16 de janeiro de 2017

Capítulo cinco


Call encarou o paredão de rocha. À esquerda e à direita, havia apenas floresta, porém, à sua frente, o menino vislumbrava as imensas portas duplas. Elas eram de um tom cinzento desgastado pelo tempo, com dobradiças de ferro em forma de redemoinhos que se curvavam, encaixando-se umas dentro das outras. Call imaginou que, a distância ou sem a luz dos faróis do ônibus, eles deveriam ficar praticamente invisíveis.
Encravado na rocha sobre as portas havia um símbolo que ele desconhecia:


Logo abaixo dele havia as seguintes palavras:
O fogo quer queimar. A água quer fluir. O ar quer se erguer. A terra quer unir. O caos quer devorar.
Devorar. A palavra disparou um arrepio que atravessou o corpo de Call. “Essa é sua última chance para fugir”, o menino pensou.
Mas ele não era muito rápido, e, de qualquer maneira, não havia para onde correr.
Os outros garotos pegaram suas coisas e estavam parados diante do paredão de rocha assim como Call. O Mestre Rufus foi até a porta e todos ficaram em silêncio. O Mestre North deu um passo à frente:
— Vocês estão prestes a entrar nos corredores do Magisterium. Para alguns, será a realização de um sonho. Para outros, esperamos que seja o início de um. Para todos, digo que o Magisterium existe para sua própria segurança. Vocês possuem um grande poder, e, sem treinamento, esse poder é perigoso. Aqui, nós os ensinaremos a controlá-lo e também os instruiremos sobre as histórias de magos como vocês que datam desde o passado mais remoto. Cada um de vocês possui um destino único, diferente do caminho convencional que trilhariam longe daqui, um destino que encontrarão do outro lado destas paredes. Vocês já devem ter percebido isso quando vislumbraram os primeiros traços de seus poderes. Porém, enquanto estão aqui, diante desta montanha, imagino que pelo menos alguns de vocês devam estar pensando onde foi que se meteram.
Alguns dos alunos riram, se reconhecendo nas palavras do Mestre North.
— Há muitos anos, bem no início dos tempos, os primeiros magos pensaram a mesma coisa. Intrigados pelos ensinamentos dos alquimistas, em particular Paracelso, eles tentaram explorar a magia elemental. Esses magos tiveram um sucesso limitado até que um alquimista se deu conta de que seu jovem filho era capaz de realizar facilmente os mesmos exercícios que ele tinha de se esforçar muito para completar. Eles perceberam que a magia podia ser realizada por aqueles que tinham um poder inato, e os mais jovens obtinham melhores resultados. Depois dessa descoberta, os magos encontraram novos alunos para quem poderiam ensinar e com quem poderiam aprender, iniciando uma jornada por toda a Europa em busca de crianças com poderes. Muito poucas o possuíam, talvez uma em vinte e cinco mil, porém os magos reuniram aquelas que tinham potencial e deram início à primeira escola de magia. Ao longo do tempo, eles ouviram histórias de meninos e meninas sem treinamento que colocaram fogo em casas, se afogaram em tempestades, foram levados por tornados ou tragados por sumidouros. Após o treinamento, os magos aprenderam a andar sob a lava e sair ilesos, explorar as partes mais profundas do oceano sem precisar de um tanque de oxigênio e até mesmo voar.
Algo dentro de Call saltou ao ouvir as palavras do Mestre North. Ele se lembrava de ser muito pequeno e pedir ao pai para balançá-lo no ar, mas o pai não fez o que ele queria e lhe disse para parar de fingir. Será que ele podia mesmo aprender a voar?
“Se você pudesse voar”, sussurrou uma pequena e ameaçadora parte do seu cérebro, “não importaria tanto o fato de não poder correr”.
— Aqui vocês encontrarão os elementais, criaturas de grande beleza, mas que também representam um grande perigo. Eles existem em nosso mundo desde a aurora dos tempos. Vocês moldarão a terra, o ar, a água e o fogo, fazendo com que se inclinem diante de sua vontade. Vocês estudarão nosso passado à medida que se tornam nosso futuro. Vocês descobrirão o que o seu eu comum jamais teria o privilégio de ver. Vocês aprenderão coisas sensacionais e farão outras coisas ainda mais incríveis. Bem-vindos ao Magisterium.
Os alunos aplaudiram. Call olhou ao redor. Todos os olhos brilhavam. E, por mais que lutasse contra aquilo, ele tinha certeza de que a expressão em seu rosto era a mesma de seus colegas.
O Mestre Rufus deu um passo à frente.
— Amanhã vocês verão mais da escola, mas, esta noite, sigam seus mestres e se acomodem em seus quartos. Por favor, permaneçam juntos enquanto eles os conduzem pelo Magisterium. O sistema de túneis é complexo, e, até que o conheçam bem, será fácil se perderem.
“Perder-se nos túneis”, Call pensou. Era exatamente o que ele temia desde a primeira vez em que ouvira falar daquele lugar. Ele tremeu ao se lembrar do pesadelo em que ficava preso debaixo da terra. Algumas de suas dúvidas rastejaram de volta à sua mente. Os avisos do pai ecoavam em sua cabeça.
“Mas eles vão me ensinar a voar”, ele pensou, como se discutisse com alguém que não estava ali.
O Mestre Rufus ergueu uma de suas mãos grandes, com os dedos espalmados, e disse algo em voz baixa. O metal de seu bracelete começou a brilhar, como se tivesse se tornado uma brasa branca e incandescente. Um momento depois, com um rangido agudo que se assemelhava a um grito, as portas começaram a se abrir.
Uma luz escapou dentre elas, e os alunos começaram a andar em sua direção, soltando suspiros e exclamações. Call entreouviu vários “Irado!” e “Maneiro!”.
Um minuto depois, ele teve de admitir, mesmo a contragosto, que aquilo era mesmo meio irado.
As portas se abriam para um vasto hall de entrada, maior que qualquer espaço interno que Call poderia imaginar. Daria para colocar umas três quadras de basquete ali e ainda sobraria lugar. O chão era feito da mesma mica brilhante que ele vira na ilusão no hangar, porém as paredes eram cobertas de calcário, o que dava a impressão de que milhares de velas derretidas tiveram sua cera derramada por toda a superfície. Estalagmites se erguiam por todas as extremidades da sala e estalactites pendiam tão próximas que quase tocavam umas nas outras em alguns lugares. Um rio, de um azul brilhante que mais lembrava uma safira luminosa, cortava o salão. A água fluía através de um arco em uma das paredes e saía por outro.
Uma ponte encravada na rocha dava acesso ao outro lado. Alguns padrões que Call ainda não era capaz de reconhecer foram encravados nos lados da ponte. De qualquer forma, aquelas inscrições lembravam as marcas na adaga que o pai atirara para ele.
Call parou quando todos os aprendizes chegaram ao mesmo tempo até onde ele estava, formando um ponto no meio da sala. A perna estava rígida devido à longa viagem de ônibus, e ele tinha consciência de que se moveria mais devagar do que nunca. Call torcia para que a caminhada até o lugar onde eles dormiriam não fosse muito longa.
As imensas portas se fecharam atrás deles com um estrondo que fez Call dar um pulo. Ele se virou para trás bem a tempo de ver uma fileira de estalactites afiadas cair do teto, uma após a outra, e, com um baque surdo, permanecer no chão, bloqueando as portas.
Drew, que estava atrás de Call, engoliu em seco de forma bastante audível.
— Mas... como vamos sair daqui?
— Não vamos — Call informou, feliz por finalmente ter alguma resposta. — Nunca mais sairemos daqui.
Drew se afastou, receoso. Call pensou que não poderia culpá-lo, mas já estava ficando um pouco cansado de ser tratado como esquisito apenas por dizer o óbvio.
Uma mão puxou uma das mangas de sua camiseta.
— Vamos. — Era Aaron.
Call se virou e viu que o Mestre Rufus e Tamara já tinham começado a andar.
Tamara tinha um gingado no modo como caminhava que não existia antes, quando ela estava sob os olhares atentos dos pais. Resmungando baixinho, Call seguiu os outros três por um dos arcos e entrou em um dos túneis do Magisterium.
O Mestre Rufus esticou uma das mãos e uma chama surgiu em sua palma, iluminando o caminho como uma tocha. Call se lembrou do fogo sobre a água no teste final. Ele imaginou o que deveria ter sido feito para realmente falhar, falhar de uma maneira que não significasse estar ali.
Eles andaram em fila indiana por um corredor estreito que cheirava levemente a ácido sulfúrico e dava em outra sala com uma série de lagos. Dentro de um deles, a lama borbulhava, e, em outros, vários peixes cegos se dispersaram ao som dos passos dos humanos.
Call quis fazer uma piada sobre o fato de peixes cegos Dominados pelo Caos serem indetectáveis caso se tornassem servos do Inimigo da Morte, porque, bem, eles não tinham olhos. Mesmo assim, conseguiu se conter, imaginando os peixes espionando os alunos.
Em seguida, eles chegaram a uma caverna com cinco portas dispostas na parede mais afastada. A primeira era feita de ferro; a segunda, de cobre; a terceira, de bronze; a quarta, de prata. A última era de ouro resplandecente. Todas refletiam o fogo na mão do Mestre Rufus, fazendo com que as chamas dançassem de forma sinistra no espelho formado por suas superfícies polidas.
Lá no alto, Call pôde ver o lampejo de algo que brilhava, algo com uma cauda que se moveu rapidamente para as sombras e desapareceu.
O Mestre Rufus não os levou para o interior daquela caverna nem entrou em qualquer uma das portas, mas continuou andando até que chegaram a uma grande sala redonda, de teto alto e com cinco passagens arqueadas que levavam a cinco direções diferentes.
No teto, Call vislumbrou um grupo de lagartos grandes com gemas em suas costas. Algumas pareciam queimar, envolvidas por chamas azuis.
— Elementais — Tamara arfou.
— Por aqui. — Aquelas eram as primeiras palavras que o Mestre Rufus pronunciava. Sua voz sonora ecoava pelo espaço vazio.
Call se perguntou onde estavam todos os outros magos. Talvez já fosse mais tarde do que ele pensava e eles estivessem dormindo, no entanto a ausência de outras pessoas nas salas pelas quais o grupo passara fazia parecer que os quatro estavam completamente sozinhos ali, debaixo da terra.
Por fim, o Mestre Rufus parou diante de uma grande porta quadrada com um painel de metal no lugar da maçaneta. Ele ergueu um dos braços e o bracelete brilhou novamente, desta vez apenas um lampejo rápido.
Ouviu-se um clique dentro da porta e ela se abriu.
— Nós podemos fazer isso? — perguntou Aaron, assombrado.
O Mestre Rufus sorriu para ele.
— Sim, com toda a certeza vocês poderão entrar em seus próprios quartos com seus braceletes, apesar de não terem permissão para adentrar todos os lugares. Venham conhecer seus quartos, onde passarão o Ano de Ferro de seu aprendizado no Magisterium.
— Ano de Ferro? — Call repetiu, se lembrando das portas.
O Mestre Rufus entrou, estendendo os braços ao redor do que parecia uma combinação de sala de estar com área de estudos. As paredes da caverna eram altas e arqueadas, formando um domo de cujo centro pendia um imenso castiçal de cobre com uma dúzia de braços curvados, cada um deles entalhado com desenhos de chamas e sustentando uma tocha acesa. No chão de pedra havia três carteiras agrupadas, formando vagamente um círculo, e dois sofás felpudos colocados um de frente para o outro diante de uma lareira grande o suficiente para assar uma vaca. Não apenas uma vaca, mas um pônei.
Call se lembrou de Drew e escondeu um sorriso torto.
— Isso é incrível — disse Tamara enquanto rodopiava para conferir todos os detalhes.
Por um momento, ela pareceu uma garota normal e não uma maga vinda de uma família ancestral, detentora de poderes mágicos.
Veias brilhantes de quartzo e mica corriam pelas paredes de pedra. Quando a tocha as atingia, elas refletiam um modelo de cinco símbolos iguais aos da entrada: um triângulo, um círculo, três linhas onduladas, uma flecha que apontava para cima e uma espiral.
— Fogo, terra, água, ar e caos — disse Aaron.
Ele devia ter prestado atenção às explicações do Mestre Rockmaple no ônibus.
— Muito bem — elogiou o Mestre Rufus.
— Por que eles estão combinados assim? — perguntou Call, apontando para as veias.
— Essa combinação dos símbolos forma um quincunce. E, agora, isto é para vocês. — Ele ergueu três braceletes de uma mesa que pareceu ser encravada a partir de um único pedaço de rocha. Tratava-se de faixas grossas de couro com uma tira de ferro presa no punho, fechada por uma fivela feita do mesmo metal.
Tamara pegou a dela como se fosse algum tipo de objeto sagrado.
— Uau.
— Eles são mágicos? — Call examinou seu bracelete, cético.
— Esses braceletes marcam seu progresso no Magisterium. Caso sejam aprovados no teste que farão no final do ano, ganharão um metal diferente. Ferro, depois cobre, bronze, prata e, finalmente, ouro. Quando completarem o Ano de Ouro, não serão mais considerados aprendizes, mas magos artífices, prontos para entrar no Collegium. Em resposta à sua pergunta, Call, sim, eles são mágicos. Foram feitos por um ferreiro e servem como chaves, permitindo que vocês tenham acesso às salas de aula localizadas nos túneis. Vocês ganharão metais e pedras adicionais para acrescentar a seus braceletes, que significarão suas conquistas. Quando se formarem, esses braceletes refletirão o tempo que terão passado aqui.
O Mestre Rufus foi até uma pequena cozinha. Em cima de um fogão de aparência estranha, com pedras circulares no lugar dos queimadores, havia um armário de onde ele tirou três pratos de madeira vazios.
— Em geral, achamos melhor deixar que os aprendizes se acomodem em seus quartos antes de serem levados para o Refeitório, que é um local bastante movimentado. Por isso, vocês comerão aqui esta noite.
— Mas estes pratos estão vazios — Call observou.
Rufus procurou alguma coisa no bolso e tirou de lá um pacote de mortadela e um naco de pão, duas coisas que com toda a certeza não cabiam ali dentro.
— Sim, eles estão vazios, mas não por muito tempo. — Ele abriu a embalagem da mortadela, fez três sanduíches, colocou um em cada prato e depois os cortou em duas metades. — Agora imaginem sua comida preferida.
Call olhou do Mestre Rufus para Tamara e Aaron. Será que aquilo era algum tipo de magia que esperavam que eles fizessem? Será que o Mestre Rufus sugeria que, se eles imaginassem alguma coisa deliciosa enquanto comiam o sanduíche, a mortadela teria um gosto melhor? Será que ele podia ler a mente de Call? E se os magos estivessem monitorando seus pensamentos o tempo todo e...
— Call — o Mestre Rufus o chamou, fazendo com que pulasse de susto. — Há algo errado?
— Você pode ler os meus pensamentos? — Call deixou escapar.
Mestre Rufus piscou para ele uma vez, devagar, como um dos lagartos sinistros do teto do Magisterium.
— Tamara, eu posso ler a mente de Call?
— Os magos só podem ler a mente de alguém se a pessoa projetar seus pensamentos — ela respondeu.
O Mestre Rufus balançou a cabeça, concordando.
— E o que você acha que Tamara quer dizer com projetar, Aaron?
— Pensar com muita força? — ele tentou depois de pensar por um momento.
— Sim — disse o Mestre Rufus. — Então, por favor, pensem com bastante força.
Call imaginou seus pratos preferidos. As imagens passaram repetidas vezes por sua mente. Porém, ele sempre era distraído por alguma outra coisa, coisas que seriam engraçadas de ver. Como uma torta preparada dentro de um bolo. Ou trinta e sete bolinhos empilhados em forma de pirâmide.
Finalmente, o Mestre Rufus ergueu as mãos e Call não conseguiu mais pensar no que quer que fosse. O primeiro sanduíche começou a se expandir, filetes de mortadela saíram de dentro do pão e formaram espirais ao redor do prato. Um cheiro delicioso tomou conta da sala.
Aaron se inclinou sobre a refeição, claramente faminto apesar das batatas fritas que comera no ônibus. A mortadela se transformou em um prato, uma tigela e uma garrafa — a tigela estava cheia de macarrão com queijo cobertos por migalhas de pão, fumegante como se tivesse acabado de sair do forno; o prato continha um brownie coberto por uma bola de sorvete; e dentro da garrafa havia um líquido cor de âmbar que Call supôs ser suco de maçã.
— Uau — Aaron comentou, impressionado. — É exatamente o que eu imaginei. Mas isto é mesmo real?
O Mestre Rufus assentiu.
— Tão real quanto o sanduíche. Lembre-se do Quarto Princípio da Magia: “Você pode mudar a forma de algo, mas não sua natureza essencial.” Já que não alterei a natureza da comida, ela foi de fato transformada. Sua vez, Tamara.
Call se perguntou se aquilo significava que o macarrão com queijo de Aaron teria gosto de mortadela. Mas pelo menos aquilo mostrara que Call não era o único que não se lembrava dos princípios da magia.
Tamara deu um passo à frente para pegar sua bandeja à medida que a comida se transformava em um grande prato de sushi com uma maçaroca verde em um dos cantos e uma tigela de molho de soja em outro. Para completar a refeição, ainda havia três motis redondos e cor-de-rosa. Para beber, chá verde quente, e ela pareceu estar realmente feliz com aquilo.
E então foi a vez de Call. Ele olhou para sua bandeja, cético, sem muita convicção do que encontraria. Porém, lá estava sua refeição favorita: pedaços de frango empanado acompanhados por um potinho de molho ranch, uma tigela de espaguete com molho de tomate e, de sobremesa, um sanduíche de manteiga de amendoim e cereal. Em sua caneca havia chocolate quente com chantili e marshmallows coloridos.
O Mestre Rufus parecia satisfeito.
— Agora vou deixá-los para que se acomodem. Logo alguém virá trazer os pertences de vocês...
— Posso ligar para o meu pai? — Call interrompeu. — Quero dizer, tem algum telefone que eu possa usar? Eu não tenho celular.
Houve um momento de silêncio e então o Mestre Rufus explicou de uma forma mais gentil do que Call esperava:
— Telefones celulares não funcionam no Magisterium, Callum. Estamos muito abaixo do nível do mar para isso. E também não temos telefones fixos. Utilizamos os elementos para nos comunicar. Sugiro que você dê a Alastair algum tempo para que ele se acalme, e então você e eu entraremos em contato com ele.
Call engoliu qualquer tipo de protesto.
Aquela não fora uma negativa cruel, porém havia sido uma resposta definitiva.
— Agora — Mestre Rufus continuou —, espero vocês acordados e vestidos às nove, amanhã. Além disso, conto que estejam atentos e prontos para aprender. Temos muito trabalho a realizar juntos e eu sentiria muito se vocês não fossem capazes de realizar as promessas que mostraram no Desafio.
Call presumiu que ele se referia a Aaron e a Tamara, já que cumprir a promessa que ele demonstrara mais cedo significaria colocar fogo no rio subterrâneo que atravessava a escola.
Quando o Mestre Rufus saiu, eles se sentaram nos bancos formados por estalagmites ao redor da mesa de pedra lisa e comeram juntos.
— E se você colocasse molho ranch no seu espaguete? — perguntou Tamara, olhando para o prato de Call com os pauzinhos parados no ar.
— Ficaria ainda mais delicioso — disse Call.
— Que nojo! — Tamara pincelou o wasabi no molho de soja sem derrubar uma única gota de molho fora da tigela.
— Da onde você acha que eles tiraram peixe fresco para o seu sushi, já que estamos em uma caverna? — Call mordeu um pedaço de frango. — Aposto que eles afundaram uma rede em um desses lagos subterrâneos e pegaram o que quer que tenha aparecido. Delícia, hein?
— Pessoal — interveio Aaron com a voz repleta de sofrimento. — Vocês estão me fazendo desistir de comer meu macarrão.
— Delícia! — disse Call novamente, enquanto fechava os olhos e balançava a cabeça para a frente e para trás como se fosse um peixe subterrâneo. Tamara pegou sua bandeja e foi até o sofá, onde se sentou de costas para Call e voltou a comer.
Eles continuaram a refeição em silêncio.
Apesar de mal ter comido naquele dia, Call não conseguiu terminar seu prato. Ele imaginou o pai em casa, comendo à mesa da cozinha abarrotada de tralhas. Sentia saudade de tudo aquilo, mais do que já sentira de qualquer outra coisa em sua vida.
Call afastou a bandeja e se levantou.
— Vou para a cama. Qual delas é a minha?
Aaron se esticou no banco e inspecionou rapidamente o cômodo.
— Nossos nomes estão nas portas.
— Ah — respondeu Call, sentindo-se um pouco estranho e idiota. O nome dele estava lá, escrito nas veias do quartzo. Callum Hunt.
Ele atravessou a porta. Era um quarto luxuoso, muito maior que o da casa de Call.
Um tapete grosso com padrões que repetiam os símbolos dos quatro elementos cobria o chão de pedra. A mobília parecia ter sido feita de madeira petrificada que resplandecia com uma espécie de brilho dourado. A cama era imensa, com pesados cobertores azuis e grandes travesseiros. Havia um armário e uma cômoda, mas, como Call não tinha roupa para trocar e não havia bagagem a ser entregue, ele se jogou na cama e cobriu o rosto com um travesseiro. Aquilo fez com que se sentisse um pouco melhor. Lá fora, na sala compartilhada, ele ouvia as risadinhas de Tamara e Aaron. Os dois nunca haviam conversado daquela maneira antes. Eles devem ter esperado que ele saísse.
Alguma coisa o cutucou no tronco. Ele tinha se esquecido da adaga que o pai lhe dera. Call tirou a arma do cinto e a examinou sob a luz das tochas. Semíramis. Ele se perguntou o que significaria aquela palavra.
Ficou pensando se passaria os cinco anos seguintes sozinho naquela sala com sua adaga esquisita enquanto as pessoas riam dele.
Com um suspiro, Call largou a arma na mesa de cabeceira, enfiou os pés debaixo dos cobertores e tentou dormir.
Entretanto, levou horas para cair no sono.

13 comentários:

  1. Esse livro e demais, bom para caramba.

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  2. Shippo o Call e o Aaron.

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  3. Só eu que acho que call é uma mistura de percy com nico? Kkkkkkkkk

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  4. Deus do céu, to me segurando pra não dar spoiler!

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  5. Odeio esses capítulos com comida, só pra deixar a gorda aqui com fome. To esperando pra ver esse trio se tornar uma equipe incrível, apesar das diferenças. Me sinto em parte lendo Harry Potter e em parte assistindo Avatar.

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    1. Kkkkkk
      Pensei que tinha sido a única a fazer essa associação

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  6. triste, é totalmente ao contrario de Harry Potter ;-;

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Boa leitura :)