30 de janeiro de 2017

Capítulo extra

Eles haviam cruzado a fronteira de Terrasen há dois dias.
A pequena vila torrando ao sol do meio-dia foi a primeira que encontraram, as pedras cinzentas e telhas cobertas de musgo desgastados pelo tempo quase desmoronando. Nenhuma estrada principal levava a ela – nada além das marcas das rodas de uma carroça que dividiam a grama seca e a lama – e fazendas recém-cultivadas cercando-a por um bom quilômetro de ambos os lados.
De um ponto alto encoberto por rochas e grama, Aelin observou os morros que se espalhavam através do pequeno vale, a cidade no seu centro, e o emaranhado antigo da Floresta Carvalhal flutuando ao fundo.
— A venda é pequena, mas surpreendentemente bem abastecida — Lysandra falou ao lado dela, ainda sem fôlego da patrulha. Rowan a acompanhara, mantendo distância, deixando que a metamorfa decidisse quais pistas eram vitais, e depois mostrando-lhe o que ela tinha perdido. Ele a vinha treinando desde que deixaram Forte da Fenda – não apenas na patrulha, mas também no voo. Ler os ventos também. A metamorfa continuou: — As pessoas parecem amigáveis o bastante. Eu poderia comprar o que precisamos em mais ou menos uma hora, e então encontrar vocês na floresta com uma carroça.
Aelin finalmente moveu sua atenção da vila e do vale. Lysandra estava em sua forma humana – algo raro nestes dias.
— Presumo que você faria isso... como um homem?
Lysandra colocou as mãos na cintura.
— Não, como um esquilo.
A boca de Aelin se retorceu.
— Esta seria uma visão interessante.
— O que seria uma visão interessante? — Aedion perguntou de onde ele estivera escovando os cavalos, Ligeirinha trotando alegremente em seus calcanhares.
Aelin não perdeu o olhar que seu primo lançou para Lysandra, ou como a metamorfa deliberadamente ignorou-o. Ligeirinha foi até a metamorfa e cobriu-a de lambidas. Aelin acenou com a cabeça para a metamorfa, que agora acariciava a cabeça macia da cadela.
— Lysandra pretende pagar nossa comida com bolotas, aparentemente.
Aedion franziu as sobrancelhas.
— O quê?
As moças riram, no exato momento em que Rowan falou de onde ele e Evangeline separavam os cantis para apanhar água:
— Nem se dê ao trabalho de tentar entender esse absurdo, Aedion.
Aelin mostrou sua língua para o príncipe feérico. Evangeline riu, e então rapidamente escondeu o sorriso quando Rowan olhou para ela. A garota correu para Lysandra, perdendo completamente o enrugar dos olhos de Rowan quando ela alcançou Ligeirinha.
Aelin sentiu um aperto no peito com o divertimento silencioso de Rowan. Ele e Aedion tinham sido gentis com a garota, sabendo quando provocar e quando confortar. Dois irmãos mais velhos mandões e arrogantes, letais assassinos treinados. Que os deuses ajudassem Evangeline quando ela fosse crescida o suficiente para se interessar romanticamente por alguém.
Apesar de que com o horror da infância da menina, mesmo com a intervenção de Lysandra... Aelin imaginou que todos eles ficariam felizes por Evangeline quando esse dia chegasse. Mas no momento em que qualquer rapaz olhasse tempo demais para Evangeline... Aelin sorriu para si mesma. O homem – ou mulher, ela supôs – não teria apenas Rowan e Aedion rosnando para ele. Ah não. Teria uma rainha cadela cuspidora de fogo e uma metamorfa capaz de se tornar o rosto de seus pesadelos esperando para ter uma pequena conversa.
Honestamente, era o suficiente para fazer qualquer um ter pena da garota.
Ligeirinha pareceu meio abandonada quando Evangeline se levantou e lançou os braços em torno da cintura de Lysandra, segurando-a apertado. A metamorfa sorriu distraidamente para a garota, acariciando seus cabelos dourado-avermelhados.
— Se você se transformar em um esquilo — Evangeline disse com o rosto na camisa branca empoeirada de Lysandra — viajará no meu ombro e me deixará fazer um chapéu de bolota para você usar?
Aelin mordeu o lábio, encaminhando-se para Rowan e a água antes que ela pudesse cometer o erro de encontrar o olhar de Lysandra e gargalhar. Rowan estava de fato pressionando os lábios, seus olhos deslumbrantemente brilhantes. Aelin colocou o braço no dele e guiou o príncipe até o bosque atrás deles rapidamente.
Aelin deu cerca de dez passos para dentro do bosque antes que a risada explodisse, ecoando pelas árvores e assustando os pássaros, sonolentos no calor do meio do dia.
Rowan gargalhou, esfregando seu pescoço enquanto a risada de Aelin borbulhava e ecoava. Rir de Evangeline era uma coisa que nenhum deles era particularmente inclinado a fazer, mas... deuses.
— Estou honestamente pensando em oferecer a Lysandra uma moeda de ouro apenas para poder ver seu pequeno traje da floresta — Aelin comentou quando conseguiu se controlar.
Rowan riu novamente.
— Não acho que você precise pagar nada – ela o fará apenas para deixar a menina feliz.
Realmente, todos eles eram inclinados a fazer a menina feliz. Evangeline tinha sofrido o bastante, visto muito mais do que uma criança jamais deveria presenciar. Aelin e Lysandra também. Assim como Aedion, ela imaginou. Mas de todos eles...
— Você teve uma infância razoavelmente feliz — ela disse, mais uma reflexão que uma pergunta.
Rowan acenou, não obstante.
— Sim, meus pais faleceram quando eu ainda era novo. Mas sinceramente, a casa do meu tio era muito mais... divertida. Nossa educação era rigorosa, mas havia alegria na casa. Com seis crianças além de mim, e outros primos vivendo a uma hora dali, era um zoológico.
Aelin levantou uma sobrancelha.
— Literalmente, com suas outras formas.
Ele beliscou a cintura dela.
— Você não faz ideia. Quando nossos tutores e governantas nos davam ordens, nós simplesmente voávamos para longe. Então meu tio instalou fechaduras nas janelas, e espinhos nos candelabros, apenas para nos impedir de ter qualquer lugar para o qual voar.
Aelin riu.
— Tenho problemas para imaginar você se comportando mal.
As sobrancelhas dele se levantaram.
— Eu era obediente em público. E entre estranhos, eu era quieto. Mas na propriedade do meu tio... talvez eu fosse mais calmo que alguns de meu primos, mas nós éramos selvagens.
— E todos vocês se transformavam em falcões?
— Principalmente aves de rapina, entre a linhagem Whitethorn. Meu primo, Enda, pode se tornar um falcão peregrino. Sellene, outra prima de um tio diferente, se transforma em uma águia dourada. Mas nós todos carregamos gelo e vento, o que era outro motivo de tristeza para nossos tutores.
Aelin foi até uma árvore e se apoiou nela.
— Mas você queria evitá-los quando fomos a Doranelle.
Ele endureceu um pouco.
— Eles... o relacionamento deles com Maeve pode ser tenso. Arrastar todos eles para o inferno que eu tinha certeza de que iríamos apenas aumentaria as potenciais baixas.
— Eles teriam se aliado a você – contra ela?
— Já faz tanto tempo desde a última vez em que me importei de gastar mais que alguns minutos com eles que eu honestamente não sei. Não fui gentil com eles por um bom período. Eu estava preocupado que eles poderiam acrescentar mais obstáculos para nós.
Ela inclinou a cabeça.
— O que aconteceu entre vocês?
— Depois... de Lyria — ele falou, ainda hesitando no nome de sua parceira como se fosse algo difícil para ele — quando voltei do meu tempo vagando e fiz o juramento de sangue para Maeve, eu... eu excluí todos com quem tinha associação antes disso. As pessoas que a tinham conhecido, nos conhecido juntos. Era mais fácil me cercar com os juramentados, com exércitos, que encarar a piedade dos meus primos. Enda – ele e eu éramos os mais próximos enquanto crescíamos. Ele vinha me visitar toda semana se eu estivesse em Doranelle. Eu me recusava vê-lo. Então parti para a guerra, e quando retornei dois anos depois, ele não veio mais — ele deu de ombros. — O resto dos meus primos algumas vezes me encurralava em eventos, ou aparecia na minha porta, mas eu os dispensava como intromissão.
Ela considerou as palavres.
— Eu não o culpo. — Ele pareceu relaxar levemente. Desencostando da árvore e andando na direção dele, ela perguntou: — Hoje você tem uma casa?
— Muitas, na verdade, propriedades herdadas por meus pais, que remontam a gerações.
— Suponho que as tenha redecorado em sua “atitude guerreira”.
Ele revirou os olhos, indo até ela.
— Eu as deixei precisamente como me foram entregues. Cheias de coisas frívolas e completamente sem utilidade.
– Apenas um feérico bruto pensaria isso do luxo.
Ela deixou que ele a encurralasse contra a árvore, deixou que ele colocasse suas mãos de cada lado da cabeça dela.
— Se eu não estivesse banido de Dorenelle pelo resto da eternidade, eu a convidaria para brincar de casinha. Não daria dois dias para você estar entediada além da conta e resmungando a respeito.
— Acontece que eu amo brincar de casinha. Decorar o ninho é uma forma de arte para mim — os lábios dela se contraíram.
— Não ouse transformar isso em alguma piada sobre pássaros.
Ela apertou a mandíbula, mesmo que seus lábios tenham tremido.
Rowan beliscou o nariz dela.
Ela se afastou da mão dele, rindo por sob a respiração.
 — Nossos amigos estão suspeitosamente silenciosos.
— Aposto que eles decidiram fazer uma caminhada na direção oposta — ele se inclinou até que sua respiração aqueceu os lábios dela.
— Nós deveríamos buscar aqueles suprimentos na cidade — foi uma oferta quase sincera, na melhor das hipóteses.
Os lábios de Rowan tocaram levemente os dela quando ele murmurou:
— Isso pode esperar um minuto ou dois.
O primeiro beijo foi pouco mais que uma caricia. Seguido por outro, macio e lento, no canto de sua boca. E então no outro canto.
— Dez minutos — ela murmurou, se apoiando contra a árvore atrás dela — vamos dar dez minutos a eles.
— Vinte — foi a única resposta, levantando o queixo dela para ter melhor acesso à sua boca, permitindo que ele plantasse aqueles beijos leves como penas de novo e de novo.
— Você se lembra daquele dia em Defesa Nebulosa — Aelin respirou — quando eu finalmente dominei a mudança de forma, e nós corremos através da floresta?
Rowan pausou as carícias por tempo suficiente para acenar. Ele se inclinou novamente para beijá-la, mas ela colocou um dedo em seus lábios. Ele encontrou seu olhar, os olhos escuros e ferventes.
— Você olhou para mim enquanto corríamos no meio das árvores, e sorriu — ela engoliu — e você parecia... parecia tão vivo, tão selvagem e vivo, e... — ela tracejou o contorno da boca dele — acho que aquele foi o momento em que eu comecei a te desejar. Eu não sabia disso na época, mas... acho que foi naquele momento. Você era real e perverso e selvagem como eu, e quando viu a minha velocidade e a herança feérica e você não recuou... quando apenas sorriu para mim... ninguém jamais tinha feito aquilo antes. Você viu tudo de mim, e ainda assim, você sorriu.
Rowan afastou uma mecha de cabelo do rosto dela.
— Acho que nós dois tentamos por um maldito longo tempo nos convencer de nossa... normalidade — ele beijou uma das maçãs do rosto dela, e então a outra. — Descobri que prefiro muito mais isso.
Os dedos do pé dela se enrolaram dentro das botas.
— Igualmente, príncipe — ela disse em sua boca, puxando-o contra si, saboreando cada centímetro e ondulação de seus músculos — igualmente.



No fim das contas, Rowan e Aelin estiveram fora por trinta minutos.
Tempo suficiente para Aedion e Lysandra terem decidido a maneira como eles iriam para a vila. Uma pessoa sozinha comprando tantos suprimentos poderia atrair atenção, tanto de espiões como de potenciais ladrões, e após tanto tempo na selva, Aelin estava desejosa de um quê de civilização. Como Rowan havia perambulado pela floresta por dez anos... Aelin não gostava de pensar a respeito. Nele sozinho por tanto tempo, nem no luto, na culpa e na raiva que o lançaram tão fundo naquele abismo...
E mesmo quando ele havia retornado para a civilização uma década depois, ele não havia realmente... vivido. Sim, ele foi para a guerra, para milhares de aventuras, mas... Aelin manteve-se perto de Rowan enquanto eles se encaminharam para a pequena vila, cobertos por suas capas e capuzes.
Lysandra estava realmente usando uma forma masculina, para ser o negociador deles enquanto conseguiam o que precisavam. Evangeline era sua filha, Aelin a babá, e os dois machos a guarda contratada. O disfarce era simples: eles eram um pequeno grupo viajando para o norte para visitar parentes há muito perdidos agora que os exércitos de Adarlan estavam finalmente partindo.
Com o dia avançando, muitos dos cidadãos da vila tinham terminado seu almoço e retornado para o campo para cuidar da plantação agora abundante na terra negra. A hora perfeita para chegar: a suja rua principal estava praticamente vazia. Excetuando-se o centro da cidade, onde o murmúrio de conversas sussurradas era ouvido, juntamente com o ruído de água e o som de roupas molhadas. Algum tipo de fonte, sem dúvida.
Eles alcançaram o comerciante que Lysandra tinha investigado, a metamorfa fazendo uma representação espetacular ao subir pesadamente as escadas da pequena construção de pedra, e então ordenando que eles esperassem do lado de fora.
A risada abafada de Aedion à performance lhe rendeu um olhar afiado de aviso de Evangeline. Aelin curvou a cabeça, sempre a babá atenciosa, para esconder seu sorriso quando Aedion murmurou suas desculpas à garota.
Eles levaram os cavalos ao bebedouro na lateral do prédio, e Aelin observou casualmente a vila silenciosa em torno deles.
A rua principal era ladeada por uma taverna solitária, uma loja de roupas que estava defasada na moda pelo menos cinco anos e um ferreiro. Tudo era intercalado com o que pareciam ser casebres de um ou dois cômodos. Nenhuma viela levava às casas além da rua principal, apenas mato e pedras pareciam marcar o caminho.
— Você já esteve aqui antes? — Aelin perguntou a Aedion das sombras de seu capuz, acariciando o pescoço de sua égua conforme o animal bebia água.
— Não, eu nem mesmo sei onde é aqui — Aedion murmurou, olhando sobre um ombro. Alguns aldeões os observavam enquanto se apressavam da fonte cinzenta coberta de líquen no coração da cidade, a maioria mulheres com as roupas do dia lavadas em suas cestas, para pendurá-las em suas casas.
— Há algumas casas abandonadas — ela observou — tão perto da fronteira com Adarlan, você acha...
— Acho que é melhor não falarmos sobre isso aqui — Aedion cortou. Aelin se endireitou. Seu primo adicionou um pouco mais gentilmente, uma mão se dirigindo para a espada de Orynth escondida sob a dobra de seu manto: — Adarlan pilhou, e as pessoas algumas vezes lutaram de volta. Pessoas algumas vezes desapareceram. Ou apenas foram embora. Duvido que qualquer explicação seja agradável.
E esse era o povo dela. A vila era dela.
O capuz dela se tornou um pouco sufocante, mas Aelin passou a mão através da crina da égua. Rowan, seu cavalo bebendo avidamente ao lado do dela, perguntou:
— Há muitos vilarejos como este?
— Hoje em dia? — a mão de Aedion se demorou no punho de osso de sua espada — Os pequenos como este, longe de quaisquer estradas principais, sobreviveram com danos mínimos. Mas as vilas próximas das estradas, dos soldados em marcha, Adarlan tomou, e tomou, e quando tomaram tudo o que podiam, queimaram o resto.
A garganta dela se apertou.
— Nós tentamos ajudar — Aedion adicionou — mas... geralmente estávamos muito longe, ou atrasados demais.
Aelin virou sua cabeça para ele.
— Você... — as palavra sumiram. — Pelos deuses, Aedion, ninguém culpa você por isso.
Se era pra culpar alguém... Ela chacoalhou a cabeça.
Seu primo massageou o pescoço.
— Nós não podemos fazer muito, de qualquer forma. Não sem cruzar uma linha perigosa com Adarlan. Tentamos manter os mágicos escondidos. Mas Adarlan sempre os encontrou.
Um arrepio percorreu a espinha de Aelin. O Rei de Adarlan, à sua maneira, tinha tentado salvá-los, cortado a magia para que os valg, quando viessem, não pudessem usá-los como receptáculos de primeira. E quando isso não deu certo, ele executou qualquer um com magia nas veias. E aqueles que tentaram protegê-los.
— E a respeito dos feéricos? — Rowan perguntou calmamente.
Os olhos turquesa de Aedion piscaram na sombra de seu capuz.
— Adarlan tem caçadores, como e onde eles são treinados, eu não sei. Mas eles encontraram os poucos feéricos aqui. Os poucos que não fugiram pelas montanhas, quero dizer.
Rowan não respondeu.
Rachou seu coração quando Aedion acrescentou:
— Sinto muito.
— Como Aelin disse — Rowan replicou — não foi sua culpa. Ou seu fardo para suportar.
Aelin poderia ter ecoado o sentimento se não tivesse ouvido o som que estalou pela cidade.
Risos – risos de criança.
E ela não ouvia isso – não esperava ouvir este som aqui, de todos os lugares — há tanto tempo que se virou de seu cavalo para procurar a fonte.
Havia cinco delas, a mais velha não tinha mais que onze anos e a mais nova tinha cerca de seis, todas brincando e correndo em volta da fonte da cidade. Gritando de alegria à medida que eram perseguidas por...
Aelin deixou a égua para trás, a cabeça inclinada enquanto caminhava em direção à fonte.
Borboletas d´água, de água pura, voando e perseguindo as crianças, emergindo da fonte e cintilando ao sol quente.
Adultos pararam suas faxinas e conversas para assistir, as crianças totalmente inconscientes de sua audiência. Deleite brilhava em seus rostos, seus gritos, risos e os passos eram os únicos sons em meio à fonte borbulhante.
E no coração desta pequena tempestade... uma garota com o rosto sujo de aproximadamente oito anos retorcendo seus dedos, olhos vesgos de concentração, como suas criaturas flutuando para a vida da fonte.
— Poderosa — Rowan murmurou, aparecendo ao lado de Aelin em um silêncio sobrenatural. — Ela vai se tornar uma mágica poderosa se já pode reunir todo este controle, sem treino.
De fato, Aelin mal conseguia invocar mais do que uma fita de água, muito menos criaturas animadas. Ela notou os rostos dos adultos no mesmo momento em que eles perceberam que estranhos estavam no meio deles.
Diversão cautelosa se transformou em algo duro e frio. Aelin encontrou os olhos de uma mulher mais velha perto da fonte, os outros parecendo buscar sua orientação. A líder deles, ou alguém de autoridade. O bronzeado da mulher, o rosto endurecido. Aelin apenas inclinou a cabeça, oferecendo um pequeno sorriso às mulheres reunidas.
Uma palavra assoviada por alguma lavadora fez a menina parar. As outras crianças perceberam o silêncio e ficaram quietas.
Aelin estendeu uma palma para eles. Em direção à garota que agora se esgueirava atrás das saias da lavadora que a tinha mandado parar.
Com o sol ardente do meio do dia, o fogo de Aelin enfureceu-se e rugiu em suas veias, e ela queria esfriar, diminuí-lo. Suor escorria de sua testa, mas ela manteve firme uma gota de água formada no ar acima de sua palma.
A garota soltou um suspiro que ecoou através da praça.
Aelin sorriu um pouco mais, deixando a água crescer do tamanho de uma maçã, a seguir a girando.
Os adultos murmuraram, olhando um para o outro e para aquela mulher que tinha encontrado o olhar de Aelin. Já a magia começava a oscilar um pouco, a orbe lisa ondulando e cedendo em alguns pontos.
Todos eles assistiram uma pequena borboleta de água voar para fora da fonte e parar perto da esfera de Aelin, suas asas balançando.
Um riso de alegria se alojou na garganta de Aelin enquanto ela examinava os pequenos detalhes de perto. A garota não era apenas forte. Ela era criativa. Ela usou diferentes cursos para moldar os padrões nas asas, toda a borboleta em movimento constante dentro de sua forma.
Aelin manteve-se perfeitamente imóvel, concentrando-se tanto em manter aquela esfera intacta que ela mal registrou a briga entre a menina e seu tutor. Do canto do olho, ela notou a menina aproximar-se, as outras crianças espiando em torno das saias das mulheres, mas ela não se atreveria a interromper seu foco até que a menina estava diante dela e sussurrou:
— Você é como eu?
O sotaque, o sotaque de Terrasen, a melodia cadenciada nas palavras...
Ela não tinha falado com alguém de seu povo, de sua própria terra, em... muito tempo.
Ela se perguntou se a menina percebeu que a esfera caiu para a terra, não totalmente à mostra. A borboleta de água, contudo, decolou, voando em volta deles como se tivesse bebido néctar.
Aelin encontrou os olhos castanhos da garota e disse:
— Não tão talentosa, mas sim.
E ao som do seu sotaque, uma mistura de Terrasen e Adarlan... O queixo da garota se ergueu. Desconfiança, um pouco de medo. Mas coragem. Um grande poço de coragem. A garota não desistiu.
— Nós estávamos brincando — garota falou, como se estivesse se defendendo. Como se...
As casas vazias, os rostos cautelosos, cintilaram diante dos olhos de Aelin.
— Eu vi — Aelin respondeu, gentilmente, calmamente. — Você é muito habilidosa.
Um encolher de ombros.
— Quantos anos você tem?
— Nove.
— Uma boa idade.
Pequena para a idade. Talvez anos de pobreza tivessem cobrado seu custo. O estômago de Aelin apertou.
— Quantos anos você tem?
Uma das mulheres engasgou atrás deles.
Aelin bufou um riso.
— Dezenove.
— Uma boa idade — garota disse, acenando sabiamente.
Aelin riu novamente.
Atrás delas, Aelin sentiu Rowan e Aedion monitorando, mas sem chamar a atenção da garota.
— O que aconteceu com seu rosto?
Aelin sabia de quem ela falava, mas ainda olhou por cima do ombro para Evangeline, que estava entre Aedion e Rowan, cada guerreiro com uma mão no ombro dela.
Sob o sol brilhante, as cicatrizes da garota eram rígidas, brutais.
— Pessoas más tentaram machucá-la — Aelin respondeu.
— Mamãe disse que com a minha magia, eu posso ser uma boa curandeira.
— Você realmente pode — Aelin respondeu, movendo sua atenção para a mulher que agora as monitorava com uma expressão de pedra. — Eu poderia curar as cicatrizes dela um dia, talvez.
Aelin considerou.
— Isso é muito generoso da sua parte. Suponho que seria para a minha amiga, embora penso se ela deseja removê-las.
Uma cura baseada em magia, seria um processo brutal, mas.... Talvez fosse possível.
— Posso curar as suas, também.
Coisinha inteligente.
— Você poderia fazer isso, e muitas outras coisas boas — Aelin respondeu. Ela falou um pouco mais alto, para os adultos ouvirem: — Você poderia garantir que suas terras e fazendas tivessem água, poderia deixar as fontes boas seguras. E sim, você poderia aprender a curar e cuidar das doenças e ferimentos.
— Onde?  — uma voz feminina perguntou baixinho.
Aelin olhou para a mulher mais velha sentada na beira da fonte quebrada, a matriarca da cidade.
— Onde ela pode aprender essas coisas? — a mulher insistiu.
Aelin parou. Ela não sabia. Não tinha ideia.
— Eles queimaram a escola de magia — a mulher continuou. — Não há lugar para aprender.
— Eu sei — Aelin respondeu
— Então não ponha sonhos na cabeça dela. — A mulher rebateu.
As bochechas de Aelin aqueceram.
Mas Aedion falou detrás dela, ainda escondido sob seu capuz:
— Terrasen vai se reconstruir. Dê alguns anos, e ela terá um lugar.
— Se a guerra não nos destruir. — A mulher devolveu, empurrando o queixo para que as outras retomassem a lavagem de roupas. — Melhor irem para a estrada logo se quiserem chegar na próxima cidade à noite.
Uma cortês, senão educada, dispensa.
Aelin não os culpava. Ela olhou para a garota a sua frente, olhou dentro de seus grandes olhos castanhos. E ela sussurrou para que ninguém mais pudesse ouvir, nem a mulher lavando ou os machos feéricos monitorando-os.
— Se a guerra vier, se nós sobrevivermos, espere um ano depois que tudo acabar. Então venha para Orynth, e encontre Celaena Sardothien. Vá para o castelo e diga-lhes que você está procurando por ela, e finalmente terá aulas de magia.
— Phedre. — A mulher vociferou. Uma ordem.
Mas Aelin inclinou-se, sussurrando na orelha de Phedre enquanto escorregava uma moeda de ouro para dentro de sua bolsa.
— Não tenha medo do que faz você brilhar.
Se a garota sentiu ou identificou o peso súbito em sua bolsa, ela nunca saberia. Phedre apenas acenou com a cabeça, os olhos brilhando, e correu.
Lysandra logo terminou de abastecê-los com seus suprimentos, e eles deixaram o vilarejo imediatamente depois, um grupo de mulheres e homens seguindo-os para a floresta para ter certeza de que eles tinham ido embora para sempre.
Mas por cerca de oitocentos metros nas encostas cobertas de grama e até o limiar de Carvalhal, uma borboleta de água voou no ombro de Aelin.



Sentados em volta da fogueira que Aelin acendeu horas mais tarde, Carvalhal um emaranhado protegendo-os, eles jantaram frutos frescos e peças carne que Lysandra comprara para eles. Um raro tratamento indulgente quando eles podiam caçar por si mesmos, mas... nenhum deles reclamou.
A metamorfa ficou em sua forma humana por tempo suficiente para devorar sua parte, mas logo estava transformada em leopardo fantasma e deitada aos pés de Evangeline. Ligeirinha, entretanto, sentava-se ao lado da menina, os olhos cravados no pouco de carne ainda nos dedos de Evangeline.
Evangeline parou de comer e disse a nenhum deles em particular:
— Um curandeiro pode me consertar?
— Aqui não há nada a consertar — disse Aedion, em voz baixa.
Lysandra grunhiu em acordo, mas parecia estar ouvindo, esperando por uma resposta.
Todos eles olharam para Rowan, que franziu o cenho ligeiramente.
— O processo requereria tratamentos extensivos, com...
Ele checou-se, e disse cuidadosamente:
— Com as cicatrizes sendo tão profundas.
Lysandra tensionou-se. Aedion não era o único deles que se culpava pelo passado. Evangeline correu os dedos pela lateral de sua face.
— Que tipo de tratamentos?
Aqueles olhos amarelo-limão tão grandes, tão cheios de... Esperança. Medo, sim, mas esperança.
— Do tipo que a machucaria muito depois que as cicatrizes melhorassem.
— Mas elas sairiam?
— Possivelmente.
Aedion roçou suas botas novamente na terra.
— Você não precisa disso, Evangeline. Você é perfeita como é.
Evangeline sorriu para Aedion, larga e alegremente. Aelin olhou para Rowan, que tinha a mesma aparência que ela: como se alguém tivesse perfurado suas tripas.
Lysandra estava apenas encarando sua jovem protegida, devastação em seus pálidos olhos verdes. Devastação e ainda... Lysandra olhou para Aedion, que tinha se movido para sentar ao lado de Evangeline e a olhava como se fizesse uma avaliação apropriada. Aelin não deixou escapar a mudança na expressão de Lysandra, mesmo em sua forma de leopardo fantasma, quando ela observava o guerreiro.
Aelin encontrou os olhos de Rowan novamente, e ele inclinou-se para pressionar um beijo suave em seu pescoço. Ele falou, tão baixo para que nenhum deles pudesse ouvir:
— Você falou para aquela menina vir a Orynth, não?
Ela acenou com a cabeça. Rowan se afastou para olhar em seu rosto, para estudá-la. O orgulho em seus olhos fez sua garganta apertar.
— É uma honra servi-la.
Mas Aelin balançou a cabeça, olhando para ele, para Aedion, para Evangeline e Lysandra, vendo todos eles.
— A honra é toda minha — ela respondeu suavemente.
Na manhã seguinte, o guincho de alegria de Evangeline foi quase alto o suficiente para acordar os mortos deitados nas tumbas do monte ao sul.

Lysandra permaneceu em forma de esquilo durante todo o dia, e no seguinte depois disso, e usou seu chapéu de bolota tão orgulhosamente quanto qualquer senhora fina enquanto montava sobre o ombro de Evangeline.

29 comentários:

  1. Awnnnn..... Os outros serão postados também??? Espero que sejam tão fofos quanto, de sofrência já basta o fim do livro....

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    1. Que outros? Dei uma procurada, mas não encontrei mais nada...

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    2. São três (um de cada editora): esse que é Barnes&Noble, outro que é da Target (http://bookofademigod.tumblr.com/post/150043620861/master-post-of-the-target-empire-of-storms-short) que na verdade é mais algo do fim de HoF (se não me engano é como Aelin ganhou o apelido de Rainha cadela cuspidora de fogo), e um terceiro que é da WHSmith que é esse aqui (http://bookofademigod.tumblr.com/post/150654553536/master-post-of-the-eos-whsmith-edition-short-story) que fala do Chaol lá na Torre Cesme em Antica...

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    3. Tem no tumblr book of a high lady!!! São três: esse que é uma espécie de prólogo de EoS, outro que é na verdade uma cena deletada de HoF que foi posto numa edição de EoS, e por último um conto sobre o Chaol que boatos dizem que é uma prévia do conto que vai ser lançado...

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    4. Ah sim, valeu. Devo postá-los também sim :)

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  2. Pra quem ja leu o livro. Esse cap foi uma destruição. Meodeos como superar?!

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  3. Eita! Já li o livro todo e sabendo do que rolou, ler isso me causou grande tristeza. Essa gota de água da Aelin não é a toa e essa menina Phedre... Sinto que ela ainda será importante nessa história Sarah não costuma dar ponto sem nó

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    1. Talvez não agora mas sim na próxima série que ela vai fazer com o Chaol.

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    2. Sobre a menina eu não sei, mas talvez a Vitória esteja certa...
      [SPOILER PARA QUEM NAO LEU O RESTO DE EOS]
      Agora sobre a gota da Aelin eu só consigo pensar que talvez ela não vai morrer ao criar o cadeado por causa dessa gota... Me agarro firmemente a esta teoria pq a diva da Aelin não pode morrer...

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    3. Sério, eu não sei o que fazer com essa mulher, cai um copo e quebra no chão em um ou dois livros você descobre que aquilo faz parte de algo muito maior. Tudo, tudo tem um duplo ou triplo sentido/motivo e eu fico pirando cada vez que aparece uma nova coisa ou uma referência ao passado. Como da vez que a Aranha Gigante falou para Manon da Rainha ruiva nos Desertos e do cara que ela tirou alguns anos....

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    5. Não sei se percebeu, Vitoria, mas este extra está no início do livro... Então agradeço se não der spoiler, ok?

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  4. amooooo muitooooo a aelin mano

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  5. esse menina qual será o papel dela/
    chorei sabendo do final do livro bateu a bad

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  6. Nossa ler isso depois de ter lido o livro é muito doloroso pro meu pobre coraçãozinho

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  7. Nossa ler isso depois de ter lido o livro é muito doloroso pro meu pobre coraçãozinho

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  8. — Se eu não estivesse banido de Dorenelle pelo resto da eternidade, eu a convidaria para brincar de casinha. Não daria dois dias para você estar entediada além da conta e resmungando a respeito.

    A noite, tainha vinho...🌚

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  9. Na minha cabeça pertubada essa guria vai curar o Chaol

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    1. Eu acho q vai ser a Yrene Towers, do conto "A Assassina e a Curandeira"...

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  10. ACHO Q AS DUAS CURANDEIRAS SERAO MUITO IMPORTANTES NA VITORIA DE AELIN

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  11. Aquece o meu coração depois de ler o livro.sarah arrasa

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  12. Gente taça doida com esse livro♥♥

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  13. Gente preciso comentar!!!!

    Dois irmãos mais velhos mandões e arrogantes, letais assassinos treinados. Que os deuses ajudassem Evangeline quando ela fosse crescida o suficiente para se interessar romanticamente por alguém.

    É muito lindo ver a família q esse grupo está se transformando sério essa autora sabe muito bem descrever essas relações afetivas q da um aperto no coração!!!!

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  14. Gente, alguém sabe se tem capítulos extras nos livros anteriores também?

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  15. — Você falou para aquela menina vir a Orynth, não?
    Ela acenou com a cabeça. Rowan se afastou para olhar em seu rosto, para estudá-la. O orgulho em seus olhos fez sua garganta apertar.
    — É uma honra servi-la.
    me lembrou de quando a aelin salva a manon em rainha das sombras e ele pergunta porque

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  16. A Aelin sempre salvando e ajudando, mesmo quando era Celaena. E falando nisso, será que o Nox vai aparecer de novo também? Quem lembra dele? Era um dos assassinos da competição para ser a campeã do rei no primeiro livro, o que caiu da muralha na prova e ela salvou ele...
    Ela tem bastante aliados com grande potencial...

    Naylla Araujo

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    1. Verdade, Nox bem que podia aparecer, né?

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  17. Voces ja ouviram a música "why" da Sabrina Carpenter ? É o Rowan e a Aelin esculpido e escarrado. Tem ate uma parte que fala sobre gelo e fogo kkk

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  18. Bem que falam que a única forma de achar um shipper igual ou superior ao de um dos livros da Sarah e ,somente, lendo outro livro dela.
    Eu li ACOTAR e estava na maior depressao pós fim, daí li trono de vidro. To querendo saber o wue vou fazer quando esse acabar T.T

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Boa leitura :)