25 de janeiro de 2017

Capítulo doze


— Como estou? — perguntou Call. — Pareço arrependido?
Ele estava diante da porta de Anastasia Tarquin, no corredor que abrigava os aposentos dos Mestres. Call, Aaron e Tamara tinham decidido que deveriam se arrumar um pouquinho antes de encontrarem a integrante da Assembleia. Ela era uma presença relativamente assustadora, com suas joias e sua atitude culta e desdenhosa. Call achou que ela fosse levar o pedido de desculpas mais a sério se eles se arrumassem, então ele e Aaron estavam com os paletós que usaram para a cerimônia de premiação e Tamara estava com um vestidinho preto.
Devastação não foi com eles já que, como Call observou, não tinha razões para se desculpar.
Tamara soltou o ar com força suficiente para afastar um cacho da testa.
— Você está ótimo — disse ela pela enésima vez. Tamara estremeceu. — Está frio aqui. Bata na porta de uma vez.
Aaron ergueu uma sobrancelha.
— Está tudo bem?
— Não sei — disse Tamara. — Desde que vi minha irmã, só penso nela — engoliu em seco. — E depois tiveram as aulas de hoje. Não gosto de ser separada de vocês como se houvesse algo de errado com o fato de eu não ser Makar. Além disso, o Mestre Rufus foi duas vezes mais rígido comigo do que normalmente é.
— Bem, vamos repetir a dose na segunda-feira — disse Call.
— Alma vai vir nos ensinar uma coisa arrepiante chamada toque da alma.
— Não gosto dela — disse Tamara. — Ela me dá arrepios.
Aaron foi até a porta.
— É melhor acabarmos logo com isso.
Ele bateu. O som pareceu explodir e ecoar no corredor. A porta de Anastasia se abriu. Ela estava diante deles com um roupão de seda branca magnífico sobre uma camisola ainda mais chique. Seus pés estavam em chinelos de couro branco.
— Estava começando a achar que não viriam — disse ela, erguendo uma sobrancelha prateada.
— Hum — disse Call. — Podemos... entrar? Queremos pedir desculpas.
Anastasia abriu mais a porta.
— Ah, é claro. Entrem. — Ela sorriu quando passaram por ela. — Acho que será uma conversa interessante.
Tamara lançou um olhar significativo a Call, que deu de ombros. Talvez Anastasia estivesse decidida a assassiná-los — descobririam de um jeito ou de outro, e isso era um alívio. A integrante da Assembleia fechou a porta pesada atrás de si com uma batida forte e juntou-se ao trio na sala. Ela era alta o bastante para que sua sombra, projetada na parede oposta onde ficava o cofre, fosse enorme. O cofre tinha sido removido; Call ficou imaginando onde os Mestres o teriam colocado.
— Por favor, sentem-se — disse ela. Diamantes brilhavam em suas orelhas e reluziam contra o seu cabelo.
Call, Tamara e Aaron se ajeitaram no sofá branco. Anastasia sentou diante deles em uma cadeira marfim. Sobre a mesa de centro na frente deles havia cinco xícaras de um bule sobre uma bandeja ornada com algo que poderia ser osso.
— Aceitam um pouco? — ela perguntou. — Tenho um de lavanda e capim-limão que podem gostar tendo em vista todos aqueles fungos e líquens que servem no refeitório. — Ela fez uma careta. — Nunca consegui gostar da culinária subterrânea.
Todos se inclinaram para longe.
— Dadas as circunstâncias — disse Tamara —, acho que não queremos.
— Entendo — Anastasia respondeu, com um sorriso forçado. — Mas vejam, isso faz mesmo sentido? Vocês invadiram meu quarto e roubaram meus pertences. Invadiram a prisão dos elementais. Não é mais provável que vocês sejam uma ameaça a mim do que o contrário?
— Somos alunos — disse Tamara, parecendo indignada. — Você é adulta.
— Vocês são Makaris — argumentou Anastasia. — Bem, dois de vocês são. — Ela gesticulou para Call e Aaron. — E foi uma pergunta retórica. Sei que não querem me fazer mal algum. Mas, da mesma forma, não quero fazer mal a vocês. Tudo que eu sempre quis foi protegê-los. Não mereço desconfiança.
As sobrancelhas de Call ergueram-se consideravelmente.
— Sério? Então por que você tem uma foto de Constantine Madden em uma caixa estranha debaixo da cama, e por que a senha do seu cofre é o nome do irmão dele?
— Já eu poderia perguntar como você obteve a pulseira de Constantine Madden, e, de posse dela, o que o fez vesti-la? — Anastasia lançou um olhar significativo a Call.
Call empalideceu, levando a mão à pulseira, guardada sob a manga do paletó. Agora que estava atento, via que a pulseira criava um contorno sutil sob o tecido da camisa.
— Como você sabe?
Anastasia levantou o bule e se serviu de uma xícara. O agradável aroma de capim-limão preencheu o recinto.
— Sem ela vocês não teriam conseguido entrar aqui. O motivo é simples: há muito tempo, usei magia para sincronizar nossas pulseiras. Eu conheci Constantine quando ele era um menino. Eu sei que, para a geração de vocês, imaginar o poderoso Inimigo da Morte como um menino é chocante, mas ele era apenas uma criança quando veio para o Magisterium. Eu me sinto parcialmente responsável pelo que aconteceu com ele e Jericho. Lembretes de Constantine de Jericho são lembretes do meu próprio fracasso. — Ela olhou para baixo. — Eu deveria ter percebido o que estava acontecendo, deveria ter impedido Joseph antes que ele levasse os meninos longe demais. De certa forma, sou responsável pela morte de Jericho e pelo que Constantine se tomou. Não vou me permitir esquecer disso.
Ela tomou um gole de chá.
— Tenho uma dívida com esses meninos. E o meu jeito de pagar é garantindo que a próxima geração de Makaris permaneça intacta. Sou uma velha senhora e já perdi muito, mas antes de morrer, quero saber que vocês dois estão seguros. Callum e Aaron, vocês são minha esperança para um futuro melhor.
— Então é por isso que se ofereceu para vir aqui ajudar a encontrar o espião? — perguntou Tamara.
Ela assentiu lentamente.
— E se eu soubesse quem é, acreditem, eu não hesitaria em agir.
— Sentimos muito — disse Aaron. — Quer dizer, foi isso que viemos dizer, mas sentimos mesmo. Não deveríamos ter bisbilhotado suas coisas, nem invadido seu quarto, nem nada disso. Quer dizer, não podemos nos desculpar por tentar manter Call em segurança, mas sentimos muito pela maneira como fizemos.
Tamara assentiu. Call se sentiu desconfortável por todos estarem dando a cara a tapa por ele.
Anastasia sorriu, do jeito que adultos sorriam quando Aaron ligava o botãozinho do charme. Mas antes que pudesse responder, ouviram uma batida à porta. Call, Aaron e Tamara se entreolharam alarmados.
— Não precisam se preocupar. — Anastasia se levantou. — É nosso quarto convidado. Alguém que chamei para se juntar a nós.
Mestre Rufus?, Call se perguntou. Alguém da Assembleia? Mas quando Anastasia abriu a porta, era Alma Amdurer, vestindo um poncho vermelho. Ela entrou no quarto e Anastasia fechou a porta novamente.
— Olá, crianças — disse Alma com um sorriso. — Anastasia já explicou tudo para vocês?
— Não — disse Anastasia, indo para perto de Alma. Com ela toda de branco e Alma de vermelho escuro, elas lembravam as Rainhas Vermelha e Branca de Alice no País das Maravilhas. — Achei melhor você fazer isso.
Alma fixou seus olhos escuros neles.
— Vocês sabem, é claro, sobre os planos da Assembleia para pegar os animais Dominados pelo Caos e eliminá-los? — perguntou sem preâmbulos.
Call piscou os olhos, imaginando o que isso teria a ver com Anastasia — ou com qualquer um deles.
— É horrível — disse ele.
Alma sorriu.
— Ótimo. A maioria das pessoas não acha. Mas a Ordem da Desordem concorda, e estamos dispostos a fazer o que for preciso para manter esses animais seguros.
— Bem, gostaríamos de ajudar — disse Aaron. — Mas o que podemos fazer?
— Sabemos quando os animais reunidos aqui na floresta serão transportados — disse Alma. — Precisamos da ajuda de um Makar para levá-los dos veículos de transporte a um lugar seguro.
Tamara levantou a mão, contendo Aaron e Call antes que eles pudessem se oferecer. Seu olhar era impiedoso.
— Nem pensar. É perigoso demais — disse.
Alma olhou intensamente para os três amigos.
— Se vocês se importam com Devastação, então deveriam me ajudar. São irmãos e irmãs dele no caos. E talvez até literalmente.
— Se vamos ajudá-la, e, sim, eu também vou, mesmo não sendo Makar, então precisa fazer algo por nós — disse Tamara.
— Bem, parece justo — concordou Anastasia, com um sorriso discreto.
— Anastasia me contou sobre as dificuldades que estão enfrentando — disse Alma. — E, é claro, ouvimos coisas. A Ordem não é inteiramente desligada do mundo dos magos. Estaríamos dispostos a ajudá-los a encontrar o espião.
Aaron se sentou ereto.
— O que a faz pensar que pode encontrar o espião?
— Temos uma testemunha que podemos interrogar.
— Mas não há testemunhas! — protestou Call. — A Assembleia não encontrou nenhuma...
— Jennifer Matsui — respondeu Alma calmamente.
Fez-se silêncio.
— Ela está morta — disse Tamara, afinal, olhando para Alma como se ela estivesse louca. — Jen está morta.
— A Ordem estuda magia do caos há anos — explicou Alma. — O tipo de magia praticada pelo Inimigo. A magia da vida e da morte. Mestre Lemuel aprendeu uma forma de conversar com os mortos. Podemos falar com Jennifer Matsui e perguntar quem a atacou se nos ajudarem com os animais Dominados pelo Caos.
Call olhou do rosto espantado de Tamara para Aaron, que parecia esperançoso. Aaron queria encontrar o espião mais do que qualquer um, Call pensou. Mais do que o próprio Call.
— Tudo bem — disse Call. — O que exatamente você precisa que a gente faça?


Naquela noite, Call e Tamara foram para a área externa passear com Devastação. Aaron estava disposto a ir, mas ficou óbvio que ele não queria de verdade — estava sentado no sofá, aconchegado com um cobertor, lendo as revistinhas que Alastair mandava para Call. Algumas pessoas quando se irritam andam de um lado para o outro, gritam, mas Aaron se fechava em si mesmo, comportamento que Call achava mais preocupante.
— Não é culpa sua, você sabe — disse Tamara para Call enquanto Devastação farejava um trecho de ervas daninhas. O lobo sabia que assim que escolhesse uma árvore e fizesse o que tinha de fazer, iam levá-lo de volta para dentro, então ele adiava o máximo possível.
— Eu sei disso. — Call suspirou. — Não pedi pra nascer, ou renascer, ou o que quer que seja.
Ela riu. A noite estava clara, as estrelas brilhantes, e o ar menos frio do que deveria estar naquela época do ano. Tamara não estava nem usando casaco.
— Não foi isso que quis dizer.
Respirando fundo, ele continuou.
— Eu só sinto que alguma coisa aconteceu há muito tempo, com Constantine e o Mestre Joseph, e mesmo com o Mestre Rufus e Alastair. Eles descobriram coisas no Magisterium. Coisas importantes. Tipo, a Ordem da Desordem sabe como falar com os mortos? Isso é muito sério. E mesmo assim mais ninguém parece saber dessa informação.
— Ninguém quer saber — disse Tamara. — Não, esqueça isso. Aposto que é a Assembleia que não quer que as pessoas saibam.
Call piscou para ela.
— E seus pais? Eles são da Assembleia.
— Eles sequer me deixaram saber sobre Ravan. — Tamara chutou um monte de terra com a bota. — Tem razão. Anastasia e a Ordem da Desordem conheceram Constantine na escola, o que significa que sabem mais sobre o que aconteceu do que a gente. Muito mais.
— E eles sabem mais sobre como a magia do caos realmente funciona — Call chamou Devastação, apressando-o para voltar para dentro. — E talvez saibam algo sobre o espião, também.
— O maior Makar da nossa geração — disse Tamara, pensativa. — Então mais alguém, aqui na escola, está usando magia do caos. Só não foi pego ainda.
— Não por nós — disse Call. — Mas vai ser.
O vento ficou mais forte, soprando as árvores com intensidade o bastante para derrubar uma cascata de folhas sobre eles. Bagunçou o cabelo solto de Tamara e carregou suas vozes quando chamaram um ao outro. Após um instante de frustração, Call apontou para o Magisterium e eles abaixaram as cabeças e voltaram para o portão, com Devastação correndo atrás.
De volta aos corredores escurecidos e passagens estreitas, Call não pôde deixar de pensar no peso que recaía sobre seus ombros à medida que adentravam nas cavernas: o peso de, mais uma vez, não saber em quem podia confiar.


Na segunda-feira, Mestre Rufus anunciou que teriam um teste na sexta, em que todo o Ano de Bronze competiria entre si. Mestre Rufus até fez braçadeiras para Tamara, Aaron e Call, declarando-os uma equipe de três pessoas.
Callum resmungou. Ele nunca gostou dos testes, pelo menos desde que teve que lutar contra dragões no seu Ano de Ferro. Após fugir durante o Ano de Cobre e voltar com a cabeça do Inimigo da Morte, ele conseguiu escapar de mais alguns, mas agora parecia que sua sorte em evitar testes tinha acabado.
Aaron estava envolvido demais em sua melancolia por não ser querido, ou pelo menos ser considerado suspeito, por todos na escola. Com ar solene, simplesmente aceitou sua braçadeira. Call queria dizer para Aaron que ele nunca foi popular e que ainda estava bem, mas temeu que talvez Aaron não achasse suas palavras tão reconfortantes. Ainda assim, o Aaron sorumbático provavelmente tinha menos disposição para discutir do que o Aaron normal.
— Pode nos falar alguma coisa sobre o teste? — perguntou Tamara. — Qualquer coisa?
Mestre Rufus balançou a cabeça.
— Certamente não. Vocês três são considerados, por muitos motivos, um grupo extraordinário. Se não se comportarem bem, vão decepcionar muita gente, inclusive a mim. Espero que façam o melhor. E espero que o façam sem precisar de dicas.
Tamara deu de ombros e sorriu.
— Ao menos eu tentei, né?
Mestre Rufus lançou a ela um olhar que dizia que, apesar de poder, ele não se aprofundaria no assunto. Em vez disso, embarcou em uma palestra sobre o que fazer quando se parece ter abundância de magia e um feitiço começa a ficar maior do que deveria. A resposta objetiva: era responsabilidade da pessoa que invocou o poder controlá-lo.
Tudo que aprendiam atualmente era sobre responsabilidade e controle. E nada disso estava ajudando.


No caminho de volta para os novos aposentos, os três viram Gwenda espreitando no corredor.
Estava frio ali, e ela vestia um casaco pesado e jeans. Tinha uma expressão irritada no rosto, mas se alegrou quando eles se aproximaram, esfregando as mãos pelos braços para se aquecer.
— Estava torcendo para encontrá-los — disse ela.
— O que foi? — perguntou Tamara. Aaron ficou atrás, parecendo preocupado com a possibilidade de ela lhe dar um fora ou encará-lo. Mas ela apenas parecia esperançosa.
— Preciso falar com vocês — disse ela. — Mas podemos entrar no quarto novo de vocês?
Os três se olharam. Call podia ver sua própria faísca de excitação espelhada nos olhos dos amigos.
Talvez Gwenda soubesse de alguma coisa sobre o espião. Será que tinha visto alguma coisa ou desconfiado de alguém?
Foram até a sala compartilhada e Call guiou Devastação para ficar de guarda na porta caso alguém tentasse invadir. Devastação assumiu seu posto com o ar vigilante.
— Olhem — disse Gwenda, uma vez que os três tinham se ajeitado no sofá e a olhavam com expectativa —, a questão é...
— Continue, Gwenda — disse Tamara. — Pode nos contar qualquer coisa.
— Quero vir morar com vocês! — disparou Gwenda, um rubor surgindo em sua pele morena. — Sei que aprendizes do mesmo grupo devem compartilhar o quarto, mas eu pesquisei e qualquer aluno pode mudar se quiser. Ouvi dizer que vocês têm um quarto extra, e a questão é que não suporto mais!
— Não suporta o quê? — perguntou Aaron.
— Jasper e Célia! — respondeu Gwenda, exasperada. — Eles vivem se abraçando no sofá, se beijando, cochichando baboseiras no ouvido um do outro. É horrível.
— Então diga para pararem — disse Call, decepcionado.
Tamara, por outro lado, pareceu entretida.
— Não adianta — argumentou Gwenda. — Eu tentei, Rafe tentou, e não adianta nada. Eles não escutam. É por isso que relacionamentos dentro de grupos de aprendizes são péssimos para todo mundo.
— Teríamos que perguntar ao Mestre Rufus — respondeu Aaron, que sempre caía em histórias tristes e provavelmente estava satisfeito por ela preferir seu passado criminoso a presenciar os beijos de Jasper.
Call ficou encarando. Ele gostava de Gwenda, mas, considerando a quantidade de armações e tramoias que ele, Tamara e Aaron faziam, ele não enxergava como tê-la em seu quarto seria algo além de uma inconveniência.
— Meus pais eram do mesmo grupo de aprendizes quando começaram a se relacionar — disse ele.
— Bem, aposto que quem quer que fosse do grupo deles detestava isso — disse Gwenda, irritada.
Call estava prestes a abrir a boca para dizer que tinham compartilhado o mesmo grupo com o Inimigo da Morte e seu irmão, mas decidiu ficar quieto. Não era exatamente um segredo, mas também não era algo que todo mundo soubesse. Call achava que quanto menos as pessoas fizessem qualquer conexão entre ele e Constantine Madden, melhor.
Além disso, se ela começasse a sugerir que o Inimigo da Morte foi levado a ser um Suserano do Mal por causa do namoro dos pais de Call, ele talvez tivesse que matá-la.
— Gwenda... — Tamara começou, claramente tendo algumas das mesmas dúvidas de Call.
Houve uma batida na porta. Gwenda deu um salto, em seguida apareceu esperançosa.
— É o Mestre Rufus? — perguntou ela. — Se for, vocês podem perguntar pra ele agora mesmo.
Aaron balançou a cabeça.
— O Mestre Rufus simplesmente entra — respondeu, ficando de pé. Atravessou o recinto e abriu a porta.
Era Jasper.
— Ah, meu Deus! — disse Gwenda. — Por que não consigo me livrar de você?
Jasper pareceu confuso.
— Por que alguém ia querer uma coisa dessas?
Ela virou para Call e Tamara.
— Ele vem aqui assim o tempo todo? Aparece assim, sem avisar?
— Constantemente — respondeu Tamara.
— É um problema — reafirmou Call.
Gwenda jogou os braços para o alto em sinal de rendição.
— Deixa pra lá, então — disse ela. — Esqueçam tudo que eu falei.
Ela se retirou do quarto, passando por Jasper, que parecia confuso.
— O que foi isso? — perguntou ele.
— Basicamente você é um saco — respondeu Call. — Mas já sabíamos disso.
Jasper entrou, fechando a porta atrás de si. Estava respirando fundo para dizer alguma coisa quando Devastação saltou, derrubando-o para o chão. Jasper gritou.
— Ops — disse Call. — Pedimos para Devastação cuidar da porta, então...
Jasper gritou um pouco mais, coisa que Call achou desnecessária. Não houve qualquer indício de que Devastação fosse machucá-lo. Devastação conhecia Jasper. Ele estava apenas sentado em cima dele, língua de fora e parecendo pensativo.
— Tire... ele... de... cima... de... mim — Jasper falou entredentes.
Call suspirou e assobiou.
— Vamos, Devastação — disse ele. Quando Devastação saiu de cima de Jasper e foi até Call para receber elogios e afagos, Jasper se levantou, esfregando o casaco exageradamente.
— Tudo bem, Jasper — disse Tamara. — Fala logo. Por que está aqui?
— Ou pode simplesmente se retirar — disse Aaron friamente, levantando. — Isso também é uma possibilidade.
Tamara ergueu as sobrancelhas. Call estava um pouco boquiaberto. Aaron simplesmente não falava assim com as pessoas. Aaron normalmente não olhava para as pessoas do jeito que estava olhando para a Jasper: como se fosse socá-lo na cara.
Call sentiu um desejo enorme por um balde de pipoca.
Jasper pareceu desconfortável.
— Queria pedir desculpas.
Aaron não disse nada.
— Sei que acham que fui eu quem plantei o boato — prosseguiu Jasper. — Quer dizer, não que seja exatamente um boato, sobre seu pai. É a verdade.
Se é que isso era possível, Aaron pareceu ainda mais ameaçador.
— Era segredo — disse ele. — E você sabia disso.
— Sim — Jasper teve a decência de parecer envergonhado.
— E o resto é mentira -— disse Aaron sem rodeios. — Eu jamais machucaria Call. Ele é meu melhor amigo. É meu contrapeso.
— Eu sei — disse Jasper, para surpresa de Call. — E eu não disse a ninguém que você faria isso. Não mesmo! Eu contei a Célia a parte sobre seu pai, sim, e não devia ter feito isso. Sinto muito, mesmo. É que estavam todos falando de você, e acabei me metendo. Mas eu não disse nada sobre o resto.
— Então você acha que sou o espião? — perguntou Aaron.
Call se lembrou das palavras de Jasper no refeitório: Aaron contou a você e Tamara histórias diferentes sobre o passado dele. Isso é bem suspeito. Não fazemos ideia de onde ele veio, ou quem é a família dele de verdade. Ele simplesmente aparece do nada e pronto! Makar.
Jasper olhou para Call. Provavelmente estava se lembrando da mesma coisa.
— Não acho — respondeu Jasper. — Fiquei pensando, depois que os boatos começaram. Mas a única pessoa para quem falei que você poderia ser foi Call.
Aaron lançou um olhar espantado a Call, antes de olhar novamente para Jasper.
— Você não acha?
— Não — respondeu Jasper. — Você não é o espião, ok? Não acho que seja, e sinto muito por ter contado para Célia sobre o seu pai. E, se serve de consolo, ela também está arrependida. Ela nunca achou que as coisas fugiriam tanto do controle. Ela contou para duas pessoas e fez com que as duas jurassem segredo, mas a coisa acabou se espalhando.
Aaron suspirou e a raiva o deixou.
— Tudo bem, eu acho. Você realmente não plantou o boato sobre eu estar querendo acabar com Call?
Jasper se endireitou em uma pose estranhamente formal e colocou uma mão no coração.
— Juro pelo nome da família DeWinter.
Call riu com desdém e recebeu uma encarada de Jasper. As coisas quase pareciam normais.
— Ah, não — disse Tamara. — Se quer que fique tudo bem, vai ter que fazer algo por Aaron. E Célia vai ter que ajudar.
— O quê? — Jasper olhou preocupado para Tamara, o que era sempre uma boa conduta, porém especialmente boa no momento, quando ela o encarava com um brilho no olhar.
— Célia está no circuito do boato — disse Tamara. — Descubra se pode haver outro Makar na escola, ou em algum lugar. Alguém atuando às escondidas. E veja se tem alguém com quem Drew conversava muito, pode ser?
— E descubra quem plantou o boato — acrescentou Call.
Jasper fez que sim com a cabeça, erguendo as mãos para evitar que qualquer um se irritasse com ele.
— Ok.
— Ótimo. Desculpas aceitas. — Aaron se jogou no sofá. — Seja como for, você tem problemas maiores do que nós. Gwenda veio aqui porque quer se mudar do quarto de vocês.
— Por minha causa? — disse Jasper. — Isso é ridículo.
— Talvez ela não seja muito fã de romance — Tamara falou com um sorriso maldoso.
Jasper sentou ao lado de Aaron sem ser convidado.
— Ela só está com inveja porque não tem um namorado como eu. Sou um ótimo namorado. Sei exatamente como manter uma garota feliz.
Tamara revirou os olhos. Call ficou feliz por ela não ter achado o discurso convincente. Após a deserção de Célia, ele não sabia ao certo o que impressionava garotas.
— Como prova do quão arrependido estou, posso oferecer algumas das minhas melhores dicas românticas — sugeriu Jasper.
Call, que estava prestes a se empoleirar em um dos braços do sofá, começou a rir tanto que caiu. Bateu com a perna ruim no chão — o que doeu, mas não o suficiente para impedi-lo de gargalhar.
Tamara estava claramente tentando impedir uma risada. Seus lábios não paravam de tremer nos cantos.
— Você está bem? — perguntou Aaron, se inclinando para ajudar Call a levantar.
— Sim — Call conseguiu responder antes de começar a rir de novo. Ainda rindo, foi em direção ao sofá, para o lado oposto de Aaron. — Tudo bem! Estou bem!
— Em primeiro lugar — disse Jasper, fazendo uma careta para Call, que claramente não apreciava a sabedoria que ele estava prestes a compartilhar — quando forem falar com uma garota, devem olhar em seus olhos. Sem piscar. Isso é muito importante.
— Isso não vai fazer a gente começar a lacrimejar? — perguntou Aaron.
— Não se fizerem direito — respondeu Jasper.
Call ficou imaginando o que isso poderia significar. Será que a pessoa tinha que desenvolver uma segunda pálpebra, como um lagarto?
— Ok, então a primeira dica é, se você gosta de uma garota, você tem que ficar encarando — disse Call.
— A dica número dois — continuou Jasper — é fazer que sim com cabeça para tudo que ela disser, e rir muito.
— Rir dela? — disse Tamara, duvidosa.
— Como se ela fosse hilária — disse Jasper. — Garotas gostam de achar que estão seduzindo você. Dica três: jogar olhares para ela.
— Jogar olhares? — repetiu Aaron, incrédulo. — O que isso significa, exatamente?
Jasper se endireitou, jogando o cabelo para trás. Ele baixou os cílios e encarou os três diretamente, com a boca curvada para baixo, em uma carranca sombria.
— Você tá parecendo um maluco — disse Call.
Jasper cerrou ainda mais os olhos, fechando um deles e encarando com o outro.
— Agora você parece um pirata — disse Tamara.
— Funciona com Célia — disse Jasper. — Ela fica toda derretida quando eu faço isso.
— Ela deve gostar de piratas — observou Aaron.
Jasper revirou os olhos.
— A dica quatro é ter o corte de cabelo certo, mas obviamente isso não tem mais jeito no caso de vocês.
— Não tem nada de errado com o meu cabelo! — disse Aaron.
— O seu está ok — respondeu Jasper. — Mas o de Call parece que foi cortado com uma pedra afiada.
— Tem uma dica cinco? — perguntou Tamara.
— Compre um calendário com fotos de gatinhos pra ela — respondeu. — Garotas adoram calendários de gatinhos.
Devastação latiu. Tamara soltou uma gargalhada, rolando para o lado do sofá e levantando os pés.
Call achava que nunca a tinha visto se divertir tanto.
— Ah, e se sua mente vagar enquanto ela estiver falando, você deve dizer que se distraiu com a beleza dela — acrescentou Jasper. — E o que quer que ela esteja vestindo, diga que é sua cor preferida.
— Ela não vai perceber se você tiver cores favoritas diferentes? — perguntou Aaron.
Jasper deu de ombros.
— Provavelmente não.
Os risinhos de Tamara estavam se transformando em soluços.
— Jasper — disse ela. — Posso te pedir um favor?
— Sim?
— Nunca goste de mim desse jeito.
Jasper pareceu indignado.
— Vocês não entendem — disse ele, se levantando. — Bem, minha missão aqui já foi cumprida. Já pedi desculpas e já dei as dicas.
— E prometeu fazer Célia procurar informações úteis — disse Call.
Jasper assentiu.
— Vou falar com ela.
— Não se esqueça de jogar olhares! — Tamara gritou do sofá quando Jasper chegou na porta. Ele fez uma careta ao abrir, em seguida franziu a testa.
— Tem um bilhete preso aqui — disse ele, pegando um pedaço de papel que estava preso à porta. — É para Call e Aaron.
Era um bilhete dobrado, escrito com uma letra tortuosa.
Callum Hunt e Aaron Stewart.
— Pode me dar — disse Aaron, ficando de pé. Mas Jasper, com um sorriso de lado, já estava tentando abrir.
— Ai! — disse ele, tomando um choque. O papel tinha emitido uma pequena faísca, como um pulso elétrico.
— Está enfeitiçado — disse Tamara, soando contente. — Só Call e Aaron podem abrir.
Jasper pareceu impressionado e com um pouco de inveja.
— Legal — disse ele, jogando o bilhete para Aaron. — Até mais tarde — E desapareceu para o corredor.
Aaron abriu o bilhete quando a porta se fechou. Suas sobrancelhas baixaram ao ler.
— E de Anastasia Tarquin — disse. — Ela está pedindo para que nós a encontremos no Portão da Missão às dez para meia-noite na sexta-feira. Ela mandou levarmos Devastação.
— É no mesmo dia do teste — disse Tamara, sentando ereta. — Sobre o que ela quer conversar?
— Não acho que queira conversar — falou Aaron, ainda olhando para o papel. — Acho que é quando vamos fazer o que ela pediu. É quando vamos roubar os animais Dominados pelo Caos.

8 comentários:

  1. Aaron e Callum parecem o Sasuke e Naruto
    tomara que tenham finais felizes

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  2. Jasper: como se fosse socá-lo na cara.
    Call sentiu um desejo enorme por um balde de pipoca.
    Eu na vida

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  3. Levar o Devastação pra que hein? Não confio nelas.
    ~Call is my spirit animal~
    Call melhor personagem sim. E na vida sou o Call.

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  4. Vocês garotos quando estiverem a fim de alguém, sigam as dicas de Jasper

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  5. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Jasper filho de Afrodite. kkkkkkkkkk. É tão estranho, mas ele está virando parte do grupo.

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  6. Concordo com Tamara
    Espero que ninguém goste de mim como o Jasper kkkkkkkkk

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Boa leitura :)