16 de janeiro de 2017

Capítulo dois


Havia apenas meia dúzia de magos, mas eles pareciam preencher todo o espaço com suas presenças. Call não tinha certeza de como pensou que seria — ele sabia que o pai era um mago e tinha uma aparência bastante comum, se é que usar um paletó de tweed pudesse ser considerado uma coisa comum. Call imaginava que os outros magos tivessem uma aparência mais estranha. Talvez usassem chapéus pontudos. Ou, quem sabe, capas com estrelas prateadas. Ele esperava que alguém tivesse a pele esverdeada.
Para seu desapontamento, eles pareciam completamente normais. Eram três mulheres e três homens, todos usavam roupas largas, mangas compridas e túnicas negras acinturadas sobre calças feitas do mesmo tecido.
Os magos ostentavam argolas de metal e couro ao redor dos pulsos, mas Call não sabia dizer se havia algo de especial nelas ou se aquilo simplesmente estava na moda.
O mais alto dos magos, um homem grande, de ombros largos, nariz aquilino e cabelo desgrenhado permeado por algumas tranças prateadas, deu um passo à frente e se dirigiu às famílias nas arquibancadas.
— Bem-vindos, aspirantes, e bem-vindas, famílias dos aspirantes, à tarde mais importante da vida de seus filhos.
“Está certo”, Call pensou. “Quem falou mesmo em pressão?”
— Todos eles sabem que estão aqui para tentar uma vaga em uma escola de magos? — ele perguntou baixinho.
O pai negou com a cabeça.
— Os pais acreditam naquilo em que querem acreditar e ouvem aquilo que querem ouvir. Se eles querem que o filho seja um atleta famoso, acreditam que ele vai para um programa de treinamento. Se esperam que a filha seja uma neurocirurgiã, isto aqui é a introdução da introdução do curso de medicina. Se eles querem que os filhos sejam milionários, então acreditam que essa é uma espécie de escola preparatória onde eles confraternizarão com os ricos e poderosos.
O mago prosseguiu, explicando o que aconteceria naquela tarde, quanto tempo levaria.
— Alguns de vocês viajaram uma longa distância para dar essa oportunidade aos seus filhos, e nós queremos agradecê-los pelo esforço...
Call podia ouvi-lo, mas também escutava outra voz, que parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo.
Quando o Mestre North acabar seu discurso, todos os aspirantes devem se levantar e ir até a frente. O Desafio está prestes a começar.
— Você ouviu isso? — Call perguntou ao pai, que assentiu. Call olhou ao redor para o rosto das pessoas, todos eles voltados para os magos. Alguns se mostravam apreensivos, outros sorriam. — E o resto dos garotos?
O mago — que Call supôs que deveria ser o Mestre North, de acordo com as palavras da voz imaterial — terminava seu discurso. Call sabia que devia começar a descer as escadas, já que demoraria mais tempo que os outros para isso. Porém, queria descobrir a resposta.
— Qualquer um com o mínimo de poder é capaz de ouvir o Mestre Phineus, a maioria dos aspirantes já teve algum tipo de acontecimento mágico antes. Alguns até imaginam o que são, outros já têm certeza e o resto está prestes a descobrir.
Houve uma confusão de crianças que se levantavam, fazendo a arquibancada tremer.
— Então esse é o primeiro teste? — Call perguntou ao pai. — Se conseguimos ouvir o Mestre Phineus?
O pai mal parecia registrar o que Call dizia.
Ele parecia distraído.
— Acho que sim. Porém, os outros testes serão muito piores. Basta lembrar do que eu lhe disse e tudo estará acabado em breve. — Ele pegou os pulsos de Call, o que o deixou bastante surpreso. Call sabia que o pai se importava com ele, mas na maior parte do tempo não era o tipo de cara que costumava trocar carinhos físicos. Ele pegou as mãos de Call, mas as largou mais do que depressa. — Agora vá.
Enquanto Call descia as arquibancadas, as outras crianças eram separadas em grupos.
Uma das magas fez um gesto para que Call se juntasse ao último grupo. Todos os outros aspirantes sussurravam uns com os outros, parecendo nervosos, ainda que tomados pela ansiedade. Call viu Kylie Myles a dois grupos dele. Ele imaginou se não deveria gritar para Kylie que ela não estava ali para nenhum teste de balé, mas a garota dava risadinhas e conversava com outros aspirantes. Assim, de qualquer forma, ele nem tinha certeza se ela chegaria a ouvi-lo.
“Testes da escola de balé”, ele pensou, sombrio. “Foi assim que eles fisgaram você.”
— Eu sou a Mestra Milagros — a maga que orientara Call começou a dizer enquanto liderava habilmente os garotos para fora do salão por um corredor longo, pintado de uma cor insossa. — Neste primeiro teste, todos vocês ficarão juntos. Por favor, fiquem atrás de mim de forma ordenada.
Call, que já estava quase ficando para trás, acelerou um pouco o passo para alcançá-los. Ele sabia que atrasos seriam provavelmente uma vantagem se queria que achassem que ele não dava a mínima para os testes ou não sabia o que estava fazendo, mas ele odiava os olhares que recebia quando ficava para trás.
Na verdade, ele correu tão depressa que acidentalmente esbarrou no ombro de uma bela menina com olhos grandes e escuros.
Ela lhe lançou um olhar irritado sob a cortina ainda mais escura formada por seus cabelos.
— Desculpe — Call disse automaticamente.
— Todos nós estamos nervosos — a garota retrucou, o que era engraçado, porque ela não parecia nada nervosa. A aparência dela era totalmente controlada. As sobrancelhas estavam perfeitamente arqueadas. Não havia nem mesmo uma sombra de poeira no suéter cor caramelo e no jeans, que parecia ter custado caro. Ela usava um delicado pingente filigranado em forma de mão que ele reconheceu de suas visitas a lojas de antiguidade. Chamava-se a Mão de Fátima. Os brincos de ouro em suas orelhas pareciam já terem pertencido a uma princesa, se não a uma rainha. Call se sentiu imediatamente paranoico, como se estivesse coberto de sujeira.
— Ei, Tamara! — disse um menino asiático alto, com um corte de cabelo desgrenhado feito a navalha, e a menina se virou para o outro lado. O garoto disse algo que Call não entendeu, com um sorriso de desdém no rosto enquanto falava, e Call se perguntou, preocupado, se o garoto não tinha comentado o fato de ele ser um aleijado que não conseguia deixar de esbarrar nas pessoas. Como o monstro de Frankenstein. O ressentimento fervilhava em seu cérebro, em especial depois que Tamara parou de olhar para ele, como se percebesse sua perna e todo o resto. Ela devia ter ficado irritada com ele, pois tinha achado que Call era um garoto normal. Ele lembrou para si mesmo que, assim que falhasse nos testes, nunca mais teria de ver aquelas pessoas novamente.
E também que elas iriam morrer debaixo da terra.
Esse pensamento fez com que ele continuasse a seguir por uma interminável série de corredores até uma grande sala branca com várias carteiras organizadas em filas. Parecia qualquer outra sala onde Call já havia realizado provas. As mesas eram simples, feitas de madeira e presas a cadeiras bambas. Sobre cada carteira havia um livro azul com uma etiqueta com o nome de cada um dos aspirantes e uma caneta. Houve certo rebuliço enquanto todos iam de mesa em mesa em busca de seus lugares. Call encontrou o dele na terceira fileira e escorregou para o assento, atrás de um menino de cabelo claro e ondulado usando uma jaqueta de um time de futebol. Ele parecia mais um esportista do que um candidato a uma escola de magia. O garoto sorriu para Call, como se estivesse genuinamente feliz por se sentar perto dele.
Call não se deu ao trabalho de sorrir de volta. Ele abriu o livro azul, olhando de relance para as questões e os círculos em branco com as opções A, B, C, D e E. Call esperava que o teste fosse assustador, mas, ao que tudo indicava, o único perigo era morrer de tédio.
— Por favor, mantenham seus livros fechados até o início do teste — informou a Mestra Milagros na frente da sala. Ela era alta e uma mestra que parecia ser muito jovem. Fazia com que Call se lembrasse um pouco de uma de suas professoras do colégio. Ela tinha o mesmo nervosismo incômodo, como se não estivesse acostumada a passar muito tempo com crianças. O cabelo dela era preto e curto, com uma mecha cor-de-rosa.
Call fechou o livro e olhou ao redor, se dando conta de que tinha sido a única pessoa que o abrira. Decidiu que não contaria ao pai sobre quão fácil havia sido parecer um peixe fora d’água.
— Antes de mais nada, quero que todos sejam muito bem-vindos ao Desafio de Ferro — a Mestra Milagros continuou, limpando a garganta. — Agora que vocês estão longe de seus guardiões, podemos explicar com mais detalhes o que acontecerá hoje. Alguns aspirantes receberam convites para uma audição em uma escola de música, outros, para escolas cujo foco é Astronomia, Matemática avançada ou Hipismo. Mas, como vocês já devem ter percebido, na verdade estamos avaliando sua aceitação no Magisterium.
Ela ergueu os braços e as paredes pareceram cair. Em seu lugar, surgiram rochas brutas. Os garotos permaneceram em suas carteiras, porém o chão debaixo deles se tornou uma pedra salpicada de mica, de forma que parecia que alguém havia jogado purpurina sobre ela. Estalactites brilhantes pendiam do teto como pingentes de gelo.
O menino loiro prendeu a respiração. Por toda a sala Call ouvia exclamações sussurradas de espanto.
Era como se estivessem dentro das cavernas do Magisterium.
— Que legal — disse uma menina bonita que tinha contas brancas nas pontas dos cabelos presos em tranças.
Naquele momento, apesar de tudo que o pai havia lhe dito, Call quis entrar no Magisterium.
Aquela não parecia mais ser uma experiência sinistra ou assustadora, mas algo incrível. Como ser um explorador ou ir para outro planeta. Ele se lembrou das palavras do pai: “Os magos instigarão você com belas ilusões e mentiras elaboradas. Não caia na conversa deles.”
A Mestra Milagros continuou. Sua voz adquiria mais confiança.
— Alguns de vocês são estudantes com um legado, pois seus pais ou outros membros da família também frequentaram o Magisterium. Outros foram escolhidos porque acreditamos que têm potencial para se tornarem magos. No entanto, ninguém tem vaga garantida. Apenas os mestres sabem o que torna um candidato perfeito.
Call levantou uma das mãos e, sem esperar ser chamado, perguntou:
— E se a pessoa não quiser ir?
— Por que alguém não iria querer ir para uma escola de pôneis? — questionou um menino com uma desgrenhada cabeleira castanha, sentado diagonalmente em relação a Call. Ele era pequeno e pálido, com pernas longas e esqueléticas e braços que se avantajavam pelas mangas de uma camiseta azul com a estampa desbotada de um cavalo.
A Mestra Milagros parecia tão irritada que se esquecera do nervosismo.
— Drew Wallace, esta não é uma escola de pôneis. Vocês estão sendo testados para sabermos se possuem as qualidades necessárias que os levarão a serem escolhidos como aprendizes, de forma a acompanhar seu professor, a quem chamarão de mestre, no Magisterium. E, no caso dos que possuírem magia suficiente, as aulas não são opcionais. — Ela olhou para Call. — O Desafio é realizado para sua própria segurança. Aqueles que estão aqui graças a seus legados sabem os perigos que magos sem treinamento representam para si mesmos e para os outros.
Um burburinho se instalou na sala. Call percebeu que várias pessoas olhavam para Tamara. Ela estava sentada com a coluna bem ereta na cadeira, os olhos fixos à frente, o queixo projetado. Ele conhecia aquele olhar. Era o mesmo que as pessoas lhe lançavam quando sussurravam sobre sua perna, ou sobre a mãe morta, ou sobre o pai esquisito. Era o mesmo olhar de alguém que finge que não sabe que estão falando a seu respeito.
— E então o que acontece com quem não entra no Magisterium? — perguntou a menina com as tranças.
— Boa pergunta, Gwenda Mason — elogiou a Mestra Milagros de um modo bastante encorajador. — Para ser um mago bem-sucedido, é preciso possuir três qualidades. A primeira delas é o poder mágico intrínseco. O que todos vocês possuem em algum nível. A segunda é o conhecimento sobre como utilizá-lo. O que nós podemos lhes fornecer. E a terceira é o controle, e é isso que deve vir de dentro de vocês. Agora, em seu primeiro ano, como magos não instruídos, vocês estão atingindo o ápice do poder, porém não possuem nenhum conhecimento nem controle. Se o candidato não possuir aptidão para aprender nem para controlar, ele não encontrará lugar no Magisterium. Nesse caso, garantimos que vocês, e suas famílias, estarão em segurança permanente contra a magia e qualquer perigo que sucumba aos elementos.
“Sucumbir aos elementos? O que aquilo queria dizer?”, Call perguntou a si mesmo. Aparentemente, as outras pessoas estavam tão confusas quanto ele.
— Isso significa que eu falhei no teste? — alguém perguntou.
— Espere, o que ela quis dizer? — outro garoto quis saber.
— Então quer dizer que esta não é mesmo uma escola de pôneis? — Drew indagou mais uma vez, melancólico.
A Mestra Milagros ignorou todas aquelas perguntas. As imagens da caverna começaram a desaparecer aos poucos. Eles voltaram a estar na mesma sala branca, de onde nunca saíram.
— As canetas diante de vocês são especiais — disse ela, aparentando ter se lembrado de ficar nervosa novamente. Call tentou adivinhar a idade dela. A Mestra Milagros parecia jovem, e ficava ainda mais nova com aquele cabelo rosa, mas ele imaginou que era preciso ser um mago bastante experiente para se tornar um mestre. — Se vocês não usarem a caneta, não conseguirão ler o teste. Balancem-na para ativar a tinta. E lembrem-se de fazê-la funcionar. Podem começar.
Call abriu o livro de novo. Apertou os olhos ao ver a primeira questão:

1. Um dragão e uma serpe3 levantam voo às 14h da mesma caverna e seguem na mesma direção. A velocidade média do dragão é 48 km/h mais lenta que o dobro da velocidade da serpe. Em 2 horas, o dragão está a 32 km à frente da serpe. Calcule a velocidade do dragão, levando em conta que a serpe está sedenta por vingança.

“Vingança?” Call deu uma olhada na página e folheou o livro. A questão seguinte não era nem um pouco melhor.

2. Lucretia está se preparando para plantar uma safra de beladonas neste outono. Ela irá plantar 4 canteiros da espécie erva-moura, com 15 plantas em cada um. Ela estima que, em 20% da plantação, fará um teste com a espécie doce-amarga. Quantas beladonas haverá no total? Quantas da espécie doce-amarga foram plantadas? Se Lucretia for uma maga da terra que cruzou três portais, quantas pessoas ela poderá envenenar com as beladonas antes que possa ser capturada e decapitada?

Call piscou diante da prova. Ele devia se esforçar para inventar uma resposta errada e se livrar do risco de acertar por acidente? Será que deveria colocar a mesma resposta repetidas vezes, já que precisava tirar nota baixa? Pela lei das probabilidades, seria possível que Call acertasse cerca de vinte por cento das questões, e isso era mais do que ele gostaria.
Enquanto pensava, furioso, no que fazer, ele pegou a caneta, a chacoalhou e tentou riscar o papel.
Não funcionou.
Ele tentou de novo, pressionando a ponta com mais força. Nada ainda. Ele olhou ao redor e parecia que a maior parte dos outros garotos escrevia sem maiores problemas, embora alguns deles também estivessem lutando com suas canetas.
Tudo indicava que ele não falharia no teste como uma pessoa normal, sem a menor habilidade para a magia — ele nem mesmo seria capaz de fazer o teste. Mas e se os magos o obrigassem a fazer novamente a prova caso ele a deixasse em branco? Não daria no mesmo que se recusar a dar as caras?
Carrancudo, Call tentou se lembrar do que Milagros dissera a respeito da caneta. Algo sobre balançá-la para fazer com que funcionasse.
Talvez ele não a tivesse sacudido o suficiente.
Ele agarrou a caneta, apertando-a e chacoalhando-a com força. Estava tão irritado com o teste que moveu os punhos com uma energia ainda maior. “Vamos”, ele pensou. “Vamos, sua caneta idiota, FUNCIONE!”
Uma onda de tinta azul explodiu da ponta da caneta. Ele tentou controlar o fluxo pressionando um dos dedos contra o local onde o buraco deveria estar... mas isso só fez com que a tinta fluísse com uma intensidade ainda maior. Ela esguichou nas costas da cadeira da frente. O garoto loiro, sentindo a tempestade de tinta que havia acabado de ser despertada, se curvou para sair da área de alcance daquela bagunça. Mais tinta do que parecia ser possível caber em uma caneta tão pequena jorrava por toda a sala, e as pessoas passaram a olhar para ele.
Call soltou a caneta, que imediatamente parou de soltar tinta. Porém, o estrago já estava feito. As mãos dele, a carteira, o livro de testes e seu cabelo estavam cobertos de tinta.
Ele tentou limpar os dedos esfregando-os na camiseta, mas tudo o que conseguiu foi deixar impressões digitais azuis no tecido.
Ele esperava que a tinta não fosse venenosa.
Era provável que tivesse engolido um pouco.
Todos na sala o observavam. Até mesmo a Mestra Milagros o encarava com uma expressão alarmada, que mais parecia assombro, como se ninguém antes houvesse destruído uma caneta tão completamente.
Todos estavam em silêncio, exceto o garoto magricela que falara com Tamara mais cedo. Ele se inclinara para sussurrar com a menina mais uma vez. Tamara não abriu nem um único sorriso, mas, pela expressão de escárnio no rosto do garoto e o lampejo de superioridade em seus olhos, Call podia ver que os dois zombavam dele. Sentiu os lóbulos das orelhas corarem.
— Callum Hunt — chamou Mestra Milagros, com a voz trêmula —, por favor, deixe a sala e vá se limpar. Em seguida, espere no corredor até que o grupo se junte a você novamente.
Call se pôs de pé e mal percebeu que o menino loiro em quem havia dado um banho de tinta lhe lançou o que parecia ser um sorriso solidário. Ele ainda podia ouvir as risadinhas de alguém quando bateu a porta atrás de si. E também não era capaz de esquecer o olhar de desprezo de Tamara. Quem se importava com o que ela pensava? Quem se importava com o que qualquer um deles pensava, se tentavam ser amigáveis, cruéis ou sabe-se lá mais o quê? Eles não faziam a menor diferença. Não eram parte da vida dele. Nada daquilo era.
“Só mais algumas horas.” Ele repetia sem parar para si mesmo enquanto estava no banheiro fazendo o seu melhor com sabão em pó e toalhas de papel para se livrar da tinta. Ele se perguntou se aquela tinta não era mágica. Sem dúvida aquela coisa parecia querer ficar grudada nele. Um pouco de tinta havia secado em seu cabelo escuro, e ainda havia as impressões digitais azul-marinho em sua camiseta branca quando ele saiu do banheiro e encontrou os outros aspirantes à sua espera no corredor. Ele ouviu alguns deles sussurrando uns com os outros sobre “o cara esquisito da tinta”.
— Ficou legal a sua camiseta — comentou o garoto de cabelo preto. Call tinha a impressão de que ele era rico, rico como Tamara. Ele não podia dizer exatamente por que achava isso, mas ele vestia roupas de alfaiataria naquele estilo casual chique que custava um monte de dinheiro. — Para o seu bem, espero que o próximo teste não envolva explosões. Ah, não, espere... Tomara que tenha explosões, sim.
— Cale a boca — Call murmurou, consciente de que aquela estava longe de ser a melhor resposta que já dera na vida. Ele se apoiou de qualquer jeito em uma parede até que a Mestra Milagros reapareceu, pedindo que todos mantivessem a ordem. O silêncio caiu sobre o corredor enquanto ela chamava os nomes, separando-os em grupos de cinco aspirantes que foram conduzidos por um corredor, recebendo instruções para esperar no final dele. Call não fazia a menor ideia de como um hangar poderia abrigar uma série tão grande de corredores. Ele suspeitava ser uma daquelas coisas sobre as quais seu pai diria que era melhor não pensar a respeito.
— Callum Hunt! — ela o chamou, e Call se arrastou para se juntar ao seu grupo, que também incluía, para sua consternação, o garoto de cabelo preto, cujo nome ele descobriu ser Jasper deWinter, e o garoto loiro em quem ele havia espirrado tinta mais cedo, que era Aaron Stewart. Jasper fez pompa ao abraçar Tamara e lhe desejar sorte antes de ir andando, cheio de si, até o seu grupo. Em seguida, imediatamente começou a conversar com Aaron, dando as costas para Call como se ele não existisse.
Os outros dois jovens do grupo de Call eram Kylie Myles e uma garota de aparência nervosa chamada Célia de tal, que tinha uma imensa massa de cabelos loiros e sujos e enfiara uma flor azul na franja.
— Oi, Kylie — Call a cumprimentou, pensando que aquela era a oportunidade perfeita para adverti-la do fato de a imagem do Magisterium que a Mestra Milagros conjurava não passar de uma ilusão para conquistá-los. Ele tinha praticamente certeza de que as verdadeiras cavernas estavam repletas de becos sem saída e peixes cegos.
Ela o olhou com certo pesar.
— Você se importaria... de não falar comigo?
— O quê? — Eles começaram a caminhar pelo corredor e Call mancou mais depressa para não ficar para trás. — Isso é sério?
Ela deu de ombros.
— Sabe como é. Estou tentando passar uma boa impressão, e falar com você não vai ajudar. Desculpe! — Ela acelerou o passo, emparelhando-se com Jasper e Aaron. Call olhou para a parte de trás da cabeça dela como se pudesse furá-la com sua raiva.
— Tomara que um peixe cego devore você! — Call gritou para ela.
Ela fingiu não ouvir.
A Mestra Milagros fez com que virassem em um último corredor até uma sala imensa, que parecia um ginásio. O teto era alto, e do centro pendia uma grande bola vermelha suspensa bem alto sobre suas cabeças. Ao lado da bola havia uma escada de cordas com degraus de madeira que ia do chão ao teto.
Aquilo era ridículo. Ele não conseguiria subir com a perna daquele jeito. Ele devia levar bomba naquele teste de propósito e ser tão ruim que jamais teria, de fato, a menor possibilidade de entrar em uma escola de magos.
— Agora os deixarei com o Mestre Rockmaple — informou a Mestra Milagros após a chegada do último grupo, apontando para um mago baixo com uma barba ruiva eriçada e nariz corado. Ele segurava uma prancheta e tinha um apito pendurado no pescoço como um professor de Educação Física, apesar de vestir a mesma roupa negra que os outros magos.
— Este teste parece simples, mas não é — começou o Mestre Rockmaple, acariciando a barba de uma maneira que parecia ser calculada para aparentar ameaça. — Vocês têm de subir na escada de cordas e pegar a bola. Quem gostaria de ser o primeiro?
Vários jovens levantaram as mãos.
O Mestre Rockmaple apontou para Jasper.
Ele agarrou a corda como se ser escolhido primeiro fosse algum tipo de indicação do quão incrível ele era, em vez de uma simples medida da avidez com que ele sacudiu a mão. Todos esperavam que ele subisse logo de imediato, mas Jasper circundou todo o aparato, olhando para a bola lá em cima com atenção, batendo no lábio inferior com um dos dedos.
— Você está pronto? — o Mestre Rockmaple perguntou, com as sobrancelhas levemente arqueadas, e alguns outros aspirantes riram baixinho.
Jasper, claramente irritado por rirem dele enquanto ele levava a coisa toda tão a sério, se lançou com certa violência na escada oscilante.
Ao passar de um degrau para o outro, a escada parecia se tornar mais longa. Assim, quanto mais ele subia, maior era o caminho que tinha pela frente. Por fim, a escada levou a melhor e ele tombou no chão, cercado por rolos e mais rolos de corda e degraus de madeira.
“Isso é que foi muito engraçado”, Callum pensou.
— Muito bem — disse o Mestre Rockmaple. — Quem gostaria de ser o próximo?
— Deixe-me tentar de novo — disse Jasper, em um gemido que rastejava por sua voz. — Agora sei o que fazer.
— Temos muitos aspirantes que esperam pela vez deles. — O Mestre Rockmaple parecia se divertir.
— Mas isso não é justo. Em algum momento alguém vai acertar e aí todo mundo saberá o que fazer. Vou ser punido por ter sido o primeiro.
— Pareceu-me que você queria ir primeiro. Mas muito bem, Jasper. Se houver tempo após todos terminarem, você poderá tentar de novo, se quiser.
Tudo indicava que Jasper teria outra chance. Call descobriu que, pela maneira como o garoto agia, ele deveria ser filho de alguém importante.
A maioria dos outros aspirantes não se deu nem um pouco melhor. Alguns foram até a metade do caminho e depois escorregaram de volta para baixo. Um garoto nem mesmo conseguiu sair do chão. Célia foi quem chegou mais longe antes de cair sobre um colchão. O seu prendedor de cabelo em forma de flor acabou ficando um tanto danificado. Apesar de não querer demonstrar, ela estava irritada. Call podia perceber isso pela maneira como ela tentava, ansiosa, colocar o prendedor de volta no lugar.
O Mestre Rockmaple olhou para sua lista.
— Aaron Stewart.
Aaron ficou de pé diante da escada de corda, flexionou os dedos como se estivesse prestes a entrar em um campo de beisebol. Ele parecia confiante e preparado para os esportes.
Call sentiu aquele ardor de inveja no estômago que já lhe era tão familiar, mas que logo passava. Sempre sentia aquilo quando via os outros garotos jogando basquete ou beisebol e que se sentiam completamente confortáveis em seus corpos. Esportes coletivos não eram uma opção para Call. A possibilidade de passar vergonha era muito grande, mesmo que o deixassem jogar. Caras como Aaron jamais precisaram se preocupar com essas coisas.
Aaron correu até a escada e se lançou sobre ela. Ele subia depressa, impulsionando os pés nos degraus enquanto as mãos o puxavam para cima no que parecia ser um único movimento fluido. Movia-se tão depressa que era mais rápido que o fluxo de corda que alcançava o chão. Ele ia cada vez mais alto. Callum prendeu a respiração e percebeu que todos ao seu redor também estavam no mais completo silêncio.
Sorrindo como um maníaco, Aaron alcançou o topo. Ele bateu na bola com um dos lados da mão, soltando-a, antes de deslizar pela escada e aterrissar de pé como um ginasta.
Alguns dos outros jovens lhe deram uma salva de palmas espontânea. Até mesmo Jasper pareceu feliz por Aaron, indo até ele para lhe dar um tapinha a contragosto nas costas.
— Muito bem — o Mestre Rockmaple disse, exatamente com as mesmas palavras e o mesmo tom de voz que utilizou com os outros jovens. Callum pensou que aquele mago velho e rabugento devia estar apenas irritado por alguém ter superado seu teste idiota.
— Callum Hunt — o mago chamou em seguida.
Callum deu um passo à frente, desejando ter trazido um atestado médico.
— Não posso.
O Mestre Rockmaple olhou para ele.
— Por que não?
“Ah, qual é. Olha só para mim. Basta olhar para mim.” Call ergueu a cabeça e encarou o mago, desafiador.
— A minha perna. Não consigo fazer essas coisas de Educação Física.
O mago deu de ombros.
— Então não faça.
Call lutou contra uma onda de raiva. Ele podia perceber que os outros aspirantes olhavam para ele, alguns com pena, outros irritados. A pior parte disso era que normalmente ele teria pulado de alegria diante da oportunidade de fazer qualquer atividade física. Mas, daquela vez, ele apenas tentava cumprir seu dever e falhar.
— Não é uma desculpa — Call explicou. — Os ossos da minha perna foram despedaçados quando eu era bebê, por isso passei por dez cirurgias. Tenho sessenta parafusos de aço aqui dentro, que unem a minha perna. Quer ver as cicatrizes?
Callum torcia, com todas as suas esperanças, para que o Mestre Rockmaple respondesse que não. Ele ergueu a perna esquerda com uma massa de linhas vermelhas, fruto das incisões, e um monte de tecidos horrendos. Ele nunca deixava ninguém ver; nem nunca mais usou shorts desde que tinha idade suficiente para saber o que significavam os olhares que os estranhos lançavam para a sua perna onde quer que fosse. Ele não sabia por que dera tantas explicações ao mago, a não ser pelo fato de estar com tanta raiva e não fazer a menor ideia do que dizia.
O Mestre Rockmaple, que segurava o apito em uma das mãos, o girou, pensativo.
— Essas provas não são assim tão óbvias — ele disse. — Ao menos tente, Callum. Se você falhar, passamos para o próximo teste.
Call jogou as mãos para o alto.
— Tudo bem. Tudo bem.
Ele foi até a escada e colocou uma das mãos sobre a corda.
Deliberadamente, posicionou a perna esquerda no primeiro degrau e jogou o peso sobre ela, erguendo-se.
A dor atacou sua panturrilha e ele caiu de costas no chão, ainda agarrado à escada. Call ouviu as risadas de Jasper atrás de si. A perna doía e o estômago parecia dormente.
Olhou novamente para a escada lá em cima, para a bola de borracha presa no teto e sentiu a cabeça pulsar de tanta dor. Ano após ano sendo obrigado a sentar nas arquibancadas enquanto os outros completavam voltas nas corridas. Essas cenas ressurgiram em sua mente e ele olhou furioso para a bola que sabia que jamais poderia pegar, pensando: “Eu odeio você, eu odeio você, eu odeio...”
Uma explosão foi ouvida e a bola começou a pegar fogo. Alguém soltou um gritinho — parecia ter sido Kylie, mas Call torcia para que tivesse sido Jasper. Todos, inclusive o Mestre Rockmaple, olhavam para a bola, que queimava alegremente, como se estivesse recheada de fogos de artifício. O odor desagradável de produtos químicos queimados preencheu o ar, e Call pulou para trás quando uma grande massa de plástico derretido caiu no chão bem ao seu lado.
Afastando-se, ele cambaleou quando mais pedaços daquela gosma começavam a pingar da bola em chamas. Um pouco da substância viscosa respingou em um dos ombros da camiseta de Call.
Tinta e gosma. Aquele era mesmo um dia de muito estilo para ele.
— Saiam! — o Mestre Rockmaple ordenou quando as crianças começaram a engasgar e a tossir com a fumaça. — Todos vocês, saiam da sala.
— Mas e a minha vez? — Jasper protestou. — Como vou ter a minha segunda chance agora que esse esquisito destruiu a bola? Mestre Rockmaple...
— EU DISSE SAIAM! — o mago berrou, e os aspirantes correram para deixar a sala.
Call foi o último da fila, consciente de que tanto Jasper quanto o Mestre Rockmaple olhavam para ele com o que parecia muito uma expressão de ódio.
Como o cheiro de queimado, a palavra esquisito também permaneceu no ar.


3 Réptil cujo corpo é semelhante ao de um dragão, mas com asas no lugar das patas traseiras. (N.E.)

7 comentários:

  1. De ele continuar demonstrando o poder dele é o óbvio que o povinho lá vai querer ele.

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  2. Meu Deus !!! que livro legal ♡

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  3. tente não imaginar Samuel L. Jackson como Ruffos e falhe miseravelmente

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  4. Ele não podia simplesmente não aparecer pro teste?Ou fingir que não ouviu aquela voz na primeira parte?

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  5. Seria o que ele deveria ter feito mas aí não teria a história

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Boa leitura :)