro, então...

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  14. Gente juro que esse extra é tipo um spoiler para o próximo livro... Já que eles vão voltar para Doranelle acho que tipo esses personagens vão meio que voltar para a história principalmente essa Remelle....#Aelin arrasa🌝💗

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  15. Meio que lembrei a cena em que o Rhys explica pra Feyre que é um momento importante quando a parceira oferece ao parceiro comida, que simboliza que ela aceita a parceria. 😂

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  16. ELE EXPERIMENTOU O BOLOOO!! 😍😍 Amei amwi ameii agora eu entendi aquela conversa entre eles q citaram Ramelle 😙

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Boa leitura :)