25 de janeiro de 2017

Capítulo dois


O Collegium, como o Magisterium, era construído de forma a ser escondido de quem não era mago. Ficava sob o litoral da Virgínia, os corredores descendo em espiral sob a água. Call já tinha ouvido falar a respeito da localização, mas mesmo assim não estava preparado para Alastair pará-lo enquanto caminhavam sobre um píer e apontar para uma grade no chão, parcialmente escondida sob folhas e sujeira.
— Se colocarem a orelha perto dela, quase sempre dá para ouvir uma palestra incrivelmente chata. Mas hoje talvez escutem música. — Apesar de não ser um discurso particularmente elogioso ao Collegium, Alastair falou aquilo com certo saudosismo.
— Mas você nunca frequentou esse lugar, certo? — perguntou Call.
— Não como aluno — respondeu ele. — Houve toda uma geração de nós que basicamente não o fez. Estávamos ocupados demais morrendo na guerra.
Às vezes Call pensava, impiedosamente, que todos deveriam ter deixado Constantine Madden quieto. Ele tinha feito experimentos terríveis, é claro, inserindo o caos nas almas de animais e criando os Dominados pelo Caos. Ele tinha reanimado os mortos, é claro, procurando uma maneira de reverter a morte e trazer seu irmão de volta. Ele estava transgredindo a lei dos magos, é claro. Mas talvez se todos o tivessem deixado em paz, muitos ainda estivessem vivos. A mãe de Call ainda estaria viva.
O verdadeiro Call também estaria, Call não pôde deixar de pensar.
Mas como não podia falar nada a respeito disso, então não disse nada a respeito de nada. Aaron estava olhando as ondas ao sol poente. Ter Aaron em casa durante as férias de verão foi como ter um irmão, uma pessoa com quem fazer piadas, alguém que estava sempre ali para assistir um filme ou destruir robôs. Mas à medida que vieram percorrendo o caminho até o Collegium, Aaron foi ficando mais quieto. Quando Alastair parou seu Rolls-Royce Phantom 1937 prateado perto da calçada e eles passaram por uma estátua grande e estranha de Poseidon, Aaron já tinha parado de falar completamente.
— Tudo bem com você? — perguntou Call enquanto caminhavam.
Aaron deu de ombros.
— Não sei. É só que eu estava preparado para ser o Makar. Eu sabia que era perigoso e fiquei assustado, é claro, mas entendia o que tinha que fazer. E quando as pessoas me davam coisas, eu entendia o motivo. Entendia o que eu devia a elas em troca. Mas agora não sei o que significa ser um Makar. Quer dizer, se não há mais guerra contra o Inimigo, isso é ótimo, mas sendo assim, o que eu...
— Chegamos — disse Alastair, parando.
Ondas quebravam nas pedras negras, lançando esguichos de água salgada e formando pequenas piscinas com espuma. Call sentiu as gotículas como uma lufada fria em seu rosto. Ele queria dizer alguma coisa para tranquilizar Aaron, mas o amigo não estava mais olhando em sua direção. Estava franzindo o rosto para um caranguejo apressado. O bicho atravessou uma trança de algas, enrolada em um pedaço de corda velha, as pontas esfarrapadas flutuando na água como o cabelo solto de alguém.
— É seguro? — Foi o que Call perguntou no fim das contas.
— Tão seguro quanto qualquer coisa relacionada a magos — disse Alastair, batendo com o pé no chão em um ritmo rápido e repetitivo. Por um instante nada aconteceu; em seguida veio um som arranhado, e um bloco quadrado de pedra deslizou lateralmente, revelando uma longa escadaria em caracol. Ela espiralava cada vez mais para baixo, como a da biblioteca do Magisterium, a única diferença é que aqui não havia fileiras de livros, apenas degraus e, ao fundo, dava para ver um pedaço quadrado do chão de mármore.
Call engoliu em seco. Qualquer um acharia a caminhada longa, mas para ele, parecia impossível. A perna estaria cheia de cãibras antes da metade do caminho. Se ele tropeçasse, seria uma queda assustadora.
— Hum — disse Call. — Acho que não consigo...
— Pode levitar — disse Aaron quietamente.
— Quê?
— Levitação é magia do ar. Estamos cercados por pedras; terra e pedra. É só empurrar e você vai se erguer. Não precisa voar, só flutuar alguns centímetros acima do chão.
Call olhou para Alastair. Ele ainda era cauteloso em relação a fazer mágica perto do pai, depois de passar tantos anos ouvindo Alastair falar que magia era uma coisa maléfica, que magos eram malvados e que queriam matá-lo. Mas Alastair, olhando para a longa escada, apenas fez que sim com a cabeça brevemente.
— Eu vou na frente — disse Aaron. — Se você cair, eu seguro.
— Ao menos vamos cair juntos. — Call começou a descer, colocando um pé cuidadosamente na frente do outro. Conseguia ouvir o barulho de vozes e de talheres tilintando num ponto bem distante abaixo. Então respirou fundo e se esforçou para tocar a força da terra: alcançá-la e atraí-la para si, depois afastá-la, como se estivesse dentro da água, se distanciando da borda de uma piscina.
Ele sentiu a puxada nos músculos e depois uma leveza quando seu corpo se elevou para o ar. Como Aaron havia instruído, ele não tentou subir mais do que alguns centímetros. Com espaço suficiente apenas para se distanciar dos degraus, Call flutuou para baixo. Apesar de querer dizer a Aaron que não ia cair, era bom saber que se isso acontecesse, alguém estaria preparado para segurá-lo.
Os passos firmes de Alastair também o tranquilizavam. Foram descendo com cuidado, Alastair e Aaron andando e Call flutuando pouco acima dos degraus. A alguns metros do fim da descida, Call foi diminuindo suavemente a altura da flutuação. Então tocou o degrau e tropeçou. Foi Alastair que se esticou para pegá-lo pelo ombro.
— Segura aí — disse ele.
— Estou bem — disse Call com mau humor, e desceu mancando rapidamente os últimos degraus.
Seus músculos doíam um pouco, mas nada como a dor que estaria sentindo se tivesse descido a pé.
Aaron, que já tinha chegado ao chão, lançou um sorriso largo para ele.
— Olha só — disse ele. — O Collegium.
— Uau! — Call nunca tinha visto nada parecido. Os ambientes do Magisterium costumavam ser magníficos, e alguns eram mesmo enormes, mas eram sempre cavernas subterrâneas talhadas em pedra natural. Aquilo ali era diferente.
Um grande salão se abria diante deles. As paredes, o chão e as colunas que sustentavam o teto eram todos de mármore branco com pontinhos dourados. Uma tapeçaria com o mapa do Collegium decorava uma das paredes. Um extenso palanque percorria uma das laterais do recinto e havia bandeirinhas multicoloridas por toda a parede atrás dele. Exibiam citações de Paracelso e de outros alquimistas famosos, impressas em letras douradas. Tudo é relacionado, dizia uma. Fogo e terra, ar e água. E tudo uma coisa só, não são quatro, nem duas, nem três, mas uma. Onde não estão juntas, nada mais são do que pedaços incompletos.
Um enorme lustre pendia do teto. Cristais espessos balançavam como lágrimas, lançando luzes em todas as direções sobre a multidão de pessoas — membros da Assembleia com túnicas douradas, Mestres do Magisterium vestidos de preto e todos os demais em seus ternos e vestidos elegantes.
— Chique — disse Alastair, num tom sombrio. — Chique até demais.
— É — disse Call. — O Magisterium é uma pocilga. Eu não fazia ideia.
— Não tem nenhuma janela — disse Aaron, olhando ao redor. — Por que não há janelas?
— Provavelmente porque estamos embaixo d’água — respondeu Call. — A pressão quebraria o vidro, não?
Antes que pudessem continuar com as especulações, o Mestre North, diretor do Magisterium, saiu do meio da multidão e veio até eles.
— Alastair. Aaron. Call. Estão atrasados.
— Trânsito submarino — disse Call.
Aaron o cutucou com o cotovelo.
O Mestre North o olhou com dureza.
— Enfim, ao menos estão aqui. Os outros estão esperando com a Assembleia.
— Mestre North — disse Alastair, com um cumprimento curto de cabeça. — Peço desculpas pelo nosso atraso, mas somos os homenageados. Não poderiam começar sem a gente, certo?
O Mestre North sorriu um sorriso discreto. Tanto ele quanto Alastair davam a impressão de que logo ficariam exaustos em virtude do esforço de agir civilizadamente.
Aaron e Call trocaram um olhar antes de seguirem os adultos pelo recinto. À medida que a aglomeração foi ficando mais densa, as pessoas começaram a pressionar o grupo, encarando Aaron e Call. Um senhor barrigudo de meia-idade pegou Call pelo braço.
— Obrigado — sussurrou o homem antes de soltá-lo. — Obrigado por matar Constantine.
— Não matei. — Call avançou com dificuldade enquanto mãos se esticavam em sua direção. Ele apertou algumas, evitou tantas, fez um high-five e então se sentiu meio bobo.
— É assim que é a sua vida o tempo todo? — perguntou para Aaron.
— Até as férias passadas não — respondeu Aaron. — Mas achei que você quisesse ser herói.
Suponho que seja melhor do que ser vilão, Call pensou, mas deixou as palavras morrerem antes de saírem da boca.
Finalmente chegaram ao local onde a Assembleia os aguardava, separada do restante da sala por cordas prateadas flutuantes, Anastasia Tarquin, uma das integrantes mais poderosas da Assembleia, conversava com a mãe de Tamara. Tarquin era extremamente alta, mais velha e tinha um denso cabelo prateado e brilhoso penteado para cima, e a mãe de Tamara tinha que esticar o pescoço para falar com ela.
Tamara estava com Célia e Jasper, os três rindo de alguma coisa. Era a primeira vez que Call via Tamara desde o começo das férias. Ela estava com um vestido amarelo luminoso que fazia sua pele morena brilhar. O cabelo caía em ondas pesadas e escuras ao redor do rosto e pelas costas. Célia tinha feito alguma coisa esquisita, elegante e complicada no cabelo louro. Vestia uma peça em tecido verde e leve feito espuma do mar e que parecia flutuar ao seu redor.
As duas viraram na direção de Call e Aaron. O rosto de Tamara se iluminou e Célia sorriu. Call se sentiu um pouco como se alguém o tivesse chutado no peito. Estranhamente, não foi uma sensação desagradável.
Tamara correu para Aaron e deu um rápido abraço nele. Célia ficou para trás como se tivesse sido atingida por um timidez súbita. Foi Jasper quem veio até Call e deu um cutucão em seu ombro, o que foi um alívio, considerando que nada no garoto fazia Call ter a sensação de que seu mundo estivesse inclinando para o lado. Jasper parecia convencido como sempre, o cabelo escuro arrepiado com gel.
— Então, como vai o sinistrão em pessoa? — Jasper sussurrou, fazendo Call se encolher. — Você é a estrela do espetáculo.
Call detestava o fato de que Jasper soubesse a verdade sobre ele. Mesmo que tivesse quase certeza de que Jasper jamais revelaria o segredo, isso não impedia que ele fizesse comentários e o provocasse em todas as oportunidades.
— Vamos — disse o Mestre Rufus. — O tempo está passando. Temos uma cerimônia a qual comparecer, querendo ou não.
Com isso, Call, Aaron, Tamara, Jasper, Mestre Rufus, Mestra Milagros e Alastair foram conduzidos ao palanque. Célia deu tchauzinho para o grupo.
Call sabia que estavam encrencados quando viu cadeiras no palanque. Cadeiras significavam cerimônia longa. Ele estava certo. A cerimônia passou em um borrão, mas foi um borrão longo e tedioso. Vários membros da Assembleia fizeram discursos sobre o quão fundamentais eles tinham sido na missão.
— Eles não teriam conseguido sem mim — disse uma integrante loura da Assembleia, que Call nunca tinha visto antes.
Mestre Rufus e Mestra Milagros foram celebrados por terem aprendizes tão magníficos. Os Rajavi foram celebrados por terem criado uma filha tão corajosa. Alastair foi celebrado por sua diligência ao liderar a expedição. Call e Aaron receberam créditos por serem os maiores heróis de sua geração.
Foram aplaudidos e beijados nas bochechas e afagados nas costas. Alastair recebeu uma medalha pesada que agora balançava em seu pescoço. Tinha começado a parecer um pouco incomodado quando se levantaram para a sexta rodada de aplausos.
Ninguém mencionou cabeças decapitadas nem todo o mal entendido em que acharam que Alastair estava trabalhando para o Inimigo, nem como ninguém no Magisterium sequer sabia que os meninos fariam parte da missão. Todos agiram como se tudo tivesse sido planejado.
Todos receberam as pulseiras do Ano de Bronze e pedras de berilo vermelhas como demonstração do valor de seu feito. Call ficou imaginando o que exatamente a pedra vermelha significava — todas as cores tinham um significado: amarelo para cura, laranja para coragem e por aí vai.
Call deu um passo à frente para que o Mestre Rufus colocasse a pedra em sua pulseira. O berilo vermelho se encaixou com um clique, como uma fechadura sendo trancada. Callum Hunt, Makar! alguém no recinto gritou. Mais alguém se levantou e gritou o nome de Aaron. Call deixou que os gritos o lavassem como uma maré descontrolada. Call e Aaron! Makaris, Makaris, Makaris!
Call sentiu uma mão esfregar seu ombro. Era Anastasia Tarquin.
— Na Europa — disse ela —, quando descobrem que alguém é mago do caos, eles não o celebram. Eles o matam.
Chocado, Call virou para encará-la, mas Anastasia já se afastava em meio à multidão de membros da Assembleia. Mestre Rufus, que claramente não tinha escutado aquilo — ninguém além de Call tinha — avançou em direção a Aaron e Call.
— Makaris — disse ele. — Isso não é apenas uma celebração. Temos algo a discutir.
— Aqui? — perguntou Aaron, claramente espantado.
Rufus balançou a cabeça.
— E hora de vocês verem algo que pouquíssimos aprendizes podem ver. A Sala de Guerra. Venham comigo.
Tamara ficou olhando para Aaron e Call com preocupação enquanto eram conduzidos em meio aos presentes.
— A Sala de Guerra? — murmurou Aaron. — Que sala é essa?
— Não sei — Call sussurrou de volta. — Achei que a guerra tivesse acabado.
Familiarizado com o lugar, Mestre Rufus os conduziu para trás das cordas flutuantes, evitando os olhares da multidão. Chegaram a uma porta na parede oposta. Era feita de bronze, navios de mastro alto navegando, canhões e explosões no mar esculpidos no metal.
Rufus abriu a porta e os três entraram na Sala de Guerra. Call ouviu sua própria voz perguntando por que não havia janelas no salão. Resposta: porque havia muitas janelas na Sala de Guerra. O chão era de mármore, mas todas as outras superfícies eram de um vidro que brilhava sob uma luz enfeitiçada.
Além dele, Call viu criaturas marinhas nadando: peixes com listras de cores brilhantes, tubarões com olhos negros como carvão e arraias nadando graciosamente.
— Uau — disse Aaron, esticando o pescoço. — Olha para cima.
Call viu a água acima deles, brilhando com a luz da superfície. Um cardume prateado passou com pressa e depois, seguindo algum sinal invisível, todos os peixes viraram aceleraram em outra direção.
— Sentem-se — disse Graves, o velho, rabugento e malvado membro da Assembleia. — Sabemos que estamos em uma comemoração, mas temos assuntos a tratar. Mestre Rufus, você e seus dois aprendizes podem se acomodar aqui. — Ele indicou as cadeiras ao seu lado.
Call e Aaron trocaram um olhar relutante antes de irem para as próprias cadeiras. O resto dos membros da Assembleia estava se organizando ao redor da mesa, conversando sobre amenidades.
Acima deles, visível através do vidro, uma enguia passou nadando e agarrou um peixe lento. Call ficou imaginando se seria um mau presságio.
Uma vez que o recinto ficou em silêncio, Graves voltou a falar:
— Graças aos esforços de nossos homenageados da noite, trataremos de um assunto muito diferente do que poderíamos ter imaginado. Constantine Madden está morto. — Ele olhou em volta como se estivesse esperando a informação ser assimilada. Call não conseguia deixar de pensar que, se a ficha ainda não tinha caído, não cairia nunca, considerando a quantidade de vezes que a frase “O Inimigo da Morte está morto!” tinha sido repetida durante a cerimônia. — Mesmo assim — Graves bateu com a mão na mesa, fazendo Call pular de susto — não podemos descansar! Constantine Madden pode ter sido derrotado, mas seu exército continua a solta. Temos que atacar agora e acabar com os Dominados pelo Caos e com todos os aliados de Constantine.
Um murmúrio percorreu o recinto.
— Ninguém conseguiu detectar qualquer sinal dos Dominados pelo Caos desde a morte de Madden.
Vários magos pareceram esperançosos com esta informação, mas Graves apenas balançou a cabeça, sombrio.
— Eles estão por aí em algum lugar. Temos que reunir equipes para caçá-los e destruí-los.
Call se sentiu um pouco enjoado. Os Dominados pelo Caos eram basicamente zumbis sem consciência, seres cuja humanidade tinha sido completamente afastada para dar lugar ao caos. Mas ele já tinha ouvido as criaturas falando. Já tinha visto elas em movimento, e até mesmo ajoelhadas diante dele. A ideia de uma pira com seus corpos em chamas fazia seu estômago embrulhar.
— E animais Dominados pelo Caos? — perguntou Anastasia Tarquin. — A maioria deles nunca serviu ao Inimigo da Morte. São apenas descendentes das infelizes criaturas que o fizeram. Ao contrário dos humanos transformados em Dominados pelo Caos, eles são seres vivos, e não corpos reanimados.
— São perigosos mesmo assim. Eu voto que exterminemos todos — disse Graves.
— Devastação não! — berrou Call antes que pudessem contê-lo.
Os membros da Assembleia viraram em sua direção. Anastasia tinha um leve sorriso no rosto, como se tivesse gostado da explosão. Ela parecia alguém que não se importava quando as coisas não saíam do jeito esperado por todos. Seu olhar desviou para Aaron, procurando pela reação dele.
— O animal de estimação dos Makaris — disse ela, olhando para Call. — Certamente Devastação pode ser poupado.
— E a Ordem da Desordem vem estudando feras Dominadas pelo Caos. Mantendo algumas em cativeiro para legitimar a pesquisa que estão fazendo — acrescentou Rufus.
A Ordem da Desordem era um pequeno grupo de magos rebeldes que viviam na floresta ao redor do Magisterium, estudando magia do caos. Call não sabia ao certo o que pensava sobre eles. Tinham tentado forçar Aaron a ficar por lá para ajudá-los em seus experimentos com o caos. Também não tinham sido gentis em relação a isso.
— Sim, sim — disse Graves, dispensando aquela informação. — Talvez alguns possam ser preservados, apesar de eu nunca ter gostado muito da Ordem da Desordem, como bem sabem. Precisamos ficar de olho nessa gente, para ter certeza de que nenhum dos conspiradores de Constantine esteja se escondendo entre eles. E precisamos encontrar Mestre Joseph. Não podemos esquecer de que ele ainda é perigoso e certamente tentará usar o Alkahest contra nós.
Anastasia Tarquin fez uma breve anotação. Muitos outros magos cochicharam entre si; alguns estavam sentados com a coluna muito reta, tentando parecer importantes. Mestre Rufus assentia, mas Call desconfiava de que ele também não gostava muito de Graves.
— Por fim, temos que nos certificar de que Callum Hunt e Aaron Stewart utilizem suas habilidades de Makar a serviço da Assembleia e da comunidade de magos como um todo. Mestre Rufus, é fundamental que você nos forneça relatos regulares a respeito dos estudos destes jovens, à medida que forem avançando nos anos de Bronze, Prata e Ouro, preparando-se para o Collegium.
— Eles são meus aprendizes. — Mestre Rufus ergueu uma sobrancelha. — Preciso ter autonomia para ensiná-los da forma que achar melhor.
— Podemos discutir isso mais tarde — disse Graves. — Antes de serem alunos do Magisterium, eles são Makaris. Seria bom que tanto você quanto eles se lembrassem disso.
Aaron lançou um olhar preocupado a Call. Mestre Rufus parecia ameaçador.
Graves continuou.
— Em virtude da proximidade do Magisterium com a maioria dos animais Dominados pelo Caos, vamos esperar que a escola tome iniciativa em relação à ideia de destruí-los ou não.
— Não é possível que você espere que os alunos do Magisterium passem o tempo de aula assassinando animais — protestou Mestre Rufus, levantando. — Sou fortemente contrário a essa sugestão. Mestre North?
— Concordo com Rufus — disse Mestre North após uma pausa.
— Não são animais. São monstros — argumentou Graves. — A floresta nos arredores do Magisterium é habitada há anos por vários deles e até o momento não tratamos a situação com a seriedade devida, já que o Inimigo sempre poderia ter feito coisas piores. Mas agora... agora temos uma chance de exterminá-los.
— Eles podem ser monstros — disse Rufus —, mas se parecem com animais. E há aqueles, como Devastação, que nos fazem parar e pensar se não poderiam ser salvos em vez de destruídos. Certamente todo o mundo dos magos tem interesse em que nossos alunos aprendam a ser misericordiosos. Constantine Madden — acrescentou ele, com a voz baixa — nunca foi.
Graves lançou a ele um olhar cheio de algo que se parecia muito com ódio.
— Tudo bem — disse ele com a voz entrecortada. — A remoção dos animais Dominados pelo Caos será feita por uma equipe liderada por mim e por outros integrantes da Assembleia. Por favor, não espere que eu receba qualquer reclamação sobre como estamos ocupando a floresta onde seus alunos treinam. Isso é mais importante que a sua escola.
— É claro — disse o Mestre Rufus, ainda com a mesma voz baixa. Call tentou captar seu olhar, mas Rufus estava imperturbável.
— Isso nos deixa com um último tópico de discussão — disse Graves. — O espião.
Desta vez o murmúrio que correu pela mesa foi de fato muito alto.
— Temos motivo para acreditar que há um espião no Magisterium — declarou Graves. — Alguém libertou o monstro elemental Automotones e o enviou para assassinar o Makar Aaron Stewart.
Todos olharam para Call e Aaron.
— Sim — disse Call. — Isso aconteceu.
Graves fez que sim com a cabeça.
— Vamos colocar diversas armadilhas contra espiões na escola e Anastasia vai ficar de guarda nos túneis onde os grandes elementais são mantidos. O espião será pego, e cuidaremos dele.
Armadilhas contra espiões?, disse Aaron para Call apenas com o movimento dos lábios. Call tentou não rir, porque o que ele estava imaginando era um grande buraco no chão escondido com papéis importantes ou coisa do tipo. Mas considerando que, para variar, a Assembleia e o Magisterium pareciam ter um plano para cuidar do verdadeiro perigo, talvez Call pudesse passar seu Ano de Bronze apenas aprendendo coisas e se envolvendo em encrencas normais e divertidas, em vez das que acabam com o mundo e tudo mais.
Desde que mantivesse Devastação longe da floresta e dos assassinos de animais.
Desde que o Mestre Joseph não voltasse.
Desde que realmente não houvesse nada de errado com sua alma.

19 comentários:

  1. Respostas
    1. Eu também :v

      Daria um ótimo par, os dois são tão fofos !

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    2. Siiimm, desde o começo o Aaron sempre foi tããão fofo com o Call...queria muito que eles ficassem juntos *-*

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    3. Também ahippo eles :3

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    4. Eu shippo pouquíssimos casais gays (Malec <3) mas Aaron e Call foi instantâneo. É uma pena que eu ache que não vão ficar juntos, o Call provavelmente vai acabar com a Tamara ou algo assim. Mas tudo bem, pq acho a Tamara e o Call bonitinhos também, só que Aaron e Call é OTP.

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    5. CALL VAI TERMINAR E COM A CELIA

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    6. Call e Celia mas nem a pau juvenal

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    7. Eu shippo Call e Celia ._.

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    8. Shippo mais o Call com o Aaron... foi meio que instantaneo, e olha que eu achei que era o unico que shippava eles.. kkkk

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    9. Não gosto muito da Celia... me lembra a Gina dos filmes do Harry Potter... Sorry baby!

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    10. Eu sou totalmente fujoshi, e shippo muito Aaron e Call, mas acho que o Call vai terminar com a Célia e o Aarom com a Tamara, ou algo assim.
      Ah não ser que eles se admitam gays, tipo o Alec. Aí essa série ia ser minha favorita.

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  2. Se a asembleia destruir os animais dominados pelo caosque sejam como o Devastação, eu juro pelo anjo que mato a autora do livro!! Nem que tenha de a preseguir pelo tartaro!!

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  3. Quando falaram de Poseidon eu imaginei um cara barbudo com uma camisa com estampa de flores, bermuda e sentado em uma cadeira de couro com uma vara de pescar...

    O que Percy Jackson não faz com nossas cabeças?

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  4. talvez Call pudesse passar seu Ano de Bronze apenas aprendendo coisas e se envolvendo em encrencas normais e divertidas, em vez das que acabam com o mundo e tudo mais.
    Desde que mantivesse Devastação longe da floresta e dos assassinos de animais.
    Desde que o Mestre Joseph não voltasse.
    Desde que realmente não houvesse nada de errado com sua alma.

    São muitos "desde que" Call

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  5. E outra você é um protagonista
    Nunca poderá ter um ano escolar normal
    Como Harry, Percy, Amy, Dan e tantos outros já provaram

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Boa leitura :)