20 de janeiro de 2017

Capítulo doze


Call e Tamara gritaram. O carro guinou para um dos lados, as mãos de Call perdidas no volante. Isso fez Tamara berrar ainda mais. Os brados acordaram Jasper e Aaron, que acrescentaram as próprias vozes à algazarra. Devastação começou a latir. Durante a comoção, Mestre Rufus simplesmente flutuou no centro do carro, parecendo irritado e transparente.
Esse foi o choque final. Call freou com força, e o carro cantou pneu até parar no meio da estrada. De repente, todo mundo parou de gritar. Fez-se um silêncio mórbido. Mestre Rufus continuou transparente.
— Você está morto? — perguntou Call com voz trêmula.
— Ele não está morto. — Jasper conseguiu soar convencido e irritado, apesar de estar claramente apavorado. — Está ligando de um telefone etéreo. É assim que funciona.
— Ah. — Call arquivou o conhecimento de que a coisa que ele sempre chamou de tornado-telefone na verdade tinha outro nome. Imaginou Mestre Rufus segurando a jarra de vidro no colo, encarando-a com um ar maligno. — Então você está em outro lugar? — perguntou a Rufus. — Não está... aqui de fato?
— Não importa onde estou. O que importa é que vocês estão muito encrencados — respondeu Mestre Rufus. — Muito encrencados e correndo muito perigo. Callum Hunt, você já está por um fio. Aaron Stewart, você é um Makar e tem responsabilidades, responsabilidades que incluem se comportar como uma pessoa responsável. E você, Tamara Rajavi, de vocês três, eu esperava mais de você.
— Mestre Rufus — começou Jasper, com o mais doce dos tons de dedo-duro. — Gostaria de dizer que eu nunca...
— Quanto a você, Jasper deWinter — Mestre Rufus o interrompeu. — Talvez eu tenha me enganado a seu respeito. Talvez você realmente seja mais interessante do que eu imaginava. Mas vocês quatro precisam voltar ao Magisterium imediatamente.
Jasper pareceu horrorizado, provavelmente por vários motivos.
— Você está no Magisterium? — insistiu Call.
Mestre Rufus pareceu muito irritado com a pergunta.
— De fato estou, Callum. Depois de passar quase todo o dia de ontem e todo o dia de hoje procurando por vocês sem resultado, um de vocês deve ter perdido a proteção contra rastreamento. Vejo que estão em alguma espécie de veículo. Encostem, digam onde estão, e magos aparecerão em breve.
— Acho que não podemos fazer isso — disse Call, com o coração acelerado.
— E por que não? — As sobrancelhas do Mestre Rufus tremeram com uma irritação pouco contida.
Call hesitou.
— Porque estamos em uma missão — respondeu Tamara rapidamente. — Vamos recuperar o Alkahest.
— Eu sou o Makar — declarou Aaron. — Minha obrigação é salvar as pessoas. Elas não têm de me salvar, elas detestam ter de me salvar. E já me disseram muitas vezes que não posso vencer sozinho, então Call está aqui como meu contrapeso. Tamara veio porque é inteligente e habilidosa. E Jasper...
— É o alívio cômico — murmurou Call.
— Também sou seu amigo, seu idiota! — disparou Jasper. — Posso ser inteligente!
— Enfim. — Aaron tentou recuperar o controle da situação. — Somos uma equipe e vamos resgatar o Alkahest, então, por favor, não mandem mais elementais atrás de nós.
— Mandar mais elementais atrás de vocês? — Mestre Rufus pareceu verdadeiramente confuso. — O que quer dizer com isso?
— Você sabe o que quero dizer — respondeu Aaron com a voz seca que utilizava quando ficava irritado e não queria demonstrar. — Todos nós sabemos. O Automotones quase nos matou, e ele veio do Magisterium. Vocês o soltaram para nos caçar.
Agora Mestre Rufus pareceu chocado.
— Deve haver algum engano. O Automotones está aqui. Ele é nosso prisioneiro. Está aqui há centenas de anos.
— Não é engano. Talvez os outros magos não tenham contado para você, porque somos seus aprendizes. Mas aconteceu. E o Automotones matou uma mulher também. Incendiou a casa dela. — A voz de Tamara tremeu.
— Isso é mentira — retrucou Mestre Rufus.
— Não estamos mentindo — garantiu Aaron. — Mas suponho que isso signifique que você confia tanto na gente quanto a gente em você.
— Então estão mentindo para vocês — concluiu Mestre Rufus. — Eu não sei, ainda não entendo, mas vocês precisam voltar ao Magisterium. Agora é mais urgente que nunca. É o único lugar onde posso protegê-los.
— Não vamos voltar. — Surpreendentemente, foi Jasper que falou. Ele se voltou para Call. — Desligue o telefone.
Call ficou olhando para o Rufus fantasmagórico.
— Eu, hum, não sei fazer isso.
— Terra! — gritou Tamara. — Terra é o oposto do ar!
— Certo. Eu, hum... — Call esticou o braço e pegou Miri da capa no cinto. Metal tinha propriedades de magia da terra. — Desculpe. — Ele esfaqueou o fantasma Rufus.
Rufus desapareceu com um estalo, como uma bolha estourando.
Tamara gritou.
— Eu não o matei, matei? — Call olhou ao redor para as expressões de choque de todos. Só Devastação parecia inabalado. Tinha voltado a dormir.
— Não — respondeu Jasper. — É só que a maioria das pessoas usa o poder da terra para interromper a conexão. Mas acho que isso é muito controle para se esperar de você, seu maluco.
— Não sou maluco — resmungou Call, guardando a faca.
— Você é um pouquinho maluco — disse Aaron.
— Ah, sim, bem, quem perdeu a pedra de proteção? — perguntou Call. — Quem se esqueceu de transferi-la para as roupas novas?
Tamara resmungou, frustrada.
— Foi assim que os magos nos encontraram! Jasper, foi você?
Jasper levantou as mãos, espantado.
— Para isso que servia aquela pedra? Ninguém me avisou!
— Agora não é o momento para nos preocuparmos com isso — insistiu Aaron. — Cometemos erros. O mais importante é nos escondermos dos magos da melhor maneira possível.
Call tentou levar o carro para a estrada novamente quando percebeu que o motor tinha morrido.
Aaron precisou refazer a ligação direta, enquanto todos prendiam a respiração, considerando que não teriam outra opção de carro se o Morris falhasse. Porém, alguns instantes mais tarde, Aaron o fez funcionar outra vez.
Tamara não tinha mais nenhuma pedra, então foram se revezando com as que tinham, para que os magos não conseguissem rastrear a pessoa certa, na hora certa.
Call dirigiu pelo resto do dia e da noite, com os outros se revezando para dormir. Só Call não o fez. A cada parada ele comprava mais café, até ter a sensação de que sua cabeça ia girar e se soltar do pescoço.
A paisagem tinha mudado, tornando-se mais montanhosa. O ar estava mais fresco, e pinheiros tomaram os lugares das amoreiras e cornisos.
— Posso dirigir um pouco — ofereceu Tamara na saída de um posto no Maine. O dia estava amanhecendo, e Call já havia se flagrado pelo menos uma vez dirigindo com apenas um olho aberto.
Aaron tinha comprado um chocolate e um pão doce, e estava colocando a barra no pão para fazer uma espécie bizarra de cachorro-quente de açúcar. Call aprovou. Jasper comeu um biscoito salgado e ficou encarando os outros.
— Não. — Call tomou um gole do café. Um dos olhos tremia um pouco, mas ele ignorou. — Pode deixar.
Tamara deu de ombros e entregou o mapa para Jasper. Estava na vez de ele ser o navegador.
— Eu me recuso. — Jasper observava Call. — Você precisa dormir. Vai cair num precipício, e vamos todos morrer, tudo porque você se recusa a dormir um pouco. Então tire logo esse cochilo!
— Eu ponho o despertador — ofereceu Tamara.
— Eu não acharia ruim dar uma esticada nas pernas — comentou Aaron. — Vá em frente. Pode deitar no banco de trás.
Agora que eles falaram, Call estava mesmo se sentindo um pouco tonto.
— Tudo bem. — Ele bocejou. — Mas só vinte minutos. Papai dizia que era o tempo ideal para um cochilo.
— Vamos levar Devastação para um passeio de verdade — informou Tamara. — Nos vemos em vinte minutos.
Call foi para o banco de trás. Mas, quando fechou os olhos, o que viu foi Mestre Rufus, e isso o fez arregalar os olhos enquanto pegava Miri e esfaqueava a imagem. A expressão lembrou a do pai de Call, logo antes de ele jogá-lo contra a parede.
Apesar da exaustão, Call não conseguia impedir que o cérebro mostrasse essas imagens sem parar.
E assim que ele as espantava, novas entravam no lugar. Imagens de coisas que ainda não tinham acontecido, mas que poderiam acontecer. O olhar de traição no rosto de Aaron quando descobrisse quem era Call de verdade, o olhar de fúria de Tamara. A certeza convencida de Jasper de que sempre tivera razão em relação a Call.
Finalmente desistiu de dormir e saltou do carro. A luz da manhã tingia a grama, e a canção distante dos pássaros pairava no ar. Aaron, Tamara e Devastação tinham sumido, mas Jasper estava sentado em cima de uma velha mesa de piquenique. Faíscas voavam de seus dedos enquanto ele ateava fogo em uma pinha e a via queimar.
— Você deveria estar dormindo — comentou Jasper.
— Eu sei. Mas quero conversar sobre uma coisa com você enquanto os outros não estão aqui.
Jasper apertou os olhos.
— Ah, pelas costas dos seus amigos? Isso vai ser interessante.
Call se sentou à mesa de piquenique. O vento estava mais forte e soprava seus cabelos nos olhos.
— Quando a gente chegar ao destino do mapa, com sorte meu pai vai estar lá, e ainda vai ter o Alkahest. Mas preciso conversar com ele... sozinho.
— Sobre o quê?
— Ele vai me ouvir, mas não se achar que um bando de aprendizes vai atacá-lo. E não quero Aaron se aproximando muito, caso meu pai tente machucá-lo. E preciso que você, Tamara e Aaron fiquem longe, pelo menos até eu acabar a conversa.
— Por que está me dizendo isso? — Jasper ainda parecia desconfiado, embora parecesse quase convencido a seguir o plano de Call.
Call não podia falar a verdade: que era mais fácil mentir para ele do que para os amigos.
— Porque você se importa em proteger Aaron muito mais do que se importa em me proteger.
— É verdade. Ele é o Makar. Você é só... — Ele olhou com curiosidade para Call. — Não sei o que você é.
— É, bem, eu também não.
Antes que Jasper pudesse dizer qualquer outra coisa, Tamara e Aaron surgiram entre as árvores, com Devastação, animado, ao lado deles.
Call deslizou para fora do banco.
— Por que ele está tão satisfeito?
— Ele comeu um esquilo. — Tamara não parecia aprovar aquilo. Enquanto Call voltava para o carro, abaixou-se para afagar a cabeça de Devastação e sussurrou:
— Bom menino. Ótimos instintos de caça. Nós comemos esquilos, e não pessoas, certo?
— Nunca é cedo demais para começar a moldar o caráter dele — disse Aaron.
— Exatamente o que eu estava pensando.
Juntos, Call e Aaron ajudaram a levantar um relutante Devastação para o banco de trás. Jasper e Tamara entraram em seguida, e Aaron sentou no banco do carona.
Assim que todos se acomodaram, as portas do carro fecharam ao mesmo tempo.
— O que está acontecendo? — Tamara agarrou a porta do lado dela, mas não conseguiu abri-la. Nenhuma das portas abriu. — Ligue o carro, Aaron!
Aaron alcançou os cabos próximos a Call, tentando acender uma faísca. Nada aconteceu. Nenhum ruído de motor ligando. Tentou de novo, e mais outra vez. O suor começou a escorrer pelas costas de Call. O que estava acontecendo?
Do banco de trás, Jasper gritou:
— Eu tentei usar magia do metal, e as faíscas machucaram minha mão em vez de funcionar.
— Deve estar bloqueada — sugeriu Tamara.
Alguma coisa veio para a frente do para-brisa. Call gritou, e Aaron caiu para trás, derrubando os fios.
Dois enormes elementais do ar tinham surgido na frente do carro. Um deles parecia um cavalo de seis patas, caso cavalos tivessem o dobro do tamanho normal. O outro parecia um brontossauro alado. Ambos tinham rédeas e selas.
Mestre Rockmaple estava montado em um, e Mestra Milagros no outro.
— Estamos muito ferrados — constatou Jasper.
Mestra Milagros desceu de seu cavalo de seis patas e foi em direção ao carro. Levantou as mãos, abriu os dedos e conjurou longos fios brilhantes de metal. Eles envolveram a frente do carro, e em segundos as portas estavam amarradas.
Enquanto executava a magia metálica, Milagros olhou para as crianças através do vidro. Balançou a cabeça em reprovação, mas Callum teve a impressão de que ela talvez estivesse achando aquilo tudo... engraçado.
Ela moveu a boca sem emitir nenhum som e marchou de volta até seu elemental. Jogou uma corda de ferro para Rockmaple e montou novamente, segurando a corda sobre a sela.
— Ai, meu Deus! — exclamou Tamara. — Temos de sair daqui.
Ela se jogou contra a porta, mas o carro já estava subindo, como a cesta de um balão. Todos no carro gritaram quando mapas, latas vazias de refrigerante e embalagens de chocolate voavam para o painel, caiam dos suportes e sacudiam pelo carro.
— O que eles estão fazendo? — gritou Call sobre o ruído do vento.
— Nos levando para o Magisterium, o que você acha? — berrou Jasper em resposta.
— Vão nos levar voando para a Virgínia? Alguém normal não pode acabar, vocês sabem, vendo a gente?
— Provavelmente estão usando magia do ar para nos camuflar — respondeu Tamara. Em seguida gritou quando o carro balançou sobre a floresta. Tudo que Call conseguia ver abaixo deles eram quilômetros de árvores verdes.
— Nos filmes, as pessoas fingem passar mal para serem liberadas pelos carcereiros — disse Aaron. — Talvez um de nós possa tentar vomitar ou começar a espumar.
— Como se fôssemos animais raivosos? — sugeriu Call.
— Não temos tempo para discutir. — Tamara alcançou a própria bolsa, completamente em pânico, e retirou uma garrafinha de um líquido claro. — Eu tenho sabão. Rápido, Jasper, beba. Você definitivamente vai espumar.
— Eu não vou beber isso — retrucou Jasper. — Sou um deWinter. Nós não espumamos.
Aaron apertou os olhos na direção dos elementais do ar que puxavam o carro, como um trenó, como se estivesse reconsiderando o próprio plano.
— Não tenho certeza de que nos ouviriam se gritássemos, de qualquer jeito.
— Espere. — Call se virou em seu assento. — Passei a vida vendo meu pai trabalhar em carros. Sabe o que estraga primeiro? O chão. Vejam. Está enferrujado, certo? Tudo que precisamos fazer é chutar.
Por um instante, todos o encararam. Em seguida Tamara começou a chutar o chão com raiva. Devastação pulou no assento, ganindo, enquanto Aaron subia no banco do passageiro para ajudar. Após três chutes o pé dele atravessou o metal.
— Vai dar certo! — gritou Jasper, tomado pela surpresa.
Mais alguns chutes e conseguiram arrancar parte do piso do carro. Tamara olhou para Call, depois para Aaron.
— Prontos? — perguntou ela.
— Estou com Devastação — respondeu Call.
— Espera, e quem está comigo? — Jasper quis saber, mas Call o ignorou e, segurando o lobo e a mochila, saltou para o nada abaixo do carro. Devastação latiu, as patas balançando e a cauda sacudindo.
Acima dele, Call viu Tamara saltando, os cabelos voando pelo céu azul. Um instante mais tarde, teve a impressão de flagrar Aaron empurrando Jasper pelo buraco. Em seguida, Aaron apareceu, sacudindo pelo vento.
Call reuniu o ar, tecendo uma rede invisível de magia ao redor e abaixo dele. Sua queda perdeu velocidade, e Devastação parou de latir enquanto desciam suavemente para a floresta lá embaixo.
Call caiu de costas no chão, mas o impacto foi leve. Ele soltou Devastação, que rolou, ficando de pé, os olhos selvagens e rodopiantes. Call não sabia muito bem onde estavam e se amaldiçoou por isso. Em seu pânico, esquecera o mapa.
Porém, um instante depois, percebeu que não teria conseguido se localizar no mapa de qualquer jeito. Mesmo que o pegasse, teria sido inútil.
Ao lado de Call, Devastação ganiu, olhando para o alto, como se pudesse ser forçado a voar de novo a qualquer instante. Ele latiu enquanto Tamara descia graciosamente, a trança escura flutuando ao redor da cabeça. Ela desceu sobre um tronco caído, com um sorriso enorme no rosto.
— Isso foi incrível. Sempre achei que gostasse mais de magia do fogo, mas o ar...
BAM! Jasper caiu numa pilha de pinhas. Um instante depois, Aaron aterrissou ao lado dele, com os braços cruzados, parecendo furioso.
— Você me deixou cair! — resmungou Jasper.
— Não deixei! — Aaron se defendeu. — Ele falou que era capaz de fazer isso sozinho! Que ficaria bem!
— Ele me parece bem — zombou Call.
Tamara lhe lançou um olhar de reprovação e correu para Jasper, que se sentou.
— Ai — murmurou Jasper, caindo de novo. — Ai, ai, ai.
Tamara se inclinava sobre Jasper, que tentava atrair a máxima atenção que conseguisse.
— Que dor. — Ele se queixou. — Que agonia.
— Aaron, você não tem um kit de primeiros socorros na mochila? — indagou Tamara.
— Tenho, mas deixei a mochila para trás. — Aaron olhou para o céu. — Quanto tempo será que vão levar para perceber que estão rebocando um carro vazio?
— Provavelmente não muito — disse Tamara. — Precisamos nos esconder.
— Certo. Para trás, Tamara, Jasper. — Aaron esticou a mão e pegou o pulso de Call. — Call. Fique aí.
Confuso, Call obedeceu enquanto Tamara, Jasper e Devastação se afastaram um pouco. Aaron parecia exausto. Call desconfiou que todos sentiam o mesmo. Os efeitos colaterais da magia do ar estavam começando a atingi-lo, drenando a adrenalina que sustentara até ali. Nenhum cochilo de vinte minutos ajudaria. Ele teve a sensação de que podia cair.
Aaron respirou fundo e levantou a mão que não estava segurando o pulso de Call. Seus dedos brilharam com uma luz negra. A escuridão se espalhou, como ácido tomando conta do chão, dissolvendo-o.
Call pôde sentir o puxão dentro dele que significava que Aaron o estava utilizando para trabalhar o caos. Os olhos de Aaron estavam fechados, os dedos se enterrando na pele de Call.
— Aaron? — chamou Call, mas Aaron não reagiu. O solo estava turbulento aos pés deles, como um redemoinho. Era difícil ver o que acontecia, mas a força daquilo sacudiu o chão. Tamara agarrou Jasper para se manter de pé.
— Aaron! — Pela primeira vez, Call conseguiu imaginar como o irmão do Inimigo da Morte, Jericho, havia morrido. Constantine pode ter ficado tão envolvido na magia que executava que se esqueceu do irmão até ser tarde demais.
Aaron soltou o braço de Call. Estava arfando. A poeira da terra agitada tinha começado a baixar. Call e os outros viram que Aaron tinha arrancado um pedaço do chão, abrindo uma espécie de buraco, escondido por uma pedra coberta de grama.
— Você abriu uma caverna suja para nós — disse Jasper. — Hum.
Os cabelos suados de Aaron estavam grudados na testa, e, quando ele olhou para Jasper, Call pensou que talvez estivesse considerando seriamente a hipótese de fazê-lo desaparecer no vazio.
— Vamos descansar — sugeriu Tamara. — Call, sei que está com pressa de chegar a Alastair, mas estamos todos cansados e a magia do ar nos esgotou. — Sua pele parecia ter assumido um tom levemente cinzento, assim como a de Jasper. — Vamos nos esconder até recuperarmos as forças.
Call queria protestar, mas não conseguia. Estava cansado demais. Ele se arrastou para o buraco e se jogou no chão. Queria um cobertor... e esse foi seu último pensamento antes de cair no sono, tão rápida e profundamente quanto se tivesse levado um golpe na cabeça.
Quando acordou, o sol se punha em um fulgor laranja. Tamara dormia ao seu lado, com uma das mãos em Devastação. Do outro lado, Aaron se mexia, inquieto, com os olhos fechados. Jasper também dormia, o casaco enrolado sob a cabeça, como um travesseiro.
Call ouviu um ruído do lado de fora. Ficou imaginando se seria alguma espécie de animal.
Revirando a mochila, encontrou uma barra de chocolate pela metade e a comeu depressa. Não sabia ao certo há quanto tempo estava descansando, mas se sentia mais desperto e alerta que nunca desde que embarcou nessa missão.
Uma estranha calma se apoderou dele.
Eu deveria abandoná-los aqui, pensou.
Haviam ido longe bastante. Ele nunca tivera amigos assim, amigos dispostos a arriscar tudo para ajudá-lo. Não queria retribuir levando-os até um destino cruel.
Então Call ouviu outro barulho, dessa vez mais próximo. Não parecia um animal, e sim um rebanho, avançando de forma lenta e silenciosa pela vegetação.
Revisou o plano rapidamente.
— Tamara, acorde — sussurrou Call, cutucando-a com o pé. — Tem alguma coisa lá fora.
Ela rolou e abriu os olhos.
— Hein?
— Lá fora — repetiu ele em voz baixa. — Alguma coisa.
Ela cutucou Aaron, e ele chamou Jasper, ambos bocejando e resmungando por terem sido acordados.
— Não estou ouvindo nada — reclamou Jasper.
— Vamos ver — sussurrou Aaron. — Vamos.
— E se forem os magos? — perguntou Tamara baixinho. — Talvez seja melhor ficarmos aqui.
Call balançou a cabeça.
— Se eles nos encontrarem aqui, não teremos para onde correr. Estamos literalmente contra a parede.
Ninguém podia negar aquilo, então pegaram as coisas e, puxando Devastação, saíram da caverna. A noite começava a cair.
— Você está louco — reclamou Jasper. — Não tem nada lá.
Mas então todos ouviram um ruído que vinha de dois lugares ao mesmo tempo.
— Talvez os magos tenham nos encontrado — cogitou Aaron. — Talvez pudéssemos...
Mas não foi um mago que saiu da folhagem.
Foi um humano Dominado pelo Caos quem surgiu, com uma expressão indolente, encarando-os com olhos brilhantes, que giravam multicoloridos como um caleidoscópio. Ele era enorme e trajava roupas pretas rasgadas. Olhando de perto, Call percebeu que eram os restos de um uniforme. Um uniforme rasgado, sujo de lama e manchado de sangue. Havia um símbolo no peito, mas à sombra, Call não conseguia identificar do que se tratava.
Jasper estava completamente pálido. Jamais vira um Dominado pelo Caos antes, percebeu Call.
Call vira apenas o suficiente para ficar horrorizado quando outro apareceu à esquerda. Ele se virou, pegando Miri exatamente quando um terceiro Dominado saía de trás de uma moita à direita. E depois mais um, e outro, e outro, todos pálidos e com olhos fundos, uma enxurrada de Dominados pelo Caos avançando de todos os lados.
O exército do Inimigo era mais numeroso que eles.
— O... o que a gente faz? — gaguejou Jasper. Ele tinha pegado um graveto do chão e fazia marcações nele. Tamara estava formando uma bola de fogo entre as mãos. Ela não tremia, mas a expressão no rosto era de pânico.
— Atrás de mim — ordenou Aaron. — Todos vocês.
Jasper obedeceu alegremente. Tamara continuava trabalhando na bola de fogo, mas ela já estava atrás de Aaron. A maioria dos Dominados pelo Caos estava reunida do outro lado da clareira, encarando-os com os olhos de redemoinho. O silêncio era sombrio.
— Eu não. — Call não estava com medo. Não sabia por quê. — Você não pode. Eu sou seu contrapeso e posso ver que você não descansou o suficiente. Acabou de usar magia do caos. Está muito cedo para usá-la de novo.
A mandíbula de Aaron estava rígida.
— Preciso tentar.
— São muitos — argumentou Call, enquanto o exército avançava. — O caos vai consumi-lo.
— Eu levo o exército comigo — insistiu Aaron, sombrio. — Melhor isso que o Alkahest, certo?
— Aaron...
— Sinto muito. — Aaron correu em direção a eles, saltando sobre os espinhos.
Tamara levantou o olhar que estava na bola de fogo e gritou:
— Aaron, abaixe-se!
Ele se abaixou. Ela lançou a bola de fogo, que passou como um arco sobre a cabeça de Aaron, aterrissou na massa de Dominados pelo Caos e explodiu.
Alguns dos Dominados pegaram fogo, mas isso não os deteve. As expressões não mudaram, mesmo enquanto caíam, ainda em chamas.
Call passou então a sentir mais medo do que se lembrava de já ter sentido. Aaron se aproximava da primeira linha do exército inimigo. Ele levantou uma das mãos, o caos começava a girar e a crescer em sua palma, como um pequeno furacão, girando para cima...
Os Dominados pelo Caos alcançaram Aaron. Pareceram engoli-lo por um instante, e o estômago de Call revirou.
Call começou a tropeçar em direção a eles, mas logo parou. Pôde ver Aaron novamente, imóvel, parecendo espantado. Os Dominados caminhavam ao seu redor, sem qualquer indício de que iriam tocá-lo, como um fluxo de água que se separa ao passar por uma pedra em um riacho.
Eles ignoraram Aaron, e Call pôde ouvir Jasper e Tamara ofegando, pois os Dominados pelo Caos passaram a seguir na direção deles. Talvez quisessem eliminar primeiro os mais fracos antes de cuidarem de Aaron. Call era o único com uma faca, apesar de não saber exatamente o quanto Miri ajudaria. Ficou imaginando se morreria ali, protegendo Tamara e Jasper — e Aaron. Era uma maneira heroica de partir, pelo menos. Talvez provasse que ele não era o que seu pai pensava.
Os Dominados pelo Caos alcançaram Tamara e Jasper. Aaron tentava abrir caminho para chegar aos amigos. O primeiro dos Dominados, o homem gigantesco com pulseiras de espetos, parou na frente de Call.
Call cerrou o punho ao redor de Miri. Qualquer que fosse o fim, ele cairia lutando.
O Dominado pelo Caos falou. A voz soava rouca e enferrujada pela falta de uso.
— Mestre. — Ele fixou os olhos de tormenta em Call. — Esperamos tanto tempo por você.
O primeiro Dominado pelo Caos se ajoelhou diante de Call. E em seguida o próximo, e o seguinte, até que todos estivessem de joelhos, com Aaron entre eles, olhando incrédulo para Call do outro lado da clareira.

24 comentários:

  1. O que acontece quando você é o Inimigo da Morte,e seu melhor amigo é o Makar,e seu segredo é revelado:
    (A)Eles aceitam de boas
    (B)Fingem que nada disso aconteceu
    (C)Vai rolar discussão
    (D)TRETA

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    1. (E) corre negada , tá todo mundo locoooooooo kkkkkkkk rachei

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    2. tretaaaaaaaaaa kkkkkkkkkkkkkkkkkkk eu to amando isso

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    3. Mostra quem manda nessa porra Call

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  2. Agora sim EHUEHUEHUH adoro uma treta.

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  3. Agora sim , já tava na hora de Call deixar de ser o coitado a mostra quem manda kkkk

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  4. Eitaaaaa Fudeu se tudo

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  5. Porra do caraleo treta tretosa vindo por aí...

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  6. 1- Essa cena do Call esfaqueando a imagem do Rufus hauehaehe
    2- É. Foi como esconder o Devastação.
    3- EITA

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  7. Nossa, me arrepiei todinha agora :D É isso aí Call, mostra pra eles quem é o rei da p**** toda u.u

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  8. imaginou se ele não fosse o mocinho e sim o vilão,seria bem legal,como se fosse mostrar a ascensão de um vilão que não é mal mas foi obrigado pelas circunstancias

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  9. Agora o circo pega fogo.

    K.Be.

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  10. Só um comentário a fazer: F.O.D.E.U

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Boa leitura :)