16 de janeiro de 2017

Capítulo dez


No final do primeiro mês, Call não se importaria de ter de se matar de estudar com os outros aprendizes para qualquer que fosse o teste que tivessem de fazer, contanto que não precisasse mais ter de suportar a Sala da Areia e do Tédio.
Ele se sentou, apático, formando um triângulo junto com Aaron e Tamara para separar os grãos de areia de diferentes cores como pareciam fazer havia pelo menos um milhão de anos. Aaron tentou iniciar uma conversa, mas Tamara e Call estavam entediados demais para pronunciar algo além de resmungos.
De vez em quando, porém, eles olhavam uns para os outros e trocavam sorrisos, os sorrisos secretos da verdadeira amizade.
Uma amizade exausta, mas, ainda assim, uma real amizade.
Na hora do almoço, a parede se abriu e, para variar, não era Alex Strike, mas sim o Mestre Rufus, que carregava em uma das mãos o que parecia ser uma grande caixa de madeira com algo semelhante a uma trombeta que quase escapava lá de dentro.
Na outra mão, ele trazia uma sacola que continha algo colorido.
— Continuem de onde pararam, crianças — ele disse, colocando a caixa sobre uma pedra ali por perto.
Aaron ficou surpreso.
— O que é aquilo? — ele sussurrou para Call.
— Um gramofone — respondeu Tamara, que não parou de triar a areia nem mesmo enquanto olhava para Rufus. — Toca música, mas funciona com magia e não com eletricidade.
Naquele momento, uma música saiu da trompa do gramofone. Era muito alta e Call não conseguiu reconhecer a melodia. Tinha uma batida, um som repetitivo, inacreditavelmente irritante.
— Não é aquela música do Cavaleiro Solitário? — Aaron perguntou.
— É o prelúdio de Guilherme Tell4 — o Mestre Rufus berrou mais alto que a música, saltando pela sala. — Ouçam essas trombetas! Faz nosso sangue pulsar, pronto para fazer magia!
Na verdade, aquela música fazia com que fosse muito, mas muito difícil pensar no que quer que fosse. Call teve de fazer um grande esforço para se concentrar, o que tornava um desafio erguer até mesmo um único grão no ar. Quando ele pensava ter a areia sob controle, a música se elevava e sua concentração descia ralo abaixo.
Ele deixou escapar um som de frustração e abriu os olhos para ver o Mestre Rufus tirar da sacola um verme cor de beterraba. Call torceu com todas as suas forças para que o bicho fosse feito de goma, pois o Mestre Rufus começou a mordiscar a ponta do seu rabo.
Call imaginou o que aconteceria se, em vez de tentar mover a areia, ele se concentrasse em estraçalhar o gramofone na parede da caverna. Ele olhou para cima e percebeu que Tamara o encarava.
— Nem pense nisso — ela disse, como se conseguisse ler seus pensamentos. Tamara estava toda vermelha, com o cabelo grudado na testa enquanto se esforçava para se concentrar na areia apesar da música.
Um verme de um tom de azul intenso atingiu Call em um dos lados da cabeça, fazendo com que ele derrubasse toda a areia flutuante sobre o seu colo. O verme quicou no chão e ficou ali parado. “Tudo bem, é mesmo um verme de goma”, Call pensou, apesar de que aquilo que tinha diante de seus olhos em nada lembrasse qualquer substância gelatinosa.
Por outro lado, a expressão “gelatinosa” podia descrever várias outras coisas presentes no Magisterium.
— Não consigo. — Aaron respirou fundo.
Ele mantinha as mãos erguidas, a areia girava diante dele. Seu rosto estava vermelho com a concentração. Um verme de cor laranja o atingiu em um dos ombros. Rufus abriu a sacola e jogava punhados de seres gelatinosos sobre eles.
— Ai — fez Aaron. Os vermes não machucavam, mas eram bastante assustadores. Um bicho verde ficou grudado no cabelo de Tamara. Ela parecia prestes a cair em prantos.
A parede se abriu novamente. Desta vez, era realmente Alex Strike. Ele trazia uma sacola e tinha um sorriso estranho, quase malicioso, que se espalhou pelo seu rosto quando ele olhou para o Mestre Rufus, que ainda arremessava vermes nos aprendizes.
Eles, por sua vez, se esforçavam para se concentrar.
— Entre, Alex! — convidou Rufus, animado. — Deixe os sanduíches logo ali! Aprecie a música!
Call se perguntou se Alex se recordava de seu Ano de Ferro. Ele esperava que Alex não visitasse nenhum outro grupo de aprendizes, aqueles que estavam aprendendo coisas legais que envolviam fogo e levitação. Caso Jasper descobrisse qualquer detalhe do que Call estava tendo de fazer naquele dia, nunca mais deixaria de zombar dele.
“Isso não importa”, Call disse para si mesmo, áspero. “Concentre-se na areia.”
Tamara e Aaron moviam os grãos, rolando-os pelo chão para erguê-los logo em seguida. Embora trabalhassem em velocidade menor, eles mantinham o foco e não paravam nem mesmo quando eram atingidos na parte de trás da cabeça por um verme de goma. Tamara tinha mais um verme preso em uma das tranças, mas não parecia ter nem mesmo se dado conta de sua presença.
Call fechou os olhos e se concentrou em sua própria mente.
O menino sentiu um verme gelado colidir com uma de suas bochechas, mas, desta vez, não deixou que a areia caísse. A música martelava em seus ouvidos, porém ele não deu atenção a nada disso. Primeiro, ele moveu um grão após o outro e, então, tornou-se mais confiante e passou a deslocar cada vez mais areia.
“Vou jogar isso na cara do Mestre Rufus”, ele pensou.
Outra hora se passou antes que fizessem uma pausa para o almoço. Quando recomeçaram com o trabalho, o mago os bombardeou com valsas. Enquanto os aprendizes separavam a areia, Rufus sentou em um pedregulho e começou a fazer palavras cruzadas.
Ele não pareceu se importar quando os três passaram da hora e perderam o jantar no Refeitório.
Eles se arrastaram até seus aposentos, cansados e sujos, para encontrarem a mesa posta na sala compartilhada. Call se deu conta de que estava, para sua surpresa, de bom humor, considerando tudo o que tinha passado naquele dia, e Aaron fez com que ele e Tamara caíssem na gargalhada com sua imitação de Mestre Rufus dançando valsa com um verme.
Na manhã seguinte, o Mestre Rufus apareceu na porta da sala compartilhada assim que o sinal tocou, trazendo braçadeiras que distinguiriam suas equipes durante o primeiro teste. Todos eles gritaram de tanta empolgação. Tamara berrou porque estava feliz; Aaron, porque gostava de ver as outras pessoas felizes e Call porque tinha certeza de que eles morreriam.
— O senhor sabe qual será o tipo de teste? — Tamara perguntou, amarrando, ansiosa, a braçadeira ao redor do pulso. — Ar, fogo, terra ou água? O senhor podia nos dar uma dica? Só uma diquinha, bem pequenininha...
O Mestre Rufus observou Tamara, severo, até que ela parou de falar.
— Nenhum aprendiz receberá informações antecipadas sobre a maneira como serão testados. Isso lhes daria uma vantagem injusta. Vocês devem vencer graças aos próprios méritos.
— Vencer? — Call repetiu, surpreso. Não havia lhe ocorrido que o Mestre Rufus esperasse que eles passassem no teste. Não depois de um mês inteiro de areia. — Não vamos vencer. — Ele estava mais preocupado com a possibilidade de eles não sobreviverem.
— É esse o espírito. — Aaron escondeu um sorriso. Ele já havia colocado a braçadeira bem acima do cotovelo. De alguma forma, aquela coisa caiu bem nele. Call a amarrou na testa e tinha certeza absoluta de que parecia mais uma bandagem.
O Mestre Rufus revirou os olhos. Call ficou apreensivo ao perceber que os cantos da boca do professor se contraíram para cima em um sorriso involuntário, como se de fato começasse a entender as expressões do Mestre Rufus e a responder a elas.
Talvez, quando eles chegassem ao Ano de Prata, o Mestre Rufus fosse capaz de explicar teorias mágicas complicadas apenas com um único esgar de suas sobrancelhas espessas.
— Acompanhem-me — disse o mago, com um farfalhar dramático de sua túnica. Ele então deu meia-volta e os conduziu porta afora, pelo que Call começava a achar que era o corredor principal da escola. Um lodo fosforescente brilhou quando eles passaram, descendo por uma escada espiralada que Call não vira antes, entrando em uma caverna.
Em sua outra escola, ele sempre queria ter permissão para praticar esportes. Pelo menos ali eles lhe davam uma chance. E ele teria de atender às expectativas.
A caverna era do tamanho de um estádio, com imensas estalactites e estalagmites que se projetavam para cima e para baixo, como dentes. A maior parte dos outros aprendizes do Ano de Ferro estava ali junto com seus mestres. Jasper conversava com Célia, fazendo gestos frenéticos para as estalagmites em um dos cantos, que cresceram entrelaçadas de forma bastante confusa. A Mestra Milagros flutuou no ar a curta distância do chão e encorajou um dos garotos a acompanhá-la. Todos iam de um lado para o outro com uma energia inquieta. Drew parecia especialmente tenso. Ele sussurrava com Alex. O que quer que Alex estivesse dizendo, não parecia deixar Drew muito feliz.
Enquanto caminhava pelo salão, Call olhou ao redor, tentando adivinhar o que poderia acontecer. Ao longo de uma das paredes havia uma grande caverna que aparentemente era separada do salão principal por barras, como uma jaula feita de calcita.
Call olhou o que havia lá dentro, preocupado que o teste fosse mais assustador do que ele imaginara. Ele esfregou a perna, distraído, e imaginou o que o pai diria.
Provavelmente alguma coisa como “é agora que você vai morrer”.
Ou talvez aquela fosse uma oportunidade para mostrar a Aaron e Tamara que valera a pena tê-lo defendido.
— Aprendizes do Ano de Ferro! — o Mestre North disse, depois que mais alguns alunos chegaram aos poucos depois do Mestre Rufus. — Eu lhes passarei seu primeiro exercício. Vocês terão de lutar contra os elementais.
Suspiros abafados de pavor e empolgação tomaram conta da sala. Os nervos de Call se contraíram. Eles estavam falando sério? Ele podia apostar que nenhum dos aprendizes estava preparado para aquilo. Olhou para Aaron e Tamara no intuito de perceber algum sinal de desacordo. Ambos estavam pálidos. Tamara apertava a braçadeira.
Call tentava freneticamente se lembrar da palestra do Mestre Rockmaple duas sextas-feiras antes. O mago falara sobre os elementais: “Dispersar os elementais daninhos antes que estes prejudiquem alguém é uma das mais importantes responsabilidades de um mago”, ele explicara. “Quando eles se sentem ameaçados, podem se dispersar de volta para seus elementos. E necessitam de muita energia para retornar.”
Então tudo o que tinham de fazer era assustar os elementais. Ótimo.
O Mestre North franziu a testa como se tivesse acabado de se dar conta de que os estudantes pareciam preocupados.
— Vocês se sairão bem — ele garantiu.
Essas palavras soaram para Call como um otimismo descabido. Ele visualizou seus cadáveres espalhados pelo chão enquanto serpes sedentas por vingança arremetiam sobre suas cabeças, e o Mestre Rufus balançava a cabeça e dizia: “Talvez os aprendizes sejam melhores no próximo ano”.
— Mestre Rufus — Call sussurrou, tentando manter a voz baixa. — Não podemos fazer isso. Não praticamos...
— Vocês sabem aquilo que precisam saber — disse Rufus, misterioso. Ele se virou para Tamara. — O que os elementos querem?
Tamara engoliu em seco.
— “O fogo quer queimar” — ela respondeu. — “A água quer fluir. O ar quer se erguer. A terra quer unir. O caos quer devorar.”
Rufus bateu com uma das mãos no ombro de Tamara.
— Vocês três devem se lembrar dos Cinco Princípios da Magia e sobre o que lhes ensinei, e aí se sairão bem. — Com essas palavras, ele se afastou para se juntar aos outros magos do outro lado da sala. Eles moldaram as pedras para que se transformassem em bancos, onde se sentaram bastante confortavelmente.
Alguns outros magos entravam na sala. Também havia alunos mais velhos, como Alex. A luz da caverna refletia em seus braceletes. Os Aprendizes do Ano de Ferro estavam posicionados no meio da sala, e a luz se tornava cada vez mais fraca até que eles ficaram cercados pela escuridão e pelo silêncio. Aos poucos, os grupos de aprendizes começaram a se misturar em uma única multidão que encarava a jaula enquanto ela se abria para o desconhecido.
Por um bom tempo, Call tentou enxergar algo por trás da escuridão até que começou a se perguntar se havia mesmo alguma coisa ali. Talvez o intuito do teste fosse conferir se os aprendizes realmente acreditavam que os magos fariam algo tão ridículo quanto permitir que garotos de doze anos lutassem contra serpes em um combate digno de gladiadores.
Eles viram olhos brilhantes na escuridão.
Grandes patas dotadas de garras esmagavam a terra e logo em seguida três criaturas emergiram da caverna. Tinham a altura de dois homens e se erguiam sobre as patas traseiras, os corpos eram curvados para a frente e arrastavam caudas com ferrões. Asas gigantescas batiam no ar no lugar de braços. Bocas imensas e repletas de dentes rosnavam para o teto.
Todos os avisos do pai de Call passavam pela mente do menino, fazendo com que ele tivesse a impressão de que não conseguiria respirar. Não se lembrava de já ter sentido tanto medo na vida. Todos os monstros de sua imaginação, todas as criaturas dentro do armário ou debaixo da cama perdiam a importância diante daqueles pesadelos com garras famintas que vinham em sua direção.
“A água quer fluir”, Call refletiu consigo. O ar quer se erguer. A terra quer unir. O caos quer devorar. Call quer viver.”
Jasper, que parecia possuído por um sentimento completamente diferente em relação à sua própria sobrevivência, se pôs na frente do grupo de aprendizes e, com um uivo sonoro, correu na direção das serpes. Ele ergueu uma das mãos com a palma voltada para os monstros.
Uma bola de fogo minúscula saiu de seus dedos, voando por cima da cabeça de uma das serpes.
A criatura rosnou, furiosa, e Jasper recuou. Ele ergueu a palma novamente, mas, desta vez, tudo que saiu de seus dedos foi fumaça.
Não havia nem sinal de fogo.
Uma serpe deu um passo na direção de Jasper. Ela abriu a boca e uma neblina azul espessa jorrou de suas mandíbulas. Aos poucos, a neblina formou uma bola no ar, mas não devagar o suficiente para que Jasper fosse capaz de escapar. Ele rolou para o lado, mas a neblina o envolveu. Um momento depois, ele se ergueu sobre a fumaça, sendo levantado como se estivesse dentro de uma bolha de sabão.
As outras duas serpes levantaram voo.
— Ah, droga — comentou Call. — Como vamos lutar contra essas coisas?
Um lampejo de raiva passou pelo rosto de Aaron.
— Não é justo.
Jasper começou a berrar, quicando de um lado para o outro na fumaça do sopro da serpe. Lânguida, a primeira serpe o golpeou com a cauda. Call não conseguiu deter uma sombra de pena. Os outros aprendizes congelaram, olhando para cima.
Aaron respirou fundo e disse:
— Vamos ver no que isso vai dar.
Enquanto Call e os outros observavam, ele correu para a frente do grupo e se jogou o mais perto possível da cauda da serpe.
Conseguiu agarrá-la quando a criatura a bateu no chão e a serpe soltou um grito de surpresa que soou como um trovão. Aaron agarrou a cauda com uma expressão sombria no rosto enquanto era jogado para cima e para baixo como se montasse um cavalo chucro. Jasper, dentro da bolha, se ergueu e subiu até o teto, junto às estalactites, berrando e chutando.
A serpe estalou a cauda como se fosse um chicote e Aaron foi jogado para longe.
Tamara arfou. Rufus ergueu uma das mãos, disparando cristais de gelo que se uniram no ar, formando uma mão que pegou Aaron a centímetros do chão e permaneceu assim, imóvel.
Call sentiu uma onda de alívio no peito. Ele não percebera até aquele momento o quanto estava preocupado com o fato de os mestres não se mexerem para ajudá-los, que eles simplesmente deixassem que os aprendizes morressem.
Aaron lutava contra os dedos de gelo, tentando se libertar. Alguns outros aprendizes do Ano de Ferro caminharam juntos em direção à segunda serpe. Gwenda lançou fogo por entre seus dedos, tão azul quanto as chamas nas costas dos lagartos. A serpe bocejou e lhes lançou um jorro lento de seu sopro fumacento.
Um por um, os aprendizes foram erguidos no ar, aos berros. Célia lançou uma rajada de gelo enquanto era levantada. Ela errou o alvo, atingindo apenas o lado esquerdo da cabeça da segunda serpe, fazendo-a rugir.
— Call! — Ele girou o corpo ao ouvir o sussurro urgente de Tamara, bem a tempo de vê-la mergulhar atrás de um conjunto de estalagmites.
Call começou a caminhar até ela, mas parou ao ver Drew estático, imóvel, distante do grupo.
Call não foi o único a perceber isso. A terceira serpe, com os olhos apertados que chispavam um brilho amarelo e predatório, se virou para encarar o apavorado aprendiz.
Drew deixou os dois braços caírem ao lado do tronco, com as palmas voltadas para o chão, enquanto murmurava freneticamente.
Ele então se ergueu devagar até chegar ao nível dos olhos da criatura.
“Ele está fingindo que foi atingido pela fumaça”, Call se deu conta. “Esperto.”
Drew conjurou uma bola de vento em suas mãos e mirou no alvo. A serpe bufou, surpresa, quebrando a concentração de Drew e fazendo com que ele rodopiasse, levado pelo ar. Sem perder tempo, a serpe esticou a cabeça para a frente e deu um golpe com o bico que atingiu de raspão uma das pernas da calça de Drew. O tecido se rasgou enquanto o menino freneticamente quicava no ar.
Call correu para ajudar — no exato momento em que a segunda serpe arremeteu do teto da caverna, indo em sua direção.
— Corra, Call! — Drew berrou. — Depressa!
“Seria uma boa sugestão”, Call pensou, “se eu pudesse correr”. A perna fraca se retorcia enquanto ele tentava sair em disparada sobre o chão irregular. Ele tropeçou e até foi capaz de recuperar o equilíbrio, porém não rápido o suficiente. Os olhos negros e frios da serpe estavam focados nele, as garras se estendiam à medida que a criatura se aproximava. Call começou a correr de forma bamboleante. A perna doía toda vez que pisava na rocha. Ele não era rápido o bastante. Call olhou para trás e acabou tropeçando. Seu corpo levantou voo e bateu com toda a força contra uma pedra granulada e pontuda.
Ele rolou até ficar de barriga para cima. A serpe empinou-se sobre ele. Uma parte de seu cérebro lhe dizia que os mestres interviriam antes que alguma coisa séria acontecesse, porém outra parte muito maior tremia de medo. A serpe parecia tomar todo o campo de visão de Call, com as mandíbulas abertas, revelando uma bocarra escamosa e dentes afiados...
Call levantou os braços. Ele sentiu uma tênue corrente de calor ao redor de si. Uma onda de areia e pedras se ergueu do chão e, em seguida, atingiu o peito da serpe.
O monstro voou para trás e bateu com toda a força na parede da caverna antes de desmoronar no chão. Call piscou, levantando-se devagar. Quando conseguiu, por fim, ficar de pé, olhou ao redor com novos olhos.
“Ah”, ele pensou ao contemplar a baderna em que o salão havia se transformado. Rajadas de fogo cruzavam o ambiente e os aprendizes rodopiavam pelo ar ao perderem a concentração, e sua magia os atirava de um lado para o outro. Imediatamente, ele entendeu por que eles haviam passado tanto tempo praticando na sala da areia. Contra todas as probabilidades, a magia se tornara algo automático para ele. Call sabia da concentração de que necessitava.
Com dificuldade, a serpe se pôs de pé, mas Call estava, por fim, preparado. Ele se concentrou, estendeu as mãos e três estalactites se desprenderam do teto com um estalo, caindo violentamente e prendendo a serpe pelas asas.
— Rá! — vibrou Call.
A besta abriu o bico e Call tentou recuar, sabendo que não seria rápido o suficiente para evitar o sopro do monstro...
— Me passe a Miri — Tamara berrou, surgindo das sombras. — Rápido!
Call alcançou o cinto, pegou a faca e atirou-a para Tamara. A boca da serpe estava aberta e a fumaça começava a serpentear para fora. Com dois passos rápidos, Tamara atravessou a fumaça até a criatura e se preparou para apunhalar um de seus olhos.
Quando ela estava prestes a acertar o alvo, o monstro desapareceu em uma grande nuvem de fumaça azul, retornando para o seu elemento com um ganido de raiva. Tamara começou a flutuar em direção ao teto.
Call a agarrou pela perna. Era como se segurasse o fio de um balão de gás, já que ela continuava a flutuar.
Tamara sorriu para Call. Estava coberta de sujeira e areia. O cabelo solto caía em seu rosto.
— Olha — disse ela, gesticulando com Miri, e Call se virou bem a tempo de ver Aaron, finalmente livre do gelo, enviar um enxurrada de pedrinhas contra a serpe. Célia, lá de cima, também jogava uma chuva de pedras.
No ar, as pedras formavam um imenso pedregulho que dispersou a criatura antes de se transformar em cascalho ao bater na parede mais afastada.
— Só mais um — disse Call, ofegante.
— Não mais — Tamara lhe informou, alegre. — Eu peguei dois. Bem, quero dizer, você me deu uma ajudinha com o segundo.
— Olha que eu posso soltar você agora mesmo — Call ameaçou, dando um puxão na perna dela.
— Tudo bem, tudo bem, você ajudou muito. — Tamara riu bem no momento em que a sala rompeu em aplausos.
Os mestres aplaudiam olhando, como Call percebeu, para ele, Tamara, Aaron e Célia. A respiração de Aaron estava acelerada, ele olhava de suas mãos para o lugar onde a serpe desapareceu, como se não conseguisse acreditar que havia movido aquele pedregulho. Call conhecia aquela sensação.
— Oba! —Tamara movia os braços para cima e para baixo enquanto flutuava. Um momento depois, os aprendizes que juntos voavam para o teto desciam vagarosamente e Call soltou o tornozelo de Tamara para que ela pudesse aterrissar de pé. Ela lhe devolveu Miri enquanto os outros aprendizes voltavam para o chão. Alguns deles riam, outros, como Jasper, permaneciam silenciosos e com uma expressão carrancuda no rosto.
Tamara e Call foram até Aaron entre o burburinho de vozes. As pessoas gritavam e aplaudiam, animadas, quando eles passavam.
Call sempre imaginou que aquilo deveria ser como ganhar um jogo de basquete, apesar de nunca ter vencido um. Ele nem mesmo tinha chegado a jogar em um time.
— Call. — Ele ouviu uma voz atrás dele. Ele se virou para ver Alex com um grande sorriso nos lábios. — Fiquei de olho em você.
Call piscou.
— Por quê? — Call pensou no que Alex queria dizer com aquilo.
— Porque você é como eu. Dá para ver.
— É, está certo — Call disse. Aquilo era ridículo. Alex era o tipo de cara que em sua escola antiga jogaria Call em uma poça de lama. O Magisterium era mesmo diferente, mas não era possível que fosse tão diferente assim.
— Na verdade, nem fiz muita coisa — Call continuou. — Simplesmente fiquei ali parado até que me lembrei de correr... Exceto pelo fato de que, então, me lembrei de que não posso correr.
Call viu o Mestre Rufus contornar a multidão para se aproximar de seus aprendizes. Ele tinha um sorrisinho discreto no rosto, o que para o Mestre Rufus era o mesmo que dar piruetas pelos corredores.
Alex abriu um amplo sorriso.
— Você não precisa correr — disse ele. — Aqui eles o ensinarão a lutar. E, acredite em mim, você vai ser bom nisso.


Call, Tamara e Aaron voltaram para seus aposentos com a sensação de que, desde que chegaram ao Magisterium, as coisas se encaixavam em seus devidos lugares. Eles se deram melhor do que qualquer outro grupo de aprendizes, e todo mundo sabia disso. E o melhor de tudo é que o Mestre Rufus tinha lhes dado pizza. Pizza de verdade, saída de uma caixa de papelão com queijo derretido e várias coberturas diferentes de líquen, cogumelos roxos ou qualquer uma daquelas coisas esquisitas que cresciam no subterrâneo.
Enquanto comiam na sala compartilhada, disputavam amigavelmente quem devorava mais pedaços. Tamara venceu a disputa de quem comia mais depressa.
Os dedos de Call ainda estavam um pouco gordurosos quando ele abriu a porta do quarto. Entupido de pizza, refrigerante e gargalhadas, fazia tempo que não se sentia tão bem.
Porém, tudo isso mudou no momento em que ele viu o que o esperava sobre a cama.
Era uma caixa. Uma caixa de papelão fechada por uma grossa camada de fita adesiva, com seu nome escrito na caligrafia inconfundível de seu pai, que lembrava uma teia de aranha:

CALLUM HUNT
O MAGISTERIUM
LURAY, VIRGÍNIA

Por um momento, Call ficou parado, olhando.
Ele caminhou devagar até a caixa e a tocou, passando os dedos pelas emendas da fita adesiva. O pai sempre usava uma fita rígida para lacrar caixas, quando ele precisava enviar algum produto comprado por alguém de fora da cidade. Era praticamente impossível abri-las.
Call tirou Miri do cinto. A lâmina afiada rasgou o papelão como se fosse uma folha de papel. Roupas foram despejadas sobre a cama: a calça jeans de Call, jaquetas e camisetas, um pacote de sua bala de goma azeda preferida, um despertador portátil e uma cópia de Os Três Mosqueteiros, que ele e o pai estavam lendo juntos.
Quando Call pegou o livro, um bilhete dobrado caiu de uma das páginas. Call o pegou e leu.

Callum,
Sei que a culpa não foi sua. Sinto muito por tudo o que aconteceu. Mantenha a cabeça erguida na escola.
Afetuosamente,
Alastair Hunt

O pai assinara com o seu nome completo, como se Call fosse alguém que ele mal conhecia.
Segurando a carta nas mãos, Call se afundou na cama.


Guilherme Tell é uma ópera escrita pelo italiano Gioacchino

12 comentários:

  1. Acho que o Alex é um dominado pelo caos encubado

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    1. Eu também acho e acho que aconteceu enquanto sua mãe enfrentava o inimigo como ele foi o único que sobreviveu (o menino que sobreviveu) kkkkkkkk

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  2. “A água quer fluir”, Call refletiu consigo. “O ar quer se erguer. A terra quer unir. O caos quer devorar. Call quer viver.”
    Kkkkkkkkk

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    1. Com o que tem o final do livro, esse verso é um pouco irônico...

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    2. ...O caos quer devorar.call quer viver.
      Ri demais 😁😁
      Se cada livro é uma ano
      ele não vai completar o magistério?
      Ass:milly*-*

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    3. Vai sim, tem 5 livros, 2 deles ainda não lançaram
      E são 5 anos no magisterium

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    4. Ou não, só porque tem cinco livros não quer dizer que ele vai completar, em Harry Potter também tem sete livros, mas ele não completou o sétimo ano

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  3. “A água quer fluir”, Call refletiu consigo. “O ar quer se erguer. A terra quer unir. O caos quer devorar. Call quer viver.” lembrei do Leo Valdez....kkk

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  4. Esse negócio de separar areia foi muito bota casaco/tira casaco/pendura casaco/apanha casaco. Essa expressão sempre séria, com sorrisinhos que equivalem a gargalhadas me lembram um outro personagem...de outra série...droga, quando preciso me lembrar parece que usaram o feitiço Obliviate em mim!

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    1. Sim, foi tipo isso! Mas não consigo imaginar o possível uso futuro desse treinamento...

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Boa leitura :)