20 de janeiro de 2017

Capítulo dois


Call não conseguia desviar o olhar das algemas. O coração parecia pequeno demais em seu peito, batendo desesperadamente, sem fazer o sangue circular pelas veias. As algemas feitas de ferro, com símbolos alquímicos gravados — claramente o trabalho de um mago —, estavam cravadas na parede atrás deles. Uma vez que prendessem alguém, seriam impossíveis de abrir...
Atrás de Call, Devastação emitiu um ruído choroso. Call se forçou a desviar o olhar e se concentrou em libertar o lobo. A focinheira saiu com facilidade, mas, assim que o menino a retirou, Devastação começou a latir descontroladamente, como se estivesse tentando contar a Call como acabou acorrentado no porão.
— Shhhh — pediu Call em pânico, agarrando o focinho de Devastação, tentando mantê-lo quieto. — Não acorde o papai.
Devastação ganiu enquanto Call tentava se recompor. O piso do depósito era de concreto, e Call esticou o braço para extrair um pouco da magia da terra a fim de romper as correntes do lobo. A magia, quando veio, pareceu fraca: a concentração de Call estava dispersa, e ele sabia disso. Simplesmente não conseguia acreditar que o pai encenou a tristeza pelo sumiço de Devastação, que o levou para dar voltas pela rua e deixou que chamasse pelo lobo, embora soubesse o tempo todo onde ele estava, depois de tê-lo acorrentado no porão.
Exceto que seu pai não podia ter acorrentado Devastação pessoalmente.
Alastair esteve com o filho o tempo todo. Então devia ter sido outra pessoa. Um amigo do pai? A mente de Call disparou. Alastair não tinha amigos.
Seu coração também se acelerou ao pensar nisso, e a intensa combinação de medo e magia arrebentou a corrente de Devastação. O lobo estava livre. Call correu para o outro lado da adega até a mesa de Alastair e pegou os papéis espalhados sobre o tampo. Estavam todos preenchidos pela caligrafia do pai: páginas de anotações e desenhos. Havia um esboço dos portões do Magisterium, de um prédio de pilares, que Call não conhecia, e do hangar onde foi realizado o Desafio de Ferro. Mas a maioria dos desenhos era de uma estranha coisa mecânica, que parecia a luva de uma antiga armadura de metal, coberta por símbolos estranhos. Teria sido legal se alguma coisa naquilo não tivesse causado arrepios na espinha de Call.
Os desenhos estavam ao lado de um livro que explicava um ritual bizarro e perturbador. O tomo era coberto por couro preto rachado, e seu conteúdo, horripilante. Explicava como a magia do caos podia ser colhida e utilizada por alguém que não fosse Makar — através da remoção do coração ainda pulsante de uma criatura Dominada pelo Caos. Uma vez que a pessoa estivesse em posse da manopla e do coração, a magia do caos podia ser arrancada de um Makar, destruindo-o completamente.
Porém, se essa pessoa não fosse um mago do caos, se não fosse um Makar, ela sobreviveria.
Olhando para as algemas na cama, Call deduziu quem serviria de cobaia para o experimento. Alastair se valeria do caos para executar uma forma obscura de cirurgia mágica em Call, uma que poderia matá-lo se ele realmente fosse o Inimigo da Morte e possuísse as habilidades do Makar do Inimigo.
Call achava que Alastair desconfiava da verdade sobre ele, mas, ao que parecia, ele já estava além da desconfiança. Mesmo que Call sobrevivesse à cirurgia mágica, sabia que aquele se tratava de um teste no qual fracassaria. Ele possuía a alma de Constantine Madden, e o próprio pai o queria morto por isso.
Ao lado do livro, havia um bilhete na letra de Alastair: Tem de funcionar com ele. Precisa funcionar. “Precisa” estava sublinhado várias vezes e, ao seu lado, uma data de setembro.
Era a data em que Call voltaria ao Magisterium. As pessoas da cidade sabiam que ele passaria o verão em casa, e provavelmente imaginariam que ele retomaria para a escola de balé, exatamente como as outras crianças voltavam para a escola pública. Se Call simplesmente desaparecesse em setembro, ninguém acharia nada de estranho nisso.
Call olhou para as algemas novamente. Sentiu-se nauseado. Só faltavam duas semanas para setembro.
— Call.
Call se virou. O pai estava na porta, ainda vestido com as mesmas roupas, como se jamais houvesse planejado dormir. Os óculos estavam apoiados no nariz. Ele parecia totalmente normal e um pouco triste. Call o encarou, incrédulo, enquanto o pai esticava a mão para ele.
— Call, não é o que você pensa...
— Diga que não mandou trancarem Devastação aqui. — sussurrou Call. — Diga que nenhuma dessas coisas é sua.
— Não fui eu quem o acorrentou. — Foi a primeira vez que Alastair não se referiu a Devastação como coisa. — Mas meu plano é necessário, Call. É por você, para seu próprio bem. Existem pessoas terríveis no mundo, e elas farão coisas com você. Elas irão usá-lo. Não posso permitir.
— E para evitar isso você fará uma coisa terrível antes?
— É para seu próprio bem!
— ISSO é mentira! — gritou Call. Ele soltou Devastação, que rosnou. As orelhas estavam grudadas na cabeça, e o lobo olhava fixamente para Alastair com as pupilas multicoloridas. — Tudo que você já me disse na vida é mentira. Mentiu sobre o Magisterium...
— Não menti sobre o Magisterium! — Alastair se irritou. — Era o pior lugar para você. É o pior lugar para você!
— Porque você acha que sou Constantine Madden! — berrou Call. — Você acha que sou o Inimigo da Morte!
Foi como se ele tivesse contido um tornado: fez-se um silêncio súbito e carregado, horrível. Nem Devastação emitiu qualquer som enquanto a expressão de Alastair ruía e seu corpo caía contra a porta. Quando respondeu, falou de forma muito suave. Foi pior, de certa forma, que a raiva.
— Você é Constantine Madden, não é?
— Não sei! — Call se sentiu perdido, desolado. — Não me lembro de ser ninguém que não eu mesmo. Mas, se realmente sou ele, então você deveria me ajudar a saber o que fazer com isso. Em vez disso, está amarrando meu cachorro e...
Call olhou para as algemas de seu tamanho e engoliu o resto das palavras.
— Quando vi o lobo, foi então que eu soube. — Alastair manteve o mesmo tom baixo de voz. — Antes eu suspeitava, mas conseguia me convencer de que você não podia ser como ele. Mas Constantine tinha um lobo exatamente como Devastação quando tínhamos sua idade. O lobo o acompanhava a todos os cantos. Exatamente como Devastação faz com você.
Call sentiu um tremor lhe atravessar a pele.
— Você disse que era amigo de Constantine.
— Éramos parte do mesmo grupo de aprendizes. Tutelados pelo Mestre Rufus. — Aquilo era mais do que Alastair jamais havia compartilhado sobre seu tempo no Magisterium. — Rufus escolheu cinco alunos em meu Desafio de Ferro. Sua mãe. O irmão dela, Declan. Constantine Madden. O irmão de Constantine, Jericho. E eu. — Era dolorido para Alastair contar aquelas coisas para o filho, Call conseguia perceber. — Ao final de nosso Ano de Prata, só quatro de nós estavam vivos, e Constantine já começara a usar a máscara. Cinco anos depois, todos tinham morrido, exceto eu e ele. Depois do Massacre Gelado, ele raramente voltou a ser visto.
Foi no Massacre Gelado que a mãe de Call morreu. E sua perna acabou destruída. Quando Constantine removeu a alma do menino chamado Callum Hunt e inseriu a própria no corpo da criança. Mas essa nem era a pior parte do que Call sabia. A pior coisa foi o que o Mestre Joseph contou sobre sua mãe.
— Sei o que ela escreveu na neve — revelou Call. — Ela escreveu “Mate a criança”. Estava falando de mim.
O pai não negou.
— Por que não me matou?
— Call, eu jamais machucaria você...
— Sério? — Call pegou um dos desenhos da luva. — O que é isso? Para que ia usar isso? Jardinagem?
A expressão de Alastair se tornou sombria.
— Call, me dê isso aqui.
— Você ia me acorrentar para eu não fazer nada enquanto você arrancasse o coração do Devastação? — Call apontou para as algemas. — Ou para eu não resistir quando fizesse o mesmo comigo?
— Não seja ridículo!
Alastair deu um passo à frente, e foi então que Devastação avançou, rosnando. Call gritou, e Devastação tentou se conter no meio de um pulo, girando desesperadamente. Bateu na lateral de Alastair, jogando-o para trás. O pai de Call caiu sobre uma pequena mesa, que quebrou. Lobo e homem rolaram no chão.
— Devastação! — repetiu Call aos berros.
O lobo rolou de cima de Alastair e voltou para seu lugar ao lado de Call, ainda rosnando. Alastair se pôs de joelhos e se levantou devagar, sem muito equilíbrio.
Call foi automaticamente na direção do pai. Alastair olhou para ele, e havia algo no rosto do pai que o garoto jamais esperou ver: Medo.
Aquilo deixou Call furioso.
— Vou embora — disparou. — Eu e Devastação vamos embora e nunca mais vamos voltar. Você perdeu a chance de nos matar.
— Call! — Alastair levantou uma das mãos em alerta. — Não posso permitir que faça isso.
Call ficou imaginando se Alastair sempre sentiu alguma coisa estranha quando olhava para ele, alguma sensação horrível de que havia algo errado. Sempre pensou em Alastair como seu pai, mesmo depois do que o Mestre Joseph contou, mas era possível que Alastair não pensasse mais em Call como seu filho.
Call olhou para a faca que tinha nas mãos. Lembrou-se do dia do Desafio e ficou imaginando se Alastair teria jogado a faca para ele, ou neleMate a criança. Lembrou-se de Alastair escrevendo a Mestre Rufus para pedir que interditasse a magia de Call. De repente, as ações de Alastair começaram a fazer um sentido horrível.
— Pode ir. — disse Call a Devastação, apontando com a cabeça para a porta que levava à bagunça que era o resto do porão. — Vamos sair daqui.
Devastação se virou e foi embora. Call começou a seguir cuidadosamente o lobo.
— Não! Você não pode ir! — Alastair pulou para cima de Call, agarrando-o pelo braço. O pai não era um homem grande, mas era esguio, alto e rijo. Call escorregou e caiu feio no concreto, aterrissando de mal jeito sobre as pernas. Sentiu a dor subir pelo corpo, fazendo com que a visão se tomasse turva. Acima dos latidos de Devastação, Call ouviu o pai dizendo: — Você não pode voltar ao Magisterium. Tenho de resolver isso. Prometo que vou resolver isso...
Você está dizendo que vai me matar, pensou Call. Está dizendo que meu problema se resolverá quando eu morrer.
Call foi dominado pela fúria, por todas as mentiras que Alastair contou e continuava contando até aquele momento, pelo nó de pavor que carregava dentro de si desde que o Mestre Joseph revelou quem ele realmente era, pela ideia de que todos de quem gostava poderiam odiá-lo se soubessem.
A raiva transbordou do menino. A parede atrás de Alastair de repente estalou, uma rachadura se espalhou pela lateral, e tudo no recinto começou a se mover. A mesa de Alastair voou contra uma parede. A cama explodiu junto ao teto.
Alastair olhou em volta, espantado, exatamente quando Call lançou magia na direção do pai. Alastair voou pelo ar e bateu contra a parede rachada, a cabeça fez um barulho horrível antes do corpo inteiro cair, flácido, no chão.
Call se levantou, trêmulo. Alastair estava inconsciente, imóvel, os olhos fechados. O garoto aproximou-se um pouco mais e encarou o corpo. O peito do pai ainda subia e descia. Continuava respirando.
Permitir que a raiva escapasse tanto ao controle a ponto de derrubar o próprio pai com magia definitivamente entrava na coluna ruim da lista de Suserano do Mal.
Call sabia que precisava sair da casa antes que Alastair acordasse. Cambaleou para fora da sala, empurrando a porta a fim de fechá-la atrás de si; Devastação o seguia de perto.
No porão havia um baú de madeira, cheio de quebra-cabeças e velhos jogos de tabuleiro com peças faltando, ao lado de uma estranha composição de cadeiras quebradas. Call empurrou tudo aquilo para a porta da adega. Pelo menos atrasaria Alastair, pensou, ao subir as escadas.
Correu para o quarto e vestiu um casaco sobre o pijama, colocando os pés em um par de tênis. Devastação o rodeou, latindo suavemente, enquanto o menino enchia uma bolsa de pano com algumas roupas escolhidas a esmo. Em seguida, foi para a cozinha e pegou várias batatinhas e biscoitos. Esvaziou a lata em cima da geladeira, onde Alastair guardava o dinheiro das compras — mais ou menos quarenta dólares em notas amassadas de cinco e de um. Enfiou tudo na bolsa, guardou Miri na bainha e colocou a faca sobre seus outros pertences antes de fechar o zíper.
Colocou a bolsa sobre um dos ombros. A perna doía, e ele estava meio trêmulo por conta da queda e do recuo da magia que ainda ecoava por seu corpo.
A luz do luar entrava pelas janelas e iluminava todo o recinto com um brilho branco. Call olhou em volta, imaginando se algum dia voltaria a ver a cozinha, a casa ou o pai.
Devastação ganiu, as orelhas abaixadas. Call não conseguia ouvir nada, mas isso não significava que Alastair não estava acordando. Afastou os pensamentos desobedientes, agarrou os pelos do pescoço de Devastação e saiu da casa sem fazer barulho.


As ruas da cidade estavam vazias sob a escuridão das primeiras horas do dia, mas Call se manteve nas sombras mesmo assim, caso Alastair resolvesse sair de carro procurando por ele. O sol nasceria em breve.
Mais ou menos vinte minutos após a fuga, seu telefone tocou. Quase saltou para fora do próprio corpo antes de conseguir silenciá-lo.
A tela informava que a ligação vinha de casa. Alastair definitivamente estava acordado e tinha saído do porão. O alívio sentido por Call logo se transformou em puro medo. Alastair ligou outra vez. E mais uma.
Call desligou o celular e o jogou fora, caso o pai pudesse rastrear sua localização como os detetives da TV.
Precisava decidir para onde ir — e rápido. As aulas no Magisterium só começariam em duas semanas, mas sempre havia alguém por perto. Tinha certeza de que Mestre Rufus o deixaria ficar em seu velho quarto até Tamara e Aaron aparecerem; e o protegeria contra o pai se fosse necessário.
Então Call se imaginou apenas com as companhias de Devastação e de Mestre Rufus, andando pelas cavernas ecoantes da escola. Pareceu-lhe deprimente. Para completar, ele não sabia como poderia chegar sozinho a um sistema de cavernas remotas na Virgínia. Foi uma estrada longa e empoeirada até a Carolina do Norte no velho Rolls Royce de Alastair no início do verão, uma viagem que ele não tinha ideia de como refazer.
Tinha trocado mensagens com os amigos, mas não sabia onde Aaron ficava quando não estava na escola; Aaron era meio misterioso quanto à própria localização. A família de Tamara vivia nos arredores de Washington. De qualquer forma, Call tinha certeza de que havia mais ônibus para Washington que para qualquer local próximo ao Magisterium.
Já estava com saudades do telefone.
Tamara tinha mandado um presente adiantado pelo seu aniversário — uma coleira de couro e uma guia para Devastação —, e o pacote veio com o endereço do remetente. Ele se lembrava do endereço porque a casa tinha um nome, As Arestas, e Alastair riu porque disse que era isso que pessoas ricas faziam, davam nomes às próprias casas.
Call poderia ir até lá.
Com mais propósito do que vinha sentindo em semanas, Call seguiu para a rodoviária. Era uma pequena construção com dois bancos do lado de fora e uma saleta climatizada, na qual uma senhora se sentava e entregava bilhetes por trás do vidro. Um senhor já estava sentado em um dos bancos, o chapéu inclinado sobre a cabeça, como se estivesse tirando um cochilo.
Mosquitos zumbiam pelo ar enquanto Call se aproximava da senhora.
— Humm — começou Call. — Preciso de uma passagem de ida para Arlington.
Ela o olhou fixamente, contraindo os lábios cobertos por uma camada de batom.
— Quantos anos você tem? — perguntou a senhora.
— Dezoito. — Ele torceu para que houvesse soado confiante. Parecia muito possível que ela não fosse acreditar nele, mas às vezes as pessoas mais velhas não eram muito boas em avaliar a idade dos outros. Ele tentou se espichar de um jeito que o deixasse mais alto.
— Humm — declarou ela, afinal. — Quarenta dólares para uma passagem sem reembolso, preço adulto. Está com sorte, seu ônibus sai em meia hora. Mas não permitimos cães, a não ser que seja um cão-guia.
— Ah, sim. — Call olhou rapidamente para Devastação. — Ele é um cão de serviço. Inclusive, realmente prestou serviço, serviu à Marinha, para falar a verdade.
As sobrancelhas da mulher se ergueram.
— Ele salvou um homem. — Call arriscou a história enquanto contava o dinheiro e o entregava para a mulher. — De um afogamento. E tubarões. Bem, só um tubarão, na verdade, mas era bem grande. Ele recebeu uma medalha e tudo.
Ela o encarou longamente, em seguida olhou para a postura de Call.
— Então você precisa de um cachorro para ajudar com sua perna, certo? Bastava ter dito. — Ela deslizou o bilhete para ele.
Envergonhado, Call pegou o papel e se virou sem responder. A compra custou quase todo o seu dinheiro, deixando-o apenas com um dólar e algumas moedas.
Com isso, ele comprou dois chocolates na máquina e sentou para esperar o ônibus. Devastação deitou ao seu lado.
Assim que chegasse à casa de Tamara, prometeu a si mesmo, as coisas iriam melhorar. Ficaria tudo bem.

6 comentários:

  1. Meu Deus, esse livro me lembra muito Harry Potter... e o Devastação me lembra o Sinistro

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  2. ESSE LIVRO E MUITO LOCO GAMEI
    KKKKK

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  3. Amei,passei horas procurando esse livro.

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  4. Não sei como ele não está desesperado
    Ass:Milly *-*

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  5. Imagino ele chegando na casa da amiga de pais esnobes com um lobo e parecendo um mendigo, que é o como aparentam pessoas depois de muito tempo em um ônibus, pelo menos eu. Essa velha é cega, doida?

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  6. Gente, o pai do Call disse " Não foi eu que o prendeu" então quem foi?

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Boa leitura :)