20 de janeiro de 2017

Capítulo cinco


O tempo em Arestas deu a Call um novo senso de apreciação sobre como é ser rico.
Um sino o acordava para o café da manhã, que era servido em um grande salão ensolarado, com vista para o jardim. Apesar de o café da manhã dos pais de Tamara ser uma refeição simples, composta apenas por pão e iogurte, eles serviam mesas impressionantes para os convidados. Havia suco fresco e pratos quentes, como ovos e torradas, em vez de cereal seco e leite. Havia manteiga em pequenos recipientes, em vez de um tablete cheio de migalhas que era utilizado em todas as refeições. Devastação tinha suas próprias vasilhas, com carne cortada, apesar de não ter permissão para dormir dentro da casa. Ele passava a noite nos estábulos, sobre uma montanha de palha fresca, e deixava os cavalos nervosos.
Call não conseguia acreditar que estava em um lugar onde havia um estábulo com cavalos.
Havia roupas também — compradas numa loja de departamentos, no tamanho de Call, e passadas antes de serem penduradas no armário do quarto que ele ocupava. Camisas brancas. Jeans. Calções de banho. Tamara provavelmente cresceu vivendo daquela forma. Ela tratava o mordomo e a empregada com uma familiaridade confortável. Pedia chá gelado na piscina e deixava toalhas no chão, certa de que alguém as cataria. Os pais de Tamara até se dispuseram a dizer a Alastair que Call estava viajando com eles, e que o levariam direto ao Magisterium quando voltassem. A senhora Rajavi relatou que Alastair pareceu perfeitamente agradável ao telefone e queria que Call se divertisse. Call não achava de fato que Alastair tinha ficado feliz em receber aquela ligação, mas os Rajavi eram poderosos o suficiente para fazer com que o garoto acreditasse que o pai não viria atrás dele desde que estivesse sob seus cuidados. E uma vez que chegasse ao Magisterium, definitivamente estaria seguro. Ele não sabia ao certo o que faria ao fim do ano escolar, mas ainda faltava tempo o bastante para que ele não precisasse se preocupar com aquilo.
Apesar do desconforto em relação ao próprio pai, Call permitiu que os dias se passassem em horas de sol, piscina, gramado e sorvete. Ficou um pouco sem graça na primeira vez que usou calções na piscina em forma de concha, percebendo que Aaron e Tamara jamais viram suas pernas. A esquerda era mais fina que a direita, e cheia de cicatrizes que, com o tempo, desbotaram de um vermelho furioso para um rosa-claro. Não era assim tão ruim, pensou ele, ansioso, ao sentar e olhar a própria perna no quarto. Mesmo assim, não era nada que gostasse de mostrar às pessoas.
Mas nenhum dos dois pareceu notar. Apenas riram e jogaram água nele, e logo Call estava sentado na grama com os dois, junto com Alex e Kimiya, tomando sol e entornando goles de chá gelado com menta e açúcar. Na verdade, ele estava até ficando um pouco bronzeado, coisa que quase nunca acontecia.
Não que aquilo fosse algo inesperado, considerando que estudava em uma escola subterrânea. Às vezes, Aaron jogava tênis com Alex, sempre que Alex se desgrudava do rosto de Kimiya. Tênis mágico se parecia muito com tênis normal na opinião de Call, exceto que toda vez que a bola ia longe, Alex a trazia de volta com um estalar de dedos.
Apesar de terem prometido treinar magia, não praticaram muita coisa. Uma ou duas vezes saíram da casa e invocaram fogo, conjurando bolas em chamas que podiam ser facilmente manipuladas; ou utilizaram a magia da terra para extrair filamentos de ferro do solo. Uma vez, praticaram levitação de pedras pesadas, mas, quando uma voou perigosamente perto da cabeça de Aaron, a senhora Rajavi apareceu e os repreendeu por terem colocado o Makar em perigo. Tamara simplesmente revirou os olhos. Certa tarde, quando o ar estava cheio de abelhas, Call estava saindo da sala de café da manhã em direção à escadaria quando ouviu o senhor Rajavi em uma das outras salas. Sua voz estava baixa, mas, na medida em que Call avançou, escutou-o sendo interrompido por uma exclamação de Alex. O garoto não estava gritando, mas a fúria transparecia em sua voz.
— O que está tentando dizer, exatamente, senhor?
Call se aproximou, sem saber ao certo que tipo de conversa estava xeretando.
Ele disse a si mesmo que fazia aquilo para o caso de estarem falando sobre Aaron, mas, na verdade, estava mais preocupado em descobrir se conversavam sobre ele. Será que Alastair poderia ter dito mais alguma coisa para a senhora Rajavi ao telefone, algo que ela não houvesse contado a Call? Os magos já achavam que Alastair era louco, mas qualquer coisa que ele dissesse sobre Call tinha a vantagem de ser verdade.
— Gostamos muito de tê-lo como nosso convidado — dizia a senhora Rajavi. — Mas Kimiya ainda é jovem, e achamos que vocês estão andando rápido demais.
— Só estamos pedindo que deem um tempo durante o ano letivo — completou o senhor Rajavi.
Call respirou aliviado. Não estavam falando sobre Aaron, ou Call, ou nada importante. Apenas sobre namoro.
— E isso não tem nada a ver com o fato de que minha madrasta se opôs à sua última proposta na Assembleia, certo? — Alex parecia furioso.
Call concluiu que talvez fosse importante, afinal.
— Muito cuidado — alertou o senhor Rajavi. — Lembra daquela conversa que já tivemos a respeito?
— Que tal respeitar a vontade de sua filha? — pediu Alex, elevando a voz. — Kimiya? Diga a ele!
— Não posso acreditar que isso esteja acontecendo — disse Kimiya. — Só quero que todas as pessoas parem de gritar umas com as outras. — Após tantos anos discutindo com o pai, que culminaram na mais terrível briga na qual não conseguia pensar sem ficar nauseado, Call sabia que aquilo não ia acabar bem.
Respirando fundo, abriu a porta da sala e olhou para os quatro com a expressão mais confusa que conseguiu exibir.
— Ah, oi — disse Call. — Desculpe. Essa casa é tão grande que fico dando voltas.
— Callum. — A senhora Rajavi forçou um sorriso.
Kimiya parecia pronta para chorar. Alex parecia pronto para bater em alguém; Call reconheceu a expressão.
— Ah, oi, Alex. — Call tentou pensar em um bom motivo para arrastá-lo de lá antes que ele fizesse alguma coisa de que se arrependeria. — Pode vir comigo um segundo? Aaron queria, hum, perguntar uma coisa.
Alex voltou àquela expressão furiosa para Call, e, por um instante, o garoto não sabia se tinha tomado a decisão certa. Mas então Alex fez que sim com a cabeça e respondeu:
— Claro.
— Fico feliz que tenhamos tido essa conversa — disse o senhor Rajavi a ele.
— Eu também — rebateu Alex, entre dentes. Então ele saiu, forçando Call a se apressar para alcançá-lo.
Alex saiu para o gramado, em direção ao chafariz. Quando chegou ali, chutou com força e gritou uma coisa que Alastair tinha proibido Call de falar por toda a vida.
— Desculpe — disse Call. Ao longe, pôde ver Aaron e Tamara jogando gravetos para Devastação em um dos gramados. Felizmente estavam fora do alcance auditivo.
— Aaron não quer me ver, quer? — perguntou Alex.
— Não — respondeu Call. — Desculpe outra vez.
— Então por que me tirou de lá? — Alex não parecia irritado, apenas curioso.
— Nada de bom ia acontecer — declarou Call com firmeza. — Esse é o tipo de briga que ninguém ganha.
— Talvez — falou Alex lentamente. — Eles... me deixam tão irritado. Só se importam com as aparências. Como se eles fossem perfeitos e todas as outras pessoas fossem ruins.
Call franziu a testa.
— O que quer dizer?
Alex deu uma olhada para Aaron e diminuiu a voz ainda mais.
— Nada. Não quero dizer nada.
Alex claramente achou que Call não conseguiria entender. Seria inútil explicar que podia parecer que os pais de Tamara gostavam dele, mas que não gostariam se soubessem a verdade. Talvez nem gostassem de Aaron se ele não fosse o Makar. Mas Alex jamais acreditaria que uma criança feito Call pudesse ter segredos suficientes para que alguém se importasse, mesmo que ele tivesse.


Apenas alguns dias depois, Call teve de arrumar as roupas novas e se preparar para o retomo à escola. Ele se entupiu de linguiças e ovos no café da manhã, sabendo que levaria um tempo até ver comida que não era preparada à base de líquen novamente. Aaron e Tamara já estavam com os uniformes verdes do segundo ano do Magisterium, enquanto Alex e Kimiya usavam o branco do quarto ano e olhavam um para o outro. Call estava ali sentado com jeans e camiseta, sentindo-se deslocado. Alex lançou um olhar de viés para Call, como se quisesse dizer você também nunca vai ser bom o suficiente para eles.
O senhor Rajavi olhou para o relógio.
— Hora de irmos. Call?
— Oi? — Call se virou para o pai de Tamara.
— Cuide-se. — Havia alguma coisa na voz do senhor Rajavi que o deixou incerto sobre a real gentileza por trás daquelas palavras, mas talvez ele só estivesse se deixando atingir por Alex.
Todos foram para o vestíbulo, onde Stebbins, com sua careca brilhante, ajeitava as malas. Aaron e Call exibiam bolsas novas, enquanto Tamara e Kimiya traziam malas de couro de cobra combinando. Alex tinha uma mala com suas iniciais, ATS. Ele a pegou e foi para a porta.
Uma vez lá fora, Alex começou a andar pelo caminho da entrada. Call percebeu com um susto que havia um Mercedes branco esperando na entrada, o motor ligado. A madrasta de Alex viera.
Kimiya pigarrou. Stebbins parecia ansioso.
— Belo carro — elogiou Call.
— Cale a boca — murmurou Tamara. — Só porque você é obcecado por carros. — Ela lançou a Stebbins um estranho olhar de aviso, que Call não teve a chance de analisar. Havia muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo.
Kimiya estava correndo atrás de Alex, ignorando o fato de que todo mundo passara a olhar para os dois.
— O que houve? — perguntou ela ao alcançá-lo. — Achei que fosse de ônibus com a gente.
Ele parou no meio do caminho e se virou para ela.
— Estou mantendo a distância, exatamente como seu pai queria. Anastasia vai me levar ao Magisterium. Acabou o verão. Acabou a gente.
— Alex, não faça isso — disse ela, parecendo espantada com a raiva dele. — Podemos conversar sobre isso...
— Já conversamos o suficiente. — Ele soava como se estivesse engasgando de dor. — Você devia ter me defendido. Devia ter nos defendido. — Alex colocou a mochila nos ombros. — Mas não defendeu. — Ele se virou e seguiu até o carro.
— Alex! — gritou Kimiya. Mas ele não respondeu. Chegou ao Mercedes e entrou. O carro acelerou, levantando poeira.
— Kimiya! — Tamara começou a correr para a irmã, mas a mãe a pegou pelo pulso.
— Dê um momento a ela. Provavelmente Kimiya quer ficar sozinha.
O olhar da senhora Rajavi era luminoso e severo. Call decidiu que jamais se sentira tão desconfortável na vida. Ficou se lembrando de Alex dizendo “Kimiya, diga a eles”, e Kimiya não dizendo o que ele obviamente queria que ela dissesse.
Ela só podia ter medo dos pais. Call não sabia se podia culpá-la por isso.
Após alguns minutos, um ônibus escolar amarelo passou pelos portões da Arestas. Kimiya voltou para a casa, esfregando os olhos na manga e fungando, desconsolada. Pegou as malas sem olhar para ninguém.
Quando a mãe esticou o braço para colocar a mão em seu ombro, Kimiya afastou-a.
Call se ajoelhou para abrir o zíper da bolsa e se certificar de que tinha tudo de que precisava. Fechou novamente, mas não antes de a senhora Rajavi ver sua faca, brilhando sobre as roupas.
— É a Semíramis? — perguntou ela.
Call assentiu, fechando a bolsa apressadamente.
— Era de minha mãe.
— Eu sei. Lembro quando ela a fez. Ela era uma maga do metal muito talentosa. — A mãe de Tamara inclinou a cabeça para o lado. — Semíramis é o nome de uma rainha assíria que se transformou em uma pomba quando morreu. Callum também quer dizer pomba. Pombas representam paz, o que sua mãe mais queria na vida.
— Suponho que sim. — Call se sentiu ainda mais desconfortável por ter atraído a atenção da senhora Rajavi e também um pouco triste por aquela mulher saber mais sobre sua mãe que ele próprio.
A senhora Rajavi sorriu para ele, tirando uma mecha dos cabelos negros dos olhos.
— Ela devia amá-lo muito. E você deve sentir muita saudade.
Call mordeu a parte interna da bochecha, lembrando-se das palavras que a mãe marcou no gelo da caverna onde morreu.
Ela devia ter levado um tempão escolhendo seu nome. Provavelmente fez uma lista, discutiu alguns favoritos várias vezes com Alastair antes de se decidir por Callum. Callum, que significava pombas, paz e o fim da guerra. E então Constantine Madden matou o filho dela e roubou aquele pequeno corpo para si.
Call era o oposto de tudo que ela gostaria que fosse.
Call percebeu que se mordia com tanta intensidade que o interior da boca estava sangrando.
— Obrigado, senhora Rajavi. — Ele se forçou a dizer. Então, mal vendo para onde ia, embarcou no ônibus. Devastação o seguiu, deitando no corredor, de modo que todo mundo teve de passar por cima dele.
Havia alguns garotos já sentados. Aaron estava perto da frente. Ele chegou para o lado, abrindo espaço para Call se sentar ao seu lado e observar enquanto o senhor e a senhora Rajavi se despediam de Tamara.
Call pensou nas histórias de Tamara sobre os pais e a terceira irmã que se tornou uma das Devoradas. Ele se lembrou do quanto pareceram frios no Desafio. Será que estavam fingindo ser uma família perfeita por causa de Aaron, tentando agir como os pais imaginários que ele nunca teve?
Qualquer que fosse a impressão que pretendiam causar, Call não sabia dizer se haviam sido bem-sucedidos. Kimiya estava sentada no fundo do ônibus e chorou o caminho inteiro até o Magisterium.


Call se lembrou da primeira vez em que chegou ao Magisterium e como as cavernas pareceram estranhas e diferentes, brilhando com lodo luminescente, os rios subterrâneos que serpenteavam em margens cobertas de limo, e as estalactites brilhantes penduradas como presas no teto.
Agora se sentia em casa. Um grupo risonho e tagarela de alunos transbordava pelos portões. As pessoas corriam de um lado para o outro se abraçando. Jasper atravessou a sala para cumprimentar Tamara, apesar de, pensou Call, irritado, mal fazer duas semanas desde que ele a vira pela última vez. Todo mundo se reuniu em torno de Aaron, até alunos do quarto e quinto anos, com suas pulseiras de prata e ouro, dando tapinha nas costas e afagando seu cabelo.
Call sentiu uma mão em seu ombro. Era Alex, que tinha chegado ao Magisterium antes do ônibus lerdo em que vieram.
— Lembre-se. — Ele olhou para Aaron. — Independentemente do frisson que façam por causa dele, você continua sendo o melhor amigo.
— Certo. — Call ficou imaginando se Alex estava triste com o fim do namoro, mas sem transparecer.
Alguém estava correndo para Call em meio à multidão.
— Call! Call! — Era Célia, os selvagens cabelos louros domados em um rabo de cavalo. Ela parecia muito feliz em vê-lo, o rosto todo brilhando. Alex se afastou com um sorriso entretido.
— Seu verão foi bom? — perguntou Célia. — Soube que foi para a casa de Tamara. Foi mesmo incrível? Você foi à festa? Soube que foi uma festa e tanto. Viu os truques dos magos? Realmente tinham manticoras congeladas?
— Eram manticoras feitas de gelo... não manticoras de verdade congeladas. — Call ficou tonto tentando acompanhar a linha de pensamento de Célia. — Quero dizer, eu acho. Manticoras existem?
— Parece sensacional. Jasper me contou tudo.
— Jasper é um... — Call olhou para o rosto sorridente de Célia e resolveu não explorar o assunto Jasper. Célia gostava de todo mundo; parecia ser da natureza dela. — É. Então, por que você não foi?
— Ah. — Célia enrubesceu e desviou o olhar. — Não é nada. Meus pais não se dão muito bem com os da Tamara. Mas eu gosto dela — acrescentou a menina mais que depressa.
— Não teria problema se não gostasse — garantiu ele.
Ela pareceu confusa, e Call queria bater em si mesmo. O que ele sabia sobre o que seria problema ou não? Ele era a pessoa que mantinha uma lista mental sobre comportamentos potencialmente ruins. Tudo bem se ela não gostasse de Tamara? Tamara não era sua melhor amiga, assim como Aaron? Devastação de repente latiu e colocou as patas na camisa de Célia, interrompendo o assunto. Ela riu.
— Callum Hunt! — Mestre Rufus abria caminho pela multidão até eles. — Mantenha seu lobo Dominado pelo Caos em silêncio, por favor. — O mago lançou um olhar para Devastação, que deslizou pelo o chão, parecendo receber uma punição. — Tamara, Aaron, Call, me acompanhem até seus aposentos.
Aaron sorriu para Call enquanto levantavam as respectivas bolsas para os respectivos ombros e seguiam Mestre Rufus pelos túneis. Sabiam o caminho, e Call descobriu que não se sentia mais nervoso com as estalactites gotejantes e o frio silencioso das cavernas.
Tamara observou uma piscina onde peixes claros nadavam para frente e para trás. Call teve a impressão de ter visto uma forma cristalina correndo na parede atrás dele. Seria Warren? Ou outro elemental? Ele franziu o rosto, lembrando-se do pequeno lagarto.
Finalmente, estavam diante de seus velhos quartos. Mestre Rufus saiu da frente para permitir que Tamara acenasse sua nova pulseira de cobre na frente da porta, que se destrancou instantaneamente, permitindo que entrassem nos aposentos.
Os quartos estavam exatamente como quando chegaram para o Ano de Ferro. O mesmo lustre esculpido com desenhos de chama, o mesmo semicírculo de escrivaninhas, o mesmo par de sofás peludos, um diante do outro, e a mesma enorme lareira. Símbolos marcados em mica e quartzo brilhavam quando a luz os atingia, e três portas adornadas com seus nomes levavam aos quartos.
Call soltou um longo suspiro e se jogou em um dos sofás.
— O jantar será servido no Refeitório em meia hora. Depois vocês devem guardar suas coisas e deitar cedo. Os alunos do primeiro ano chegaram ontem. Amanhã as aulas começam — informou Mestre Rufus, lançando um olhar demorado a cada um deles. — Alguns dizem que o Ano de Cobre do aprendizado é o mais fatigante. Sabem por quê?
Os três se entreolharam. Call não fazia ideia de qual seria a resposta desejada por Mestre Rufus.
O professor meneou a cabeça para o silêncio deles, claramente satisfeito.
— Porque agora que já sabem o básico, vamos sair em missões. As aulas aqui serão dedicadas a deixarem todos em dia com matemática e ciência, assim como alguns novos truques, mas o verdadeiro aprendizado vai ser no campo. Começaremos essa semana com algumas experiências.
Call não fazia ideia do que concluir sobre o novo currículo, mas o fato de que Mestre Rufus estava feliz com isso só podia ser um mau sinal. Sair das salas claustrofóbicas e úmidas do Magisterium parecia legal, mas Call já se enganara outras vezes. Durante um de seus “exercícios externos”, ele quase se afogou sob uma pilha de troncos, e justo Jasper teve de puxá-lo para a superfície.
— Arrumem as coisas — ordenou Mestre Rufus com o habitual aceno régio de cabeça e saindo da sala.
Tamara arrastou a mala para o quarto dela.
— Call, é melhor vestir o uniforme antes do jantar. Devem ter deixado algum para você no seu quarto, como no ano passado. Ninguém pode ir ao Refeitório de jeans e uma camiseta que diz o DOUTOR MACACO SABE O QUE VOCÊ FEZ.
— O que isso quer dizer, aliás? — Aaron quis saber.
Call deu de ombros.
— Não sei. Comprei num bazar de caridade. — Ele se espreguiçou. — Talvez eu tire um cochilo.
— Não estou cansado. Vou para a biblioteca. — Aaron abandonou a bolsa na sala e seguiu em direção à porta.
— Você quer descobrir sobre o Alkahest — supôs Call. Claramente era alguma espécie de arma, mas nenhum deles tinha conseguido concluir exatamente o que era ou o que fazia. Ninguém parecia querer responder nenhuma pergunta a respeito, apenas usavam os termos mais vagos possíveis. E a biblioteca da casa dos Rajavi também não ajudou muito.
Call detestava admitir, mas ficou aliviado. Quanto mais falavam sobre o Alkahest, o Inimigo e seus possíveis planos, mais Call tinha a impressão de que ia ser pego.
— Preciso proteger as pessoas — explicou Aaron. — E não posso fazer isso sem conhecer qual é a ameaça.
Call suspirou.
— Podemos procurar alguma pista depois de desfazermos a mala?
— Você não precisa ir — disse Aaron. — Não vou correr nenhum perigo na biblioteca.
— Não seja idiota — retrucou Tamara. — Claro que nós vamos. Call só precisa vestir o uniforme.
— É — concordou Call, com entusiasmo obviamente forçado, dirigindo-se ao quarto e jogando a bolsa na cama.
Teve um pouco de dificuldade para calçar as grandes botas que usavam no Magisterium a fim de se proteger contra as pedras e a água — e, ocasionalmente, lava —, mas concluiu que logo se acostumaria a elas de novo.
Quando voltou para a sala compartilhada, Aaron e Tamara estavam empoleirados no encosto do sofá, compartilhando um saco de Ruffles. Tamara ofereceu uma batata a ele.
Call pegou o saco, enfiou um punhado de batatas na boca e foi para a porta. Aaron e Tamara o seguiram, e Devastação correu atrás deles, latindo. Quando saíram para o corredor, Devastação estava na frente.
— Biblioteca! — informou Call ao lobo. — Biblioteca, Devastação!
No caminho, Call jurou que seria útil. Afinal, o que fazia dos Suseranos do Mal pessoas ruins era a forma como agiam, não seus pensamentos secretos. E não havia nenhum Suserano do Mal que ajudasse os outros.
Era um alívio enorme poder caminhar pelos corredores do Magisterium abertamente com Devastação, em vez de precisar escondê-lo no quarto. Os outros alunos olhavam com uma mistura de respeito, medo e admiração quando viam o lobo Dominado pelo Caos à frente deles.
Claro que também se impressionavam com Aaron e a pedra preta em sua pulseira. Mas Devastação pertencia a Call.
Não que alguém achasse isso. O lobo de Aaron, ouviu os alunos sussurrando uns para os outros enquanto passavam. Olha o tamanho! Aaron deve ser muito poderoso para conseguir controlá-lo.
— Você se esqueceu de sua pulseira. — Aaron abriu um sorriso de lado, colocando a nova pulseira de cobre em um dos pulsos de Call. — De novo. Não me faça ter de lembrá-lo sempre.
Call revirou os olhos, fechando a pulseira. A sensação era confortável. Familiar.
Chegaram à biblioteca, que tinha a forma do interior de uma concha: uma sala em espiral que se estreitava na medida em que seguia até o nível mais baixo, onde havia longas mesas. Como as aulas ainda não tinham começado, o local estava vazio.
— Por onde começamos? — pensou Call em voz alta, olhando para a quantidade de livros que se espalhava por todos os lados.
— Bem, não sou nenhuma especialista em bibliotecas, mas A de Alkahest me parece uma boa aposta. — Tamara, avançou na frente deles. Ela obviamente estava animada por ter voltado à escola.
A biblioteca se dividia em seções e subseções. Eventualmente encontraram um livro chamado Alkahests e outros índices da magia em uma prateleira alta, o que exigiu que Aaron subisse em uma cadeira para alcançá-la.
Trouxeram o livro para uma das mesas grandes, e Aaron o abriu com cuidado. A lombada estava empoeirada.
Call tentou ler sobre o ombro de Aaron, captando algumas palavras. Um Alkahest, o livro dizia, era um solvente universal, uma substância que dissolvia todas as coisas, desde ouro e diamantes até a magia do caos. Enquanto Call franzia a testa, sem saber ao certo o que aquilo tinha a ver com o que escutaram, Aaron virou a página e eles viram um desenho do Alkahest, que não era uma substância, mas uma luva enorme — uma manopla — feita de cobre.
Composta por uma combinação de forças elementares, a manopla era uma arma criada para um propósito — extrair do Makar a habilidade de controlar o caos. Em vez de controlar o vazio, o Makar seria destruído pelo mesmo. A manopla podia ser feita por qualquer mago, mas precisava do coração vivo de uma criatura dominada pelo caos para lhe dar poder.
Call respirou fundo. Tinha visto a mesma manopla no desenho na horripilante sala de ritual montada na adega do pai. O Alkahest era a razão pela qual Alastair queria cortar o coração de Devastação. Alastair devia ter tentado roubar a manopla da escola.
A cabeça de Call voou. Ele agarrou a ponta da mesa para se manter de pé.
Aaron virou a página.
Havia uma foto em preto e branco da manopla em uma caixa de vidro, provavelmente em seu esconderijo na escola. Uma breve história era descrita em uma barra lateral ao lado da foto. O artefato havia sido criado por um grupo de pesquisadores que se autointitulavam a Ordem da Desordem. Mestre Joseph e Constantine Madden já tinham feito parte da equipe, na esperança de alcançar a profundidade da magia do caos e encontrar uma forma de permitir que mais magos acessassem o vazio. Quando Constantine Madden se dissociou e se tomou o Inimigo da Morte, a Ordem teve a esperança de que o Alkahest pudesse contê-lo.
Aparentemente, o Alkahest caiu nas mãos do Inimigo perto do fim da guerra, permitindo que seus capangas matassem Verity Torres no campo de batalha enquanto Constantine Madden conduzia mais de suas forças para a montanha, em La Rinconada, para o Massacre Gelado.
O livro dizia que a Ordem da Desordem ainda existia, pesquisando animais Dominados pelo Caos, apesar de ninguém saber ao certo quem passara a ser o líder da organização.
— Os magos vão descobrir quem tentou pegar o Alkahest — concluiu Tamara. — E agora ele está em um local mais seguro.
— Se alguém do pessoal de Constantine puser as mãos nisso, a próxima vez que eu vir a luva será quando estiver apontada para mim — bufou Aaron, preocupado. — Vamos ver se esse livro diz alguma coisa sobre como destruir o Alkahest.
Call queria dizer alguma coisa, tranquilizar Aaron, falar que não eram os capangas do Inimigo que estavam atrás da manopla; era só Alastair. Mas antes que ele pudesse decidir, Mestre Rufus apareceu, descendo as escadas da biblioteca. Seus três aprendizes se viraram, olhando, culpados, para ele, apesar de não haver nenhum motivo para tanto. Estavam em uma biblioteca, pesquisando. Rufus ficaria feliz da vida com isso.
Ele não parecia feliz, mas, sim, preocupado. Espiando sobre o ombro de Tamara, ele franziu o rosto e disse:
— Aaron, o Alkahest está trancado. A Assembleia o levou para um cofre fabricado por magos do metal durante a última guerra. Está no subterrâneo, embaixo de um lugar que você já visitou, e está completamente seguro.
— Eu só queria saber mais sobre o assunto — explicou Aaron.
— Entendo. — Mestre Rufus cruzou os braços sobre o peito. — Bem, não estou aqui para interromper os estudos de vocês. Estou aqui para falar com Callum.
— Comigo? — perguntou Call.
— Com você. — Mestre Rufus se afastou alguns passos dos outros, e Call o seguiu, relutante.
— Devastação, fiquei aí — murmurou Call. Ele não sabia ao certo o que o mago ia lhe dizer, mas dava para perceber que não era coisa boa.
— Seu pai está aqui para vê-lo — anunciou o Mestre.
— O quê? — Call não devia parecer chocado, mas era exatamente assim que se sentia. — Achei que pais não pudessem vir ao Magisterium.
— Não podem. — Mestre Rufus olhou para Call, como se estivesse tentando discernir a resposta para alguma pergunta. — Mas o Magisterium também não tem o hábito de sequestrar alunos. Presumo que você não tenha chegado aqui pelo método tradicional. Alastair nos informou que não conversaram antes de você sair de casa. Ele disse que você fugiu.
— Ele não me quer aqui — disse Call. — Ele me quer longe do Magisterium.
— Conforme você sabe — Rufus lembrou-lhe gentilmente —, isso não é possível para um mago que passou pelo Primeiro Portal. Você precisa completar seu treinamento.
— Eu quero ficar. Não quero voltar com ele. Não preciso, preciso?
— Não. — Entretanto, pela forma como Mestre Rufus pronunciou a palavra, a resposta não pareceu tão definitiva. — Mas, como eu disse, não temos a intenção de roubar crianças dos pais. Achei que ele já tivesse se acostumado à ideia de você ser meu aprendiz.
— Na verdade, não — retrucou Call.
— Eu vou com você se quiser — ofereceu Mestre Rufus. — Quando você for falar com ele.
— Não quero falar com ele — decidiu Call. Parte dele queria encontrar o pai desesperadamente, queria se certificar de que ele estava bem após o horror de vê-lo caído contra uma parede. Mas ele sabia que não podia. Seria impossível os dois terem uma conversa que não envolvesse as palavras Constantine, Alkahest ou me matar.
Havia segredos demais que as pessoas podiam ouvir.
— Quero que peça para ele ir embora — disse Call ao professor.
Mestre Rufus olhou longamente para Call. Em seguida suspirou.
— Tudo bem. Farei o que está me pedindo.
— Você não parece querer fazer isso.
— Alastair já foi meu aluno um dia. Ainda tenho grande estima por ele. Torci para que o fato de você frequentar esta escola pudesse suavizar o ódio que ele tem dos magos e do Magisterium.
Call não conseguia pensar em nenhuma palavra para rebater o discurso do professor, por isso simplesmente balançou a cabeça.
— Por favor, faça com que ele vá embora — sussurrou.
Mestre Rufus assentiu e se virou para sair da biblioteca. Call olhou novamente para Aaron e Tamara. Ambos estavam inclinados sobre a mesa, as faces tingidas de verde pelas lâmpadas. Eles o encaravam, preocupados. Pensou em ir até eles, mas não estava com vontade de lidar com as perguntas que viriam. Em vez disso, virou e correu para fora da biblioteca o mais depressa que sua perna permitiu.

6 comentários:

  1. Não sequestram dos pais o 1º livro foi o q aquilo ali ?

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    1. katherine gregianin26 de janeiro de 2017 13:01

      é né forma engraçada de ver que o mestre ruffus tem

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    2. No primeiro livro era iperativo que as crianças fossem treinadas pois seus poderes estavam fora de controle e eles podiam machucar alguém. agora a Magia só sai deles se eles quiserem então podem ficar em casa. Como o Alistair já disse "você já aprendeu o suficiente pra não ter que voltar lá"

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  2. Era pra ele ter falado com o pai
    Ass: Milly

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  3. Os pais de Call eram magos de metal talentosos. Imagine se ele puxá-los nisso? O ferreiro mágico Call, o hefesto do magisterium.
    Só faltando fazer um autômato de um lobo.

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Boa leitura :)