16 de janeiro de 2017

Capítulo dezoito


Call sonhou que estava preso debaixo de um enorme e pesado travesseiro felpudo. Ele acordou tonto, balançando os braços, e quase jogou longe o lobo, que estava enroscado no peito dele e o encarava com seus olhos cor de fogo imensos e suplicantes.
A percepção chocante e completa do que fizera atingiu Call, e ele rolou tão depressa para sair de debaixo do lobo que escapuliu da cama e foi parar no chão. A dor do impacto dos joelhos na pedra gelada o fez acordar de imediato. Ele se viu de joelhos, encarando o filhote bem nos olhos. O bicho se arrastara até a beirada da cama e olhava para ele.
— Caim — fez o filhotinho.
— Shhh — Call chiou. Seu coração batia acelerado. O que ele tinha feito? Sério que ele tinha mesmo escondido um animal Dominado pelo Caos dentro do Magisterium? Ele também podia ter tirado toda a roupa, coberto o corpo de liquens e saído gritando pelas cavernas: ME EXPULSEM! INTERDITEM MINHA MAGIA! MANDEM-ME DE VOLTA PARA CASA!
— Ah, cara — Call murmurou. — Você está com fome, não é? Tudo bem. Vou pegar alguma coisa para você comer. Fica aí. Isso. Aí mesmo.
Ele se levantou e piscou ao ver o despertador na mesa de cabeceira. Onze da manhã e o alarme ainda não tinha tocado. Estranho.
Ele abriu a porta do quarto sem fazer barulho e a primeira cena que viu foi Tamara, já de uniforme, tomando café na mesa da sala compartilhada. Sobre ela, havia comida de aparência deliciosamente normal: torrada e manteiga, salsichas, bacon, ovos mexidos e suco de laranja.
— O Aaron voltou? — Call quis saber, fechando a porta do quarto com cuidado atrás de si, e apoiou as costas na pedra em uma pose que ele esperava ter parecido despreocupada.
Tamara engoliu um grande pedaço de torrada e balançou a cabeça.
— Não. A Célia passou por aqui mais cedo e disse que as aulas de hoje foram canceladas. Não sei o que está acontecendo.
— Acho que é melhor eu trocar de roupa. — Call pegou uma salsicha da mesa.
Tamara o observou.
— Está tudo bem? Você anda muito estranho.
— Estou bem. — Call pegou outra salsicha. — Volto em um minuto.
Ele correu como uma flecha para o quarto, onde o filhotinho estava deitado sobre uma pilha de roupas, com as patas balançando no ar. Ele se levantou em um pulo assim que viu Call e correu para o menino. Call prendeu a respiração ao oferecer a salsicha. O lobo cheirou a comida, engolindo-a com uma única mordida. Ele deu a segunda salsicha, observando enquanto sentia uma pontada na boca do estômago. Essa sensação desapareceu tão depressa quanto surgiu. Lambendo os beiços, o lobo esperava, ansioso.
— Bem — disse Call —, não tenho mais nenhuma. Espere só um pouquinho que eu vou arrumar mais alguma coisa.
Vestir um uniforme limpo levaria apenas alguns segundos se não houvesse um lobo pulando pelo quarto. Revitalizado pelas salsichas, o filhote roubou a bota de Call e a puxou pelos cadarços para baixo da cama, onde ficou mastigando o couro. E então, assim que o menino conseguiu recuperar o calçado, ele pegou uma das pernas de sua calça e os dois começaram a brincar de cabo de guerra.
— Pare — Call implorou, puxando o tecido, mas isso só parecia satisfazer ainda mais o lobo. Ele começou a pular na frente de Call, louco para brincar.
— Já volto — Call prometeu. — Fique quietinho que depois eu levo você para dar uma voltinha escondido.
O lobo abaixou a cabeça e voltou a rolar de costas no chão. Call aproveitou para sair do quarto, fechando a porta atrás de si.
— Ah, bom — disse o Mestre Rufus, se virando em seu posto, na parede oposta da sala compartilhada, para encarar Call. — Você está pronto. Precisamos ir a uma reunião.
Call quase teve um ataque de nervos ao vê-lo.
Tamara, que catava migalhas de torrada no uniforme, olhou para Call com uma expressão estranha.
— Mas eu nem tomei o café da manhã — Call protestou, olhando para a comida que restara. Se conseguisse pelo menos arrumar um jeito de afanar mais um punhado de salsichas, aquilo poderia ser o suficiente para controlar o lobo até que ele voltasse do que quer que fosse aquela reunião. Em sua escola antiga, eles costumavam ter que assistir a palestras de mais de uma hora sobre coisas ruins que podiam acontecer quando os alunos resolviam fazer as escolhas erradas, ou sobre bullying. Pelo menos uma vez eles falaram dos horrores representados pelos percevejos. Ele não achava que aquela reunião seria parecida com aquilo, mas esperava que pelo menos não fosse tão longa.
Tinha quase certeza de que o lobo precisaria sair para passear muito em breve. Caso isso não ocorresse, Call achou melhor nem pensar no que poderia acontecer.
— Você já comeu duas salsichas — disse Tamara, complicando os planos de Call. — Não está com fome.
— É mesmo? — indagou o Mestre Rufus, seco. — Nesse caso, vamos, Callum. Alguns magos da Assembleia também estarão presentes. Não queremos nos atrasar. Tenho certeza de que vocês sabem qual será o tema dessa reunião.
Call estreitou os olhos.
— Onde está Aaron? — ele perguntou, mas o Mestre Rufus não respondeu. Ele simplesmente os conduziu pelo corredor, onde se juntaram a um grande fluxo de pessoas que inundava as cavernas. Call achou que jamais vira tanta gente nos corredores da escola. O Mestre Rufus foi atrás de um grupo de alunos mais velhos, que juntos com seus mestres rumavam para uma direção mais ao sul.
— Você sabe para onde estamos indo? — Call perguntou a Tamara.
A menina balançou a cabeça negativamente.
Fazia semanas que Call não a via tão séria. Ele se lembrou de como Tamara agira na noite anterior, quando pegou em seus braços e tentou afastá-lo dos lobos Dominados pelo Caos. Ela arriscara sua própria vida pela dele. Call jamais tivera amigos como ela antes. Como ela ou como Aaron. Agora que os tinha, não sabia muito bem o que fazer com eles.
Eles se viram em um auditório circular com bancos de pedra que se elevavam de todos os lados ao redor de um palco circular. No canto mais distante, Call viu um grupo de homens e mulheres vestidos com um uniforme verde-oliva e supôs que deveriam ser os membros da Assembleia sobre os quais o Mestre Rufus falara. O professor os levou até um lugar mais à frente e finalmente eles viram Aaron.
Ele estava na primeira fila, sentado ao lado do Mestre North, mas longe o suficiente para que Call só conseguisse falar com ele se berrasse. Na verdade, ele só podia ver a nuca de Aaron, seu cabelo arrepiado loiro e macio.
Ele parecia o mesmo de sempre.
Um dos Makaris. Um Makar. Aquele parecia um título agourento. Call se lembrou da forma como as sombras se enrolaram ao redor da matilha de lobos na noite anterior e como Aaron parecera horrorizado quando tudo terminou.
“O caos quer devorar.
Não parecia ser o tipo de poder possuído por uma pessoa como Aaron, de quem todo mundo gostava e que gostava de todo mundo. Aquilo deveria pertencer a alguém como Jasper. Era bem a cara dele dominar a escuridão e afugentar animais estranhos repletos de magia do caos.
O Mestre Rufus ficou de pé e subiu ao palco, indo até o centro e acomodando-se em um palanque.
— Alunos do Magisterium e membros da Assembleia. — Os olhos escuros do Mestre Rufus varreram o salão. Call sentiu seu olhar se demorar sobre ele e Tamara por um momento antes de continuar. — Todos vocês conhecem nossa história. Os Magisteriums existem desde a época de nosso fundador, Phillippus Paracelso. Essas instituições existem para ensinar jovens magos a controlar seus poderes e promover uma comunidade de aprendizado, magia e paz, assim como criar uma força que defenda nosso mundo. Todos vocês conhecem a história do Inimigo da Morte. Muitos de vocês perderam familiares na Grande Batalha ou no Massacre Gelado. Todos vocês também conhecem o Tratado, o acordo entre a Assembleia e Constantine Madden, que assegura que, se não o atacarmos, nem ele nem suas forças nos atacarão. Muitos de vocês — o Mestre Rufus acrescentou, observando todo o auditório mais uma vez — também acreditam que o Tratado foi um erro.
Um burburinho começou a surgir na plateia. O olhar de Tamara voltou-se para o lugar onde os membros da Assembleia estavam sentados. A expressão no rosto dela era de ansiedade, e Call percebeu subitamente que dois dos membros da Assembleia vestidos de branco eram os pais da menina.
Ele os vira no Desafio de Ferro. Eles estavam ali sentados com as colunas eretas e um olhar duro enquanto observavam o Mestre Rufus. Call podia sentir a desaprovação que escapava em ondas de ambos.
— O Tratado significa que devemos acreditar no Inimigo da Morte, crer que ele não vai nos atacar, que não utilizará esse hiato na batalha para aumentar suas forças. Porém, não podemos confiar no Inimigo.
Houve um burburinho entre os membros da Assembleia. A mãe de Tamara tinha uma das mãos no braço do marido. Ele tentava se levantar. Tamara congelou na cadeira.
O Mestre Rufus ergueu a voz.
— Não podemos confiar no Inimigo. Falo isso como alguém que conheceu Constantine Madden quando ele era aluno do Magisterium. Demos as costas para o aumento no número de ataques dos elementais. Um deles aconteceu ontem à noite, a apenas alguns metros dos portões do Magisterium. E também há os ataques às nossas linhas de abastecimento e abrigos. Viramos as costas não porque acreditamos na promessa de Constantine Madden, mas porque o Inimigo é um Makar, um dos poucos da nossa raça que nasceram para controlar a magia do vazio. No campo de batalha, seus Dominados pelo Caos derrotaram a única Makar de nossa geração. Sempre soubemos que, sem um Makar, ficamos vulneráveis ao Inimigo, e desde a morte de Verity Torres esperamos pelo nascimento de outro deles.
Um grande número de alunos se inclinou para a frente em seus assentos. Estava claro que, enquanto alguns deles ouviram o que tinha acontecido na noite anterior do lado de fora dos portões, ou sabiam do que se tratava porque testemunharam o ocorrido, a maior parte apenas começava a se dar conta do que Rufus estava prestes a contar. Call pôde ver um grupo de alunos do Ano de Ferro se virar na direção de Alex, um deles chegou até mesmo a puxar a manga de seu uniforme, em trejeitos com a boca: “Você sabe do que ele está falando?”. Alex fez que não com a cabeça. Enquanto isso, os membros da Assembleia cochichavam entre si. O pai de Tamara voltara a se sentar, mas a expressão em seu rosto era turbulenta.
— Fico feliz em anunciar — continuou Rufus — que descobrimos a existência de um Makar aqui no Magisterium. Aaron Stewart, você poderia, por favor, se levantar?
Aaron ficou de pé. Ele vestia um uniforme preto, e a pele debaixo de seus olhos estava arroxeada de tanta exaustão. Call imaginou se ele havia dormido desde a noite anterior. Ele se lembrou do quão pequeno Aaron parecera enquanto era conduzido morro abaixo para retornar para o Magisterium. Ali, no auditório, ele parecia ainda menor, embora fosse um dos garotos mais altos do Ano de Ferro.
Ouviram-se vários suspiros e sussurros na plateia. Após olhar ao redor, nervoso, por um minuto, Aaron voltou a se sentar, mas o Mestre North balançou a cabeça e fez um gesto indicando que ele deveria permanecer de pé.
Tamara tinha as mãos fechadas em punhos no colo e olhava, preocupada, do Mestre Rufus para os seus pais, sem pronunciar uma única palavra. Seus lábios eram uma linha fina. Call nunca havia ficado tão feliz por não ser o centro das atenções. Era como se todas as pessoas estivessem devorando Aaron com os olhos. Apenas Tamara parecia distraída, provavelmente preocupada, já que sua família estava aparentemente prestes a subir no palco e espancar o Mestre Rufus com uma estalactite.
Um dos membros da Assembleia se levantou de um dos bancos mais altos e conduziu Aaron até o palco. Quando o menino viu Tamara e Call, abriu um sorrisinho e ergueu uma das sobrancelhas como quem dizia: “Isso é uma loucura.”
Call sentiu os cantos de sua boca se erguerem em resposta.
O Mestre Rufus deixou o palco e foi se sentar ao lado do Mestre North no assento que Aaron acabara de desocupar. O Mestre North se inclinou e murmurou algo para Rufus, que assentiu. De todas as pessoas no salão, o Mestre North parecia ser o único que não estava surpreso com o discurso do colega.
— A Assembleia de Magos gostaria de reconhecer formalmente que Aaron Stewart possui afinidade com a magia do caos. Ele é o nosso Makar! — O membro da Assembleia sorriu, mas Call pôde ver que era um sorriso forçado. Provavelmente ele estava engolindo o que quer que quisesse dizer para o Mestre Rufus. Nenhum dos membros da Assembleia parecia ter gostado do discurso do professor.
As palavras dele, entretanto, foram interrompidas por uma salva de palmas puxada por Tamara e Call, que bateram os pés no chão e assobiaram como se estivessem em um jogo de hóquei. Os aplausos prosseguiram até que o membro da Assembleia fez um gesto pedindo silêncio.
— Agora — ele prosseguiu —, espera-se que todos entendam a importância dos Makaris. Aaron possui uma responsabilidade com a comunidade mundial. Ele, sozinho, pode desfazer todo o estrago causado pelo autodenominado Inimigo da Morte, libertar a Terra da ameaça representada pelos animais Dominados pelo Caos e nos proteger das sombras. Ele precisa garantir que o Tratado continue a ser respeitado para que a paz prevaleça. — Após essas palavras, o membro da Assembleia se permitiu lançar um olhar sombrio para o Mestre Rufus.
Todos viram que Aaron engoliu em seco.
— Obrigado, senhor. Farei o meu melhor.
— Mas nenhum caminho difícil é trilhado sem companhia — disse o membro da Assembleia, olhando para a plateia. — Será responsabilidade de todos os seus colegas estudantes tomar conta de você, apoiá-lo, defendê-lo. Ser um Makar pode ser um fardo pesado, mas ele não terá de suportá-lo sozinho, não é? — Ao pronunciar as duas últimas palavras, o membro da Assembleia ergueu a voz.
A plateia aplaudiu novamente, desta vez sem precisar de nenhum incentivo, como se fizesse uma promessa. Call bateu palmas com toda a força.
O membro da Assembleia tirou de um dos bolsos de seu uniforme uma pedra escura e a segurou diante de Aaron.
— Temos guardado isto por mais de uma década, e para a minha grande honra devo entregá-la a você. Alunos, vocês reconhecerão esta pedra como uma gema de afinidade, que cada um de vocês receberá quando obter o domínio sobre um elemento. A sua, Aaron, é um ônix negro, pois representa o vazio.
Call se inclinou para olhar melhor, e seu coração começou a bater descontrolado. Porque ali, bem na palma da mão do membro da Assembleia, estava uma pedra idêntica àquela do bracelete que seu pai enviara ao Mestre Rufus. O que significava que a joia pertencera a um Makar. E, levando em consideração a idade do pai, aquele bracelete só poderia ter pertencido a dois Makaris: Verity Torres ou Constantine Madden.
Ele parou de aplaudir. Suas mãos caíram sobre o colo.

6 comentários:

  1. To chocada. E perdida.
    De quem é o braceleteeeee? Aaaaah

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  2. E se o call for tipo a encarnação do irmão que morreu? Por isso o pai dele teria o bracelete

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    1. então isso quer dizer que o call e o contra peso aaron?

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  3. Pessoas, ele é a Alma, o crontaelemento (é assim o nome? Não me culpem)
    Eu acho.

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  4. O meu Zeus, que tudo aconteça, menos um batalha de amigo contra amigo. Vamos seguir, só mais um capítulo.

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Boa leitura :)