20 de janeiro de 2017

Capítulo dez


A primeira vista da estrada fez Call estremecer ao se lembrar da vez em que tinha passado por ali, quando procurava por Aaron. Ele se se recordava nitidamente da dor nas pernas ao se forçar a acelerar, o pânico de Aaron correndo perigo, e a descoberta de que ele próprio não era a pessoa que sempre achou que fosse.
Jasper agachou e afagou a cabeça de Devastação quando o lobo se aproximou dele. Por um instante, ele não pareceu tão babaca.
Em seguida, percebeu que Call o observava e começou a encará-lo.
Call se sentou no chão, observando os carros ocasionais que passavam por ali. Tamara estava digitando alguma coisa no celular. Ele não sabia ao certo se ela estava pesquisando coisas para a jornada que tinham à frente, ou se simplesmente mandava e-mails para os amigos. Aaron contemplava a distância com a testa franzida, como os heróis dos quadrinhos costumavam fazer.
Poderiam fazer um boneco dele naquela posição.
Call ficou imaginando como Aaron ficaria quando descobrisse que Call tinha mentido para ele; mentido muito.
Ainda estava pensando nisso quando um sofisticado carro preto parou diante deles.
A janela se abriu, e o mordomo de Tamara, Stebbins, tirou os óculos e exibiu seus olhos azul-claros.
— Entrem — disse ele. — Temos de ser rápidos.
Jasper se arrastou para o banco de trás.
— Ah, hidratação. — Ele pegou uma garrafa de água de um dos suportes e tomou tudo.
— O cachorro não entra — declarou Stebbins. — Ele vai sujar os assentos, e as unhas podem arranhar o couro.
— Os assentos não são seus — lembrou Tamara, afagando a almofada ao lado dela. O lobo pulou para o carro e, em seguida, se virou, parecendo desconfiado.
Call entrou logo depois, puxando Devastação para seu colo. Era difícil acreditar que o lobo já coubera embaixo de sua camisa. Agora era quase tão grande quanto o próprio Call.
Aaron foi na frente.
— Presumo que vai ser como sempre — disse Stebbins a Tamara, virando o assento. — Qual é o endereço?
Call informou, apesar de não saber o número, só a rua. Stebbins registrou o local em seu GPS aparentemente não mágico. E então partiram.
— O que é o de sempre? — sussurrou Jasper para Tamara.
— Stebbins participa de corridas com os carros de meus pais. — Ela também manteve a voz baixa. — Eu guardo o segredo.
— Sério? — Jasper franziu a testa para o sujeito no banco da frente, com o que parecia ser um novo tipo de respeito.
Enquanto seguiam, Call se pegou cochilando contra a janela até a cabeça começar a bater no vidro. Estavam seguindo por uma estrada de terra.
Call piscou. Sabia exatamente onde estavam.
— Pode parar aqui — pediu ele.
Strebbins parou o carro, fazendo uma careta.
— Aqui? — perguntou ele, mas Call já estava abrindo a porta. Devastação imediatamente começou a correr em círculos, claramente aliviado sair do carro.
Os meninos mal saltaram, e Stebbins já tinha engatado a ré, provavelmente feliz por se livrar deles.
— Está brincando? — declarou Jasper ao ver a paisagem de carros. — Isso é um ferro-velho.
Call o encarou, mas Tamara deu de ombros.
— Ele tem uma certa razão, Call.
Call tentou enxergar aquela área familiar pelos olhos dela. Era bem ruim. Parecia um estacionamento, exceto que os veículos não estavam em filas organizadas. Os carros se encontravam agrupados, praticamente uns por cima dos outros. Alguns tinham sido dirigidos até ali, mas a maioria foi rebocada e largada onde era possível. A ferrugem brotava nos capôs e nas portas, marcando a tinta que um dia já havia sido brilhante. O capim crescera ao redor, um indicador claro do tempo de abandono.
— Ele mantém isso por causa das peças — explicou Call, constrangido. Sempre achou o pai excêntrico, mas tinha de admitir que possuir diversos veículos em decomposição parecia um pouco pior do que excentricidade. Alastair nunca seria capaz de usar todos os carros que colecionava, nem mesmo para aproveitar as peças, considerando que a maioria estava enferrujada, mas ele continuava colecionando mesmo assim. — Os carros bons, que ele planeja restaurar, estão no celeiro.
Tamara, Aaron e até mesmo Jasper olharam esperançosos na direção para a qual Call apontava, mas a enorme construção cinza não pareceu oferecer conforto a nenhum deles.
Um vento frio cortou o estacionamento. Jasper tremeu de forma exagerada e se encolheu dentro do casaco. Esfregou as mãos teatralmente, como se estivessem escalando o Everest e temesse uma gangrena.
— Cale a boca, Jasper! — Ordenou Call.
— Eu não disse nada! — protestou Jasper.
Aaron acenou em tom de paz.
— Você realmente acha que seu pai pode estar escondido aí?
— Não é um lugar onde a maioria das pessoas procuraria por ele. — Entretanto, àquela altura, Call não tinha mais certeza de nada.
— Isso é certo. — As palavras de Tamara pareciam realmente repletas de sentimento. Ela olhou para a casa da fazenda perto das árvores, uma construção feita de ripas de madeira, cora um teto inclinado e remendado. — Não posso acreditar que o dono permita que ele faça isso com sua propriedade.
— É uma senhora — explicou Call. — Não é como se o lugar estivesse em ótimo estado. E ele paga aluguel.
— Acha que ele pode estar por aqui? — perguntou Aaron, esperançoso. O brilho amarelo das janelas parecia convidativo. — Quero dizer, talvez ela deixe que ele durma no quarto de hóspedes.
Call balançou a cabeça.
— Não. Quando ele vem, sempre fica no celeiro. Ele deixa uns sacos de dormir por lá e um fogão portátil. E comida enlatada, também. Mas talvez ela o tenha visto. Ele normalmente dá uma passada na casa.
— Vamos perguntar — sugeriu Aaron. — Ela é uma daquelas senhoras que faz um monte de bolos?
— Não. — Ele não conseguia se lembrar da senhora Tisdale algum dia cozinhando alguma coisa. Aaron pareceu decepcionado. Jasper simplesmente continuou irritado, olhando para o céu, como se esperasse ser salvo por um helicóptero ou um elemental do ar, ou talvez um elemental pilotando um helicóptero.
— Vamos. — Call seguiu em direção à casa. Sua perna não estava apenas doendo; parecia que espetos de fogo disparavam por seus ossos. Ele rangeu os dentes ao subir a escada da frente. Não queria emitir nem um único gemido de dor na frente de Jasper.
Aaron esticou o braço em volta dele e bateu na porta. Ouviram passos lá dentro, e a porta abriu uma fresta, revelando cabelos grisalhos e um par de brilhantes olhos verde-claros.
— Vocês são um pouco baixos para ser vendedores de porta em porta, não? — cacarejou uma voz de senhora.
— Senhora Tisdale — começou Call. — Sou eu, Callum Hunt. Estou procurando meu pai. Ele está aqui?
A porta se abriu mais um pouco. A senhora Tisdale usava um vestido xadrez, botas velhas e um xale cinza.
— Por que ele estaria aqui? — perguntou ela. — Acha que decidi vendê-lo em troca de peças?
Assim que ela entrou em seu campo visual, Devastação começou a latir como um louco. Ele rosnava como se quisesse arrancar o braço da senhora Tisdale.
— Há dias que ele não aparece em casa. — Call agarrou a coleira de Devastação e fingiu que o lobo não estava babando. — Achei que talvez...
— E os magos não conseguiram encontrá-lo — acrescentou Tamara. — Eles estão procurando por ele.
Todos viraram para ela, em choque.
— Tamara! — repreendeu Aaron.
Ela deu de ombros.
— Que foi? Ela é maga. Dá para ver! Dá para sentir o cheiro de magia nesta casa.
— Ela tem razão — concordou Jasper.
— Para de puxar o saco, Jasper — alertou Call.
— Não estou puxando o saco; você é que é burro. E esse seu bicho de estimação é um monstro.
A senhora Tisdale olhou de Devastação para Tamara e para Call.
— Suponho que seja melhor vocês entrarem. Todos, menos o lobo.
Call se virou para Devastação.
— Qual é seu problema?
O lobo ganiu, mas viu a senhora Tisdale e começou a rosnar outra vez.
— Tudo bem — falou Call, afinal, apontando para um ponto do gramado. — Fique aqui e espere por nós.
Devastação sentou contra a vontade, ainda rosnando.
Eles se apressaram para entrar na casa, que cheirava a poeira e gatos, mas que não era um odor desagradável para Call. Por mais que doesse a possibilidade de Jasper ter razão, era bom se aquecer. Ela os conduziu até a cozinha, onde colocou uma chaleira no fogão.
— Agora me digam por que eu não devo contatar o Magisterium e mandar que busquem alguns alunos encrenqueiros?
Call não sabia ao certo o que dizer.
— Porque meu pai não ia querer que você fizesse isso?
— E porque estamos em uma missão — completou Tamara, apesar de, daquela vez, não ter soado tão convincente.
— Uma missão? Para encontrar Alastair? — A senhora Tisdale pegou cinco xícaras no armário.
— Ele está correndo perigo — informou Aaron.
— Você abandonou a magia, não foi? — perguntou Jasper. — Como o pai de Call.
— Nada disso importa. — A senhora Tisdale se voltou para Call. — Seu pai se meteu em algum tipo de encrenca?
Call assentiu veementemente.
— Precisamos muito encontrá-lo. Se você souber de alguma coisa...
Ele viu o momento em que ela cedeu.
— Ele esteve aqui na semana passada. Passou alguns dias no celeiro. E pagou dois meses adiantado, coisa que não costuma fazer. Mas realmente não sei onde está agora. E não gosto da ideia de vocês quatro aqui sozinhos. — Ela lançou um olhar afiado a Jasper. — Posso ter abandonado a magia, mas isso não quer dizer que sou orgulhosa demais para ligar para o Magisterium.
— Que tal se dormirmos no celeiro e prometermos voltar de manhã? — propôs Call.
A senhora Tisdale suspirou, claramente desistindo.
— Se prometerem não arrumar nenhuma encrenca...
— Ou na casa — disse Jasper. — Talvez a gente possa ficar na casa. Onde é quente, e não assustador.
— Vamos, Jasper. — Aaron o pegou pelo braço. Ele se calou, como se já tivesse decidido que nem a senhora Tisdale estava do seu lado.
No ar noturno, os carros lembravam a Call criaturas sombrias e esqueléticas, como ossos de dinossauros acumulados na terra.
Devastação os seguia, quieto. Os olhos claros voltando para a casa, a língua para fora, como se estivesse com fome. Os outros pareciam compartilhar do presságio do lobo. Tamara olhou em volta com um tremor e conjurou uma pequena bola de fogo. A bola foi dançando à frente deles, no caminho até o celeiro, iluminando placas espalhadas, pneus e latas cheias de parafusos.
Call ficou feliz quando chegaram à construção, a porta pintada de vermelho segura por uma barra de metal. De perto, era fácil perceber que o metal tinha levado um banho de óleo recentemente. Aaron se pôs a trabalhar levantando a barra e abrindo a porta.
O velho celeiro repleto de vigas era um local familiar para Call. Era onde ficavam os carros bons, todos sob tapetes manchados de óleo. Era onde ele e o pai passavam boa parte do tempo quando iam ali. Call trazia uma pilha de livros, ou o Game Boy, e ficava sentado em algum canto enquanto o pai trabalhava.
Eram lembranças boas, mas, naquele momento, pareciam tão vazias e esqueléticas quanto a paisagem de carros do lado de fora.
— Lá em cima. — Call foi até a escada. Colocou o pé no degrau mais baixo e quase sofreu um colapso quando uma onda de dor subiu por sua perna. Ele reprimiu o gemido que queria emitir, mas viu o olhar solidário de Aaron assim mesmo. Ele não olhou para Jasper, apenas esticou os braços para se apoiar nas mãos e tirar o máximo de peso possível da perna. Os outros o seguiram.
Estava escuro no mezanino coberto por palha, e Call piscou os olhos por um momento, sem enxergar nada até Tamara aparecer com a bola de fogo dançando sobre sua cabeça, como uma lâmpada em um desenho animado. Os outros dois vieram em seguida, se espalhando pelo recinto estreito. Não havia muita coisa ali — uma mesa, um pequeno fogão e duas camas estreitas, com cobertores dobrados aos pés. Tudo estava incrivelmente arrumado, e, se a senhora Tisdale não tivesse contado a eles, Call não teria suposto que Alastair estivera ali recentemente.
Jasper se jogou em uma das camas.
— Vamos comer? Sabem, deve transgredir alguma lei me raptar e não me alimentar.
Tamara suspirou, em seguida olhou esperançosa para Call.
— Tem um fogão. Tem alguma comida?
— Tem, um pouco. Basicamente enlatados. — Call enfiou um dos braços embaixo da cama do pai, a procura das cestas que ele guardava ali. Logo surgiram algumas latas de ravióli, garrafas de água, pacotinhos de carne seca, um canivete, garfos e duas barras grandes de chocolate.
Call sentou em uma das camas com Tamara, e Jasper o encarava da outra. Aaron abriu várias das latas de ravióli com grande eficiência e as aqueceu no fogareiro — aceso com magia — enquanto Tamara desdobrava um mapa dos arredores que havia encontrado entre as coisas de Alastair. Ela contemplou o mapa, pensativa, o nariz enrugado.
— Consegue entender o que tem aí? — Call espiou sobre o ombro dela. Ele esticou um dos braços para o mapa. — Acho que isso é uma rodovia.
Ela tirou a mão dele.
— Não é uma rodovia, é um rio.
— Na verdade, é uma autoestrada. Me dê isso aqui — Jasper estendeu uma das mãos. Tamara hesitou. — Para onde você está tentando ir?
— Estávamos tentando chegar aqui — respondeu Call. — Mas agora eu não sei.
— Bem, se seu pai não está aqui, ele deve ter ido para algum lugar. — Aaron trouxe as latas aquecidas de ravióli. Eles as pegaram, ansiosos, colocando panos em volta das mãos para não se queimarem. Call distribuiu garfos, e eles começaram a comer.
Jasper fez uma careta ao comer a primeira garfada, mas depois começou a enfiar a massa na boca.
— Talvez a gente possa fazer a senhora Tisdale contar alguma coisa — disse Call, mas com uma sensação fria no estômago. Alastair claramente estava fugindo, mas para onde iria? Ele não tinha amigos próximos, até onde Call sabia, ou nenhum outro esconderijo.
Aaron e Tamara conversavam baixinho, e Jasper olhava o mapa. Call deixou de lado a lata de ravióli meada e se levantou, indo até a mesa de Alastair. Abriu a gaveta principal.
Confirmando suas expectativas, estava cheia de chaves de carros. Chaves individuais, em sua maioria, presas a chaveiros de couro que identificavam o fabricante do carro: Volkswagen, Peugeot, Citroen, MINI Cooper e até um Aston Martin. A maioria coberta de poeira, mas não a do Martin. Call pegou a chave — o Martin era um dos preferidos do pai, apesar de ele ainda não o ter colocado para andar. Certamente não teria ficado trabalhando no carro quando estava ali, fugindo para salvar a própria vida.
Talvez Alastair pretendesse dirigir o Martin. Era um belo carro de fuga, capaz de fazer curvas acentuadas e até de despistar magos. Se fosse esse o caso, Call imaginou que o pai poderia ter deixado o carro pronto para ser usado. Claro, seria ilegal um deles dirigir, mas essa era a menor de suas preocupações.
Ele foi até a escada com um suspiro e iniciou o árduo processo de descida. Ao menos com os outros ainda lá em cima, ele podia ficar livre para descer devagar e fazer quantas caretas quisesse.
— Call, aonde você vai? — gritou Tamara.
— Pode mandar um pouco de luz aqui para baixo? — pediu Call.
Ela suspirou.
— Por que eu? Você sabe fazer fogo flutuar tão bem quanto eu.
— Você faz melhor — respondeu Call, de uma forma que torceu para que tivesse sido persuasiva. Ela pareceu irritada, mas mandou uma esfera de fogo lá para baixo do mesmo jeito. A bola pairou pelo ar como um lustre, largando brasas ocasionalmente.
Call tirou o tapete do Aston Martin. O carro era azul-esverdeado, e a pintura brilhava; tinha bancos de couro cor de marfim, com poucos cortes. O piso parecia em boas condições também. O pai dizia que normalmente o piso era a primeira coisa a sucumbir à ferrugem.
Call sentou no lugar do motorista e colocou a chave na ignição. Fez uma careta. Precisaria se esticar muito para alcançar o freio ou o acelerador. Aaron provavelmente conseguiria; ele era mais alto. Call girou a chave, mas nada aconteceu. O velho motor se recusou a ganhar vida.
— O que está fazendo?
Call pulou e quase bateu a cabeça no teto do carro. Ele se inclinou para fora da porta aberta e viu Aaron ao lado do banco do motorista, aparentando curiosidade.
— Olhando — respondeu Call. — Não sei exatamente o que estou procurando. Meu pai definitivamente mexeu neste carro antes de partir.
Aaron se inclinou para baixo e assobiou.
— É um belo carro. Está funcionando?
Call fez que não com a cabeça.
— Dê uma olhada no porta-luvas — sugeriu Aaron. — Meu pai adotivo deixava tudo no porta-luvas dele.
Call esticou um dos braços e abriu o compartimento. Para sua surpresa, estava cheio de papéis. Não eram quaisquer papéis, ele percebeu logo ao pegá-los. Eram cartas. Alastair era um dos poucos adultos das relações de Call que mantinha correspondência manuscrita em vez de e-mails, então ele não se surpreendeu com aquilo.
O que o surpreendeu foi o remetente. Ele abriu uma delas e olhou a parte inferior, a assinatura ali, uma assinatura que fez seu estômago embrulhar.
Mestre Joseph A. Walther
— O que foi? O que foi? — perguntou Aaron, e Call olhou para ele. Ele devia estar com uma expressão de choque no rosto, porque Aaron recuou e gritou para os outros lá em cima: — Ele achou alguma coisa! Call achou alguma coisa!
— Não, não achei. — Call saiu aos tropeços do carro, as cartas amassadas embaixo do braço. — Não encontrei nada.
Os olhos verdes de Aaron pareciam perturbados.
— O que é isso, então?
— Coisas pessoais. Anotações de meu pai.
— Call. — Era Tamara, na beirada do mezanino. Era possível ver Jasper atrás dela. — Seu pai é um criminoso procurado. Ele não tem “coisas pessoais”.
— Ela tem razão. — A voz de Aaron soou digna de pena. — Qualquer coisa pode ser relevante.
— Tudo bem. — Call queria ter sido mais esperto, queria ter adivinhado o esconderijo do pai no lugar de Aaron, queria não ter de compartilhar aquelas cartas com os outros. — Só que eu sou quem vai lê-las. Mais ninguém.
Call manteve as cartas embaixo do braço enquanto subia novamente a escada, seguido por Aaron. Jasper tinha descoberto como as luzes de emergência funcionavam, e o andar de cima estava todo iluminado. Call sentou em uma das camas, e os outros três se ajeitaram na outra.
Era estranho ver a letra de Mestre Joseph assim. Era espetada e esguia, e ele assinou cada carta com o nome inteiro, com a inicial do meio e tudo. Havia quase uma dúzia delas, datadas nos últimos três meses. E estavam repletas de linhas perturbadoras.

Existe uma forma de nós dois conseguirmos o que queremos.
Você quer seu filho ressuscitado dos mortos, e nós queremos Constantine Madden.
Você não entende a dimensão do poder do Alkahest.
Nunca nos entendemos antes, Alastair, mas agora você perdeu muita coisa. Imagine se Sarah pudesse voltar para você. Imagine poder ter de volta tudo o que perdeu.
Roube o Alkahest, traga-o para nós, e todo o seu sofrimento terá fim.

Nada fazia sentido algum. Alastair ia usar o Alkahest para matá-lo, não ia? Ele queria destruir o Inimigo da Morte.
Call se lembrou do espanto no rosto do pai ao atingir a parede, lembrou-se da sensação de raiva incontrolável. E se houvesse se enganado com relação a Alastair? E se Alastair não tivesse mentido quando disse que não ia matar Call?
Mas, se Alastair queria se livrar dele e recuperar a alma do verdadeiro filho, era tão ruim quanto. Talvez ele não quisesse matar Call diretamente, mas colocar sua alma de volta em Constantine Madden parecia muito com morrer.
— O que foi? — Tamara estava tão inclinada para fora da cama, que estava prestes a cair. — Call, o que está escrito aí?
— Nada — respondeu Call, sombrio, dobrando a carta mais incriminadora e guardando-a no bolso. — São várias dicas sobre o cultivo de begônias.
— Mentiroso — declarou Jasper de forma sucinta, pegando uma das cartas da cama. Começou a ler em voz alta, arregalando os olhos. — Calma aí, estas aqui... realmente, de verdade mesmo, não são sobre begônias!
Foi horrível. Tamara e Aaron claramente não tinham acreditado nele, mas o olhar de traição nas faces dos dois foi quase tão horrível quanto a expressão convencida de Jasper. Pior, eles leram tudo. Linha por linha. O conteúdo era bizarro; apesar de, para o alívio de Call, nada nas cartas se referir diretamente ao fato de que ele possuía a alma de Constantine Madden. Quem poderia saber o que eles teriam pensado se tivessem pegado a carta em seu bolso?
— Então ele realmente tem o Alkahest e vai dá-lo ao inimigo? — Jasper parecia apavorado. — Pensei que você tivesse dito que ele fora acusado injustamente.
— Vejam esta aqui — disse Tamara. — Alastair deve ter concordado, porque Mestre Joseph está escrevendo sobre como vai entrar em contato com ele e como vão se encontrar. Está marcado para daqui a dois dias.
— Temos de voltar ao Magisterium — declarou Aaron. — Precisamos contar para alguém. Call, eu acreditei em você sobre seu pai, mas talvez você tenha se enganado.
— Não podemos correr o risco de o Alkahest cair nas mãos do Inimigo — acrescentou Tamara. — Significa que Aaron pode ser morto. Você entende isso, não entende, Call?
Call olhou para o fogo ardendo nas lâmpadas. Será que tinha entendido errado tudo que estava acontecendo com seu pai? Tinha presumido que o pai era uma boa pessoa, que estava do lado do Magisterium e dos Mestres, do lado dos que combatiam Constantine Madden a qualquer custo. Mas agora parecia que seu pai era má pessoa e estava do lado de Mestre Joseph, afinal, e disposto a fazer todo o necessário para recuperar a alma do filho. O que não era a pior coisa do mundo, dependendo do ponto de vista. Mas, se Alastair havia decidido se alinhar com Mestre Joseph, Call tinha a obrigação moral de permitir que seguisse em frente ou deveria impedi-lo?
A cabeça de Call doía.
— Não quero que nada de mal aconteça a Aaron. — Essa era a única certeza que tinha. — Jamais quis.
Aaron pareceu arrasado.
— Bem, não vamos chegar a lugar algum esta noite — atestou o Makar. — Está tarde, e estamos todos cansados. Talvez se dormirmos por algumas horas, possamos concluir alguma coisa amanhã de manhã.
Eles olharam para as duas camas. Cada qual era grande o suficiente para um adulto ou duas crianças.
— Quero aquela — disse Jasper. Apontou para Tamara e Call e acrescentou: — E quero Aaron, porque você é estranho, e você é uma garota.
— Posso dormir no chão — ofereceu Aaron, olhando para a expressão no rosto de Tamara.
— Isso só beneficia Jasper — retrucou Tamara, irritada, e foi para a cama da esquerda. — Tudo bem, Call; a gente dorme por cima das cobertas. Não se preocupe.
Call achou que talvez devesse se oferecer para dormir no chão, como Aaron havia feito, mas não queria. A perna já estava doendo, e, além disso, ele sabia que às vezes tinham ratos escondidos no celeiro.
— Tudo bem. — Ele deitou ao lado dela.
Foi estranho.
Na outra cama, Jasper e Aaron estavam tentando dividir um único travesseiro. Houve um grito abafado, como se alguém tivesse levado um soco. Call deu o travesseiro da cama dele para Tamara e deitou sobre o próprio braço.
Fechou os olhos, mas o sono não veio. Era desconfortável ter de ficar em um lado da cama, se certificando de que nem os pés invadissem o espaço de Tamara. Não ajudava o fato de ficar enxergando as palavras nas cartas de Mestre Joseph, registradas por trás de suas pálpebras.
— Call?
Ele abriu os olhos. Tamara olhava para ele a alguns centímetros de distância, os olhos grandes e escuros.
— Por que você é tão importante? — sussurrou ela.
Ele sentiu uma lufada morna do hálito dela em sua bochecha.
— Importante? — repetiu. Jasper tinha começado a roncar.
— Todas essas cartas — explicou ela. — De Mestre Joseph. Achei que seriam sobre Aaron. Ele é o Makar. Mas eram sobre você. Call é a coisa mais importante.
— Bem... acho que é por ele ser meu pai — disse Call, atrapalhando-se com as palavras. — Então eu sou importante para ele.
— Não parecia esse tipo de importância — discordou Tamara suavemente. — Call, você sabe que pode nos contar qualquer coisa, não sabe?
Call não sabia ao certo como responder. Ainda estava tentando decidir quando Devastação começou a uivar.

8 comentários:

  1. Só eu shippo o Call com o Aaron??? S2

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  2. Meu hino em livros :
    Vai da Merda vai da merda vaiii da merdaaaaaaa vai 🎶🎶🎶🎶🎶

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  3. Eu acho que quem prendeu o Devastação foi essa senhora Tisdale. Isso explicaria o por que de Devastação não ir com a cara dela...

    Ezequiel

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  4. Iih Call, até quando vai conseguir esconder isso?

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  5. Jasper e Aaron brigando pelo travesseiro. Kkkkk. Segredos nunca são uma coisa boa, vai dar merda. Ainda tem a droga do aviso sobre um deles morrer, eu crente de aue seria no livro anterior, mas nãaaaaaao! Vamos nos apegar mais aos personagens, pro sofrimento ser maior.

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Boa leitura :)