16 de janeiro de 2017

Capítulo dezenove


Após a cerimônia, Aaron foi rapidamente levado pelos membros da Assembleia. Rufus se levantou de novo para dizer que eles teriam o dia de folga.
Todos pareciam ainda mais empolgados com essa notícia do que com o fato de Aaron ser um Makar. Os alunos se dispersaram quase que de imediato. A maioria deles seguiu para a Galeria, deixando Call e Tamara caminhando sozinhos até seus aposentos pelas cavernas tortuosas iluminadas por cristais resplandecentes.
Tamara falou, animada, durante a maior parte do caminho, claramente aliviada pelo fato de seus pais não demonstrarem seu desacordo com as ideias do Mestre Rufus, em um primeiro momento sem parecer se dar conta de que Call na maioria das vezes só respondia com grunhidos e sons evasivos. Era óbvio que ela acreditava que o fato de Aaron ser um Makar seria incrível para eles três. Ela dizia que não ligava para política, mas que eles deveriam pensar que receberiam um tratamento especial e todas as melhores missões.
A menina estava prestes a dizer que um dia andaria sobre as brasas de um vulcão quando finalmente calou a boca e pôs as mãos na cintura.
— Por que você está sendo tão mala? — completou Tamara.
Call estava angustiado.
— Mala?
— Qualquer um diria que você não está feliz por Aaron. Você não está com ciúmes, está?
Ela estava tão enganada que por um minuto Call não foi capaz de fazer nada além de gaguejar.
— É, eu queria que todo mundo naquela sala ficasse me olhando de cima a baixo como se... se...
— Tamara? — Jasper esperava na porta dos aposentos deles, com uma aparência horrível.
A menina se empertigou. Call sempre ficava impressionado pela maneira como ela conseguia parecer ter um metro e oitenta quando, na verdade, era mais baixa que ele.
— O que você quer, Jasper?
Ela parecia frustrada por ter sido interrompida bem no meio de seu interrogatório com Call. Pela primeira vez na vida, Call achou que Jasper poderia significar uma coisa boa.
— Posso falar com você por um minuto? — ele pediu. Jasper parecia tão mal que Call realmente se sentiu mal por ele. — Tenho um monte de lições extras e... a sua ajuda poderia ser mesmo útil.
— E a minha? Não seria? — Call se lembrou daquela noite na Biblioteca.
Jasper ignorou Call.
— Por favor, Tamara. Sei que sou um babaca, mas quero voltar a ser seu amigo.
— Você não foi um babaca comigo — ela corrigiu. — Peça desculpas ao Call e prometo que vou pensar no assunto.
— Desculpe — ele disse, olhando para baixo.
— Tanto faz — respondeu Call. Aquilo não foi um pedido de desculpas de verdade. E Tamara nem mesmo sabia que Jasper berrou com ele na Biblioteca. Por tudo isso, ele não precisava aceitar aquelas desculpas. Entretanto, Call logo se deu conta de que, se Tamara fosse ajudar Jasper, isso lhe daria algum tempo para cuidar do lobo. Tempo do qual ele desesperadamente necessitava. — Você precisa ajudar o Jasper. Ele precisa de muita, mas muita ajuda mesmo. — Seus olhos se fixaram nos do outro garoto.
Tamara suspirou.
— Tudo bem, Jasper. Mas você também precisa ser civilizado com os meus amigos e não apenas comigo. Não quero mais saber de comentários sarcásticos.
— Mas e ele? — Jasper resmungou. — Ele faz comentários sarcásticos o tempo todo.
O olhar de Tamara oscilava entre os dois.
Ela soltou um suspiro.
— Que tal vocês dois pararem com esse tipo de coisa?
— Jamais! — disse Call.
Tamara revirou os olhos e seguiu Jasper pelo corredor, prometendo a Call que eles se veriam no jantar.
Isso fez com que Call pudesse ficar sozinho em seu quarto com o filhotinho Dominado pelo Caos, que rolava no chão. Ele pegou o lobo e o enfiou dentro do casaco, apesar de alguns ganidos de protesto, e seguiu rumo ao Portão das Missões o mais rápido que sua perna permitia sem causar dor. Ele temia que a porta que dava para o exterior da caverna estivesse trancada, porém ela se mostrou fácil de ser aberta por dentro. O portão de metal estava fechado, mas Call não necessitava ir tão longe. Torcendo para não ser visto, Call deixou que o lobo saísse de sua jaqueta. O filhote se esgueirou pelo corredor, olhando, nervoso, para a porta de metal e farejando o ar antes de finalmente fazer xixi em um amontoado de ervas daninhas congeladas.
Call deu ao lobo mais alguns minutos antes de colocá-lo novamente dentro do casaco.
— Vamos — ele disse ao filhote. — Temos de voltar antes que alguém nos veja. E antes que alguém jogue fora os restos do café da manhã.
Ele voltou para os corredores, curvando o corpo sempre que passava por outros aprendizes para evitar que eles notassem que algo se mexia dentro do seu casaco. Mal entrou no quarto, o lobo pulou para fora. E, então, ele se sentiu suficientemente à vontade para derrubar a lata de lixo e comer os restos do café da manhã de Tamara que estavam dentro dela.
Por fim, Call conseguiu encurralar o lobo até que ele entrasse em seu quarto. O menino lhe levou uma tigela com água, dois ovos crus e uma salsicha fria que fora deixada em cima da bancada da cozinha. Em seguida, eles brincaram de puxar um dos cobertores jogados sobre a cama.
Assim que Call conseguiu fazer o lobo soltar o cobertor só para pegá-lo novamente logo em seguida, o menino ouviu a porta da sala compartilhada se abrir. Ele parou, tentando descobrir se Tamara tinha se dado conta mais uma vez de que Jasper era um babaca e por isso tinha voltado mais cedo ou se era Aaron. Em meio ao silêncio, ele ouviu o som claro de algo sendo jogado contra uma das paredes. O lobo pulou da cama e se esgueirou para debaixo dela, ganindo baixinho.
Call foi até a porta do quarto. Ao abri-la, viu Aaron sentado no sofá, tirando uma das botas. A outra estava jogada no lado oposto da sala. Havia uma marca de sujeira na parede no local atingido pela sola.
— Hum, você está bem? — Call perguntou.
Aaron pareceu surpreso por vê-lo ali.
— Achei que nenhum de vocês estaria aqui.
Call pigarreou. Ele se sentia estranhamente desconfortável. Imaginou se Aaron ficaria ali com eles após ter descoberto que era um Makar ou se seria levado para algum buraco particular todo chique preparado especialmente para “o herói que salvará o mundo”.
— Bem, a Tamara saiu com o Jasper. Não sei para onde eles foram. Acho que os dois voltaram a ser amigos.
— Que seja. — Aaron não parecia muito interessado.
Aquele era o tipo de assunto sobre o qual ele normalmente gostaria de conversar. Havia outras coisas que Call também gostaria de contar para Aaron, como o lobo, o comportamento estranho dos pais de Tamara, a pedra negra que Aaron recebera e o que ela dizia sobre o bracelete que o pai enviara para Rufus. Entretanto, Call não sabia por onde começar. Ou até mesmo se deveria conversar com ele sobre aquelas coisas.
— Então — disse Call —, você deve estar muito empolgado com toda essa coisa de... magia do caos.
— Claro. Estou empolgadíssimo.
Call sabia muito bem reconhecer o sarcasmo quando o ouvia. Por um momento, não conseguiu acreditar que aquelas palavras tinham saído da boca de Aaron. Porém, lá estava ele, encarando a própria bota, cerrando os dentes. Estava definitivamente louco da vida.
— Quer que eu deixe você sozinho para jogar a outra bota na parede?
Aaron respirou fundo.
— Desculpe — ele disse, esfregando o rosto com uma das mãos. — Só não sei se quero ser um Makar.
Call ficou tão surpreso que por um momento não conseguiu pensar em nada que pudesse dizer.
— Por que não? — ele finalmente soltou.
Aaron era perfeito para aquela função. Ele era exatamente o que as pessoas esperavam de um herói: simpático, corajoso, curtia fazer atos heroicos como correr na direção de uma matilha de lobos Dominados pelo Caos em vez de fugir como qualquer pessoa normal em sã consciência.
— Você não entende — retrucou Aaron. — Todo mundo age como se essa fosse uma excelente notícia, mas para mim não tem nada de bom. A última Makar morreu com quinze anos. Tudo bem, ela deteve a guerra e transformou o Tratado em uma realidade, mas, mesmo assim... ela morreu. E de uma forma horrível.
O que batia totalmente com o que o pai de Call sempre dissera sobre os magos.
— Você não vai morrer — Call garantiu com firmeza. — Verity Torres morreu em uma batalha, uma grande batalha. Você está no Magisterium. Os mestres não deixarão você morrer.
— Você não tem como garantir isso — emendou Aaron.
“Foi por isso que sua mãe morreu. Por causa da magia”, a voz do pai de Call repetia dentro da cabeça do menino.
— Ok, tudo bem. Então você tem de fugir — Call sugeriu de súbito.
Aaron levantou imediatamente a cabeça. Aquelas palavras atraíram a sua atenção.
— Eu não vou fugir!
— Bem, você poderia — disse Call.
— Não, eu não poderia. — Os olhos verdes de Aaron se acenderam. Ele parecia bastante irritado. — Não tenho para onde ir.
— O que você quer dizer com isso? — Call perguntou, mas no fundo da sua mente ele sabia, ou tinha uma noção: Aaron jamais falara sobre sua família nem nunca falara sobre como era a vida em sua casa...
— Você não percebeu nada? — Aaron questionou. — Você não se perguntou por que meus pais não estavam no hangar no dia do Desafio? Porque eu não tenho pais. Minha mãe morreu, meu pai fugiu. Não faço ideia de onde ele está. Não o vejo desde que tinha dois anos de idade. Vim de uma família adotiva. Mais de uma, na verdade. Eles enjoavam de cuidar de mim ou os cheques que o governo enviava não eram suficientes para os gastos e então eles me empurravam para a casa seguinte. Conheci uma garota que me falou sobre o Magisterium na minha última família adotiva. Ela era uma pessoa com quem eu podia conversar. Até que o irmão se formou aqui e a levou embora. Pelo menos você sempre teve o seu pai. Estar no Magisterium é a melhor coisa que já me aconteceu. Não quero ir embora.
— Sinto muito — Call murmurou. — Eu não sabia.
— Depois que ela me contou sobre o Magisterium, vir para cá se tornou o meu sonho. Minha única chance. Eu sabia que um dia teria de pagar ao Magisterium todas as coisas boas que a escola fez por mim — Aaron acrescentou em voz baixa. — Só não achava que seria tão cedo.
— Que jeito horrível de pensar — Call protestou. — Você não deve a sua vida a ninguém.
— Claro que devo — insistiu Aaron, e Call soube que jamais seria capaz de convencê-lo de que aquilo não era verdade. Ele se lembrou de Aaron sobre o palanque, enquanto todos o aplaudiam e lhe diziam que ele era a sua única esperança. Para alguém tão bom quanto Aaron, não haveria maneira de convencê-lo a jogar aquela responsabilidade para outra pessoa, nem se ele mesmo pudesse fazer isso. Aquilo o tornou um herói.
Eles o tinham bem onde queriam.
Já que Call era seu amigo, independentemente de Aaron desejar ou não sua amizade, ele asseguraria que ele não faria nada idiota.
— E não sou só eu — Aaron completou, cansado. — Sou um mago do caos. Precisarei de um contrapeso. Um contrapeso humano. Quem se voluntariaria para uma coisa dessas?
— É uma honra ser o contrapeso de um Makar. — Pelo menos isso ele sabia, pois Tamara mencionara algo do tipo em seu blábláblá repleto de empolgação.
— O último contrapeso humano morreu junto com o Makar no campo de batalha. E todos nós sabemos o que aconteceu antes disso. Como o Inimigo da Morte matou o próprio irmão. Não consigo imaginar que as pessoas façam fila para se candidatar.
— Eu me candidataria — disse Call.
Call subitamente parou de falar enquanto as mais variadas expressões passavam pelo seu rosto. De início ele pareceu incrédulo, como se suspeitasse que Call estivesse de brincadeira ou exatamente o contrário.
Quando se deu conta de que o menino falava sério, ficou horrorizado.
— Você não pode fazer isso! — disse Aaron. — Será que não ouviu nada do que acabei de contar? Você pode morrer.
— Bem, então não me mate — sugeriu Call. — E se a nossa meta for não morrer? Nós dois. Juntos. Não morreremos.
Aaron ficou calado por um longo momento, e Call achou que ele pensava em uma maneira de lhe dizer que apreciava muito sua oferta, mas que já tinha alguém melhor em mente. Aquilo era uma honra, como Tamara havia comentado. Aaron não precisava escolher Call. Ele não tinha nada de especial. Ele estava prestes a abrir a boca para falar tudo isso quando Aaron olhou para cima.
Seus olhos assumiram um brilho suspeito e, por um segundo, Call pensou que talvez o amigo não houvesse sido sempre o cara popular que era bom em tudo. Talvez, com suas famílias adotivas provisórias, ele fosse solitário, raivoso e triste, igualzinho a ele.
— Tudo bem — disse Aaron. — Se você ainda quiser. Quando chegar a hora, é claro.
Antes que Call pudesse dizer qualquer outra coisa, a porta se escancarou e Tamara entrou na sala compartilhada. O rosto dela se iluminou ao ver Aaron. Ela correu até ele e lhe deu um abraço tão apertado que quase o derrubou no sofá.
— Você viu a cara do Mestre Rufus? — perguntou ela. — Ele estava tão orgulhoso de você! E toda a Assembleia veio até aqui, até mesmo os meus pais. Todos eles estavam muito animados. Por causa de você! Aquilo foi incrível.
— Foi mesmo incrível — Aaron disse, finalmente começando a esboçar um sorriso sincero.
Ela bateu nele com um travesseiro:
— Não precisa ficar se achando.
Os olhos de Call encontraram os de Aaron por cima do travesseiro e eles sorriram um para o outro.
— Não existe a menor possibilidade de isso acontecer aqui — comentou Call.
Naquele momento, o lobo Dominado pelo Caos começou a latir no quarto de Call.

7 comentários:

  1. HAHAHAHAHAHAHAHAHA

    QUANTO TEMPO O CALL ACHOU Q PODERIA ESCONDER ELE LÁ???????????

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  2. A mãe do Call era o Makar?

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    1. Não, a Makar era Verrity Torres. Ela morreu na batalha. A mãe de Call tava na caverma com ele, morreu no Massacre Gelado

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  3. Que estranho esse livro. O principal não parece principal.... eu ein. Mas eu gostei mto desse livro. Sei lá. Vamos ver onde isso vai dar né.

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  4. Será q aeron é filho do Constantine?
    Ass: Milly*-*

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  5. Parceiros, melhor do que rivais, pfv, não morram! Essa de ser contrapeso me lembrou um pouco parabatais. Será que se a Tamara morresse o Jasper se tornaria uma pessoa melhor com a perda dela?

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  6. Além do mais a mãe de Call é formada no magisterium e Verity Torres morreu no ano de prata.

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Boa leitura :)