25 de janeiro de 2017

Capítulo dez


Não levaram muito tempo para chegar à área dos Mestres.
Call nunca tinha ido naquela parte do Magisterium. Apesar de não ser proibido, os únicos alunos que normalmente se aventuravam eram assistentes, como Alex, cumprindo funções ou levando recados. Fora isso, vir até aqui era um convite para encrenca.
Call, inclusive, estava com dificuldades para andar com confiança como normalmente fazia, conforme Tamara o aconselhou. Ele queria se esconder perto das paredes, fugir das vistas, apesar de poucos alunos terem passado por eles. Nenhum Mestre apareceu. Ainda estavam todos enfiados naquela reunião, tentando entender o que tinha dado errado, o que era bom para o plano de Call. Mas, ao mesmo tempo, isso deixou as coisas um pouco assustadoras quando eles viraram nos corredores onde ficavam os aposentos dos Mestres.
Foi divertido tentar adivinhar qual porta era de quem. A do Mestre Rockmaple devia ser a enorme porta cravejada com bronze; a do Mestre North, uma lisa de metal; a do Mestre Rufus, uma de prata escovada. A de Mestra Milagros obviamente era uma com a foto de um gatinho pendurada por um fio e com os dizeres AGUENTE FIRME.
A de Anastasia foi tão fácil de identificar quanto as deles. Um grosso tapete branco tinha sido colocado na frente e a porta em si era feita de mármore claro com veios negros que pareciam fumaça. Call se lembrou do carregamento de móveis caros e brancos que vira os empregados de Anastasia descarregarem no primeiro dia de aula.
— Esse é o dela — disse Call, apontando. — Tem que ser.
— Concordo — Aaron se aproximou, tamborilou os dedos no mármore. Examinou as beiradas da porta, mas assim como todas do Magisterium, não havia dobradiças, só a parte lisa onde era preciso passar a pulseira para entrar. Em dado momento Aaron deu um passo para trás e levantou a mão. Call sentiu o puxão familiar sob as costelas.
Aaron estava prestes a usar magia do caos.
— Calma — disse Call. — Não... só se for absolutamente necessário.
A sensação de puxão desapareceu, mas Aaron lançou a ele um olhar que quase machucou.
— O que você tem contra magia do caos de repente?
Call tentou colocar seus pensamentos desorganizados em palavras.
— Acho que usar magia do caos faz os Mestres virem correndo — disse ele. — Acho que eles podem sentir de alguma forma, ao menos quando é aqui dentro do Magisterium.
— Achei que tinha sido a bagunça de Skelmis em nosso quarto que fez com que aparecessem tão rápido — disse Tamara pensativamente. — Mas eles realmente chegaram rápido demais para ter sido só um barulho. Call pode estar certo.
— Tudo bem, então — disse Aaron. — O que você sugere?
Passaram os dez minutos seguintes tentando abrir a porta de todos os jeitos que conseguiram pensar. Tamara lançou um feitiço de fogo, mas a porta nem se mexeu. E também não reagiu a congelamento, nem a “abra-te sésamo”, nem ao feitiço de destrancamento que Tamara tinha usado nas jaulas da vila da Ordem da Desordem. Apenas ficou ali parada, sendo a porta que era.
E também não reagia a chutes, Call descobriu.
— Sério? — disse Aaron, depois de terem esgotado as ideias. Os três estavam apoiados contra a parede oposta, suando. Aaron encarou o pôster de gatinho da Mestra Milagros. — Tanta preocupação com o cofre e não conseguimos passar nem da porta.
— Alguém passou pela nossa porta — observou Tamara.
— Então é possível — disse Call. — Ou, pelo menos, deveria ser. Quer dizer, sabíamos que não seria fácil. Essas portas são a segurança do Magisterium. Acenar uma pulseira qualquer realmente não deveria abri-las. — Ele passou o braço na frente da porta para enfatizar.
Ouviu-se um clique.
Tamara automaticamente endireitou a postura.
— A porta acabou de...?
Aaron deu dois passos largos pelo corredor e empurrou a porta.
Abriu com facilidade. Estava destrancada.
— Não está certo. — Tamara não parecia estar gostando daquilo; parecia incomodada. — O que foi isso? O que aconteceu? — Ela virou para Call. — Você está só com a sua pulseira normal?
— Sim, é claro, eu... — Call puxou a manga da blusa térmica. E observou longamente. Sua pulseira estava no lugar, é verdade. Mas ele tinha se esquecido da pulseira que tinha subido pelo braço até a altura do cotovelo.
A pulseira do Inimigo da Morte.
Tamara respirou fundo.
— Isso também não faz sentido.
— Vamos ter que tentar entender mais tarde — disse Aaron da entrada. — Não sabemos quanto tempo temos no quarto dela. — Ele parecia agitado, mas muito mais feliz do que há poucos instantes.
Call e Tamara o seguiram para dentro, apesar de a expressão de Tamara ainda ser de preocupação.
Call sentiu a pulseira do Inimigo queimar em seu braço. Por que não a deixou em casa, com Alastair? Por que quis usá-la na escola? Ele detestava o Inimigo da Morte. Mesmo que de alguma forma fossem a mesma pessoa, ele detestava tudo que Constantine Madden defendia e tudo que ele havia se tomado.
— Uau — disse Tamara, fechando a porta atrás deles. — Olha só esse quarto.
O quarto de Anastasia era impressionante. As paredes cintilavam, repletas de quartzos. Um grosso tapete branco cobria o chão. O sofá era de veludo branco, a mesa e as cadeiras eram brancas. Até os quadros nas paredes eram pintados em tons de branco, creme e prata.
— É como estar dentro de uma pérola — disse Tamara, dando uma volta completa.
— Eu estava pensando que é como estar dentro de uma barra de sabão gigante — disse Call.
Tamara lançou a ele um olhar cansado. Aaron que, perambulava pelo quarto, olhou atrás de um armário de louças (branco e com louças brancas), atrás de uma prateleira (branca, cheia de livros envoltos em capas brancas), e embaixo de um baú (branco) no chão. Finalmente se aproximou de uma grande tapeçaria pendurada em uma das paredes. Era tecida em fios nas cores creme, marfim e preto, e retratava uma montanha branca de neve.
La Rinconada?, Call ficou imaginando. O Massacre Gelado?
Mas não dava para ter certeza.
Aaron puxou a tapeçaria de lado.
— Achei — disse ele, levantando e tirando a peça do lugar. Atrás dela havia um enorme cofre, feito de aço esmaltado. Até isso era branco.
— Talvez a senha seja alguma variação da palavra branco? — sugeriu Aaron, olhando ao redor do cômodo. — É definitivamente a praia dela.
Tamara fez que não.
— Seria fácil demais alguém falar essa palavra sem querer aqui dentro.
Aaron franziu a testa.
— Então de repente o oposto? Âmbar-negro? Ônix? Ou uma cor bem brilhante. Rosa néon!
Nada aconteceu.
— O que sabemos sobre ela? — perguntou Call. — Que é membro da Assembleia, certo? E casada com o pai de Alex, cujo sobrenome é Strike, então obviamente ela não usa o nome do marido.
— Augustus Strike — disse Tamara. — Ele morreu há alguns anos, mas já era muito velho. Ela vinha cuidando das coisas dele há anos, meus pais me disseram.
— E ela falou alguma coisa sobre um marido antes de Augustus... e sobre ter filhos — disse Call. — Talvez ela tenha se divorciado, mas se não for isso, duas pessoas que se casaram com ela, morreram. Talvez ela seja uma dessas pessoas que mata os maridos pelo dinheiro.
— Uma viúva negra? — disse Tamara com desdém. — Se ela tivesse matado Augustus Strike, as pessoas saberiam. Ele era um mago muito importante. Ela conseguiu ocupar uma cadeira na Assembleia por causa dele; antes do casamento ela era só uma feiticeira europeia desconhecida.
-— Vai ver que ela só é azarada — disse Call. Ele não tinha se tocado de que o pai de Alex estava morto. Imaginou se os pais de Tamara tinham dissuadido Kimiya de namorá-lo graças à ausência de conexões. Agora, Alex e Kimiya pareciam próximos de novo, mas Call não sabia ao certo o que isso significava.
— Alexander — disse ele em voz alta. — Alexander Strike.
Também não era a senha.
— Sabemos exatamente de onde eles vêm? — perguntou Aaron. — A Europa é um lugar bem grande.
— França! — gritou Call. Nada aconteceu.
— Não grite França, simplesmente! — Tamara o repreendeu. — Existem vários outros países.
— Vamos dar uma olhada pelo quarto e ver o que conseguimos achar — disse Call, jogando as mãos para o alto. — O que as pessoas usam como senhas? A data do próprio aniversário? Dos aniversários dos bichos de estimação?
Tamara encontrou um caderno, de capa de couro cinza clara, sob uma pilha de livros. Continha anotações sobre as idas e vindas de guardas, nomes de elementais e um bilhete parcialmente redigido para a Assembleia, explicando como as medidas de segurança poderiam melhorar no Magisterium e no Collegium enquanto os Makaris ainda fossem aprendizes.
Tamara foi lendo qualquer coisa que parecesse uma senha, mas o cofre não se alterou.
Aaron descobriu um montinho de fotos. Nelas, várias pessoas de expressão austera, dois bebês e, parada em um dos cantos, uma mulher muito jovem, de cabelo escuro e usando um vestido largo. As fotos eram granuladas e nada nelas era familiar. A paisagem era rural, com campos de flores atrás deles.
Será que uma das crianças era Alex? Call não sabia dizer. Ele sempre achava todos os bebês iguais. Não havia nada escrito nos versos das fotos. Nada que pudesse ajudá-los a descobrir uma senha.
Por fim, Call olhou embaixo da cama. A essa altura ele estava começando a se sentir um pouco desesperado. Estavam tão próximos de conseguir a chave e falar com os elementais, mas, cada vez mais, ele começava a achar impossível descobrir a senha de uma pessoa que mal conhecia.
Havia alguns sapatos brancos de salto baixo e um único chinelo cor de creme. Atrás deles havia uma caixa de madeira. Provavelmente era a única coisa no quarto que não tinha alguma variação da cor branca. Ao chegar mais perto, Call se perguntou se a caixa era mesmo de Anastasia. Talvez tivesse sido esquecida pelo antigo ocupante do quarto.
Ele a empurrou para o outro lado e deu a volta na cama para inspecioná-la. Madeira gasta e dobradiças enferrujadas — nem um pouco o estilo da ocupante atual.
— O que você encontrou aí? — perguntou Aaron, indo para perto de Call. Tamara sentou ao lado deles.
Call levantou a tampa...
... e Constantine Madden o encarou de volta.
Call sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.
Era Constantine na foto, sem dúvida. Ele conhecia aquele rosto tão bem quanto conhecia o próprio, por diversos motivos.
Constantine não estava totalmente visível. Metade do rosto era jovem e ainda bonita. A outra estava coberta por uma máscara de prata. Não era a mesma que o Mestre Joseph usou um dia para enganar a todos se passando pelo Inimigo. Essa era menor — escondia as terríveis queimaduras que Constantine tinha sofrido ao escapar do Magisterium, mas isso era tudo.
Constantine estava de pé no meio de um grupo de magos, todos com o mesmo uniforme verde. Call só reconheceu um deles: Mestre Joseph. Ele também estava mais jovem na foto, os cabelos castanhos em vez de grisalhos.
Os olhos acinzentados e nítidos de Constantine encararam Call. Era como se sorrisse para ele através dos anos. Sorrisse para si mesmo.
— Esse é o Inimigo da Morte — disse Aaron com a voz baixa, inclinando-se sobre o ombro de Call.
— E Mestre Joseph, e vários outros seguidores de Constantine — disse Tamara, com a voz baixa. — Reconheço alguns deles. Estou começando a achar que...
— Que Anastasia Tarquin fazia parte do grupo? — perguntou Call. — Definitivamente tem alguma coisa estranha acontecendo. A pulseira do Inimigo abriu a porta, ela tem fotos dele...
— Pode ser que ela esteja guardando essas fotos não por causa de Constantine — disse Tamara — mas ser por causa de qualquer uma dessas pessoas.
Call ficou de pé e suas pernas pareciam bambas. Com as mãos em punho junto às laterais do corpo, ele encarou o cofre.
— Constantine — disse ele.
Nada aconteceu. Tamara e Aaron ficaram onde estavam, olhando para Call meio agachados sobre a caixa aberta de Anastasia. Ambos tinham a mesma expressão aquela que Call entendia como Tendo que Lidar com o Fato De que Call É Mau. A maior parte do tempo eles conseguiam ignorar ou esquecer que a alma de Call era a de Constantine Madden.
Mas nem sempre.
Call pensou nos seguidores do Inimigo da Morte. O que os havia atraído para Constantine? A promessa de vida eterna, de um mundo sem morte. A promessa de que toda perda seria revertida e toda dor apagada. Uma promessa que o Inimigo fez a si mesmo quando seu irmão morreu e que depois estendeu aos seus seguidores. Call nunca tinha experimentado uma perda de verdade e não conseguia imaginar como seria isso — ele sequer lembrava da mãe —, mas dava para imaginar o tipo de seguidores que Constantine sem dúvida atraía. Pessoas de luto, ou que temiam a morte. Pessoas para as quais a determinação de Constantine em recuperar o irmão teria sido um símbolo.
Anastasia tinha perdido vários maridos, afinal. Talvez quisesse um deles de volta.
Call ergueu a mão, olhou para a pulseira do Inimigo, e depois, novamente, para o cofre.
— Jericho — disse ele.
Ouviu-se um clique, e o cofre abriu.
Call, Tamara e Aaron ficaram imóveis com o som. Estava destrancado. Eles conseguiriam descer para ver os elementais. O plano tinha dado certo. No entanto, Call ainda estava nervoso o suficiente para que suas mãos tremessem.
Anastasia parecia uma pessoa gentil e não assassina, mas mesmo assim, ou ela estava tentando matá-lo, ou estava ao seu lado por motivos horríveis. Ele não gostava de nenhuma das opções.
— Então... melhor conjurar fogo na tranca — disse Tamara. — Antes que a elemental cobra venenosa saia.
— Ah, sim. — Call vasculhou seus pensamentos tentando organizá-los. Estalando os dedos, criou uma chama. Em seguida, aproximando-se da abertura do cofre, fez a chama crescer em uma linha longa e fina; como uma flecha sem arco. Ele lançou a chama, que chiou brevemente, parecendo se expandir, e finalmente explodiu no espaço diminuto da abertura. Call não sabia dizer se havia um elemental ali dentro, encolhendo-se. Será que tinha lançado fogo o suficiente para destruí-lo? Será que a criatura tinha sido dissipada ou simplesmente deslizado para algum canto?
Call esticou o braço para enfiá-lo no buraco no cofre.
Não hesite, disse a si mesmo. Não se mova rápido demais. Se vir uma cobra, é uma ilusão.
Seus dedos esticaram no momento em que ouviu a respiração de alguém atrás de si.
— Call — disse Aaron em alerta —, não vá rápido demais.
A cabeça da cobra deslizou para fora do buraco quando a mão de Call passou por ele. Era de um verde tóxico, os olhos negros como duas gotículas de tinta derramada. Uma pequena língua laranja apareceu, farejando o ar.
Os pelos nos braços de Call ficaram arrepiados. A pele retesou com a sensação de uma cobra deslizando sobre ela, fria e seca. Era uma ilusão? Não parecia uma ilusão. Todos os músculos do seu corpo se contraíram quando, contra todos os seus instintos, ele foi mais fundo no cofre. Apalpou por um instante, espirais do que parecia ser uma corda lisa.
Call estremeceu involuntariamente. Fora do cofre, a cobra começou a subir pelo seu braço.
— Anastasia não teria mentido para os Mestres, teria? — perguntou Call com uma voz apenas ligeiramente vacilante. — Isso é uma ilusão, certo?
— Mesmo que não seja, não acho que você deva assustá-la — disse Tamara em tom assertivo, mas parecendo nervosa.
— Tamara! — repreendeu Aaron. — Call, temos certeza. É uma ilusão. Continue. Está quase lá.
Aaron provavelmente deveria ter sido o encarregado de fazer isso, Call pensou. Aaron definitivamente não estaria cogitando soltar um gritinho agudo e correr sem sequer se preocupar com o alarme.
Mas junto com esse pensamento vinha uma pontinha de dúvida. Se Aaron o quisesse morto, que jeito poderia ser mais eficaz do que mandá-lo fazer alguma estupidez? O que poderia ser melhor do que encorajá-lo a ser corajoso e tolo?
Não, Call disse a si mesmo, Aaron não é assim. Aaron é meu amigo.
A cobra tinha chegado ao pescoço de Call. Então começou a dar a volta nele, transformando-se em um colar... ou em um nó.
Nesse momento o dedo de Call tocou o que pareceu uma chave. O metal denteado pareceu frio contra a pele. Ele fechou a mão ao redor do objeto.
— Peguei. Eu acho — disse, começando a retirar a mão.
— Devagar! — ordenou Aaron, quase o fazendo saltar.
Ele olhou fixamente na direção de Aaron.
— Estou indo devagar!
— Estamos quase lá — disse Tamara.
O braço de Call emergiu do cofre e depois a mão, a chave dentro nela. Assim que estava livre, a cobra desapareceu em uma lufada de fumaça malcheirosa, e o cofre se soltou.
Conseguiram. Estavam com a chave de bronze.


Fecharam a porta do quarto de Anastasia tão rápido quanto puderam e se apressaram para a passagem profunda do Magisterium onde ficavam os elementais. Call olhava o tempo todo para trás, nervoso, quase esperando que Rufus ou um dos outros Mestres tivessem descoberto o que estavam fazendo e estivessem vindo atrás deles.
Mas não havia ninguém. Os corredores estavam quietos, e ficaram ainda mais silenciosos à medida que as pedras ao redor deles iam ficando mais lisas, as paredes e o chão transformando-se num mármore tão polido que chegava a ser escorregadio. Passaram por mais portas talhadas com símbolos alquímicos, mas dessa vez Call não parou para olhá-las. Estava mergulhado em reflexões a respeito de Anastasia Tarquin, da foto em seu quarto. Pensava em Mestre Joseph. Será que Anastasia Tarquin era uma de suas servas? Será que ela era a espiã do Magisterium e estava cuidando de Call porque — apesar de todos os acontecimentos — ele ainda era o Escolhido do Mestre Joseph, a alma do Inimigo da Morte?
Tamara parou diante de uma porta enorme feita com os cinco metais do Magisterium — ferro, cobre, bronze, prata e ouro. Brilhava suavemente à luz ambiente do corredor. Ela virou para olhar para Call e Aaron com uma expressão determinada.
— Deixem que eu cuido disso — disse, e bateu uma vez à porta, com força.
Após uma longa pausa a porta abriu. Um dos jovens guardas de quem Call se lembrava olhou para Tamara com desconfiança.
— O que está acontecendo? — perguntou ele. Parecia ter mais ou menos dezenove anos, com cabelo preto bagunçado. Os uniformes do Collegium eram azul-escuros, com listras de diferentes cores na manga. Call desconfiava que elas significassem alguma coisa; tudo no mundo dos magos significava. — O que foi, garota?
Foi admirável a forma com que Tamara conseguiu conter a irritação em ser chamada de “garota”.
— Os Mestres querem falar com você — disse ela. — Disseram que é importante.
O menino aumentou a abertura da porta. Atrás dele, Call pôde ver a antessala, com seu sofá e as paredes vermelho-escuras. O túnel que se estendia. Seu coração acelerou. Estavam muito perto.
— E eu tenho que acreditar nisso? — perguntou o guarda. — Por que os Mestres iriam querer que eu abandonasse meu posto? E por que mandariam uma pessoa insignificante como você?
Aaron trocou um olhar com Call. Se o garoto do Collegium não se acalmasse, Call pensou, acabaria no chão, com a bota de Tamara no pescoço.
— Sou assistente do Mestre North — disse Tamara. — Ele pediu para que eu entregasse isso. — Tamara entregou a pedra-guia. Os olhos do menino ficaram arregalados. — Irá levá-lo ao local da reunião; querem que você apresente provas sobre as proteções desse local. Do contrário, pode se encrencar, ou a sua chefe pode se encrencar.
O menino pegou a pedra-guia.
— Não foi culpa dela — disse ele, soando ressentido. — Nem dos guardas. Aquele elemental veio de outro lugar.
— Então vai lá contar isso pra eles — disse Tamara.
Agarrando a pedra-guia, o guarda fechou a porta atrás de si, e Call ouviu os estalos de dezenas de trancas enquanto elas entravam no lugar.
— Deem o fora daqui — disse ele, olhando brevemente para os três, e depois seguiu pelo corredor.
Quando o guarda sumiu de vista, Call pegou a chave no bolso.
Havia um ponto na imensa porta no qual ela se encaixava perfeitamente, e ao ser colocada ali, um traçado de símbolos começou a brilhar por toda a porta. Palavras que Call nunca tinha visto na vida se revelaram: nem carne, nem sangue, mas espírito. Enquanto Call tentava entender o que significavam, a porta abriu para dentro.
Eles entraram, passando rapidamente pela antessala até o corredor vermelho-escuro. Era curto e levava a um segundo par de portas imensas e altíssimas, como as de uma catedral gigantesca.
Mas nessas também havia um encaixe, um buraquinho quase pequeno demais para ser notado. Call engoliu em seco e colocou a chave de bronze ali. As portas abriram com um ronco.
Os três entraram.
Call não sabia o que esperar, mas o súbito calor do recinto o surpreendeu. O ar estava carregado e tinha um cheiro azedo e metálico. Parecia haver uma enorme fogueira ardendo, mas não se via fogo algum. Dava para ouvir água correndo ao longe e, mais perto, o rugido de chamas. Portais em arco escavados na pedra levavam a cinco direções diferentes. Na pedra também se liam talhadas algumas palavras conhecidas: O fogo quer queimar, a água quer fluir, o ar quer se erguer, a terra quer unir, o caos quer devorar.
— Qual caminho?
Aaron deu de ombros, depois girou com um braço esticado que apontava aleatoriamente, como um cata-vento.
— Aquele — disse ele quando parou. O arco para o qual apontava parecia o idêntico aos outros.
— Warren? — Call chamou baixinho. Parecia um palpite arriscado achar que o lagartinho poderia ouvi-lo daqui, mas Warren já tinha aparecido em lugares estranhos e horários esquisitos anteriormente. — Warren, precisamos da sua ajuda.
— Não tenho certeza disso — disse Tamara, indo na direção que Aaron escolheu. — Não confio nele.
— Ele não é tão ruim assim — disse Call, embora não conseguisse deixar de pensar em como Warren os tinha levado a Marcus, o antigo Mestre do Mestre Rufus, agora um dos Devorados, atraído pelo elemento do fogo ao usar demais o seu poder. Ainda assim, Marcus não os machucou. Só assustou.
Passado o portal, o caminho estava na penumbra. Não parecia ser um corredor. Estava mais um espaço vazio com pedras derrubadas, cortado por uma trilha que levava a mais escuridão. Havia uma tocha em uma parede, queimando em uma luz verde; Aaron a pegou e foi na frente, com Call e Tamara logo atrás.
A trilha descia e se tornava um ressalto sobre um buraco fundo. O coração de Call começou a bater forte. Ele sabia que havia grandes elementais presos ali, sabia que teoricamente os magos conseguiam se aproximar sem ser devorados — e exatamente isso permitia o aprisionamento dessas criaturas. Mas à luz fraca da tocha de Aaron, Call não conseguia deixar de ter a sensação de que estavam se aproximando da toca de um dragão, e não de um conjunto de celas.
Um pouco mais adiante havia uma alcova na parede. Dentro dela pairava uma serpente alada, coberta de penas cor de laranja, vermelhas e azuis, brilhantes mesmo no escuro.
— O que é isso? — Call perguntou a Tamara.
Ela balançou a cabeça.
— Nunca vi antes. Parece um elemental do ar.
— Devemos acordá-la? — sussurrou Aaron.
Eles devem estar presos por correntes, certo?, Call pensou, mas não viu nenhuma. Nem barras de prisão, nem nada. Só eles e um elemental mortífero a poucos metros de distância.
— Não sei — respondeu Call, sussurrando. Call vasculhou o cérebro, pensando nos monstros dos livros que já tinha lido, mas não conseguia pensar em como esse se chamava.
Um dos olhos da criatura abriu revelando uma pupila grande e preta; a íris, em um tom intenso de roxo, tinha formato de estrela.
— Crianças — sussurrou a criatura. — Eu gosto de crianças.
A parte “no café da manhã” não foi dita, mas pareceu bem clara para Call.
— Eu sou Chalcon. Vieram me comandar? — A ansiedade com que perguntou deixou Call nervoso.
Ele queria comandá-la. Queria forçá-la a contar a ele tudo o que sabia; ou, melhor ainda, a encontrar e devorar o espião. Mas ele não sabia ao certo qual seria o preço disso. Se tinha uma coisa que aprendeu durante o seu tempo de Magisterium, era que criaturas mágicas eram ainda menos confiáveis do que magos.
— Sou Aaron. — Típico de Aaron se apresentar educadamente para uma serpente flutuante. — Estes são Tamara e Call.
— Aaron — Tamara disse, entre dentes cerrados.
— Estamos aqui para interrogá-lo — prosseguiu Aaron.
— Interrogar Chalcon? — repetiu a serpente. Call ficou se perguntando se a criatura seria inteligente. Definitivamente era grande. Inclusive, Call tinha a impressão de que estava maior do que há poucos segundos.
— Alguém invadiu esse lugar recentemente e libertou um de vocês — disse Aaron. — Você faz ideia de quem possa ter sido?
— Libertou — repetiu Chalcon mais uma vez. — Seria bom ser livre — disse, e então inflou um pouco mais. Call trocou um olhar ansioso com Tamara. Chalcon definitivamente estava aumentando. Aaron, com a tocha erguida diante da criatura, parecia muito pequeno. — Se libertarem Chalcon, ele conta tudo que sabe.
Aaron ergueu uma sobrancelha. Tamara balançou a cabeça.
— Nem pensar — disse ele.
Houve uma batida alta. Chalcon tinha arremetido contra eles de repente, os olhos de estrela ardendo vermelhos de raiva. Aaron deu um salto para trás, mas a serpente se debatia contra uma barreira invisível, como se uma linha de vidro os separassem.
— Essa coisa não vai nos contar nada — disse Call, chegando para o lado. — Vamos tentar encontrar outro elemental. Alguém mais disposto a colaborar.
Chalcon rosnou quando se afastaram da sua cela. Isso é uma cela, afinal, não?, Call pensou, mesmo que não tenha porta ou barras. Sentiu-se um pouco mal pela criatura alada, feita para voar, mas que, em vez disso, estava presa aqui embaixo.
É claro que, se estivesse livre, Chalcon provavelmente fisgaria Call e o comeria como um falcão caçando um rato.
Eles desceram para um espaço maior — um enorme salão cheio de alcovas, cada uma aprisionando em elemental diferente. Criaturas gritaram e bateram as asas.
— Elementais do ar — disse Tamara. — São todos elementais do ar; as outras entradas deviam levar aos demais elementos.
— Aqui — disse Aaron, apontando para uma cela vazia. — Era aqui que estava Skelmis; o nome dele está marcado na placa. Então os elementais daqui devem ter visto alguma coisa.
Call foi até uma das celas. Nela, uma criatura com três grandes olhos castanhos em longos pedúnculos e um corpo que mais parecia miasma olhou para ele. Ele não sabia nem se aquilo tinha uma boca. Não parecia ter.
— Você viu quem libertou Skelmis? — perguntou Call.
A criatura simplesmente o encarou, flutuando suavemente na prisão. Call suspirou.
Tamara foi até uma cela que abria em um enorme espaço onde três elementais que pareciam enguias nadavam pelo ar. Eram os mesmos elementais que carregaram Call, Tamara, Aaron e Jasper de volta do túmulo do Inimigo da Morte em suas barrigas, só que bem menores agora. Talvez todos os elementais pudessem alterar seus tamanhos, como Chalcon.
Lembrar-se de ter voado dentro de elementais também fez com que Call se lembrasse de onde Jasper estava agora. Em um encontro. Com Célia. Que quase com certeza não estava tentando matar Call, mas que também talvez não fosse mais sua amiga.
— Todos os elementais do ar são muito burros? — perguntou Call, e a irritação com Jasper estava clara em sua voz. Tinham pouco tempo até que os Mestres descobrissem quem tinha enviado o guarda e surgissem na cripta, acabando com toda a operação. Se não tivessem nada até esse momento, a encrenca teria sido a troco de nada.
— Pegou pesado — disse Aaron.
— Sim, mas parece justo. — Tamara observava os movimentos plácidos das criaturas que pareciam enguias. — Vamos tentar os elementais da terra. Eles são mais amigáveis.
Voltaram pelo caminho, passaram por Chalcon, que os encarou com um olhar faminto enquanto emitia um chiado sinistro. A perna esquerda de Call parecia cravada de facas. Eles tinham andado bastante, mas subir a ladeira fez seus músculos queimarem. Quando chegaram ao corredor principal, apesar de ser o autor do plano, ele meio que teve vontade de desistir. Tamara examinava a pedra, tentando ver se havia marcas indicando qual entrada levava aos elementais da terra. Aaron estava com a testa franzida, como se estivesse tentando montar todo esse quebra-cabeça.
— Eu os ouço aí, aprendizes — disse alguém da entrada mais distante, uma voz que parecia sinistramente familiar. — Venham me encontrar.
Call congelou. Seria o espião? Será que tinham encontrado a pessoa que o queria morto?
Aaron girou com a tocha. A entrada estava vazia, o espaço além brilhava em um preto-avermelhado muito intenso, parecido com o tom de sangue há muito derramado. O corredor parecia cheio de sombras ameaçadoras.
— Conheço essa voz — sussurrou Tamara. Estava com os olhos arregalados, as pupilas enormes na escuridão.
— Venham me encontrar, crianças de Rufus — disse novamente a voz. — E eu lhes conto um segredo.
Sob o brilho esverdeado da tocha que segurava acima da cabeça, Aaron parecia determinado. O fogo em sua mão estalava.
— Por aqui — disse ele e foi correndo em direção ao som, com Tamara logo atrás.
É isso que os heróis fazem, Call supôs. Correm direto para o perigo e nunca desistem. Call queria desesperadamente ir na outra direção, ou simplesmente deitar e segurar a perna até que parasse de doer, mas ele não deixaria Aaron eventualmente lutar sem seu contrapeso.
Aaron não era seu inimigo.
Call arfou uma vez, tentando ignorar a dor, e então foi atrás deles.
Ficou imediatamente claro para qual elemento tinham ido. Um calor opressor explodia da entrada e do corredor além. As paredes eram feitas de pedras vulcânicas endurecidas, negras e cheias de buracos endentados. O rugido do fogo os cercava, com a mesma explosão e impacto de uma cachoeira.
Aaron estava no meio do caminho para o salão, com Tamara ao seu lado. Ele tinha abaixado a mão que segurava a tocha, apesar de ainda projetar uma estranha luz esverdeada sobre eles.
— Call — disse Aaron com um tom estranho na voz. — Call, vem aqui.
Call avançou mancando pelo salão, passando por diferentes celas que encarceravam elementais do fogo. As jaulas não eram fechadas por paredes claras, mas por barras douradas enterradas fundo na terra. Atrás delas dava para ver as criaturas feitas de algo que parecia sombra negra e com olhos ardentes. Uma delas era um círculo de mãos em chamas. Outra era um aglomerado de anéis de fogo, flutuando e pulsando no ar.
O calor era tão opressor que, quando Call alcançou Aaron e Tamara, sua camisa estava ensopada de suor e ele estava prestes a desmaiar. Mas ainda assim conseguiu ver imediatamente por que Aaron e Tamara estavam imóveis. Estavam olhando fixamente através das barras de uma jaula. Lá dentro, um mar de chamas e, no centro, uma garota flutuava.
— Ravan? — disse Tamara com uma voz falha que Call jamais havia escutado. — C-como você está aqui?
Ravan. Call sentiu um choque de horror atravessá-lo. Ravan era irmã de Tamara. Ele sabia que ela tinha sido engolida pelos elementais, tornando-se um dos Devorados, mas jamais lhe ocorreu que ela estivesse aqui.
— Onde mais eu estaria? — perguntou a menina em chamas. — Eles mentem para nós, sabe? Diziam que essa magiazinha de nada que aprendemos no Magisterium é tudo que podemos fazer, mas sou muito mais poderosa agora. Não invoco mais o fogo, Tamara. Eu sou fogo. — As íris dos olhos dela piscavam e dançavam com o que inicialmente Call achou que fosse o reflexo das chamas. Até perceber que havia fogo por trás dos olhos dela também. — É por isso que tiveram que me trancar.
— Uma bela reunião de família — disse uma voz do outro lado da sala. Call virou. Marcus, o Devorado, olhava para eles de uma jaula quase idêntica, sorrindo. — Callum Hunt — disse com sua voz estalada e rugida. — Aaron Stewart. Tamara Rajavi. Cá estão. Parece que nem todas as minhas profecias se cumpriram ainda, não é mesmo?
Call se lembrou das palavras de Marcus de dois anos atrás, um terrível eco dos seus medos: um de vocês irá fracassar. Um morrerá. E outro já está morto.
Eles sabiam, agora, qual deles já estava morto: Call. Ele tinha morrido como Constantine Madden.
Já está morto. As palavras pairavam no ar, uma prova terrível de que Marcus tinha dito a verdade.
— Marcus. — Aaron franziu o rosto para ele. — Você disse que tinha um segredo para nós.
Tamara não conseguia desviar os olhos de Ravan. Seus dedos alcançaram a mão em chamas da irmã, como se ela não conseguisse aceitar que ela não era mais humana.
Marcus riu e o fogo em torno dele saltou e dançou, subindo de forma vulcânica. Até Tamara virou para ver, puxando a mão depressa, como se só agora tivesse percebido o que estava prestes a fazer.
— Você procura aquele que libertou Automotones e Skelmis, não? — perguntou Marcus. — O que está tentando matar Callum? Pois são a mesma pessoa.
— Sabemos disso — disse Aaron. — Diga quem é.
— Não vão gostar da resposta. — Marcus sorriu um sorriso de fogo. — É o maior Makar da sua geração.
Tamara pareceu ainda mais abalada.
-— Aaron está tentando matar Call?
As palavras atingiram Call, fazendo-o sentir como se todo o ar tivesse deixado o recinto. Aaron não podia ser o espião. Mas ao ouvir as palavras de Marcus, Call se sentiu tolo. Eram destinados a serem inimigos. Aaron era destinado a ser o herói, e Call a ser o vilão. Simples assim. Ele nunca tinha tido amigos como Aaron e Tamara antes, e às vezes Call ficava imaginando por que gostavam dele. Talvez a resposta fosse simples. Talvez Aaron não fosse de fato seu amigo.
— Não! — disse Aaron, abrindo os braços em um gesto que quase apagou a chama da tocha. — Obvio que não estou!
— Então eu estou tentando me matar? — perguntou Call a Aaron, sem conseguir botar para fora o que estava pensando. — Isso não faz o menor sentido. Além disso, é impossível alguém me achar o maior Makar da minha geração.
— Você não acha realmente que quero te fazer mal, acha? — perguntou Aaron. — Depois de tudo, tudo, que aprendi sobre você e tive que aceitar...
— Talvez não tenha aceitado!
— O lustre quase caiu em mim também! — gritou Aaron.
— Abram minha jaula — disse Ravan para Tamara, com o rosto pressionado contra as barras. — A minha e de Marcus, e vamos ajudá-los. Você me conhece, Tamara. Posso ser uma criatura diferente agora, mas ainda sou sua irmã. Sinto sua falta. Deixe que eu mostre o que sei fazer.
— Você quer ajudar? — perguntou Aaron. — Faça Marcus contar que não sou o espião!
— Acalmem-se todos vocês! — disse Tamara, voltando o olhar para o Mestre Devorado e depois para a irmã. — Não sabemos quanto disso tudo é verdade. Talvez Marcus esteja inventando. Talvez ele só queira o que todos os elementais aqui querem: um passe de saída.
— Você acha que isso é tudo que eu quero? — Ravan colocou a mão no quadril. — Você se acha ótima, Tamara, mas é igual ao papai. Acha que por quebrar as regras e não ser responsabilizada, pode julgar todos que não têm a mesma sorte. — E, dito isso, Ravan foi dominada pelo fogo, transformando-se em um pilar flamejante e caindo para trás sobre as chamas.
— Não, espere! — disse Tamara, correndo para a cela da irmã, agarrando as barras quentes por um instante de desespero, apesar de Call ter visto a pele de suas palmas rosada quando ela soltou. Tinha se queimado. — Não quis dizer isso! Volte!
O fogo oscilou, mas não se condensou em nenhuma forma humana. Se Ravan ainda estava lá, não conseguiam identificá-la nas chamas dançantes.
— Sei que não vão me soltar, meus pequenos aprendizes, ainda não, apesar de eu poder lhes ensinar muita coisa. Ensinei Rufus bem, não foi? — Havia algo de faminto no olhar de Marcus que tomava difícil olhar diretamente para o rosto dele. — Bem, e, no entanto, não tão bem assim. Ele não enxerga o que está bem embaixo do nariz dele.
Seu olhar estava fixo em Call, que estremeceu. Ele não conseguia olhar para Tamara e Aaron. Encarou Marcus.
— Você está no Magisterium há muito tempo — disse ele.
— O bastante — disse Marcus.
— Então você conheceu Constantine? O Inimigo?
— Inimigo de quem? — respondeu Marcus com desdém. — Meu é que não é. Sim, conheci Constantine Madden. Eu o alertei, exatamente como fiz com vocês. E ele me ignorou, exatamente como vocês fizeram. — Ele sorriu para Call. — É incomum ver a mesma alma duas vezes.
— Mas ele não era como eu, era? — perguntou Call. — Quer dizer, somos completamente diferentes, não somos?
Marcus apenas sorriu seu sorriso faminto e afundou nas chamas.

7 comentários:

  1. tenho muitos problemas com livros, quando o personagem faz algo vergonhoso eu sinto uma vergonha alheia incrivelmente grande e quando eles fazem uma estupides eu sinto os que quem vai se meter em problemas sou eu :(

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    1. Siiimmm!! Da uma vontade de bater neles. Eu até invento cá pra mim alguma outra coisa que eles podiam ter dito na ocasião, pra não passar vergonha e tudo dar certinho.

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  2. Eu estou com uma teoria muito louca aqui:e se anastasia tivesse tido um trelele com contantine e tiveram um filho esse filho poderia ser Aaron e se eles trocaram a alma de Aaron pela de call?sei lá gente eu ainda não acredito q a alma de constantine está no corpo do call

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  3. Talvez Call seja parecido com Constantine. Acho Constantine meio vítima da ambição de Mestre Joseph, principalmente depois da morte do irmão. A alma dele ter ido para o corpo do Call talvez seja uma chance de redenção, uma segunda chance para fazer as escolhas certas. esse devorado deveria ter a forma de uma Esfinge, pqp.

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Boa leitura :)