25 de janeiro de 2017

Capítulo cinco


Ouviu-se uma explosão alta.
— Todo mundo, para fora — gritou o Mestre Graves, que tinha subido na mesa da Sala de Guerra. Estava com uma das mãos levantadas, fogo brilhando de sua palma. — Agora!
O rosto do Mestre Rufus estava enrugado e abatido à luz azul. Call se perguntou se o mestre conhecia Jen Matsui. Ficou imaginando como seria para ele ver um aluno morrer. Mestre Rufus tinha sido professor de Constantine Madden — tinha visto muitos alunos morrerem. Será que estaria acostumado com isso? Pela expressão do mestre, Call supôs que não.
Rufus ergueu a mão e a luz irradiada de seus dedos iluminou uma trilha até as portas.
— Andem — disse ele com um tom que não permitia discussão. Os outros Mestres e vários integrantes da Assembleia foram para a frente da multidão e ajudavam os convidados a sair da Salão de Guerra. Em pânico, as pessoas choravam e gritavam. Elas inundaram o corredor e depois o salão principal. Anastasia Tarquin estava lá com diversos Mestres, incluindo Taisuke. Então começaram a direcionar as pessoas para a escadaria que levava para fora do Collegium. Call viu Célia desaparecendo pelos degraus com as mães e se perguntou se ela estaria bem. Alastair, que estava com uma das mãos no ombro de Call, o empurrou na direção da saída, gesticulando para que Aaron os seguisse.
Ao olhar para trás, Call viu que Tamara estava tendo uma espécie de conversa intensa com os pais e os DeWinter. A Sra. DeWinter não parecia satisfeita, nem os Rajavi. No entanto, a expressão no rosto do Sr. DeWinter era esquisita, como se ele estivesse satisfeito e não quisesse demonstrar. A multidão se dividia em volta deles à medida que seguia para a saída. Aparentemente, os membros da Assembleia não precisavam seguir ordens.
— A gente nem se despediu da Tamara — disse Call para Alastair.
— Agora não — respondeu ele, empurrando Call com mais força. — Temos que sair daqui antes que...
— Alastair — disse o Mestre Rufus. — Espere.
Alastair parou. Call pôde senti-lo tenso de raiva. Ele virou lentamente, assim como Call e Aaron. As cordas flutuantes tinham subido em torno deles, cercando Aaron, Call e Alastair.
— Você não podem simplesmente ir embora — disse Mestra Milagros. — Call foi atacado, e Jennifer, assassinada. Nossos aprendizes precisam ir para algum lugar onde possamos mantê-los seguros.
— Considerando que vocês sequer conseguem manter a segurança desses garotos em uma festa, acho exagerado prometer que ficarão seguros em algum outro lugar só porque vocês estarão presentes. — A voz de Alastair estava fria.
— As aulas começam em três dias — disse Mestre Rufus. — E tanto eu quanto a Assembleia esperamos encontrar os dois Makaris lá. Vamos mantê-los seguros; vai ter que confiar na gente.
Alastair virou para Rufus, o rosto aceso com a mesma raiva que Call se lembrava de ter visto no Desafio de Ferro.
— Faz muito tempo que confiei em você, Rufus — disse Alastair. — E veja só o que aconteceu. — Ele esticou a mão e as cordas que os cercavam sucumbiram em cinzas. Faíscas ficaram contidas em seus dedos. Call olhou para Aaron com olhos arregalados. — Avise quando encontrar o responsável, porque até lá, não confio nem um pouco em você. Vamos, meninos.
Alastair foi marchando em direção à escada com Call e Aaron logo atrás. Surpreendentemente as pessoas abriram espaço para que passassem, até os membros da Assembleia. Provavelmente porque todos achavam que era ele a pessoa que tinha cortado a cabeça de Constantine Madden e que parecia pronto a arrancar mais algumas.
Call e Aaron se entreolharam com olhos arregalados enquanto Alastair os arrastava para os degraus.
— Esperem! — disse Tamara, correndo para eles e puxando Jasper atrás de si como um rebocador. Os pais dela continuavam no mesmo lugar; tinham afastado Alex de Kimiya e eles mesmo consolavam a filha. — Eu vou com vocês. Nós dois vamos.
— Oi? — disse Jasper. — Nada disso! Não achei que estivesse falando sério. Sua irmã gata precisa de um ombro amigo. Vou me oferecer. Vou me sair bem melhor fazendo isso do que estando em um casebre qualquer que Call e o pai estranho dele...
Tamara deu um chute violento em Jasper, que se calou.
Alastair olhou surpreso para ambos.
— Bem, será bem-vinda, mas acho que seus pais não vão querer. Eu os conheço há muito tempo e ficaria surpreso se concordassem em ter você longe da supervisão deles.
Tamara cerrou a mandíbula, um ar de determinação em cada linha do rosto.
— Temos que fazer turnos para cuidar da segurança do Call. Eu disse isso e eles concordaram.
— Turnos? — repetiu Aaron.
— Tentaram matar Call — disse Tamara. — Isso significa que não podemos tirar os olhos dele. Precisamos ter alguém tomando conta dele o tempo todo, vinte e quatro horas por dia.
— Mesmo quando estou dormindo? — perguntou Call.
Tamara o encarou muito séria.
— Especialmente quando estiver dormindo — respondeu. — Dormindo você fica vulnerável.
Call não ficou muito feliz com o plano.
— O quê? Não! Não quero Jasper olhando para mim enquanto eu durmo, que coisa esquisita. Não quero ninguém me vendo dormir!
— Podemos discutir isso depois — disse Alastair. — Tamara, Jasper, se quiserem vir conosco estamos indo agora.
Call olhou para Aaron, mas ele não estava prestando muita atenção na discussão. Observava algum ponto além deles na Sala de Guerra e ainda mais distante, onde o corpo de Jen flutuava. Call pensou nas férias que passaram, sem preocupações, construindo robôs e correndo pelo jardim com sprinklers improvisados na mangueira. Se perguntou se tinha sido tolo o bastante para achar que as coisas realmente tinham mudado só por ter feito os magos acreditarem nisso.
— Vamos — disse Tamara a Aaron, tocando-o no ombro e atraindo novamente sua atenção para o aqui e agora. Call se permitiu ser levado pelo pai para as escadas. Passaram pela mesa de bebidas, agora revirada, onde Jen havia entregado o bilhete a Call.
Quando Alastair chegou à escada, ergueu Call no ar, fazendo-o deslizar com facilidade e rapidez sobre os degraus. O gesto foi distraído e sem esforço, assim como quando tinha queimado as cordas de veludo; como se não estivesse prestando atenção ao que estava fazendo. Call estava chocado. Seu pai tinha passado tanto tempo evitando usar mágica que Call não achava que ele se lembrasse de como fazer.
Chegaram ao topo da escada e Alastair colocou Call cuidadosamente no chão. Ele começou a marchar na frente dos quatro, pela orla, em direção ao carro estacionado.
Tinham acabado de passar pela estátua gigante e estranha de Poseidon quando Jasper notou o Rolls-Royce Phantom de Alastair. Ele deu um assobio longo e satisfeito que se encerrou abruptamente — em um ruído engasgado — quando percebeu que o carro que admirava pertencia ao pai de Call.
— Não é o que você esperava? — perguntou Call quando Alastair abriu a porta e os conduziu ao espaçoso banco de trás.
Pela primeira vez na vida, Jasper parecia sem palavras. Todos entraram silenciosamente no carro, Call no banco do carona. Ao se afastarem da calçada, Call olhou para trás e viu um grupo de magos perto do mar, junto à entrada do Collegium. Enquanto observava, um deles entrou na água e desapareceu.
— Magos da água. Vão buscar o corpo da menina — Alastair com um tom severo.
Call desviou o olhar. Era difícil acreditar que aquela Jen alegre que o havia provocado ao entregar o bilhete e que Jasper queria conhecer, estava morta. A noite tinha sido para homenagear o da guerra, mas, de algum jeito, esse detalhe tornava os acontecimentos ainda mais grotescos. Será que algum dia poderia haver paz de verdade, Call pensou, uma vez que o Inimigo da Morte não está mesmo morto?
Ao chegarem em casa, Alastair deu um jeito de encontrar travesseiros e cobertores o suficiente para todos eles. Aaron abriu mão de seu catre para que Tamara pudesse ficar entocada; sim, esse era Aaron.
Jasper ficou com o sofá, apesar de ter reclamado muito de não ser do tipo sofá-cama, e acusou Devastação de ter deixado pulgas nas almofadas. Call, que sabia muito bem que Devastação não tinha pulgas, tinha voltado a odiar Jasper. Aaron pegou uma pilha de cobertores, fez uma cama improvisada no chão ao pé de Call e foi dormir.
O próprio Call já estava quase dormindo quando ouviu uma batida à porta. Era Tamara, parecendo ligeiramente envergonhada.
— Tem alguma roupa que eu possa usar como pijama? — perguntou ela. — Só tenho isso — indicou o vestido de festa —, e, bem, provavelmente eu não deveria dormir sem...
Call percebeu que estava ruborizado. Desejou que pudesse ser totalmente sem complicações o fato de ter uma menina como melhor amiga. Deveria ser exatamente como era com Aaron. Não deveria importar o fato de que Tamara era uma garota. Mesmo assim Call se sentiu desajeitado e tolo enquanto vasculhava sua gaveta de camisas. Achou uma camiseta grande que dizia BEM-VINDO À CAVERNA LURAY em amarelo fosforescente. Entregou em silêncio.
— Obrigada — disse Tamara. — Vou lavar e devolver...
— Tudo bem, pode ficar com ela...
— ... E Call?
— Quer dizer, eu nunca usei mesmo, é grande demais e...
— Call — repetiu ela, olhando para Call com olhos grandes e sérios. — Vamos manter você em segurança, ok?
Call queria poder acreditar.
— Ok — disse ele.


No dia seguinte, Call, Tamara e Jasper estavam sentados no jardim. Tamara usando o vestido amarelo e Jasper com uma estranha combinação de peças de roupas dele e de Call. O dia estava muito ensolarado e Tamara olhava com desconfiança para a limonada em pó que Alastair tinha preparado. Call suspeitava que ela não costumasse beber coisas instantâneas. Jasper olhava com arrogância para o pequeno quintal de Call e para a grama ligeiramente alta.
Não que Alastair parecesse notar. Ele estava sentado em uma pedra, mexendo em um despertador quebrado. Apesar de haver alarmes digitais e celulares hoje em dia, as pessoas pagavam caro por telefones antigos e outras coisas consertadas de modo a funcionarem bem.
— Então o que isso quer dizer? — Tamara perguntou. — Se alguém está tentando machucar Call porque ele é o... — Ela engoliu em seco.
— Inimigo da Morte? — Jasper ofereceu.
— Não acho que seja uma boa ideia ficar repetindo “Inimigo da Morte” — disse Aaron. — É melhor bolarmos um código. Como Capitão Cara de Peixe.
Devastação latiu. Call concordava que o nome era péssimo.
— Por que Capitão Cara de Peixe?
— Bem, você tem uma cara meio de peixe — disse Jasper. — Além do mais, ninguém jamais adivinharia o que estamos falando porque não há nada de assustador nisso.
— Tudo bem, que seja — disse Tamara, parecendo achar tudo aquilo uma perda de tempo. — Então quem será que sabe que Call é o Capitão Cara de Peixe?
— Eu me recuso a ser chamado assim! — disse Call. — Principalmente levando em conta os recentes eventos.
Tamara resmungou como se esta conversa a estivesse atormentando mais do que a Call.
— Tudo bem, como você quer ser chamado?
— Que tal Comandante Cabeça de Vento? — sugeriu Aaron. Jasper riu, cuspindo a limonada.
Call apoiou a cabeça nas mãos e respirou fundo, absorvendo os aromas do verão o perfume da terra morna, da grama cortada e do óleo de máquina. Não tinha como sair ganhando. Ele ficaria com um nome idiota de qualquer forma.
— Pode ser Capitão Cara de Peixe.
— Ótimo — disse Tamara, revirando os olhos. — Agora podemos conversar sobre quem pode saber sobre Call?
— O pai dele — disse Jasper, e todos olharam para Alastair, que parecia totalmente alheio, assobiando uma canção alegremente e um pouco fora do tom.
— Meu pai não está tentando me matar — disse Call. Há um ano ele não tinha tanta certeza disso, mas agora sim. — E também não acho que seja nenhum de vocês. Nem você, Jasper. Quem mais?
— Algum de nós contou para alguém? — perguntou Tamara, olhando para o grupo.
— Para quem eu contaria? — perguntou Jasper, e em seguida empalideceu com os olhares demorados que recebeu. — Não, ok? Não contei para ninguém! É um segredo grande demais, e eu também me encrencaria.
— Nem eu — disse Aaron.
Tamara suspirou.
— Eu não contei. Mas achei melhor perguntar. Tudo bem, então chegamos ao Mestre Joseph. Ele deve estar muito irritado com Call.
— Achei que ele precisasse de Call — disse Jasper. — O Capitão Cara de Peixe não é, tipo, a razão de viver dele?
Aaron sorriu.
— Acho que ele estava torcendo para Call ser bem mais obediente do que é, ou para que pudesse usá-lo para trazer de volta o Capitão Cara de Peixe com todas as lembranças intactas.
Call, que achava basicamente o mesmo, estremeceu.
— Pode ser que ele me culpe pela morte de Drew.
— Provavelmente ele também me culpa — disse Aaron. — Se faz você se sentir melhor.
Drew era o filho do Mestre Joseph. Ele tinha ido para o Magisterium se passando por um aluno normal, mas seu verdadeiro motivo era se aproximar de Call. Drew até ajudou o pai a sequestrar Aaron e depois o colocou em uma jaula com um elemental do caos que, ironicamente, acabou matando o próprio Drew. Call tinha que admitir que ele também tinha alguma coisa a ver com isso.
— Muito bem — disse Tamara. — Nosso principal suspeito é o Mestre Joseph.
Call balançou a cabeça.
— Não sei. Se ele quisesse me pegar, por que não usar o Alkahest? E, bem, acho que ele ainda não está pronto para desistir. Ele tentou salvar a minha vida no túmulo. Acho que ele ainda tem esperança de que eu vá ficar... mais parecido como o Capitão Cara de Peixe.
— E Warren? — perguntou Aaron. Todos o encararam por um longo instante.
Call olhou para ele do mesmo jeito que Tamara tinha olhado para a limonada.
— Você acha que um lagarto está tentando me matar? E que ele forjou um bilhete de Célia?
— Ele é um elemental! E estava a serviço do Devorado que nos deu aquela profecia arrepiante. — Aaron suspirou. — Ok, é uma teoria muito maluca.
— Tudo bem — disse Tamara. — Temos que pensar fora da caixa. Por mais improvável que seja, temos que colocar todas as nossas ideias na mesa. Ou, pelo menos, nesse gramado.
— Não temos nenhum suspeito — disse Call. — Não temos ideias. Não sabemos nem por que estavam atrás de mim. Talvez seja porque sou um Makar. Talvez não tenha nada a ver com o fato de ser o Capitão Cara de Peixe. Talvez a pessoa que tentou me esmagar com um lustre seja a mesma que soltou Automotones para nos matar.
— É isso que os magos vão presumir. — Tamara suspirou. — Talvez seja isso mesmo.
— Vamos ter que nos manter juntos — disse Aaron, sorrindo para o céu azul. — E vamos dar um jeito nisso, ok? Afinal, somos heróis, certo? Ganhamos medalhas. A gente consegue.
Em dado momento Call produziu um baralho e todos jogaram algumas rodadas de um jogo que envolvia dar tapas nas mãos uns dos outros. Falaram sobre voltar para o Magisterium e sobre o que pretendiam alcançar naquele ano. Devastação perseguiu várias abelhas, avançando nelas até que, preguiçosas, retiravam-se do seu alcance. Ao cair da tarde, Stebbins chegou com malas para Tamara e um recado dos pais dela que só poderia ser transmitido confidencialmente. Jasper usou um dos telefones fixos consertados por Alastair, em estilo castiçal, para ligar para casa. Depois de desligar, relatou com tristeza que a família mandaria seus pertences direto para o Magisterium. Call ficou imaginando se ele teria tentado convencer os pais a proibi-lo de ficar aqui. Também se perguntou se os pais de Jasper o teriam obrigado a vir, mas rapidamente afastou a ideia.
— Tá olhando o quê? — perguntou Jasper quando notou Call olhando em sua direção.
— Nada — respondeu Call. A última coisa que precisava era ter que se preocupar com Jasper.
Naquela noite todos jantaram do lado de fora, em pratos de papel. Alastair assou carne, que foi servida com milho amanteigado, ervilhas e fatias frias de melancia. Tamara jogou melancia em Aaron, que ficou com caroços por dentro da blusa. Devastação subiu em Jasper quando ele se recusou a lhe dar um pedaço de carne. Eles brincaram de ver quem conseguia fazer faíscas sobre os carvões na grelha. Foi quase uma festa, exceto pelo fantasma de morte de Jen, que os impedia de rir alto ou de se esquecer por muito tempo de que poderiam ser os próximos.


Dois dias depois, Alastair levou todos ao Magisterium. Call foi na carona, olhando pela janela enquanto Aaron cochilava no banco. Tamara estava ouvindo música no celular e Jasper lia o mais novo quadrinho encontrado no quarto de Call, pelo qual estava obcecado. Devastação estava esticado ao longo dos colos, dormindo.
— Me avisa se quiser voltar para casa — disse Alastair a Call pela milionésima vez. — Você já fez o suficiente. Sabe bastante mágica, o suficiente para controlar suas habilidades. Não precisa do Magisterium.
Call se lembrou de Graves insistindo para que o Mestre Rufus atualizasse sobre a evolução dos Makaris. Ele se lembrou de todas as referências a países onde magos com a habilidade de controlar o caos eram mortos ou privados da magia apesar de ser uma festa para homenageá-los. Enquanto Constantine Madden estava vivo, Makaris eram ótimos. Eram armas muito necessárias. Eles significavam o fim da guerra. Mas com Constantine Madden morto, Aaron e Call não passavam de lembretes da guerra e de como ele poderia retornar. Call duvidava que fosse poder abandonar Magisterium, independente do que Alastair acreditasse.
— Tudo bem, pai — disse Call. — Vou ficar bem.
À medida que se aproximavam do Magisterium, as estradas se tornavam mais estreitas e curvas. Não tinham nenhuma sinalização: só aqueles que sabiam onde o Magisterium ficava conseguiam encontrá-lo. Call sempre ficava imaginando que tipo de magia impedia que andarilhos e pessoas normais fossem parar lá. Alguma coisa avançada, ele supunha. Alguma coisa relacionada à terra. As floresta ficava mais densa às margens da estrada. Call não conseguia deixar de pensar na Ordem da Desordem — era claro que a Assembleia sabia sobre eles e tolerava sua existência, mas ele não conseguia entender o motivo.
Ouviram um apito à frente e isso trouxe a atenção de Call de volta para a estrada. Pararam o carro em uma clareira, onde um ônibus escolar já havia chegado. Alunos saltavam dele, carregando malas e bolsas. O portão principal da escola estava aberto; por ele, Call podia ver magos em vestes de um preto sóbrio e vários alunos de uniforme — vermelho, branco, azul, verde e cinza — misturados a alunos que tinham acabado de chegar e ainda vestiam jeans e camiseta.
Aaron acordou e ele, Jasper e Tamara começaram a se cutucar, inclinando-se para as janelas ao reconhecerem colegas dos anos anteriores — Célia lançou a eles um sorriso reservado ao atravessar os portões com Gwenda, que era do mesmo grupo de aprendizes que ela e Jasper. Alex Strike conversava com Anastasia Tarquin, que tinha estacionado seu Mercedes branco ao lado do ônibus escolar. Call já tinha visto aquele carro antes: era o mesmo que ela dirigia quando foi buscar Alex na casa dos Rajavi no ano passado. Call quase tinha se esquecido: Anastasia Tarquin era madrasta de Alex.
Anastasia emergiu do carro em um terninho branco, elegante como sempre. Alex gesticulava para ela, parecendo irritado, quando uma van preta parou ao lado deles. A porta se abriu e dois jovens musculosos saltaram, para deleite de alguns dos alunos do Magisterium. Começaram levar móveis volumosos pelos portões – uma mesa, uma luminária e um sofá perfeitamente branco.
— O que está acontecendo ali? — Alastair pensou alto enquanto todos saltavam do Rolls-Royce.
Call se espreguiçou para relaxar a musculatura. Devastação fez o mesmo.
— A Assembleia colocou Anastasia na escola para ficar de olho nas coisas — respondeu Alex, que tinha abandonado a madrasta para cumprimentá-los. Ele cumprimentou Call e Aaron com um high-five e sorriu para Tamara. — Ela vai ficar no antigo escritório do Mestre Lemuel. Anastasia leva isso muito a sério e... Bem, podemos dizer que ela exagera nas malas.
— Ela vai procurar o espião? — perguntou Alastair.
— Acho que não devemos falar sobre isso — disse Alex, olhando para Jasper com preocupação. — Quer dizer, ninguém deveria saber.
Alastair ergueu as sobrancelhas e disse:
— Ainda bem que Anastasia está sendo bem discreta.
Alex olhou para a madrasta, que estava supervisionando o carregamento de várias malas enormes para dentro das cavernas. Estavam todas cobertas de carimbos antigos de lugares distantes — México, Itália, Austrália, Riviera Francesa, Provença, Cornualha.
— A história que vai acobertá-la é que ela veio para cá a fim de garantir que o processo de expulsão dos animais Dominados pelo Caos da floresta corra bem.
Call colocou a mão nas costas de Devastação, com a intenção de tranquilizá-lo. Devastação olhou para ele, começando a abanar o rabo. Uma onda de raiva o percorreu ao pensar que alguém poderia querer machucá-lo.
É bom que não, pensou.
Alastair voltou-se para Call.
— Se mudar de ideia, sabe como me encontrar — disse, e então abraçou Call com força. Força um pouco demais, para falar a verdade, deixando o garoto preocupado com as costelas.
— Tchau, pai — disse Call com a voz esganiçada. Mesmo com o aperto um pouco exagerado, era a primeira vez que Alastair aceitava bem que ele fosse para o Magisterium. A sensação era ótima.
Tamara tinha encontrado Kimiya e as duas estavam rindo. Jasper tinha ido em direção a Célia e Gwenda. Aaron, o único que tinha ficado à espera de Call, lançou a ele um sorriso de lado. Call ficou imaginando quão difícil deveria ser para Aaron ficar o tempo todo perto das famílias de outras pessoas.
— Passa isso pra cá — disse Aaron, colocando a bolsa de Call no ombro e levantando a própria bagagem com a outra mão. Ele começou a caminhar na direção da escola, aparentemente nem um pouco abalado pelo peso que carregava. Call foi atrás dele, com a perna dura da viagem, e pensou em como a vida era injusta.
As cavernas eram úmidas, mas legais. Água pingava das estalactites para as estalagmites que pareciam velas derretidas. Lâminas de gipsita pendiam do teto, lembrando bandeiras e faixas de uma festa há muito esquecida. Call passou por tudo aquilo, pela pedra molhada e pelas piscinas que brilhavam por causa da mica, peixes claros nadando à toda velocidade. Ele estava tão acostumado com tudo aquilo que não achava mais realmente estranho. Era só o local onde estudava, tão familiar quanto a batida dos armários de metal e o barulho dos tênis derrapando no chão do ginásio eram há três anos.
Ficou imaginando se veriam Warren, assassino em potencial e se ele teria alguma coisa horripilante a dizer para eles, mas o lagartinho não estava em lugar nenhum.
Call usou sua pulseira, com todas as suas pedras novas, para tecer o caminho até o quarto. Aaron colocou a mala de Call no sofá com um resmungo que fez o amigo se sentir um pouco melhor relação às próprias habilidades e um pouco mais culpado quanto à generosidade de Aaron. O quarto parecia menor do que no ano anterior, e ele levou um instante para perceber que foi porque ele mesmo tinha crescido, e não porque o quarto tinha encolhido.
A porta se abriu e Tamara entrou, puxando as malas.
— Eu não sabia para onde vocês dois tinham ido! Simplesmente sumiram! — anunciou, o que era completamente injusto, porque foi ela que sumiu, Call pensou. Ela se virou para Aaron. — E você sabe que não podemos deixar Call sozinho!
— Eu não deixei — disse Aaron.
— Humpf. — Foi o que Tamara disse, antes de entrar no próprio quarto.
Call foi para o dele, que estava frio, empoeirado e abandonado, como sempre acontecia no início de um ano escolar. Ele abriu a mala e vestiu o uniforme: azul no terceiro ano. Fechou os punhos da camisa e se olhou no espelho do armário. Houve um tempo em que ele era baixo o suficiente para se enxergar inteiro no vidro; agora, a cabeça estava mais acima e ele tinha que agachar.
Ele foi para a sala compartilhada e encontrou Aaron e Tamara esperando, ambos uniformizados.
Após prometer para Devastação que traria algumas sobras pra ele, foram ao refeitório para o jantar.
Todos, exceto os alunos do Ano de Ferro — que estavam chegando de seus Desafios e normalmente podiam comer no quarto — tomavam seus lugares às mesas de sempre e escolhiam entre as opções do cardápio. Hoje havia um purê arroxeado, cogumelos grandes cortados em fatias tão grossas que quase pareciam de pão, cobertos por uma pasta amarela, e três tipos de líquen — verde vibrante, marrom e vermelho-escuro. Call empilhou tudo no prato, junto com um copo de líquido com uma camada fina de alga por cima.
Era assustador o quanto Call achava o líquen delicioso. Ele levou o garfo à boca como um homem faminto e imaginou se seria possível que o líquen tivesse algum propósito sinistro. Como a capacidade de realizar uma lavagem cerebral que o faria comer tanto que acabaria se tornando uma forma de vida inteiramente baseada em líquen. Seria possível? Ele deu uma olhada longa e desconfiada na próxima garfada antes de comer.
Jasper sentou ao lado de Call, como se fossem amigos, ou coisa do tipo.
— Então, qual é o plano?
— Do que você está falando? — perguntou Call.
— Ah, deixa pra lá — respondeu Jasper, revirando os olhos, e depois virou para Tamara. — Nem sei por que perdi meu tempo perguntando para ele. Qual é o plano?
— Não podemos conversar aqui — disse ela, inclinando-se e baixando a voz.
Call não pôde deixar de reparar que o corte sob o olho dela continuava visível, uma linha fina. Toda vez que ele o via, pensava em seus dedos no paletó dele, puxando-o para a segurança. Pensou no que devia a ela.
Ele devia muito a todos os amigos. Não sabia se um dia seria capaz de retribuir.
Aaron, que estava falando com Rafe — outro aluno do Ano de Bronze — sobre os robôs que ele e Call tiveram que construir no verão, pareceu perceber que tinha algo importante rolando. Interrompeu a conversa com Rafe e juntou-se ao grupo.
— Amanhã — respondeu Tamara — depois do jantar, vamos nos encontrar na biblioteca. Aí poderemos conversar.
— Do que estamos falando? — perguntou Célia, sentando diante de Call com um prato cheio de purê roxo. — Está acontecendo alguma coisa?
— Não! — Aaron e Jasper falaram ao mesmo tempo.
— Ah claro, não parece nem um pouco suspeito. — Ela se levantou. — Se não queriam que eu me sentasse aqui, era só avisar. Eu vou para outro lugar e...
Call ficou de pé num pulo.
— Não — disse antes de pensar em podería convencê-la a ficar. — Estávamos falando sobre a Galeria. Mas não decidimos ainda se vamos. Mas, quero dizer, talvez a gente vá. Na Galeria, digo.
— Está me convidando para ir a Galeria com você? — perguntou Célia, com uma expressão impossível de interpretar. A Galeria era o lugar para onde duas pessoas iam quando estavam...
Num encontro. Ela está falando de um encontro. Ela acha que estou convidando-a para sair.
— Eu... não sei? — Call gaguejou.
— Bem, talvez devesse descobrir — disse Célia, jogando o cabelo louro para o lado e saindo para sentar com Rafe, Kai e Gwenda.
— A bola está nas suas mãos, meu amigo — anunciou Jasper assim que Célia ficou fora do alcance da voz.
— Você está misturando as metáforas — disse Call. — Está me dando dor de cabeça.
— Podemos falar sobre salvar a vida de Call de fato, em vez de salvar sua vida amorosa? — disse Tamara, parecendo de saco cheio. — Até amanhã à noite, um de nós vai ficar com Call o tempo todo. Provavelmente terá que ser Aaron e eu, porque se for você, Jasper, todo mundo vai achar estranho, considerando que você não gosta de Call.
— Claro que gosta — disse Aaron, parecendo surpreso. — Somos todos amigos.
— Que seja — disse Tamara. — Amanhã, depois do jantar, biblioteca. Levem boas ideias. — Ela olhou para o lado. — Alex Strike está gesticulando para mim. Eu já volto. — Ela se levantou e pegou Aaron pela manga da camisa. — Vamos. Provavelmente ele quer falar com você também.
— Quê...? — Aaron começou a dizer ao ser levantado e puxado para a mesa onde Alex, Kimiya e seus outros amigos do Ano de Ouro estavam sentados. Pareciam um grupo melancólico. Call não podia culpá-los. Perder uma amiga daquele jeito...
— Então, você gosta da Célia ou não? — perguntou Jasper, mastigando um pedaço de líquen. Ele estava com corte de cabelo novo antes da cerimônia. Penteado, o cabelo parecia lambido e uma mecha escura recaiu sobre seus olhos.
— O que você tem a ver com isso? — perguntou Call.
— Talvez eu a convide para sair — disse Jasper. — Já pensou nisso?
Call não tinha pensado. Arregalou os olhos.
— Faz o que você quiser — disse por fim.
— Acho que você realmente não se importa. — Os olhos de Jasper brilharam, entretidos. — Talvez porque goste da Tamara?
— Jasper...
— Você gosta? Da Tamara?
— Ela é minha melhor amiga — respondeu Call, entredentes.
— Isso não quer dizer nada. — Jasper girou o garfo entre os dedos. — As pessoas vivem gostando umas das outras em grupos de aprendizes. Veja Kimiya e Alex Strike. Ou, você sabe, eu e Célia. Você super poderia gostar de Tamara...
— Que importância isso tem? — Call explodiu de raiva, para a própria surpresa. Ele olhou para Jasper, e com a voz baixa disse: — Você não entende? Isso não importa. Ela sempre vai preferir o Aaron.
Os olhos de Jasper se arregalaram.
— Uau — disse ele. — Parece que acertei uma verdade incômoda aí.
A cabeça de Call estava uma bagunça. Vagamente, através da multidão, ele pôde ver Aaron e Tamara vindo em direção a eles. Estavam rindo, como sempre faziam quando estavam juntos.
— Isso que eu acabei de falar — Call olhou para Jasper —, não repita.
Jasper se inclinou para trás na cadeira.
— Não se preocupe, Callum — disse ele com sarcasmo. — Guardo todos os seus segredos.

23 comentários:

  1. Nunca pensei que diria isso mas que bom que o Jasper se uniu ao grupo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada por ter dito isso, mais uma pessoa pra minha lista de suspeitos...

      Excluir
    2. nossa pensei que fosse so eu mas sinceramente estou amando ele no grupo deicha tudo mas descontraido e melhor um amorzinho eu realmente gosto dos 4 como equipe

      Excluir
    3. Eu acho que já tenho shippos de mais pro Call, mas essas briguinhas dele com o Jasper, e toda essa enrolação de amizade/ódio/insegurança/segredos e tudo pode deixar eles muito amigos... ou a gente com um shippo a mais... amooo <3 kkkkk

      Excluir
  2. Talvez o Alex tenha matado a Jen para esconder sua "personalidade traiçoeira"...

    Mas a Célia pode tê-la matado ao saber que tinha sido descoberta. (Mas que tipo de retardado se colocaria como isca ?! Óbvio que seria descoberto, dã)

    Ou pode ter sido aquele Mestre que esqueci o nome, rs. Talvez alguém da Europa. Vai saber, né...

    Uma garota loura e bonita. Essa foi a descrição do provável assasino. Mas essa escola é cheia de gente padrão, afs ! Difícil saber... Amo quando isso acontece MUAHUAMHUAMUA

    ResponderExcluir
  3. acho que é anastasia ele tem o cabelo loiro e bem...eu acho que tem magia para deixar mais jovem não?

    ResponderExcluir
  4. Não gosto dessa Anastasia Tarquin...não confio ¬¬

    Pronto Falei

    ResponderExcluir
  5. ''— Que importância isso tem? — Call explodiu de raiva, para a própria surpresa. Ele olhou para Jasper, e com a voz baixa disse: — Você não entende? Isso não importa. Ela sempre vai preferir o Aaron.'' Socorro, ele praticamente admitiu.
    Eu to bem perdida, pq as vezes parece que ele gosta do Aaron e outras que gosta é da Tamara. Eu sinceramente achei que as autoras fossem fazer o Call ficar com o Aaron, até pq seria uma coisa bem diferente, mas agora não tenho tanta certeza.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso quando elas não fazem essas misturas de amor/ódio com Jasper... kkk

      Excluir
  6. Eu sou a única pessoa que shippa o Aaron com a Tamara? O Call é um amorzinho mas o meu preferido é o Aaron.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu shippo Aaron e Tamara, Callum e Jasper, me julguem.

      Excluir
    2. BERRO! comentei antes de ver que existe mais alguém que shippa Callum e Jasper! supeeeer <3

      Excluir
  7. haaaaaaaaa finalmente estamos chegando onde eu queria call e tamara <3 como shippo esses dois talvez ate na mesma medida que shippo aaron e call, mas uma coisa e certa aaron com certeza nao pode ficar sozinho seria super injusto ele merece... um amorzinho

    ResponderExcluir
  8. Call é a melhor pessoa !!!!!! Adoro ele.

    ResponderExcluir
  9. Call é a melhor pessoa !!!!!! Adoro ele.

    ResponderExcluir
  10. Call com ciúmes do Aaron
    E Tamara com ciúmes da Célia
    A por favor se peguem logo...
    Call e Tamara😍😍😍

    ResponderExcluir
  11. Call ta é com medo de perder os dois melhores amigos que ja teve. Perder uma pro outro, Síndrome de Harry Potter. Jasper é um mala, mas um mal necessário.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Desde que essa síndrome transforme a Gina no Jasper.... por mim ok kkkkk

      Excluir
  12. Pelo amor de Jesus, eu não consigo odiar o Jasper. Amo ele desde sempre ❤️

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)