16 de janeiro de 2017

Capítulo doze


Por um longo momento, Call ficou tão irritado que sentia vontade de quebrar alguma coisa e, ao mesmo tempo, seus olhos ardiam como se ele estivesse prestes a cair em prantos.
Tentando segurar a raiva, Call pegou o objeto que estava no pacote embaixo da carta de seu pai. Era o bracelete de um antigo aluno do Ano de Prata cravejado com cinco pedras — uma vermelha, uma verde, uma azul, uma branca e outra tão negra quanto a água dos rios que corriam pelas cavernas.
Call olhou para elas. Será que aquele era o bracelete de seu pai da época em que frequentou o Magisterium? Por que Alastair o enviara para Rufus?
“Uma coisa é certa”, Call pensou. “O Mestre Rufus jamais receberá essa mensagem.” Ele enfiou a carta e o envelope no bolso e pôs o bracelete no pulso. Seu braço era muito fino, de forma que ele posicionou o bracelete mais para cima e o cobriu com a manga da camiseta.
— Você está roubando — disse o lagarto.
As chamas ainda ardiam ao longo de suas costas, azuis com lampejos de verde e amarelo. Elas faziam com que as sombras dançassem pelas paredes.
Call congelou.
— E daí?
— Deixe-me sair — o lagarto repetiu. — Deixe-me sair ou contarei que você roubou as coisas do Mestre Rufus.
Call soltou um suspiro. Ele não pensara direito. O elemental não apenas sabia que ele abrira o pacote, como também que conversara com o pai. O bicho ouvira o aviso misterioso de Alastair. Call não podia deixar que ele contasse essas coisas para o Mestre Rufus.
O menino se ajoelhou e ergueu a gaiola pela alça de ferro localizada em seu topo, colocando-a de volta na bancada do Mestre Rufus. Ele observou o lagarto mais de perto. O corpo não era maior que uma das botas de seu pai. Parecia até uma miniatura de um dragão-de-komodo. Tinha até mesmo uma barba escamosa e uma coisa que lembrava sobrancelhas... sim, aquele bicho definitivamente tinha sobrancelhas. Os olhos eram grandes e vermelhos e faiscavam como brasas. A gaiola cheirava levemente a enxofre.
— Você saiu escondido no meio da noite — disse o lagarto. — Você saiu escondido, roubou coisas e o seu pai quer que você fuja.
Call não sabia o que fazer. Caso deixasse o elemental sair da gaiola, ele ainda poderia contar ao Mestre Rufus tudo o que vira. Ele não podia correr o risco de ser descoberto.
Não queria que sua magia fosse interditada.
E também não queria decepcionar Aaron e Tamara, não agora que eles tinham começado a ficar amigos.
— É — Call concordou. — E adivinha o que mais eu vou roubar? Você.
Lançando um último olhar para o gabinete, Call deu o fora, levando a gaiola com o lagarto. O elemental corria de um lado para o outro, fazendo com que a gaiola sacudisse. Call não ligou a mínima.
Ele desceu até a água, torcendo para que a corrente tivesse trazido o barco de volta, porém não havia nada além das ondas do rio subterrâneo que batiam na praia rochosa.
Call se perguntou se poderia nadar de volta, mas a água era congelante, a corrente seguia na direção contrária e ele jamais fora o mais forte dos nadadores. Além disso, Call ainda tinha de se preocupar com o lagarto e ele duvidava que a gaiola flutuasse.
— As correntes do Magisterium são escuras e estranhas — comentou o elemental. Os olhos vermelhos brilhavam na escuridão.
Call inclinou a cabeça, estudando a criatura.
— Você tem um nome?
— Apenas o nome que você me der — respondeu o lagarto.
— Cabeça de Pedra? — Call sugeriu ao olhar as pedras de cristal na cabeça da criatura.
Uma baforada de fumaça saiu das orelhas do bicho. Ele parecia irritado.
— Você falou que eu podia escolher um nome — Call lembrou, se agachando na margem com um suspiro.
O lagarto espremeu a cabeça entre as barras e estendeu a língua, que, por sua vez, enlaçou um peixinho minúsculo antes de voltar para dentro da boca. O bicho começou a mastigar com uma satisfação inquietante.
Tudo aconteceu tão depressa que Call deu um pulo, quase deixando a gaiola cair.
Aquela língua era assustadora.
— Crista de Fogo? — Call se levantou e fingiu não estar surtando. — Cara de Peixe?
O lagarto o ignorou.
— Warren? — Call insistiu. Esse era o nome de um dos caras que de vez em quando jogavam pôquer com seu pai nas noites de domingo.
O lagarto assentiu, satisfeito.
— Warren — ele repetiu. — Warrens estão lá, em cima da terra, onde as criaturas vivem. Warrens para andar sorrateiros, espionar e se camuflar!
— Ah, ótimo — disse Call, extremamente nervoso.
— Há outros caminhos além do rio. Você não sabe o caminho até o seu ninho, mas eu sei.
Call observou o elemental, que também olhava para ele por entre as barras de ferro.
— Um atalho que levará de volta ao meu quarto?
— Para qualquer lugar! Para todos os lugares! Ninguém conhece o Magisterium melhor que Warren. Mas você vai ter de me tirar da gaiola. Você vai ter de concordar em me tirar da gaiola.
Como Call poderia acreditar em um lagarto que, para início de conversa, nem mesmo era um lagarto de verdade?
Talvez, se ele bebesse um pouco da água — que era nojenta, repleta de peixes cegos, enxofre e minerais esquisitos —, pudesse turbinar sua magia. Como fizera com a areia. Como ele não deveria fazer. Talvez pudesse mudar a direção da corrente e trazer o barco de volta para ele.
É, tudo bem. Ele não fazia a menor ideia de como fazer aquilo.
“Call, você precisa me ouvir. Você não sabe o que você é.”
Aparentemente ele não sabia de um monte de coisas.
— Tudo bem — disse Call. — Se me levar de volta para o meu quarto, eu tiro você da gaiola.
— Deixe-me sair agora — o lagarto tentou persuadi-lo. — Assim poderemos ir mais depressa.
— Bela tentativa — Call bufou. — Para que lado nós vamos?
O lagartinho lhe deu as coordenadas e o menino começou a andar. As roupas ainda estavam molhadas e causavam uma sensação gelada contra a sua pele.
Eles passaram por camadas de rocha que pareciam derreter umas sobre as outras, colunas e cortinas de calcário que pareciam cair como drapeados. Eles passaram por um fluxo de lama borbulhante que serpenteava entre os pés de Call. Warren o encorajou a seguir em frente. As chamas azuis nas costas da criatura transformaram a gaiola em uma lanterna.
Em certo ponto, o corredor se estreitou tanto que Call teve de se virar de lado e se espremer entre as paredes de pedra. Ele finalmente saiu do outro lado como a rolha de uma garrafa e com um longo rasgo na camiseta onde o tecido ficara preso na ponta afiada de uma rocha.
— Shhh — Warren sussurrou, agachando-se para se pôr à frente de Call. — Silêncio, maguinho.
Call estava parado em uma quina escura que desembocava em uma imensa caverna repleta de vozes que ecoavam. O salão era quase circular, e o teto era um gigantesco domo feito de rocha. As paredes eram decoradas com conjuntos de pedras preciosas que formavam símbolos estranhos, provavelmente símbolos alquímicos. No meio da sala havia uma mesa de pedra retangular iluminada por um candelabro preso no teto com cerca de doze velas, das quais escorria um grosso fluxo de cera. As grandes cadeiras de espaldar alto eram ocupadas por mestres que, por sua vez, também pareciam formações rochosas.
Call se espremeu nas sombras para não ser visto e colocou a gaiola atrás de si para esconder a luz que emanava das costas do lagarto.
— O jovem Jasper demonstrou bravura ao se lançar na frente das serpes — disse o Mestre Lemuel, olhando de relance para a Mestra Milagros. O rosto do mago mostrava que ele se divertia. — Mesmo que não tenha obtido sucesso.
O ódio correu pelas veias de Call. Ele, Tamara e Aaron deram duro para se sair bem no teste e eles conversavam sobre Jasper?
— A bravura jamais levou ninguém muito longe — retrucou o Mestre Tanaka, o professor alto e magro responsável pela educação de Peter e Kai. — Os estudantes que retornaram de nossa mais recente missão eram muito corajosos e os mais bravos foram também os que apresentaram os piores ferimentos que vi desde a guerra. Eles mal conseguiram retornar vivos. Nem mesmo os alunos do quinto ano estão preparados para elementais que lutam juntos daquela maneira...
— O Inimigo está atrás de nós — o Mestre Rockmaple o interrompeu, passando uma das mãos pela barba avermelhada. A visão dos estudantes feridos, ensanguentados e queimados que cruzavam um dos portões da escola impressionara Call, e ele ficou feliz por saber que aquela não era rotina entre os alunos que saíam em missões. — O Inimigo está quebrando a trégua de uma forma na qual não somos capazes de rastreá-lo. Ele está se preparando para reiniciar a guerra. Posso apostar que, enquanto nos iludimos achando que ele está em seu santuário, em algum local remoto, trabalhando em seus experimentos terríveis, o Inimigo, na verdade, desenvolve e prepara armas ainda mais poderosas e devastadoras, sem mencionar as alianças.
O Mestre Lemuel bufou.
— Não temos nenhuma prova. Tudo isso pode ser apenas fruto de uma mudança entre os elementais.
O Mestre Rockmaple se virou para ele.
— Como você pode confiar no Inimigo? Um ser que é capaz de colocar um pedaço do vazio dentro de um animal ou até mesmo dentro de uma criança, e que massacra os mais vulneráveis entre nós, é capaz de fazer qualquer coisa.
— Não estou dizendo que confio nele! Só não quero lançar o pânico prematuro de que a trégua tenha sido quebrada. No fim das contas, pode ser que nós mesmos venhamos a quebrá-la graças aos nossos medos e, ao fazê-lo, incitemos uma nova guerra, talvez até pior do que a última.
— Tudo seria diferente se tivéssemos um Makar ao nosso lado — A Mestra Milagros prendeu a mecha cor-de-rosa atrás da orelha, nervosa. — Os novatos deste ano tiveram notas excepcionais no Desafio. É possível que o nosso Makar esteja entre eles? Rufus, você já teve esse tipo de experiência antes.
— É cedo demais para afirmar qualquer coisa — respondeu Rufus. — O próprio Constantine não mostrava nenhum sinal de afinidade com a magia do caos até completar quatorze anos.
— Talvez naquela época você se recusasse a procurar por esses traços da mesma maneira que faz agora.
Rufus balançou negativamente a cabeça. A expressão no rosto do mago era severa sob a luz tremeluzente.
— Isso não importa — disse ele. — Precisamos de outro plano. A Assembleia precisa de um novo plano. É um fardo pesado demais para ser colocado sobre os ombros de qualquer criança. Todos nós devemos nos lembrar da tragédia de Verity Torres.
— Concordo que um plano é necessário — concordou o Mestre Rockmaple. — Seja qual for o esquema do Inimigo, não podemos simplesmente enfiar nossas cabeças na areia e agir como se não fosse nada de mais. Nem podemos esperar para sempre por algo que pode jamais vir a acontecer.
— Já chega dessa discussão — disse o Mestre North. — A Mestra Milagros comentou mais cedo sua descoberta de um possível erro no terceiro algoritmo da fórmula de transformação do ar em metal. Pensei que talvez pudéssemos discutir tal anomalia.
Anomalia? Call chegou à conclusão de que não valia a pena correr o risco de ser descoberto para ouvir algo que, de qualquer forma, ele não conseguiria entender. Assim, ele deslizou novamente para o vão entre as rochas. Ele se contorceu e saiu do outro lado com as palavras do pai martelando em sua cabeça. O que foi mesmo que ele disse?
“Quanto mais você souber sobre o mundo mágico, mais será atraído por ele... Atraído por seus conflitos ancestrais e tentações arriscadas.”
A guerra contra o Inimigo devia ser o conflito que o pai de Call mencionara.
Warren enfiou o focinho escamoso entre as barras, a língua movendo-se rapidamente no ar.
— Vamos por um novo caminho. Caminho melhor. Menos mestres. Mais seguro.
Call resmungou e seguiu as instruções de Warren. Ele começava a se perguntar se o lagarto realmente sabia para onde ia ou se apenas levava Call para os confins das cavernas. Talvez ele e Warren fossem passar o resto de suas vidas vagando por aqueles túneis sinuosos. Eles poderiam se tornar lendas para os novos aprendizes, que sussurrariam uns com os outros, aterrorizados, sobre o estudante desaparecido e seu lagarto das cavernas engaiolado.
Warren indicou a direção e Call escalou uma pilha de pedras, fazendo com que alguns cascalhos voassem. Os corredores se tornaram maiores, ziguezagueando com padrões brilhantes que confundiram a mente de Call, como se pudessem ser compreendidos apenas por quem soubesse decifrá-los. Eles passaram por uma caverna repleta de plantas subterrâneas esquisitas: grandes samambaias com folhas de pontas vermelhas enraizadas em poças de águas resplandecentes e imóveis, além de ramagens de liquens que pendiam do teto e esbarravam nos ombros de Call. Ele olhou para cima e achou ter visto um par de olhos brilhantes que desapareceram nas sombras. Ele parou.
— Warren...
— Aqui, aqui — disse o lagarto, urgindo, e moveu rapidamente a língua na direção de um portal arqueado do outro lado da sala.
Alguém cinzelou algumas palavras no alto do arco:

OS PENSAMENTOS SÃO LIVRES E NÃO OBEDECEM A NENHUMA REGRA

Além do arco, uma luz estranha bruxuleava. Call caminhou até lá, pois sua curiosidade sempre vencia. Era um brilho dourado como o do fogo, apesar de não estar mais quente quando ele atravessou o portal.
Ele se encontrava em outro espaço amplo, uma caverna que parecia descer em espiral ao longo de uma passagem íngreme e sinuosa. Ao longo das paredes havia prateleiras com milhares e milhares de livros, a maioria deles com páginas amareladas e encadernações antigas. Call foi até o centro da sala, onde o caminho íngreme tinha início, e olhou por cima da borda para o sem-fim de andares que se estendiam até lá embaixo, todos iluminados pela mesma luz dourada e circundados por mais prateleiras.
Call encontrara a Biblioteca.
E havia outras pessoas por lá. Ele pôde ouvir os ecos de uma conversa sussurrada. Mais mestres? Não. Olhando ao redor, ele viu Jasper três andares abaixo, vestido com seu uniforme cinza. Célia estava diante dele. Já devia ser muito tarde, e Call não fazia a menor ideia do que eles faziam fora de seus quartos.
Jasper tinha um livro aberto sobre a mesa de pedra. Suas mãos estavam estendidas diante do corpo. Ele dobrou e esticou os dedos repetidas vezes, rangendo os dentes e apertando os olhos, tentando forçar a magia para fora de seu corpo. Call começou a ficar com medo de que a cabeça de Jasper explodisse. E também repetidas vezes uma faísca ou uma lufada de fumaça brotaram entre os dedos do menino, mas nada além disso. Ele parecia estar prestes a soltar um grito de frustração.
Célia andava de um lado para o outro do lado oposto da mesa.
— Você me prometeu que, se eu o ajudasse, você também me ajudaria, mas já são quase duas da manhã e você ainda não me ajudou em nada.
— Nós ainda estamos na minha parte! — Jasper berrou.
— Ótimo — Célia disse, como quem enfrentava um terrível sofrimento, e se sentou em um banco de pedra. — Tente de novo.
— Preciso fazer isso direito — Jasper disse, de maneira branda. — Preciso fazer isso. Sou o melhor. Sou o melhor mago do Ano de Ferro do Magisterium. Melhor que Tamara. Melhor que Aaron. Melhor que Callum. Melhor que qualquer outro.
Call não tinha certeza se pertencia à lista de pessoas com que Jasper se preocupava por serem possivelmente melhores que ele, entretanto esse comentário o deixou lisonjeado.
Ele também ficou um pouco desapontado ao ver Célia com Jasper.
Warren se empoleirou na jaula. Call se virou para conferir o motivo daquele rebuliço.
O lagarto encarava a pintura emoldurada de um homem com olhos imensos, em tom vermelho-alaranjado e com as pupilas espiraladas. O padrão dos olhos havia sido ampliado e reproduzido ao lado do corpo do retratado.
“Um Dominado pelo Caos”, pensou Call. Um arrepio atravessou seu corpo diante daquela visão, junto com algo mais, uma sensação que ele não conseguia definir, como se coçasse do lado de dentro da cabeça ou como se sentisse fome ou sede.
— Quem está aí? — Jasper olhou para cima. Ele ergueu uma das mãos, na defensiva, ocultando parte do rosto.
Sentindo-se um idiota, Call acenou.
— Sou só eu. Estou um pouco... perdido... e, como vi uma luz vindo daqui, eu...
— Call? — Jasper se afastou do livro e agitou as mãos. — Você está me espionando! — ele berrou. — Você me seguiu até aqui?
— Não, eu...
— Você vai nos dedurar? É essa a ideia? Você vai me meter numa encrenca só para não correr o risco de eu me dar melhor do que você no próximo teste? — Jasper abriu um sorriso sarcástico, apesar de estar claramente inquieto.
— Se eu quisesse me dar melhor do que você, tudo que eu precisaria fazer é esperar pelo próximo teste — rebateu Call, incapaz de resistir.
Jasper parecia prestes a explodir.
— Vou contar para todo mundo que você saiu por aí escondido no meio da noite!
— Ótimo — disse Call. — E aí eu vou contar para todo mundo a mesma coisa sobre você.
— Você não ousaria. — Jasper agarrou as bordas da mesa.
— Você não faria isso, não é, Call? — Célia perguntou.
De repente, Call não queria mais estar ali.
Não queria estar discutindo com Jasper ou ameaçando Célia, vagando pela escuridão ou se escondendo em um canto enquanto os mestres conversavam sobre coisas que faziam com que os pelos do seu pescoço se arrepiassem. Ele queria estar na cama, pensando na conversa que teve com o pai e tentando descobrir o que Alastair quisera dizer e se havia alguma maneira de aquilo não ser tão ruim quanto parecia. Além disso, ele queria caçar debaixo da cama alguma bala de goma que por acaso tivesse caído no chão.
— Olha, Jasper — ele disse —, não peguei você no flagra de propósito. Você já deveria estar cansado de saber que ver você é realmente uma das últimas coisas que eu quero na vida.
Jasper soltou as mãos. Seu corte caro de cabelo começava a perder a forma e o cabelo lhe caía sobre os olhos.
— Você não entende? Isso torna as coisas ainda piores.
Call piscou.
— Como assim?
— Você não sabe. — As mãos de Jasper se fecharam em punhos. — Você simplesmente não sabe como é. Minha família perdeu tudo na Segunda Guerra. Dinheiro, reputação, tudo.
— Jasper, pare. — Célia ergueu os braços na direção de Jasper, tentando fazê-lo desistir daquela lenga-lenga. Não funcionou.
— E se eu me transformar em alguém — Jasper continuou —, se eu for o melhor... isso pode mudar tudo. Mas, por sua causa, estar aqui não significa nada. — Ele bateu com uma das mãos na mesa. Para surpresa de Call, faíscas saíram dos dedos de Jasper, que ergueu as mãos, encarando-as.
— Acho que você conseguiu pôr sua magia para funcionar. — A voz de Call soou estranha na sala por ser tão suave após todos os berros de Jasper. Por um segundo, os dois meninos olharam um para o outro até que Jasper se virou e Call, sentindo-se incomodado, começou a caminhar de volta para a porta da Biblioteca.
— Desculpe, Call — Célia gritou atrás dele. — Ele vai estar mais calmo amanhã de manhã.
Call não respondeu. Não era justo, ele pensou. Aaron não tinha família, Tamara tinha aqueles parentes assustadores e agora Jasper. Logo ele não teria mais ninguém para odiar sem se sentir mal por isso.
Ele pegou a gaiola e seguiu pela passagem mais próxima.
— Chega de rodeios — ele informou ao lagarto.
— Warren conhece o melhor caminho. Às vezes, o melhor caminho não é o mais rápido.
— Warren não devia falar sobre si mesmo na terceira pessoa — Call comentou, apesar de deixar que o elemental o guiasse pelo resto do caminho até seu quarto.
Quando ele ergueu uma das mãos para abrir a porta, o lagarto repetiu:
— Deixe-me sair.
Call parou.
— Você prometeu. Deixe-me sair. — O lagarto olhou para ele, implorando com seus olhos flamejantes.
Call colocou a gaiola no chão de pedra diante da porta da sala compartilhada e se ajoelhou. Quando estava prestes a abrir a portinhola, percebeu que se esquecera de uma pergunta básica, que deveria ter feito logo de cara.
— Ei, Warren, por que o Mestre Rufus deixava você preso em uma gaiola no gabinete dele?
As sobrancelha as do elemental se ergueram.
— Enganador — ele disse.
Call balançou a cabeça, sem ter muita certeza sobre a qual dos dois Warren se referia.
— O que você quer dizer com isso?
Com um suspiro, Call abriu a gaiola. O lagarto correu pela parede até um nicho repleto de teias de aranha localizado no teto.
Call mal pôde ver o fogo que ardia nas costas da criatura. O menino pegou a gaiola e a colocou atrás de um agrupamento de estalagmites, esperando poder se livrar dela de forma definitiva na manhã seguinte.
— Tudo bem, boa noite — disse Call antes de entrar. Quando o menino abriu a porta, o elemental correu na sua frente, entrando antes dele.
Call tentou enxotar o lagarto de volta para o lado de fora, mas Warren o seguiu até o quarto e se enroscou, encostando-se em uma das pedras brilhantes da parede, o que o deixou quase invisível.
— Vai passar a noite aqui? — Call perguntou.
O lagarto permaneceu tão imóvel quanto uma pedra, com os olhos vermelhos semicerrados, a língua cutucando levemente um dos lados da boca.
Call estava muito exausto para se preocupar com o fato de ter um elemental em seu quarto. Apesar de a criatura estar adormecida, aquilo podia não ser muito seguro. Ele jogou a caixa e todas as coisas que Alastair lhe enviara no chão e se enrolou na cama com uma das mãos agarrada ao bracelete do pai. Os dedos acariciaram as pedras lisas até que ele caiu no sono. Seu último pensamento antes de adormecer foram os olhos espiralados e brilhantes dos Dominados pelo Caos.

7 comentários:

  1. Só eu que acho q ele ter tirado o Warren da gaiola foi uma péssima ideia?

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    1. Concordo. Só resta ver o que ele vai aprontar (de novo...)

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  2. Será a irmã da Tamara...

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    1. Pensei a mesma coisa Nadia

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  3. O capítulo inteiro eu quis bater no Call. Espero que o Warren se torne o "bichinho de estimação" dele e não faça nada de mal.

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  4. cara esse capitulo me lembrou O Conjurador

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  5. A mim também ,anônimo ,Warren me lembrou muito o Inacio, as vezes imagino como seria se ele falasse... Bom agora tenho uma ideia

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Boa leitura :)