16 de janeiro de 2017

Capítulo dezesseis


Um uivo baixo cortou a noite. Alex começou a subir o outro monte, fazendo um gesto impaciente na direção de Call para que o seguisse. O menino seguiu cambaleando atrás dele. A perna doía.
Quando chegaram lá em cima, Call viu Aaron e Tamara se aproximando do cume, com Célia, Jasper e Rafe bem atrás deles. O grupo ofegava, alerta.
— Drew! — Tamara suspirou ao ver a figura manca nos braços de Alex.
— Animais Dominados pelo Caos. — Aaron se aproximou e parou diante de Call e Alex. — Eles estão vindo do outro lado do monte...
— De que tipo? — Alex perguntou, assustado.
— Lobos — disse Jasper, apontando.
Ainda segurando Drew nos braços, Alex se virou e observou, horrorizado. A lua iluminava sombras que se esgueiravam pela floresta na direção deles. Cinco lobos, com os corpos longos e esguios e o pelo da cor de um céu tempestuoso. Os focinhos farejavam o ar e os olhos brilhantes eram selvagens e estranhos.
Alex se abaixou e colocou Drew cuidadosamente no chão.
— Ouçam — ele berrou para os outros alunos, que tremiam de medo. — Façam um círculo ao nosso redor enquanto eu curo Drew. Eles conseguem sentir os fracos, os feridos. Eles vão atacar.
— Nós precisamos apenas manter os Dominados pelo Caos afastados até que os mestres cheguem aqui — observou Tamara, na frente de Alex.
— Certo, mantê-los afastados. Isso é mesmo muito simples — Jasper explodiu, embora tenha se juntado aos outros, que formaram um círculo com seus corpos de costas para Alex e Drew. Call se viu ombro a ombro com Célia e Jasper. Célia batia os dentes.
Os lobos Dominados pelo Caos apareceram, sorrateiros e ferozes, caminhando cautelosos como sombras pelo espinhaço. Eles eram imensos, muito maiores do que qualquer lobo que Call poderia já ter imaginado. Fios largos de saliva pendiam de suas mandíbulas escancaradas. Os olhos ardiam e rodopiavam, fazendo com que Call tivesse mais uma vez um lampejo daquela sensação em sua cabeça, aquela coisa que mais parecia coceira, queimação e sede, tudo ao mesmo tempo. “O Caos”, ele pensou. “O caos quer devorar.”
Porém, por mais apavorante que fossem aqueles animais, quanto mais Call olhava para eles, mais achava que seus olhos eram belos, como a imagem de um caleidoscópio e sua centena de cores simultâneas. Não conseguia desviar os olhos.
— Call. — A voz de Tamara interrompeu seus pensamentos. Ele voltou a si, se dando conta, de repente, de que se distanciara em muitos metros da formação. Ele não se afastara dos lobos. Ao contrário, ele se movera na direção deles.
Uma mão pegou um de seus pulsos. Tamara parecia aterrorizada, porém determinada.
— Será que dá para você PARAR? — a menina ordenou e encarou Call, tentando fazer com que ele se juntasse aos outros novamente.
Tudo depois disso aconteceu muito depressa.
Tamara rebocou Call de volta, mas ele resistiu. A perna fraca falhou e ele caiu. Os cotovelos bateram dolorosamente no chão pedregoso. A menina ergueu as mãos e fez um gesto como se arremessasse uma bola de beisebol. Um círculo de fogo surgiu em suas palmas e ela o lançou sobre um lobo que se aproximou de repente.
O fogo explodiu sobre os pelos e o lobo ganiu, revelando uma boca repleta de dentes afiados. Mas ele continuou a se aproximar. Na verdade, o pelo ficara arrepiado em um dos lados, como se o animal tivesse tomado um choque. A língua vermelha pendia da boca à medida que ele chegava mais perto.
Ele estava a menos de um metro de Call, que lutava para se pôr de pé. Tamara foi até ele e passou as mãos sobre os braços do amigo, tentando erguê-lo. Os Dominados pelo Caos não podiam ser aparados como as serpes. Eles não se preocupavam com mais nada além de dentes, sangue e loucura.
— Tamara, Call, voltem para cá! — Aaron berrou, assustado. Os lobos Dominados pelo Caos se esgueiravam para mais perto, cercando Call e Tamara, esquecendo o círculo de aprendizes. Alex estava no centro, segurando Drew, que perdera a consciência. Alex parecia ter congelado com os olhos e a boca arregalados.
Call se levantou com dificuldade, empurrando Tamara para trás dele. Ele olhou bem nos olhos do lobo mais próximo. Os olhos do animal ainda giravam, vermelhos e dourados, as cores do fogo.
“É isso”Call pensou. Sua mente parecia ter sido engolida. Ele tinha a impressão de estar se movendo debaixo d’água. “Meu pai estava certo. Durante todo esse tempo, ele estava certo. Vamos morrer aqui.”
Call não estava com raiva... Embora também não sentisse medo. Tamara lutava, tentando puxá-lo para trás. Mas ele não conseguia se mover. Nem se quisesse. A mais estranha das sensações pulsava dentro dele, como se alguém houvesse dado um nó em suas costelas. Ele podia sentir o estranho bracelete em seu braço pulsar.
— Tamara. — Ele respirou fundo. — Vá para trás.
— Não! — Ela puxou as costas da camiseta dele. Call tropeçou e o lobo pulou.
Alguém — talvez Célia ou Jasper — gritou.
O lobo saltou no ar, belo e terrível, com o pelo soltando faíscas. Call começou a erguer as mãos.
Uma sombra passou pelos olhos de Call... alguém derrapou na terra para parar bem entre ele o lobo, alguém com cabelo claro, alguém que plantou os pés no chão e ergueu ambos os braços como se pudesse segurar o lobo com as próprias mãos. “Alex”, Call pensou de início, tonto, mas logo sentiu uma onda de choque ao se dar conta de quem era: Aaron.
— Não — ele gritou.
Aaron se lançou para a frente, mas Tamara o deteve:
— Aaron, não!
Os outros aprendizes também gritaram, chamando Aaron. Alex deixara Drew no chão e abria caminho na direção deles.
Aaron não se moveu. Seus pés estavam plantados tão firmes no chão que pareciam ter criado raízes. As mãos estavam voltadas para o alto, com as palmas erguidas, e de seu centro brotava algo que lembrava fumaça, só que era ainda mais negra que a escuridão, densa e sinuosa, e Call soube, embora não soubesse como, que aquela era a substância mais escura do mundo.
Com um ganido, o lobo contorceu o corpo, se revirando tanto que aterrissou desajeitado a apenas alguns metros de Tamara e Call. O pelo havia desaparecido e os olhos rodopiavam descontroladamente. Os outros lobos uivavam e choramingavam, acrescentando seus latidos à loucura daquela noite.
— Aaron, o que você está fazendo? — A voz de Tamara era tão baixa que Call não teve certeza se o amigo a escutou. — Foi você quem fez aquilo?
Aaron, entretanto, pareceu não ouvir. A escuridão vertia de suas mãos, o cabelo e roupa estavam grudados no corpo graças ao suor. A escuridão se espiralava depressa, gavinhas aveludadas que se enrolavam na matilha de Dominados pelo Caos. O vento soprava, balançando os galhos das árvores. O chão tremeu. Os lobos tentavam se soltar, correr, mas estavam presos pela escuridão, a escuridão que se tornara algo sólido, uma prisão que contraía seus corpos.
O coração de Call batia, descontrolado. Ele sentiu um terror repentino diante da ideia de também ser preso por aquela escuridão, que o envolvia do nada, anulando-o, consumindo-o.
Devorando-o.
— Aaron! — ele berrou, mas o vento golpeava as árvores com violência, abafando sua voz. — Aaron, pare!
Call podia ver o brilho do pânico nos olhos dos lobos Dominados pelo Caos. Por um momento, eles se viraram para ele. Seus olhos eram faíscas na escuridão. Em seguida, um negrume os envolveu e a matilha sumiu.
Aaron caiu de joelhos como se tivesse levado um tiro. Ele se ajoelhou, sem ar, com uma das mãos sobre o estômago enquanto o vento cessava e o chão se estabilizava. Os aprendizes observavam no mais profundo silêncio. Os lábios de Alex se moviam, mas nenhuma palavra saiu deles. Call olhou para os lobos, mas no lugar dos animais Dominados pelo Caos havia apenas massas rodopiantes de escuridão que se dissipavam como fumaça.
— Aaron — Tamara se afastou rapidamente de Call e foi até o outro menino, se abaixando para colocar uma das mãos no ombro dele. — Ah, meu Deus. Aaron, Aaron...
Os outros aprendizes começaram a cochichar.
— O que está havendo? — A voz de Rafe era lamentosa. — O que aconteceu?
Tamara afagava as costas de Aaron, fazendo sons consoladores. Call sabia que devia se juntar a ela, mas se sentia congelado. Não conseguia parar de pensar na aparência de Aaron um pouco antes de a escuridão devorar o lobo, a forma como ele parecia conjurar algo, chamar alguma coisa... e foi exatamente aquilo que agiu ali.
Ele se lembrou do Quinário.
“O fogo quer queimar. A água quer fluir. O ar quer se erguer. A terra quer unir. Porém o caos, o caos quer devorar.”
Call olhou para a trás, para a confusão de estudantes. Ao longe, atrás deles, viu luzes que se moviam apressadas pelo céu. Era o brilho dos orbes dos mestres que corriam até eles. Call pôde ouvir o som de suas vozes.
Drew tinha uma expressão estranha no rosto, estoica e um pouco perdida, como se toda a esperança o tivesse abandonado. Havia lágrimas em seus olhos. Célia encarou Call, desviando o olhar para Aaron, como se perguntasse: “Está tudo bem com ele?”
Aaron mantinha a cabeça baixa, coberta com as mãos. Aquilo fez com que os pés de Call voltassem a se mexer. Ele caminhou com dificuldade os poucos metros que o separavam do amigo e caiu de joelhos ao lado dele.
— Você está bem? — ele perguntou.
Aaron ergueu a cabeça e assentiu devagar, ainda aparentemente atordoado.
Tamara encontrou o olhar de Call por cima da cabeça de Aaron. O cabelo dela havia se soltado das tranças e caía por seus ombros. Call pensou que nunca a vira tão desarrumada assim antes.
— Você não entende — ela sussurrou para Call. — Aaron é quem eles estão procurando. Ele é o...
— Sabia que eu ainda estou aqui? — A voz de Aaron parecia cansada.
— Makar — Tamara finalmente concluiu a frase, em um murmúrio quase inaudível.
— Eu não sou nada disso — Aaron protestou. — Não posso ser. Não sei nada sobre o caos. Não tenho a menor afinidade...
— Aaron, minha criança. — Uma voz suave cortou o discurso de Aaron. Call olhou para cima e viu, para sua surpresa, que aquela voz era do Mestre Rufus. Os outros mestres também estavam ali com seus orbes voando como vagalumes enquanto eles caminhavam apressados entre os alunos, conferindo seus ferimentos e amenizando seu pavor. O Mestre North havia erguido Drew do chão e o segurava em seus braços. A cabeça do garoto estava apoiada no peito do professor.
— Eu não tinha a intenção de... — Aaron começou. Sua aparência era péssima. — Em um momento, o lobo estava ali e, no outro, ele tinha desaparecido.
— Você não fez nada de errado. O lobo o teria atacado se não agisse. — O Mestre Rufus esticou os braços e gentilmente ajudou Aaron a se levantar. Call e Tamara também se ergueram. — Você salvou vidas, Aaron Stewart.
Aaron soltou um suspiro cansado. Ele parecia tentar se recompor.
— Todos eles estão olhando para mim... todos os outros alunos — ele disse em um sussurro.
Call se virou para olhar, mas seu campo de visão foi bloqueado pelo surgimento de dois mestres: o Mestre Tanaka e uma mulher que ele vira apenas uma vez com um grupo de alunos do Ano de Ouro e cujo nome ele desconhecia.
— Todos eles olham para você porque você é um Makar. — A maga encarou Aaron bem nos olhos. — Porque você é capaz de manejar o poder do caos.
Aaron não disse nada. Parecia que ele acabara de tomar um inesperado tapa na cara.
— Estávamos à sua espera, Aaron — completou o Mestre Tanaka. — Você não faz ideia de por quanto tempo.
Aaron se tornava cada vez mais tenso, parecendo prestes a entrar em parafuso.
“Deixem-no em paz”, Call queria dizer. “Vocês não conseguem ver que ele está surtando?”
Aaron estava certo. Todos olhavam para ele, tanto os outros alunos, que finalmente se reuniram, quanto seus mestres. Até mesmo Lemuel e Milagros desviaram os olhos de seus aprendizes por tempo suficiente para observar Aaron. Apenas Rockmaple não estava ali. Call presumiu que ele deveria ter voltado para o Magisterium para tomar conta de Drew.
Rufus pôs uma mão protetora sobre o ombro de Aaron.
— Haru — ele disse, e meneou a cabeça na direção do Mestre Tanaka. — E, Sarita, muito obrigado por suas palavras gentis.
Ele, porém, não parecia estar particularmente agradecido.
— Parabéns — disse o Mestre Tanaka — por ter um Makar como aprendiz... o sonho de qualquer mestre. — Ele soou bastante amargo e Call imaginou se ele estava com raiva de todo aquele processo de seleção realizado depois do Desafio. — O garoto deve vir conosco. Os mestres precisam conversar com ele...
— Não! — Tamara tapou a boca com uma das mãos assim que terminou de falar, como se estivesse surpresa com sua própria explosão. — Eu só quis dizer que...
— Foi um dia estressante para os estudantes, especialmente para Aaron — Rufus disse aos dois mestres. — Esses aprendizes, a maioria deles do Ano de Ferro, acabaram de ser atacados por uma matilha de lobos Dominados pelo Caos. Será que o garoto não poderia voltar para sua própria cama?
A mulher que ele chamou de Sarita balançou a cabeça.
— Não podemos ter um mago do caos vagando pela escola sem qualquer conhecimento sobre seus poderes. — Ela realmente parecia pesarosa. — Toda a área foi minuciosamente inspecionada, Rufus. O que quer que tenha acontecido com essa matilha de lobos, foi uma anormalidade. Agora, o maior perigo para Aaron e para os outros alunos é o próprio Aaron.
Ela estendeu as mãos para o menino.
Aaron olhou para Rufus, esperando por sua permissão. O mestre assentiu, aparentando cansaço.
— Vá com eles. — E deu um passo para trás.
O Mestre Tanaka fez um gesto chamando Aaron, que caminhou atrás dele. Flanqueado por ambos os mestres, ele caminhou de volta ao Magisterium, parando apenas para olhar para Call e Tamara.
Call não pôde evitar o pensamento de que o amigo parecia pequeno.

16 comentários:

  1. Genti!
    Que inesperado, ein?!

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  2. Achei que fosse ser o Call o tal do Makar. Claro que ia ser uma coisa bem clichê o personagem principal ter esse poder, mas eu preferia que o Call tivesse do que o Aaron u_u
    Ainda assim, tem alguma coisa de errado e diferente com o Call.

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    1. Né, também achei! É estranho o Aaron ter esse poder. Parece que é Rony narrando as aventuras do Harry heheuaheuae

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    2. Concordo! Mas acho q faz sentido, e ainda acredito q o Call é um tiozao do Caos(oq esta morto), Aaron vai falhar e Tamara vai morrer.

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    3. Ou talvez o contrário... Nunca vou superar se algum deles morrer! Tomara que o Aaron não morra puq ele é o meu preferido <3

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  3. Sério, sei que seria clichê, mas prefiria que fosse o Calil o Makar
    Fala sério ele ainda não fez nada de impressionante o livro todo! Ele é o personagem principal ou não? >:(

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    1. para ou ele explodiu uma caneta,quer alguma coisa mais digna de um protagonista do que isso?

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    2. Bem, sejamos justos. Ele... bem, ele explodiu uma caneta, usou praticamente a mesma roupa por meses, am, ele fez um monte de merdas, ele brigou com os amiguinho...
      Ok. Vamos valorizar os atos super heróicos dele e não nos questionar por quê ele é o principal pq ele suuuuuuper merece.

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    3. Vocês esqueceram que foi o Aaron o único a completar o desafio do Mestre Rockmaple, que ele atacou as Serpes com bravura e tudo o mais.

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    4. Essa primeira resposta... haushaueha

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  4. E se eles estiverem equivocados? Ou se derrepente existam mais de um makar? Pq nao faz sentido tudo o q o call esta passando ate agora.

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  5. Muita gente falando que esperava mais do call só por ele ser o principal mas se liguem nos detalhes .(afinal quem não espera q ele seja o fodão)
    Se lembram quando ele rachou o chão quando ele tava brincando com ums valentões dá escola, quando ele esplodir a caneta ,quando ele tacou fogo na bola, quando ele levitou e etc.
    Eu acho que o inimigo entrou dentro de call quando ele era pequeno acho q ele trocou o corpo dele pelo de call só resta saber se ele tem o mesmo poder em outro corpo.
    Acho q a história dá dicas q indica isso mas talvez eu esteja errada
    Ass: Milly*-*

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  6. E mais uma vez eu fui trouxa. Aplaudos. Será que ele vai morrer tentando combater o cara lá? Igual aquela mina lá? Raziel do céu, por que eu demorei tanto pra ler isso?!?!

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  7. Oi? Como assim? Eu achei que seria o Call a ser esse tal maker. ;-; Não gostei ;-; a vida do menino vai virar um inferno, coitado

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  8. Ainda tem muita coisa estranha aí...

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Boa leitura :)